29/03/2008

Carta de Lucia ao Guilherme relatando a morte da Alma

Passados já um ano e dois meses e meio da morte da Alma, resolvi hoje publicar aqui o e.mail que enviei ao nosso amigo Guilherme de Faria, de São Paulo que foi grande amigo da Alma e seu descobridor, lançador, prefaciador e ilustrador, relatando a ele as circunstâncias da morte trágica de minha amada irmã. Este famoso artista plástico e poeta cordelista paulista descobriu a arte e a literatura da minha irmã em Julho de 2001 quando a visitou no ateliê de pintura que ela manteve por quatro anos na região dos Jardins na capital paulista, e merecia ser o primeiro a ser comunicado fora do nosso círculo familiar. Devo dizer que uma versão desta carta eu publiquei em seguida na página da Alma no Recanto das Letras, quando encontrei seu computador ligado e aberto na sua página com a senha salva, e resolvi participar a tragédia aos poetas recantistas, colegas da Alma e supostos amigos seus. Infelizmente minha carta produziu um imenso escândalo e, equivocada e mesquinhamente minha irmã e o Guilherme de Faria foram expulsos daquele site tendo, espantosamente, sido seus cadastros cancelados pelos editores daquele site. Eis aqui o relato que causou aquele imenso tumulto, e indignação:


Guilherme
A tragédia abateu-se sobre a nossa casa. Alma está morta. Minha pobre irmã matou-se por volta do meio dia de hoje. Esperaram-na para o almoço, e como ela não chegava de suas andanças todos começaram a ficar inquietos, pois ela andava esquisita, novamente, nos últimos dias. Rodo, a doutora Jensen, e Matilde, saíram para procurá-la e percorreram os lugares preferidos dela, o quiosque do jardim, o pomar, o bosque, e até a pradaria em torno da casa. Afinal foram até a cascata. Ali, encontraram o seu vestido branco, sobre a alta margem de pedra do poço, ou piscina da cascata. Ali, pode-se ver de cima a superfície cristalina da piscina natural formada pelas águas que caem na cabeceira do poço, único ponto mais tumultuado. Rodo num ponto mais alto avistou o corpo nu muito branco, de minha irmã, a poucos metros do fundo. E mergulhando retirou uma corda que a prendia a uma pesada pedra, pelo pescoço, para que não subisse. Ele a retirou das águas, gritando, gritando seu nome, em desespero. Ele a colocou na margem e tentou fazer uma respiração boca a boca, mas que era mais um beijo trágico, pois ele desmaiou de dor sobre ela. Ao voltar a si, estava como louco, e está assim até agora, num tal sofrimento, que teme-se pela sua vida. Galdério, quase catatônico, de maneira automática e instintiva, paternalmente como costumava fazer quando Alma era pequena ao tirá-la adormecida de sua charrete, pegou seu corpo como estava e veio com ela nua nos seus braços andando pela pradaria em direção ao casarão enquanto a noticia corria, até entrar no salão e depositá-la sobre a grande mesa de jantar. Tudo isso me foi contado por Matilde ao telefone, em meio a um choro convulsivo. Deixei as crianças aos cuidados de Alícia, sem contar a elas o que e estava acontecendo, peguei o carro e dirigi em disparada até a estância. Aqui encontrei minha irmã posta ainda nua sobre a grande mesa da sala. Seu corpo tão branco estava mais lívido ainda, o que fazia com que se parecesse com uma estátua do mais puro mármore de Carrara, tal a beleza que ainda conservava. Tinha somente uma marca circular, avermelhada, ao redor do seu longo pescoço de bailarina. As pessoas da estância, até os peões e suas mulheres já tinham invadido a sala e velavam com enorme reverência seu corpo nu deslumbrante. Nem mesmo a doutora Jensen, arrasada, pediu que a vestissem. Era como se todos sentíssemos que sua nudez era sagrada. Foi então que Matilde suspendeu tal desvario, irrompendo na sala com uma grande toalha de mesa de renda branca na mão, gritando: “Cubram a minha guria, seus ímpios! Afastem-se todos, cubram minha guria!”
Começaram então as velas acesas, as novenas e o pranto coletivo.
Agora o corpo de minha irmãzinha será levado até Santana do Livramento onde será cremado, como ela queria, para que suas cinzas sejam trazidas de volta e espalhadas ao vento, pelos locais da estância que ela mais amava: as flores do jardim, o pomar, o bosque, a campina ao redor do casarão e o vinhedo. Seu amado pampa será sua morada para sempre. Nossa estância, nossa terra nunca mais será a mesma. Não sei sequer se sobreviveremos à perda de nossa Alma amada, que era tão bela por dentro quanto por fora. Jamais haverá alguém como ela. Sentimo-nos perdidos, Guilherme, nosso amigo, que a descobriu e amou aí em São Paulo, e que tudo fez para que tivesse um livro seu publicado, e que tanto parece conhecer a alma e coração precioso de nossa irmã.
O que mais temo agora é a reação de meus filhos e sobrinhos quando souberem do acontecido. Ai! Não sei o que será deles, que a amam tanto!
Reze por nós, meu amigo, pois esta família precisa de orações, pois lágrimas já temos demais!
Lucia

20/01/2007

15/03/2008

425 SONETOS PAMPIANOS DA ALMA


Este blog contém a obra monumental de Alma Welt, os famosos SONETOS PAMPIANOS DA ALMA, que lidos em seqüência relatam a saga da autora em sua estância nos pampas desde a sua infância. Seus sonhos, devaneios, ânsias, relatos, crônicas de sua vida cotidiana, estórias e diálogos pitorescos dos empregados da casa e dos peões, lembranças dos irmãos, pais e avós, seus amores, seus medos e dúvidas, seu entusiasmo comovedor pela vida e pela arte, formam um conjunto grandioso, e um retrato magnífico da vida numa estância gaúcha no extremo sul do Brasil.
Eu, Lucia Welt, irmã da poetisa abri este e outros blogs (clique em visualisar perfil completo) para publicar a imensa obra póstuma ( ao todo mais de 1.000 sonetos, além de contos,crônicas, poemas e romances) desta poetisa renovadora das nossas letras, que já se tornou cult e que mesmo sendo de base essencialmente romântica consegue atualizar e justificar essa corrente em pleno alvorecer do século vinte e um.

A Carruagem (de Alma Welt)

Este é o último soneto da Alma, escrito na véspera de sua morte. A numeração (425) se refere tão somente à série que entitulei Sonetos Pampianos da Alma, de Alma Welt, e que postei aqui como um conjunto, porquanto o número total de sonetos descobertos por mim na Arca de inéditos que minha irmã legou ao mundo já se conta em cerca de dois mil, o que me parece, no mínimo, um recorde mundial... (Lucia Welt)


A carruagem (de Alma Welt)
425

Um piano toca no salão!
Ah! e não fui eu que coloquei
Um CD ou um velho long play,
Talvez seja o Vati, e então...

Ele voltou! Sim, ele me quer!
Vou ao seu encontro e sou mulher!
Sim, ele vai ver agora sou
Pelo menos a guria que sonhou.

Olha, Vati, há muito não me vias,
Mas de verso em verso muito errei
Pelo mundo, a viajante que querias...

E agora, com toda esta bagagem,
Leva-me contigo que eu irei
Quietinha, assim, na carruagem!

19/01/2007

Nota da editora:

Este soneto, o último da vida e da obra da Alma, publicado por ela no Recanto das Letras, tocou muitas pessoas que vinham acompanhando a série pampiana, publicados um ou mais por dia, em tempo real. Os leitores talvez sentiram que se tratava de uma despedida, mas não conscientizaram, pois as leituras registradas desse soneto só dispararam quando coloquei na página de minha irmã (por encontrá-la com a senha salva no seu computador) o anúncio de sua morte, com detalhes, o que indignou a muitos, e peço desculpas. A partir do momento da publicação do anúncio fúnebre, as leituras deste soneto foram rapidamente para mais de 300 registradas nos cinco dias seguintes,enquanto o total das leituras dos textos da Alma subiram mais 2.000 atingindo a marca de 14.000 e tantas, o que mostra a curiosidade válida, ou mórbida, não julgo, que as últimas palavras de um(a) grande poeta causam nos seus pares ou mesmo no público em geral. (Lucia Welt)

Cai o Pano (de Alma Welt)
424

Suspeito que após a minha morte
Poucos serão os que acreditem
Que esta Alma viveu a sua sorte
Entre eles, por mais que aqui me fitem

Nestes versos que refletem minha luz
E a beleza que foi a companheira
Dos meus pensamentos, e a maneira
De viver a própria saga que compus.

Vida e Arte em mim associadas!
Sobre as minhas fontes e a trilha
Que tracei nas pradarias onduladas

A cortina final já vem descendo
Como o poente rubro na coxilha
Que morro a mirar, assim, morrendo...

16/01/2007

Sobreviveremos (de Alma Welt)

423

Sobreviveremos, Rodo, meu amor
E o Tempo não há de sepultar-nos
Junto com os corpos sem calor,
Que nisso não há como poupar-nos.

Mas na memória viva sempiterna
Dos abraços e beijos que trocamos
E a ventura que se queria eterna
No hálito que ávidos sugamos

Um do outro, como brisa destes prados
Que para nós foram mesmo Paraíso
De juras e carinhos, que trocados

Eram como o chimarrão no inverno,
Que nada era mais justo, mais preciso,
E a nós não caberia escuro Averno...


15/01/2007



Post Mortem (de Alma Welt)
422

Peregrina a vagar nas pradarias
Eu me tornei a Alma do meu Pampa
E os gaúchos em suas montarias,
Reverentes vêm até a minha campa

E apeando depositam um raminho
De flores do meu campo em primavera,
Ou dos seus amargos um saquinho
Antes de seguirem pra Rivera

Onde o prado encontra os castelhanos
Que outrora ferozes combatemos
E que agora na verdade tanto amamos

E temos como símbolos do humilde
(pelo menos os fiéis que recolhemos),
Corações como o Galdério e a Matilde.


(sem data)

Nota
Encontrei recentemente na Arca da Alma este soneto esotérico em que a Poetisa parece falar no seu "Post Mortem", isto é, falando do além. Comoveu-me ela lembrar desta maneira os nossos queridos Galdério e Matilde, que são uruguaios de nascimento e trabalham conosco aqui na estância desde 1970. Mostrei o soneto para eles, e Matilde, que foi babá da Alma, caiu em prantos, enquanto Galdério disfarçava as lágrimas.(Lucia Welt)



A lição do guarani (de Alma Welt)
421

Permanecer fiel à vida e aceitar
O destino segundo se afigura
É tarefa principal da criatura
Nascida pra servir e para amar.

Eis a lição profunda que aprendi
Não de antigos mestres do oriente
Mas de um simples velho guarani
Que por aqui parou humildemente

Contratado de meu pai como peão
E que na charla durante o anoitecer
Limitava-se a sorver o chimarrão,

Em silêncio no meio das risadas.
Um só desejo seu, foi ao morrer:
Posto a mirar estrelas tão amadas...


(sem data)



Aos forasteiros (de Alma Welt)
420

Na Santa Gertrudes, velha estância,
Antes "Farroupilha" assim chamada,
Quando o forasteiro sem ganância
Chegar, deslumbrado, pela estrada,

Avistará o vetusto casarão
No outeiro de outrora tantos ais
E que muito resistiu a um canhão
Impiedoso nas mãos imperiais,

Logo um jardim, flores e graças,
Entre as quais me incluo sem pudores,
Biscoito fino inatingível pelas massas.*

Depois, adentrando a grande sala
Vê o retrato de um maestro sem tambores*
E diante do Steinway que agora cala...

08/09/2006



Notas
Ah! Um soneto humorístico, inédito, da Alma, que acabei de descobrir, encantada...

*...biscoito fino inatingível pelas massas- Irônica paráfrase da famosa frase de Oswald de Andrade: "A massa um dia comerá o biscoito fino que eu fabrico".

*Retrato de um maestro sem tambores- Inusitada maneira non-sense de referir-se ao nosso pai, o Vati (Werner Friedrich Welt) músico erudito e grande pianista, falecido.
(Lucia Welt)



Chorem fontes (de Alma Welt)
419


Chorem fontes, liberem seus soluços,
Deste dia não verei o entardecer!
Quem como eu e sem rebuços
Soube cantar a vida e então morrer?

Venha, ó vento, estale o casarão!
Galdério, sele a égua, ou melhor, não!
Montarei em pelo eu também nua
Que tanto assim vaguei à luz da lua.

Quero correr o prado assim, aos gritos,
Para a alegre passarada me saudar
(ainda que ouça da Matilde novos pitos)

Em seguida irei ao poço da cascata
Para nuinha meu mergulho praticar
Como outrora, com meu Rodo, por bravata...


17/01/2007

O Último Verão (de Alma Welt)
418


Este é o verão da despedida,
Eu sei, e dói-me tanto, tanto!
Ao deitar ouvi o último acalanto
Da Matilde, a mim, já tão crescida,

E os sonhos que sonhei, quase pungentes
Com sinais de adeuses e viagens,
O trenzinho de fumaça e suas mensagens
De partidas e névoas iminentes...

Oh! Vento, meu comboio de estação,
Não posso o casarão abandonar,
A vinha e o vinhedo em solidão

A esperar mais uma dança do lagar
Desta Alma em branco riso temporão
Com a saia arrepanhada, a patear...


10/01/2007



O cavalo de fogo (de Alma Welt)
417

Por aqui o cavalo vai sem meta
Todo em chamas a vagar na pradaria
E me lembro do outro, o do poeta
Lima que seu livro incrível lia.

E hesitamos, eu, Rodo e Galdério
Em segui-lo à distância pela noite
Pois seu rastro deixado como açoite
É como aquela luz de cemitério,

De santelmo, como dizem marinheiros
E o gaucho que se esvai em pleno pampa
O avista nos momentos derradeiros

Quando segurando o ventre rubro,
E da coxilha a galgar última rampa
Segue o íncubo cavalo que descubro...

(sem data)



A figueira (de Alma Welt)

416

Plantei uma figueira no pomar
Que vejo lentamente erguer seu porte,
Mas não sei se a verei frutificar
Embora na verdade não importe

Pois o mesmo acontece com o verso
Que lanço no papel ou nessa rede
Como pólen de poesia, que disperso
Vai dar aos corações e sua sede.

Todavia não verei a passarada
Como essas figueiras já frondosas,
De que venero a sombra projetada.

Mas sei que os frutos esparzidos
Deitam raízes nos solos escolhidos,
Não desabrocham logo como as rosas.

09/10/2006



Inverno (de Alma Welt)
415

Quando no meu pampa finde o inverno
E as flores despontarem no jardim
Como se seu brilho fora eterno
E a vida canção cálida e sem fim,

Eu me lembrarei destes momentos
De um calor interno de lareira,
E mais ainda do nosso andar aos ventos
Carregando cuias, bombas e chaleira,

Montados nos queridos alazões
Envoltos nos nossos grossos palas,
Com meus poemas, cismas e razões

De quem somos, por quê aqui estamos,
Enquanto com os dedos tu me calas
E apontas o caminho que trilhamos...

(sem data)


Dias tristes (de Alma Welt)
414


Dias tristes do meu pampa, "dias tristes
Como sentir-se viver” disse o poeta,*
Quando abandonávamos os chistes
E tentávamos deixar a vida quieta

E quase hibernados concentrando
Os nossos sentimentos e amores
Na espera paciente de esplendores
Que nos aguardariam triunfando.

E em silêncio vagava com meu Rodo
Embrulhados nos palas, mateando,
Evitando sendas calvas e seu lodo.

E então se nos pegava o minuano
Eu, aninhada em meu irmão, e tiritando,
Poderia assim viver por todo um ano...


(sem data)


Nota
* ... "dias tristes como sentir-se viver"- citação de um verso de um poema de Álvaro de Campos (Fernando Pessoa).




Zen (de Alma Welt)
413


Para poder conhecer e revelar
A linguagem das coisas, tão cifrada,
É preciso ter a mágica mirada,
Aquela do pintor ao retratar

O tema, o ser humano ou objeto,
Que o mesmo amor sem sentimento
Ou sentimentalismo, o que é mais certo,
É preciso para tal empreendimento.

O olho preciso é o que é preciso
E a mente vazia de conceito
Para captar o mais conciso

Que nasce da forma em traço ágil
E é a fala das coisas, seu proveito,
Quando tudo se calou, e é tão frágil...

(sem data

Nota
Acabo de encontrar este notável soneto na Arca da Alma, e pensei primeiramente em postá-lo no blog dos Sonetos Metafísicos da Alma, que à primeira vista me pareceu ser seu lugar, mas logo me lembrei que o Zen, corrente do budismo, não deve ser confundido com o conceito ocidental de Metafísica. (Lucia Welt)




Pássaros migrantes (de Alma Welt)

412


Pássaros migrantes do meu sonho!
Eu os avisto a voar em formação
A caminho do Norte e sua canção
Que conheço só do que disponho

De livros e poemas nas estantes
Desde que era a guria tão curiosa
Projetando vagar mundos distantes
Talvez como escritora já famosa...

Me alce, ó bando, e leve com você
Nesse vôo lindo em esquadrilha
Com formato sugestivo de um “V”

Do qual não almejo a liderança,
E humilde seguirei à maravilha
O sonho de que a Alma não se cansa...

(sem data)



Canção de guarani (de Alma Welt)
411

Entre os nossos peões havia aqui
O Solano olhado assim de esguelha
Pelos outros por ser um guarani
E bem mais calado que uma telha.

Também não se encaixava no telhado
E não por trabalhar errado ou menos,
Mas por suposto olhar de mau-olhado
Ou sua importância de somenos.

Então experimentei me aproximar
Para talvez lhe dar outro destaque,
Uma amizade buscando semear,

Semente que Solano em solidão
Levou, fugindo só com o almanaque
Em que eu lhe dedicara uma canção...

(sem data)


O embuçado (de Alma Welt)
410

Galdério, ó Galdo, o que é aquilo
Que vimos embuçado pela estrada
Quando íamos a passo bem tranqüilo
E então me vi sobressaltada?

“Alma, patroinha, não é nada,
Aquele não é senão Judas Leproso,
E a sineta de som pouco lamentoso
Ele agita pra afastar a peonada,

Que de longe lhe deixa o de comer
Pois dinheiro não lhe querem pôr na mão,
Que outros não iriam receber...

E a pobre alma penada é intocável,
E morrerá sem que jamais nenhum peão
Le mire a face morta e deplorável.”

(sem data)


Notas
Acabo de descobrir este notável soneto na arca e embora percebendo-lhe o nítido teor simbolista, impressionada fui perguntar ao Galdério se esse episódio realmente acontecera, se ele se lembrava disso... Galdério confirmou dizendo: "Patroa, si Alma lo ha escrito, es verdad."
Jamais saberei definir os limites entre realidade e invenção no mundo da Alma...

Le mire- escrito assim mesmo, como falam os peões por aqui.
(Lucia Welt)


O haragano e o minuano (de Alma Welt)
409

O haragano é uma força deste prado,
Irrupção vital e alegre vento
Como fora verão, sem o tormento
Do nosso minuano, o outro lado

Do pampa quando mostra seu semblante,
Gélida, implacável e feia cara...
É então que ess’ outra face nos prepara
Para o longo inverno, duro amante.

E então acolhemos o monarca
E não o usurpador, embora feio,
Com nossos grossos palas e o mateio.

Mas, bah! quando ao açoite a nave geme,
No salão deste sobrado e minha arca
Lanço versos qual se ainda houvesse leme.


09/04/2004

O Edital (de Alma Welt)
408

Manhãs do meu sonho, esfuziantes,
Que me faziam descer o corrimão
Deslizando como outrora os infantes
Que habitaram este vetusto casarão

Naquela ânsia de viver e de voar
Pelo nosso jardim e pradaria
Ou sob a macieira do pomar
Cujo pomo a passarada me anuncia!

Gloriosas e radiantes minhas manhãs
Em que por sentir-me tão vital
Fazer quisera, igualmente, um Edital

Anunciando os frutos da Poesia
Que honrei, malgrado as horas vãs,
E “o tempo que perdi em ninharia”...

05/09/2006


Nota

Acabo de encontrar este belo soneto, verdadeira "profissão de fé" de poeta, na Arca da Alma. Notem que "...o tempo que perdi em ninharia" é uma citação na íntegra de um verso do primeiro terceto do soneto de Benvenuto Cellini (célebre ourives e escultor da Renascença Italiana) que serve de epígrafe ou prólogo para a sua famosa autobiografia. O soneto termina com estes versos:
" ...benvindo (Benevenuto) fui
Na graça desta terra da Toscana!"



Coração infame (de Alma Welt)
407

Às vezes me surpreende estar no mundo
Com minhas circunstâncias tão propícias
À poesia, à música e ao profundo
Senso de beleza, e das delícias

De ser a filha amada de meu Vati
E de Rodo meu irmão e da irmã Lúcia
Embora haja o contraponto da angústia
Que por certo é o que faz de mim um vate.

Mas pra tornar-me forte e não passiva
Tive a honra de fazer uma inimiga,
A irmã Sol* cujo ódio dói e instiga

A manter-me a mente alta e compassiva
Pra não tornar-me o branco cisne*, presa
Do infame coração, triste princesa...


(sem data)

Notas

...irmã Sol- nossa irmã mais velha, Solange, falecida, que tendo ciúmes e inveja da Alma a perseguiu e atormentou a vida inteira, mas que nos momentos finais, nos braços da Alma, pediu-lhe perdão. Este episódio trágico e comovente está descrito no romance autobiográfico da Alma, a ser publicado em breve em livro.

Tornar-me o branco cisne
- presumo que se trata de uma alusão à reencarnação do poeta Orfeu no corpo de um cisne, citada no Mito de Er, de Platão, na "República", ou na tranformação de Odette em um cisne branco, pelo feiticeiro (aqui o seu próprio coração, que por licença poética ela chama de "infame") no ballet O Lago dos Cisnes de Tchaycowski (Lucia Welt)



A quermesse (de Alma Welt)
406

Eu gostava da quermesse na cidade
E há pouco descobri a razão disso,
Ali há uma pequena sociedade,
Arremedo do mundo a seu serviço:

Sortes, jogo, comércio e pescaria
Além os tiros, desafios e os aportes,
Um jovem descobrindo uma guria,
Os olhares, suspiros e transportes,

E, bah! Os sonhos que não morrem,
Os anseios numa eterna romaria
Do coração que busca sua poesia

Em que lança suas raízes para o fundo
E se agarra enquanto as horas correm,
O carrossel girando como o mundo...


28/10/2006


O dia e a noite (de Alma Welt)
405

Os últimos albores na planície
Costumam me levar à compreensão
Súbita e fugaz da imensidão
Contra o humano limite e superfície.

Eu sei, o sol é Deus e é visível,
Olho severo mas sensível e amoroso
Que doura o nosso mundo compreensível
Pra mergulhar depois no duvidoso.

E assim, o que o sol nos esclarece
O sono desmente ou desvirtua
E temos que rever o que parece.

Agora em suas sombras e estigmas
A noite das estrelas e da lua
Nos convida ao sonho dos enigmas...


(sem data)



Memórias farroupilhas (de Alma Welt)

404

Pelas trilhas em volta do sobrado
Que se eleva sobranceiro na planície,
A fachada como a face de um barbado,
Com sua decantada esquisitice,

Recoberta pela hera e não grisalha
Conquanto mais vetusta que a do Vati,
E que sobe a parede até a calha
Com sua textura cor de mate,

Eu perambulo nos dias e nas noites
Procurando senhas e vestígios
Dos antigos farrapos e prodígios

Que me são anunciados por murmúrios,
Gemidos de cilícios, seus açoites,
Os vôos da memória e seus augúrios...

17/11/2006



Os Tempos e os Ventos (de Alma Welt)
403

Inolvidáveis tardes do meu prado
Quando em silhueta e uma aura
O adeus deste poente agraciado
O rubro dos cabelos me restaura

E junto ao grande umbu frondoso
No alto da colina em pleno pampa
Me vejo tal qual aquela estampa
Do vento que levou o nosso gozo

E então retorno e subo ao casarão
Que anoitecido desperta suas memórias
Como os guris a descer o corrimão

De seus jovens sonhos revividos
De outros poentes e outras glórias
De tempos e ventos esquecidos...

(sem data)


Largo al Factotum * (de Alma Welt)
402

Galdério, factotum desta estância,
Filho dileto da banda oriental*
Do Pampa e de sua circunstância*
Com sua fala um tanto gutural

Tem como uma espécie de mistério
O nome que, entre nós, ele detesta
Por ser ele confundido com gaudério*
Embora não ostente em sua testa

Pois é gaucho do trabalho como poucos
E apesar do desrespeito inicial
Impôs-se com rigor e brados roucos

Pois, irmão mais esperto da Matilde,
Tornou-se o paladino de um graal*:
Alma viva, nem Rosina, nem Brunhilde...*

(sem data)

Notas

Acabo de encontrar este curioso soneto inédito na Arca da Alma, que faz uma homenagem ao nosso administrador, charreteiro, motorista, emfim, o "faz-tudo" aqui da nossa estância desde que éramos piás, e sua irmã, a nossa querida Matilde, nossa babá.

* Largo al Factotum- título da famosíssima ária da ópera O Barbeiro de Sevilha, de Gioacchino Rossini. A expressão significa : "Abram alas ao Faz-tudo"

*banda oriental- o Uruguay

*Pampa e sua circunstância- Trocadilho com a famosa Pompa e Circunstância , obra orquestral solene de Edward Elgar

*gaudério- expressão gauchesca que designa um tipo sem eira nem beira, fanfarrão, vagabundo e jogador de truco. Às vezes os gaúchos assim se referem jocosamente uns aos outros. Nosso administrador e fiel amigo Galdério não gosta de ter seu nome (com l) assim confundido por galhofa.

* gaucho- assim, sem acento é como o próprio Galdério, que é uruguaio, se auto-designa e aos otros peões. Pronuncia-se "gáltcho".

* paladino de um graal- A fidelidade e dedicação do Galdério à nossa Alma o tornaram um verdadeiro "chevalier-servant", ou cavaleiro andante da sua amada "patroinha" que é para ele um graal, isto é, sagrada...

* Alma viva, nem Rosina nem, Brunhilde... - curioso verso que alude ao personagem do conde Almaviva, que é apaixonado por Rosina no O Barbeiro de Sevilha e adota o nome de Lindauro para se apresentar ao tutor dela, Bartolo, que a mantém prisioneira e quer casar-se ele próprio com a sua tutelada, por dinheiro. Com a ajuda de Fígaro, o barbeiro "faz-tudo" que aí se torna alcoviteiro, o conde Almaviva conseguirá no final casar-se com sua amada. Quanto à Brunhilde, essa é personagem do Anel dos Nibelungos, a grande saga germânica da ópera de Richard Wagner. Alma quis dizer que ela não está nem para a heroína burlesca de Rossini, nem para a solene walkíria Brunhilde de um Wagner da ascendência germânica dos Welt, mas mais para uma "Alma viva", ela mesma, poetisa-heroína do nosso pampa. (Lucia Welt)


Ao irmão (de Alma Welt)

401

Estarei sempre por aqui, ó meu irmão,
Quando voltares do jogo e das andanças,
Esgotado pelas guerras do mundão
E precisares do colo e das lembranças

De nossa juventude e doce infância
Que não podes levar pr’aquela mesa
Já que tens que deixar aqui na estância
Toda candura, sonhos e pureza.

Eu estarei aqui, se mais não possa
Resguardar-te de ti mesmo, ó leviano
Ator de nova trupe e de outro pano.

Pois aqui jogo e teatro eram poesia
E o perigo a enfrentar, somente a coça
E a vara de marmelo na coxia.

09/05/2006


Nota

Acabei de encontrar, esta manhã, este soneto que descobri ser inédito (nunca publicado) e que percebo pertencer à serie dos Pampianos da Alma. Então acrescentei-o àquele ciclo específico no blog Vida e Obra de Alma Welt, como n° 398, elevando para 401 a série até agora. A Carruagem permanece como o último, mesmo, da vida da grande Poetisa do Pampa. (Lucia Welt

Plantei um poema em meu jardim (Alma Welt)
400

Plantei um poema em meu jardim,
Mais secreto e apto a dar flores
E que oculto permanece quieto assim
No tempo em que se agitam os amores.

Enquanto a juventude canta e geme
Lançando sua semente aos quatro ventos,
As minúsculas embarcações sem leme
Que vão dar às praias e tormentos,

Esta semente do poema da velhice
Lança suas raízes bem mais fundo
Antes de alcançar a superfície.

Pois meu poema sábio e despojado
Ainda não nasceu e é tão calado
Que talvez nem seja deste mundo.


05/10/2006


Nota
Acabo de encontrar este soneto na Arca da Alma, e que me parece uma obra-prima.
Este soneto parece ter nacido já como um "clássico" e contém as características fundamentais da poesia da grande Musa: o lirismo e nostalgia inconfundíveis da Alma, sempre mesclados de uma fina ironia, sugerida por sutis paradoxos. ( Lucia Welt)


Esplêndidas manhãs (de Alma Welt)
399


Esplêndidas manhãs me esperavam
Grande parte do ano aqui na estância
E me lembro das da gloriosa infância
Em que estar viva e amar me exaltavam

A ponto de gritar em correrias
De brisas e andorinhas em milícias
Com rasantes e estridentes arrelias
Pelos prados de vôos e carícias!

Mas a Vinha herdada dos avós
Somada à memória farroupilha
Era por certo um peso para nós...

E eu voltava então com muitas flores
Pra seduzir a casarão como uma filha
E em segredo ofertar aos meus amores...

07/11/2006



Ao irmão (de Alma Welt)
398


Estarei sempre por aqui, ó meu irmão,
Quando voltares do jogo e das andanças,
Esgotado pelas guerras do mundão
E precisares do colo e das lembranças

De nossa juventude e doce infância
Que não podes levar pr’aquela mesa
Já que tens que deixar aqui na estância
Toda candura, sonhos e pureza.

Eu estarei aqui, se mais não possa
Resguardar-te de ti mesmo, ó leviano
Ator de nova trupe e de outro pano.

Pois aqui jogo e teatro eram poesia
E o perigo a enfrentar, somente a coça
E a vara de marmelo na coxia.

09/12/2006





A abantesma (de Alma Welt)
397

No riacho que produz minha cascata
Costumo vadear erguendo a saia,
Ou “vadiar”, diz Matilde caricata
A frisar minha brancura que desmaia.

Ou então, ela diz, "faz desmaiar",
Pois pudica que é, quer alertar-me
Ou prevenir que o povo vai acreditar
Qu’é d’uma abantesma este meu charme.

Mas estou mais inclinada ao nu total
E há muito que com Rodo ou sozinha
Sou eu a alva ninfa em meu quintal.

E o povo a lenda ama e perpetua:
“Visagem” sou da branca patroinha,
Que muito hei de vagar à luz da lua...

08/06/2005



Ofélia (de Alma Welt)
396

Hoje o dia amanheceu enevoado
Evocando antigas brumas de Avalon,
Mas levanto e capricho no penteado
Em bandós e nem um toque de baton.

E com uma saia longa e meu chale
Me vejo um tanto mais vitoriana
A vagar numa charneca ou num vale
Como Tess, e muito menos pampiana.

Então, triste e encarnada no papel
Vou até o soturno lago meio opaco
E me inclino sobre águas como um véu

Que me nega as luzes que preciso
Para mirar meu rosto ainda que fraco
E mais para uma Ofélia que Narciso...

10/01/2007

Nota
Acabo de encontrar na Arca da Alma este soneto triste, que, como muitos outros contém uma velada premonição de seu destino, isto é, de sua morte afogada nesse lago, como uma Ofélia, tão anunciada, e que entretanto não podíamos prevenir ou deter... (Lucia Welt)



A corredeira (de Alma Welt)

395

Ultimamente vivo mais acelerada
E tenho um sentimento de urgência
Que não tinha enquanto era mimada
Qual Infanta, princesa ou excelência,

Guria branca de cabelo quase rubro,
Ouro velho, melhor dito, e como seda,
A vagar no jardim e na alameda
Florida como fora sempre outubro

Pois então a primavera era perene
E as horas fluíam sobre um rio
Como um barco feliz de pouco leme

E eu não pressentia como agora
A corredeira que me lança em desvario
Numa ânsia entre ficar e ir embora...

8/10/2006

Nota
Este soneto recém-descoberto revela, como tantos outros, o pressentimento de minha irmã de sua morte próxima, que a revoltava e abismava, ao mesmo tempo. (Lucia Welt)



Esta noite me sento à lua cheia (de Alma Welt)

395

Esta noite me sento à lua cheia
Orgulhosa a matear entre os peões
Ouvindo as estórias de peleia
E os chistes, as risadas e as canções

Que correm em nossas veias aquecidas
Pelo mate e o prazer de pertencer
A estas pradarias esquecidas
Pela História que ficou a nos dever

Desde que firmou-se espúrio acordo
Com os imperiais que derrotamos
Segundo conta agora o mano Rodo

Entre gargalhadas e altos brados
Que saúdam os bravos pampianos
Que fomos e ainda somos nestes prados.

(sem data)

Nota
Acabo de encontrar este soneto que pertence à veia "gauchesca" da Alma. A Poetisa realmente adorava essas vigílias de bivaque, com a chaleira a chiar sobre a fogueira, entre os peões mateando o chimarrão, acompanhada ou não de Rodo. (Lucia Welt)



As vozes do Tempo (de Alma Welt)
394

Levanto-me ao ouvir os sons da noite
Que aos outros parecem inaudíveis,
Não de grilos e sapos, sons tangíveis
Do Tempo, onde quer que ele se amoite

Pois de dia se evaporam e exalam
Sob o azul que quer só o presente
Ao vento das campinas onde calam
Os talos do capim que se ressente.

E como os que estiveram deste lado
Eu me vejo desde uma outra infância
Auscultando os sussurros do passado

E a verter das noites para os dias
As vozes gravadas à distância
No silêncio destas velhas pradarias...

(24/05/2006)



A preceptora (de Alma Welt)

392

Minha mãe contratou preceptora
Para botar cabresto em sua guria
Que desembesta por aí c’uma pletora
De velhos deuses e numes à porfia,

Pelo prado, o lago e o vinhedo,
Pelo pomar e o poço mágico vetado,
Pelo bosque que guarda o meu segredo,
Pelas palhas do galpão abandonado.

“Senhorita, põe um freio nesta prenda
E ensina-lhe a conter os seus impulsos,
A comportar-se como o livro recomenda.”

“O resto, o francês e os algarismos
Podem vir se a prenderes pelos pulsos,
Contendo seu vulcão, sonhos e sismos.”

(sem data)



A preceptora II (de Alma Welt)

391

A mim, a Mutti sem saber presenteou
C’uma austera professora inusitada
Que assim que me viu se abrandou
De modo que me pôs emocionada.

O semblante, antes duro, amoleceu,
O olhar a destilar um certo mel,
E a tocar minhas mãos e o rosto meu
Como a afastar um fino véu.

E logo, ai de nós! apaixonadas,
Transformamos as aulas na mansarda
Num doce Kama-Sutra de vanguarda.

Eis o teatro de emoções mui delicadas,
Em que a mestra abrandava o coração
E o corpo, ao deslizar de minha mão...

(sem data)


Nota
Para os leitores que quiserem conhecer melhor este episódio real da adolescência da Alma recomendo a leitura do belo conto "A Preceptora", no blog Contos da Alma. (Lucia Welt)



Minhas vidas paralelas (de Alma Welt)

390

Sobre a folha branca de papel
Tenho minhas horas renovadas,
Passadas a limpo sob um céu
Escolhido em azul ou trovoadas.

