16 de jun de 2012

ESTE BLOG CONTÉM OS FAMOSOS 1.001 SONETOS PAMPIANOS DE ALMA WELT, UMA DAS INÚMERAS SÉRIES DA POETISA DO PAMPA. AO TODO OS SONETOS DA POETISA PASSAM DE 3.000 (Vejam a lista  dos 43 blogs que contém a sua obra completa em prosa e verso).

29 de mar de 2008

Carta de Lucia ao Guilherme relatando a morte da Alma

Passados já um ano e dois meses e meio da morte da Alma, resolvi hoje publicar aqui o e.mail que enviei ao nosso amigo Guilherme de Faria, de São Paulo que foi grande amigo da Alma e seu descobridor, lançador, prefaciador e ilustrador, relatando a ele as circunstâncias da morte trágica de minha amada irmã. Este famoso artista plástico e poeta cordelista paulista descobriu a arte e a literatura da minha irmã em Julho de 2001 quando a visitou no ateliê de pintura que ela manteve por quatro anos na região dos Jardins na capital paulista, e merecia ser o primeiro a ser comunicado fora do nosso círculo familiar. Devo dizer que uma versão desta carta eu publiquei em seguida na página da Alma no Recanto das Letras, quando encontrei seu computador ligado e aberto na sua página com a senha salva, e resolvi participar a tragédia aos poetas recantistas, colegas da Alma e supostos amigos seus. Infelizmente minha carta produziu um imenso escândalo e, equivocada e mesquinhamente minha irmã e o Guilherme de Faria foram expulsos daquele site tendo, espantosamente, sido seus cadastros cancelados pelos editores daquele site. Eis aqui o relato que causou aquele imenso tumulto, e indignação:


Guilherme
A tragédia abateu-se sobre a nossa casa. Alma está morta. Minha pobre irmã matou-se por volta do meio dia de hoje. Esperaram-na para o almoço, e como ela não chegava de suas andanças todos começaram a ficar inquietos, pois ela andava esquisita, novamente, nos últimos dias. Rodo, a doutora Jensen, e Matilde, saíram para procurá-la e percorreram os lugares preferidos dela, o quiosque do jardim, o pomar, o bosque, e até a pradaria em torno da casa. Afinal foram até a cascata. Ali, encontraram o seu vestido branco, sobre a alta margem de pedra do poço, ou piscina da cascata. Ali, pode-se ver de cima a superfície cristalina da piscina natural formada pelas águas que caem na cabeceira do poço, único ponto mais tumultuado. Rodo num ponto mais alto avistou o corpo nu muito branco, de minha irmã, a poucos metros do fundo. E mergulhando retirou uma corda que a prendia a uma pesada pedra, pelo pescoço, para que não subisse. Ele a retirou das águas, gritando, gritando seu nome, em desespero. Ele a colocou na margem e tentou fazer uma respiração boca a boca, mas que era mais um beijo trágico, pois ele desmaiou de dor sobre ela. Ao voltar a si, estava como louco, e está assim até agora, num tal sofrimento, que teme-se pela sua vida. Galdério, quase catatônico, de maneira automática e instintiva, paternalmente como costumava fazer quando Alma era pequena ao tirá-la adormecida de sua charrete, pegou seu corpo como estava e veio com ela nua nos seus braços andando pela pradaria em direção ao casarão enquanto a noticia corria, até entrar no salão e depositá-la sobre a grande mesa de jantar. Tudo isso me foi contado por Matilde ao telefone, em meio a um choro convulsivo. Deixei as crianças aos cuidados de Alícia, sem contar a elas o que e estava acontecendo, peguei o carro e dirigi em disparada até a estância. Aqui encontrei minha irmã posta ainda nua sobre a grande mesa da sala. Seu corpo tão branco estava mais lívido ainda, o que fazia com que se parecesse com uma estátua do mais puro mármore de Carrara, tal a beleza que ainda conservava. Tinha somente uma marca circular, avermelhada, ao redor do seu longo pescoço de bailarina. As pessoas da estância, até os peões e suas mulheres já tinham invadido a sala e velavam com enorme reverência seu corpo nu deslumbrante. Nem mesmo a doutora Jensen, arrasada, pediu que a vestissem. Era como se todos sentíssemos que sua nudez era sagrada. Foi então que Matilde suspendeu tal desvario, irrompendo na sala com uma grande toalha de mesa de renda branca na mão, gritando: “Cubram a minha guria, seus ímpios! Afastem-se todos, cubram minha guria!”
Começaram então as velas acesas, as novenas e o pranto coletivo.
Agora o corpo de minha irmãzinha será levado até Santana do Livramento onde será cremado, como ela queria, para que suas cinzas sejam trazidas de volta e espalhadas ao vento, pelos locais da estância que ela mais amava: as flores do jardim, o pomar, o bosque, a campina ao redor do casarão e o vinhedo. Seu amado pampa será sua morada para sempre. Nossa estância, nossa terra nunca mais será a mesma. Não sei sequer se sobreviveremos à perda de nossa Alma amada, que era tão bela por dentro quanto por fora. Jamais haverá alguém como ela. Sentimo-nos perdidos, Guilherme, nosso amigo, que a descobriu e amou aí em São Paulo, e que tudo fez para que tivesse um livro seu publicado, e que tanto parece conhecer a alma e coração precioso de nossa irmã.
O que mais temo agora é a reação de meus filhos e sobrinhos quando souberem do acontecido. Ai! Não sei o que será deles, que a amam tanto!
Reze por nós, meu amigo, pois esta família precisa de orações, pois lágrimas já temos demais!
Lucia

20/01/2007

15 de mar de 2008

OS SONETOS PAMPIANOS DA ALMA


Este blog contém a obra monumental de Alma Welt, os famosos SONETOS PAMPIANOS DA ALMA, que lidos em seqüência relatam a saga da autora em sua estância nos pampas desde a sua infância. Seus sonhos, devaneios, ânsias, relatos, crônicas de sua vida cotidiana, estórias e diálogos pitorescos dos empregados da casa e dos peões, lembranças dos irmãos, pais e avós, seus amores, seus medos e dúvidas, seu entusiasmo comovedor pela vida e pela arte, formam um conjunto grandioso, e um retrato magnífico da vida numa estância gaúcha no extremo sul do Brasil.
Eu, Lucia Welt, irmã da poetisa abri este e outros blogs (clique em visualisar perfil completo) para publicar a imensa obra póstuma (ao todo mais de 2.000 sonetos (!!!), além de contos,crônicas, poemas e romances) desta poetisa renovadora das nossas letras, que já se tornou cult e que mesmo sendo de base essencialmente romântica consegue atualizar e justificar essa corrente em pleno alvorecer do século vinte e um.

A Carruagem (de Alma Welt)

A carruagem (de Alma Welt)
1001

Um piano toca no salão!
Ah! e não fui eu que coloquei
Um CD ou um velho long play,
Talvez seja o Vati, e então...

Ele voltou! Sim, ele me quer!
Vou ao seu encontro e sou mulher!
Sim, ele vai ver agora sou
Pelo menos a guria que sonhou.

Olha, Vati, há muito não me vias,
Mas de verso em verso muito errei
Pelo mundo, a viajante que querias...

E agora, com toda esta bagagem,
Leva-me contigo que eu irei
Quietinha, assim, na carruagem!

19/01/2007

Nota da editora:

Este soneto, o último da vida e da obra da Alma, publicado por ela no Recanto das Letras, tocou muitas pessoas que vinham acompanhando a série pampiana, publicados um ou mais por dia, em tempo real. Os leitores talvez sentiram que se tratava de uma despedida, mas não conscientizaram, pois as leituras registradas desse soneto só dispararam quando coloquei na página de minha irmã (por encontrá-la com a senha salva no seu computador) o anúncio de sua morte, com detalhes, o que indignou a muitos, e peço desculpas. A partir do momento da publicação do anúncio fúnebre, as leituras deste soneto foram rapidamente para mais de 300 registradas nos cinco dias seguintes,enquanto o total das leituras dos textos da Alma subiram mais 2.000 atingindo a marca de 14.000 e tantas, o que mostra a curiosidade válida, ou mórbida, não julgo, que as últimas palavras de um(a) grande poeta causam nos seus pares ou mesmo no público em geral. (Lucia Welt)


Despedida (de Alma Welt)
1.000

Está na hora, vou me despedindo...
Foi uma longa jornada toda em verso.
Cantei a vida, o bom e o lindo
E por algum soneto controverso

Não pedirei desculpas a vocês
Pois meu coração foi sempre puro
E não quis chocar o bom burguês
Nem bater cabeça contra o muro

Das opiniões e dos costumes
Pois quem sou pra amaciar o duro couro
Que não queira passar pelos curtumes?

A alma abri e ela mesma eu sou,
Preferi distribuir-me toda em ouro
Que as pérolas meu orgulho não deixou...

18/01/2007

Auto-Retrato (de Alma Welt)
999

Toda uma vida em mil sonetos...
Mais hum pra ser exata em minhas contas.
Posso me orgulhar dos meus quartetos
E algumas chaves, se o ouro me descontas

Se não cheguem a ser fechos dourados,
Também algumas pobres rimas falsas
Sem contar os lamentáveis pés quebrados
Com que tenho dançado algumas valsas.

No final, o conjunto é até bem posto
Conquanto discutível no detalhe
E mesmo anacrônico no gosto.

Mas quê importa? Cantei-me para mim,
É risível, eu sei, nem bem me calhe
Sincero auto-retrato, tanto assim...

17/01/2007



Encontro com a Moira (de Alma Welt)
998

Encontrei a Moira em meu pomar
E ela confirmou a minha data.
Não deu tempo pra se resignar
Àquela que o tempo nunca mata,

Pois não desperdicei as belas horas
Que me foram dadas nesta vida
E amei uma a uma estas senhoras
Que servem o Tempo sem medida

Que entretanto medida nos impõe,
O que me parece muito injusto
Da parte de quem tanto dispõe.

Mas não vou no final ironizar
Que até a ironia tem um custo,
É uma forma de nos desperdiçar...

17/01/2007


Folhas Mortas (de Alma Welt)
997

As folhas mortas pelo solo do jardim,
Vejo-as transformarem se em adubo.
Não farei disso comparações em mim,
Que a paciência dos outros não perturbo.

Nada mais corriqueiro e aborrecido
Que metáforas, e mais, edificantes!
Se o soneto é o meu caminho preferido
Não farei dele trilha de elefantes

Repisando com patas adiposas...
Cá estou a fazer também imagens,
Que as tinha descartado, como às rosas.

Bah!Do meu jardim de folhas mortas
Vim parar num deserto de miragens,
Perdi o rumo evitando as linhas tortas...

(sem data)





O Pequeno Teatro do Mundo (de Alma Welt)

(lembrando Der Mond, de Carl Orff 1895-1982)
996

Fora da Poesia não há vida
Que seja apreciável e condigna.
É claro que há aquela sórdida,
Sem contar com a versão malígna...

Mas me refiro à que cabe no Sonho
E tem até seu teatrinho ao luar.
Esta, a verdadeira, que suponho,
Não distingue o chão do pleno ar.

Eu não queria viver se não houvesse
Uma saída lateral neste teatro
E se entrar por ela não pudesse.

Pois no Pequeno Teatro deste Mundo
Prefiro estar no palco até de quatro,
Ou então na coxia, mais ao fundo...

(sem data)

Nota

"O PequenoTeatro do Mundo", este o título com que no Brasil foi apresentada a opereta Der Mond (A Lua), do compositor alemão Carl Orff (autor da célebre cantata Carmina Burana) nos anos 90 em São Paulo.( Lucia Welt)

"Embora a associação de Carl Orff com o nazismo nunca tenha sido comprovada, Carmina Burana tornou-se muito popular na Alemanha nazista depois de sua apresentação na cidade de Frankfurt, em 1937. Orff era amigo de Kurt Huber, um dos fundadores do movimento de resistência Die Weiße Rose (em alemão, "A rosa branca"), condenado à morte pelo Volksgerichtshof e executado pelos nazistas em 1943. Depois da Segunda Guerra Mundial, Orff alegou ter sido membro do grupo, tendo-se envolvido na resistência, mas não há evidências disso". (Wikipedia)



Poentes Dourados (de Alma Welt)

995

Os poentes dourados do meu pampa
Me fizeram aqui permanecer
E ir preparando a minha campa
Para a esta grande troupe pertencer.

Fiz meu balcão ou coxia na varanda,
Tiete ou camareira, não importa,
Mas olhando o que o Diretor comanda
Todo dia em frente à minha porta

Dizendo: "Acomoda-te, é hora!
Dirijo luzes, não espera que eu dance
Para ti que pouco reza e muito chora."

"Sei que sabes dar valor à grande Arte.
Escreveste o teu próprio romance
Aprecia agora o show que venho dar-te."

(sem data)


A Festa (de Alma Welt)
994

Não levantei o punho contra o céu
Por saber meu prazo já tão curto
Ao tirar dos olhos denso véu
Sem a frágil mente entrar em surto.

Mas se muito chorei já não o faço
E os dias que me restam desafio
Com as boas rimas e o compasso
Conhecidos canais do desvario

Que ora ponho a serviço de mim mesma
Como meio de dobrar o que me resta,
Dupla vida para a pródiga abantesma

Que há de para sempre aqui ficar
Entre os que jamais deixam a festa
Do casarão e da vinha em pleno ar...

(sem data)




A Visita de Lady Bones (de Alma Welt)
993

Pressinto que está chegando ao fim
Conquanto ainda tão cheia de vida.
Matilde diz que isso está em mim,
Que vivo pensando em sua partida,

Pois a nossa visitante, Lady Bones,
Gringa velha que hospedamos há um mês
Não é dada a flautas nem trobones,
Mas afável e gentil como uma rês.