Eis aqui o meu mundo paralelo
Não menos real que minha prosa
Ao gerir o casarão como um castelo
Onde reino e sou toda poderosa.

Bah! Pois se é esse o meu destino,
Perdoem-me descrentes e aflitos,
Meus versos e o sangue com que assino.

Pois assim se na vida rio e choro,
Esta folha vai renovar-me os ritos:
Nova vida, riso, dor, que não deploro.

09/12/2006



A Era romântica (de Alma Welt)

389

Eu já estive nesta casa, eu o sinto.
Sentava-me à mesa como agora,
Os convivas se enchiam de absinto
E tardavam muito a ir embora.

Mas me lembro de um que era sóbrio
E notando meu desgosto e desalento
Para evitar-me algum opróbrio
Me convidava a passearmos ao relento.

E eu já então chegada ao verso
Declamava para ele minha poesia,
Concentrando seu olhar nada disperso.

“Abandonei os bebedores comezinhos”
-ele com olhos marejados me dizia-
“E me embriago agora de outros vinhos...”

08/03/1990

Nota
Alma quando estudou na Alemanha, foi à França e visitou parentes na Alsácia-Lorena, terra de nossa avó Frida, e disse ter sentido a sensação de já ter estado na vetusta casa onde aquela nasceu e morou até a juventude. Então escreveu este soneto que expressa essas sensações, que ela considerou reminiscências de uma sua encarnação na “era romântica”. Resta saber quem foi esse interlocutor...
(Lucia Welt)



De eras, heras e medos (de Alma Welt)

"...Où sont les neiges d'antan?"
(Balada das Damas dos Tempos Idos-
(François Villon)


388

As vetustas paredes desta casa
Guardam sonhos da farroupilha era,
Também medo tardio que extravasa
E se alastra agora como a hera

A recobrir daninha esta fachada
Tornando-a mais sombria que vital
E nada hospitaleira à convidada
Que eu trouxe da longínqua capital

E que de noite acorda e se me agarra
A debater-se qual barca em sua amarra
Na torrente dos suspiros e das mágoas

Das prendas que qual "neves d’antanho"
Ora permitem degelar as suas águas
Pois que então o heroísmo era tamanho...

2004



A ânfora em vermelho (de Alma Welt)

(ou Auto-biografia breve)
387

Eu sinto que estou perto da vida
Quando observo o mundo e sua lida
A partir deste reduto aonde vim
Viver desde que me dei por mim,

Guria entre piás, e deslumbrada,
Chegada da pequena Novo Hamburgo
Onde após me ver parida numa estrada
Meu pai fora viver qual demiurgo.

E aqui fui, neste vetusto casarão
Educada para ser o seu orgulho
E não a simples filha do patrão,

Mas aquela que seria o seu espelho,
E como grega ânfora em vermelho
Compensar do passado o mero entulho.

(sem data)

Nota
...grega ânfora em vermelho- Alma (que era ruiva) se refere àquele tipo característico de cerâmica ática (da antiga Grécia) que tem como característica as figuras pintadas somente em vermelho (ficando assim chamadas pelos arqueólogos, colecionadores e museus), das quais constam tantas obras-primas, e que quando encontradas numa escavação compensam toneladas de entulho, ou simples terra e pedras inúteis. (Lucia Welt)



Álbum de memórias (de Alma Welt)
386


Meu álbum fotográfico do Pampa!
Bah! Como narram minha história
As fotos em que o rosto meu se estampa
Fundidas co’as que guardo na memória!

Ali me vejo pequena e cacheada,
Com estranho vestido até os pés,
De antiga gola branca e rendada
E co’aquele olharzinho de viés.

Depois, donzela branca e sensível
A colher flor no jardim ou na campina,
A Infanta que a si mesma se imagina.

Depois ainda, a pintora-poetisa
Pincel na mão e a paleta indefectível
Muito melhor que o quadro, e mais precisa...

(sem data)


O Iceberg (de Alma Welt)
385

Deus criou o mundo inconsciente
Onde somos todos Anima e magia.
A razão é um universo penitente,
Diminuto, limitado, dia a dia.

Mas na base imensa do iceberg,
Que riqueza, que cosmos, que amplidão,
No sonho que a alma ainda persegue
Ao despertar pela manhã em solidão!

Como, pois, duvidar do dom divino
Se a própria divindade compartilha
O poder, o mito e a alegoria

No sono do velho e do menino?
E desta Alma desperta em sua ilha
A sonhar um oceano de alegria...

15/12/2006


Fênix (de Alma Welt)
384

Toda a experiência acumulada
Foi vã diante da força do momento
De emoção pungente e desatada
Produzida por antigo sentimento

Que voltou a mim como um pampeiro
Quando confrontei meu próprio amor
Ao vê-lo adentrar o meu terreiro
Vindo em minha direção... o predador!

E então, ó santa ingenuidade!
Um rubor me sobe, ó inocência!
E o tremor substitui toda a saudade.

E como uma donzela de outra era
Voltei a sonhar a tal quimera
Do primeiro amor em sua demência...

(sem data)


O pêndulo parado (de Alma Welt)
383

Vou-me daqui, Rôdo, por ora.
Não posso mais, não passarei na prova,
Nosso pai amado foi-se embora,
Eu mesma o vi descer àquela cova.

Tudo por aqui clama ou ilude,
Meu coração tropeça em sua sombra,
Ouço ainda seus passos sobre a alfombra
Que deveria guardá-los em quietude.

Mas os livros, mudos, o piano...
E o relógio da sala é só silêncio,
Os ponteiros no vão doze romano,

Imóveis congelados no momento,
O pêndulo inerte, ponte pênsil
Sobre o nada eterno e seu tormento...

(sem data(1999?)



Sonho e projeção (de Alma Welt)
382

Nas noites da estância há muito brilho,
Quero dizer, outro brilho que não meu,
Como o comboio da lua no seu trilho,
A viagem que meu pai me prometeu.

Sim, quando guria no seu colo,
Ele me apontando a Branca Via,
Turnê brilhante de uma carreira solo,
Que assim no seu sonho ele me via...

Mas de cabelos soltos, muito branca,
Ladeada por ele e pelo irmão
Eu sonhava que ali cavalgaria.

E era essa a imagem pura e franca
Que eu fazia dele mesmo em projeção
Pois meu mundo era pleno, e eu sabia...

(sem data)


Manhãs (de Alma Welt)
381

Belas manhãs, esplêndidas manhãs
Quando após um breve chimarrão,
A geléia e o queijo sobre o pão,
Eu corria para o prado e seus afãs.

E abrindo meus braços para o céu
Azul de doer de tão perfeito,
Eu experimentava vir do peito
Das andorinhas o mágico escarcéu.

E no calor girava até cair
De tontura, emoção e euforia
Por estar viva e tanto isso sentir.

Mas eis que a sombra começava a vir,
Não do umbu a fronde que alivia,
Mas do afoito coração que entardecia.

(sem data)

Nota
Acabo de encontrar este belo soneto inédito na Arca da Alma, que no entanto denuncia já o trantorno bipolar, doença que a acometeria nos últimos anos e que pode ter sido a causa da morte da grande poetisa. (Lucia Welt)


Arcádicas vigílias (de Alma Welt)

380

Espectros arcaicos desta estância!
Nas noites das vigílias gauchescas
Eu os vejo em torno desde a infância
A rodar e a dançar chulas grotescas.

Mas eu os saúdo e a eles brindo
Com o vinho dos avós para aplacá-los
Ou mesmo seduzi-los, e até rindo
Quando estão a exibir imensos falos.

E em noites de luar desmesurado
Vago com eles alva e seminua
Pela relva grisalha do meu prado.

E se da prenda xucra e sem dono
Em malícia o povo o mito perpetua,
Em arcádicas orgias me abandono...


(sem data)



A Noite do Maestro (de Alma Welt)
379

Noite perplexa, pálida e demente
A se estender da casa à pradaria
Desde o coração da minha gente
Concentrada no salão e escadaria,

Todos à roda do corpo tão presente
A que só eu via a grande espada
Entre as mãos no peito e repousada
Longitudinal e reluzente...

O maestro jazia inanimado
Mas a música de seus dedos se ouvia
A tocar num gravador ultrapassado,

Parecendo vir de longe, muito longe,
D’uma idade recheada de magia
Onde fora grão-senhor, guerreiro e monge...


03/01/2001

Nota
Acabo de encontrar este soneto na arca da Alma, que junto à serie dos "Delirantes", embora seja bem claro e descritivo do velório do Vati (papai) que para os novos leitores esclareço que também era chamado de Maestro pelos peões e alguns de nós, pois era um grande pianista embora fosse médico (só exerceu a medicina na juventude). (Lucia Welt)



O gaucho triste (de Alma Welt)
378

Vinha o gaucho ereto em sua sela,
Montado no vento e sem cavalo.
A noite carecia de uma vela
Que a lua era negra e sem um halo.

“Vai-te”, disse eu, “por quem me tomas?”
“Sou a prenda fiel de pai e irmão,
E não deixarei que escuras formas
Venham entrever meu coração!”

E o gaucho espectral continuava
Ali, com a face branca e triste,
E o zum de seu silêncio se arrastava.

Longos bigodes, chapéu de barbicacho,
No seu punho uma lâmina em riste,
A outra mão a conter o rubro facho...

05/02/2004



Sob a figueira (de Alma Welt)
377

Sob a figueira em sonho estava ela,
A branca peregrina de uma noite,
Sentada de viés em sua sela
Os olhos a pedir que não me afoite.

E eu me aproximei arrepanhando
Minha longa saia de cetim
Com meus pés inseguros caminhando
Numa espécie sedosa de capim

Dourado, como a bruma que luzia
E envolvia tudo em doce flama
Que por si apaziguava e seduzia.

E eu ouvi a voz que se me canta,
E o coração, ao recordar, ainda inflama:
"Virás comigo em breve, Alma, Infanta."



A Cavalhada (de Alma Welt)
376

A cavalhada vem durante o sono
E passa por mim em sobressalto,
Que desperto então em pleno Outono
Com as folhas varridas para o alto.

E corro, bah! eu corro desde então
Das minhas horas em fluxo contrário
Que buscam varrer-me para o chão
Com seu vento forte e arbitrário,

O Minuano, sim, que se diz dono,
E me quer não como às folhas, mas mulher,
Eu que prefiro os cavalos do meu sono

Que brancos como ondas me seduzem
E no abismal galope me conduzem
Aos páramos profundos do meu ser...

10/03/2005



Noites abrasadas (de Alma Welt)
375

Noites abrasadas, tão freqüentes
De minha grande dor transfigurada,
Quando o vão clamor pelos ausentes
Deixava o meu rastro pela escada.

Madrugadas doridas entre os galos
E os latidos longínquos na estrada;
Os minutos escorrendo pelos ralos,
Dedos e passos percorrendo o nada.

Depois o som há muito ausente do piano
Negro e mudo, a vir do tétrico Steinway
Que o mestre dedilhava e tanto amei,

Agora que só tons graves se ouvem
Tangidos pelo intruso Minuano
Como arremedo surdo de um Beethoven...

06/01/2007


Nota
Acabo de descobrir um novo tesouro na Arca da Alma: um grosso maço de papel contendo sonetos manuscritos que pelo seu timbre e conteúdo resolvi entitular "Sonetos Delirantes da Alma".
A grande poetisa cultivava também uma vertente obscura e misteriosa, por vezes assustadora, na sua imaginação tão rica de mundos e timbres.
À medida que os for compilando e digitando, irei publicando numerados. Talvez tome a liberdade de entitulá-los, para efeito de melhor divulgação no Google, pois Alma não fez, nem sequer os numerou.
(Lucia Welt)


O espírito do vinho (de Alma Welt)
374

O ser que vive em nossa adega
Vela o eterno sonho desse ninho,
Brinca de deixar a alma cega
E nomeia-se “o espírito do vinho”.

Eu sei, ele mesmo me tomou
E me fez aos quinze desnudar-me,
Tateando quando a luz aqui faltou
Para ir ao sótão e entregar-me.

Depois de cada festa pampiana,
Lá estava sussurrando do meu lado,
Instando-me a correr esse perigo:

Eu tinha que passar pelo inimigo,
O sono leve da matrona Açoriana,
Para em risos colar no irmão amado...

(sem data)


Natura e Divindade (de Alma Welt)
373

O segredo de crescer é admirar
O imenso dom da vida e o mistério
Do extremo afã de se perpetuar
Que vemos desde cima ao andar térreo,

Ali mesmo, no âmbito invisível
Dos seres que constroem a fina teia
À qual o ser humano é remissível,
E que é a própria base da “cadeia”.

Foi esse o pensamento de cientista
Que o Vati legou-me como herança
Dizendo ser o seu mesmo, de artista:

Se a Natura tem tal complexidade
Redundando em espetáculo e pujança,
A Beleza é o embrião da Divindade...

08/03/2005

Nota

Encantou-me encontrar agora há pouco na Arca da Alma, este belo soneto desconhecido e inédito, de tom filosófico e científico ratificando a visão de artista que Alma diz ter herdado de nosso pai (o Vati= papai, em alemão) que era médico e pianista ao mesmo tempo. (Lucia Welt)



Amores meus! (de Alma Welt)
372

Amores meus, mitos sagrados,
Ícones de minh’alma agradecida,
Quão grata sou aos meus amados
Por se deixarem ser em minha vida!

Aquele inaugurou meu próprio ser
Debaixo da Árvore da Inocência,
A que escolhi, na aurora, pertencer,
Malgrado dúbio fruto e consciência;

Outro, tão ardente e de meu sexo,
Que colada a mim me duplicava,
Pois que ainda sinto o seu amplexo...

E outro e mais outro, como açoites,
Rubras flechas tiradas de uma aljava
E lançadas de mim nas minhas noites...

16/01/2007



As palavras vivem (de Alma Welt)
371

As palavras vivem e me constroem,
Sou filha delas, mito e criação;
Afinal menos letra e mais canção
Já não sei se me nutrem ou se doem...

Pintei o meu mundo com meus versos
Desde o nascimento numa estrada
Até os vãos momentos adversos
Em que tive minha candura violada.

Mas quanto vi crescer este meu Pampa
Interior, como o reflexo do espelho
De um cenário real e não de estampa:

Esta casa, seu jardim e meu pomar,
O vinhedo entre o roxo e o vermelho
Do sangue desta terra em meu lagar!

15/01/2007



O ninho da Salamandra (de Alma Welt)
370

Iremos lá, àquele Cerro, meu irmão,
Como fomos juntos às Missões,
Sete Povos, lembra? num verão,
Quando a lenda nos tocou os corações.

Mas ao Jarau iremos delirantes
E assim encontraremos o caminho
E chegaremos à sala dos diamantes
Onde a Salamandra fez seu ninho.

E seguiremos, eu sei, e não malditos
Pois não somos movidos por ganância,
Mas pela graça de nossa leda infância.

Quanto ao ouro e o poder, estes gigantes
Não nos poderão deixar aflitos,
Que o tesouro vive em nós e vem de antes.


14/10/2006
Missões- Alma se refere aos Sete Povos das Missões, conjunto de ruinas grandiosas das "reduções" jesuítas no Pampa riograndense, que Alma e Rodo visitaram algumas vezes, à primeira vez ainda guris, com o nosso Vati.

* (Cerro do) Jarau- Alma se refere à lenda gaúcha da Salamanca do Jarau, de origem popular anônima pampiana, mas consagrada na versão do escritor gaúcho Simões Lopez Netto em 1913. Note-se que há versões em que a palavra Salamanca (da princesa moura que vem dessa terra de Espanha) se torna Salamandra, o elemental do fogo, que na lenda é chamada de Teiniaguá. (Lucia Welt)



Original, sem pecado (de Alma Welt)
369

Meu pai criou-me sem pecado,
Refiro-me ao meu Vati e ao conceito
Que dotou o ser humano de um defeito
No nascedouro e com certificado,

Sim, o batismo, que faltou-me
E que eu não devia carregar,
E pra isso da charrete retirou-me
Quando a Mutti ia ao padre me levar.

Mas ao longo desta minha jornada
Por Jesus me confesso fascinada,
Ao menos por seu dom de compaixão.

Quanto ao resto, credito não ao Cristo
Mas ao Gênesis, com seu pobre Adão
Que não merecia tudo isto...


Páscoa de 2006


Nota
Soneto nitidamente humorístico, que acabo de encontrar na arca da Alma, e oportuno pois escrito na páscoa de 2006. Apesar do humorismo e suave ironia, nele Alma ressalva a mensagem fundamental de Cristo, esta indiscutível: a compaixão. Alma quis dizer que Cristo não expulsaria o homem do Paraíso terrestre.
(Lucia Welt)



A cidade e o rio (de Alma Welt)
368

Na cidade fui um dia questionada:
“O que fazes pelo povo?” alguém provoca:
“Estás encolhida em tua toca
E tens a vista para ti mesma voltada”.

E eu que não sou nada de polêmica
E nem por defesa ando armada,
Por momento quedei desconcertada
E quase me senti um tanto anêmica.

Então me subiu rubor e brios,
Dizendo: “sou somente servidora,
Centrada em mim mesma como os rios

Para os que ali vivem às margens,
Pois que broto de uma vã fonte canora
Que dá frutos, colheitas e pastagens.”

12/07/2006



O Promontório e a Ilha (de Alma Welt)
367


Eu levantava muito cedo ainda guria
E tateava para ir ao escritório
Fuçar no que meu pai lia e relia,
Livros sobre a mesa, em promontório.

Eu achava que esta honra lhe devia,
Formando erudição muito precoce
Pois se perguntasse o que eu sentia,
Saberia responder fosse o que fosse.

E tentava acompanhar suas pesquisas
Descobrindo um universo colossal
Como um mar a bater sobre banquisas.

Mas um dia, questionada, afinal,
Senti que o promontório virou ilha:
“Vai ao sol, estás pálida, minha filha.”

06/05/2005


O Labirinto do Minuano (de Alma Welt)
366

Encontrei a passagem numa estante
Da fiel biblioteca e nosso gozo
Aqui no casarão, que num instante
Afigurou-se um labirinto perigoso.

Esta noite irei me aventurar
Pelo dúbio corredor mas instigante,
Não deixando todavia de me atar
À ponta de um novelo de barbante,

Mas temo que a passagem, por secreta,
Levará a imponderável metaplano
Que por certo nunca foi a minha meta,

E no centro do sulino labirinto
Estará o minotauro: o Minuano
Que, sim, me levará, eu bem o sinto.

03/11/2006


Nota
*Minuano- Nome do vento típico e famoso das planícies do Pampa. Este vento frio e veloz se insinua sibilante pelas frestas das portas e janelas fazendo cair de súbito a temperatura, enregelando e assustando as pessoas. Alma tinha grande temor e reverência por este vento, que quando soprava a deixava fora de si, histérica. Ela chamava o minuano de "rei Mino "e aterrorizada gritava que ele vinha buscá-la. Apavorada, assisti algumas vezes minha irmã perder o controle e debater-se no chão em convulsões quando soprava este vento terrível. Garanto que minha irmã não era epilética, mas sim hipersensível. (Lucia Welt)
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Quinta-feira, 9 de Abril de 2009
Gato na cama (de Alma Welt)





Gato na cama (de Alma Welt)
365


Sobre a colcha colorida do meu leito
Deixo o gato subir e aproveitar
Ronronando e oferecendo o preito
Ao aconchego que acabo de deixar

Desse caos macio e retalhado
Que é o próprio universo goghiano
Que num relance vejo ali plasmado
Antes de sair pra um outro plano:

O de minha pradaria tão eqüestre
Não como as de Arles ou de Flandres
Onde outrora viveu o ruivo mestre

Que não me consta ter tido o seu gatinho,
Que a ele faltou, como a "noigandres"*
O sentido que perdeu-se no caminho...

18/05/2005

Notas
Deste curioso e notável soneto que encontrei recentemente na Arca da Alma, o mestre Guilherme de Faria pintou uma verdadeira ilustração a meu pedido, o maravilhoso quadro acima reproduzido, a que ele deu, naturalmente, o mesmo título do soneto da Alma : "Gato na Cama". A pintura de Guilherme sugere sutil e remotamente o quadro da cama no quarto de Van Gogh, que o próprio soneto da Alma parece evocar .

*noigandres- Palavra enigmática encontrada no último verso de um poema do poeta provençal (da Idade Média) Arnault Daniel ("...y olor de noigandres"). Ezra Pound, grande poeta e filólogo, numa entrevista a Haroldo de Campos, em Rapallo, na Itália, no fim de sua vida, comenta que jamais pode encontrar o significado dessa palavra, que se perdeu no tempo. Os irmãos Campos e Décio Pignatari, então, na década de 50 fundaram a revista literária Noigandres, porta-voz do movimento concretista na poesia paulistana.(Lucia Welt)

Pretenciosamente, pois não sou filóloga, arrisco por minha conta a seguinte interpretação da palavra noigandres baseada no fato de ela vir precedida no verso de A. Daniel da palavra olor (perfume). Poderia ser uma erva ou uma flor odorífera... Mas tentando analisá-la etimologicamente, eu diria que
noig é a raiz da palavra nóz (semente)
e andres deriva do grego andros = viril
portanto a palavra noigandres quereria dizer: semente viril= esperma

Entretanto me desconcerta o fato de não ter encontrado em parte alguma um raciocínio daqueles poetas ou de qualquer outro no sentido do que arrisquei aqui. Eles permaneceram até o fim de suas vidas cultuando essa palavra como um enígma insolúvel ou uma espécie de mistério etimológico.
Eu adoraria ter conversado pessoalmente com eles sobre isso (quanta pretensão!...) mas, sendo da geração do meu pai, já faleceram, ou me são inacessíveis.


Tanscrevo aqui a "transcriação" de Augusto de Campos para o poema em idioma provençal Noigandres , de Arnaut Daniel:

Er vei vermeils, vertz, blaus, blancs, gruocs
Vergiers, plans, plais, tertres e vaus;
Ei' l votz del auselz sona e tint
Ab doutz acort maitin e tart.
So'm met en cor qu'ieu colore mon chan
D'un aital flor don lo fruitz sia amors
E jois lo grans, e l'olors de noigandres.


Vejo vermelhos, verdes, blaus,brancos, cobaltos
Vergéis, plainos, planaltos, montes, vales;
A voz dos passarinhos voa e soa
Em doces notas, manhãs, tarde, noite.
Então todo o meu ser quer que eu colora o canto
De uma flor cujo fruto é só de amor,
O grão só de alegria e o olor de noigandres *

* O grão só de alegria e o olor livre de tédio

Pela nota que Augusto de Campos colocou sob o poema, percebe-se se que o tradutor atribuiu a noig o significado de tédio, talvez por abrandamento do g em a produzindo a palavra noia (tédio, em italiano ainda hoje)mas mais certamente porque partiu da expressão do francês "L'enoi gandir ( francês arcaico enoi que transformou-se no moderno l'ennui,o tédio) gandir" (achando gandres derivada do francês gandir (proteger). Mas confesso que prefiro a minha tradução que tem mais a ver com o sentido do poema, da "flor cujo fruto é só de amor", e seria própria da malícia ou erotismo típicos desse autor provençal. (Lucia Welt)




O canto da colina (de Alma Welt)
364

É domingo e eu preparo a ida
À colina levar flores aos finados,
Ao meu Vati, ao boche e avó Frida
E o melhor dos destinos malfadados:

Minha pobre e triste irmã Solange
Que depois de uma vida equivocada,
No momento final, o do alfanje,
Cresceu, perdoou, foi perdoada.*

E agora está com eles na colina
Gozando a paz, a luz, a brisa fria
E aquele bem-te-vi que tanto trina

Como a dizer que os viu e aprovou,
Bem os quis, como alguém que os queria
E por amá-los viveu e tanto errou...

12/01/2007

Nota
*... cresceu, perdoou...-Para o leitor entender o significado deste verso, ou do soneto inteiro, recomendo que leia o romance A Herança, que, nas últimas páginas descreve os momentos finais de nossa irmã Solange nos braços da Alma, a quem até então hostilizara e tratara como inimiga. Elas se perdoaram mutuamente naquele derradeiro minuto.(Lucia Welt)



Álbum de memórias (de Alma Welt)

363

Meu álbum fotográfico do Pampa!
Bah! Como narram minha história
As fotos em que o rosto meu se estampa
Fundidas co’as que guardo na memória!

Ali me vejo pequena e cacheada,
Com estranho vestido até os pés,
De antiga gola branca e rendada
E co’aquele olharzinho de viés.

Depois, donzela branca e sensível
A colher flor no jardim ou na campina,
A Infanta que a si mesma se imagina.

Depois ainda, a pintora-poetisa
Pincel na mão e a paleta indefectível
Melhor ali que o quadro, e mais precisa...

(sem data)



Amores meus! (de Alma Welt)

362

Amores meus, mitos sagrados,
Ícones de minh’alma agradecida,
Quão grata sou aos meus amados
Por se deixarem ser em minha vida!

Aquele inaugurou meu próprio ser
Debaixo da Árvore da Inocência
A que escolhi na aurora pertencer,
Malgrado dúbio fruto e consciência;

Outro, tão ardente e de meu sexo,
Que colada a mim me duplicava,
Pois que ainda sinto o seu amplexo...

E outro e mais outro, como açoites,
Rubras flechas tiradas de uma aljava
E lançadas de mim nas minhas noites...

16/01/2007



As palavras vivem (de Alma Welt)

361

As palavras vivem, me constroem,
Sou filha delas, mito e criação;
Afinal menos letra e mais canção
Já não sei se me nutrem ou se doem...

Pintei o meu mundo com meus versos
Desde o nascimento numa estrada,
Até os vãos momentos adversos
Em que tive minha candura violada.

Mas quanto vi crescer este meu Pampa
Interior, como o reflexo do espelho
De um cenário real e não de estampa:

Esta casa, seu jardim e meu pomar,
O vinhedo entre o roxo e o vermelho
Do sangue desta terra em meu lagar!

15/01/2007



O ninho da Salamandra (de Alma Welt)

360

Iremos lá, àquele Cerro, meu irmão,
Como fomos juntos às Missões,
Sete Povos, lembra? num verão,
Quando a lenda nos tocou os corações.

Mas ao Jarau iremos delirantes
E assim encontraremos o caminho
E chegaremos à sala dos diamantes
Onde a Salamandra fez seu ninho.

E seguiremos, eu sei, e não malditos
Pois não somos movidos por ganância,
Mas pela graça de nossa leda infância.

Quanto ao ouro e o poder, estes gigantes
Não mais nos poderão deixar aflitos,
Que o tesouro vive em nós e vem de antes.

14/10/2006


Original, sem pecado (de Alma Welt)

359

Meu pai criou-me sem pecado,
Refiro-me ao meu Vati e ao conceito
Que dotou o ser humano de um defeito
No nascedouro e com certificado,

Sim, o batismo, que faltou-me
E que eu não devia carregar,
E pra isso da charrete retirou-me
Quando a Mutti ia ao padre me levar.

Mas ao longo desta minha jornada
Por Jesus me confesso fascinada,
Ao menos por seu dom de compaixão.

Quanto ao resto, credito não ao Cristo
Mas ao Gênesis, com seu pobre Adão
Que não merecia tudo isto...


Páscoa de 2006


Nota
Soneto nitidamente humorístico, que acabo de encontrar na arca da Alma, e oportuno pois escrito na páscoa de 2006. Apesar do humorismo e suave ironia, nele Alma ressalva a mensagem fundamental de Cristo, esta indiscutível: a compaixão. Alma quis dizer que Cristo não expulsaria o homem do Paraíso terrestre.
(Lucia Welt)

A cidade e o rio (de Alma Welt)

358

Na cidade fui um dia questionada:
“O que fazes pelo povo?” alguém provoca:
“Estás encolhida em tua toca
E tens a vista para ti mesma voltada”.

E eu que não sou mesmo de polêmica
E nem por defesa ando armada,
Por momento quedei desconcertada
E quase me senti um tanto anêmica.

Então me subiu rubor e brios,
Dizendo: “sou somente servidora,
Centrada em mim mesma como os rios

Para os que ali vivem às margens,
Pois que broto de uma vã fonte canora
Que dá frutos, colheitas e pastagens.”

12/07/2006



O Promontório e a Ilha (de Alma Welt)

357

Eu levantava muito cedo ainda guria
E tateava para ir ao escritório
Fuçar no que meu pai lia e relia,
Livros sobre a mesa, em promontório.

Eu achava que este esforço lhe devia,
Formando erudição muito precoce
Pois se perguntasse o que eu sentia,
Saberia responder fosse o que fosse.

E tentava acompanhar suas pesquisas
Descobrindo um universo colossal
Como um mar a bater sobre banquisas.

Mas um dia, questionada, afinal,
Senti que o promontório virou ilha:
“Vai ao sol, estás pálida, minha filha.”

06/05/2005



O Labirinto do Minuano (de Alma Welt)

356

Encontrei a passagem numa estante
Da fiel biblioteca e nosso gozo
Aqui no casarão, que num instante
Afigurou-se um labirinto perigoso.

Esta noite irei me aventurar
Pelo dúbio corredor mas instigante,
Não deixando todavia de me atar
À ponta de um novelo de barbante,

Mas temo que a passagem, por secreta,
Levará a imponderável metaplano
Que por certo nunca foi a minha meta,

E no centro do sulino labirinto
Estará o minotauro: o Minuano
Que, sim, me levará, eu bem o sinto.

03/11/2006


Nota
*Minuano- Nome do vento típico e famoso das planícies do Pampa. Este vento frio e veloz se insinua sibilante pelas frestas das portas e janelas fazendo cair de súbito a temperatura, enregelando e assustando as pessoas. Alma tinha grande temor por este vento, que quando soprava a deixava fora de si, histérica. Ela chamava o minuano de "rei Mino "e aterrorizada gritava que ele vinha buscá-la. Apavorada, assisti algumas vezes minha irmã perder o controle e debater-se no chão em convulsões quando soprava este vento terrível. Garanto que minha irmã não era epilética, mas sim hipersensível. (Lucia Welt)



O canto da colina (de Alma Welt)

355

É domingo e eu preparo a ida
À colina levar flores aos finados,
Ao meu Vati, ao boche e avó Frida
E o melhor dos destinos malfadados:

Minha pobre e triste irmã Solange
Que depois de uma vida equivocada,
No momento final, o do alfanje,
Cresceu, perdoou, foi perdoada.

E agora está com eles na colina
Gozando a paz, a luz, a brisa fria
E aquele bem-te-vi que tanto trina

Como a dizer que os viu e aprovou,
Bem os quis, como alguém que os queria
E por amá-los viveu e tanto errou...

12/01/2007



Amo colher flores (de Alma Welt)
354

Amo muito colher flores nestes prados
Já tangidos pela aragem da manhã,
E cercada por volteios e agrados
Das abelhas e os zumbidos feito imã

Como disse o canoro Djavan
Do som dos besouros e seu ouro
Em torno à brancura tão louçã
De minha própria carne e pêlo louro,

Em sossego também entre as ervinhas
Que me fazem, bah! lembrar-te, “linda Inês”
E “o nome que no peito escrito tinhas”,

Eu que não passo, cercada de mensagens
E poemas do antigo amor cortês,
De uma prenda a vagar entre pastagens...

08/06/2006


Nota
Como este soneto é de tema recorrente na obra da Alma, por curiosidade republico aqui o n°58:


As mulheres que colhem flores (de Alma Welt)

(58)

Quanto tenho estado a colher flores
Neste jardim amado desde a infância!
Aqui eu dediquei aos meus amores
Os melhores instantes de constância.

A mulher que colhe flores permanece
No tempo e nas retinas de alguém.
É imagem que a todos enternece
E é ícone e símbolo também.

Quando não houver quem as colher
No pé que as formou sem as tolher
As flores morrerão envelhecidas:

Foram belas, ali, por algum tempo,
Mas não produziram o momento
Do sorriso e das mãos agradecidas...

24/12/2006




Perdidas ilusões (de Alma Welt)
353

Sonhos meus, perdidas ilusões!
Como diziam as que me precederam,
Tolas donzelas, as que excederam
As regras, como eu, com os varões.

Quebrei contratos, talvez, e mesmo a cara,
Como dizem agora, e com razão.
Recolho-me ao meu sexo, mais avara,
Que não provoco mais nenhum machão.

Traumatizada? Sim. Eu me confesso.
Fui invadida mesmo, sem mercê,
Mas à mercê de fato de um possesso.

Trago ventre e traseiro doloridos,
A retaguarda mais, como se vê
Pelo mau passo e sorriso, tão sofridos...

14/10/2004

Nota
Acabo de encontrar na arca este singular soneto, que pela data corresponde ao período logo após a chegada de volta ao nosso casarão, depois de sofrer o estupro (inclusive anal!) por parte do namorado de Aline, que invadiu o ateliê-apartamento de São Paulo quando Alma se encontrava sozinha encaixotando os livros para retornar com Aline à estância. Alma tinha se tornado amante de sua modelo que abandonara o namorado de mais de um ano, por ela, a pintora e poetisa que a contratara e por quem se apaixonara ( episódio que consta no romance autobiográfico inédito A Herança, de Alma Welt).
Resolvi publicar aqui, e não nos “Eróticos” simplesmente, este patético e estranho soneto revelador, de humor auto-crítico e ligeiramente amargo, pois pretendo me manter fiel ao voto de respeitar o seu desejo de revelar tudo, de tudo narrar, sem nenhuma auto-censura, a extraordinária e por vezes sofrida trajetória anímica e existencial que fez dela uma das mais extraordinárias autoras confessionais da literatura universal, ao meu ver e já no de muitos leitores. (Lucia Welt )


Voltem meus amores (de Alma Welt)
352

Voltem, oh! voltem meus amores,
Que aqui os espero em meu tugúrio!
Agora o meu amor e seus humores
Devem menos a Eros que a Mercúrio,

O esperto deus ligeiro das mensagens
Dos amantes, dos deuses e ladrões,
E tanto aos vãos amores temporões
Como àqueles precoces e selvagens.

Saibam que os espero em concílio,
Todos à roda do perdido coração,
Que acabo de voltar do meu exílio...

Estou de volta à terra do meu ser:
Aqui posso amar sem exclusão,
Abraçá-los todos juntos e... morrer.

05/07/2004

Nota
Este belo soneto já revela o pressentimento da Alma de que o ciclo de sua vida se fechava e que não viveria muito mais. Ela queria reunir poeticamente todos os seus amores e paixões, reconciliando-se com todos, inclusive com os que duraram tão pouco. Alma conseguiu expressar algo difícil como este concílio simbólico dos amores de toda uma vida num abraço final, carinhoso, redentor... ( Lucia Welt)


Meus navios (de Alma Welt)
351

Meu destino, estou mais que convencida,
É deixar minha passagem bem gravada
Em sonetos e também na própria vida
Que me cerca, a paisagem e a peonada.

Assim, sei que estarei perpetuando
Não a mim, mas o quê, o como, o quando
Desta casa, do jardim, do meu pomar,
Destas trilhas singradas como um mar.

E assim, quando acaso recordarem
Esta Alma, vã guria serelepe,
Reverão uma saga, se me amarem,

Que carreei por aqui um belo dia,
Como aqueles do audaz e bom Giuseppe,
Os navios da minha própria fantasia...