Quanto a mim, considero bem sinistra
A insistência em ir comigo ao poço
E como sua dieta administra,

Sem almoço, nem café nem chimarrão,
Não admira que esteja pele e osso
E que ao recolher-se acene a mão...

03/01/2007

Macunaíma de saias (de Alma Welt)
992

Ninguém me diga que nem tudo revelei
E que fiz do meu soneto promoção
De mim, do pouco ou muito que pensei
Ou do meu jeito de tomar o chimarrão,

Quero dizer... do meu modo de vida,
Aliás considerado extravagante
Com esta tendência assumida
Ao nudismo e à poesia divagante.

Já contei até minha internação
Que terminou com fuga pela estrada
E quase estupro por chofer de caminhão.

Bem... sou afinal anti-heroína,
Minha poesia não serviu pra quase nada,
De saias fui talvez... Macunaíma!

(sem data)




O Soneto (de Alma Welt)
991

Do soneto, inesgotável como a música
Que infinitas melodias nos permite,
Menos me instiga a face lúdica
Que a de uma dor que não se evite

Pois se reprimo o verso que me venha,
Enlouqueço logo com a insistência
Com que ele exige que o mantenha
Num soneto de amor, de preferência.

Mas o melhor verso é o que aparece
Quando nem mesmo amando estou,
Coisa que difícil me parece,

Pois sonhadora do presente e do real,
Vim ao mundo, versejei, daqui me vou
Como se nunca tivesse visto o mal...

27/11/2006



O Que Deixamos (de Alma Welt)
990

De alguma forma passemos o que fomos,
E o que sabemos e onde estamos,
A cadeia não rompamos e os pomos
Não deixemos apodrecer nos ramos

Ou tombados no solo de mil larvas,
Pois não viemos aqui sem condições,
Sem cobrança de atitudes parvas
Ou um questionamento das ações

Que foram ou que são o nosso rastro
Seguido pelos que depois virão
E no vinhedo erguerão o nosso mastro...

Pois com condescendência ou com desgosto,
Ao razoável vinho ou feio mosto,
A cabeça de algum modo abanarão.

(sem data)



Questionando o Tigre (de Alma Welt)
989

O verso, disse Rilke, é experiência.
E levei isso tanto ao pé da letra
Que fiz do soneto minha vivência,
Nele o bebê, a parida e o obstetra.

Então sou o que escrevo, a minha obra.
Construí-me, em rimas me moldei,
Não existo fora, não me cobra,
Que a ti, que mais me exiges, já me dei.

Achas pouco milhares de sonetos
(que os preferi ao verso livre)
Que descrevem mundos nos quartetos

E nos tercetos os pondera?
Se com Blake não questionei o Tigre,
Não sei mais o que sou... e quem me dera!

(sem data)



Inconfidências do meu jardim (de Alma Welt)
989

Cada flor é um poema, sim, latente,
Com seus disfarces e segredos.
Muito cedo tornei-me confidente
Do meu velho jardim de enganos ledos.

Ele viu as decantadas maravilhas,
E as rosas, mais velhas, indiscretas
Contam casos amorosos farroupilhas
Das donzelas e das paixões secretas

Que nutriam por heróis esfarrapados
Que morreram com os nomes seus nos lábios,
Ou de jovens marinheiros importados

Que nos seus lanchões, anfíbias naus,
As tinham como doces astrolábios
Navegando em esperanças rumo ao caos...


(sem data)


Notícias do Front (de Alma Welt)
988

As notícias do front carteado
Chegam por Matilde até mim
Quando estou vagando pelo prado
Ou devaneando no jardim.

Rodo ganhou!Está a caminho!
Vem vindo no seu bólido vermelho,
E eu, entre a vergonha e o carinho
Preciso correr até o espelho.

E me vejo perdida em outra vida,
Alienada, meus sonhos pelo chão,
A esperar que uma cartada me decida...

O que quero? Que tenho eu com a sorte
Nas cartas vitoriosas de um irmão,
Se a minha é sempre a tal, da Morte?

06/01/2007

O Cristal do Tempo (de Alma Welt)
987

As aparências enganam, já sou velha,
Milenar por trás da pele lisa;
No cristal do Tempo é que se espelha
Aquela que foi sempre a Poetisa.

Então o meu espelho é o contrário
Daqueles comuns que só devolvem
Aquilo que o Desejo, nunca vário,
Faz ver àqueles que o comovem.

Como são generosos tais espelhos!
Que eterna juventude reproduzem!
Que olhos claros, que lábios tão vermelhos!

E eu que só nos versos me revejo
Sou feita de três Almas que se unem:
O velho, a menina, o realejo...

(sem data)



Honoris Causa (de Alma Welt)
986

Sempre disponível para o amor...
Que digo? Tornei-me amor eu mesma!
Se duvidam, reparem meu labor
Singelo, de sonetos, mas em resma.

Que por doar-me em catadupas
De versos e frações de eternidade,
Justifico minha vida tão sem culpas,
Eis a minha responsabilidade:

A mim cabe estar entre os Poetas
E traduzir minha vida em pensamentos
Pra que outros reavaliem suas metas.

E se um só entre os corações leitores
Com minha ajuda decifar seus batimentos,
Serei Honoris Causa entre doutores...

(sem data)



O Tributo (de Alma Welt)
985

Manhãs gloriosas na coxilha
Que fazem ver que sempre fui feliz,
E nada pode apagar a minha trilha
Em direção à meta que me fiz

Que foi somente manter esta guria
Em sua eterna juventude
Irradiando em sonetos a poesia
De tudo o que sei e o que pude

Pra pagar o tributo que se deve
Ao direito de viver em plenitude
Tornando aquela carga bem mais leve:

O lastro da culposa humanidade
Que remonta àquele anjo do Talmude
Que por orgulho enfrentou a Deidade...

(sem data)


Esporas (de Alma Welt)
984

Vinha o gaúcho montado com esporas
E estacou o pingo ante a varanda
E pediu "trabalho só por horas"
Pois que "assim a sorte não desanda".

Então apontei-lhe os esporões
De galo orgulhoso e irreverente
E exigi que arrancasse esses latões
Pois aqui o cavalo é também gente.

Ele, que o bigode só, se abaixa,
Colocou a mão naquela prata
Do cabo que emergia de sua faixa.

Mas diante do meu olhar seguro,
Ao curvar-se enfim ele desata
As estrelas, que jogou pr'atrás do muro...

(sem data)



A Provinciana (de Alma Welt)
983

Olhando a coxilha da sacada
Dei-me conta de que sou provinciana
E vivo uma vidinha retirada,
Muito, muito aquém da Taprobana. *

E me deu uma vontade novamente
De sair por esse mundo à queima-roupa
E tomar o rumo do Ocidente,
Lá onde o sol dorme de touca,

E ver a Terra lá de cima do jirau
De uma montanha da grande cordilheira
Ou somente do Cerro do Jarau *

Que é bem mais perto desta estância,
E também me faz voltar à brincadeira
De viajar o mundo em minha infância...

(13/07/1999)

Nota
*Taprobana - nome antigo dado pelos gregos e romanos à ilha de Ceilão, atual Sri Lanka.
Paráfrase do último verso da primeira estância dos Lusíadas de Camões:
"Passaram muito além da Taprobana."

*Cerro do Jarau - Conjunto de montes de 200m de altura no município de Quaraí no Pampa rio grandense, quase na fronteira com o Uruguai, que deram origem à lenda gaúcha da Salamanca do Jarau (e da Teiniaguá), celebrizada na versão de Simões Lopes Netto, e que é uma das lendas mais famosas do Rio Grande do Sul.




Sobre o que falta falar (de Alma Welt)
982

O quê mais há, de fato, pra dizer
Quando já se fez soneto sobre tudo
E o que resta não parece merecer
Ou é algo para que se esqueça mudo?

Na realidade tudo vale a pena,
Não há o que não valha sobre a terra
A graça de um verso, de um poema
Se o olhar for agudo ou como serra.

Conheço um conto de um francês
À cerca de uma pobre empregada *
A quem nunca na vida ocorreu nada

Mas que tinha amor a um papagaio,
E eis o conto melhor que já se fez.
Quanto a mim, falta falar do mês de Maio...

(sem data)

Nota
*Conheço um conto de um francês- Alma se refere a Gustave Flaubert e sua obra-prima "Un Âme Simple" (Uma Alma Simples), tanto do ponto de vista literário quanto humano um dos melhores contos de todos os Tempos.


Os três canais (de Alma Welt)
981

Três canais de sintonia com o mundo
E então poder cantá-lo ou descrevê-lo
No seu significado mais profundo:
A Ciência, a Poesia e o Desvelo.

A Ciência reivindica a primazia
E é sempre o debruçar-se sobre o outro.
Reparem, dá-se o mesmo com a Poesia,
Não há como fugir a esse encontro.

Quanto ao desvelo, este é a essência
E está contido em tudo o mais
Que busque a almejada transcendência.

Por desvelo devo então dizer Amor,
Que não é senão poesia dos normais
E a ciência de superar a dor...

(sem data)


Desdobramento (de Alma Welt)
980

Não pensem que não vi dificuldade
Em conciliar a guria muito bela
Com a Poeta do Pampa e da cidade
Que a si mesma canta e se revela.

Eis então o que é desdobramento
Que afinal quererão chamar de esquizo
Tanto mais que produz este tormento
De ser eu meu rato, o gato e o guizo.

Pois eu mesma a mim me comovi
Sempre abrindo o bico pra trinar-me
Como fazem o sabiá e o bem-te-vi,

Que sendo poeta e fazendeira
Ou talvez por ter de milho a cabeleira
Não posso escrever mais sem debulhar-me...



A Máscara da Dama (de Alma Welt)
979

Quando se vive curto e tão a fundo,
Se chega fatalmente a um impasse:
Não é mais possível estar no mundo
Sem ver a nossa morte face a face,

E a encontramos nas esquinas,
A vemos nos momentos delicados
E até naqueles mais traquinas
Quando ousados subimos num tablado

E fazemos o nosso show de humor
Que a nós mesmos nos espanta
Pois se apresenta negro e quase horror.

Então tudo que fomos se desvela,
Cai a máscara da Dama e desencanta
E um tardio novo mundo se revela...

(sem data)


As Flores da Mente (de Alma Welt)
978

Caminhemos, meu amor, pelo jardim
A colher flores, como os guris que fomos
E queríamos a vida sempre assim,
Antes de ver a árvore dos pomos

Naqueles minutos que antecedem
O momento fatal de todo o drama
Em que o lance final com que nos medem
Não havia ocorrido em sua trama.

Inocência, candura com desejo,
Eram os ingredientes da emoção
E nada superava um tal ensejo

Pois ao evocá-lo novamente
Percebo que é outra a nossa mão
E estamos a colher flores da mente...


(sem data)
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domingo, 20 de fevereiro de 2011
Mulher de Outrora (de Alma Welt)


Mulher de Outrora (de Alma Welt)
977

Ocorreu-me que me aprazeria ser
Algo que já caiu no olvido,
Uma simples mulher cujo prazer
É a felicidade do marido

E dos filhos, sobretudo e primeiro,
Que deles fosse a realização
O meu único moto prazenteiro
E viver fosse essa interação,

Embora, creio eu, só pensável
Quando há ingenuidade e imanência,
Candura e sempre amor, o inefável...

Que bela devia ser a vida
Com esse dom de transferência
Quando era verdadeira e escolhida!

(sem data)



Eu e minhas estrelas (de Alma Welt)
976

Meus dias foram ricos, não me queixo.
Minha passagem por cá, embora breve
Foi sulcada pelo lastro que ora deixo;
Quanto às velas, direi: o vento as leve...

Os versos prescreveram a minha sina
E contaram minha verdadeira saga
Vivida em sintonia muito fina
Com a alma e a sua estrela maga.

Alguns dirão que insisto na poesia
Ao dar este franco depoimento
Mas falando em estrelas e magia...

Ora... não direi ouvir estrelas *
Pois há muito deixei tal argumento!
Eu mesma é que tratei de entretê-las...

Nota
* Ora... não direi ouvir estrelas! -Paráfrase do primeiro verso do famosíssimo soneto de Olavo Bilac: "Ora (direis) ouvir estrelas! Certo/ Perdeste o senso..."

08/01/2007



Sonetos na Rede (de Alma Welt)
975

Ao mundo venho dando os meus recados
Na forma de sonetos, oferendas
Generosas pois na rede já postados
De imediato, sem rasuras nem emendas,

E sinto irradiar-me pela mente
Dos que comigo compartilham a experiência
E aqueles que apreciam simplesmente
As rimas, a música e a cadência...

E ponho-me a pensar no Vate luso:
Que rei seria nesta terra o grão caolho!
Quanto mais navegaria, tão difuso!

E o Dante, Shakespeare, Petrarca!
Teria eu que ter barba e a pôr de molho
Ou então afundar a minha Arca! *

Nota
*... afundar a minha Arca!- Alma faz, com modéstia, trocadilho ou alusão à sua já famosa "Arca da Alma", onde foi encontrado o seu imenso espólio literário em grande parte inédito, de poemas, contos, crônicas, romances, hai-kais, lendas, cartas e sobretudo o espantoso conjunto de mais de 2.000 maravilhosos sonetos.


Pampa e circunstância (de Alma Welt)
974

Derradeiras manhãs de esperança
Raiando sobre os campos ondulados
Que vão até onde a vista alcança
Nosso último encontro combinado

Na fronteira entre o céu e o prado
Que é onde os sonhos se reúnem
E trocam notícias de seu gado
E as sonoras bravatas que os unem!

Sempre os tangi até o limite
Que é esse portal ou limiar
Em que até o delírio se admite...