29/12/2006


Nota
Acabo de descobrir mais este soneto inédito, na arca da Alma. Nele podemos ver como ela encarava seu destino, não só literário, mas como vida imaginária... no imaginário de futuros leitores. Alma acreditava como poucos na vida do espírito, como o verdadeiro próposito da existência: nós somos mais duradouros, ou reviveremos... na mente dos outros. (Lucia Welt)

*como aqueles do audaz e bom Giuseppe- Alma se refere ao episódio histórico da Revolução Farroupilha, dos dois navios que Giuseppe Garibaldi e seus homens arrastaram em carretas puxadas por bois, através das pradarias por 104 kms, até o oceano para entrarem em batalha contra os "imperiais".


O que é a Verdade? (de Alma Welt)
350

“...a Verdade é a Beleza, a Beleza é a Verdade,
isto é tudo o que há para saber.”
(John Keats, em Ode a uma urna grega)



Olhar a vida, o mundo e o de dentro
É a prerrogativa do poeta
Mas simultaneamente, como esteta,
Pois que a Beleza está no centro

De tudo, pois que ela é a Verdade,
Como escreveu Keats no poema
Da urna grega, que logo virou lema
E responde à pergunta sem idade

Que Pilatos teria formulado
Num momento ao Cristo aprisionado,
Deixando-nos, a muitos, sem ação

Pois o Mestre calou-se sabiamente
Legando aos poetas a missão
De reconstruí-la lentamente...

(sem data)

Nota
Vale lembrar aqui a confirmação desse conceito metafísico da Verdade, que Alma adotava, nas palavras célebres de outro grande poeta-filósofo, mas do Romantismo Alemão, Novalis:

"A Poesia é o autêntico real absoluto. Quanto mais poético, mais verdadeiro".


Muito além das minhas rosas (de Alma Welt)
349

Aninhada no quarto entre paredes
Vetustas e entretanto carinhosas,
Mesmo assim percebo minhas sedes,
A ânsia de ir além das minhas rosas,

De ganhar a pradaria e o mundo...
Mas que sei eu do mundo? Eis a verdade,
Se vejo esta planície como fundo
Ou fundamento da própria eternidade!

E então uma inquietude geradora
De poemas e cantos me agoniza,
E talvez por isso mesmo salvadora,

Liberta-me do ninho e do aconchego
E posso ver o mundo sem ter visa,
Posso fazer voar o meu apego.

(sem data)


De viagens e úteros (Alma Welt)
348

Devo deixar meu Pampa e esta estância
Por longa temporada, em viagem,
E dói-me como abandonar a infância
Ou arrancar raiz, não só ramagem.

É sempre um desterro, um auto-exílio
Contra o qual me revolto e me debato
Não tanto contra a dor, mas contra o fato
De ser eu a própria lágrima em meu cílio

Que, frágil, trêmula, demoro
Para correr, descer, ganhar o mundo
Para o mundo saber que também choro.

E, bah! então voltar (falso pudor)
E recolher-me ao útero profundo
De onde nasço e renasço sem mais dor.

(18/02/1999)

Nota
Acabo de encontrar este soneto inédito da Alma em sua Arca e reconheço nele o momento que precedeu sua partida para São Paulo, num "auto-exílio", como ela se expressou, por imensa angústia logo após a morte do nosso Vati. Alma permaneceria quatro anos naquela metrópole, estabelecida num ateliê como pintora, onde conheceria Guilherme de Faria, que a descobriria como poetisa e a lançaria, conseguindo uma editora para publicar seu livro Contos da Alma (em 2004) (Lucia Welt)


O vinho e o Graal (de Alma Welt)
347

Percorrendo em vigia meu vinhedo
Tive linda visão e inusitada:
Um cacho isolado qual segredo
Pois que sua cor era dourada.

"Um cacho de ouro!"- exclamei.
"Galdério! Vem ver o que encontrei!
Vê se é uma praga, anomalia
Que possa destruir toda a valia

Da safra e também do nosso esforço!
É dente de pirata ou belo corso?
Deixo contigo juízo e decisão."

“Alma”- respondeu sábio o peão-
“Então não vês que o ouro é o sinal
De que temos o vinho e o Graal?”

(sem data)

Nota
Acabo de encontrar este curioso e encantador soneto, de acentuado pendor simbolista. E me lembrei de que na época, eu morando em Alegrete, ouvi comentários sobre o espantoso cacho dourado no meio do vinhedo, que se tornou uma das lendas da Alma e de nossa estância. (Lucia Welt)


A Árvore dos Sonhos (de Alma Welt)
346

As coisas que amamos nos dão paz
E levam-nos de volta às raízes
Do ser, ou dos seres tão felizes
Que fomos quando éramos piás.

Ali, ante a árvore dos sonhos
Antes do escândalo e do susto
Quando vida e mundo eram risonhos
E ainda não sabíamos o custo,

Prosternei-me um dia sem rancor
E sem mais a memória de horror
De quando tive a inocência violada

Debaixo dessa velha macieira
Que permanece pura e intocada
E a me ensinar a ser dessa maneira.

08/12/2006


A ribalta (de Alma Welt)
345

Sou feliz, meus leitores, reconheço,
Pois amo e sou amada, nada falta.
Em torno a mim, a teia que não teço:
A platéia calorosa, eu na ribalta.

Atenta aos meus versos de guria,
(pois que piá ainda já me ouviam)
Que somente ventos fortes impediam
Declamar meus versos... que mania!

E assim se me tornou essencial,
Que como respirar eu necessito
Escrever o meu soneto matinal,

Outros tantos depois durante o dia,
Sonetos que, esses sim, tecem o mito
Que me fiz em honra mesma da Poesia!

(sem data)

Nota
Este curioso soneto que acabo de descobrir na arca e de identificar como inédito, contém ao meu ver a chave para o entendimento de como a Alma via o seu fazer poético quase compulsivo: ela tinha consciência de viver através de sua própria poesia, que foi, realmente, erigindo-a em mito vivo, "tecido" soneto por soneto. (Lucia Welt)


Onde vivem os deuses (de Alma Welt)

344

E eu cantaria o amor que me coubera
Ao nascer de novo nestes pagos
Isolados do mundo, noutra era,
Onde vivem os deuses e os magos.

Aqui me apaixonei por meu irmão,
Que como Eros piá vivia alado,
Sem dar-nos conta da cruel proibição,
Pois somente guiados pelo Fado.

Eis que num certo dia, aziago,
Fomos flagrados ao pé da minha Ara
Num lance que faria grande estrago

Não fora em nós a reverência e a fé
Nos nossos velhos deuses, coisa rara,
Que nos salvou o amor e... a alma até.

(sem data)


Nota
Acabo de encontrar na arca este soneto de tema recorrente, onde Alma atribui à sua fé nos deuses a preservação da pureza de seu amor proibido, legitimado por ela em termos poéticos e estéticos, senão históricos e sociais, durante toda a sua vida. (Lucia Welt)


O navio na pradaria (de Alma Welt)
343

Eu canto o amor em sua constância
Nascido ainda guria nesta Alma
E que se acha inscrito em minha palma
Assim como as sendas desta estância

Que demarcam o embate farroupilha
Entre os rubros lenços e o quepe
Ou aquele amor de maravilha
Entre a bela Anita e o Giuseppe.

Assim, creio, meu amor tem o aval
Da força e do sangue pelas trilhas
De um estranho e pitoresco show naval

Quando o bravo Garibaldi carreou
Seu navio por entre ondas de coxilhas
Como carrego o amor que me tomou...

(sem data)

Nota
Acabo de encontrar na arca este soneto verdadeiramente épico, em que Alma compara o seu amor proibido (por Rodo, seu irmão) com a saga do navio de Garibaldi, arrastado pelos farroupilhas pela pradarias, passando por esta estância em que, um dia, muito depois, viveria a famíla Welt e uma grande poetisa que confundiria o seu amor com o passado glorioso destas terras. (Lucia Welt)


O Dia e a Noite (de Alma Welt)
342

Na infinita pradaria dos meus sonhos
Coruscante de orvalho e pirilampos
Com esparsos umbus por sobre os campos
Como sóbrias silhuetas, tão tristonhos

No sono reverente da Natura
Que espera o amanhã pra renascer
Em explosão de sons e de verdura
Com toda a passarada a agradecer,

Fiz da vida meu dia e meu poema,
Que da noite faria meu momento
De reflexão do Grande Tema...

Pois estou viva e jazo no elemento
Meu, que me foi dado pelos deuses
Que neste Sul demoram seus adeuses.

14/01/2007


Nota
Encontrei esta manhã na arca do sótão este soneto que confirma o panteísmo da Alma. A grande Poetisa convivia com os deuses antigos do Olimpo e do Walhalla, neste Sul, onde ela acreditava que vieram se refugiar e hesitavam em abandonar a Mãe Natura, "demorando-se" em infinitos adeuses, renovados todas as noites.(Lucia Welt)



Soneto e ruptura (Alma Welt)
341

Lançar um soneto no papel
É como “deitar sortes à ventura”*
Na expressão antiga do cordel
Que incorre numa certa ruptura.

Sim, pois que há o antes e o após
Do soneto último e durável
Por fração do gozo e do inefável
Desfrute produzido assim a sós.

Serei eu o que fui antes do verso
Que me transfigurou o pensamento
Fechando ciclo agora controverso?

Lançada em novo impulso para o mundo
Sou doravante o fruto do momento
Que ofertou não sua face, mas o fundo...

(sem data)


Nota

Neste soneto recém-descoberto na arca da Alma, e de implicação metafísica, Alma expressa a modificação (ou renovação) que o poeta sente durante e mesmo após a criação de um novo poema. Ela quer dizer que o momento da criação não pode ser avaliado em sua superfície, e que a Poesia revela esse "momento" (a instantaneidade do presente) em sua profundidade iniciática que só os poetas inspirados costumam perceber.

"...deitam sortes à ventura"- Essa expressão lusa arcaica, que pode ser entendida como um jogo qualquer de tirar a sorte para escolher alguém, é citada do poema narrativo português, precursor do cordel brasileiro, "Romance da Nau Catarineta", que no Sul ganhou melodia e era cantado no "fandango" até o final do século XIX.
(Lucia Welt)


Onde andarão? (de Alma Welt)
340

Por onde andarão os meus amigos
Que construíram comigo aquela teia
De pequenos prazeres e perigos
Que a memória viva ainda permeia?

Por onde andarão, estabanados,
Aqueles que passaram dos limites
E que foram entretanto perdoados
Para prosseguirmos sempre quites?

E aqueles mais amados, que varavam
A fronteira sutil da intimidade
E vinham em mim plantar o que amavam?

Estão em mim, eu sei, que ainda acalento
O profundo olhar e o momento
Supremo do abraço... e da saudade!

(sem data)

Nota
Emocionada acabo de encontrar este belíssimo soneto na arca da Alma, que constatei completamente inédito. Pena a Alma não ter datado, mas presumo que pertence ao últimos meses da grande poetisa, quando ela já se achava nostálgica e como que se despedindo do seu rico mundo, que ela tanto amava... (Lucia Welt)


Soneto da Quarta-feira (de Alma Welt)
339

Não direi que a vida é quarta-feira
De cinzas, muito menos Carnaval.
Contudo a mornidão não é o normal,
E o prazer tem muito pouco de rameira.

A alegria, sim, e até momentos
De euforia plena, desvairada,
São próprios da alma aventurada
Que busca atenuar os vãos tormentos.

Aqui nesta amplidão da natureza
Vivi a minha vida neste Pampa,
Com muitas alegrias, com certeza.

E ouso dizer que a vida é bela
Não como um clarão antes da campa,
Mas com a singeleza de uma vela.


(Fevereiro de 2004)


Adeus Pampa (de Alma Welt)
338

Pampa amado de minha juventude,
Da guria que fui e ainda sou!
Dói-me demais saber que não mais pude
Prorrogar os prazos que me dou.

Devo partir, eu sei, chegou o fim,
O Grande Gáltcho recusou a apelação,
A última que fiz, não só por mim
Mas por meu amor e meu irmão.

Por Lucia, Matilde e o bom Galdério,
Pelos guris no jardim do casarão,
E o bosque que me foi um refrigério.

Ah! A biblioteca imensa e amada
Também sala do "piano do patrão",
E, ai! Rodo, nossa alcova na mansarda...

18/01/2007

A Arca (de Alma Welt)
337

Aventureira fui em minha vida
E estive no limite, nos extremos.
Quantas vezes me julguei até perdida,
Vagando por lugares muito ermos

Da alma, onde poucos se arriscaram,
E a sentir o quanto é perigoso
Chegar onde os maiores habitaram,
Seus longínquos páramos de gozo!

É hora de fazer meu testamento
Implícito nos versos derradeiros
E legar o cabedal do pensamento:

Deixar meu tesouro nesta arca
Que veio dar a mim desde Petrarca,
Ouro d’alma em sonetos verdadeiros...*

17/01/2007

Notas
Acabo de encontrar na arca da Alma este "testamento" que constatei ser inédito, nunca publicado pela Poetisa em nenhum portal. Por ele percebemos que ela considerava a sua arca como o resultado de uma vida de aventuras anímicas (a alma como uma espécie de transcendente pirata?) ou a herança do manacial de inspiração dos grandes sonetistas desde Petrarca, cuja Musa celebrada foi Laura. (Lucia Welt)

* "Ouro d'alma em sonetos verdadeiros"-
Encontrei na arca uma variante deste soneto em que o terceto o final aparece assim:

Deixar meu tesouro nesta arca
Que veio dar a mim desde Petrarca,
Laureada em sonetos verdadeiros*

em que, curiosamente, a palavra "laureada" ao mesmo tempo que evoca a coroa de louros que cingem as têmporas dos grandes poetas na iconografia antiga, faz evocação de Laura, a musa celebrada de Petrarca.
Não sabemos por qual verso final Alma realmente optou no seu soneto.


Carnaval no pampa (de Alma Welt)
336

Quisera último e antigo Carnaval
Em que pudesse despir-me da persona
E embarcar na minha própria nau
Mesmo que me fosse dar à zona.

Sou eu mesma minha máscara, descubro,
E com ela enfrento meus receios
Ao aquecer meu coração ao rubro
Armando meus ardis por outros meios

E mesmo ser a Colombina desvairada
Que na verdade sou, pois tendo aberto
Um palco para toda a peonada,

Ou desnuda deixar que me alcançasse
A nave de desejos que desperto
Nem que ao pé do cais eu naufragasse...


(sem data)


Colombina (de Alma Welt)
335

É Carnaval e então a carne vale
E pelo oposto até tento me vestir
De Colombina, e que eu me rale
Para um Pierrot aqui me descobrir.

Na Pampa a fantasia está no lucro
Mas só de “gáltcho” macho e de chinoca;
Coringa foi tirado até do truco,
E Arlequim também não sai da toca.

Mas, delirante, correndo neste prado
Quero despir meu corpete e o saiote,
Deslocados que estão para o meu fado.

E logo nua, colocando a fantasia
No topo de um mourão, mero pacote,
Ateio fogo, como outrora se fazia...


20/02/2004

Pôquer de máscaras (de Alma Welt)
334

Em torno da mesa, mascarados
Camuflam os olhares e a esperteza,
Os meneios sutis, inusitados
Deste antigo pôquer de Veneza.

É pleno Carnaval, e os jogadores
Reunidos num salão abobadado,
Palácio de outra era, de outras dores,
Num tempo que parece retornado

Desdêmona passou de tranças feitas,
Feliz, antes da Noite das suspeitas,
E Giacomo, depois, como aprendiz

De aventureiro e sedutor empedernido
Sob a máscara de fálico nariz
Que tanto coração deixou perdido.

25/02/2005


Nota
Alma assistiu uma vez, em Veneza, em pleno Carnaval, num palácio sobre o Grande Canal, um tradicional jogo de pôquer mascarado, de que Rodo participou. Alma em longo vestido de época, armado, com magnífica máscara branca e um grande leque de plumas, deslisava por ali, à volta da mesa (diga-se de passagem: auxiliando nosso irmão no blefe). Ela jamais se esqueceria dessa experiência que fez seu espírito vagar por outras eras, naquela misteriosa e romântica cidade. Pouco depois, retornada ao Brasil ela me declamou esse soneto. Agora, como estamos no Carnaval me lembrei dele e fui procurá-lo na montanha de papéis de sua arca. Encontrei-o afinal, oportuno, pois Rodo se encontra em Veneza e me enviou um postal dizendo que está participando novamente desse tradicional e exclusivo pôquer de máscaras, em que se senta ao lado de banqueiros, magnatas, e eventualmente, até... chefões da Máfia (não posso deixar que a preocupação me tome...) (Lucia Welt)*(Desenho: Alma, como "Moira", em Veneza- de Guilherme de Faria)

*Desdêmona passou de tranças feitas- Alma sugere com este verso que a mulher de Otelo, vagou por esse salão quando donzela, solteira (de tranças) feliz , antes de começar o tempo das terríveis suspeitas, dos cíúmes, de seu futuro marido, o Mouro de Veneza.



A Flauta de Pã (de Alma Welt)
333

Em meio à pradaria esta manhã
Topei um peão chamado Acácio
Que como um pastor do antigo Lácio
Tocava estranha flauta: era de Pã.

Atraída, perguntei-lhe se sabia
Que essa flauta antiga assim chamava
E que com ela Dionisos comandava
Os cantos, as danças e... a orgia.

Então o pastor, desconfiado,
Olhou-me suspendendo o seu trinado
E respondeu com a charla de gaudério:

“Patroa, esta gaita é de família,
Nunca tocou só pr’uma guria,
E meu avô a ganhou num monastério.”

12/05/2005


Nota
Acabo de encontrar este gracioso soneto, para mim totalmente desconhecido, na arca da Alma. Publiquei-o imediatamente no blog dos Sonetos Gauchescos da Alma. (Lucia Welt)



Minha glória (de Alma Welt)
332

Ao erguer-me do leito de manhã
Eu me sinto na alvorada de uma vida
Pois ao me ver no espelho tão louçã,
Tão jovem ainda e... atrevida,

Vou enfrentar meus mares sem temores,
Pois lastreada na arca de sonetos
Há muito me despi dos meus pudores
E navego só meus cantos e motetos

Pelas rotas adoradas da campina
Que traço em minha trajetória
Com meus olhos em sintonia fina

Para com ondas de cor e de prazer,
Até eu não mais poder conter
Esta franca nudez que é minha glória...

24/08/2006


O Portal (de Alma Welt)
331


Quando olho a amplidão diante de mim
Deste tapete estendido ao horizonte,
Ondulado em leves pregas e sem fim,
Eu sei de onde brota a minha fonte

A minar esta poesia cristalina
Que busco porejar na minha pena
E que sendo alegria me condena
E que tristeza sendo mais me anima.

Então eu me levanto e ergo os braços
Para o alto oferecendo-me afinal
Àquele que me abriu este Portal

Pelo qual em breve, eu sinto, voltarei
Ao Grande Editor, co’os calhamaços,
Tendo cumprido o contrato que assinei.

06/01/2007


Ío e a nuvem ( das Metamorfoses de Zeus, de Alma Welt)
330

Depois do cisne, resolvi, uma por uma,
Desafiar Metamorfoses mais sutis
Pois há sempre a rota em que se ruma
E Zeus não lança mão de formas vis.

Como Danaé no estranho banho
Dourado que a veio iluminar
Assim eu mesma tive um ganho
Ao pedir ao meu amor pra me dourar.

Faltava agora por nuvem ser tomada,
E como nunca apreciei o “fumacê”
Não conseguia matar esta charada.

Então junto à cascata do meu rio
Envolta nua no vapor que ali se vê,
Fui possuída como a sonhadora Ío.

(sem data, circa 1999)

Nota

Percebe-se que o Mito da chuva de ouro de Danaé Alma resolveu com a simples urofilia, coisa que na verdade ela já conhecia bem com nosso irmão Rodo desde a infância. Note-se que urofilia ou urolagnia é uma prática sexual mais comum do que se pensa e conhecida popularmente como "banho dourado". Quanto à transformação de Zeus em nuvem para possuir a princesa Ío, Alma resolveu lindamente ao entregar-se ao seu amor em meio à neblina que se forma na nossa cascata, mais fortemente numa certa época do ano.(Lucia Welt)



Leda e o Cisne ( das Metamorfoses de Zeus, de Alma Welt)
329

Decidi experimentar volúpia nova
E encarnar princesas mitológicas
Acolhendo as entidades pouco lógicas
Em que Zeus transfigurado punha à prova

A doce e embevecida prontidão
Em tê-lo entre as coxas bem no meio
Ou como chuva de ouro no meu seio
Mesmo que ensopasse meu colchão.

Assim comecei pelo meu cisne
Que ganhara de meu pai, enternecida
Por sua beleza branca enaltecida

Em que senti das plumas como seda
Emergir rubro arpão sem que me tisne
As pétalas e encantos, como Leda...


(sem data)

Nota
Alma viveu sua extraordinária vida toda numa permanente dimensão poética. Ao ganhar de presente de nosso pai um maravilhoso e alvíssimo cisne vivo para soltá-lo no laguinho (o poço) da cascata, resolveu vivenciar os mitos das Metamorfoses de Zeus começando pelo de Leda. Por isso a vimos, sem atinar, muito íntima daquele cisne por um período. Minha louca irmãzinha...(risos). (Lucia Welt)


Das tentações (de Alma Welt)
328

"Deitam sortes à ventura qual se havia de matar.
Logo foi cair a sorte no capitão general."
(Romance da Nau Catarineta)


A superfície do papel em branco
Sempre me convida à aventura,
Não numa espécie de colóquio franco
Já que nela “deito sortes à ventura”

Como diziam os antigos navegantes,
Aqueles da Nau Catarineta,
Que viram a tentação um pouco antes
Do capitão saltar sua mureta.

Pois entre o espírito e o papel
Há todo um oceano de tensões
Antes das palavras em tropel.

No perigoso mar desta brancura
Assim também sofro as tentações,
Quando a mente namora sua loucura...

11/08/2006

Nota

Acabo de encontrar este notável soneto na arca da Alma, a meu ver digno de figurar nas melhores antologias do soneto universal, principalmente entre os de teor metafísico, ou os que abordam a própria arte de escrever poesia. (Lucia Welt)


(meu retrato pelo mestre Guilherme de Faria)
327

Observo o artista em sua prancheta
A desenhar como um divino arquiteto.
Comovida ao vê-lo assim tão quieto,
Me pego a afagar a minha teta

Pois este homem, sublime no desenho,
Revelou-se um amante inusitado
Em cujas mãos hábeis me detenho
Há noites, e bem longe de esgotado...

Então vem um rubor de mais malícia
Ao pensar que tem o creme e o refil
Que escorre do meu ventre qual carícia.

E antes que o distraia eu fico inerme
Para não interromper o meu perfil
Que está sendo traçado por Guilherme.

25/07/2001

Nota
Encontrei há pouco esta bela e sensual homenagem ao artista Guilherme de Faria, o mestre que descobriu, prefaciou, ilustrou e lançou a Alma. E que tanto a amou. Enviei-o a ele para que publicasse no seu blog, mas ele, por pudor ou por modéstia não quis fazê-lo. Ficou muito comovido, pois também não conhecia este soneto. Entretanto permitiu que eu o publicasse. (Lucia Welt)


O casarão (de Alma Welt)
326

Meu casarão é vivo e tem história
Mas também tristezas e rancores.
Por trás de sua velhice e sua glória
Há paixões, a sede dos amores.

É de noite que arfando mostra vida,
Cobrando suas dores e falências...
E eu saio a vagar entre as hortênsias
No jardim espectral da velha Frida,

Pra só voltar ao leito quando exausta
E quando já os galos predominam
Sobre os rumores desta casa infausta.

Então eu me desnudo e os convido,
Amores que em torno os ares minam,
A repousar em mim o seu olvido....

07/06/2006


Agradecimentos finais (de Alma Welt)
325

Pelos amores em vão correspondidos
Que não puderam por destino florescer,
Pelo prazer que me deram os escolhidos
E aqueles que ousaram me escolher;

Pelos bons momentos dissipados
Das orgias ressoando entre paredes,
Que tanto conhecemos, disfarçados,
E que não saciaram nossas sedes;

Pela paixão que nos fez a alma louca
Pelo gozo que demos um ao outro
Com o gosto de mel em nossa boca;

Por tudo o que é vital em nossa lida
E manteve o coração como de um potro,
Eu agradeço, ó Pampa, ó Sina, ó Vida!

18/01/2007


Arca de amor e fel (Alma Welt)
324


Quanto procurei na velha arca
As cartas e os vestígios de um amor
Que foi o de meu pai em seu vigor
E mais além, já quase em sua barca!

Espero que a Mutti me perdoe
Mas sei que não era o seu papel,
Que sem amor não há o que se doe
E a ela caberia a dor e o fel.

E nesta tragédia pampiana
Tomei eu partido do meu Vati
Em prejuízo da pobre Açoriana

Em quem não obstante o amargor
Plasmado em cada folha deste mate,
Reconheço agora tanto amor...

21/12/2006

Nota
Nessa mesma arca que agora guarda a imensa obra inédita de minha irmã, também procurei os vestígios desse misterioso amor de toda a vida de nosso pai, encontrando, como a Alma, somente pistas igualmente misteriosas. Alma se refere a isso também num capítulo de seu romance A Herança e também na crônica O rosto de Musidora, publicada no blog Crônicas de Alma Welt e também no site Texto Livre. (Lucia Welt)


Os encantos da alma (de Alma Welt)
323

Nas sombras cristalinas do meu bosque
Eu andei desde pequena solitária
E aprendi a ver as fadas num quiosque
E a rainha em sua forma vária

Que me chamava assim ao seu convívio
Pra me ensinar as coisas encantadas,
Longe da aridez e do oblívio
Das almas em que elas são negadas.

E eu ainda hoje me admiro
Do paradoxo da negação de tantos,
Já que à própria alma sobra encantos

Apesar de estar no mundo camuflada
A refletir no corpo quase nada,
A não ser num olhar e num suspiro...

09/11/2005



Nota

Por minha vez encantada, acabo de encontrar este soneto encantador da Alma em sua Arca inesgotável de inéditos. Este soneto me parece que já nasceu como um "clássico"...
(Lucia Welt)


Cassandra* (de Alma Welt)
322

Meu sonho de guria era real:
Eis-me aqui, poeta em plenitude.
Mas ao vivê-lo, eu vejo quão fatal
É ter um sonho chegado à completude!

Posso enxergar em mim, o dom das Parcas,
Meu Presente, Passado, e meu Futuro,
E neste, pouco além, meu próprio Muro,
Que dos três na palma tenho as marcas.

Mas, bah! por justamente tudo ver,
Muito embora por todos sendo amada,
É que é maior a dor de se viver...

Pois meu dom é ironia do Destino:
No cerne do meu ser (que desatino!)
Cassandra de mim mesma... ignorada.

08/12/2006

Nota:
Acabo de encontrar este fantástico soneto na arca da Alma. Minha irmã devia sofrer muito com o seu dom de vidência,que ela mesma buscava em vão ignorar...
(Lucia Welt)


*Cassandra, filha de Príamo, rei de Tróia, irmã de Heitor e Páris, que era sacerdotisa de Netuno e profetisa. Por um falta cometida, manteve seu dom de vidência, mas com a pena de jamais ser acreditada.



Abadia na floresta de carvalhos, de Caspar David Friedrich 1774-1840
Abadia na floresta de carvalhos (de Alma Welt)

321


Aqui estive eu, nesta abadia
Em ruínas em meio aos desgalhados
E retorcidos carvalhos de agonia
Entre túmulos esparsos, semeados.

Andei com estes monges no seu frio,
E conheço a solidão destas paragens,
Tão longe dos sonhos que ainda crio,
Tão próxima da Morte em sua imagem.

De nós mesmos, da terra e do ar,
Não há o que dizer, o que cantar,
Aqui o silêncio vem de dentro.

Eu vi o portal que ainda me espera
E por onde passarei à outra esfera
Para atingir do Mistério o pleno centro...

Alma Welt

(sem data)



A Ilha dos Mortos de Boecklin (de Alma Welt)
320

Não pare de remar, ó meu barqueiro!
Faça jus à soma que lhe pago,
Não hesite perante o nevoeiro
Que já desce saudando o que aqui trago.

Ajude-me também co’este caixão
Pois sozinha não poderei plantá-lo
Num nicho desta ilha em solidão
Com somente minha dor a acompanhá-lo.

Ilha Fatal, eis que sou tripla refém,
De pé na proa, como tu a me alçar
Das águas que ousei atravessar

Desse Letes obscuro em que vogamos,
Com meu próprio caixão que me contém,
Nós três: um só, no barco que remamos...


18/01/2007


Nota
Acabo de descobrir este soneto na arca da Alma e que pela data foi escrito na antevéspera da morte da Poetisa. De profundo teor alegórico-metafísico, Alma parece ter interpretado o famoso quadro do Boecklin, que lhe inspirou o soneto, com o barqueiro, a figura de pé na proa e mais o morto dentro do caixão como sendo três faces do mesmo ser: o morto que chega por seus próprios meios à Ilha da Solidão. (Lucia Welt)


Testamento gáltcho* (de Alma Welt)
319

Por estes belos pagos do meu Sul
Que me foram dados de cenário
E raízes sob o imenso toldo azul
Que é o teto do meu templo imaginário;

Aqui onde os “gáltchos” machos são
Reis de um reino todo em seu cavalo,
Nos limites da honra e da razão
Que os leva a transpor o imenso valo

Que existe entre domínio e dominado,
Entre o ser de escolha e o malfadado
Tantas vezes alcunhado de “gaudério”;

Aqui cresci, me alcei, fui poetisa
Votada ao meu próprio mistério,
De meu próprio destino a pitonisa!

15/01/2007


Nota
Acabo de descobrir na arca dos escritos da Alma, este "testamento", que percebi ser inédito (ela já escrevera outros testamentos). Este me pareceu especialmente significativo, pois revela o grau de consciência que ela tinha de seu singular destino e grandeza. Sim, o mistério foi nota dominante em sua trajetória, pois tal dimensão de beleza numa vida vivida em permanente dimensão poética não é corriqueiro na história da literatura ou das artes. ( Lucia Welt)
*gáltcho - fonético de gaucho, como os "castelhanos" (uruguaios e argentinos, nossos vizinhos de "la Pampa" pronunciam o nosso "gaúcho". Alma normalmente se referia assim aos nossos peões.


Primeiro amor (de Alma Welt)
318

Amores como sonhos se desfazem
Tênues como teias entre as ramas
Se deixamos de urdir as nossas tramas
Enquanto as ilusões se liquefazem.

Mas resta o amor que ainda esperas,
Somente aquele um, da nossa infância,
O beijo virginal de uma criança
Que reconhecemos de outras eras.

Os olhos de uma corça em seu candor
E o cheiro, ah! o perfume de uma boca
De pequenos lábios como flor

De que perseguiremos o respiro
(conquanto uma só vida seja pouca),
De cujo alento é feito o último suspiro.


(sem data)


Nota
Deslumbrada encontrei este soneto, sem data, na arca da Alma, e que fui logo conferir, o que é possivel graças ao instrumento de pesquisa dos blogs, e confirmei ser inédito. Alma, nele se refere ao primeiro amor,definitivo, que para alguns acontece ainda na infância, como foi o caso dela, nós sabemos por quem... (Lucia Welt)


Ecos no casarão (de Alma Welt)
317

De noite percorro o casarão
Por soturnos corredores silenciosos
Mas cheios de murmúrios capciosos
Das memórias do último verão

Quando a casa abrigava a alegria
Dos hóspedes ruidosos e parentes
Que lotavam como fosse hospedaria
Estes quartos agora tão silentes.

Ai! A casa já suspira de carência,
E chora e geme em sua demência
Tremelicando ao vento da campina!

Só restou Matilde, a mais fiel,
Galdério na charrete, sua sina,
E esta Alma que vaga, assim, ao léu...

16/01/2007

Nota

Encontrei nesta manhã de domingo, na arca da Alma, este belo e triste soneto, que denuncia o estado de espírito da Alma nos seus últimos dias. Infelizmente eu estava com meus quatro filhos (dois da falecida Solange, nossa irmã mais velha)em Alegrete e nada pude fazer por minha irmã, que eu não imaginava assim, tão desesperada... (Lucia Welt)



Profissão de Fé (II) (de Alma Welt)
316


Ungida no vinhedo dos avós,
Eu sinto que estou legitimada
E desde bem guria consagrada
A dar-me como vinho a todos vós.

Eis-me aqui, poetas e leitores
Nua, branca e bela, sem pudores
Com meus secretos filtros e perfumes,
Há muito devassada pelos lumes

Que lanço sobre mim, ó meus senhores!
Pois já nada escondo e tudo sou
Como a prerrogativa dos atores

E dos poetas, performers e cantores
Que sobem no palco e dão o show
Para glória do humano e seus humores..


08/01/2007
______________________________

Nota
Emocionada encontrei na arca da Alma este soneto que percebi como variante de um tema recorrente, e como estava sem título batisei-o com um já existente mas adicionando (II), para distingüi-lo. Alma conseguiu neste, a meu ver, expressar a vocação de todos os artistas e a legitimidade de seu suposto "exibicionismo". (Lucia Welt)


Camerata pampiana (de Alma Welt)
315

Corramos, meu irmão, depressa, vamos!
Pois temos muito chão nesta campina,
Se pro almoço atrasados, só, chegamos,
Haverá solo de relho e em surdina.

A Açoriana, maestrina, nos espera
Com a batuta na mão, e de marmelo.
Nos “fortíssimos” é onde ela se esmera,
Dos quais tenho um medo que me pelo.

Mas, bah! meu Rodo, valeu tanto
Ter estado contigo em camerata,
Nossos arpejos, sem pejos, na cascata...

Ai! Minha pele canta como os lábios
Lembrando teus abraços e o encanto
Dos teus “pianíssimos” tão sábios!

03/09/2006

Notas

Acabo de encontrar este soneto encantador na arca de inéditos da Alma. Suspeito que muitos sonetos ainda encontrarei tão primorosos como este, que nunca foram publicados pela Alma em nenhum site. Já são bem mais de 1.000 os sonetos dela compilados por mim até o momento. (Lucia Welt)

*Açoriana- como muitos já sabem, é como somente a Alma chamava nossa mãe, Ana Morgado, chamada "Mutti" por nós. Nossa mãe era muito católica e severa, ao contrário de nosso pai, o Vati, que criou a Alma como "uma pequena pagã". Havia muita dificuldade de relacionamento entre elas desde a infância, pois minha mãe temia o temperamento artístico exacerbado de minha irmã. Não obstante, creio que elas se amavam...


Balanço da Vida (de Alma Welt)
314

Lancei meu nome aos quatro ventos
Desde o Pampa a plena pradaria,
Levei minhas notícias de Poesia
Nas pequenas aventuras e eventos

Que me souberam assim universais,
Pois homens são um só, o mesmo medem
A oeste, norte, sul... leste do Éden,
Quanto mais fiéis aos seus quintais.

E assim vi minha Vinha prosperar
E as ramas do vinhedo me cercarem
Com os cachos sumarentos a brilhar.

Mas sei também meus poemas como hera
Cujos ramos pressinto se alastrarem
Nas paredes da Casa que me espera...

17/01/2007

Nota
Emocionada, encontrei agora há pouco este soneto, que deveria estar nos "Sonetos Pampianos", e que já fazia o balanço final da vida da grande Poetisa.(Lucia Welt)


A Ronda (de Alma Welt)
313

Esta noite irei ao meu jardim
Rever minhas memórias prediletas,
Ali, entre os eflúvios do jasmim
E o aroma mais sutil das violetas.