E onde a Alma é aceita em sua ânsia
Cujo estro encontra o seu lugar
Sem medos no seu pampa e circunstância... *

08/05/2005


Nota
* Pampa e Circunstância- trocadilho com "Pompa e Circunstância", a famosa abertura musical do compositor inglês Edward Elgar (2 Junho 1857 – 23 Fevereiro 1934)


Mais do Amor (de Alma Welt)

973

A coisa mais bela desta vida,
Além de flores, aves, natureza,
O pôr-do-sol, a prece após a lida,
É a candura do amor e sua certeza

De ser, de estar e de se dar
Como se o outro sempre merecesse.
Que digo? Isso nem chega a colocar
Como se Amor, de si se esquecesse.

Então temos no que crer, acreditar.
Por quê precisaremos de outro deus?
Amor é soberano e um avatar

E nele então podemos confiar
Que não seja raivoso como Zeus,
E seus raios são só de irradiar...

(sem data)


Arroz de Festa (de Alma Welt)
972

Meus amigos, perdoem meus desmandos,
Que afinal só atingem mesmo a mim...
Mas se não aceito outros comandos
É porque prezo a liberdade como um fim

Em si mesmo, sem regras definidas.
E se não faço o mal, devo ao caráter,
Ou melhor dizendo, às coisas lidas
Que o livro foi pra mim célula mater...

Por isso e por amar tanto os espaços,
A moral pra mim é como um pum,
Perfumes são afetos e seus laços.

Mas o amor, o amor, ah! eu me rendo.
Não será ele jamais lugar-comum
Por mais que deste arroz vamos comendo.

17/08/2001


Celebração (de Alma Welt)
971

Celebremos a Vida, meus amigos,
E as grandes coisas que fizemos!
Os erros esqueçamos como antigos,
Teremos tempo para novos se quisermos...

Coroemo-nos de flores e brindemos
Como nossos ancestrais da antigüidade
Que viviam entre deuses e alguns demos
Como nós ainda o fazemos, na verdade.

Como é belo estar entre vocês!
Me encho de ternura e de entusiasmo
Por estar viva e em relativa lucidez.

E se ergo minha taça borbulhante
Esta sou eu a celebrar perante o pasmo
De mim mesma, perplexa e radiante!

(sem data)


Lobo no Sótão (de Alma Welt)
970

Quando estava eu nos dezesseste
Meu pai recebeu um velho amigo
Que ele não via desde o tempo do topete,
Que conhecera este mundo e o antigo

E era um poço de saber e de mistérios
Que lançava no ar e no jantar
Como meio de a todos fascinar,
Que logo percebi os seus critérios...

Pois olhava demais para esta prenda
Que era só uma ovelhinha desgarrada
Em pleno centro do cercado da fazenda.

Então o lobo revelou-se num momento,
E agarrando-me nas sombras da mansarda
Lançou seu grande e último argumento...


A Grande Chave (de Alma Welt)
969

Bem cedo descobri a grande chave
Da Poesia ou de tudo o que se faz,
Que é voar sem perguntar, como uma ave,
Ou então ser só perguntas, e sem mais

Pois as respostas não são o que importa
Quando se ama o Mistério como eu
Que pisei o limiar da Grande Porta
Mesmo sem passar do Gineceu *

Onde fico a fiar e a desfiar *
Esta minha grande saga do Ideal
De tanto a vida e o mundo imaginar.

E não será o mundo um pensamento?
Haverá mesmo um plano do real?
Toda pergunta é a chave de um tormento...

(sem data)

Nota
* Gineceu era a parte da casa (ou palácio) reservada às mulheres na Grécia antiga e também clássica. Ali ficam principalmente fiando ou cuidando dos filhos pequenos.

*... a fiar e a desfiar
- alusão ao estratagema de Penélope e sua teia em que ilustrava em tapeçaria no tear, a saga de seu marido Odisseu, que ela esperava desfiando à noite para ganhar tempo diante da pressão dos pretententes que acreditavam o rei morto na guerra de Tróia (vide a Odisséia, de Homero)



A Mulher-Bomba (de Alma Welt)
968

Gostaria mesmo é de explodir-me
Como a própria mulher-bomba de mim,
E espalhar-me por aí pra mais sentir-me
Como parte desse mundo, então, assim...

Perder-me de amor e entusiasmo
Por tudo o que é belo à minha volta
E mais além, por entre pasmos
Daqueles que me sabem sem revolta

E compreenderão que é puro amor
Esta minha vontade de explosão,
Embora muito louca em seu candor.

Pois por trás dessa ânsia de espalhar-me
Está a minha sede e a minha paixão
Pela vida como afã de procurar-me...

(sem data)


Minha Lenda (de Alma Welt)
967

O horizonte longínquo da varanda
Estendeu o meu olhar além de mim.
O meu pobre umbigo não comanda
O que digo e escreverei até o fim

Que não hão de ser folhas ao vento
Pois o que conto é de todos que me lêem
E então se reconhecem a contento
Ou que se refletem no que vêem.

Estaria a perder tempo ou fazer hora
Se estivesse a falar da mera prenda
Que sou ou que fui até agora...

Tudo tem dois níveis, dupla face,
E se em versos uma delas já é lenda,
Eu mesma temo o triste desenlace...


Meu Nicho (de Alma Welt)
966

Saber o nicho exato meu no mundo
Foi por certo menos dom que privilégio
Malgrado este ar nórdico oriundo
E este decantado porte régio

Que me fez destoar das outras prendas
Nestes prados que assim só eu nomeio,
A coxilha da qual contam as lendas
Do meu Negrinho em eterno pastoreio,

Do Cerro do Jarau, da Salamanca,
Da Teiniaguá, tão misteriosa,
Que não viu o expandir da minha anca

E se reclamo minha voz neste universo
Tão mais antigo e de saga gloriosa,
Que não destoe meu timbre, tão diverso...

(sem data)

O Amor (de Alma Welt)
965

Não ousarei dizer o que é o amor,
Como o fizeram em vão poetas vários,
Sendo que um deles, com louvor,
Definiu-o melhor pelos contrários.

Mas sei que o amor não é usura
Nem cobiça, desejo ou mesmo ciúmes.
Certamente não é simples loucura
E muito menos vive de queixumes.

Não vive da lembrança ou frustração,
Não nos causa pena o desastrado,
E nem imortaliza um coração...

Mas amor sustenta os moribundos
Até a tal chegada do esperado,
E assim vence a morte por segundos...


Santa (de Alma Welt)
964

Sei que escandalizo algum cristão
Que me olha como a última perdida,
Malgrado não ser minha intenção
Ofender o pudor e a medida

Com que o outro vê seu próprio mundo,
Que é como lhe cabe ou lhe parece.
Conquanto me pareça pouco fundo,
Quem sou eu pra lhe ensinar a sua prece?

Mas não me venha ajuntar a sua lenha
Pra queimar esta herege e atrevida.
Advirto que sou santa! Não me venha!

Pois se não é santidade tanta fé
Na Poesia e na Beleza desta vida,
Não saberei jamais o que isto é...

18/05/2005


A Vida no Soneto (de Alma Welt)
963

Vivo a minha vida duplamente
Em ação e seu reflexo no verso,
Que este é do âmbito da mente,
Que é como uma efígie e seu reverso.

Como a dupla face da medalha,
Ação e pensamento se conjugam
Para criar a imagem que me calha
E pela qual porfim me julgam.

E se quando me revejo ou me releio,
Percebo a minha mente mais ativa
E mais clara no poema como veio,

Sei que isso não é mentir ou falsear:
O belo da verdade não se esquiva
E o soneto é minha maneira de contar...


Eternidade (de Alma Welt)
962

Uma imensa escada para o alto
É talvez com que a Alma conte,
E os milhares de sonetos o asfalto
De uma estrada até o horizonte.

Eu preciso crer na transcendência
Do fazer, do ser, do escrever,
Pra não mergulhar na impaciência
De esperar os sinais de merecer

A imortalidade de algum modo...
Embora não saiba o que isto seja,
Jamais queria eu morrer de todo.

Pra uns o eterno é mais que emblema:
É o prazer fugaz de uma cerveja,
Para outros o deleite de um poema...

(sem data)

A Chave (de Alma Welt)
961

Tudo revelar é meu segredo,
Por paradoxo que isto seja.
Quanto mais conscia do seu medo
Mais livre o coração viceja.

Ando sempre próxima da morte,
Com ela mantenho estreitos laços;
Brincar com o azar é minha sorte,
Meu abismo é dança de dois passos.

Tornei-me poeta de mim mesma
Por construir-me no meu verso
E ser de meu castelo a abantesma.

E se minha carne é duvidosa
Meu espírito abarca o universo
Com esta Alma frágil e poderosa...

(sem data)

A Fuga com os Ciganos (de Alma Welt)
960

Quando estava eu nos dezesseis,
A sério cogitei ir com os ciganos
Pelo mundo em carroções, de três em três,
Mas sempre com a Rafisa e seus hermanos.

E cheguei a fugir com a confidente
Que cativou-me o coração audaz,
Mas alguns quilômetros à frente
Fui alcançada por Rodo e o capataz

Que era o meu Galdério transtornado
Que queria duelar com os dois romas
À faca, mano a mano, em pleno prado.

De rabo baixo voltei pra minha gente
Com alguns soluços e hematomas
De arrancarem-me dos braços da Vidente...


Anita dorme ao lado ( de Alma Welt)
959

Nunca mais ver o Pampa e esta casa
É algo para mim inconcebível.
Sua imensa história que extravaza
Contém a minha agora, indivizível.

Misturei-me com outros fantasmas
E entre as eras não ponho limites.
Anita dorme ao lado e sem as asmas
Que me causava, e estamos quites:

Deixou-me dormir com o italiano
Cuja grande barba me lembrava
Meu pintor e mestre paulistano

Que deixei para voltar para o meu Pampa
Pois sentia que ali eu destoava,
Pandora que a si mesma se destampa...

(sem data)



A Princesa das Czardas (de Alma Welt)
958

Pouco vi o mar na minha vida
E nele só entrei quando nublado.
A brancura que ostento decidida,
Nem escolha é... é mesmo fado.

Por isso estas noturnas cavalgadas
Que a meu próprio cavalo ainda revolta
Pois as sombras o assustam nas caladas,
O medo mesmo que vejo à minha volta

Pois há muito este povo já temia
Que uma prenda não ostente sardas
Se sua pele com a lua se associa.

E vejo que me vendo o gaúcho pira;
Há quem me ache a "princesa das czardas",
Eufemismo mesmo, pra Vampira...


Sublevando (de Alma Welt)
957

As coisas mais sagradas para mim
São amor e arte... e amizade,
Que esta é arte e amor, porfim,
Que tudo se resume a esta verdade

Como receita de viver, e viver bem...
Mas por quê estou pontificando
Se muito pouco sei do que convém,
E já tenho o povo me apontando?

A "louca do soneto", a branca Alma
Que o gaúcho oscila entre extremos
De temer, amar e dar a palma...

Um ou outro já ataca em reprimendas,
Destilando não amargos mas venenos,
Minha poesia a sublevar as suas prendas...

(sem data)



A Caixa no Jardim (de Alma Welt)
956

Aqui estarei fiel até o final,
Quando o tempo desta casa se esgotar
E o casarão ruir, o que é fatal,
Que toda obra humana há de acabar.

Da poetisa um soneto sobrará,
Que o enterrei numa caixa no jardim,
Que certamente alguém descobrirá
E lendo sonhará pensando em mim...

“Isso são mais fantasias!”-há quem diga.
“Depois o que te importa o que ocorrer,
Não poderás mais ver, ó minha amiga!”

Mas o que imagino é o que importa,
Pois penso agora o futuro do meu ser,
Que pensar é já o Tempo além da porta...

(sem data)



A Visita da Dama (de Alma Welt)
955

Não morrerei de amor como pensava
Que seria o meu fim quando guria,
Mas certamente baterei naquela aldrava
Mais cedo, que é o que a castelã queria

E disse quando ao meu encontro veio
Quando eu ia a vagar colhendo flores...
E recordo que não tinha um porte feio
Mas sim de dama digna de amores

Que por aqui passava como aragem,
Honrada me deixando, e receosa
De incomodar tão ilustre personagem.

Embora não marcando hora nem dia,
Agradeci-lhe a visita tão honrosa
Que deixou claro o quanto me queria...



Varanda, un souvenir d’enfance (de Alma Welt)
954

Não há mais varandas hoje em dia,
Pelo menos aquela em que medita
E que com o poente se inebria
A mulher que aparece em minha fita

Que é a imagem quase extinta
De uma memória antiga, de criança
Que persiste no esmaecer da tinta
Do álbum renitente da lembrança...

Sim, havia uma em minha infância
Que punha ao longo de sua coxa
Um bebê, produzindo estranha ânsia

Em mim que ali fitava o belo quadro
Sustando o meu respiro, quase roxa,
Para ser o puro amor ali deitado...

17/08/2005




O Rei dos Descalabros (de Alma Welt)
953

Acendam luzes, velas, candelabros,
Quero a casa em festa nesta noite!
Alguns o chamam “rei dos descalabros”,
Mas peço, não me peçam que o acoite.

Jogou a nossa estância... mas ganhou!
Até este casarão trocou em fichas.
Com sua própria irmã ele dobrou
E uma fortuna fez, de velhas rixas...

Para saudar o aventureiro, acenderei!
Vou esperá-lo na varanda com champanhe,
Não o censurarei... Deus me acompanhe!

Para não ser comedida com o sortudo,
Ao abraçá-lo forte, esquecerei
Ter jogado minha carne, alma, e tudo...

(sem data)



A Caravela (de Alma Welt)
952

Quero uma grande e doce caravela
Para ir com ela a um novo mundo,
Ou pra me carregar daqui com ela
Como se salva alguém dum poço fundo

Que é esta vertigem de abandono,
E este vagar a esmo na coxilha
A sonhar com mundos sem um dono
E uma vida de constante maravilha

Onde não mais seja eu este fantasma
Imerso em nostalgia de outras eras,
A fazer de meu respiro a minha asma...

Sem avistar nas nuvens vãs quimeras,
Mas os sinais que a vida traz nos ares
Pr'um navegar de mim em novos mares...

19/12/2006





Ao largo (de Alma Welt)

951

Cai o véu de estrelas sobre o amor,
E me pega só... que ele partiu
E quase vejo um traço de vapor
Ao largo, na coxilha, qual navio

Que se afasta no rumo do horizonte,
Inexorável partida dolorosa,
Enquanto eu começo o meu desmonte
Do cenário que montei em verso e prosa

Para a grande chegada da goleta
Em seu próprio porto ou estaleiro
Eu com a minha banda, e na trombeta.

Tudo em vão, que um amor assim não pára!
Durou a noite... e um dia, coisa rara,
O repouso em mim, do marinheiro...

(sem data)


Alma Libertina (de Alma Welt)
950

Vejo claro que o desejo comandou
Desde muito cedo a minha vida,
Que assim o meu bom pai propiciou
Uma vez que dele fui a escolhida

Para ser o fruto de experimentos
De criar uma obra de arte viva
A partir de moldes e elementos
Forjados numa mente criativa

Mas calcados num molde imaginário
De uma Grécia do herói e da heroína
Certamente derivados só de mitos...

E o resultado é esta Alma libertina
Que perdeu o rumo e o horário,
E a ouvir de minha mãe ainda os gritos...

(sem data)


Vinde versos meus
ou Sherazade (de Alma Welt)

949


Vinde versos meus, eu vos vindico,
Reuni-vos em torno de minha’alma!
Sonhai meus sonhos só, eu vos suplico,
Redesenhai as linhas desta palma!

Se deverei partir assim tão cedo,
Quero passar em revista meus amados.
Ou terá sido tudo engano ledo,
Uma vida perdida em seus achados?

Acreditei em creditar-me um universo
De pensamentos e fantasmas ideais
Criados pela pura ação do verso...

E eis-me aqui mais só e mais extrema,
Sherazade que fiz de mim meu tema,
Refém de mim perdida em que me achais...

10/01/2007



Entre as flores (de Alma Welt)
948

Entre as flores do meu jardim materno
Brinquei, cresci e ainda me vejo.
Sem elas na alma faz-se inverno
Ou tendo a ver a vida sem desejo...

O que se torna um limbo, quase morte,
Como envelhecimento prematuro
Ou como as névoas muito ao norte
De mim mesma, do meu ínclito futuro.

E ao me ver brincar entre suas flores,
Na Açoriana a dureza se abrandava,
Esquecia por momentos seus rancores,

Ao menos de parir-me e já perder-me
Para o mundo maior em que eu estava
Pelas mãos de meu pai ao recolher-me...



Amores mortos (de Alma Welt)
947

De noite perambulo o casarão
Na calada dos murmúrios e segredos
Enquanto os amores mortos vão
Tentando refazer os meus enredos...

E bem depois das doze badaladas
Neste decrépito relógio do salão
Começam as intrigas renovadas,
As lágrimas, suspiros, rebelião...

Todos eles, na verdade, foram meus.
Reconheço esses hóspedes inquietos
Que tomam por descaso o meu adeus,

E gritam, cerram punhos e ameaçam:
“Tu nos fazia crer-nos prediletos!
Tua ternura e beleza nos desgraçam!”

(sem data)


Pandora (de Alma Welt)
946

Amar e padecer no paraíso,
Como dizia outrora o bom poeta.
Para nós, quase todos, é preciso
Desde o sibarita até o asceta.

O tal Vale de Lágrimas é aqui:
Ao homem não é dado ser feliz.
Mas seja neste Pampa ou no Haiti,
Temos névoa a um palmo do nariz.

Bah! Ser boba alegre por amar,
Se ainda no melhor dos mundos canto
Enquanto a casa está a desabar...

Quisera eu, sonhadora do agora
Que sonho o mundo e seu espanto,
A fascinante caixa de Pandora...


Minha realidade (de Alma Welt)
945

Minha realidade são meus sonhos.
Dizem que a tal não nos pertence
E que aqueles que a criam são bisonhos
Ou então alienados ou nonsense.

Mas direito a minha teia já reclamo
De meu mundo poético e sublime
Com todas as belezas que eu amo
E limitadas tão só pelo que rime,

Que é uma mania que ainda porto:
Rimar e obedecer boa cadência,
Que arritmia apenas não suporto.

E se assim tornei-me meu modelo
E Mito, no limite da demência,
Minha razão é amor, ternura e zelo...

(sem data



A Louca do Soneto (de Alma Welt)
944

Assombrada pelos versos já me vejo
Despertando bem no meio da calada,
Não somente por anseio ou por desejo
Mas para contar sílabas, inspirada...

A “Louca do Soneto” já me chamam,
Mas a isso não pretendo renunciar.
Os versos despertados em mim clamam,
E são a minha razão de viva estar.

“Como?” - dirão alguns curiosos-
“A vida tem o seu próprio compasso
E os versos são momentos ociosos.”

Mas poetisa ou só mulher no mundo,
Tenho que repintar-me a cada passo
Nesta espécie de espelho mais profundo...

24/05/2002



Quem me ler (de Alma Welt)
943

Quem me ler me buscará no abismo
E me trará à luz, e eu agradeço
A quem me divisar neste grafismo
Que é a própria teia em que me teço;

Aqueles que me lerem, eu já morta,
Estarão descendo, embora tardos,
E me trazendo do fundo da retorta
Onde se destila a flor dos cardos.

Toda a minha vida e meus amores,
Minhas saudades e vagas nostalgias,
Meus imensos prazeres, minhas dores...

E como a minha Vinha neste pampa
O meu lagar que agora é só a campa
Ainda vaza de meus contos e poesias...

(sem data)



As Velas da Matilde (de Alma Welt)
942

Desce a cortina lenta sobre mim.
A noite, a noite dos amantes,
Dos sonhos fugazes, inconstantes,
Eu sinto, agora desce para o fim.

Quanto cantei, dancei, versifiquei
Milhares de rimas sobre resmas,
Recriando as imagens que amei
Reconstruindo gratas abantesmas.

Ai! Quisera ficar mais um instante
Se me fosse retornada a alegria
Ou somente a irmã Melancolia...

Todavia ainda guardo um sonho infante:
Da Matilde minhas estrelas são as velas,
E eu feliz a dormir no meio delas...

16/01/2007



Tributo (de Alma Welt)
941

Minha alegria me quer em pleno prado
Onde eu posso correr, braços abertos,
Com vivo e forte sentimento alado,
O mesmo da chegada a estes desertos,

Guria nova egressa da cidade,
Deslumbrada ao ver tanta amplidão
Mas logo tanta gente de verdade
Que me responderia ao coração.

Ai! Pampa, Pampa meu ou minha,
Como querem os daqui há gerações
Indulgentes com as falas desta niña!

Gaúchos, peões machos e suas prendas
Que doam generosas suas canções
A tais rimas, minhas pobres oferendas...

(sem data)



Como Sofre! (de Alma Welt)
940

O ser humano sofre e não desiste,
Continua ocupando em esperança
O exíguo espaço que ainda existe
E os leitos de sonhar desde criança.

Como riem e cantam os humanos!
Como dançam e brindam com o vinho!
Como se abraçam forte como manos,
Quando não se estranham neste ninho...

Como ainda nos matamos nas fileiras
Por uma gota a mais daqueles óleos
Que há muito já não vem da oliveiras...

Como vertemos água em catadupas
Pelo poros pelo pão e pelos olhos,
Mas pouco ou raramente pelas culpas...

(sem data)


Tentação (de Alma Welt)
939

Quando noto do mundo o lado feio
Me vem a tentação de renegá-lo,
E isso é um eufemismo pra deixá-lo
E partir antes de ter chegado ao meio.

Horrores, sofrimentos indizíveis,
Brutalidade vil que logo esmaga
Os patéticos recursos, tão risíveis,
Da guria que brincava de ser maga

No jardim e no pomar, mundos perfeitos
Doces ninhos de belezas redentoras
Que me prendem à terra e seus eleitos:

Os seres que preservam suas canduras
Como flores, gatos, cães, aves canoras,
Alma infanta num reino de venturas...

19/06/2005


Dois Mundos (de Alma Welt)
938

A vida paralela que assim vivo
Nos meus sonetos e cantares
É a vida verdadeira e o motivo
De estar aqui entre meus pares,

Os poetas de todas as Idades
Que fizeram como eu a opção
Pelo verde olhar e suas verdades
E eu diria “que por outra cousa não...”

Não é pra mim sintoma de fracasso,
Viver, portanto, em fantasia,
Que por colombina não me passo

Mas por heroína de dois mundos
Como a Anita que em mim já existia
Quando guria em meu quintal dos fundos...

(sem data)


As Mulheres Choram (de Alma Welt)

937

As mulheres choram. Ah! Choramos!
De norte a sul choramos nós dores de amor...
Que lágrimas salobras derramamos
Pelos nossos, por nós mesmas, quanta dor!

Cabe a nós chorar por todos nós:
Os mortos os perdidos os distantes,
Os pais, irmãos, amigos, tios e avós,
Pelas sacras vida e morte dos infantes...

Que por esses então, mais lamentamos,
Quando crescem, quando partem, vão à guerra,
E quando encaixotados os baixamos...

Por quê assim, meu Deus, nos desmoronas?
Que fontes desatadas sobre a terra!
Quanto ainda choraremos! Que choronas!...

(sem data)



Tempestades (de Alma Welt)
936

Quando começava a tempestade
Aqui sobre o pampa e o casarão,
Era quando eu sentia mais vontade
De nos braços ficar, de meu irmão.

Então fingia aquilo que sentia,
Aconchegando-me nos braços do guri,
Donzela que de medo me encolhia,
Desde sempre o tom dúbio que escolhi.

E quando um grande raio ribombava,
Mais a ele tremendo eu me abraçava,
Que desejo e medo eu confundia

Na volúpia temerosa e meio louca,
No brilho úmido dos olhos e da boca
Que era puro desejo e eu não sabia...

03/10/1998


Anti-retrato (de Alma Welt)
935

No meu bosque queria ser as árvores,
Com elas me fascino e identifico;
No céu claro eu queria ser as aves
Mas de noite com as estrelas ainda fico.

Se ouço um bom cantor sou a canção
E o poema sai de mim como respiro
Em mim está a forma em formação
E a tudo o que é belo me refiro.

Não há limitação pra meus anseios,
Alma sou e isso é o que me explica,
Tampouco há para os meus meios:

Consistem em me apropriar de tudo,
Do mito que meu sonho multiplica
Ao simples suspirar singelo e mudo...

(sem data)



Ó meus amores! (de Alma Welt)
934

Ó meus amores, quanto vos cantei!
Em tanta canção apaixonada!
Mais do que isso, eu peço, não querei,
Que já não tenho forças nem mais nada...

Estou entregue, prostrada, bah! Tomai-me!
Fazei de mim o último banquete!
Invadí minha carne, ó, abusai-me
Fazei das minhas dores ramalhete!

Desmembrai-me, cortai-me em mil pedaços,
E que eu já não possa me lembrar
Da dor de ser uma e de ter laços

Que me prendem à Terra como campa,
Enquanto Ananke meu fuso faz girar
De eu renascer e amar neste meu Pampa!

15/01/2007



A Vindima II (de Alma Welt)
933

Agradeço ao Baco minha candura
Que me foi preservada por milagre
Entre muitos sonetos qual cultura
De vinhos entre o bom e o vinagre,

Numa estância antiga com vinhedo
Plantado novo entre velhas tradições
Cheias de mistérios e o segredo
Que é a fonte copiosa das canções

Que venho declinando no meu verso,
Para que o fruto supremo da razão
Não me seja escuro ou controverso.

Eis o sumo do lagar que prometia:
Minha vida alcançar celebração
Como a Vindima mesma da Poesia...

12/01/2007



Nossa Saga (de Alma Welt)
932

Vivi somente pra contar o que vivi
Embora isto pareça absurdo
Ou no mínimo um monólogo pra surdo
Pois o que importará o que senti

Ou as minhas aventuras de guria
Que nada leva a crer a relevância,
Tanto mais que se passam numa estância
E num velho casarão em nostalgia

A remoer nosso passado glorioso
E querendo que o soneto nos reflita
Malgrado vaidade e um tom verboso.

E eis que a Musa generosa reconstrói
Em mim a heroína e o seu herói:
Sou eu mesma a minha amada Anita...

(sem data)


Receita do Soneto (de Alma Welt)
931

Para escrever sonetos como o faço,
Primeiro fecha os olhos, depois canta,
Ora repito eu como Picasso
Sobre o desenhar, que nele encanta.

Jamais procures ser inteligente,
Seja! E permita correr solto
O verso que entenda toda gente,
E o italiano diga: “Bello! Molto...”

E se alguém lembrar um verso teu,
Como poeta, digo eu, tu já vingaste
Como prece nos lábios de um ateu.

E se após tanto revés e tanto verso
For lembrado o pouco que cantaste,
Podes morrer, deixaste um Universo...

(sem data)




Mare Nostrum (de Alma Welt)

930

O pouco que tu sofres não importa,
Só o grande sofrimento tem valia
E é o que nos faz abrir a porta
Para outra dimensão, a da Poesia.

Mas se abaixares os teus olhos
E o teu peito arfar em afasia,
Se mareado pareceres entre escolhos
De uma tempestade de agonia;

Se já não tens olhar e nem mais tentas
Disfarçar a dor que te acomete,
Então és navegante e não grumete.