Como danço e giro em minha ronda!
Como sinto leves os meus braços!
Meu corpo quer rolar como uma onda
Ao rememorar os meus abraços,

Sim, dos meus amores, de guria
Que de tanto amar já me perdia
Naquela ânsia louca de entregar-me

Que fez de mim mesma minha amante
Por puro entusiasmo pela carne
Que tornava eterno cada instante...

10/01/2007

Nota
Encontrei agora, de madrugada, mais este soneto inédito, na arca da Alma, que me parece especialmente belo, e que reitera essa nota característica do "egotismo sublime" da nossa Poetisa. Por sua excepcional beleza, Alma tornou-se sua própria amante, como Narciso poético (redundância) que ela era. Não podemos culpá-la: diante dela sentia-se a legitimidade dessa paixão que transcendia a mera auto-estima. Pois nela, tudo parecia belo. Pelo tom, pelo talento, pela estética doce e natural de suas atitudes.(Lucia Welt)


O prelúdio sem fim (de Alma Welt)
311

Uma vez, voltando do meu prado
E já atravessando o nosso mate,
Ouvi um prelúdio executado
Por alguém que só podia ser o Vati.

Corri pelo jardim, logo o salão,
E chegando ao escritório para vê-lo
Surpreendi-me ao encontrar o irmão
Como de praxe a coçar o cotovelo.

Onde? Onde está nosso maestro?
Eu indaguei, espantada e meio tonta.
Quero ouvi-lo, me parece falta um resto!

"Minha irmã"- disse ele sério para mim-
"É um prelúdio para ti, não faça conta,
Que jamais irei tocá-lo até o fim..."

(sem data)


Acabo de encontrar este soneto na arca da Alma, que me dei conta de ser inédito, nunca publicado por ela ou por mim. Fui testemunha desse episódio. Rodo tocava piano maravilhosamente e compunha, raramente. Alma achava que ele desperdiçava seu talento, dedicando-se cada vez mais ao pôquer. Mas me parece que, ele ter composto um prelúdio inacabado para a sua Alma, contém uma vaga alegoria... (Lucia Welt)


No Labirinto da Alma (de Alma Welt )
310

Pelos labirintos desta estância
Vagueio como outrora sob a luz
Agora com temor e esta ânsia
Que não obstante me conduz

Pelas sendas onde ontem fui feliz
E corria alada a colher flores
Para florir meu quarto de aprendiz
Da Poesia, do Amor e suas dores.

Como viver os dias que me restam?
É a pergunta recorrente, intrometida
No rol de pensamentos que me infestam.

Ruivas colunas, galgando patamares,
Ruivos cabelos flamejando pelos ares,
Eis a Alma... que corre... já ferida!

18/01/2007

_______________________

Nota
Estarrecida acabo de encontrar este soneto inédito da Alma em sua arca do sótão, em que a imagem do Labirinto se confunde com a escadaria de colunata vermelha do palácio de Cnossos, em Creta, que nitidamente é o cenário ou metáfora que perpassa o poema, de dolorosa premonição da morte. Na verdade, cheguei rapidamente a essa interpretação porque Alma tinha um cartão postal dessa escadaria ladeada de colunas ("ruivas" como os seus cabelos) pregado com alfinete num painel de cortiça, de recordações de viagens e amigos, no seu quarto. Alma acreditava ter já vivido em Creta nesse palácio do Labirinto. Mais uma vez tive que chorar... (Lucia Welt)



Como conheci Rafisa (de Alma Welt)
309

Pela verde amplidão desta campina
Que se estende desde os pagos castelhanos
Até este quintal da minha vinha,
Vinha vindo uma carroça de ciganos.

Então a mula estacou extenuada
(seu nome logo eu haveria de escutar)
E da boléia desceu (eu deslumbrada)
A cigana que me caberia amar.

E com dois passos, lenta em sua nobreza,
Parou diante de mim na minha varanda,
Inusitada curvando um dos joelhos

Numa vênia como se eu fora a princesa,
E num gesto apresentando sua Miranda:
"Ela me trouxe a ti por entre espelhos!"


(sem data)

Nota:
Depois de algumas semanas sem poder pesquizar a montanha de textos da Alma na sua arca do sótão, da qual creio que já compilei, digitei e publiquei pelo menos a metade nestes 25 blogs, encontrei este soneto em manuscrito, sem título, que percebi que não havia visto até então, e que me pareceu importante pois conta como conheceu aquela que viria ser uma amiga muito especial (uma amante mesma, sejamos claros...), a cigana Rafisa, referida em tantos belos sonetos e que tendo contado à minha irmã aquele belo e trágico episódio da "coronelinha", que a Alma contou ao cordelista Guilherme de Faria, este escreveu sua obra-prima de cordel: "Romance da Vidência". Vide o blog:
www.guilhermedefariacordel.blogspot.com


Poema haragano (de Alma Welt)
208


Por ser filha do pampa e de meu pai
Eu pude amar, ser poeta e ser poesia
Que o peão já lembra e se extasia
Se pelo prado canta enquanto vai.

Sim, eu ouvi mais de um gaudério
Entoar um canto em sua sela
Em que reconheci o meu mistério
Ou dele a inspiração que me revela.

Pois quando o povo canta um verso teu,
Então está tudo certo, e podes rir:
Eis que o poeta atingiu seu apogeu.

E preciso é manter o diapasão
Para deixar mais música fluir
Como haragano quente no verão...


02/10/2006


Amor sem rosto (de Alma Welt)
307

Meu amor, a ti me dirigindo,
Saiba que te não personaliso,
Ao menos por enquanto, o que é lindo,
Pois és Amor, és Eros, Dioniso...

Bah! Quisera manter-te assim sem rosto,
Já que sendo deuses pouco valem
Os traços de uma máscara ou de um gosto
Que o Tempo não retém e que se perdem.

Como um nume, ou príncipe, quem sabe,
Toma-me nos braços que sou Alma
E minha alma no corpo já não cabe...

E leva-me, que me finjo adormecida,
Com aquela volúpia nada calma
Da guria que fui... cheia de vida!


15/01/2007


A mensagem (de Alma Welt)
306

Entre os livros de meu pai eu encontrei
Uma carta que há muito procurava.
Ele teria que escrevê-la, eu pensava,
Pois era o seu feitio, que dele herdei.

E ao cair ao chão, de entre as folhas,
Voltei o olhar pra ver quem era o Vate,
Pois sempre havia algo em suas escolhas
(eu conhecia os códigos do Vati...)

Mas eis que, surpresa, deparei
Com o livro que sempre me comove:
De Dostoiévski Os Irmãos Karamazovi

Em seguida li a carta propriamente,
E, implícita, a mensagem do meu rei:
"Alma, sê Aliocha, e una a gente..."


(sem data)


Nota
Acabo de encontrar este soneto solto no meio da montanha de textos da Alma na sua já famosa arca que estou há mais de um ano compilando. Nosso Vati sempre enviava mensagens secretas para a Alma desde guria, na forma de charadas, enígmas, capciosas indicações ou pistas, que a divertiam muito e, ao revelarem-se, a emocionavam. Esta, me comoveu, ao descobri-la agora, pois sua mensagem diz respeito a um momento de profunda desunião e conflito interno desta familia, com nossa irmã Solange e meu marido em guerra contra Rodo e Alma, na disputa da herança de nossos avós. Mas a verdade é que Alma, para salvar a estância, por seu temperamento apaixonado esteve mais próxima de um Dmitri Karamazov, num embate bastante violento com Solange e Geraldo, que gerou até mesmo processos de parte a parte e dois dramáticos julgamentos (vide o romance A Herança, de Alma Welt) antes de poder afinal, como Aliocha, unir a família.

www.almaweltromances.blogspot.com

(Lucia Welt)


Eu estarei aqui depois de tudo (de Alma Welt)
Acabo de encontrar este belo soneto nostálgico, perdido na montanha de papéis da arca da Alma, e que não encontrei publicado (depois de extensa pesquisa) em nenhum dos conjuntos de sonetos já publicados nos blogs da nossa Poetisa. A verdade é que espero encontrar outras jóias como essa neste espólio grandioso dos manuscritos inéditos de minha grande e saudosa irmã, que estou apenas arranhando com estes 25 blogs.
O curioso é que do ponto de vista contextual este soneto contrasta com o penúltimo que eu coloquei aqui ( o n°35 e último que traduzi para o castelhano: "Não estarei aqui quando voltares... " Mas ambos contêm a certeza de sua morte próxima e a convicção de alguma forma de retorno, mesmo que espectral, o que afinal acabou se confirmando, pois ainda a avistamos intermitentemente vagando por aqui, o que nos confrange e desnorteia, pois nos parece que ela não se libertou de sua vida aqui neste plano ou quer nos comunicar algo que não conseguimos entender. Nossos peões, que amiúde a vêm, a chamam "Alma da Pampa"...



Eu estarei aqui depois de tudo
(de Alma Welt)

305

Eu estarei aqui depois de tudo
Quando voltarem as flores no meu prado,
A macieira a florir no pomar mudo
E o casarão estiver todo arruinado,

Suas paredes recobertas pela hera
E no salão a grande mesa abandonada
Onde um dia quando bem guria eu era
Fui belamente adormecida colocada

Pelo fiel Galdério, também ido
Que com Matilde e seu dever cumprido
Foram prestar contas à patroa

Nossa bela, triste e branca Ana
Que afinal como rainha se coroa
E que já não chamo mais... Açoriana!



12/01/2007

Acabo de encontrar este belo soneto nostálgico, perdido na montanha de papéis da arca da Alma, e que não encontrei publicado (depois de extensa pesquisa) em nenhum dos conjuntos de sonetos já publicados nos blogs da nossa Poetisa. A verdade é que espero encontrar outras jóias como essa neste espólio grandioso dos manuscritos inéditos de minha grande e saudosa irmã, que estou apenas arranhando com estes 25 blogs.
O curioso é que do ponto de vista contextual este soneto contrasta com o penúltimo que eu coloquei aqui ( o n°35 e último que traduzi para o castelhano: "Não estarei aqui quando voltares... " Mas ambos contêm a certeza de sua morte próxima e a convicção de alguma forma de retorno, mesmo que espectral, o que afinal acabou se confirmando, pois ainda a avistamos intermitentemente vagando por aqui, o que nos confrange e desnorteia, pois nos parece que ela não se libertou de sua vida aqui neste plano ou quer nos comunicar algo que não conseguimos entender. Nossos peões, que amiúde a vêm, a chamam "Alma da Pampa"...



SONETOS CASTELHANOS DA ALMA



O último comboio (de Alma Welt)
304

Não estarei aqui quando voltares,
Ó vento-rei do meu sonho passado,
Sinto que as partidas e os “chegares”
Já não escamoteiam o meu fado.

Sei que vou partir, o trem vem vindo
A silvar e a ranger na noite enorme,
Na plataforma já vou me consumindo
A esperar que a alma se conforme.

Espera, dá-me tempo, ó minuano!
E tu, meu trenzinho de fumaça,
Me deixe ficar só mais um ano

Enquanto assisto aqui nesta varanda
O comboio do meu próprio ser que passa
Como o fumo, o vapor e a lavanda...

16/01/2007

Nota

Emocionou-me muito encontrar este soneto manuscrito, com a tinta borrada provavelmente pelas lágrimas de minha irmã. Alma pressentia claramente a sua morte iminente, que ocorreria quatro dias depois (20/01/2007). Derramando por minha vez, no teclado, minhas lágrimas, mal pude digitá-lo e vertê-lo para o castelhano. (Lucia Welt)

___________________________________

El último convoy (de Alma Welt)
(versión al castellano de Lucia Welt)

Todavía no estaré cuando tornares
Oh! viento-rey de mi sueño pasado,
Siento, pues, que las salidas, los llegares,
Ya no logran engañar este mi hado.

Yo sé que voy partir, el tren viniendo
A silbar y a crujir en noche enorme,
Y en la banqueta voy me consumiendo
A esperar que el alma se conforme.

Espera oh!viento! Tempo, torna a atrás!
Y tu mi trenito de humareda
Déjame restar un año más

En cuanto asisto acá en la baranda
El convoy de mi ser que pasa y queda
Como el humo, el vapor y la lavanda…


O porto (Alma Welt)
303

Ergam-se meus sonhos na alvorada,
Que os quero junto a mim ao despertar
E com eles percorrer minha jornada
Ainda que mal saia do lugar.

Sou toda mente, anseios, devaneios
E meu corpo reflete essa loucura
Pois alvo como a lua em seus meneios
Entre nuvens, ora clara, ora obscura.

E miro horizontes bem mais amplos
Mesmo aqui desta cadeira balançando
A singrar meu olhar por estes campos

Qual caravela perdida neste mundo
De águas rasas todavia procurando
Um porto onde o mar é mais profundo.


21/09/2006

El puerto (de Alma Welt)
(versión al castellano de Lucia Welt)


Erganse mi sueños en la alborada
Que los quiero junto a mí al despertar
Y con ellos recorrer esta jornada
Aunque no me salga del lugar.

Soy toda mente, ansias, devaneos
Y mi cuerpo refleja esa locura
Blanco como luna en sus meneos
Entre nubes, ora clara, ora obscura.

Y miro horizontes bien más amplios
Mismo acá en esta silla oscilando
A singlar mi mirada por los campos

Cual carabela perdida en este mundo
De aguas rasas todavía procurando
Un puerto donde el mar es más profundo.



Flor noturna (de Alma Welt)
302


Uma flor nasceu em meu jardim
Até então desconhecida, e inusitada
Pois que tem um cheiro doce de jasmim
Não sendo co'este todavia aparentada

Pois de noite evola outro perfume
E eu diria que de modo até perverso
Assim como essa lua que resume
A doce febre de onde nasce o verso.

Mas logo a senti como uma irmã
Das dores e anseios com que lido
De dia a rescender o meu amor,

Pálida e bela, mas altiva barregã
Que se erguesse do seu leito proibido,
A vagar nua entre os seres de labor...

(sem data)

____________________________________


Flor nocturna (de Alma Welt)
(versión al castellano de Lucia Welt)

Una flor nació en mi jardín
Hasta ayer desconocida y inusitada
Pues que tiene un perfume de jazmín
Sin siquiera ser pariente y ni nada

Pues de noche aromatiza otro perfume
Y yo diría de modo muy perverso
Así como esa luna que resume
Esta mi fiebre donde nace el verso.

Y desde luego la sentí como una hermana
De los dolores con que me he habido
De día a respirar mi oculto amor,

Ramera pálida, por cuanto altiva y vana,
A erguirse de su lecho prohibido,
Desnuda a irse entre los seres del labor.



Sons da noite (de Alma Welt)
301


As paredes vetustas desta casa
Trazem-me os sons de outra era
Como um ruflar de negra asa,
Cheios de dor que reverbera .

Distingo nas noites os gemidos
Das filhas do pobre Valentim,
Os gritos da viúva, os latidos
E logo o uivo de um fiel mastim

Ali, ao pé do corpo que pendia
Da trave do telhado, assim, no sótão
Onde depois o belo Rôdo dormiria

Impávido e inocente o meu irmão,
A embalar seu sono a algaravia
E o sussurrar de um proibido coração.

11/12/2005

____________________________________

Sonidos de la noche (de Alma Welt)
(versión al castellano de Lucia Welt)

Las paredes viejas de esta casa
Me traen los sonidos de otra era
Cual ala negra o un tonel que vaza,
Llenos del dolor que reverbera.

Distingo en la noche los gemidos
De las hijas del pobre Valentim,
La grita de su viuda, los ladridos
Y el aullido triste del fiel mastín

Allá, al pie del cuerpo que pendía
De la viga en el sótano sufrido
Donde el bello Rodo dormiría,

Hermano inocente y confundido,
Su sueño a acunar la algarabía
De otro corazón tan prohibido.

______________________________

Nota
Mais un soneto em que Alma insere menção à sua relação com nosso irmão Rodo. Entretanto pareceu-me detectar aqui, pela primeira vez, uma nota de consciência (não de culpa) da proibição dessa relação.(Lucia Welt)



Mea culpa (de Alma Welt)
300

Estar com meus irmãos e as crianças
É para mim o paraíso nesta terra,
Pois com eles alimento as esperanças
De afugentar de mim o que aberra...

Sim! minhas idiossincrasias,
E ânsias que ora chamo de ilegítimas
Pois faziam sofrer outras gurias,
Minhas irmãs, talvez um tanto vítimas.

Percebo que a ardência de minh’alma
Lhes foi e ainda é bem dolorosa
Por tirar-lhes as certezas e a calma.

Ah! Irmãs de quem tornei-me a agonia,
Mais quisera ser um ser de pura prosa
E menos o vulcão desta poesia!

28/11/2005


Nota

Emocionou-me encontrar este soneto perdido na montanha de inéditos da arca da Alma. Vieram à minha mémória 35 anos de convivência e amor pela doce Alma, que aqui se trata tão duramente. Sim, sofríamos por ela, mas de tanto amor, de tanta admiração impotente pelos seus sofrimentos de guria hiper-sensível. Sua intensidade tirava-nos o fôlego, pois a beleza de tudo que vinha dela era como conviver permanentemente com uma obra de arte viva, genial, surpreendente, comovedora... Ai! minha irmã, tua doçura tudo justificava, teu amor a tudo e a todos... a tua beleza de corpo e alma! Jamais houve um ser como tu!...
(Lucia Welt)


Mea culpa (de Alma Welt)
(versión al castellano de Lucia Welt)

Estar con mis hermanos y los niños
Es para mí el paraíso en esta tierra,
Pues con ellos alimento los cariños
Que ahuyentan de mi lo que aberra

Me referí a idiosincrasias y manías
Y ansias que ahora llamo ilegítimas
Pues las hacían sufrir, hermanas mías,
Persuadida estoy de que eran víctimas.

Percibo que la urgencia de esta Alma
Les ha sido y todavía es dolorosa
Por sacarles las certezas y la calma.

Ah! hermanas mías de agonía,
Bien más quisiera ser un ser de prosa
Y menos el volcán de esta poesía!


O sentido da vida (de Alma Welt)
299

Quantas vezes em silêncio me pergunto
O sentido de estarmos neste mundo
Embora tal pergunta seja assunto
Dos filósofos em seu labor profundo...

Que por sinal não chegaram a um acordo
Já que tudo permanece misterioso:
A vida, a morte, a dor, o riso e o gozo,
A cotovia e o rouxinol... e ainda o tordo.*

Mas, ai de mim, de nós, da humanidade!
Como cegos tateamos sob o céu
E, laboriosos, erigimos a cidade

Como outrora a grande torre de Babel
(da qual perpetuamos arremedos),
Orgulhoso monumento aos nossos medos.*

12/04/2006


Notas

*...A cotovia e o rouxinol... - este curioso verso é uma graciosa alusão ao famoso diálogo de Romeu e Julieta ao despertar de sua noite de núpcias, lá como aqui exemplo das dúvidas que o amor suscita como ingênua artimanha para perpetuar-se. Quanto ao adendo "e ainda o tordo", além de boa rima trata-se de uma maneira hábil poeticamente de sugerir que tudo, toda a natureza, é um mistério.

*Orgulhoso monumento aos nossos medos- A torre de Babel (Etemenanki), considerada um símbolo universal do orgulho humano, é aqui associada ao Medo, o que me parece bastante sutil.(Lucia Welt)


El sentido de la vida (de Alma Welt)
(versión al castellano de Lucia Welt)

Cuantas veces en silencio me pregunto
El sentido de estarmos en el mundo
Por cuanto tal pregunta sea asunto
De filósofos en su labor profundo.

Que sin enbargo no llegan a nada igual
Pues que todo es sin respuesta y misterioso:
La vida, la muerte, el dolor, la risa y el gozo
La cogujada y el ruiseñor… y el zorzal.

Ay de mí, de nosotros, de nuestra humanidad!
Manoteamos como ciegos debajo del dosel,
Y tontos laboriosos, erigimos la ciudad

Como ayer y hacia arriba, la torre de Babel,
(que todavía perpetuamos sus remedos),
Orgulloso monumento a nuestros miedos.



O espelho do ser (de Alma Welt)
298

Hoje olhei no espelho e vi meu ser,
Quero dizer, a face minha oculta,
Aquela que costuma se esconder
E que não pertence à vida culta:

O ser primevo, o mito primitivo,
Eco primal do grito, não vagido,
Que o homem lançou e foi ouvido
Pela Natura num recuo intuitivo.

Eis o animal de Deus marcado
C’o sinal de distinção no fundo olhar,
Na fronte ereta onde repousa o fado!

E ao mirar assim meus belos olhos
A profunda superfície dos abrolhos,
Tive medo de mim como de um mar...


(sem data)

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El espejo del ser (de Alma Welt)
(versión al castellano de Lucia Welt)


En el espejo hoy me miré y he visto el ser,
Quiero decir, mi faz, aquella oculta
Que todavía se acostumbra a esconder
Y no hace parte de nuestra vida culta:

El ser primero, el mito primitivo
Eco anciano del grito, no el vagido,
Que el hombre ha lanzado y fue oído
Por la Natura en su reculo intuitivo.

He aquí el animal de Dios, marcado,
Con señal de distinción a así mirar
Desde la frente erecta donde posa el hado!

Y sin embargo al clavar mis bellos ojos
En superficie honda y de abrojos,
Tuve miedo de mí como una mar…



A insensata nau (de Alma Welt)
297

Disparam-me das torres pensamentos
Contra o mastro desta nave de sonetos.
Meus bispos e a rainha, muito lentos,
E os peões, ou marinheiros, são suspeitos

De sedição ou motim perto das ilhas
Na insensata nau que é o casarão
Entre as vagas verdes das coxilhas,
E o minuano a soprar... mas no verão.

Porém, poder perdido, perco o punho
De ferro com que manobrava a vela
E o leme que era rota e testemunho

Do meu ser racional e orientado
Com que outrora pilotava a caravela
Do meu sonho lúcido e acordado.

(sem data)



La insensata nave (de Alma Welt)
(versión al castellano de Lucia Welt)


Desde las torres disparan pensamientos
Al mástil de mis versos dudosos.
Mis obispos y la reina son muy lentos
Y los peones, marineros sospechosos.

Hay motines cerca de las islas
En la nave insensata, el caserón
A singlar por entre olas de cochillas
Y el minuano a soplar fuera de ton.

Dejando el poder al enemigo,
Perdí el puño, el viento de mi vela
Y el timón, la ruta y el testigo

De mi ser racional, aunque abierto,
Que pilotaba, ayer, la carabela
De mi sueño lucido y despierto.



A fada da minha mente (de Alma Welt)
296

Esta noite irei ao meu pomar,
Apesar de escura e enevoada.
Ali estarei com minha fada
Com quem combinei de me encontrar.

Rôdo, mas só ele, está ciente,
Pois os outros não podem suspeitar.
Estou em perigo, ultimamente,
Há quem queira mesmo me internar.*

Na minha "Grande Noite de Walpurgis",*
Quando terminei por levitar,
Todos os deuses vieram me encontrar...

Mas o espanto agora é diferente:
"Ó minha fada, eu sinto quando surges
A partir da minha própria mente!"

18/12/2005

Nota

*"Grande Noite de Walpurgis" - Alusão à "Noite Clássica de Walpurgis", cena apoteótica, magistral e iniciática do Fausto, de Goethe. Trata-se de uma grande reunião ou Orgia dionísiaca, de todos os deuses da Grecia Antiga, a que Fausto assiste com a ajuda de Mefistófeles. A cena é longuíssima, extremamente erudita e cheia de ocultismo. Há mesmo estudiosos que se debruçaram anos a fio sobre o estudo dessa parte do Fausto, inclusive teses de doutorado.
Alma assim se refere à sua experiência mística pagã, de invocação mágica dos deuses e numes do Pampa, diante de sua macieira sagrada do pomar, que está descrita magistralmente em certo capítulo do seu romance A Herança, e sucintamente no seu soneto "Todos os deuses", postado nos blogs Vida e Obra de Alma Welt, e nos Sonetos de Mistérios da Alma. (Lucia Welt)

* ... me internar"- Alma temia ser internada como afinal realmente o foi, numa Clínica pouco depois da data deste soneto. Mas não é verdade que queríamos interná-la. Fomos pegos de surpresa, quando ela sumiu num sábado e foi encontrada por nós que a procurávamos preocupadíssimos, em lamentável estado vagando no bosque, fora de si, com o vestido rasgado e arranhões nos seios e nas coxas, que suspeitamos como vestígios de estupro.(Lucia Welt)


La Hada de mi Mente (de Alma Welt)
(versión al castellano de Lucia Welt)


Esta noche iré por cierto a mi pomar,
Aunque esté oscura y nublada.
Todavía allí estaré junto a mi hada
Con quien me acordé de encontrar.

Rodo, y solamente él, está esciente,
Pues los otros no pueden sospechar.
Estoy en peligro, últimamente,
Hay mismo quien me quiera internar.

En mi “Gran Noche de Walpurgis”,
Cuando al fin acabé por levitar,
Todos los dioses vinieron me encontrar…

Pero el espanto ahora es diferente:
¡Oh! Mi hada, yo siento cuando surges
De allá, venida de mi propia mente!



Testamento (de Alma Welt)
295

O meu Pampa é um sonho derradeiro
E primevo ao mesmo tempo, mas um sonho
De Deus, dos deuses e onde ponho
Todo o peso do sentir e ser, inteiro.

Aqui é o centro, o ponto, o fulcro
De onde avisto o mundo que me é grato,
Não o vale de sombras do contrato,
Mesmo que aqui cavem meu sepulcro.

E quando eu morrer, fique bem claro
Que não tive queixas nem rancores
Embora tenha tido as minhas dores.

Pois viver a vida em plenitude
Foi privilégio, conquanto não tão raro,
Mas certamente a minha máxima virtude.

14/01/2007


Testamento (de Alma Welt)
(versión al castellano de Lucia Welt)

Mi Pampa es mi sueño postrero
Y primero también, pero un sueño
De Dios, de los dioses, y el sendero
De mi sentir y ser, que no es pequeño.

Acá es el centro, el punto, asiento
Donde miro el mundo que me es grato,
No el vale de las sombras del contrato,
Aunque acá me acabe el dulce aliento.

Y cuando me muera, esté bien claro
Que no tuvo quejas ni rencores
Por cuanto haga sufrido mis dolores.

Pues vivir la vida en plenitud
Fue privilegio, todavía no tan raro,
Sin embargo, mi máxima virtud.



Das noites no jardim (de Alma Welt)
294

Guria apenas, do quarto meu, fugia
Pela janela, de noite, já contei,
Para ir ao jardim que tanto amei
Para ver dos pirilampos a folia.

E rodava sob o meu lustre da lua
A branca camisola qual princesa
Que valsasse num palácio de grandeza
Com a minha sombra logo nua.

E então me deitava, esfusiante,
No tecido, assim, pra não coçar
E me punha branca a me lunar

Sentindo que meu corpo coruscante
Estava ali, aberto, sob o olhar
De meu irmão, no sótão, vigilante.

(sin data)


Noche en el jardín (de Alma Welt)
(versión al castellano de Lucia Welt)


Cuando muchacha de mi cuarto yo huía
Por la ventana, de noche, ya he narrado,
Para irme al jardín que he tanto amado,
Las luciérnagas a darme su folía.

Como quien bajo la luna se demuda,
El camisón rodaba cual princesa
Que valsase en un palacio de grandeza
Con mi sombra tan luego o ya desnuda.

Sin embargo me acostaba, así, radiante,
En la enagua, sí, para no rascarme
Y me ponía cruda y a mostrarme

Y sentía que mi cuerpo brillante
Estaba allí, abierto, bajo el ojo
De mi hermano, atento como un zorro.



De nuvens e Paciência (de Alma Welt)
293

Aprendi das nuvens as canções,
Suas sutis mudanças de formato,
De peso, tons, e seu contrato
Com o rei dos raios e trovões.

Foi Galdério, o montevideano
Que criado na Pampa oriental
E guiando a charrete ano após ano
Me doava ali seu cabedal,

Sua grande bagagem de experiência
Contemplativa, ali, na sua boléia
Ao som do trotar da Paciência,

Sim, o nome da egüinha atrelada
Que envelheceu sem ter idéia
Do quanto era rica a nossa estrada.


(sem data)


De Nubes y Paciencia (de Alma Welt)
(versión al castellano de Lucia Welt)

De las nubes aprendí el canto bueno,
Sus sutiles mudanzas de formato,
Tonalidades, pesos y el contracto
Que tienen con el rayo y el Rey Trueno.

Fue Galderio, montevideano y peón,
Que criado en la Pampa oriental
Conducía año a año el carretón
Donándome allí su gran caudal

Su enorme bagaje de experiencia
Contemplativa allí en su asiento,
Al trotar de nuestra Paciencia.

Sí, el nombre de la yegua atraillada
Que de ojos bajos, añejada y sin aliento
No logró comprender nuestra jornada.



O jardim das memórias (de Alma Welt)
292

Minhas crianças amadas me rodeiam
E me fazem saber que sou feliz,
A mim, que não sou simples aprendiz
Pois beleza e alegria me permeiam

Desde guria, aqui, por estes pagos
Em torno ao casarão na pradaria:
De mãos dadas com Rôdo eu corria,
E os dedos já sentiam seus afagos

Que depois, no bosque, ou na cascata
Se estenderiam aos meus pequenos seios
Incipientes e brancos como nata.

Então eu me enterneço duplamente
Ao brincar neste jardim com seus enleios
Que me levam a mim mesma novamente.



24/11/2006


Exorcizando (de Alma Welt)
291

Matilde veio logo me avisar
Que uma sombra rondou o casarão
E parou de frente ao nosso sótão,
Depois partiu no rumo do lagar.

"É o Valentim!" ela adverte-
"Que olhou para onde se enforcou,
Voltou para onde o vinho verte
E ali novamente se afogou."

E eu, a quem não custa espicaçar,
Saí no temporal e fui às uvas
Para o tal fantasma exorcizar:

"Perdoa, a ti me dou, tardia embora,
E me desnudo sob o frio de tuas chuvas
Que são as tuas lágrimas de outrora!"

(sem data)


Nota

Valentim- Para quem ainda não sabe ou não leu o romance autobiográfico da Alma "A Herança", Valentim Ferro foi o último proprietário gaúcho autêntico de nossa estância (antiga Querência Farroupilha, agora Sta Gertrudes) e que endividado acabou vendendo sua propriedade para o nosso avô Joachin Welt, em seguida por desgosto enforcando-se no sótão do próprio casarão. Alma conta como nosso avô narrou a ela ter encontrado o corpo de Valentim, ainda quente como o mate fumegante esparramado da cuia (e bomba) sob os pés do enforcado, este todo ataviado nas sua melhor bombacha, botas, esporas, faixa, chapéu, lenço vermelho farroupilha, e tudo.
Alma dizia ter tido vários encontros com o espectro do infeliz proprietário autêntico derradeiro, com o qual ela acreditava termos uma dívida insaldável, usurpadores que éramos desta propriedade farroupilha tradicional, nós, "boches arrivistas" que viemos plantar uvas numa terra tradicional de gado, charque e mate. (Lucia Welt)


Flor de Fobos (de Alma Welt)
290

Encontrei no jardim de minha avó
Uma flor inusitada e ignota
E que parecia muito, muito só
Como um forasteiro em sua rota

Por entre os homens e as aléias.
Bah! Que solitários são os lobos
Rejeitados por suas alcatéias,
Que vagam a despertar aquele Fobos!

Então eu, condoída, sim, deixei-a,
Curiosa para ver se explodiria
Em novas flores formando sua aldeia.

Todavia ali voltando todo dia,
Eu, pasma, a encontrava orgulhosa
Por ser única, tão só e... tão formosa.

18/11/2006


____________________________________


Flor de Fobos (de Alma Welt)
(versión al castellano de Lucia Welt)

Encontré en el jardín de mi abuelo
Flor ignota, sin nonbre o heredero
Y que, muy sola, allí, me huelo
Que es como, así, un forastero

Por entre los hombres y su mando.
!Oh! Que solitarios son los lobos
Cuando desechados de su bando,
A vagar despiertan aquel Fobos!

Sin embargo, conpungida, la he dejado
Curiosa para ver se explotaría
En nuevas flores y en su propio prado.

Todavía, allí tornando todo día
Yo, pasmada, la encontraba orgullosa
De ser única, tan sola… y tan hermosa.


Não cantarei de amor... (de Alma Welt)
289

Não cantarei de amor mais do que o faço
Ao contar a saga do meu ego
E as estrepolias com que traço
Meu rumo e o sonho a que me entrego

Ao simplesmente viver a minha vida
Com toda a intensidade da alegria
E a louca intimidade compartida
Com tantos (que jamais me encolheria).

Assim, cantando-me a mim mesma,
Ouvi alhures: “Ah! Ególatra sublime...”
Como se isso fora um abantesma...

Até (pasmem!) compreender que ao fazê-lo
Meus versos pertenciam a certo time
Que tem em Wordsworth seu modelo...

06/02/2005


Nota

Percebe-se que Alma, com "ególatra sublime" quis se referir ao conceito de "egotista sublime" usado pelo grande poeta romântico inglês John Keats (1795-1821) numa de suas famosas cartas. Certamente Alma preferiu a paráfrase por questão de rítmo no verso. Naquela carta, Keats coloca o seu contemporâneo William Wordsworth (1770-1850) como exemplo do "egotista sublime", isto é, o poeta que falando de si em termos ideais se erige como arquétipo, na medida em que, usando como tema sua própria experiência cotidiana existencial transfigurada pela arte, fala por toda humanidade. (Lucia Welt)


No cantaré de amor (de Alma Welt)
(versión al castellano de Lucia Welt)

No cantaré de amor más que lo hago
Al narrar la saga de mi ego
Y las picardías con que halago
Mi destino como sueño a que me entrego

Por simplemente así vivir mi vida
Con la intensidad de la alegría
Y la loca intimidad compartida
Con tantos (que jamás me encogería)

Sin embargo, cantando voy mi misma
A oír que soy "ególatra y sublime”
Y como se yo fuera una papisa

Hasta que (usted pasme) he entendido
Que mi verso con un otro ilustre rime
Pues Wordsworth lo habría conocido...


Odisseu (de Alma Welt)
288

"Somos para a Morte", disse alguém,
E desde então eu me pus a meditar,
Coisa inusitada para quem
Todas as dádivas vieram se somar.

A beleza é vã, efêmera, fugaz,
Diz Matilde, o que a Mutti já dizia,
E eu desconfio que apesar de pertinaz,
Tal pensamento deriva da apatia.

Ah! Odisseu, meu grego predileto,
Que disseste (e por isso foste honrado)
O quê é o homem? Cabal, doido completo

Que se acaba com um simples resfriado
E que no entanto, aqui como em Elêusis,
É capaz de afrontar os próprios deuses!


09/07/2006

Odisseu (de Alma Welt)
(versión al castellano por Lucia Welt)


A la muerte somos, uno ha dicho bien
Y desde luego me puso a meditar,
Cosa muy inusitada para quien
Todas las dádivas vinieron acrecentar.

Matilde ha dicho y la Mutti ya decía,
"La belleza es vana, efímera, fugaz",
Y yo supongo, aunque pertinaz,
Tal pensamiento redunda en apatía.

Ah! Odisseu, mi griego favorito
Que dice (y por eso fue alabado),
Que es el hombre?! Cabal, loco bendito,

Que se acaba con un simple resfriado
Y todavía, acá como en Eleusis
Es capaz de afrontar sus propios dioses!