Que Amor te foi terra anunciada
Na nau que nos arrasta a velas lentas,
Neste Mare Nostrum rumo ao Nada...


08/10/2005



De partos e poentes (de Alma Welt)
929

Varanda, balcão nobre dos poentes,
Que me viu crescer com a reverência
Com que beijava as mãos benevolentes,
Prevendo de meu pai a rubra ausência,

O qual, por cuja força vim ao mundo,
Que era a minha luz, o rei sol vivo
Cujas mãos tiraram-me do fundo
De um ventre açoriano retentivo,

Na estrada deserta, quase selva,
Num anti picnic nada farto,
Minha mãe aberta sobre a relva...

E vem à minha mente, por instantes,
O vermelho do sangue do meu parto
Nas mãos abençoadas, tão distantes...

(sem data)


As Três Graças (de Alma Welt)
928

Quando esteve aqui um certo conde
Convidado de meu pai e seu amigo,
Guria, fui brincar de esconde-esconde,
Recurso feiticeiro e muito antigo,

Pois com as irmãs Lucia e Solange
Entre risos, rodopios e pirraças,
E beijos, que só à Sol constrange,
De repente formamos as Três Graças.

Então, o nosso conde embasbacado
Vendo aquela cena antiga e grata
Resolveu não nos deixar sem um noivado.

Mas meu pai, churrasqueando, deu desconto,
E sorrindo respondeu ao aristocrata:
“Perdão, mas nenhuma está no ponto...”


04/04/2004



O Labirinto (de Alma Welt)
927

Escrever e escrever até morrer.
Não mais poder parar de poetar,
Assim me sinto viva e com poder
De fazer a minha alma se alçar...

Ou então, de mim perdida, pra voar
Penas colar com favos, mel e breu
Com risco de asas frágeis depenar
E então cair de mim num mar Egeu.

No centro, desde sempre, o Minotauro
A devorar meus belos sonhos juvenis
Que a cada festival de mim, restauro.

Mas no arranjo de Ariadne e Teseu,
O fio mestre e pai de todos os ardis,
Reconstruo o labirinto, que sou eu...

(sem data)



A Medusa (de Alma Welt)
926

Sabemos que a Medusa petrifica
Com olhar terrível, de emboscada,
E de olhos abertos ainda fica
Mesmo com a cabeça decepada.

Mas dizem que se a morte não fechar,
E de olhos abertos um morrer
Lhes devemos por piedade a mão passar,
O que nunca me chegou a convencer...

O olho morto se medusa num instante
E transforma os chorosos de costume
Num velório de museu extravagante.

Por isso aqueles mármores famosos
Conservam tanta vida já sem lume
Nos gestos congelados, dolorosos...

(sem data)


Questões (de Alma Welt)
925

Estarei equivocada sobre mim?
Não é o meu destino grandioso?
Não era meu o meu jardim,
E o soneto não é mais precioso?

Ninguém mais liga se alguém canta,
Vive e cria beleza por sofrer?
Não há mais mistério em se morrer
E a tal banalidade nos suplanta?

Foi em vão escrever? Fui escrivão?
A Poesia morreu antes de eu nascer
E pecar na macieira foi em vão?

Não! Não devo levantar-me essas questões!
Vir ao mundo foi voltar pra me rever,
Plantar versos, colher dores e canções...


18/11/2006


Masquerade (de Alma Welt)
924

Farei masquerade na Vindima,
Não simples novo baile de galpão.
Não mostrarei ao outro só estima:
A máscara alheia é minha paixão.

A máscara corresponde à verdade
De cada um no baile à fantasia
E as trocamos a cada nova idade,
Mas as falsas não são dadas de bacia.

E reparem: são poucos e furtivos
Aqueles que se esgueiram nesta festa
Com falsos pretextos e motivos

Só conseguimos ser nós mesmos
E sempre nos sobra testa ou fresta
Na linda fantasia que escolhemos...



Propósito e Postura (de Alma Welt)

923

Viver em alto plano sem descer...
Jamais condescender ante o banal;
Perante a vida a própria vida ser
No que ela tem de grande e magistral.

Esse foi desde sempre meu propósito.
Que digo? Foi postura instintiva !
Do refugo não serei mero depósito
Se não puder ser minha própria diva.

Voar alto, com perigo de cair...
Arriscar tudo nas franjas do ridículo
Para, estrela, ser Antares, Altair.

Construir meu destino verso a verso
Manter com a Beleza único vínculo,
Reconstruindo em mim o Universo...

(sem data)



A Fênix (de Alma Welt)
922

Renasci nestes prados certamente
Conquanto parida numa estrada.
Aqui me enraizei como semente,
Embora tenha sido transplantada.

Aqui me foi possível ser poeta,
Coisa que apesar de ser inata
Precisa de um sopro na hora certa
Pra revelar o fluido sob a nata,

Ou reavivar brasas dormidas,
Fênix que volta após um século,
Esquecida de retomar as vidas.

Eis como me sinto na coxilha:
Reflexo no verdadeiro espéculo
De uma muito antiga maravilha...




Encontro com a diva (de Alma Welt)
921

Morte, ó Morte, grande Diva!
Sei que já estou na tua agenda,
Desde sempre fui muito intuitiva...
Marcaste um encontro na fazenda

O que é um privilégio e concessão
Vires a mim até a minha estância,
E não teres marcado a reunião
Numa anódina maca de ambulância.

Num ponto de encontro eqüidistante
Te esperarei como quando era guria
E sustava o respirar por um instante

Para ver tudo girar e ler um pouco
Do cartaz do teu teatro da Poesia,
E encenavas “O pequeno mundo louco”...

(sem data)



A Escrava (de Alma Welt)
920

Cercada estou de deuses e de numes
E eles me acompanham na coxilha
Povoam o casarão do chão aos cumes
E com astúcias me tratam como filha

Mas começo a perceber o que me custa:
Deuses e numes não dão ponto sem nó
E a partilha já não parece justa,
Já começo a sofrer sem causar dó,

Pois eles me querem bem sofrida
Para espremer o caldo da paixão
E do talento que me deram nesta vida.

Virei escrava, caí na armadilha,
E os versos que me chegam em profusão
São emprestados da Musa da quadrilha..



Os Círculos (de Alma Welt)
919

Minha vida está inscrita em círculos.
“Não podes então andar pra frente?”
Aqueles que questionam os meus vínculos
Me perguntam em tom meio reticente...

“Deixa essa estância e fim de mundo,
Pois aí o minuano faz a curva
E volta pois não pode ir mais fundo
Depois de te deixar a mente turva,”

“Que estás a ver navios antigos,
E mais: com tua tendência delirante
Já fazes dos fantasmas teus amigos.”

“Já pediste ao teu Galdério, coisa à toa:
Que construa grande traste navegante
E o arraste com bois até a lagoa...”

Nota
* E o arraste com bois até a lagoa” - Alusão à travessia épica do lanchão Seival, 80 km pela coxilha, com 100 juntas de bois até a lagoa Tramandaí , realizada por Garibaldi e seus marinheiros, para entrar em combate naval com os "imperiais".


Horas Roubadas (de Alma Welt)
918

As horas despendidas te esperando
Amor, agora as sinto tão roubadas...
Pois que em mim pouco pensando,
Jogas teus amores, tuas cartadas.

Sim, Rodo, cavaleiro da fortuna,
Que te olho daqui já tão descrente,
Tu, ao lado d’uma gata, mas gatuna
Que te aliviará do excedente:

Teus lucros, tua beleza e juventude,
O amor que ainda terias se quisesses,
Que tanto apostei enquanto pude,

Quando já não tínhamos feitores,
Tendo partido a dama dos Açores,
E as cartas eram outras, como preces...



Arco de Pua (Alma Welt)
917

Já percebo os perigos que me rondam
Mas não sou paranóica ou coisa assim.
Se devem ao capricho que me apontam
De desnudar-me à noite no jardim,

E até de dia na coxilha, e por aí
A torto e a direito, em compulsão:
Não agüento mais as roupas que me dão
Desde quando nua e bela apareci...

Alma sou, e poeta, então sou nua!
Nada podem contra mim esses senhores
Carpinteiros com seu arco de pua,

Moralistas de caixão, da integridade,
Que querem a beleza, minha verdade,
Enterrada a dez palmos entre as flores...




Nas Ruínas da Alma (de Alma Welt)
916

Quando tudo aqui estiver quieto
E as ervas e raízes invadirem
As frestas desde o chão até o teto
E não houver mais a quem inspirem,

Como eu, que apenas rondarei
Como o último espectro fiel
A casa e o jardim que desfrutei
Quando a vida era dourada como mel,

Talvez ávido casal de professores,
Ou só leitores de gerações futuras,
Me busquem na mansarda e no porão

E ao ver rastros de risos e de dores
Abanem belas cabeças imaturas,
Dizendo: “Ela pisava neste chão...”

04/01/2007


A Queda da Casa de Welt (de Alma Welt)
915

Só não morro à míngua de Poesia
Conquanto cada vez mais isolada
Neste velho casarão, em nostalgia,
Por lembranças e espectros cercada.

Matilde, cada vez mais igrejeira,
Velas acendendo em seu entorno
E em toda a casa como esteira
De um navegar em águas sem retorno.

Meu Rodo, percebi, me abandonou:
Suas cartas já arriscam minha pele,
Que é capaz de jogar o que sobrou...

E, Galdério? Meu fiel Gaudério!
Já não te peço que a Miranda sele,
Ela não gosta de pastar no cemitério...

15/01/2007


Grande Nu Germânico (de Alma Welt)
914

Meu amigo pintou-me numa tela
E entitulou-a Grande Nu Germânico
Tela quadrada, vasta e amarela
Que a outra causaria talvez pânico,

Pois, lembro, estava eu naqueles dias
E empapava o linho transparente
Que despia por conta das poesias,
Que por elas sangraria docemente...

Foi só abrir os braços e chamá-lo
Ao ver que ele jamais faria troça,
E eu podia sangrar sobre quem falo...

E finda uma lambança mais intensa
Nos vimos enlaçados numa poça
E na tela estava eu nua e imensa...

28/07/2001


O Berço e a Forca (de Alma Welt)
913

Guilherme me pintou nua num tondo
Diante de meu berço e cortinado,
Mas não pude deixar de ter notado
Um detalhe sutil mas hediondo:

O pau do cortinado, relevante
Demais, como forma ali se via
De uma forca tão horripilante
Que me estragou o quadro e o dia.

Essa forma, mesmo em leve esboço
Um arrepio me trás de muito longe
E uma certa pressão no meu pescoço.

E eu pensei, eu juro, em meio à dor:
“Se antes de secar ele a esponje,
Darei pra ele, aberta, sem favor...”

(sem data)


O Olho Mágico (de Alma Welt)
912

O pintor pintou-me em olho mágico
Não como a gente vê o elevador,
Mas como se de fora o espectador
Me visse com olhar antropofágico,

De costas e de rubra meia-calça
Um tanto rebaixada no traseiro,
E postura de braços que realça
Eu estar indo correndo pro banheiro.

Perguntei-lhe: “porque assim me pintas,
No meu pescoço longo esse lacinho,
Mas mijona em meio a belas tintas?"

“Alma, sei... xixi, mais não se apresse,”
-disse-“o olho captou o comezinho
Mas garanto: sua beleza o enobrece...”

25/07/2001



O Divã (de Alma Welt)

911

Perante o analista desnudei-me,
Não, não me refiro ao nu simbólico,
Ao antigo despojar a que obriguei-me
E que me resultava melancólico...

Me despi no divã do consultório
Na glória de formas tão louçãs
Que são meu atributo meritório
De desejos como um Éden de maçãs...

E tudo em torno era vermelho
Meu corpete, branco qual narciso
Reclinado no azul como no espelho...

Bem... "E o analista?" perguntais.
Só posso dizer que o tive inciso,
E eram nossos agora os novos ais...

(sem data)


Ao Mundo Veio Uma Alma Chamada Frida
910

Vim ao mundo bela e belamente
Se não me vanglorio... me compraz,
Mas sei que isso não dura eternamente
A beleza sendo efêmera, fugaz...

Mas não me horrorizou a avó Frida
Em plena fascinante decadência
Derretendo-se ali, semi despida
Olhando-se no espelho da demência

Como quem está contente com seu fado
Passando pó de arroz no colo vasto
Acima de um corpete remendado.

E então entendi que vindo ao mundo
Sujeitos todos ao Tempo nefasto
Somos belos mesmo quando já no fundo...

(sem data)

Nota
Alma gostava muito da nossa avó Frida Welt ( seu nome signifca "a que protege do Mundo"), que ao envelhecer mais, parecia uma bruxa divertida que contava estórias picarescas como as do "Condestável Gottfried", que a Alma transcreveu no romance O Sangue da Terra, segundo volume da trilogia A Herança.
(Lucia Welt)


Uma Noite em Paris (de Alma Welt)
909

Num salon das noites de Paris
No meio de uma festa à fantasia
Estive por momentos por um triz
De ser protagonista de uma orgia.

Sob o efeito do absinto e algo mais
Embora ainda vestidos todos eles
George Sand tirou-me a roupa num zás-trás,
O que me fez pensar já ser um deles. *

Lá estavam Marcel Proust e Valéry,
Maupassant estava já passando mal,*
Também Baudelaire estava ali...

James Joyce, que sendo de outra era *
E caolho, um Polifemo genial
Me acordou e... era tudo uma quimera!

(sem data)



Notas

*O que me fez pensar já ser um deles- com esse verso, Alma alude ao fato de George Sand ( embora excelente escritora) ser uma "devoradora " de personalidades célebres de sua época, homens e mulheres.

*Maupassant estava já passando mal - trocadilho como nome do grande contista, que acabou ficando louco e morrendo num hospício.

*James Joyce, que sendo de outra era - James Joyce era do começo do século XX , portanto não contemporâneo dos outros escritores citados ( o século XIX), e Alma alude ao seu romance Ulisses ( Polifemo era aquele Titã de um olho só, da Odisséia de Homero, que Odisseu (Ulisses ) cegou. Alma alude ao fato de Joyce ter ficado cego de um olho e usar uma venda, como aparece na ilustração do Guilherme, reparem.

(Lucia Welt)



O Graal (de Alma Welt)
908

Há muito tempo estou persuadida
De que o Graal está aqui na estância,
Não apenas como um símbolo de vida,
Nem considerem isso jactância:

O Santo Graal mesmo, aquela taça
Que foi trazida por José de Arimatéia.
Não pensem que isso digo por pirraça,
Não tenho os ingleses por platéia...

Eu ousei beber nele o nosso vinho,
O cálice do sangue em comunhão,
E a Poesia se me fez sacro caminho.

No meio de objetos e lembranças
No sótão o achei, do amado irmão,
Entre amores, cartadas e andanças...

27/05/2004



A Verdadeira Imagem (de Alma Welt)
907

Por alguma razão ainda obscura
Me impressiona muito aquele lenço,
O da Verônica, sim, naquela altura
De um caminho tão doloroso e tenso

Em que não se pensaria tal ação
No meio de tormento tão selvagem...
Momento calmo, da mais pura compaixão
Plasmando uma verdadeira imagem.

Entretanto me parece perceber
Uma outra alegoria nesse ato,
A minha vida em poesia e paixão,

Pois creio que também posso fazer,
Me perdoem os fiéis de religião,
No meu próprio véu o meu retrato...

(sem data)


Veronica’s Veil (de Alma Welt)
906

Plasmar-me vero ícone em poesia
Foi pra mim verdade e confissão,
Pois jamais em falsidade conseguia
Resistir ao linguajar do coração.

Não há como mentir ou falsear
Tua verdadeira face ao mundo
Se tiveres alma e palma que rimar
E chegar do coração ao poço fundo.

Pois se fores falso nem atinges
O que se denomina de poema,
O lenço que com más tinturas tinges...

Quais cabelos as raízes mostrarão
A cor de uma velhice que se tema:
As mais feias rugas de expressão...

(sem data)




A Máscara (de Alma Welt)

905

Sob a máscara estranha permanece
E eu percebo pelo porte pequenino
Durante uma folia que se aquece,
Que não passa de guria ou menino.

Mais não pude precisar desse mistério
Pois não emite canto, grito... nada!
Talvez vá retornar ao cemitério
Ao chegar a quarta-feira acinzentada.

Já começo a ficar amedrontada
Pois durante todo, todo o Carnaval
Fez seus meneios sob minha sacada

Mas debaixo da cabeça monstruosa
De patética hibridez medieval,
A tristeza é minha, em verso e prosa...

05/03/2003



Meu amor e meu cão (de Alma Welt)
904

Amo meu cão e isso me acrescenta;
Não morrerei à míngua solitária
Se me faltar a mim parte contrária,
O que me ama e em solidão agüenta

Esperando a sua órbita cruzar
Pelo menos o caminho do meu cão
Que costuma quase sempre se adiantar
Desejo farejando, amor, e solidão...

Então vivo da esperança reviver
Que no tranco pegando o meu motor
Meu amor logo renasce se morrer.

Com meu fiel e amado cão farejador,
Se na fronteira de dois mundos me perder
Foi que topei com o cão do meu amor...



De Vinhos e de Rosas (Alma Welt)
903

Munir-me de esperanças é preciso
Em meio a tanta dor e decadência
Desta casa que não mais conhece riso,
E o vinhedo agora é de demência.

No centro a própria doida poetisa
Conquanto ainda bela desvairia,
A ver-te em verde mesa numa Ibiza
A jogar a nossa última quantia...

Mas se a Vinha é sonho como penso,
Verei teu Aston Martin a caminho
Depois de um Royal Flush meio tenso.

Bah! Os dias de beleza e plenitude!
Está tudo perdido, a rosa e o vinho,
Bebi a minha quota enquanto pude...

(sem data)



Mulher que sonha (de Alma Welt)
902

O melhor de mim é o meu sonhar...
Eu nele ponho a alma e o coração;
Sou eu o próprio sonho e o luar,
Nada pode arrastar-me pelo chão

Se eu puder olhar-me quando sonho,
E posso, e comigo me comovo,
Embora isso pareça assim bisonho
É oblongo e ocluso como um ovo.

Mulher anima sou em carne viva,
O que me vale ser quase divindade,
Helena, Psiqué ou uma Gradiva. *

Como tais sou musa, e bem por isso,
Embora uma essência em liberdade,
Com a beleza em sério compromisso...

(sem data)


Nota
* Gradiva- "aquela que avança", a Musa criada por Wilhelm Jensen em 1903, no seu famoso romance homônimo, que tanto influenciou a literatura européia na primeira metade do século XX

A Gradiva é de fato um baixo-relevo neoático romano, da primeira metade século II, feito à maneira das obras gregas do século IV a.C., e representa uma jovem que dança e levanta a barra de seu traje. É parte do relevo das Aglaurides - as filhas de Cécrope, cuja mulher se chamava Aglauros ou Agraulos - e está no Museu Chiaromonti, no Vaticano..

O romance de Jensen foi tema do famoso estudo de Sigmund Freud O delírio e os sonhos na 'Gradiva' de W. Jensen (Der Wahn und die Träume in W. Jensens ″Gradiva″), de 1907 e inspirou vários surrealistas. (Wikipédia)



O Tear (de Alma Welt)
901

Sou branca qual diáfana quimera,
Por isso Alma sou minha elegia.
Entretanto minha mãe já o temera
Esse nome que ditou minha poesia.

Só a dura Açoriana quis calar
Este estro que teimava em ascender,
E na sombra das maçãs do meu pomar
Quase vi essa poesia se perder.

E por isso esse constante refilar
A cada novo ponto que desfia,
Qual Penélope de mim no meu tear...

Pois tênue, etérea, o olhar disperso,
Ganho cores por artes de magia
Ao remendar sem fim meu universo...

(sem data)


A Jornada (de Alma Welt)
900

A quem agradecer tanta beleza?
A Deus, ao Cosmo, à Mãe Natura,
Ou ao Tempo que a todos nos matura
Pra ceifar-nos logo, com crueza?

Acabamos de aprender alguma cousa
E depois de tantos erros e erratas
Estamos aptos a escrever na lousa,
Que afinal será um nome e duas datas.

Mas se a vida foi bem desfrutada
E co’a sabedoria estamos quites
Pelo menos já fruímos a jornada

Que terá sido tão bela de se ver,
E a verdade é a beleza, disse Keats,
Era tudo o que havia pra saber...

06/11/2006




Meu aniversário (de Alma Welt)
899

Quando meu aniversário celebravam,
Me punha entre feliz e perturbada.
Afinal não tinha ainda feito nada,
Por quê razão assim tanto me amavam?

Mas logo percebi que pra ser boa
Devia aceitar os cumprimentos
Que não apenas falsos documentos
Mas generosidade de quem doa...

E se, como insistem, sou princesa,
A recusar tanta loa, incenso e ouro
É preferível perder a realeza.

Mas, se noblesse oblige uso um colar,
O grosso vai pro fundo do tesouro
Pois que pode o barco-reino naufragar...



A Bruma e o Vento (de Alma Welt)
898

Quando a neblina baixa na coxilha
E o olhar se perde assim em sonho
Conformando essa branca maravilha
Com as parcas rimas que disponho,

Eu mergulho nas brumas do passado
E logo emergem sombras e o alarido
Das batalhas de um povo rebelado
E daquela que deixou falso marido

Para seguir a sua alma verdadeira,
Como eu que voltei para a poesia
Como volta um corpo à sua poeira.

E então vejo que estou no meu lugar
Com direito à bruma e à ventania
A levar-me a nau e versos além-mar...

(sem data)



A Náufraga do Éden (de Alma Welt)
897

Me imputem erros, vícios e pecados,
Outros muitos mas que não o Original,
Que desse não assumo os resultados
Nem essência, que rejeito como o Mal.

Amar e me entregar ao companheiro
Foi sublime mesmo em tenra idade;
No Levante jogados no estrangeiro
Isso foi ou resultou pura maldade.

Armar-me de poesia e inocência
E também pequena dose de ironia,
Eis reação sublime e não demência.

E sobre estes campos de coxilha,
Naufragada de mim em minha Ilha,
De volta ao meu pomar sou a Guria...


25/08/2005


Anti Bela Adormecida (de Alma Welt)
896

Jamais estive bela adormecida,
Que, anima de mim, sou coração,
Cuja carta tirei logo de saída,
O príncipe encantado é meu irmão...

Seu beijo fui eu que o roubei
Quando éramos guris no meu pomar.
Um pacto com ele então selei:
Não poderiam nos desencantar

Um do outro, duas almas rebeladas
Contra espinhos e dragões de oposição
Ou nossas mesas verdes separadas.

Pois se iremos roubar nossas noitadas,
Não serei eu que frustrarei a sua mão
Retirando nossas cartas tão marcadas...

(sem data)



O Primo Gay (de Alma Welt)
895

No verão hospedei aqui na estância
Nosso estranho primo Raulzito,
Que por ser assim meio esquisito
Foi minha cobaia em minha infância

A quem eu desnudava e examinava
Como a médica que eu dizia que seria
E um andrógino achei que descobria
Ou mesmo o Hermafrodita que faltava

Desde a antiga e cruel separação
Por Zeus ou Thor com seu machado
E não esperava esta nova sensação,

Uma espécie de volúpia de Narciso:
Com a irmã faz um par sofisticado
Que adora me ver nua sem aviso...

(sem data)



Stradivarius (de Alma Welt)
894

Um vizinho no bairro de Pinheiros
A quem deu a mania de comprar
Violinos e rabecas sem parar
Que lhe levavam falsos companheiros

De um carteado fútil, sem sentido,
Vilipendiado em sua inocência
Em seu lar doce lar mais que invadido,
Já estava à beira da demência...

E me convidando especialmente
Com a presença dos falsários
No meio de um jantar beneficente

Destrincharam violinos como frangos
E até o seu falso Stradivarius,
A pinçar-me-lhes a alma ao som de tangos...



A Ronda (de Alma Welt)
893

Creiam-me, há um fauno que me ronda
Fazem dias, meses, anos... que sei eu?
Ele quer algo de mim, meu sonho sonda
Para em mim capturar algo que é seu.

Erro meu foi contar isso pros doutores
Que abanaram as cabeças venerandas
E puseram em torno platibandas
Para conter meus "acessos de terrores".

Mas ele é o meu fauno e não o demo,
E me quer longe daqui, na nossa Arcádia,
É o meu conterrâneo e não o temo...

Acreditem-me ou não, sou uma ninfa!
Narcoléptica, sim, mas não vadia
Ou maníaca de quem drenam a linfa...

12/01/2006

Nota

Este perturbador soneto descoberto hoje, Domingo, na Arca da Alma, corresponde ao período de internação da Alma em Alegrete, em Janeiro de 2006, na Clínica da qual fugiu. Os médicos a diagnosticaram com um "blend" de síndromes : Ninfomania (daí a alusão no soneto à "ninfa" e à "maníaca"), bipolaridade e (pasmem!) Histería , essa desde o doutor Breuer e Freud, caída em desuso. Eles a mantinham dopada ("narcoléptica") e tiravam suas energias (a" linfa"). O resultado foi que Alma conseguiu afinal fugir daquela Clínica, pois o aparecimento lá da boa Doutora Jensen foi tardio e não logrou retê-la. Ela ficou perdida por quatro dias nas estradas do Pampa pegando caronas de caminhão, e tudo leva a crer que foi estuprada por um caminhoneiro na primeira tentativa...
(Lucia Welt)


Salomé (de Alma Welt)
892

Eu fui um dia a dançarina Salomé...
Eu sei disso e no fundo trago a culpa
De ser bela e não ter samba no pé
E ter fandango e chula por desculpa.

E se tenho o minuano como amigo
Que neste casarão vem se hospedar,
Eu sei que é uma espécie de castigo
Pela cabeça que um dia fiz rolar.

Ao meu baile mascarado compareça
Com teus próprios fantasmas se tu podes;
O Batista trago eu, e sem cabeça.

Pois sei que até Anita, Pepe e Bento,
A pedido do meu gordo rei Herodes
Dançarão comigo ao som do vento...

(sem data)


O Quadrinho de Jonas (Alma Welt)
891

Meu pequeno aluno tem suas manhas:
Pintou-me um quadrinho com endereço,
Onde estou guria entre montanhas
De uma Minas que nem sequer conheço.

Ele me quer levar consigo pras Gerais
A um cenário de que jamais fui filha,
Entre morros para mim altos demais
Que só conheço o plano da coxilha...

E enquanto ando nua em nostalgia
Dentro do ateliê e ele me pinta,
Imagina que, ali, dele eu seria...

Então pego a vassoura e disfarço
Unindo o belo, o útil e o embaraço
Em meio a tanto amor pra pouca tinta...