A caravela (de Alma Welt)
287

Lanço no papel minha experiência
De ser o fulcro ou centro desta saga
Tão amada, vivaz, com tal ardência,
Como um druida, bardo ou velha maga.

Nada de queixumes ou lamento,
Mas afirmação total de vida
Que aos outros possa ser alento,
Inspiração vital e comovida.

Pois sei que a vida é mesmo bela
E o frágil ser humano, interessante
Como pode ser imenso e triunfante!

Eis porque vago pela face do papel
Como tardia, embevecida caravela
Fazendo deste espelho o próprio céu.

1401/2007



La carabela (de Alma Welt)
(versión al castellano por Lucia Welt)


Lanzo en el papel mi experiencia
De ser el centro mismo de esta saga
Tan amada, viva, y con vehemencia
Como un druida, bardo o vieja maga.

Nada de quejas, lloros o lamento,
Pero afirmación total de vida
Que a otros pueda ser aliento,
Inspiración vital y conmovida

Pues sé que la vida es mismo bella,
El fragil ser humano, interesante:
Sin embargo grande y triunfante.

Así navego en la net o papel viejo
Como tardía, orgullosa carabela
Haciendo acá mi cielo de este espejo.



O eterno retorno (de Alma Welt)
286

Contarei e cantarei até o fim
Dos meus dias como vou ao meu irmão
Encontrá-lo alta noite no seu sótão
Para entregar-me a ele e ele a mim.

E como, tateando no escuro
Nos longos corredores, já ardente,
Eu me dispo no caminho, de repente
Naquele impulso claro e escuro

Que me leva assim a dar-me e dar-me
E exausta adormecer sobre seu ombro
Depois de tanto cavalgar a sua carne.

E como, adormecida, recomponho
A clara roda de ir ao seu encontro
Na obscura clareza do meu sonho.

(sem data)
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El eterno retorno (de Alma Welt)
(versión al castellano por Lucia Welt)


Cantaré y cantaré hasta el fin nuestro,
Como voy tan repetido al mi hermano,
Encontrarlo, alta noche, en su sótano
Para entregarme a ello, por supuesto.

Y como, palpando el aire oscuro
De los corredores onde, ardiente,
Me desnudo en el camino, de repente
En un raro impulso claro y puro

Que me lleva así a darme y darme
Y exhausta dormir con ello adentro
Después de cabalgar tanto su carne

Y como recompongo el diseño
De la rueda de irme al su encuentro
En la oscura claridad de nuestro sueño.



A Fronteira e o Portal (de Alma Welt)
285

Saio de manhã com cuia e bomba
A vagar por minhas velhas trilhas
Até rondar o bosque em sua lomba
Que nasce no sopé destas coxilhas.

Ali penetro então chimarreando
Aquecida por dentro pelo amargo
Para ouvir a natureza despertando
E o meu alento bem mais largo.

E logo tomada de entusiasmo
Me ponho a correr por entre os troncos
E a girar no centro de um orgasmo

Até desfalecer numa clareira
Cercada por seres nada broncos,
Abertos o Portal e a Fronteira...

(sem data)

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La Frontera y el Portal (de Alma Welt)
(versión al castellano de Lucia Welt)


Salgo yo, la calabaza y su aroma
A vagar por mi querida senda vieja
Hasta rondar el bosque en su loma
Que nace en la falda de la sierra.

Allí entro todavía mateando
Calentada por el sabroso “amargo”,
A oír la Natura despertando
Y también mi aliento bien más largo.

Y luego dotada de entusiasmo
Me pongo a correr por entre troncos
Y a girar en el centro de un orgasmo

Hasta quedarme desnuda y irreal,
Pero cercada por seres nada broncos
Y abiertas la Frontera y el Portal.

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Nota
Acabo de encontrar este curioso soneto manuscrito entre os papéis da Alma na sua arca, e dei-me conta de que nunca foi publicado. Apressei-me em digitá-lo e colocá-lo no seu blog dos Sonetos de Mistérios da Alma. Mas logo percebi que se trata, na verdade, de um soneto erótico, embora simbólico e velado. Não preciso dizer o que são "o Portal" e "a Fronteira". Ri muito e mais saudades tive de minha extraordinária irmã, de sua intensidade vital e de seu humor. (Lucia Welt)



Se me perguntarem... (de Alma Welt)
284

Se me perguntarem o que quero
Com tanto escrever, em catadupa
Soneto após soneto, eu reitero
Que isso me elimina toda a culpa.

Sim, a que se instala em nossa alma
Com o primeiro vagido após o tapa
E faz o ser humano ter um mapa
Do inferno gravado em sua palma.

Em sendas ocultas e entrelinhas
Eu vou, vago, vôo e deixo ir-me
Ignorando as coisas comezinhas.

Escrevendo recupero a inocência
E posso tudo, e na alma permitir-me
Ir muito além da dor e da demência.

15/12/2005

Nota
Ao encontrar há pouco este soneto, apertouse-me o coração, pois pela data percebi que fora escrito poucos dias antes da sua internação na Clínica em Dezembro de 2005, que tanta preocupação e dor nos causou, inclusive com sua fuga e percalços em caronas de caminhão pelas estradas do nosso Pampa. Este soneto testemunha a luta heróica da Alma para fugir "da dor e da demência" que rondavam a sua alma de poeta, de artista predestinada e de mulher muito bela, excepcionalmente pura e ardente.(Lucia Welt)


Se me preguntan... (de Alma Welt)

(versión al castellano de Lucia Welt)
Me preguntan que quiero yo con eso
De tanto escribir, en catarata,
Soneto tras soneto, se este peso
No representa el fardo de una rata,

Yo digo que eso por contrario
Descarta la culpa que se instala
En nosotros con aquel golpe primario
Que ha de hacer la vida entera mala,

En senda, trilla y entrelínea
Yo me voy vagando o a volar
Ignorando las cuentas por pagar.

Escribiendo recupero la inocencia
Y todo puedo, en el alma curvilínea
Driblando el dolor y la demencia.



Minha "Estrela de Absinto" (de Alma Welt)
283

Estrela minha, a mim mesma me revela!
Eu te invoco como outrora o Druida
Ou muito antes o rei da torre aquela
Etemenanki que em Babel foi destruída!

Vem ao meu encontro e me desvia
Do fatal caminho que pressinto,
Eu sei, estamos todos nessa via,
Na rota de uma estrela de Absinto,*

Mais sonhos, mais delírios, mais anseios,
Ainda não cumpri meus devaneios
E ainda faltam centenas de sonetos,

Cavalgadas, êxtases, amores,
Vagar por entre temas e motetos
A colher emoções como se flores!

19/12/2006


Nota
* Estrela de Absinto -Obra de Oswald de Andrade, 1927. A expressão se refere à uma estrela apocalíptica, para alguns místicos e esotéricos caracterizada como o planeta Vênus(estrela Dalva). Absinto: bebida muito consumida na Belle Époque parisiense, e que, com o ópio, custou a vida de muitos poetas e pintores. No Apocalípse de São João, Absinto é o nome de uma estrela da destruição que cai sobre as fontes de águas e os rios, no final dos tempos (um meteorito?).Entretanto, não está claro, no poema, em qual sentido Alma a está usando. (Lucia Welt)


Mi estrella de Absinto (de Alma Welt)
(versión al castellano de Lucia Welt)


Mi estrella, me reveles a mi misma!
Yo te invoco como otrora el druida,
O antes aquél rey de gran carisma
Aunque tuve su alta torre destruida!

Vien a mi encuentro y me desvía
Del fatal camino que presiento.
Estamos todos, yo lo sé, en esa vía,
De Absinto la estrella como aliento.

Quiero más sueños, delírios, nuevos temas,
Aunque no he cumplido mis proyectos
Y hagan falta todavía cien poemas,

Cabalgadas, éxtasis, amores,
A vagar por entre mis versos selectos
A coger emociones como flores!




Não irei queixar-me ao rei dos pampas (de Alma Welt)
282

Não irei queixar-me ao rei dos pampas,
O Minuano que selou o meu destino...
Não rezarei ao pé daquelas campas
Nem ali tocarei meu violino.

Bah! Tanto me alertaram sobre aquilo
De escolher e abraçar a "vã Poesia"
Abandonando o caminho mais tranqüilo,
Do Lar, e ainda ficando "pra titia"!

Sobretudo não irei me prosternar
Diante da matéria ou de seus signos,
Que não tenho o afã de conservar...

Pois que há muito abri minhas eclusas,
Fiz juras e votos bem mais dignos
E jamais renegarei as minhas Musas!

(sem data)
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Al rey no iré quejarme (de Alma Welt)
(versión al castellano de Lucia Welt)

Al rey no iré quejarme, de la pampa,
El Minuano que me conduce al fin;
No oraré al pie de aquella campa
Ni tampoco tocaré mi violín.

¡Ah! Tanto he caminado sobre el hilo
Que en peligros me llevó a la Poesía,
Abandonando el camino más tranquilo,
Tía y soltera acá restando todavía!

Tampoco iré mi cuerpo prosternar
Delante la materia o sus signos,
Que no tengo el afán de conservar…

Pues que ha mucho he abierto mis esclusas,
Y haciendo juramentos bien más dignos
Jamás he renegado aquellas Musas.


A névoa e a Alma (de Alma Welt)
281

Quando a névoa ainda não se alçou
E paira sobre a relva confundindo
Céu e terra como quando começou
O mundo e Deus ainda estava urdindo

A tessitura de seu reino endiabrado,
Depois cheio de tesouros e magia,
Eu sinto que pertenço a este prado
E nutro-me de sua nostalgia.

Mas logo em alegria me desnudo
Pois orvalhada já em minha roupa
Posso sentir-me parte disso tudo:

De Deus o puro caos primevo e vago
Quando tudo ainda era parte dessa sopa
Do grande caldeirão do Eterno Mago...


(sem data)

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Nota
Acabo de encontrar na montanha dos inéditos da Alma, em sua arca do sótão, este soneto encantador sobre o qual testemunhei as cirunstâncias de sua inspiração, pois acompanhei uma vez a Alma num de seus passeios matinais, bem cedinho, e a vi impulsivamente desnudar-se para sentir a névoa da alva da manhã em sua pele, no corpo todo, rodopiando de alegria em sua integração sentida nesse "caos úmido". Alma era uma criatura profundamente telúrica e nutria-se, como ela dizia, das forças da terra e do ar, como todos os seres, é verdade, mas com mais intensa consciência poética, se podemos dizer assim, do que a maioria de nós. (Lucia Welt)


La niebla y la Alma (de Alma Welt)
(versión al castellano de Lucia Welt0


Cuando la niebla aún no se ha alzado
A pararse de la hierba confundiendo
Cielo y tierra como cuando ha comenzado
El mundo y Dios se estaba urdiendo

La textura de su reino endiablado,
Después lleno de tesoros y magia,
Yo siento que hago parte de ese prado
Y me nutro de su enorme nostalgia.

Pero de pronto me pongo desnudada
Pues aunque orvallada en mi ropa
Quiero sentirme parte, o integrada,

De Dios el puro caos primero y vago
Cuando todo era parte de esa sopa
Del eterno calderón del Grande Mago.



Da vida vivida (de Alma Welt)
280

Por amor, me desnudei a alma
No papel em versos escandidos,
Não me poupei em nada, dei a palma
A ler, como às ciganas os escolhidos.

Sim, por que nelas eu confio
Se vêem em nós o dedo do destino
Ou espada a pender daquele fio.
Mas ouvindo da Gitana o violino

Cantei, dancei, de mim me desnudei
E nos leitos dos amados supliquei
Que tocassem as fibras do meu ser.

E louca, penetrada e fruída
Fui verso e canção pra ouvir e ler
E nada deixei pra outra vida...


17/01/2006

Nota

Mais uma vez emocionadíssima, ao descobrir agora há pouco este soneto, me defrontei com um "testamento espiritual" da Alma, poderoso, de comovente grandeza.
Vou tentar vertê-lo para o castellano para publicar no site La Voz de La Palabra Escrita-Internacional. (Lucia Welt)


De la vida vivida (de Alma Welt)
(Versión al castellano de Lucia Welt


Por amor me he desnudado el alma
En la página de verso encendido
Sin enbargo,siempre he dado la palma
Como a una gitana el escogido.

Si, porque fieles siempre han sido
Y en nosotros veen la oscura gana
O el sable que de un hilo está pendido.
Pero al oír el violín de la Gitana

He cantado, danzado y desnudado,
Y en los lechos de amados, he suplicado
Que tocasen las fibras de mi ser.

Pues loca, tocada o ceñida
He sido verso y canción de oír y leer
Y nada he dejado a otra vida.



A Alma destas águas (de Alma Welt)
279

A trilha que leva à minha cascata,
A cantar percorro todo dia,
Descalça, pois retiro a alpargata
Para sentir do solo a energia.

E logo vou a blusa retirando
Ou o vestido inteiro, se é o caso,
Depois a calcinha, ali deixando
Na senda como rastro e ao acaso

As belas tramas um tanto obsoletas
Pois me dou à transparência destas águas
(que nunca me escondi em vãs anáguas).

Depois saio brilhando, nada feia...
E mais: para atrair as borboletas,
Crua me agacho a urinar na areia.

(sem data)

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Nota

Encantada, acabo de descobrir na arca da Alma este soneto lindo, ligeiramente erótico, que revela algo que eu mesma testemunhei algumas vezes: nua, molhada e brilhando, Alma urinava na areia da prainha da cascata, e logo ali se fazia uma revoada de borboletas que apreciavam o sal ou a amônia onde pousavam numerosas, sugando, para encanto de minha bela irmã, que eu ficava olhando, admirando, como uma ninfa que ela realmente era. (Lucia Welt)


Alma de estas aguas (de Alma Welt)
(Versión para el castellano de Lucia Welt)

En el camino que leva a mi cascada
A cantar me voy todos los días
Y luego me pongo desmontada
Para sentir del suelo la energía

Y desde luego la camisa allí sacando,
O el vestido entero, si es el caso,
Después las bragas voy dejando
En la senda como rastro y al acaso

De las vanas tramas aúnque hermosas
Pues en la transparencia de la escena,
Jamás he escondido aquellas rosas...

Y me salgo reluciendo, rica y plena
Y más: para atraer las mariposas
Me agacho a orinar sobre la arena.

(sin data)


Dúbios domingos (de Alma Welt)
280

Tenho com os domingos dúbia liga
Pois embora ensolarados em essência
Me fazem ver do Tempo a vã carência
E a tal fugacidade, ó minha amiga.

A contagem domingueira se revela
Ultimamente regressiva e voraz
Embora eu seja jovem, viva e bela,
Já me vejo saudosa a olhar pra trás.

Eis que me sinto assim contemplativa,
Que nunca fui alguém que muito chore,
E me ponho a vagar como uma diva

A colher florzitas como a Core
No seio claro desta natureza viva
Antes que o escuro solo me devore.


28/11/2006


Nota
Acabo de encontrar este belo e impressionante soneto da Alma, que faz ver a persistência de seu pressentimento da morte próxima. Vale aqui relembrar o mito de Core (a Perséfone dos gregos) filha de Ceres, a deusa das colheitas(a Deméter, dos gregos) que estando a colher flores na pradaria, subitamente o solo se abriu e ela foi agarrada pelo deus Hades, do escuro subsolo do mundo (o reino de Hades)onde passaria, por intercessão de Zeus, a pedido de sua suplicante e sofrida mãe, a viver por seis meses, sendo que os outros seis poderia passar com sua mãe sobre os campos. Esses ciclos se relacionavam com o tempo do plantio e o da colheita. (Lucia Welt)


Dudosos domingos (de Alma Welt)
(Versión para el castellhano de Lucia Welt)

Tengo con los domingos una liga
Por quanto solarados en esencia
Me hacen ver del Tiempo la carencia
Y la fugacidad, oh! mi amiga!

La cuenta dominguera se revela
Desde luego regressiva y voraz
Todavía soy jóven, viva y bella
Sin enbargo estoy mirando hacia atrás

Y me siento tan contemplativa,
Jamás ha sido así quien tanto llore...
Y me pongo a vagar como una diva

Que coje florecitas como Core
Nel seño de la Natura viva
Antes que el suelo me devore.


Palavras à cigana (de Alma Welt)
279

Rafisa, lê depressa a minha palma
Mas não pares no meio da leitura.
Sempre o fazes como se uma ruptura
No fio do destino desta Alma.

Eu vejo como fechas minha mão
E o disfarças com um beijo ou sorriso.
Mas não conténs, cigana, o coração
E teu peito que ofega, em prejuízo

Do segredo do que é meu e tu me deves,
Pois se és vidente e quiromante
Honra a tua fama, a mal não leves,

Vai, revela tudo, não importa
Se a Morte for um hóspede galante
Que está prestes a bater na minha porta...

05/01/2007

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Nota
Descobri emocionada este soneto que mostra como Alma andava cheia de pressentimentos da morte próxima, mas não totalmente consciente, que é como o Destino brinca de se apresentar...
(Lucia Welt)



Palabras a la gitana (de Alma Welt)
(versión al castellano de Lucia Welt)


Rafisa, lea de pronto mi mano
No te detengas en medio a la lectura.
Siempre lo haces como una ruptura
En el hilo de mi destino humano.

Yo lo veo como miras con cuidado
Y a veces me confundes con un beso;
No te contienes el corazón alborotado
Y tu pecho que se pone teso

Si el secreto revelar no puedes,
Por seres vidente y quiromante
Honra tu fama, y dáme lo que debes,

Vá, revela todo, lea mi suerte.
Que la Muerte sea un huésped galante
Que todavía en mi puerta bate fuerte!



O claro e o escuro da Alma (de Alma Welt)
278


Amanhã verei meu ser refeito
E envolto em aura, libertado,
Serei o ser que sou, o ser eleito
De mim mesma, aceso, iluminado.

Farol na noite eterna de esperança
Ou sol no dia claro sempiterno,
O timbre escolhi eu desde criança
Ao escolher o amor, o bom e o terno.

Mas, bah! se o Cerro esfria e escurece
E pelas faldas onduladas de coxilhas
Do Jarau o minuano escorre e desce,

Da alma o lado escuro me fascina
Ao perceber o quanto, sim, ele me anima,
Esse contraste que produz as maravilhas!

(sem data)

Nota
Com o seu poder de criar ou de realimentar mitos, Alma parece dizer que o minuano nasce no Cerro do Jarau (vide A Salamanca do Jarau, de João Simões Lopes Neto) e quando este escurece e esfria, escorre pelas encostas e corre pela pradaria, como um desbordamento do lado escuro do mundo. (Lucia Welt)


El claro y el oscuro del Alma (de Alma Welt)
(Versión al castellano de Lucia Welt)


Mañana no seré lo que he sido
Pero envuelta en aura, libertada
Yo seré la nueva Alma emplazada
En mi ser verdadero y alumbrado.

Farol en la noche de esperanza
O sol nel día claro y sienpiterno
El timbre he escogido: la abastanza
De mi misma, del bueno y del terno.

Pero si el Cerro se resfria y oscurece
Por las faldas ondeadas de "coxillas"
Del Jarau el minuano escurre y desce

Y del alma el lado oscuro me fascina
Al darme cuenta de cuanto, si, me anima,
Ese contraste que produce maravillas!



Noite Xamânica (de Alma Welt)
277

Quando a noite é quente em meu jardim
Me ponho na varanda, excitada
E logo vou sair fora de mim
Para livre me sentir, e mesmo alada.

E vôo, ah! eu vôo sobre as flores
Pra de cima divisar o meu quiosque
Em que um dia iniciei-me nos amores
Pra depois consagrá-los no meu bosque

Onde então me torno loba ou cadela
Ssschhh!.. a grande coisa, um sábio disse*,
Exige que jamais falemos dela,

Pois me sinto voltar ao animal,
Enquanto vultos negros como piche,
Com seus lumes já me espreitam como tal...

29/06/2006

Nota

*"...um sábio disse"- Penso que Alma, parafraseando, se refere à famosa frase de Nietzsche: "As grandes coisas exigem que não se fale delas. A menos que falemos delas com grandeza. Com grandeza quer dizer: com cinismo e inocência".

Este soneto, de nítida inspiração xamânica, parece insinuar que Alma começa a noite como um pássaro (uma coruja?) e depois se transforma numa loba no cio (cadela), espreitada por uma alcatéia de vultos escuros mas de olhos luminosos. Alma se tranforma no seu "animal de poder". (vide Xamanismo).
(Lucia Welt)



Noche de Chamán (de Alma Welt)

(versión libre al castellano, de Lucia Welt)


Cuando es noche caliente en mi jardín
Me pongo en la baranda y excitada
A mirar la pampa y su negror sin fin
Para sentirme libre, leve y alada

Y vuelo, si, yo vuelo hasta las flores
Para el quiosco ver de arriba
En que un día me he quedado de amores
Que en el bosque he consumado, oh! mi amiga,

Adonde ahora me pongo sin candelas
(cosas hay, ha dicho el Gogh, buen profeta,
que no quieren que las pinten sobre telas)

Pues me siento tornarme al animal
Cercada ya por sombras y repleta
Con el lumen de su frío ojo fatal.



Reencontrando o general (de Alma Welt)
276

Amarrei minha montaria no mourão
Adentrando então a estância estranha.
No peito eu sentia o coração
Pulsando como os palpos de uma aranha

Que aguardasse a si mesma como presa
No centro de uma teia que era o mundo.
E assim eu caminhava muito tesa,
A sentir que o momento era profundo.

Então me vi diante da varanda
Do herdeiro de meu Netto general,
Que tirou o chapéu, como se manda

E mostrando os cabelos cor de nata
Disse: "Voltaste, minha princesa, meu Graal,
Que te espero, há muito, desde el Plata."

(sem data)

Acabo de encontrar este misterioso soneto da Alma na montanha de seus textos em sua arca do sótão. Alma parece querer dizer que, rencontrando o atual descendente direto do general Netto da Revolução Farroupilha, morto misteriosamente na Argentina
(em Corrientes) aqui indicada pela expressão "el Plata", este (por ser uma reencarnação do seu tetravô?) a reconhece como seu último grande amor (Maria Escayola) e a chama de seu "Graal", expressando a grandeza de sua procura romântica. (Lucia Welt)

Reencuentro con el general (de Alma Welt)
(Versión al castellano de Lucia Welt)


Amarré mi caballo en un montón
Delante la hacienda extraña
En el pecho yo sentía el corazón
A pulsar como palpos de una araña

Que aguardáse a si misma como presa
En el centro de una tela que era el mundo
Y todavía caminaba así muy tesa
Por sentir que el momento era profundo

Y fué cuando me ví en la baranda
Del Netto, el general o su heredero
Que se sacó de pronto el sombrero

Y ostentando el pelo color de nata
Ha dicho: tornaste, mi princesa blanda,
Que te espero, hay mucho, desde el Plata.

(sin data)


Palavras ao Vati (de Alma Welt)
275

Dá-me teu colo, Vati, estou carente,
A Açoriana acaba de afastar-me.
Eu sei, ela me acha delinqüente,
Somente tu, ó Vati, sabe amar-me.

Ela diz que me espevito ao ver "um macho",
Tu ou Rôdo, dia e noite, e sem que
Jamais, ela diz, "sossegue o facho"
Mesmo servida a minha quota de rebenque.

Mas, pai, foste tu que me criaste
E me disseste pra ser sempre verdadeira,
Que minha pele já propunha esse contraste

Com, do falso a escura face, escondida,
E que jamais porias na coleira
O ser que iluminou a tua vida!


06/11/2006

Palabras al Vati (de Alma Welt)
(Versión al castellano de Lucia Welt)

Dáme tu cuelo, Vati, estoy carente,
La Azorana acaba de alejarme.
Yo lo sé que me reputan delincuente,
Y solamiente tú sabes amarme.

"Ay! que no puedes ver macho, desde luego,
Tu Vati o el Rodo, dia y noche, sin que
Desdichadamente te despierte el fuego"
Y me sirve mi cuota de rebenque...

Pero, mi padre, ha sido tú que me criaste
Y me alertado a ser siempre verdadera
Y que mi piel propugna este contraste

Con la oscura cara del falseo, escondida,
Y que jamás quisieras ver en la collera
El ser que siempre ha alumbrado tu vida.


A leitoinha (de Alma Welt)
274

Galdério, prepara a tua charrete
Que hoje não quero cavalgar!
Leva-me como quando eu tinha sete
E dormia no teu colo ao regressar

E me tomavas nos braços com candor
Ao salão me transportando sem eu ver,
Me punhas sobre a mesa por humor,
Dizendo: “Hoje leitoinha vamos ter!”

E eu já despertada mas fingindo
Não resistia e gargalhava afinal
Sem ousar abrir os olhos, sensual,

Pois sentia o teu olhar tão inocente
Percorrer meu pequeno corpo lindo
Que queria ser tomado docemente...

09/07/2006

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Fiquei estarrecida ao descobrir hoje este soneto na arca da Alma. Senti-me primeiramente perplexa, depois chorei muito.
Ficou claro para mim, de repente, o gesto insólito, aparentemente incompreensível de Galdério ao pegar o corpo nu da Alma, quando de sua morte afogada no poço da cascata, e vir com ele nos braços como um sonâmbulo para depositá-la sobre a mesa do salão onde começou o seu espantoso velório nu, até ser interrompido pela irupção indignada de Matilde cobrindo-a com uma toalha de mesa, como um sudário.
Vide o blog "Vida e Obra de Alma Welt":(www.almawelt.blogspot.com) onde publiquei, já há tempos, a carta que escrevi na ocasião fatídica, narrando as circunstâncias da morte e do velório de minha amada irmã. (Lucia Welt)

La lechona (de Alma Welt)
(versión al castellano de Lucia Welt)

Galderio, en el carro "andiamo via"
Pues que hoy no quiero cabalgar!
Recuerdas cuando siete yo tenia
Y dormía en tu cuello, al retornar?

Y me tomabas en tus brazos con candor
Al salón me portando a nueva escena
Y al ponerme en la mesa con humor:
“Hoy habremos lechón para la cena.”

Y yo, ya despertada y disfrazando
No podría contenerme carcajada
Sin osar abrirme el ojo y encantada

Pues que sentía tu mirada inocente
En mi cuerpito tan bonito y ya amando
Que quisiera ser tomado allí, caliente


Nota
Aproveito para republicar aqui um dos Sonetos Pampianos da Alma (o de n° 232) em que ela aborda esse tema, tão terno e sugestivo: o de ser retirada adormecida da charrete e ser carregada por Galdério até a sala do casarão onde era colocada num sofá ou mesmo sobre a grande mesa como ela revelou no soneto acima.



Pietà sulina (de Alma Welt)
273

Vinha o gaúcho troncho em sua sela
Ferido por adaga gravemente,
Na mão direita a rédea como vela,
A outra mão a segurar o rubro ventre.

E estacando o seu pingo emfim cedeu,
Fez um aceno vago e foi caindo
Nos braços do Galdério que acorreu
A ampará-lo como a um guri dormindo.

E enquanto a alma ia sem adeus
Eu gravei a cena em minha retina
Como uma Pietà leda e sulina

Pois agora já estava entre os seus
Como o outro na estação divina
Fixando a morte insólita de um deus.


(sem data)

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Pietá del Sur (de Alma Welt)
(Versión libre al castellano de Lucia Welt)

Venia el gaucho curvo en su silla
Herido por espada y ya exangüe
Y en la mano derecha la cedilla
De la rienda rubra de su sangre

Y estacando su caballo me miró,
Ha hecho un gesto vago y se cayó
En los brazos del Galderio decidido
Que lo amparó como a un niño dormido

Y al ver el alma fuera de su campa
Yo gravé la escena en mi retina
Como una pietá honda y canina

Pues ahora ya estaba entre los suyos
Como aquél otro de la trágica estampa
A fijar la muerte insólita de un dios.


(sin data)



Conluios da Noite (de Alma Welt)
272

Elevam-se na noite os murmúrios
Das conspirações que aqui houveram
Nos tempos farroupilhas, e os conluios
Que nos ecos desta casa ainda prosperam.

E ouço: Canabarro se rebela
Contra Bento nosso grande comandante
Enquanto o bravo Netto se revela
O mais fiel amigo doravante.

Mas bah! são as prendas que os inspiram
Com seu doce pranto derradeiro
Na paixão ardente em que deliram,

Juntas, pelos quartos, e ao fogão
Cujas cinzas liberam um rico cheiro
Que, alta noite, invade o casarão...

02/10/2006

Conjuras en la noche (de Alma Welt)
(versión al castellano de Lucia Welt)

Suben en la noche los susurros
De las conjuras que acá hubieron
En los tiempos farroupillas y los turros
Que en esta casa se murieron

Y oigo: Canabarro se rebela
Contra Bento el nuestro comandante
En cuanto el bravo Netto se revela
Un amigo fiel, más adelante.

Pero son las “prendas” que los inspiran
Con su llanto verdadero y los de broma
En la pasión ardiente en que deliran

Juntas en los cuartos y al fogón
Cuyas cenizas aún liberan rico aroma
Que de noche invade el caserón.


Meu overmundo (de Alma Welt)
271

Tive um sonho esta noite, recorrente,
Pois me pareceu bem familiar:
Eu morria jovem, de repente,
E não podia decidir quando voltar.

Antes me era dado ver o mundo,
Mas sem escolher hora e lugar
E teria assim meu overmundo
Pois que Deus me queria premiar.

Mas, bah! eu chorava de saudade
Do meu pampa, estância e casarão,
Minha querência, Rôdo, nossa herdade!

E tanto solucei, e o pé batia,
Que Deus não suportando a confusão
De cabeça me atirou na pradaria!...
14/11/2006

Nota
Surpreendentemente, encontrei hoje de manhã este soneto inédito da Alma, em sua arca, que evidencia que ela conhecia o poema de Murilo Mendes, e que este a inspirou de maneira singular. Mas pode-se perceber também a semelhança da cena por ela descrita com um outro texto, um belíssimo monólogo de Cathy Earnshaw (ou Cathy Lindon), do romance O Morro dos Ventos Uivantes( Wuthering Heights) de Emily Brönte, que Alma amava sobretudo, por sua imensa identificação com a personagem da charneca inglesa vitoriana). (Lucia Welt)


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Mi overmundo (de Alma Welt)
(versión al castellano de Lucia Welt)



Tuvo un sueño esta noche, recurrente
Pues me pareció muy familiar:
Yo moría joven, de repente,
Y no podría decidir cuando tornar

Antes me era dado ver el mundo
Aunque sin escoger hora y lugar,
Yo tenería así mi "overmundo"
Pues que Dios me quería premiar.

Pero yo lloraba en nostalgia
De mi Pampa, hacienda y caserón
Nuestra herencia, Rodo, lo que habría!

Y tanto he sollozado y el pie batía
Que Dios, que no es ningún cabrón,
Me lanzando en la pradera se reía.



Memória do Bosque Sagrado (de Alma Welt)
270

Esta noite irei ao meu pomar
Acender a pira dos meus deuses
Ali eles verão eu me ajoelhar
Como outrora no bosque de Elêusis.

E ao ver o fumo branco ascender
Do nosso mate em proporção secreta,
Eu me regozijarei ao perceber
Que os deuses aceitaram minha oferta.

E então eu abrirei meu coração
Para que vejam o ardor do meu desejo
Que não exclui pureza e devoção,

Pois quero somente preservar
A união de todos em que vejo
A mesma solidão, o mesmo olhar...

24/12/2006

Nota
Encontrei na arca da Alma esta reprodução de quadro de Arnold Boecklin do acervo do Hamburger Kunsthalle, em cartão postal onde no verso ela escreveu este soneto na véspera do seu último Natal. Como podem perceber Alma acreditava ter, numa de suas encarnações, vivido em Elêusis onde fora uma sacerdotisa órfica, do culto de Mistérios daquela doutrina reencarnacionista do século VII A.C., na Grécia. (Lucia Welt)


Aqui estarei... (de Alma Welt)
269

Aqui estarei, meu Rôdo, quando tudo
Naufragar em nós com o navio
Que é este casarão já quedo e mudo
A crepitar como uma vela sem pavio,

E nós, como sombras sorrateiras
Esgueirarmo-nos por estes corredores
Ou por este salão e suas soleiras
Que olharão para os últimos albores

Já a nos ver espectrais em cavalgadas
Ou mesmo a pé a vagar nas pradarias
Nas novas noites, eternas e tão frias...

Ai! Não mais claras manhãs, e orvalhadas,
Onde rindo perdoavas meus deslizes
E eu aos teus, por sermos tão felizes!

14/01/2007

Nota
(Encontrei agora mais este soneto que me fez chorar. Alma previa sua morte iminente e expressava seu amor desmedido por isto tudo, sua vontade de permanecer para sempre por aqui, mesmo vagando, sem manhãs orvalhadas. Mas... ela se via a vagar eternamente com Rôdo, o irmão amado.(Lucia Welt)


De sonhos e de vinho (de Alma Welt)
268

Os sonhos dos meus antepassados
Perpassam meus sonhos, eu percebo,
Mas nem por isso são sobressaltados.
E assim posso amá-los, e os recebo

Densos, encorpados, como o vinho
Que legaram a nós no casarão,
Ali sob meus pés, que os advinho
Dormitando mansos no porão

E que quando vêm à mesa entre risos
E o tilintar dos brindes e desejos
Trazem lágrimas de amor por entre beijos

Que estalam nos lábios como guizos
De uma canção ouvida dos avós
Ou como um só coração dentro de nós.

(sem data)


Meu trem fantasma (de Alma Welt)
267

Venham formas-pensamentos, devaneios,
E invadam-me de noite o casarão!
Meus amores estão longe, e os anseios
Preservam-me da negra solidão.

Mas o vazio... a custo eu o evito
Pois sei que ele, só, pode matar-me.
Venha aquele trem, pois, assombrar-me
Com seus brancos fumos e o apito

Naquela plataforma enevoada
Onde sempre deixei os meus queridos
Para vê-los partir em revoada

Envoltos no vapor de suas glórias,
Me deixando aqui, como os banidos,
Num comboio eterno de memórias...

29/12/2006

Nota
(Acabo de encontrar na arca da Alma, este magnífico e misterioso soneto, até então desconhecido por mim, que evoca como metáfora a estaçãozinha e o trem maria-fumaça que serve as nossas terras, imagem recorrente em outros sonetos e também em crônicas e romances de minha saudosa irmã. (Lucia Welt)
______________________________________

A título de curiosidade republico aqui este soneto da série Pampiana, para evidenciar a recorrência dessa imagem da estaçãozita e do trenzito maria-fumaça que serve nossas terras e que era tão querido por minha saudosa irmã. (Lucia Welt)


Os últimos brindes (de Alma Welt)
266

Por ser filha amada de meu pai
Eu pude acreditar em ser poeta,
E suspeito que o mundo um dia vai
Fruir e degustar a predileta

Nascida sob estrela de abastança,
Interior, quero dizer, e dadivosa
Meu desejo é desbordar-me generosa
Como o cálice servido na festança

Quando o "gáltcho" grato na querência
Começa a discursar aos seus compadres
E a mão já lhe treme em conseqüência

Pois os brindes brotam já em borbotões,
Junto com as juras aos confrades
De veraz fidelidade entre peões.

19/12/2006



Nota

Emocionou-me a descoberta recente de mais esta "profissão de fé" da Alma, mista de saudação (ou brinde) e despedida do seu público como os confrades da festa da Vida. (Lucia Welt)


Sonhos (de Alma Welt)
265

Meu corpo traz em sua memória
O toque e as carícias dos amados,
Homens e mulheres, e a história
Dos murmúrios e silêncios encontrados.