15/11/2000

Nota
Este quadro se refere a um episódio da temporada paulistana da Alma, entre 1999 e 2005, com seu aluno muito amado, o negrinho Jonas, de 12 anos na ocasião, que a pintou num quadro naïf encantador (bem menor do que aparece no quadro do Guilherme). Alma guria diante de um quadro igual, num cavalete entre montanhas, numa espécie de espelhamento infinito. As pessoas podem estranhar que a Alma andasse nua no ateliê com seu discípulo menino por ali... Mas Alma era assim, não tinha malícia e parecia pressentir que seu aluno também não a teria nunca: o menino morreria em Minas baleado através do quadrinho de sua Alma, que apertava contra o peito... ( vide o conto "Meu Pequeno Vizinho", dos Contos da Alma).
(Lucia Welt)



Pureza (Alma Welt)
890

Eu busco minha pureza não perdida
Nos primórdios de minha humilde saga,
Embora aviltada e ofendida
Pela mão que ainda hoje não afaga,

Que é a que puxou pelos cabelos
A pequena Alma ruiva e branca
Que ainda espera os tais desvelos
Para vencer a mágoa que a desanca.

Ah! Se pudesse um dia por semana
Aconchegar-me ao seio da rainha
E não chamá-la mais “a Açoriana”!...

Bah! Eu não seria pois quem sou...
Esta dor que me deu o que eu já tinha,
O Poeta que em mim se revelou...

(sem data)



Peregrinação à Árvore Sagrada (de Alma Welt)
889

Andei à sua procura pelo mundo
Digo, a ela, a Árvore Sagrada
Que encontrei na alma, enraizada,
De onde todo mistério é oriundo

Na paisagem perfeita e irreal
Com montanhas rosas e amarelas,
(minha casa num recôncavo ideal
aparecia ao longe sem janelas)

E eu diante dela, que é tão rubra,
Reafirmo meus votos e missão
Sem que a veste branca me descubra,

Pois estou diante de mim e meu pudor
De ser quem sou neste fundo coração,
No cenário de onde brota o meu amor...

(sem data)

Mensagem de Fim de Ano (de Alma Welt)
888

Daqui deste rincão do fim do mundo
Lançar quisera poderosas vibrações
Enquanto o papel e a tela inundo
Com versos que permeiam corações.

Mas não sou terno poeta, comportado
Ou sequer cheio de boas intenções,
Que dessas o inferno está lotado
E a Poesia não é feita de razões

E ainda menos de dogmas morais,
Pontificantes esquemas de conduta
Ou conselhos aceitos como tais...

Mas ao ver-se livre e desregrada,
Poesia a realidade nos transmuta
E libera a nossa fonte represada...

23/12/2006


O Poeta (de Alma Welt)
887

As convenções me atraem e as repilo,
Vivo mil contradições a cada passo,
Sou a favor disto e contra aquilo,
E logo minha opinião refaço...

Não terei então nenhum caráter?
Creiam, nisso na verdade mal atino.
A poesia há de ser célula mater,
Pois que nela forjarei o meu destino.

E o que é ser poeta? Me perguntas...
Eu diria que é ser o que tu mires
E não ser as coisas que ora ajuntas.

O olhar sábio escolhe no que vemos
No presente os passados e os porvires
Dos muitos que nós fomos e seremos...

17/10/2006




Expulsos do pomar (de Alma Welt)
886

Expulsos fomos do pomar quando guris,
O mano e eu pelos cabelos agarrados;
Mãos na frente e atrás mas obrigados,
Que nunca fôramos covardes ou servis...

Mas bah! que dor imensa, colossal!
Por ser raro esse arrasto e pelos pulsos,
Demoramos pra sabê-lo universal:
Todos os guris são sempre expulsos...

E seríamos por anos separados,
Um oceano até nos interpondo
Para que não se juntassem nossos fados.

Cruel e extremo zelo de mulher!
Deus não fez assim nos descompondo,
Que separar nunca é o que Ele quer...

(sem data)


Depois da briga (Alma Welt)
885


Rôdo, estou triste e não me venha...
Deixa eu chorar o quanto possa.
Amanhã se lembrares nossa senha,
Vem, que estarei fora desta fossa.

Mas lembra-te: consolo não me pega
E palavra de carinho vem de dentro
Não pode ser assim lançada ao vento,
Nasce do próprio seio da refrega.

Se agora tens por mim só compaixão
Não baseies nisso o teu beijo
Não faças da piedade uma missão.

Levantar tua luxúria me consola
Afinal não estou lá tanto na sola,
Se ainda despertar o teu desejo...

(sem data)



Frinéia (de Alma Welt)
884


Como em cada um de nós se encontra
O mistério da humana condição,
Resolvi estudar-me num verão
Pelo tanto que o coração demonstra.

E era o meu verão de plenitude,
Em que minha beleza era o evento
Neste fim de mundo em solitude
Entre os convidados do momento.

Por quê estou eu ainda a disfarçar?
A verdade é que um eco de Narciso
Me fez ante os presentes desnudar...

Ou eu quis ver o efeito sem idade,
Nos olhos e nos peitos, sem aviso,
Da visão de uma fração de eternidade...

(sem data)


Quem sou, de onde vim... (de Alma Welt)
883

Quão perto estou de entender tudo!
Quem sou, de onde vim, vou para onde...
Acreditem-me, eu creio e não me iludo,
É algo que ao olhar se nos esconde

Mas que mora dentro de nós mesmos;
Algo que está conosco sob um teto,
Que a Poesia co’ele lida em outros termos
Como um culto iniciático e secreto

Em que remexe as vísceras de um bode
Como outrora os gregos e romanos
(que o ser humano procura como pode)...

Bah! Falando em vão de tudo isso,
Chego a conclusão que há muitos anos
Habito um caos secreto e insubmisso...

(sem data)



Metamor (de Alma Welt)
882

Não mais me importar com ser amada...
Quem me dera chegar a tal momento
E viver em plenitude e alheamento
O Ser do ser, e amar sem sentir nada!

Sim, como se Amor o corpo fosse
No gesto simples de doar e de colher
Como as flores se dão ao nosso ser,
Só muda fragrância, seca ou doce...

Nada de palavras, nem poemas
E muito menos os dúbios sentimentos
Tão cheios de equívocos, esquemas...

Sem coração que quer reter, capturar,
A aura intangível dos momentos
Inefáveis, que podemos só lembrar...

18/09/2006



O meta-temporal (de Alma Welt)
881

Eu vinha doida correndo pela trilha
Que sempre me devolve ao casarão
O minuano soprava na coxilha
E eu tremia ao ribombo do trovão.

Então logo começou o temporal
E vi-me enregelada e em terror.
Não lograva chegar no meu quintal
Para afinal recuperar o meu calor...

Então me lembrei que sou a Alma
E que posso questionar meu Criador
Ou mudar pr’um soneto que me acalma.

Mas nos versos, mesmo mundos inventados,
Não escapamos das encrencas e da dor,
Se Poetas, pelos deuses adorados...*

19/10/2004

Nota
*Se Poetas, pelos deuses adorados...- Este verso faz alusão à famosa frase (anônima ou de um grego antigo?): "Aos deuses apraz fazer sofrer àqueles que eles mais amam..."


A filha do Desejo (de Alma Welt)
880

Sou filha do desejo dos contrários
E de tal dicotomia me ressinto:
Quisera ser aceita nos ovários
Como água numa taça de absinto

Ou mesmo como filha pródiga
No seio maternal e seu calor,
E não essa acolhida espasmódica,
Cheia de repulsa e de rancor.

Vê, Açoriana, o que me fazes,
Cerceando-me pelos quatro lados
Dos apelos e dos pelos dos rapazes.

Assim, já amorosa e tão ardente
Me restavam as gurias, simplesmente,
Que sem elas meus dias são contados...

09/04/1998

Nota
Alma se vê como a filha do desejo de dois seres muito diversos e até antípodas: o Vati (nosso pai) e a" Açoriana" (nossa mãe). Quando ela diz que queria ser aceita nos ovários de sua mãe ela reflete a grande carência e mágoa por sua mãe convencional e repressora não aceitá-la com ela era: artista, hiper-sensível e aparentemente excêntrica. Como nossa mãe fez tudo o que pôde para cercá-la ("cerceá-la") para que, por seu fogo vital e sexual, não se entregasse aos rapazes, a começar nosso irmão Rodo (em vão) ou até jovens peões da estância, Alma tentou driblar essa vigilância apaixonando-se e mantendo relações secretas, amorosas e eróticas com gurias, amigas e primas. No último verso, ela afirma que sem elas ela morreria...
(Lucia Welt)


Quadrilha (de Alma Welt)
879

Já estive com Noé naquela Arca,
E fui cabeleireira de Sansão
Depois de ser expulsa com Adão
Por furibundo anjo do Tetrarca.

Dei sopa de lentilhas ao irmão,
Por pura cobiça o fiz de bobo,
E causei no cego pai uma ilusão
Com pele de cordeiro feito lobo.

Depois, muito depois de consumado
Quis beijar a mão do falecido:
“Não me toques!” e saiu meio de lado.

E agora estou no Pampa com os sapos
Depois do coração ter em farrapos
Por amar um carcamano enlouquecido...

(sem data)


Nota

Alma, neste divertido soneto narra sua passagem como reencarnações por diversos episódios do Gênesis da Biblia, como a expulsão do Paraiso; Dalila cortando a cabeleira de Sansão; a sopa de lentilhas de Jacó (o maior embusteiro) da Biblia, trocada pelo direito de progenitura com o pobre do Esaú enganado pelo menos duas vezes; depois o episódio de Esaú , peludo e Jacó, liso, em que este engana o pai Isaac, cego, vestindo uma pele de cabrito, para ser tocado nas costas pelo pai e assim confundido com o Esaú.

No primeiro terceto do soneto, Alma , como Maria Madalena, faz alusão ao episódio do novo Testamento conhecido como o "Noli Me Tangere", quando Cristo Resssucitado, encontrado pela Madalena, que se ajoelha perante ele e tenta tocá-lo , por devoção e carinho (talvez para comprovar), diz a ela: "Não me toques" porque ainda não subi ao meu Pai" ( ele tinha descido aos Infernos, subido ao terceiro dia , e ainda estava "impuro" (!!!).

E finalmente no último terceto Alma está afinal no Pampa, atual, desencantado (só sapos, nada de príncipes), e lembra de sua encarnação como Anita na Guerra dos Farrapos, o coração em "farrapos" por amor ao aventureiro louco pela liberdade (" enlouquecido" ) o italiano ("carcamano") Giuseppe Garibaldi.
(Lucia Welt)


Teto azul (Alma Welt)
878

Não me posso imaginar sem mais dizer,
Exaurida, esgotada, findo o estro
Ou sem mais inspiração para escrever,
Pra ser direta e clara no meu texto

Mesmo em rima falsa e pé quebrado,
Que pouco me importo, dou de ombros,
Que o verso mais belo e bem achado
É veio d’ouro que salta dos escombros.

Pois Poesia é um jeito de olhar,
Frontal ou de viés, que pouco importa,
E muitas vezes só maneira de falar,

Mas que diz bem mais do que o falado
Como quem calado abriu a porta
Sob um teto azul e sem telhado...

(sem data)



A Beleza do Mundo (de Alma Welt)
877

Escolhi a Beleza, e sinto muito
Aos que mo apontam o lado imundo,
A querer-me mais que olhar fortuito
Sobre a face real do nosso mundo.

Mas dessa tal realidade, que sei eu?
O sonho anda comigo e dele sei.
E se amiúde a dor me comoveu,
Também era beleza, e então parei.

E pus a minha mão sobre o leproso
E a mulher carente tão materna
Que jamais tivera seu esposo...

E aquela suja e bela boa cigana
Que comigo foi expulsa da taberna
Pois que lia a mão que só me engana...

(sem data)


Nota

Acabo de descobrir na Arca da Alma este soneto inédito que me comoveu pois no último terceto reconheci as circunstâncias reais do primeiro encontro de minha irmã com a cigana Rafisa, que iria daí por diante ser sua amiga e mesmo amante... Alma escreveria vários textos contando episódios da convivência delas, que já postei aqui, como a crônica Safira, Eu e os Ciganos, e A Peregrina. E há um capítulo inteiro sobre essa relação ardente, quando se reencontraram no sertão da Paraiba, no romance O Retorno dos Menestréis.

Aqui neste soneto, minha irmã alude ao episódio em que a Rafisa entrou numa taberna em que estávamos tomando vinho, e com um olhar fulgurante foi direto em direção à Alma e agarrou-lhe a mão para ler a sua sorte. Como a Alma deixou e começou a passar a mão no rosto sujo da moça, depois de uma discussão com o taberneiro que queria arrastar para fora a cigana, acabamos todas expulsas e a Alma levou a Rafisa para nossa casa para dar-lhe um banho de banheira com suas próprias mãos...
(Lucia Welt)



Eu e a Primavera (de Alma Welt)
876

Poesia é o que sou, é minha essência
E não que eu com ela faça um Duo.
Sou eu que a tenho e distribuo,
O que a mãe chamava de indecência...

Se ando a esmo aí pela coxilha
Em pleno esplendor de primavera
Ela sou eu, essa prima maravilha
Vinda da Alemanha e que me espera

Na cama ao lado, de noite, na calada
Para trocarmos carícias e segredos,
E lábios rubros até a madrugada...

E ao nascer do sol sobre esta estância
À mesa me ouvirão contar enredos
De um reino de pompa e circunstância...

21/08/1999



A calejadinha dos marmelais (de Alma Welt)
875

Os apelos do amor são infindáveis
E me ocuparam desde o amanhecer,
Digo desde a própria aurora do viver
Tão plena de momentos inefáveis

Quando eu tinha que seguir o coração
E erguer-me do meu leito na calada
E tateando ir ao sótão do irmão
Ou ao leito de uma prima tão amada...

Que medos, que suspense e que coragem!
Tão secreta vida e amor tão cedo!
Só podia dar poesia ou dar bobagem...

E eis que continuo provocando,
Calejada dos marmelos e do medo,
Rebelde, com o Amor ainda ando...