E assim, abandono-me no sonho
Carregada de vívidas lembranças
Como arquivo vivo que disponho
Para os dias de menos esperanças.

Eis porque acordo perturbada,
Menos por carência e mais paixão,
Por vezes uma ânsia exasperada,

E erguendo-me da noite na calada
Vou ao seu leito, em sonho da razão,*
Insinuar-me nua, assim, colada...


(sem data)

*Nota
O fato de Alma ter colocado como epígrafe a famosa frase encontrada numa gravura de Goya da série Caprichos denota a consciência plena de sua relação proibida, já bem conhecida de seus leitores. Todavia sempre achei que a beleza lírica que ela punha na abordagem dessa relação, a fazia transcendente, a justificava e absolvia. (Lucia Welt)


O recurso Münchhausen (de Alma Welt)
264

Como viver depois de ter vivido
Não o amor mas horror do coração
Após golpe, desonra, humilhação
Ou violação da carne sem sentido?

Como viver com o sonho desfeito
Do que era a própria imagem do viver?
Cair das nuvens ou mesmo desse leito
Onde se foi feliz, e não morrer?

Bah! Há que puxar-se por cabelos
Da alma como o lance do barão
Que afundava só e sem apelos

No poço de uma movediça lama,
E com o baio magro da razão
Alçar-se bem acima dessa cama!


08/03/2002

Nota

Acabo de encontrar mais este soneto inédito da Alma, na sua arca. Publiquei-o imediatamente no blog dela dos Metafísicos. Entretanto detectei nas duas estrofes uma alusão a um estupro real sofrido por ela, não sei se aqui na estância ou em São Paulo. Mas ela se refere a um leito. A julgar por outras narrativas suas eu teria que descartar a imagem de uma cama, que aqui seria meramente simbólica, pois as ocorrências que eu conhecia descartavam esse artefato e mais horrorizavam pelos locais e circunstâncias. Mas, por outro lado, admito a possibilidade de estar equivocada e o soneto da Alma ser uma pura alegoria das desiluções, das dores da alma e da capacidade do ser humano de recompor-se com as próprias forças. Devo lembrar também que a evocação desse episódio das aventuras do famoso barão bávaro é recorrente na obra da Alma, e já fora citado, por exemplo, no final do belíssimo conto Aline, dos Contos da Alma de Alma Welt , publicado pela Editora Palavras & Gestos, de São Paulo.(Lucia Welt)


Agradecida (de Alma Welt)
263

Pelos amores que quis ou que vivi
Nos dias e nas noites estreladas,
Em apelos à lua e às amadas
Estrelas cujas luzes recebi;

Pelo dom que assim me fora dado
Quando erguida nos braços de meu Vati*
Fui consagrada como ser predestinado
A ser um ser de luzes, mesmo um Vate;

Pelas doces coisas que me deram
Aqueles que tão logo rodearam
A guria que em contentar se esmeram,

Mimada, servida, tão louvada...
E a alguns que até me bajularam
Como se princesa fora... OBRIGADA!

16/01/2007

Notas
Descobri nesta madrugada este sugestivo e comovente soneto de minha irmã, que ao mesmo tempo que reflete seu reconhecimento pelos privilégios de sua vida, soa como uma despedida, sim, um agradecimento final de quem está prestes a sair de cena, o que ocorreria quatro dias depois, no fatídico 20/01/2007. E novamente chorei... (Lucia Welt)

* Vati- pronuncia-se Fáti (papai, em alemão. De Vater (pr. Fáter, pai). É como chamávamos nosso pai, o músico, estancieiro e erudito Werner Friedrich Welt.





O fio da navalha (de Alma Welt)
262

Quando penso nos lances que vivi,
Vejo que já estavam em meu destino
E ao passar por eles revivi
Um trajeto antigo e muito fino:

Uma espécie de fio de uma navalha
Em que caminhamos entre abismos
Para subir ao Olimpo ou ao Walhalla
Ou alguns que tais paroxismos.

E depois do caminho percorrido
Quase divididos pelo fio
Chegamos ao plano prometido

Um enorme e belo prado ondulado
Pelo Letes* cortado, aquele rio,
E teremos a nós mesmos alcançado.

09/06/2006

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Notas

Encontrei este soneto manuscrito, solto no meio da papelada da Alma, e dei-me conta de que não o conhecia, não o transcrevera ainda nos seus blogs. Acabo de publicá-lo nos "Sonetos Metafísicos da Alma", que recomendo aos leitores:
www.sonetosmetafisicosdealmawelt.blogspot.com (Lucia Welt)

Letes- rio do esquecimento que cortava a planície do mesmo nome, e de cujas águas as almas dos mortos eram obrigadas a beber, esquecendo assim a sua vida anterior antes de escolherem sua nova vida. Ao todo passamos por dez encarnações em cada ciclo de mil anos, segundo Platão no mito órfico de Er, nas últimas páginas de A República.


Altas horas (de Alma Welt)
261

Altas horas, o sono interrompido
Pelas batidas do relógio pendular
De meu avô, o boche pouco lido
Que o instalou na sala de jantar

Para ser um marco ou referência
De sua passagem tão austera
Por este casarão e sua esfera:
O vinhedo, o pomar e a querência...

Então eu me levanto e saio nua
Quando estamos do verão no suadouro
Ou de camisola, menos crua,

Para ir ao mundo dos meus livros
Pousados nas estantes, logradouro
Dos mortos que permanecem vivos.


17/12/2006

Nota:

Não paro de descobrir novas preciosidades da Alma na sua arca do nosso sótão. Seus sonetos (já passam de mil os que publiquei nestes seus 22 blogs) constituem por si só um corpo de obra monumental, sem contar os textos em prosa, contos e crônicas, lendas e romances. Este soneto me encantou sobremaneira, pois, como testemunha, quantas vezes também despertei com as sonoras e sinistras badaladas do relógio e fui encontrar a Alma, linda e nua a ler na poltrona do escritório onde adormecia novamente com freqüência, até ser descoberta ali, nesse estado, por nossa mãe, que a arrastava dando-lhe lambadas até o quarto, ou por nosso Vati, que ao contrário a carregava nua no colo, com carinho, de volta ao seu leito.(Lucia Welt)

Meu Pampa verdadeiro (de Alma Welt)
260

Para além do meu jardim e do vinhedo
Começa o meu pampa verdadeiro,
Bem mais que de um mar o arremedo,
As ondas em que o “gaucho” é marinheiro:

As coxilhas ondulantes, femininas,
Semeadas de intermitentes frondes
Dos umbus que coroam as colinas
Onde senta o peão mirando os “ondes”

Para logo remontar o fiel pampa
A galope desatado atrás da rês
Ou as bolas girando, aquelas três

Pra bolear as pernas de uma ema,
Ou o laço enroscar num par de guampa
Como quem lança o fecho de um poema.

04/12/2006
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Encontrei recentemente mais estas duas jóias de minha irmã (na montanha de papéis dos inéditos da sua obra, na arca do nosso sótão) que se enquadram na série "Sonetos Pampianos" que eu precipitadamente fechara em 258. As novas descobertas deste tipo estou agora publicando aqui e no blog dela entitulado "Sonetos Gauchescos da Alma" (Lucia Welt)

Meu evangelho do Pampa (de Alma Welt)
259

Por esta manhã que me acordou
Eu sigo pela senda renovada
Que me confirma onde Amor brotou
Quando dei por mim tão deslumbrada

E era a guria apaixonada
Por tudo e por todos nestes prados
Em que renasci, pois transplantada
Viera de uma terra de emigrados,

Lá do Novo Hamburgo, Hamburgo Velho
Que a mim me dera só germanidade
Faltando do meu Pampa o evangelho

Que consiste na amplidão da herdade
E o meu senso de vôo (bah! não riam!)
Em que corpo e alma se uniriam...

16/11/2006

12/03/2008

O Último Verão (de Alma Welt)

Cai o Pano (de Alma Welt)
418


Suspeito que após a minha morte
Poucos serão os que acreditem
Que esta Alma viveu a sua sorte
Entre eles, por mais que aqui me fitem

Nestes versos que refletem minha luz
E a beleza que foi a companheira
Dos meus pensamentos, e a maneira
De viver a própria saga que compus.

Vida e Arte em mim associadas!
Sobre as minhas fontes e a trilha
Que tracei nas pradarias onduladas

A cortina final já vem descendo
Como o poente rubro na coxilha
Que morro a mirar, assim, morrendo...

16/01/2007







417

Este é o verão da despedida,
Eu sei, e dói-me tanto, tanto!
Ao deitar ouvi o último acalanto
Da Matilde, a mim, já tão crescida,

E os sonhos que sonhei, quase pungentes
Com sinais de adeuses e viagens,
O trenzinho de fumaça e suas mensagens
De partidas e névoas iminentes...

Oh! Vento, meu comboio de estação!
Não posso o casarão abandonar,
A vinha e o vinhedo em solidão

A esperar mais uma dança do lagar
Desta Alma em branco riso temporão
Com a saia arrepanhada, a patear...


10/01/2007

Canto da lua pálida (de Alma Welt)

257

Vai a vaga lua após as chuvas*
No meu pampa como barca solitária,
Nave fantasma, revolta e passionária
Em farrapos sobre mar das minhas uvas*.

Então saio pro jardim, vou ao vinhedo
Ao encontro da nave que me anima
A deixar-me lunar em seu segredo
Para saber o fim que me destina

Pois com meus alvos braços estendidos
Para o alto clamo a indagação
De quais os meus sinais e seus sentidos

E antes que a clareza se me esvaia,
Meus joelhos dobram e vou ao chão
Enquanto a lua pálida desmaia.*

17/01/2007

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Nota da editora

Este belíssimo soneto recém encontrado na arca da Alma, tanto se encaixaria nas "Canções da Lua", como nestes Pampianos. Impressiona-me também como ele revela o pressentimento da Alma de seu trágico destino próximo.

*Vai a vaga lua após as chuvas- Percebe-se aqui os ecos do título do filme magnífico de Kenzo Misoguchi, de 1953, "Contos da lua vaga após a chuva", que a Alma viu em DVD.

* Nave fantasma, revolta e passionária/Em farrapos...- Imagem maravilhosa que sugere uma nave farroupilha (em farrapos ) como a de Garibaldi, navegando sobre o mar das uvas do nosso vinhedo


*...a lua pálida desmaia- Alma quer dizer que a lua desfalece para não responder ao ser questionada pela Alma sobre o seu destino iminente.

(Lucia Welt)

Lindas manhãs da minha juventude (de Alma Welt)

256

Lindas manhãs da minha juventude!
Sofro por amá-las e perdê-las
Quanto maior a plenitude,
Por saber que não posso detê-las.

No despenhadeiro meu das horas
Quisera não ser tão consciente
Do fatal desfecho inclemente
Que tu, ó mente, corroboras!

Todo o meu ser se inclina ao poço
Na vertigem que é a minha estrada,
Que projetei depressa num esboço

De amor e de beleza pura ânsia
Que parece o meu pingo em disparada
Pelas sendas sagradas desta estância...

18/01/2007


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Nota da editora

Acabo de encontrar ainda este soneto, certamente da série Pampiana que eu pensava encerrada em 256. E percebo, estarrecida, que este seria, inclusive pela data, o penúltimo escrito por minha irmã que já antevia o seu poço fatal (da cascata) e para ele se dirigia conscientemente como o Cristo no Horto, se me é pemitido tal comparação. Agora que estou convencida de que minha irmã não se suicidou, mais claros e maiores me parecem seu Getsêmani e sua tragédia. (Lucia Welt)

04/03/2008

Perigos do não mirar (de Alma Welt)

255

Dedicarei ao Galdério uma loa
Por peitar um peão desembainhado,
Que ao que parece o queria degolado
Por ser fiel amigo da patroa.

Então, assim que estava desarmado
Interpelei o peão severamente:
"Por quê estás assim tão exaltado,
Não vês que o Galdério é boa gente

E repete as ordens que lhe passo?
Como a todos, pra que ninguém se fira
Acaso não te dou o mesmo espaço?

E o gaúcho envergonhado revelou:
"Não suporto saber que tu le mira
Nos olhos e os meus tu nunca olhou!"


(sem data)

Da dupla existência da Alma (de Alma Welt)

254

Ondas de amor e de delírios,
Ventos de amar e exaltação,
Tempestades de rosas e de lírios,
Galopes pelas plagas de amplidão,

Eis a que chegou a minha vida,
Encerrada em minha pele sem descanço,
De desejos, febres, erros, e a lida
De encontrar na poesia o meu remanso.

Mas, bah! Não há pausa na poesia,
A vida continua em sua ânsia
De mais e mais viver e se extasia

Com a dupla existência, e eu pasmo,
De viver o sonho desta estância
E pô-lo no papel como um orgasmo!...

12/01/2007

03/03/2008

As ausências do Galdério (de Alma Welt)

253

Galdério, factotum incansável,
Vem ultimamente se ausentando
Com a sua charrete indispensável
Nos tempos do Vati aqui reinando.

Então hoje cedo fui mais fundo:
"Galdo, me permite perguntar
O que tanto fazes lá no mundo
Onde "gáltcho" como tu não tem lugar?"

"Não foste tu mesmo que disseste
Que querias morrer sem mais deixar
A planura onde está tudo que preste?"

Mas o gringo sério logo emenda:
"Princesa, tenho ido alimentar
O peão de quem mi madre foi a prenda."


09/11/2006

De sombras e aromas (de Alma Welt)

252

As sombras do passado desta estância
Continuam a crescer e a ameaçar.
As noites geram medos e a ânsia
De uma antiga dívida saldar:

A do boche, o nosso avô Joachim
Que ao comprar a terra em desgraça
Deixou pros meus irmãos e para mim
Um patrimônio com peso de uma raça.

Aqui acamparam os farroupilhas,
Nesta mesa além do clã do Valentim*
Sentou Bento Gonçalves* com as filhas.

Sete mulheres* deitaram-se nos quartos
E ainda sinto o cheiro do alecrim*
E os gemidos, dos amores e dos partos...

05/12/2006

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Notas da editora

*Valentim- Valentim Ferro o antigo dono de nossa estância, que arruinado a vendeu (suicidando-se em seguida) para o nosso avô alemão Joachim Welt que plantou um vinhedo, transformando-a de estância de gado e de charque em produtora pioneira de vinho em pleno pampa

*Bento Gonçalves - O principal comandante da Revolução Farroupilha contra "os imperiais".

*sete mulheres- referência à mulher e filhas de Bento Gonçalves (vide "A casa das sete mulheres", magnífico romance da gaúcha Letícia Wierzchowski.

*alecrim- além de planta odorífera e condimento muito comum aqui no sul, do ponto de vista simbólico, muito a propósito no soneto da Alma, é a erva da recordação

(Lucia Welt)

A blefadora (de Alma Welt)

251

Irmão, dá-me a mão, ó meu amigo
Entre este verde e o azul celeste!
Amanhã não estarás comigo
Mas sim na venal Punta de Leste.

À mesa, com as cartas, nem te lembras
Da dama com quem corres estes prados,
E só verás rainhas de outras lendas,
Valetes, reis e coringas abobados.

Embora saibas sempre que te quero
E a mão que tenha seja ruim,
Blefo ao fingir que não te espero.

Bah! Como sou boa jogadora!
Minhas cartas a esconder de mim
Numa aberta caixa de Pandora...

16/01/2007

Pedindo emprêgo (de Alma Welt)

250

O peão batendo esporas se achegou
Tirando o chapéu mas sem modéstia,
E pra justificar que o tirou
Com rubro lenço secou a alta testa:

"Buenas, comadre, com quem falo?
Preciso falar com o patrão,
Venho vindo de lá da São Gonçalo
Onde dei de prancha num poltrão

Que sem competência ou a machesa
Perante o povo, a Pampa e o pampeiro
Quis tirar-me a china e a realeza.

Mas parece que falo com a rainha...
Poderás ver que sou bom cavaleiro,
E mantenho minha faca na bainha."

10/07/2006

02/03/2008

O cavaleiro (de Alma Welt)

249

Quando guria eu andava pelo prado
A colher flores do campo, já contei,
Mas algo aqui eu nunca revelei,
Que é como encontrei-me com meu Fado.

No meio da extensa pradaria
Vinha vindo o cavaleiro embuçado,
Até que ao deter a montaria
Pude sentir-lhe o hálito gelado:

"Alma, continua a colher flores,
Já que tens o dom da arte e da poesia,
Mas não terás sossêgo nos amores."

"Com convivas, trinta e cinco, e uma vela,
Espera-me à mesa, eu volto um dia
Pra levar-te, prenda minha, nesta sela".


02/01/2007

Fiquei estarrecida quando encontrei este soneto. E tive que chorar novamente. Ele evidencia como Alma sabia de sua morte próxima, no dia 20/01/2007, e das circuntâncias de seu velório sobre a mesa de nossa sala, com a vela acesa e os convivas, os trinta e cinco anos fecundos de sua vida. Aproveito para republicar aqui o soneto "Visão", do dia 03/01/2007, que complementa esta premonição sobre o o inaudito e espantoso velório nu da Alma. (Lucia Welt)


Visão (de Alma Welt)
(77)

Ser a musa eternizada do meu pampa!
Cantar, celebrar e endoidecer
De tanto amar até saltar a tampa
Do coração e da mente, e então morrer!

Nua, estranhamente, sobre a mesa
Estendida me vejo, uma manhã:
Um desfile silencioso me corteja
De peões, peonas e algum fã.

Mas olho o meu corpo de alabastro,
Absurdo e belo ali, e não à toa
Eu noto algo nele que destoa:

Sobre a alvura do pescoço bailarino
Uma faixa vermelha como um rastro
Da corda que selou o meu destino...

03/01/2007

01/03/2008

De pôquer, amor e cinismo (de Alma Welt)

248

Bom jogador mas cínico fantástico,
Meu irmão ganhou uma bolada,
Chegou jogando a pilha com elástico,
Dizendo: "É todo teu, não quero nada!"

"Só retirei um pouco para o jogo
Pois o pôquer bom é o seguinte,
A nova mão, o blefe e o logro,
Pois jogar é um roubo com requinte."

"Todavia se fizeres bom proveito
E levares este barco para adiante
Mesmo com a Poesia tua amante,"

"Eu me sentirei mais liberado
Pra ganhar ou perder com teu respeito
Pois a Alma sorri e sou amado..."


07/01/2007

À deriva (de Alma Welt)

247

Altas horas, silêncios rumorosos
De grilos, de sapos e os estalos
Do casarão com seus nichos tenebrosos
Por onde o Tempo escorre pelos ralos.

A casa arfa, suspira, sofre e geme
Com o peso de sua circunstância.
Como um barco náufrago, sem leme,
Que já não disfarça a sua ânsia,

A ausência de piloto é um mistério...
A poetisa, o jogador e a cosinheira
E um contra-mestre com nome de gaudério

Somos pois os tripulantes que vagamos
Dentro de uma nave sem esteira,
E não sabemos mais pra onde vamos.

15/01/2007

Vozes no casarão (de Alma Welt)

246

Esta noite ouvi tristes lamentos
Pelos corredores desta casa.
Estava eu imersa em sentimentos
E pensei: "É minha alma que extravasa."

"Sou eu, sempre eu mesma, vem de mim!
Meu ser carrega a dor do mundo
Junto com o seu amor sem fim
Vindo do meu cerne mais ao fundo."

Mas o som parecia vir do ar,
E outro que não a minha voz
Não me deixava me enganar:

Era o cantochão da Açoriana
Confrontando o lied* dos avós,
E a confundir esta Alma pampiana...

09/11/2006


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Nota da editora

* lied- canção em alemão( plural: lieder) gênero de canções alemãs de câmara (eruditas) para serem cantadas individualmente por solistas de vozes líricas (soprano ou contralto, tenor, barítono ou baixo). São famosos, por exemplo, os lieder de Shubert, como A Truta, A Fiandeira, O rei dos álamos, etc. Alma quis dizer que as vozes de nossos avós alemães, Joachin e Frida, soavam como lied em oposição ao lamento católico, cantochão (canto gregoriano) de nossa mãe açoriana. (Lucia Welt)

28/02/2008

Fogos-fátuos (de Alma Welt)

245

Esta noite irei ao cemitério
Para ver os fogos-fátuos lampejando;
Os peões temem muito o seu mistério
E acreditam que são almas vagando

Fugidas dos túmulos, seus leitos
Que anseiam deixar definitivo
Para estar conosco por motivo
De recuperar lares desfeitos.

Pelo sim, pelo não, estou com medo
Mas a curiosidade é maior
E nunca gostei de dormir cedo.

Mas, bah! encontrar a Açoriana*,
Sua chama sofrida, sem calor,
Me faz sentir-me um tanto leviana...


(sem data)


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Nota de editora

*Açoriana- Para quem está entrando no blog da Alma pela primeira vez, devo explicar que "Açoriana" era como Alma chamava a nossa mãe, Ana Morgado, catarinense neta de açorianos. Nossa Mutti (mamãe) faleceu quando Alma tinha dezesseis anos. Sendo muito diferente da Alma, ao contrário do Vati (papai), houve sempre muita dificuldade de relacionamento entre a duas.(Lucia Welt)

O punhal nas águas (de Alma Welt)

244

Com meu Rôdo como sempre mergulhei
No poço da cascata esta tarde
E nas águas transparentes encontrei
Um punhal de prata de "compadre",

E o mano diz ser lance muito antigo
Que fazia um "gaucho de honor"
Que tivesse sido salvo por amigo
Cuja arma tivera mais valor.

E lembrei-me então da narrativa
De um velho boiadeiro meu vizinho
De como o pai deixara a vida ativa

Por ter ficado eterno devedor
De um que de seu filho era padrinho,
E salvara de si mesmo em dor de amor.

(sem data)
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Nota da editora

Este soneto Pampiano me pareceu de sentido não muito claro. Alma por sua paixão pelo Pampa, conhecia bem os costumes gaúchos, mas por vezes narra coisas obscuras, costumes e tradições que não encontrei meios de conferir. É verdade, porém que não tenho a entrada e o trânsito que ela tinha nos ambientes e na intimidade dos peões. Entretanto encontrei dentro de sua arca um punhal de prata antigo, magnífico, todo lavrado, que pode ser esse do soneto, encontrado no fundo do laguinho da cascata. (Lucia Welt)

27/02/2008

Vôo sobre o reino (de Alma Welt)

243

Pelas campinas mágicas do Pampa
Desta Alma em vôo permanente
Sobre este rincão da minha mente
Que é como um mapa ou fina estampa

Do mundo que a mim parece vário,
Eu percorro meus domínios qual rainha
Mas não como aquela num cenário
Montado pela corte tão mesquinha*.

Eu sei o que há além de cada rampa
De coxilha, por trás de cada olhar
De peão que navega o mar de guampa

E dos olhos sombreados no vinhedo
Que sob o lenço no chapéu pra não voar
Sonham lances improváveis de amor ledo.


09/11/2006

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Nota da editora

*..."montado pela corte tão mesquinha"- Alma se refere ao episódio "histórico" (talvez lendário) da Imperatriz Catarina II da Rússia (1729-1796) que manifestando desejo de conhecer o seu Império, seu ministro e cortezãos montaram, sem que ela percebesse, cenários de tapumes de belas aldeias ao longo da estrada que ela percorreu sem sair da sua carruagem, com camponeses (contratados ou sob ordens) sorridentes e bem vestidos em seus coloridos trajes folclóricos, atirando flores e acenando para ela entusiasticamente. Não é preciso dizer que Catarina voltou eufórica para o seu palácio, certa de que seu reino era feliz e ia às mil maravilhas. (Lucia Welt)

Retorno ao bosque (de Alma Welt)

242

Atravessando o bosque tão amado
Me embeveço com a sua maravilha:
Musgos, líquens, o solo alcatifado
Que esconde a vida que fervilha.

Ali os cogumelos... e esses gomos
Ou orelhas recobrindo velhos troncos
Onde se escondem eles, bons gnomos,
Quando fogem dos trolls, aqueles broncos.

E de repente o pássaro ignoto
Que só canta quando piso nessa relva
Alerta-me os perigos que não noto

Pois o lobo pela Mutti encomendado
Quando eu era guria nessa "selva",
Deve ainda rondar esfomeado...


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Nota da editora

Nossa mãe, a Mutti, ou a "Açoriana" como Alma poeticamente a chamava, tentou incutir medo na Alma quando guria, a respeito do nosso bosque, que ela talvez considerasse mesmo perigoso. Mas o espírito aventureiro da Alma era mais forte, assim como o seu amor e fascínio pela Natureza, que superavam até mesmo um vago receio que restou como resíduo do mito desse "lobo", que persistiu, apezar de tudo, no espirito da corajosa guria como um ruído de fundo ou um arquétipo do Mal difuso no mundo... (Lucia Welt)

Aproveito para republicar aqui o soneto 196 para que o leitor compare ou se lembre da recorrência desse "lobo" mítico no bosque da Alma:


De lobos e guris (de Alma Welt)

(196)

Minha mãe dizia haver um lobo
No bosque aqui perto e emboscado
E que eu deveria ter cuidado
E nem sequer ir ali com o meu Rôdo,

Pois meu irmão, guri bem destemido,
Não seria páreo pro vilão
E que depois de assado e comido
Eu seria a sobremesa alí à mão.

Mas a curiosidade era mais forte
E eu entrava com ele ou sozinha
Embora jogássemos com a sorte

Pois a verdade era que eu creía
Haver o lobo que comia criancinha,
E até hoje ainda creio: o lobo havia.

13/01/2007

25/02/2008

Episódio matinal (de Alma Welt)

241

Manhãs gloriosas desta estância!
Com a saia arrepanhada, entre coxilhas
Persigo eu, a rir, minhas novilhas,
Revivendo um prazer da minha infância.

Mas, bah! logo me vejo observada
Por um "gáltcho" sério e sisudo
Dos que não riem senão de madrugada
Quando em torno da chaleira podem tudo.

Então acerto o passo disfarçando
Como cabe à prenda ou filha de patrão
Deixando a barra do vestido ir ao chão

E faço um cumprimento de cabeça
Digno e sincero, esperando
Que a ordem universal restabeleça.

08/04/2004

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Nota da editora

Este encantador soneto pampiano é, ao meu ver, um dos melhores testemunhos da capacidade da Alma de fazer poesia e crônica ao mesmo tempo, no espaço exíguo de 14 versos, captando sentidos e estórias sutis de mínimos acontecimentos, aparentemente triviais, que à maioria das pessoas passariam despercebidos. (Lucia Welt)

A encrenqueira (de Alma Welt)

240

Esta noite farei preces no pomar
Aos deuses e também a outros entes,
Ataviei-me em panos transparentes
E por isso terei que me esgueirar.

Se preciso sairei pela janela
Descendo pela minha amoreira
Pois o medo da Matilde ainda me pela,
Que tantas vezes se planta na soleira

E tenho que evitar ser apanhada
Pois teme que me pegue algum vilão,
(que pra ela estarei mais que pelada)

E vigia sua "niña" encrenqueira
Por horas sorvendo o chimarrão
Enquanto orvalho cai sobre a roseira...




15/10/2006


Nota da editora

Ah! minha irmãzinha... E no entanto, Matilde é que estava certa, pois foi o que (não no pomar, mas na cascata) acabou acontecendo, e ainda a tua morte... Se tivesses ouvido a tua babá não te arriscarias tanto, e estarias ainda conosco, e não te estaríamos chorando. (Lucia Welt)

Chuva e sol, ou La niña (de Alma Welt)


Chuva e sol no pampa de Alma Welt - óleo s/tela de Guilherme de Faria

239

Rôdo, mano, vai na frente espionar
Pra ver se posso entrar pela cosinha!
Matilde já não quer acobertar
As loucas escapadas de "la niña".

Já que estou molhada e seminua,
Minha Bá achará que estou sem roupa
E a Mutti se me pega perpetua
O mito de que Alma é mesmo louca.

Com a chegada do nosso haragano,
Bah! rolar na chuva nestes prados
Com o sol em contraponto pampiano

E ter estado nos teus braços, meu irmão,
Gritando de alegria, ensopados,
Vale na certa os tapas e o sermão!

04/11/2005


Nota da editora

Ao encontrar este soneto mais uma vez me comovi, pois ele recorda um fato que testemunhei. Lembro-me bem desse dia, quando Alma ainda adolescente (15 anos) chegou ensopada, com o vestido colado no corpo (que realmente a deixava nua), linda e afogueada, entrou em casa se esgueirando e ao mesmo tempo sorridente, travêssa. Nossa Mutti era viva quando do fato portanto Alma escreveu este soneto muitos anos depois do ocorrido. O vitalismo, alegria e integração de minha irmã com a Natureza eram comoventes, e ao recordá-lo não posso acreditar que ela se foi... (Lucia Welt)

23/02/2008

A arca (de Alma Welt)

238

Qualquer poema meu ou texto escrito
Atiro numa arca muito antiga
Que contém de mim o feito e o dito,
Também algum mal-feito, há quem o diga:

Minha Mutti já não mais quer saber
O que eu registro do que vivo
Com receio de chocar-se ao perceber
O quão revelador é aquele arquivo.

E então ordenou ao meu Galdério
Que queimasse aquela urna arcana
Ou enterrasse além no cemitério

Esquecida de que o nosso charreteiro,
Bem mais fiel a mim que à Açoriana,
Não trairia o seu pampa verdadeiro...


25/08/2006

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Nota da editora

Encontrei, surpresa, este soneto inédito que se refere à própria arca dos escritos da Alma, de que eu sempre conheci a existência secreta e da qual fui aliada desde guria, ajudando-a mesmo, junto com o Rodo a escondê-la da Mutti. Entretanto Alma a mudou de esconderijo por receio de nossa mãe, que suspeitou de que o Galdério não a havia queimado (pois Alma não fingiu suficientemente um grande sofrimento e revolta) e a procurava. E eu só vim a redescobrí-la tantos anos depois da morte da Mutti e alguns meses depois da morte da Alma.
Quanto ao soneto, fui logo mostrá-lo ao Galdério, e o "galtcho" ou "Galdo", como a Alma o chamava, com o papel na mão, vi a folha vibrar, tremer. Creio ter visto um brilho no olho do gauchão fiel, que se manteve calado, nada comentou...
(Lucia Welt)

RIP* (de Alma Welt

237

Vem por aqui, Galdério, logo à frente
Vou te mostrar o que encontrei:
Uma cruz estranha que nem sei
Se é cristã ou coisa diferente.

Vê, gravada nesta laje, aqui, assim,
Algo muito gasto está escrito.
Será o túmulo violado e proscrito
Do antigo estancieiro Valentim?

RIP está gravado e se percebe,
O resto é posterior, mal redigido,
E suponho por alguém que ainda bebe

O vinagre do que, mal digerido,
Não sei, Galdério, mas o sinto,
Deixou seu travo em nosso vinho tinto.


(sem data)
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Nota da editora

* RIP- Iniciais do mote latino "Requiescat in Pace" (Repousa em paz), que era inscrito antigamente em alguns túmulos.

A recorrência nos Sonetos Pampianos da temática referente ao estancieiro Valentim Ferro, que vendeu a estância (depois chamada Sta Gertrudes) para o nosso avô Joachim Welt e em seguida se suicidou enforcando-se numa trave do sótão do casarão, faz-nos perceber como esses fatos assombravam o espírito sensível (e até sugestionável) de minha irmã, que considerava, percebe-se, que havia uma culpa persistente pesando sobre a nossa família, que plantou o seu vinhedo sobre esse túmulo amargo. (Lucia Welt)

Meus amigos, caros (de Alma Welt)

236

Meus amigos, caros, que saudade
Eu tenho dos tempos de convívio,
Que o tempo agora é de oblívio
E a solidão é a minha herdade!

Reduzida à estância e a família
O mais são os peões e os animais,
Os poemas talvez sonhos irreais
E uma tristeza vaga, que humilha

De viver uma tarefa insolúvel
De um pântano drenar os tais miasmas
Ou de como conquistar um ser volúvel

E não ter sido afinal bem sucedida
Pois me vejo cercada de fantasmas
E nem mesmo sei mais o que é a vida...


17/01/2007

22/02/2008


Folder criado pelo desenhista Renato Adriano para a apresentação da banda Risses (que inclui uma canção de Alma Welt e João Roquer), que ocorreu no último sábado às 22:00 horas no Vila Teodoro, na rua Teodoro Sampaio 1229.

Vem, meu leitor (de Alma Welt)

235

Vem, meu leitor, voa comigo
Por sobre a minha estância encantada.
Há muito a mantenho iluminada
Pelos melhores versos que consigo.

Sei que podes vê-la em tua mente
Sendo, pois, meu hóspede querido,
Levar-te-ei pelo jardim florido
E depois talvez a coisa esquente

Quando me encontrares no pomar,
Logo no vinhedo e no lagar,
Depois subindo ao sótão de noitinha

Pra veres onde flui minha poesia
Se achaste minha jornada comezinha:
Noites nuas perpassadas de magia...

07/06/2006

21/02/2008

Sendas farroupilhas (de Alma Welt)

234

Caminho pelas sendas farroupilhas
Que ainda se vêem aqui no prado,
E serpenteiam servindo como trilhas
Para os peões de hoje e nosso gado.

E me vejo de repente acompanhada
De visões dos nossos companheiros
Montados, zurzidos por pampeiros
A procurar a sua última invernada

Logo sofrida, espectral, penada
Pois que nunca houve paz impune
Pros que vivem e morrem pela espada.

Então volto ao casarão atormentada
Como alguém que a guerra ainda pune
Com os ecos da última emboscada...


14/01/2007

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Nota da editora

Alma sempre foi visionária, desde criança, e me impressionava a intensidade e sofrimento de suas visões quando ainda guria, atormentada por horas por espectros, reais para ela, que a afugentavam às vezes de suas incursões pelas pradarias em torno do nosso casarão. Muitas noites, dentro de casa, também ela era assaltada por essas visões e se refugiava em minha cama, nos meus braços ou nos de Rodo, quando então era punida por nossa mãe, que não a compreendia. (Lucia Welt)

18/02/2008

O laço (de Alma Welt)

(233)

Ultimamente ao chegar perto do poço,
O laguinho da cascata que assim chamo,
Eu sinto um aperto no pescoço
Que não posso explicar, do qual reclamo.

Aqui eu mergulhei desde criança
E o fiz sem roupas claramente
Pois nunca perdi a esperança
De viver como vejo em minha mente

Num mundo de pureza e liberdade
Onde o senso de pecado não existe
Uma vez que não existe nem maldade.

Por quê então a dor (eu me refiro
ao laço na garganta) que insiste
Em me embargar tirando-me o respiro?

15/01/2007


Nota da editora

Encontrei este impressionante soneto inédito na arca de minha irmã e que me emocionou sobremaneira pois me fez ver o quanto a Alma pressentia, misteriosamente, o seu fim, inclusive somatisando os sintomas de seu estrangulamento pela corda em seu pescoço, com que foi encontrada flutuando a um palmo da superfície do poço, ancorada a uma grande pedra. Ainda assim, como já contei, restam dúvidas quanto à natureza de sua morte. (Lucia Welt)

15/02/2008

La belle-au-bois-dormant (de Alma Welt)

232

Galdério, meu gaudério castelhano
Por quê não selaste a minha Altéia?
Queres me levar na tua boléia
E pra isso sabotas o meu plano

De sair por aí em disparada
Por onde não vai a tua charrete
Que roda obediente pela estrada
E não pode seguir a tua pivete

Que gostarias rever-me como outrora
Com a cabeça no teu peito, antes da janta,
Me recolheres como fora bela Aurora

Pra adentrares o jardim, logo a varanda,
Comigo nos teus braços qual infanta
Posta em sossêgo, leve, muito branda...

12/01/2007

O sangue da terra (de Alma Welt)


Joachin Welt, o Vinhateiro (avô da Alma, com seu relho ou rebenque)-gravura em metal(ponta seca e água-tinta) de Guilheme de Faria

231

Vati, ó Vati, leva a tua filha
Contigo em tua sela às pradarias.
Se vais levar sosinho uma novilha
Por quê razão a mim não levarias?

Queres que eu seja o fino espelho
De tua alma cantora e pianista,
Mas também carregas esse relho
Herdado do avô boche, o "arrivista"

Que na verdade, bom agricultor
Já lá nas suas terras dos Sudetos
Não merecia tal suspeita e rancor

Pelas uvas que plantamos desde então,
Pois que agora nos vêem, filhos e netos,
Pisando o novo sangue deste chão.


03/04/1999


Nota da editora

Este soneto recém-encontrado na arca da Alma, e que pela data foi escrito quando o nosso Vati ainda era vivo, relembra a discriminação sofrida por nosso avô, o "boche",
que, visto como um intruso ou "arrivista" andava sempre com um rabo-de-tatu na mão e veio introduzir um vinhedo estranho, na verdade pioneiro, numa terra tradicionalmente de gado, charque, mate... e lutas gloriosas. (Lucia Welt)

13/02/2008

La niña (de Alma Welt)

230

Quando me aproximo da estância
Pelo meu trenzinho fumegante
É que paro de pensar por um instante
E me sinto retornar à minha infância.

Ah! que bela sensação de aconchego
Ainda em pleno campo, mais humilde,
Estar de volta a um mundo de sossego
Como estava nos braços da Matilde

Minha doce babá, velhota agora,
Séria, em diligências na cosinha,
Mas cuja ternura ainda vigora

E que me espera ali no seu domínio
Como se nada estivesse em seu declínio,
Pra abraçar "sin embargo" a sua "niña"!

08/09/2006

12/02/2008

Amar, amores (de Alma Welt)

229

Quando meu amor comigo andava
Nas manhãs de primavera, ao meu lado,
Eu sentia que o Tempo então parava
E o Infinito se instalava no meu prado.

Esse amor que os destinos alterava,
Ora era Rodo, meu irmão, depois Aline,
Laís, depois Mayra, a sublime,
E Andrea que digitalmente amava...

E por razões ocultas, pouco nexas
(ou isso era desmando muito louco
de um piá com as suas doidas flexas),

Eu amava o amor que me mirava
E cujo foco podia durar pouco
Pois o belo sua face transmutava.


06/01/2007

10/02/2008

Meu Pampa verdadeiro (de Alma Welt)

(228)

Meus poemas vivem das memórias,
Uma saga paralela em minha vida.
E não sei qual é mais parecida
A que vivo em carne ou nas estórias.

Mas, uma saga? Alguém perguntará...
E eu respondo: sim, a da verdade.
Não acredito ser possível acuidade
Pra distinguir o ser de fora, que não há.

Não há como saber o que é real
Quando se tem um forte parecer,
Uma alma repleta de ideal.

Mas continuo a crer mais verdadeiro
O ambivalente Pampa do meu ser:
Imenso, feminino, cavaleiro...


19/12/2006

Prece ao Minuano (de Alma Welt)

(227)

Ó Vento Minuano do meu Pampa,
Grande rio que desce a cordilheira
Do mundo castelhano como rampa,
Para fluir no prado em corredeira

E logo liso e frio sob as portas
Para gelar o meu peito desregrado
Que teme ter aberto suas comportas
E agora estar sendo castigado!

Rei Mino, me prosterno amedrontada
E oro ao deus dos ventos que em vigia
Abriu as tuas eclusas de enfiada

E deixou teu forte rio desatar
Do imenso coração da pradaria
Para com direito me humilhar...



(sem data)


Nota da editora

Acabo de encontrar mais este magnífico soneto perdido entre seus papéis e que não compreendo como a Alma não publicou na ocasião no site RL, onde estava colocando diariamente a série Pampiana, até a sua morte tão chocante e repentina no dia 20/01/2007.

*Este soneto me faz recordar a temerosa veneração da Alma pelo vento Minuano, que quando soprava a deixava fora de si, em pânico ou delirante, de tal maneira que Matilde e eu tínhamos que amarrá-la para não sair correndo na pradaria ou debatendo-se no chão de maneira impressionante e dolorosa. Alma era demasiado sensível aos elementos e parecia ter um estranha integração com a paisagem, para a alegria ou para dor. (Lucia Welt)

Meu Mundo (de Alma Welt)

(226)

Quando quero viajar o mundo inteiro
Me dirijo ao escritório do meu Vati
Com seus três mil livros e o tinteiro
Com sua pluma de ema de cor mate.

Ah! A bomba e a cuia ali estão
Sobre a mesa como signos do pampa
De onde partirei para o Japão
Inspirada por aquela bela estampa

Da famosa onda do Hokusai
Com o monte Fuji bem no fundo
Incluída em testamento por meu pai

E doada só a mim, com intenção
(que nem mesmo precisava tal menção)
Pois co'a pena e os livros... é meu mundo.


(sem data)


*(recém-encontrado, certamente também dos Sonetos Pampianos da Alma).

A Viúva-Negra (de Alma Welt)

(225)

Um peão aqui da estância foi picado
Por viúva negra, o pobrezinho!
Então fui visitá-lo (é meu vizinho)
E estava mal-ferido e acamado.

Mas depois de meia hora compreendi
Que ele estava era mesmo apaixonado
Pela viúva de um peão muito afamado
Que persiste morando por aqui.

Apesar de muito bela e cobiçada
Ela parece inacessível e já fatal
Pois o marido morreu de uma facada

De um outro, Antonio, o qual
Depois também tirou a própria vida,
Por conta da péssima acolhida.


Notas da editora

*Este soneto-crônica a rigor deve pertencer à série dos Pampianos da Alma, que já somam 230, mas como já estão publicados numa ordem e numerados, prefiro não mais tentar encaixar as novas descobertas para não afetar os respectivos comentários dos leitores.

Esta estória, verdadeira, da qual eu soube detalhes pela Matilde, mostra a mentalidade rígida de nossa mulheres, peonas aqui da vinha, que freqüentemente morrem para o mundo após a morte de seus maridos. O mito da viúva-negra, aqui, vai por conta do despeito dos peões pretendentes rejeitados. (Lucia Welt)

03/02/2008

CANÇÕES DA LUA (de Alma Welt)

Lua de Yupanqui (de Alma Welt)


(Surpresa e encantada encontrei este lindo poema inédito da Alma em sua arca, no nosso sótão. Já me parece uma canção, pois canta desde já pedindo ser musicada. Conclamo aqui o querido João Roquer (da banda Risses) a fazê-lo. João, porás melodia nesta canção? Tu a cantarás? Te peço... (Lucia Welt)

(1)

Também a ti cantarei
pois cantar, lua, não manque
quem te pudera cantar
depois do "gáltcho" Yupanqui*
quem te soubera encontrar
em meio a névoas de sangue
de tanto tanto buscar
em caminhadas de mangue,
as tuas sendas no ar

Lua dos amantes cegos
e dos tais impenitentes
que não te podem mirar,
Dos incautos, dos valentes
que se dispõem a sonhar

Lua lua aqui me vês
perdida como uma rês
que a si se quis apartar

Leva-me em tua barca
não me deixe aqui restar
esquecida de tua arca
de par em par, no afã
de teu lento naufragar,

Que sou pequena, sou órfã,
também já não tenho lar...

(Alma Welt)

Nota de editora

*Yupanqui- Atahualpa Yupanqui, grande compositor argentino, célebre, da província de Tucumán, autor de inúmeras canções imortais como a celebrada Luna Tucumana, que se tornou praticamente folklórica, uma das canções pampianas mais amadas pelos argentinos. Alma adorava essa música e a cantava lindamente acompanhando-se ao violão. A voz de Alma era belíssima, indescritível, e sua pronúncia castelhana, perfeita. Ainda a ouço na memória, e choro ao me lembrar... (Lucia Welt)

Para ouvir a canção Luna Tucumana, em belíssima interpretação:

http://br.youtube.com/watch?v=WXdoZyciqNQ

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O acordo (de Alma Welt)

Encontrei, maravilhada, uma série característica de poemas da Alma dispersos no meio de sua vasta obra na arca de nosso sótão, que alinhavados formam o que passarei a chamar "Canções da Lua". O querido João Roquer, da banda Risses, já prometeu musicá-los.(Lucia Welt)


O acordo (de Alma Welt)

(2)
Por estes prados de mar
Me avistaste num clarão
Em meu louco navegar
Me olhavas do teu balcão

Não te cansas de chamar
Qual se ainda fosse tua
E não vagasse no ar
E não estivesse nua

Mas o quê sabes de mim
Na minha eterna aventura?
Vou atrás da minha lua
Nada podes com algo assim

Lembra do acordo, não jura,
Feito no nosso jardim...


08/11/2006

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Lua de "ménage" (de Alma Welt )


(3)

Pelos prados de coxilhas
me verás cantar à lua
qual fosse senda noturna
do meu jardim, pelas trilhas.

Que podes senão seguir-me
com teu fino violão
e tentares perseguir-me
na minha bela canção?

Seremos um sob a lua,
assim me poderás ter
se me provares saber
acompanhar, serei tua

Até deixarei tocar-me
sob seus claros lumes
para à lua fazer charme
e provocar-lhe ciúmes

........................

Seremos um sob a lua
assim me poderás ter
se me provares saber
acompanhar, serei tua...



(sem data)


Nota da editora:

O fato de de Alma ter repetido a penúltima quadra no final, como um refrão, confirma, a meu ver, a sua visão deste poema como uma canção para ser musicada mesmo. Musical como ela era, é uma lástima que ela não tenha tido tempo em sua vida para musicar seus próprios poemas e cantá-los. Mas onde estiver, creio que ficará satisfeita com as melodia que o jovem João Roquer, e a bela Lika, ambos da Banda Risses, estão colocando em seus poemas. João já prometeu musicar todas as "Canções da Lua" da Alma que lhe inspirarem melodias e harmonias.

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Canção da bela lunada (de Alma Welt)


(4)

Lua noturna amazona,
por quem me tomas minha lua?
Não sou chinoca de zona
por me veres assim nua.

Teimas em me desnudar
Ah! Como somos tão brancas!
Com o pálido nenúfar
a boiar-nos entre as ancas.

Se me deito como em parto
é porque sou tua amante.
Se permaneço em meu quarto
é por seres inconstante.

Lua, lua me acolha!
Não perguntes de onde veio
quem se entrega ao teu enleio.
Sou bela... não tive escolha.

Esta noite irei ao prado
e te abrirei o meu seio
para que seja encontrado
lunado, frio e alheio


Lua, lua me acolha!
Não perguntes de onde veio
quem se entrega ao teu enleio...


(sem data)
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Canção da noite de lua (de Alma Welt)


Mais uma "Canção de Lua" descoberta entre a imensa produção da Alma, ainda inédita, encontrada em sua arca... (Lucia Welt)

(5)

Pela campina anoitada
minha lua está a vagar
lançando apelos na estrada.

Te quero, lua, e irei
contigo esta noite deitar,
que já não tenho mais lei.

Me porei nua nos prados
pra me causares marés,
pra me lunar dos dois lados.

Branca como uma fada
me deitarei aos teus pés,
a ti serei consagrada.

E quando fores de dia
pro teu refúgio secreto,
me farei tua cotovia:

Voltarei cantando ao lar
contar ao irmão dileto
que longe fui namorar...

(sem data)

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Lua cigana (de Alma Welt)


(6)
Minha cigana vem vindo
no seu carroção da noite
buscar-me para um pernoite
que já me vejo fruindo.

Lua, lua cigana
começo a ouvir o teu canto
e ainda não sei o quanto
estás perto desta "hermana".

Voarei se me quiseres
nas asas do teu luar
por suas trilhas no ar
em campos de mal-me-queres.

E quando enfim começar
o fandango de rabecas
tuas ciganas sapecas
me verão também bailar.

(sem data)


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A alucinada ( das Canções da Lua, de Alma Welt)

(7)
Pelas margens do meu rio
irei nas noites de lua
entre o sonho e o delírio
por esta espécie de rua

que me leva a este nada
perfeito, noturno e claro
onde encontrarei a amada
e seu canto muito raro.

Lua, lua aí vem ela
envolta em tua aura
azulada que até gela
mas que tão logo restaura

a sua feição bonita
em risos de alucinada
que entre cantares grita
o seu amor, pela estrada

que me leva a esta amada
perfeita, noturna e clara...


(sem data)

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Teia lunar (de Alma Welt)

(8)

Pequena lua impassível
que de noite vens me olhar
com teu brilho impossível
de a ti mesma revelar

Que me dizes, o que quer
teu branco olho lunar?
Teu silêncio me requer
desfazer-me em meu tear?

Levanto-me branca e nua
no meu sonho recorrente
e vou andar pela rua
como uma pobre demente

Até retornar ao leito
vaga, sonada e lenta
trazendo uma flor no peito,
na boca um sabor de menta.

Sob os lençóis macios
me deito já desfrutada
como esses seres vadios
de tua louca noitada

E durmo com minhas mãos
que desfizeram a teia,
repousando entre os vãos
que o teu olhar incendeia.


(sem data)

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Vigílias pampeiras (de Alma Welt)


(9)
Quando cai a lua cheia
sobre alfombras de coxilhas
um canto de plena veia
percorre o Pampa por milhas

E vemos os fogos no chão
com as chaleiras que chiam
fervendo pro chimarrão
dos "gáltchos" que silenciam

para ouvir cantos de lua
ao som de foles gaudérios
com estórias de mistérios
de uma estranha prenda nua

que galopa em plena noite
com a ruiva cabeleira
como o rastro de um açoite
nessa vigília pampeira.

Já sabem usteds quem é
essa china impenitente
que chega a sorrir até
ouvindo o que diz a gente?

Voem cantos, chie o mate...
Olhar, comece a vigia!
Esta noite cante o vate
as façanhas da guria!

Que galopa em plena noite
com a ruiva cabeleira
como rastros de um açoite
na grande noite pampeira.

(sem data)


Nota da editora

Nos últimos tempos recrudeceu o hábito da Alma de sair tarde da noite cavalgando nua e em pelo a sua égua Miranda pelas pradarias até longe do casarão. Isso aumentou a sua lenda entre os peões aqui na nossa região.
Uma noite, Matilde, nossa cosinheira e sua ex-babá, que percebeu o que acontecia, conseguiu impedi-la amarrando-a na cama. Ela achava que Alma estava louca. Confesso que não a desamarrei e fiquei à sua cabeceira acalentando-a, até que cessou de se debater e adormeceu.


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Lua de seresta (de Alma Welt)


(10)

Seresteira irmã da Alma
que me fazes acordar
após um sono sem calma
que permitiu te escutar,

Lua, lua, só me resta
ir vagando ao teu encontro
para ouvir tua seresta
a que respondi de pronto.

Meu balcão é a varanda
sobre teu jardim lunado
recendendo à lavanda
do jasmineiro acordado

E logo assisto ao desfile
dos luzeiros encantados
dos pirilampos do Chile,
(que assim os quis rimados)

E então me ponho nua
pois não posso me esconder
do olhar-arco-de-pua
com que verrumas meu ser.

Depois deitada entre as flores
afasto meus brancos membros
para que vejas as cores
dos dias de teus setembros.

Mas, ai! comicha-me a gruta
um travesso vagalume
e fujo como uma truta
pro meu leito de costume.

Lua nova, aqui me deixes,
não me faças te buscar!
Teus cantos de rio e mar
alvoroçaram-me os peixes...


(sem data)
_____________________________


Pelos Caminhos da Noite (de Alma Welt)

11

Pelos caminhos da noite
que já conheço tão bem
sem que tema nem me afoite
caminho como ninguém

O poema é meu guia
e a lua farol brilhante
Meu corpo é a cotovia
que por sua luz se adiante

Ah! minha lua faroleira
que giras sobre este mar
que só tem sua fronteira
se mil porteiras fechar

Navego por entre coxilhas
como as ondas desse mar
Ah! encantadas ilhas
do meu doido navegar!

Lua, lua me carregue
já começo a me alçar
Estou nua estou entregue
ao teu fio de enredar

és a aranha da noite
em tua teia estelar...




Leitos da lua (de Alma Welt)

(12)

Pelos pagos planos do meu pampa
Ia a lua vagando em vaga via,
Feitora das marés em sua rampa

Mas, ai! aí eu ia ao seu apelo,
Levitada de meu leito de guria
Para banhar-me à luz do seu desvelo

E, pura, pelos prados do prazer
Eu pulava por planura e pouco chão,
Já prestes a pelar pra a lua ver...

E foi assim que minha mãe, a Açoriana,
Depois de procurar-me, não em vão,
Notou-me nua em nívea névoa, ó lua hermana!


(sem data)


Notas da editora

Por curiosidade revelarei aqui dois tercetos que finalizariam o poema, mas que a Alma riscou, excluiu, pela sua extraordinária sabedoria técnica que sabia sempre quando um poema estava terminado, evitando o demasiado circunstancial:

"E me pegando pelo punho me puxou
Arrastando-me de volta ao casarão,
Brutalmente no banco me botou,

Onde, tímida, tremendo, torturada,
Fui resgatada por guri, sim, o irmão!
Que lívida levou-me e... fui amada."


Com esse curioso e encantador poema, cheio de aliterações, dou por terminada a minha pesquisa e alinhavo do que convencionei chamar Canções da Lua, da Alma. Naturalmente é possível que outros poemas da grande poetisa se encaixem nessa denominação ou gênero, e que eu ainda os descubra na incrível montanha de textos de minha irmã, em que estou embrenhada. Mas por ora, com estes doze podemos, eu e o querido João Roquer (da Banda Risses) pensar em musicar e criar um CD, para o qual já encomendei a capa e o encarte ao mestre Guilherme de Faria, que os amou. (Lucia Welt)

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27/01/2008

SHOW TERRA DESCOMHECIDA, DA BANDA RISSES


Ensaio da Banda Risses


João Roquer e Lika, vocalistas e compositores da banda Risses em magnífica performance no Clube da Cana, no dia 22/01/2008 (foto batida pela cantora e poeta Dhara)


A fantástica cantora Lika, da Banda Risses, na sua performance no Clube da Cana, no dia 22/01/2008 (foto de Dhara)

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Terra Desconhecida - Repertório


*Quisera um jardim (Alma Welt)
(...o que temos é matéria difícil...música e palavra...)

*Macô
(...uma casa... tive um segundo para observá-la...)

*Bicho da cidade

*Pega-pega, pipa, mãe da mula
(... poesia...circo...palhaço...mundo(quadrado)...)

*O mundo ainda é mundo

*Como brigar com deus

*Eu não vim aqui só pra dizer...

*Utilidade para amor

*Se olhar!(Ensaio Sobre a Cegueira, J. Saramago)

*O palhaço

*O mundo é quadrado Jaun
(...é o mundo é Quadrado... ginga negrinha..)

*Há um caso

*Migração

*Macaco
(...viver a música não é só ouvir, mas...)

20/01/2008


Folder realizado pelo desenhista Renato Adriano (renatoadrianorosa@hotmail.com) de nova apresentação da BANDA RISSES, ocorrida no dia 22 de Janeiro (terça feira)às 21 horas, no Clube da Cana, na rua Barão de Tatuí 274, Santa Cecília, São Paulo.
Nota:
Nesse dia a banda Risses incluiu no seu show TERRA DESCONHECIDA mais um poema da Alma Welt "Quando volto ao casarão"(n° 16 dos Sonetos Pampianos) musicado e cantado lindamente por João Roquer, o vocalista e compositor, em maravilhoso dueto com Lika Rosa, também vocalista, compositora e baixista da banda. O público delirou.
Eu soube por e. mail pelo Guilherme de Faria, que mora em São Paulo, que o show foi lindíssimo, e que Lika, a linda vocalista da banda, brilhou mais uma vez com seu enorme carisma e presença de palco, além de uma voz privilegiada que tira sons incríveis de floresta. A guria de 23 anos, ao mesmo tempo parece, segundo ele, uma ninfeta adorável. Irei a São Paulo para vê-los, abraçá-los fruir a sua música e agradecer a eles por terem descoberto a poesia de minha irmã e a estarem tratando com tanto talento, amor e carinho. Eu recebi deles pelo correio um CD piloto das canções da Alma, musicadas e cantadas pelo João Roquer, e encantada, pude constatar isso. (Lucia Welt)

10/01/2008

Quando volto ao casarão (de Alma Welt)


Folder realizado pelo desenhista Renato Adriano, da reapresentação da Banda Risses, que ocorreu dia 12/01 no Clube Caiubi, atualmente funcionando no Vila Teodoro, na rua Teodoro Sampaio 1229, Pinheiros, São Paulo.
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Este soneto, n°16 da série Sonetos Pampianos, de Alma Welt, que se encontra justamente neste blog, foi um dos poemas da Alma escolhidos pelo músico João Roquer, compositor e vocalista da Banda Risses, que o musicou lindamente e o gravou num piloto com mais duas canções de sua parceria póstuma com a Alma. Estou tratando com esse jovem músico talentoso a gravação de todo um CD de poemas da Alma musicados por ele, alguns musicados pela linda e jovem vocalista Lika Rosa, também com a participação da banda deles (Risses). (Lucia Welt)

Quando volto ao casarão


Quando volto ao casarão após a lida
É que passo a ter do mundo um panorama,
A olhar a vida aqui da minha cama
E sentir a minha alma agradecida.

A vista do jardim... além, o pampa,
Eis a minha verdade, ah! o pomar,
O bosque, a cascata, ali a rampa
Que leva até o vinhedo e o lagar!

O ser humano, eu vejo, se debate
Perplexo, na vida e no mundo
Procurando a superfície e não o fundo,

E percebo que o homem só suporta
O rumor e agitação, sem que se farte,
Pelas paredes, quatro, além da porta...

5/12/2006

10/11/2007

SONETOS PAMPIANOS DA ALMA (de Alma Welt)

(Esta foi a última série de sonetos escrita por minha irmã, a grande poetisa pampiana Alma Welt, que faleceu aos trinta cinco anos, no dia 20/01//2007, aqui na nossa Estância Sta Gertrudes, no Pampa gaúcho. Deste glorioso ciclo de sonetos (para serem lidos em seqüência pois formam uma saga) foram publicados 150 no site Recanto das Letras (sendo que o último de sua vida se entitula A Carruagem e foi escrito na véspera do dia de sua morte) foram encontrados por mim até agora um total de 221, que publico aqui neste blog que abri para esta porção de sua obra( vide os outros blogs da Alma relacionados abaixo do meu "Perfil completo")

20/10/2007

Crepúsculo no Pampa


Crepúsculo no Pampa de Alma Welt- óleo s/ tela de 2007, de 30x60cm, de Guilherme de Faria.

11/10/2007

O Enígma de Alma Welt (pintura de Guilherme de Faria)


"O Enígma de Alma Welt" - óleo s/ tela de 50x60cm, de 2007, de Guilherme de Faria, coleção particular, São Tomé da Letras, Minas Gerais.

03/10/2007

A Carruagem (de Alma Welt)

(Este é o último soneto da Alma, escrito na véspera de sua morte.)


Um piano toca no salão!
Ah! e não fui eu que coloquei
Um CD ou um velho long play,
Talvez seja o Vati, e então...

Ele voltou! Sim, ele me quer!
Vou ao seu encontro e sou mulher!
Sim, ele vai ver agora sou
Pelo menos a guria que sonhou.

Olha, Vati, há muito não me vias,
Mas de verso em verso muito errei
Pelo mundo, a viajante que querias...

E agora, com toda esta bagagem,
Leva-me contigo que eu irei
Quietinha, assim, na carruagem!

19/01/2007

Nota da editora:

Este soneto, o último da vida e da obra da Alma, publicado por ela no Recanto das Letras, tocou muitas pessoas que vinham acompanhando a série pampiana, publicados um ou mais por dia, em tempo real. Os leitores talvez sentiram que se tratava de uma despedida, mas não conscientizaram, pois as leituras registradas desse soneto só dispararam quando coloquei na página de minha irmã (por encontrá-la com a senha salva no seu computador) o anúncio de sua morte, com detalhes, o que indignou a muitos, e peço desculpas. A partir do momento da publicação do anúncio fúnebre, as leituras deste soneto foram rapidamente para mais de 300 registradas nos cinco dias seguintes,enquanto o total das leituras dos textos da Alma subiram mais 2.000 atingindo a marca de 14.000 e tantas, o que mostra a curiosidade válida, ou mórbida, não julgo, que as últimas palavras de um(a) grande poeta causam nos seus pares ou mesmo no público em geral.

PS (Como continuo encontrando na arca da poetisa sonetos que por seu espírito e temática se encaixam na série Pampiana, não numerarei por ora este "A Carruagem" e o republicarei no blog ao final, no fechamento da série, quando então saberemos quantos são os SONETOS PAMPIANOS DA ALMA). (Lucia Welt)

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Estrelas que mais brilham (de Alma Welt)

224

Me lembro do meu Vati me contar
Que as estrelas viviam e morriam
Depois de envelhecer e definhar
Mas que no final, pasme! explodiam!

Para de novo tudo tudo começar
Mas em "super-nova", em brilho incrível.
E eu então comecei a matutar
Se não ocorre o mesmo em nosso nível

Pois como estrelas que um dia pereceram
E já não estarão na Branca Via
No exato lugar onde nasceram

Tenho certeza que eu por certo voltaria
Mesmo que outro fosse o meu pomar,
Querendo (que vergonha!) mais brilhar...


20/12/2006

25/09/2007

De pôquer e carência (de Alma Welt)

(223)

Caminhar no casarão a passos lentos
Tornou-se hábito embora eu seja jovem,
E posso até ouvir meus pensamentos
E sonetos, que nonatos, me comovem.

Subo de repente ao nosso sótão
Onde já nasceu mais de um poema,
Ali deitando-me no catre do irmão,
E em que tantas vêzes fui meu tema.

E então, recordações sensoriais
Me fazem chorar e adormecer
Agarrada aos travesseiros e meus ais

Para sonhar que estou no abraço forte
Do guri que me deixa sem saber
Que seu pôquer há de ser a minha morte...

17/01/2007

Estória do umbu-rei (de Alma Welt)

(222)

Por amor a esta paisagem grandiosa
Mais de uma vez empunhei a carabina,
Mas foi um erro o que me fez ficar famosa
E salvar o umbu desta campina.

Foi quando um vizinho me peitou
Dizendo que estava em sua terra
O umbu onde Martinho se enforcou,
Que a árvore era sinistra e que aberra.

Então, melodramática, me amarrei
Ao tronco, disposta a ali morrer,
Com o risco de outra coisa acontecer

Pois fez com que o "gáltcho" gargalhasse
E rasgando meu vestido me mirasse
Dizendo: "Esse umbu agora é rei..."

29/12/2006

Nota da editora

Este episódio, absolutamente verdadeiro, foi bastante mitificado aqui na região e fez a árvore mudar a sua fama. Percebi que a Alma, sob o aparente constrangimento por uma vitória vergonhosa, regosijou-se com o resultado e no fundo admirou a presença de espírito e rude galanteria implícita no gesto do estancieiro vizinho, o "gáltcho" que a desnudou deixando-a amarrada por uns minutos, depois soltando-a e partindo no seu cavalo depois de tocar o seu chapéu com dois dedos. Me recordo ter percebido um período de meditação, suspiros profundos e um ar mais sonhador que de costume em minha irmã, por um tempo depois deste episódio. (Lucia Welt)

Penélope (de Alma Welt)


Penélope e os pretendentes- Pintura de 1912 de John William Watherhouse (prérafaelita inglês)

(221)

Para enfrentar a morte escrevo,
Que é o único combate com o ogro
Que posso travar com algum enlevo
E que não redundará em vil malogro.

Pois sabemos que a letra permanece
Como uma fantástica lanterna
Que ilumina a trama que se tece
No silencioso tear da noite eterna

Produzindo uma teia inacabada
Como aquela da viúva inconformada
Que sabia dar ao tempo a sua medida,

E no final, no pouco que restara
Do painel da batalha desmedida
A sua própria saga ela plasmara.

29/12/2006

Elêusis (de Alma Welt)

(220)

Estrelas do meu Pampa, peregrinas
Que eu via do jardim anoitecido
Onde colhera as flores pequeninas
Por entre as quais singrara meu vestido

De guria de olhar indefinível
E branca como um vaso de alabastro
Que meu pai votara ao grande astro
No teatro de uma ópera invisível

Encenada naquele nosso Elêusis
Que fizéramos desta bela estância
Onde o Vati me consagrou aos deuses...

Estrelas, sou poeta mesmo agora
Fiel ao meu sonho da infância
Pois que sua magia ainda vigora!

10/12/2007

23/09/2007

O nó e o muro (de Alma Welt)

(219)

Este casarão que chora e geme
Nas noites desta estância tão sofrida
É agora o companheiro da minha vida
Como um barco à deriva já sem leme.

E não parece dirigir-se ao futuro
Mas arrastado em voragem de retorno
Ao porto de partida junto ao muro
Que separa o jardim do prado em torno,

Ali onde o nó foi enterrado
Com que enforcou-se o Valentim
Que era o vero estancieiro despojado,

Que perdeu pro meu avô a sua estância
Em que esta branca Alma vem porfim
Viver a sua busca e sua ânsia...


15/01/2007

Nota da editora

Este soneto, encontrado recentemente, confirma a recorrência na poesia da Alma do tema do nó de forca e do suicídio. Eu me pergunto se essa obsessão foi a responsável por sua morte trágica, ou se tais poemas representam a angústia de uma premonição, pois foi com uma corda em seu pescoço que ela foi encontrada no lago da nossa cascata, afogada em circunstâncias ainda não bem esclarecidas. De qualquer forma tais poemas me causam uma sensação profundamente lúgubre e dolorosa. (Lucia Welt)

A Vivandeira (de Alma Welt)

(218)

Pelas trilhas centenárias do meu prado
Por onde desfilam farroupilhas,
Suas prendas, chinas, piás e filhas
Que ainda hoje pisam no relvado

Como falange de espectros penados
Eu os vejo quando a lua é propícia
E a brisa envia-me a notícia
Do etéreo desfilar de rebelados.

Então, eu montada em minha égua
Corro pra alcançar o homem certo
Entre Bento, Canabarro e o bravo Netto*

Mas ao lado do Giuseppe e sua guarda,
Vivandeira volto lá pra retaguarda,
Ao ver a bela Anita em sua trégua...*

14/01/2007

Nota da editora:


"Bento, Canabarro e o bravo Netto" - Bento Gonçalves e os outros dois mais importantes comandantes da Revolução Farroupilha.

"Vivandeira,..."- As vivandeiras eram mulheres que acompanhavam os soldados, a pé ou em carroções atrás das colunas, nas marchas para os combates ou nas retiradas, pra tratá-los, fazer-lhes comida e dormir com eles nos acampamentos. Individualmente eram chamadas chinas, chinocas ou mesmo "prendas'. A maioria era de prostitutas, desveladas e prestimosas, as verdadeiras heroínas da "retaguarda".

*sua trégua... - Alma sutilmente parece querer dizer que encontra Anita não fazendo guerra mas amor(com Garibaldi) e por discreção volta para o final da coluna, lá pra junto das vivandeiras.(Lúcia Welt)

22/09/2007

SONETOS PAMPIANOS DA ALMA


"A invocação mágica de Alma Welt"- óleo s/ tela de Guilherme de Faria, de
150X150cm, de 2007, coleção particular, São Paulo

20/09/2007

Quando a macieira floreceu (de Alma Welt)


Assinatura e título do quadro "A Maciera de Alma Welt", de Cipriano Sousa


A Macieira da Alma Welt- óleo s/ tela de 80x60cm, de autoria do pintor primitivo baiano Cipriano Sousa, que se tornou grande admirador da Alma e a homenageou com este quadro.
(217)

Quando a macieira floreceu
Eu me prosternei perante a ARA
Invocando o poder que prometeu
E a Poesia que a ela consagrara.

E ao começar cair chuva fininha
Unindo assim a terra ao céu
Soube que o portal agora tinha,
Como segredo encoberto por um véu.

Ó chuva delicada dos meus deuses
Que me banhou de maneira deliciosa
Fazendo-me aceitar os meus adeuses!

Pois senti que eu podia terminar
Pondo o ponto final na minha prosa,
Que a Poesia começava a ressoar...

18/01/2007

Nota da editora:

* ARA- os iniciados na poesia da Alma sabem que ela assim chamava a sua macieira sagrada do pomar desde a infância. Trata-se das iniciais de Alma e Rôdo gravadas por ela a canivete num coração no tronco da árvore, produzindo a palavra "ar" (alento,vida, inspiração) acrescentada posteriormente do A de Aline, um forte amor de sua vida que ela trouxe para cá vinda de São Paulo e produzindo a palavra "ara" (altar).

Comoveu-me ao extremo este soneto, em que se percebe claramente uma despedida da Alma, e um fecho à sua obra. O presentimento de sua morte eminente já se manifestara em muitos sonetos de sua série Pampiana, mas este tem o tom de um encerramento, que me fez chorar lembrando a figura sagrada da grande poetisa minha irmã cuja vida se passara de maneira tão rara, em beleza, delicadeza e poesia. (Lúcia Welt)

Minha hospedagem dos poetas mortos (de Alma Welt)

(216)

Aqui, no Pampa desta Alma
Os poetas mortos vêm me ver
E hospedam-se com prazer e calma
No casarão que ama os acolher.

E então reunidos no salão
Ou na biblioteca a conversar
Param um momento a confusão
Para em silêncio me ver atravessar

Sorrindo à direita e à esquerda,
Mas na verdade nua como Helena
Para assim poupar-lhes a desfeita

De recebê-los somente bem vestida
E não com a visão que vale a pena
Pois a ela dedicaram sua vida...

09/01/2007

Nota da editora:

Como todas as beldades Alma tinha consciência de sua extraordinária beleza, e isso fazia com com que se desnudasse com enorme facilidade e candura, eu diria mesmo generosidade. Não era de surpreender que ela imaginasse receber os seus queridos Poetas imortais oferecendo a todos, em conjunto, a visão de sua nudez deslumbrante. Pode-se dizer que o soneto implica até mesmo numa certa modéstia, pois sugere que a grande poetisa colocava a beleza física que Deus lhe deu, como o melhor que ela tinha a oferecer de si aos seus "hóspedes" famosos. Entretanto podemos também interpretar o soneto como uma alegoria da dádiva ou procura da beleza que é, em última instância, a meta de todo poeta ou artista, lembrando que Keats na sua "Ode a uma urna grega" a associa à Verdade:

"A Verdade é a Beleza, a Beleza a Verdade
Isso é tudo o que há para saber." (John Keats)

19/09/2007

O segredo da Cascata (de Alma Welt)

(215)

Cavalgando uma manhã na pradaria
Encontrei uma carroça de ciganos
Que erravam há dias pelos planos
Atrás de uma cascata que havia

Para acamparem no entorno...
Porquanto me pareça um povo artista
Algo me dizia ser transtorno
E pensei em fornecer-lhes falsa pista,

Pois meu irmão fizera-me jurar
Que o nosso paraíso da infância
Não iríamos com outros partilhar.

Mas, então, com a rédea fiz um ésse
Em silêncio retornando à estância
A esperar que o segredo se impusesse.


14/12/2006

Nota da editora:

Alma e Rôdo costumavam banhar-se nus desde guris no poço da cascata que fica em local quase desconhecido de uma mata virgem próxima do casarão.Entretanto seria impossível mantê-la secreta como eles pareciam acreditar. A verdade, lamentavelmente, é que o hábito da Alma de banhar-se nua, ali, no esplendor de sua beleza, acabou lhe custando a vida. O peão (de uma estância vizinha) que a matou já a observara antes ou ouvira falar da beldade nua daquele poço (isto está sendo investigado). (Lucia Welt)

Ajustes, ou Antes do casório (de Alma Welt)

(214)

O peão chegou diante do Vati*
E depôs o punhal na sua mesa:
"Patrão, guarde isso antes que mate
Um desafeto, me faz a gentileza."

"Para medir a cova do gaudério*
Que faltou com o respeito à minha prenda,
Já estive até no cemitério
Mas resolvi suspender a encomenda"

"Pois vou me casar e a eleita
Tem o senhor como padrinho,
Não posso "le" fazer essa desfeita."

"Não abrir mão de uma vingança
Na vida, creio que é mesquinho
Quando se vai ser pai de uma criança."

22/11/2006

nota da editora:

*Vati- pronuncia-se Fáti, "papai" em alemão.

*gaudério- indivíduo sem eira nem beira, fanfarrão. Não confundir com o Galdério (com l), nome próprio do nosso fiel charreteiro, seleiro, e factotum aqui da estância, irmão da Matilde, nossa querida cosinheira e
antiga babá. (Lúcia Welt)

18/09/2007

Gnose (de Alma Welt)

(213)

Quando a Açoriana faleceu,
Ela que era a mãe, a minha Mutti,
Eu pensei, depois do tanto que doeu:
"Talvez a vida agora eu desfrute."

Pois mais doía ainda a incompreensão
E ardiam nas costas as varadas
De marmelo, pela minha incontenção
E mesmo minhas cândidas noitadas

No leito do irmão, nós dois colados,
Como um ser que fosse uno, uma gnose
Pela qual nos fariam execrados

Pois teimavam em apartar desta guria
O ser com quem vivia em simbiose
E a quem devo toda a minha poesia...

08/09/2006

Nota da editora:

O amor, a paixão mesmo que unia Alma e Rôdo desde guris
foi motivo de escândalo e chegou a repercutir na região.
Mas pela intensidade e grandeza desse amor, produziu-se uma visível trancendência que alcançou, após a morte da Mutti, uma tolerância, senão uma conivência por parte de todos, até dos peões da estância (por incrível que pareça) e que acabou se tornando parte do mito da Alma, mesmo entre nós seus familiares, com exceção da Matilde, nossa querida babá, cuja rabujice católica nunca foi levada muito a sério por nós, pois sabemos quanto nos ama. Entretanto preciso dizer que meu ex-marido Geraldo ousou desrespeitar a Alma por isso, e por sua cobiça por sua beleza, coisa que testemunhei e que Alma descreveu no seu romance inédito A Herança. Surprendi-me com este soneto, encontrado no recém-descoberto "caderno secreto" da Alma pois nele ela revela o seu ressentimento pela "incompreensão" (afinal compreensível) da nossa mãe, diante do incesto de seu filhos. Mas notem que nele a palavra "gnose" é a chave para o entendimento da postura espiritual e física da Alma na sua relação com Rôdo. (Lúcia Welt)

17/09/2007

A Escolha (de Alma Welt)

(212)

Vinha pela estrada o ancião,
Imensa barba branca e um mistério,
Meu pai o avistou, chamou Galdério
E pediu-lhe pra trazê-lo ao casarão.

Diante da família, o olhar perplexo,
Muito gasto daquele pobre ser
Chegava a compungir, a comover,
Parecia tirado do seu nexo.

E depois de tomar a boa sopa,
Balbuciando pediu pra retornar
Ao leito da estrada, e caminhar.

Pois embora aceitasse alguma roupa,
Errar pela estrada até morrer
Era escolha, pra não mais interromper.

29/11/2006

Nota da editora:

Fui testemunha também deste fato, e me lembro bem de que Alma reconduziu o ancião até a estrada, acompanhou-o um pouco de braço dado, e depois o deixou afastar-se sozinho, ela parada, olhando. Então fui até ela, imóvel no meio da estrada e ela sem se voltar disse:
"Ele é o Tempo, percebeste? Não se pode detê-lo...
(Lucia Welt)

16/09/2007

Sonho pampeiro (de Alma Welt)

(211)

Pleno pampa poderosa pradaria,
Um céu maior e mais profundo;
De noite as estrelas e seu mundo
A mirar-nos com sobranceria.

Ah! As alongadas sombras das coxilhas,
Pela branca lua cheia a surfá-las
São algumas das tantas maravilhas,
Que eu quisera em sonho suborná-las

E assim, nua, de noite, em desatino
Cavalguei até dormir por sobre a crina
E traída ser trazida ao meu destino,

Pois eu quis perder-me, e feminina,
Ser cobiçada e levada por rei Mino*
Ao seu oculto palácio da campina...

15/01/2007

Nota da editora:

"rei Mino"- Os leitores já familiarizados com o universo poético da Alma, sabem que na sua mitologia particular ela assim denominava o vento minuano, que lhe inspirava temor, respeito e fascinação. (Lucia Welt)

O espectro (de Alma Welt)

(210)

Em noites frias aqui no casarão
Acontece do meu leito levantar
E enrolada num pala ir ao salão
Para sentir o silêncio crepitar

Na lareira, pois ali sou visitada
Por um mundo de imagens agradáveis
Que me trazem poemas inefáveis
Ou alguma coisa inusitada.

Foi ali que num lance inesquecível
O espectro da Mutti afinal veio,
Que fora tanto tempo inacessível,

E que porfim estendia-me os braços
Dizendo:"Filha, faltaram-nos abraços,
Quisera agora sentir-te no meu seio."

16/01/2007

Nota da editora:

Nossa mãe, Ana Morgado, que chamávamos Mutti, faleceu quando éramos adolescentes(Alma tinha 16 anos) tinha dificuldade de compreender o temperamento artístico da Alma, e havia muita dificuldade de relacionamento entre as duas, uma vez que Alma, apesar de aparentemente meiga era rebelde e tinha o respaldo do nosso pai, o Vati que tomara a sua educação em suas mãos e a criara como uma pequena pagã, em contato com a Arte e com os deuses do Olimpo e do Walhalla. Dir-se-ia que ele fazia uma espécie de experiência com sua filha predileta. Ele disse uma vez que faria da Alma não só uma artista, mas uma obra de arte. Alma teve muitos momentos penosos de conflito, incomprensão e intolerância por parte da Mutti, chegando mesmo a ser algumas vezes açoitada com vara de marmelo. Tudo isso transparece aqui na série dos "Sonetos Pampianos da Alma".
Este soneto me comoveu, pois revelou uma reconciliação, de algum modo, entre elas. (Lucia Welt)

15/09/2007

Percepção (de Alma Welt)

(209)

Tem dias em que vejo claramente
O quanto necessito de alegria.
Estou só, sou bela mas carente,
E o mundo já disso desconfia.

Não há soluções para o viver
E a tragédia me espera, universal.
Quero viver, gritar pra não morrer,
O que posso escolher como um final?

De tanto acreditar que estava quite
Com o amor, sonhando o dia-a-dia,
Perdi a fé e noção do meu limite.

E por tecer grinalda em minha mente
Ao registrar o olhar pela poesia,
Tornei-me Ofélia de um cantar demente...

17/01/2007

Nota da editora:

Um soneto como esse, que acabo de encontrar no "caderno secreto" da Alma, se o tivesse descoberto a mais tempo me teria induzido a acreditar no suicídio da minha irmã cuja morte ocorreu dois dias depois de tê-lo escrito. Mas como foi recentemente solucionado de maneira nada consoladora o enígma de sua morte, tendo sido comprovado o seu assassinato, posso somente atribuir a um momento de desencanto existencial ou à angústia premonitiva de minha irmã, pois ela pressentia sua morte eminente e trágica, como seus últimos sonetos o sugerem. (Lúcia Welt)

De pôquer e Da Vinci (de Alma Welt)

(208)

Rôdo, irmãozinho, estás de volta
E jogas cartas e dinheiro sobre a mesa.
Talvez penses aplacar minha revolta
Com os signos da tua realeza.

Eu sei que pouco perdes e mais ganhas
E que o pôquer é "cosa mentale",*
Que como a arte do Da Vinci isso vale,
Já conheço teus recursos e barganhas.

Mas, irmão, não vês que ficas longe
Por tempo demais para esta Alma
Que está longe de ser como o tal monje*

Que enviou o companheiro ao monastério
Em missão, e esperou com tanta calma
Que o reencontro foi no cemitério?

03/01/2007

Nota da editora:

"cosa mentale"- Leonardo Da Vinci escreveu num códice seu que "pittura è cosa mentale", enunciando de maneira pioneira o conceito de pintura como expressão intelectual e mesmo "conceitual", o que seria grato à crítica do século XX, ou seja da "arte moderna". No soneto da Alma ela parece se referir a uma conversa que teve com Rôdo, em que ele teria defendido sua obsessão pelo pôquer como por uma arte intelectual e profunda.

".. o tal monje"- Não foi possível identificar ou reconstituir essa estória, talvez um "koan" zen, a que Alma estaria se referindo nestes versos. Desconfio que Alma inventou esta estorieta, como ela fazia muitas vêzes, para justificar idéias suas num verso, tal como já o fazia Jorge Luis Borges, o que aliás é prerrogativa dos grandes poetas: criar suas próprias lendas e mitos e citá-los como se já fossem do conhecimento universal, o que é no mínimo muito divertido. (Lucia Welt)

Vento Haragano (de Alma Welt)

(207)

Uma tarde caminhando no meu prado
Fui surprendida por um vento quente,
Súbito, oblíquo e eloqüente,
Que parecia estar bem humorado

Pois que levantou a minha saia,
Bah! Eu estava sem calcinha
E ouvi um som como uma vaia,
Imaginei, pois estava ali sosinha.

Então sem sequer muito escurecer,
Logo a chuva quente desabou,
Deliciosa, que chegou a comover.

E eis que me despi naquele plano
Com a chuva, o vento e o seu show:
Eu acabava de encontrar o haragano...

19/10/2006

14/09/2007

A Herança (de Alma Welt)

(206)

"Minha Alma, tu és a minha herdeira,
Aquela a quem doei minha cultura
Angariada nos livros, e és a futura
Poetisa-musa estancieira"

"A quem caberá ser e irradiar
O saber herdado e a justiça
Que é a conseqüência do pensar
Correto, claro e sem cobiça."

Assim falou meu pai, que eu chamo Vati,
Werner Welt, o grande pianista
Que herdara o que já fora do mate

E então como vinhedo produtivo
Lhe permitira com zelo tal cultivo
Da Alma e sua vinha ilusionista...

12/01/2007

13/09/2007

A escolta (de Alma Welt)

(205)

Meu pai era um homem de cultura
Em meio a peões um tanto rudes
Mas isso não causava ruptura
Mas apenas diferença de atitudes

Pois a verdade é que o viam como rei
Para além do patrão estancieiro
E era tão belo e alvissareiro
Percebê-lo, que uma vez até chorei.

Foi quando chegou de uma viagem
E Galdério foi buscá-lo na estação
Com a charrete e uma escolta de peão,

E ele entrou na alameda a cavalo,
Galdério na charrete com a bagagem,
Um a pé e outros dois a ladeá-lo.

04/12/2006

12/09/2007

A Mandrágora (de Alma Welt)


A Mandrágora- óleo s/ tela de Alma Welt (fase surrealista) 2006, 80x80cm, coleção família Welt, Estância Sta Gertrudes, RGS, Brasil

(204)

"Alma, esta é a mandrágora,
A raíz que grita se arrancada,
Mas não tema, não vou fazê-lo agora,
Pois ainda não estás preparada."

Assim disse Frida, a minha avó
Que tinha um aspecto de assustar
Mas que gostava de encenar
O papel de feiticeira, e era só.

E então, uma noite, eu o fiz:
Fui ao jardim e a arranquei
Puxando pelas folhas a raíz.

Mas o susto foi dela ou o contrário?
Pois o terrível grito eu escutei
Vindo do fundo do meu imaginário...

05/01/2007

Postado por Lúcia Welt às 9:

Alma surprendida pela chuva -óleo s/ tela de Guilherme de Faria

11/09/2007

Nobrezas (de Alma Welt)

(203)

Vinha um cavaleiro pela estrada
Que meu pai acompanhava desde longe,
Mas não foi buscar a espingarda
Nem ficou imóvel como um monge.

Agitou-se e me disse emocionado:
"Alma, é o Rogério, meu amigo,
Reconheço-o pelo seu jeito montado,
Como se fora cavaleiro antigo."

"Ninguém monta mais como o Rogério,
Que denotava a sua nobreza
Tanto sobre a sela quanto à mesa."

"Alma, peça pra Matilde e pro Galdério
Prepararem estrebaria e almoço
Que precisamos ser dignos do moço."

08/11/2006

10/09/2007

Palavras ao padre (de Alma Welt)

(202)

Entre, padre, e queira desculpar-me
Mas não perca tempo em doutrinar-me.
Sou pagã praticante e amo os numes,
Os deuses que ouvem meus queixumes.

Meu pai criou-me em pleno Olimpo
E com muitas visitas ao Walhalla.
Por isso, padre, jôgo limpo:
A vida só me fez por mais amá-la.

Se me vens falar do Senhor Cristo,
Garanto que ele tem o meu respeito
E creio que ele saberia disto:

Sou inocente como uma criança
Já que sou poeta e tenho feito
Da minha vida um canto de esperança.

16/01/2007

A esquisita (de Alma Welt)

(201)

Minha mãe quis mostrar-me pr'as visitas
Apesar de minhas maneiras "esquisitas",
E pediu-me que cantasse umas canções
Ou recitasse um verso de Camões.

E eu, para honrar a minha fama
Fui passando muito além da Taprobana
E meti um soneto da minha lavra
Com a melhor das intenções... palavra!

Ainda mais com minha ênfase de atriz,
Já que aquele minha mãe não conhecia,
E fiz a pobre corar até a raíz

Pois com verso controverso não contava,
E às visitas logo mil perdões pedia
Enquanto eu da sala me esgueirava...

28/10/2006

09/09/2007

Estórias do Galdério (de Alma Welt)

(200)

Galdério, meu querido charreteiro
Anda sempre a caráter, de bombachas
E um punhal de prata sob faixas
Que lhe cingem a cintura qual toureiro.

Mas nunca esse punhal ele tirou
E oferecendo-me uma fruta na charrete
Pediu ao Rôdo emprestado o canivete
E percebi o olhar que este lançou.

Então, mais tarde lhe roguei
Que findasse o mistério do punhal
Retirando-o da bainha, afinal.

Ele o fez, e ao meu espanto respondeu:
"Ele inteiro matou amigo meu
Mas a metade ficou nele, e os enterrei."

19/11/2006

Estória da Matilde (de Alma Welt)

(199)

Matilde, que agora reza e reza,
Houve tempo em que abria para mim
E contou-me que dentro dela pesa
Um remorso imenso e sem fim.

Ela deixara um filho natural
Num orfanato, só, por indigência,
Mas ao buscá-lo em penitência,
Soube de algo terrível e fatal:

A criança se fora num inverno
Em que o minuano assaltara
O casarão gelado e a levara...

Então Matilde andou pelo Inferno
Por dez anos até que o Galdério
A encontrou a dormir num cemitério.

12/01/2007

O pedido (de Alma Welt)

(198)

Tanto que a Mutti me dizia
Que o destino da mulher é o casamento
Que até para mim chegou o momento
De dar o sim a alguém que me pedia

E que fora um colega meu de escola
Desses que nunca pediu cola
E que me tinha tal veneração
Que junto a mim travava, em comoção.

Então chegou um dia resolvido
E diante dos meus pais fez o pedido
Balbuciando, trêmulo e alvar.

Puxei-o e disse, ali, na sala ao lado:
"Darei pra ti, esta noite, com agrado,
Se prometeres nunca mais voltar."

01/12/2006

Nota da editora:

Fui praticamente testemunha deste episódio que escandalizou o rapaz e irritou nossa mãe que, na verdade, não soube, claro, do motivo do sumiço do "noivo" (que diga -se de passagem, teve suficiente hombridade para retirar-se sem cobrar a promessa da Alma.
Minha irmã era sensível mas não sentimental, e não aceitaria casar-se com um rapaz tímido e inseguro, por melhor que fosse em outros aspectos, pois ela admirava a coragem, a desfaçatez e até o cinismo viril do nosso irmão Rôdo, pois uma das virtudes que ela mais admirava em alguém, era, como ela dizia, o "savoir -faire". (Lúcia Welt)

08/09/2007

Noturno (de Alma Welt)

(197)

Entre o casarão e o vinhedo
Está o jardim dos meus amores
Que de dia acolhe o folguedo
De guris e gurias entre as flores.

Mas nele eu navego em noite cálida
Sob a luz de uma lua espectral
Refletida e tornando-me mais pálida
Como pequena gôndola irreal

Que singra entre touceiras prateadas
Deixando rastro: cintilantes vagalumes
Companheiros de noturnas caminhadas

Sob a guarda do Negrinho e as Três Marias
Que ainda me protegem dos queixumes
Dos sonhos mortos e das fantasmagorias...

15/12/2006

De lobos e guris (de Alma Welt)

(196)

Minha mãe dizia haver um lobo
No bosque aqui perto e emboscado
E que eu deveria ter cuidado
E nem sequer ir ali com o meu Rôdo,

Pois meu irmão, guri bem destemido,
Não seria páreo pro vilão
E que depois de assado e comido
Eu seria a sobremesa alí à mão.

Mas a curiosidade era mais forte
E eu entrava com ele ou sozinha
Embora jogássemos com a sorte

Pois a verdade era que eu creía
Haver o lobo que comia criancinha,
E até hoje ainda creio: o lobo havia.

13/01/2007

Meu reino (de Alma Welt)

(195)

Verdes manhãs da minha infância
Em que eu corria após o chimarrão
Por sendas do jardim aqui da estância
Como se me alçasse deste chão!

Pois eu voava, sim, eu percorria
Aéreos caminhos em minh' alma
E conhecia este pampa como a palma
Embora em minha mente de guria

Que vivia em doce ambigüidade
Os receios próprios da idade
E uma imensa coragem de viver

Pois era o meu reino a pradaria
E eu era a princesa por nascer
Brotada do meu chão de fantasia!

28/11/2006

O fantasma (de Alma Welt)

(194)

À meia-noite um fantasma aparecia
Nos dez primeiros anos do vinhedo...
Minha avó é quem contava esse enredo
E justamente a mim que era guria.

Sim, ela dizia, o Valentim
Ferro, o antigo dono estancieiro
Que como em romance folhetim
Enforcou-se numa trave do telheiro.

E então eu me punha em vigília
Que por certo não chegava à meia-noite,
Que há muito já dormia esta família.

Mas afinal, meu leitor, também o vi,
Mas no imaginário, não se afoite,
Pois nele é que viver eu escolhi...

14/11/2006

O trem (de Alma Welt)

(193)

Quando aqui chegava o nosso trem
Na pequena estação perto da estância
Era uma festa enorme para alguém
Que amava os signos da infância.

Os ruidos, silvos e a fumaça,
O vapor envolvendo qual neblina
O vulto espectral de uma menina
Muito branca atrás de uma vidraça...

Era eu que olhava e que me via
Como sempre em tudo em minha vida
Narradora e personagem escolhida

E que esperava a mim na plataforma
Para abraçar-me em meio a algaravia
Daquela multidão quase sem forma.

17/11/2006

07/09/2007


Retrato "leonardesco" de Alma Welt- Lithografia de Guilherme de Faria

Galopa! (de Alma Welt)

(192)

Galopa, meu pingo, pelos prados,
Que me agarrarei à tua crina,
Sem sela, nua e a pele fina,
Com meus cabelos soltos e ondeados!

Deixa-me sentir o teu calor
Na minha vulva em ti assim colada
Que trocará contigo o teu suor
Pela minha seiva destilada.

E se os peões que porventura toparei
Disserem que me viram nesse lance,
Branca, bela e nua... eu direi

Que deixaram-se levar pelo espanto
E me viram já longe do alcance,
Através de um leve e alvo manto...

15/01/2007

06/09/2007

Cavaleiro (de Alma Welt)

(191)

Meu cavaleiro, leva-me contigo
Embora eu saiba muito cavalgar!
Mas para onde levaria meu umbigo
Se o meu destino eu mesma carregar?

Voar nas asas do condor do pampa,
Quisera ir ao longe em outra asa,
E ver o mundo não como uma estampa
Folheada em livro aqui de casa.

Ser levada, conduzida, sem escolha,
Por um forte coração, ó fantasia!
Sentir a mão do outro qual poesia

Que traça o rumo próprio do meu verso
E que no espaço exíguo de uma folha
Me conduz por todo um universo!

09/01/2007

Nota da editora:

Neste soneto, Alma, que foi sempre muito autônoma e livre, manifesta a secreta e profunda fantasia feminina de ser levada, conduzida, raptada pelo forte destino e coração de um cavaleiro, isto é, do amado. A abdicação, voluntária ou não, de um destino próprio, fez a história feminina ao longo dos séculos e lançou raízes no inconsciente coletivo das mulheres. Alma aqui justifica em termos poéticos essa escolha da não escolha. Em que pese a beleza e o lirismo do soneto, ele expressa um instante de desfalecimento ou de renúncia da usual rebeldia da poetisa Alma. (Lucia Welt)

A selva (de Alma Welt)

(190)

Entrando no vetusto casarão
Procuro logo aquele sacro espaço
Da biblioteca, um bom salão
Com seus dez mil livros como um laço

Que me envolvia toda na infância
E não podia mais sair, mas sem revolta
Lendo e mais lendo com ganância,
Sentindo o mundo todo à minha volta.

E foi ali, numa mesinha para mim,
Que meu pai instalou especialmente,
Que a Poesia brotou em minha mente,

E assim como um piá ou curumim
Do silêncio daquela selva emerso
Veio à luz o meu primeiro verso.

08/01/2007

05/09/2007

Resumo da ópera (de Alma Welt)

(189)

Sob o casarão por qual lutava
Foi por mim e meu cunhado descoberta
A grande adega, ao ser aberta
Uma parede secreta que girava.

E foi-nos revelado um tesouro
De toda uma safra dos avós
Que ficara maturando no escuro
Desconhecida de meu pai, de todos nós

Que lutávamos pela casa e os vinhedos
E todos estes belos arredores,
Quando já faltava a temperança.

E foi desta senzala e seus segredos
De infâmia, injustiça e seus terrores
Que surgiu novamente a esperança.

04/12/2006

Nota da editora:

Realmente este soneto é um resumo do entrecho básico do romance A Herança, em que Alma contou a sua luta para salvar a nossa estância e seu vinhedo. Assolada por dívidas tivemos prestes a perdê-la quando se instalou uma disputa entre Solange e Geraldo, de um lado, e Alma, Rôdo e eu de outro. O soneto se refere a um incrível momento(real como tudo o que a Alma escrevia)em que ela descobriu, por ter vigiado Alberto, o marido bêbado de Solange, que este descobrira uma passagem secreta da nossa adega, uma parede giratória que dava para outra adega muito maior, imensa, antiga senzala desconhecida por nós sob o casarão, onde estava depositada a safra secreta do melhor vinho dos nossos avós, e que salvaria a estância de suas dívidas, não fosse... Bem, os leitores terão que esperar o romance da Alma ser publicado em livro para saber o que aconteceu nessa saga real e ao mesmo tempo romanesca. (Lúcia Welt)

O olhar do Mundo (de Alma Welt)

(188)

Sinto o olhar do mundo sobre mim.
"És narcísica", dirá um entendido,
Mas sei que o que sinto faz sentido,
Como autora, e não qual manequim.

Sim, porque tenho o que dizer
E dar ao mundo, doar e bendizer
A graça do talento e deste olhar
Que quase tudo consegue desvendar

Pela chave da poesia e da beleza
Que vai os seres e as coisas desvelar
No que nem parece permitido

Aos olhos cansados de aspereza,
Que pela arte e ofício de contar
Devolve ao mundo seu cerne coibido.

12/01/2007

04/09/2007

O Jardim da Modéstia (de Alma Welt)

(187)

A pradaria conflui com meu jardim,
E este pequeno reino já a invade
Com espécies fidalgas, na verdade
Vistas com respeito até por mim.

Mas é nos prados mesmo, agrestes,
Onde flores rudes e silvestres
Reinam para glória do meu pampa
Que a caixa da Natura abre sua tampa

E derrama um prodígio para todos
Que aqui vêm fazer os seus conclaves:
Insetos, passarinhos, borboletas.

Então eu cavalgo sem entraves,
Princesa que aqui perdeu seus modos,
Recebida num jardim de violetas.

08/01/2007

Nota da editora:

Fiquei deslumbrada com a descoberta deste soneto, que por sua graça e sutileza deve figurar, a meu ver, entre as obras-prima da Alma. Notem a alegoria que ele contém, já que a violeta, espécie nativa brasileira, é tida tradicionalmente como flor símbolo da modéstia. (Lúcia Welt)

Jogos do Amor (de Alma Welt)

(186)

Meu irmão aprendeu a fazer mágica
Com as cartas, já que é um jogador
E mostrou-me um truque encantador
Não fora a conseqüência quase trágica

Pois fazia aparecer um ás no pôquer
Numa certa seqüência de cartada.
Mas não resistiu, numa noitada,
A fazê-lo em pleno jogo, pra valer.

Nessa noite ele voltou muito ferido
E o tratei condoída e consternada,
Que nunca o vira assim desprotegido,

Pois que, pra quem está acostumada
A vê-lo e tratá-lo como herói,
Descobri-lo vulnerável... ah! como dói!

07/01/2007

03/09/2007

Memórias (de Alma Welt)

185
Ontem, eu corria, livre em mim
Em torno à minha casa avarandada
Soprando as sementes do capim,
Mais que observando: integrada

Às lindas coisas da relvas e do ar,
Pequenas flores, insetos a voar,
Aves, nuvens, o vento nas coxilhas
Nesse desfilar de maravilhas.

Então ouvindo o piano, o som do rei,
Eu corria para vê-lo no escritório
(já que era ali seu território)

E de bruços me punha estendida
Num tapetinho debaixo do Steinway,
Que era a prova do quanto era querida...

O peão (de Alma Welt)

(184)

Hoje de manhã chegou à estância
Um peão estranho, cavalgando
Percebia-se de mui longa distância
Pois vinham vagarosos mas suando

Ele e seu pingo, que tratamos,
Depois conduzimos o peão
Até a cascatinha e o deixamos
Pra que tomasse um banho com sabão.

Então se apresentou, ó emoção!
O mais belo peão já avistado
Por aqui, e até mesmo barbeado.

E eu o contratei porque a beleza
Me parece essencial e condição
De uma bem legítima esperteza.

06/01/2006

Mitos (de Alma Welt)

(183)

No monte Ida o belo Páris
Pastoreando foi por deusas visitado,
Três, as mais belas do reinado
De Zeus, que as mantinha pelos ares.

Queriam fazer do pastor-príncipe
Amado, exclusivo e bom freguês,
Em troca d'uma opinião partícipe:
Qual seria a mais bela das três?

Mas, perguntam meus leitores,
Algo a haver com o mito desta Alma
Que na rede tem seus eleitores?

No mundo virtual com suas pesquisas,
Entre as belas, eu levar a palma
Quisera, em meio às poetisas...


18/12/2006

02/09/2007

A Toilette de Alma Welt


Pintura de Guilherme de Faria, de 100x100cm, óleo s/ tela, de 2001, para a qual Alma posou para o artista em seu próprio ateliê em São Paulo.

O Vinho da Alma (de Alma Welt)

(182)

Se me pergunta o mundo o que quero
Com tanto sonetar, tanto dizer,
Se não posso um pouco me conter,
Partir meu dia, assim, do ponto zero;

Viver o hoje sem interpretá-lo,
A hora e o minuto simplesmente,
Como uma ampulheta ou um gargalo
A gotejar o vinho ou a semente;

Eu respondo que assim como me vê,
Escrever é ver, aurir e degustar
A vida como um vinho em minha boca

E como um esmerado sommelier
Cuspir somente se for pra declarar
O prazer da dose, que é tão pouca...

22/12/2006

Palavras da Matilde (de Alma Welt)

(181)

Alma, volta logo, não nos deixe
Preocupados aqui com a princesa.
Sei que estás no prado como um peixe
Na água, alegria e... afoitesa.

Ontem um peão te viu pelada
A cavalgar como se não fosse nada.
Quem conta conto, eu sei, um ponto aumenta
E tua brancura é que os desorienta.

Mas olha, guria, boa prenda
Fica em casa a fazer teia de renda
Até o momento feliz de a recolher,

Pois queiras ou não tu és mulher
E o nosso destino não escolhe
Senão dever, marido e vasta prole.

02/12/2006

01/09/2007

A Herança, ou Na cabeceira do avô (de Alma Welt)

(180)

Meu avô era homem de palavra
E a tinha só na força concentrada,
Toda nervos, olhar, e aquela trava
Na maxila tensa e pesada.

De outras poucas palavras, nada terno
Era incapaz de uma carícia,
Persistente e tenaz como se eterno,
E totalmente isento de malícia.

Mas foi o velho boche grandalhão
Que me chamou à cabeceira bem no fim
E segurou com brandura a minha mão.

Depois tocando leve a minha testa,
Disse piscando o olho para mim:
"Alma, fiz o vinho, faça a festa."

13/01/2007

Nota da editora:

Emocionou-me este soneto primoroso, que considerei de imediato mais uma obra-prima da Alma, e que me fez lembrar do velho Joachim Welt, que Alma tão magistralmente descreveu no soneto, e que eu não sabia ter doado tão bela herança em poucas palavras para a verdadeira herdeira do vinhedo de sua vida. (Lucia Welt)

Manhã (de Alma Welt)

(179)

Matilde, prepara-me o amargo
Que quero sair e pôr-me ao largo
Navegando ao vento na campina
Como nau que a branca vela empina.

A brisa a fluir no azul profundo,
Pode mais propício estar o mundo?
Quem foi que disse ser um sacrifício
A vida, o viver e seu ofício?

Olha aquele umbu ali ao sol
Coalhado de pássaros qual flores
A agitar-se como agitam-se os amores!

Dá-me, Matilde, uma côdea de pão
Que vou a mastigar com o chimarrão
Enquanto examinas meu lençol!*

29/11/2006

Nota da editora;

Como alguns já perceberam por outros sonetos e crônicas, Matilde, nossa ex-babá, teimava em continuar vigiando a Alma, e até a examinar os lençóis de sua "princesa" para coibí-la de seu "pecado", pois tinha conhecimento, desde sempre, da relação da Alma com seu irmão. Minha irmã, espirito livre e cheia de senso de humor tratava Matilde com enorme carinho como a uma mãe devotada, embora um tanto superprotetora e até rabujenta. Nunca vi a Alma se aborrecer realmente com a Matilde. (Lúcia Welt)

O balanço da vida (de Alma Welt)

(178)

Ontem grande árvore caiu
Na orla da minha pradaria
Arrancada por imensa ventania
Como por muito tempo não se viu.

E então eu fui examiná-la
E constatei que era roída por cupim.
Num instante cessei de deplorá-la
Meditando como tudo tem um fim,

E cogitei que o vento a derrubar
Não fora por acaso ou penitência
Nem tampouco puro gesto de clemência,

Pois não há injustiça na Natura
E tudo segue um balanço regular:
Vida e Morte, não sorte e desventura.

28/06/2006

31/08/2007

Pecado original (de Alma Welt)

(177)

Pelos meandros da minha consciência
Às vezes topo com escolhos sem idade
Que interrompem o fluir e a coerência
De uma vida que se quer em liberdade.

Mas o que é este mal que não se quer?
Será o tal pecado original
No qual nunca acreditei sequer?
Que tenho eu a haver com esse tal?

Talvez não mais que um gosto de sofrer,
Sentir prazer na dor que encontro em mim,
E um medo angustiado de morrer,

Uma carência de amor inatingível,
Uma vontade de ser mais, indefinível,
E um orgulho de ser poeta assim...

14/01/2007

Integração (de Alma Welt)

(176)

Me lembro de um momento de guria
Em que senti total integração
Com o instante e a alegria
De ser e pertencer, em comunhão

Com o local, as pessoas, a família,
E com os peões ali em torno;
Digo mais: até com a mobília,
As árvores, as coxilhas, o contorno

De minha terra que ia ao horizonte,
E o mundo inteiro parecia
Provir do meu amor, única fonte

Que aquele universo produzia,
E que era verdade e o segrêdo
De estar no mundo não como um degrêdo.

15/12/2006

30/08/2007

Palavras ao Galdério (de Alma Welt)

(175)

Galdério, "gáutcho" macho e fiel
A serviço desta Casa e casarão,
Com tua força doce como mel
E tua voluntária servidão,

Como dizer quanto sou agradecida
Pelo teu carinho, ó charreteiro
Que me pegavas no colo adormecida
E confiante em tuas mãos de escudeiro,

Que cuidavas não das armas mas das prendas
Do teu patrão, o fidalgo vinhateiro,
Maestro e colecionador das lendas

Do vinho e do homem verdadeiro,
E que soube desde logo avaliar-te,
A ti que fazes do servir a tua Arte?

12/01/2007

Palavras à Lúcia (de Alma Welt)


(óleo s/ tela de Guilherme de Faria, coleção particular, São Paulo)

(174)

Doce Lúcia, irmã mais parecida
Comigo do que talvez quiséssemos,
Que viveste tanto tempo sem guarida
No meio dos teus sem que soubéssemos,

Pois que eras casada com um tirano
A te fazer sofrer, que te humilhava
Como se foras um farrapo humano,
Não mais que um joguete, uma escrava.

Ah! Se eu soubesse, bem que havia
De prestes te tirar de onde estavas
E haveria de virar a tua mesa

Fazendo-te olhar a tua beleza
E os dons que sem saber desperdiçavas,
A represar em ti tanta poesia!

15/01/2007

Nota da editora:

Emocionadíssima encontrei no caderno recém-descoberto, que passarei a chamar de "Caderno secreto", estas "Palavras..." de minha irmã dirigidas a mim, que me revelaram o quanto ela me amava e se preocupava com minha deplorável situação conjugal, que não obstante deve ter sido de destino (como sempre é), pois meu péssimo marido de qualquer forma legou-me dois filhos lindos e preciosos, que não herdaram nenhum dos seus terríveis defeitos, mas sim as suas qualidades. (Lúcia Welt)

29/08/2007

Palavras ao Rôdo (de Alma Welt)


(173)

Rôdo, meu irmão, hoje não jogues,
Algo me constrange o coração,
Só peço que fiques, dialogues
E esqueças esta noite e sua mão.

Sonhei com um Royal Straight Flush
Sobre negra mesa de baralho
E depois um vermelho como um flash
Sobre as cartas, a mesa e o assoalho.

Então, irmãozinho, não me negues
Só um dia do teu jogo vou pedir,
E o