(sem data)


Nota

* A calejadinha dos marmelais- percebe-se que a Alma com esse título faz trocadilho com o do romance português A Morgadinha dos Canaviais, de Julio Diniz, que foi o único que nossa mãe, "a Açoriana", sugeriu à Alma ler. E como ela castigava muito a Alma com a vara de marmelo...

(Lucia Welt)


O Muro e a Porta (de Alma Welt)
874


Transformar flagrante em algo eterno
E assim perpetuar a sutileza
De um olhar ou gesto forte e terno,
Capaz de dar à mente uma clareza,

Nem que seja de um momento tão fugaz
Mas que me pode, captado, redimir
De tantos outros perdidos sem sentir,
Pastora inepta do Eterno Capataz...

Eis a meta que a si mesma se elabora
Não só como um projeto de futuro
Mas a cada instante, aqui, agora...

Pois se o sonho meu nasceu de um trauma *
E por meio do temor constrói um muro,
Também abriu a porta desta Alma...

(sem data)

Nota

*Pois se o sonho meu nasceu de um trauma
- Embora possamos deduzir que o trauma a que a poetisa se refere foi o flagrante produzido por nossa mãe, a Açoriana, da Alma e Rodo, guris, brincando eroticamente sob a macieira do nosso pomar, a conseqüente expulsão do seu paraíso infantil e a separação dos irmãos por muito tempo, é curioso notar que em alemão a palavra sonho é Traum ou Träumen, da qual derivou em português o termo psicanalítico "trauma". Pode-se ler, então um subtexto: pois se o sonho meu nasceu de um "sonho perdido"...

(Lucia Welt)


Balanço da vida II ( de Alma Welt)
873

Construir-me em poesia é meu escopo
Mesmo que me seja a vida breve.
Se não posso de mim chegar ao topo,
Que o vento faça a curva e que me leve.

Aqui mesmo no final do fim do mundo
Contei a minha saga imaginária,
E era tudo verdade bem no fundo
Conquanto de mim mesma estagiária.

Se rimei fácil o mundo com profundo
Todavia direi com certo orgulho
Que evitei rimá-lo com o imundo...

E se não fiz nada pra mudá-lo,
Dei em sua banheira meu mergulho
Com o risco de escoar-me pelo ralo...

12/01/2007


O Armário (de Alma Welt)
872

Tanta poesia no mundo a nos cercar!
Quem ousará dizer que tudo é mau?
Haja alma para tanto assimilar
E haja coração pra tanto sal

Da Vida, da Poesia, da Beleza
Que mesmo o próprio homem recriou
Além da que restou por gentileza
De Deus quando ralhando nos deixou

E se retirou pro firmamento
Onde permanece até o momento
De vir suspender nosso castigo

Que é da alma o armário escuro e fero
Onde eu com minha letra mal consigo
Escrever o meu poema enquanto espero...

(sem data)

O Realejo (de Alma Welt)
871

Como agir, eu pergunto, o quê fazer?
O quê ser, o quê dizer, o quê pensar?
Dormir, sonhar, morrer e renascer
Para termos novamente o quê amar?

Ou crer, brincar de ser e se iludir,
E voltar a querer o que se quis...
Será a vida só a roda do devir?
Tudo é mistério no círculo de giz!

E minha dor é essa fonte desatada
Que me tem dado esse tanto que falar,
Que melhor fora sentir e recalcar...

Entretanto no poema me revejo,
Reencontro-me, guria, na calçada
Diante daquele Eterno Realejo...

(sem data)


Etemenanki (a Torre) (de Alma Welt)
870

Levada pela Arte já me encontro
Declamando-me a mim assim de cor,
Deixo-me levar de chofre e pronto,
Que me leve o destino e pra melhor.

Para o alto construí, aqui estou,
Aceito-me, proclamo meus delírios,
Por isso escrevo e gravo o que ficou
De tudo o que ganhei... e foram rios.

As línguas convergiram em minha mente
Na torre de meu pai, Etemenanki,
Pra produzir esta guria, simplesmente,

Que agora flui e verte com candura,
Poesia que não há mais o que estanque
De tudo que restou e que perdura...

09/05/1998


Nota

Mais uma bela "profissão de fé" de poeta , da nossa Alma. Ela aqui se refere à biblioteca de nosso pai como a torre de Babel, "Etemenanki", que produziu a divisão das línguas. Essa biblioteca ainda existente a duras penas aqui na estância, é em cinco idiomas: português, alemão, francês, inglês, espanhol e italiano. Dentro dela Alma foi criada, e percebe-se que ela se refere a essas linguas como os "rios" que convergiram para ela. Tendo assimilado ( "de cór") a cultura clássica em várias línguas (se é que isso é possível), ela estava pronta para fluir, derramar Poesia , o que fez copiosamente em sua curta mas intensíssima vida intelectual e afetiva conjugadas, como se percebe em cada um dos mais de 1.800 sonetos que deixou.
(Lucia Welt)


O Resgate (de Alma Welt)
869

Quando me sinto assim, exasperada
Por tanto, tudo e todos tanto amar
Me ponho a andar a esmo pela estrada
Como se fosse assim a algum lugar.

E assim caminho tanto, tanto ando
Que caio exaurida em plena estrada,
E choro de uma dor de estar amando
E espero por um carro ser levada.

E é então que aparece o meu resgate:
O fiel Galdério em sua charrete
Para pôr neste drama um arremate.

E manso, forte, apeia compassivo
Me toma nos braços qual pivete,
Me leva qual se fosse de improviso...

(sem data)

O Riso e a Flama , ou O Contrato II (de Alma Welt)
868

Desperto vendo névoa na campina
E se ela está branca como um manto
Depois como um tapete, muito fina
E pronta para a glória e para o canto

Que me deslumbrava ainda guria,
Com grande revoada de andorinhas,
Medito nesta graça da alegria
Que Deus sempre nos doou nas entrelinhas

De um texto tão severo e cobrador
Que é o grande contrato desta vida
Que inclui tanto dever e tanta dor.

E vejo que afinal tanto nos ama
Que se ainda cobra velha dívida
Nos deixou de graça o riso e a flama...

(sem data)



Os adeuses do Pampa (Alma Welt)
867


As constantes lições da Mãe Natura,
Aqui são, eu o sinto, as mais sutis,
Neste Pampa que nos trata com brandura
Mas não tolera os covardes e servis.

Eis por que o gaúcho é altaneiro
Pois a coxilha misteriosa seleciona
Aqueles que ela acolhe por inteiro
E insere em seu fantástico bioma

Que inclui os espectros e os deuses,
Se quiseres entender sua magia
E sua vocação para os adeuses,

Pois devo despedir daquela Anita
Ou do italiano que à luta nos incita,
Se daqui me vou, no trem, desde guria...

(sem data)



Dois mil Sonetos (de Alma Welt)
866

Atingir dois mil sonetos é a meta,
E a quantidade não é irrelevante
Assim como a dosagem numa seta
De ópio pra tratar um elefante.

Pois pra anestesiar a dor de amar
E ser em rebeldia neste mundo,
Eu preciso em carradas sonetar
E encher a minha arca já sem fundo.

És louca, me disseram, pra quê isso?
Não, não me disseram, estou mentindo,
Mas certamente não brinco no serviço...

Pois criar é o que cabe, não viver,
Quando se é poeta, não fingindo
Pessoa que se quer sentir e ser...

(sem data)

Notas
Acabei de descobrir, inédito, este curioso soneto na "Arca da Alma", em que ela atesta o seu propósito de escrever 2.000 sonetos (!!!) em sua (curta) vida. É, a meu ver, espantoso... Desconfio que ela conseguiu, pois não paro de encontrar sonetos inéditos na sua Arca, realmente "sem fundo". ( Lucia Welt)

*Este hábil terceto contém alusão aos famosos versos de Fenando Pessoa, que de certa forma Alma parafraseia: "Navegar (criar) é preciso. Viver não é preciso."E também : "O poeta é um fingidor/ Finge tão completamente/ que chega a sentir que é dor/ a dor que deveras sente."

Picnic (de Alma Welt)
865

Também vivi meu belo picnic
Nesta plena coxilha num verão,
Quando era romântico e até chic
E sempre terminava em confusão

E era eu a bela dentre as prendas,
A que melhor dançava, falo sério,
E usava vestido todo em rendas
E romântico achava o cemitério.

E também acreditava, meio tola,
Que a vida bem mais me reservava
Que um ninho para esta pomba rola.

Mas vejo agora que tudo era verdade:
Poeta, vi o mundo à saciedade,
Malgrado a dor de ser quem me julgava...

(sem data)


Meu eterno Natal (de Alma Welt)
864

Quando guria sonhei ser poetisa
E cantar o amor e a beleza;
Enxergar o mundo com a clareza
Do olhar que quase tudo mimetiza.

Não parecia haver maior escopo,
Nada mais importante ao ser humano;
E agora que atingi de mim o topo
Continuo a esperar o fim do ano:

Os festejos em que sou sempre feliz,
Natal de minha infância eternizada,
Que sou da eternidade a aprendiz...

E escrever é buscar meu paradeiro,
Pois o poeta em mim é a risada,
Aquela ao ver as luzes do pinheiro...

20/12/2006

Canção do Amor Louco (Alma Welt)
863

Também hei de cantar o louco amor,
E desde logo consultei o coração
Para saber se atingi um tal teor
Que me mereça cantar sua canção.

Que não ouse aquele que amou pouco
Ou fez do amor barganha ou possessão
Tentar ser porta voz de um amor louco
E alheio a meios tons e à concessão.

Amor move as estrelas disse Dante
Que sabia do amor em sua fonte,
Embora nem amado e nem amante,

Mas amou tanto que chegou até a luz
Que é da Divindade a própria ponte
Que leva ao louco Amor que nos conduz...

(sem data)

O interdito (de Alma Welt)
862

Este senso de beleza que ganhamos
De Deus, em nossa própria natureza,
É o melhor de nós, que desfrutamos
Do paraíso, não perdido com certeza,

Se jaz em nossa alma assimilado
E posso recompô-lo a cada passo
Quando estou a vagar pelo meu prado,
Diária romaria que ainda faço...

E vejo que está completa a vida,
Não perdemos nada, isso me intriga
A expulsão nos foi só advertida

Como falsa reprimenda, só um pito
Diante do mistério do interdito
Contra o qual Deus mesmo nos instiga...

(sem data)


Retorno ao Éden (de Alma Welt)
861

Mereço estar de novo em plenitude,
Já que é este o paraíso que me coube,
E o mais que desejar jamais eu pude:
Meu pampa e que ninguém, Senhor, mo roube.

Eu sei, expulsa fui do meu pomar,
Longe até desabrochei, mas exilada
Sonhei a ele do degredo só voltar,
Eis-me aqui, poeta e retornada!

Por meu levante andei, sangrei, do Éden,
E as feridas e canseiras que sofri
Não há versos ou sonetos que os medem...

Mas estar a contar sílabas na Vinha
Entre as uvas cujos vinhos nem bebi,
É tão belo, Senhor... serei boazinha!

(sem data)




Contando Sílabas (de Alma Welt)
860

Viver nesta Pampa sem criar,
Não parecia justo desde o início
Com esta Mãe Natura tão sem par
Que não tolera bem tal desperdício

E conta com meus versos como ventos,
Como aves revoando em alegria,
Com meus solenes passos meio lentos
Ou mancando por andar na pradaria

A contar nos dedos, sem desdouro,
Pra levar pro capataz Alexandrino
Pé-quebrado sem sequer chave de ouro.

E o gaúcho que me vê nesta coxilha
Já não pensa, creio eu, que desatino.
Sorri, cabeceia e segue a trilha...

(sem data)


A Fronteiriça (de Alma Welt)
859

Presa do sonho me vi por tantos anos,
Que a vida como espelho se instalou,
Que não posso distinguir os meus enganos
Desta real e louca vida que restou.

E se vivo em poesia dupla vida,
Atravesso a ponte desse espelho
Ou vivo na fronteira, dividida
Entre o azul de mim e o vermelho.

Não que haja conflito ou coisa assim
Entre o mundo de cá e o de lá
Ou seja eu a espiã fria de mim...

Mas essa dupla mão e seu perigo,
Sem o gosto do banal que já não há,
Fez de mim o mistério que persigo...

(sem data)


Nota
Acabo de descobrir este soneto inédito na inesgotável Arca da Alma, e, como sempre, riquíssimo de subtexto:
Alma, que era bipolar, temia estar se tornando esquizofrênica por viver uma dupla vida espelhada, já que traduzia tudo em poesia, isto é, todos os seus pensamentos e sensações e tudo o que a sua vista captava ao seu redor. A " fronteira" representa o limite entre o "real" e esse espelho de Alice que é o nosso inconsciente como reflexo invertido da nossa suposta realidade.

O azul e o vermelho no soneto faz ricas alusões à bipolaridade não só dela, Alma, mas de mundos que se confrontam e se interpenetram (" espião que saiu do "frio", guerra fria, azul ocidente- vermelho Rússia; cristãos e mouros- condão azul e vermelho das cavalhadas; mundo ocidental e oriental- mundo de racional e do "primitivo teocrático" ...
E no último verso, ela menciona o fato de ser o seu próprio tema e cada vez mais misterioso, à medida que a sua vida-obra crescia, a ponto de se hoje se falar em um "Mistério Alma Welt", uma poetisa tão rica e universalmente profunda que muitos duvidam que ela tenha existido em carne e osso...
(Lucia Welt)


A vida vivida (de Alma Welt)
858

Com tal sofreguidão vivi a vida
E tanto a fruí que pouco devo
A uma outra vida imerecida
Se já vivi em dobro no que escrevo,

Malgrado esta dor de incompreensão
De minha mãe Morgado, a dura Ana,
Que tanto me faz falta ao coração,
Que sempre acreditou-me ser insana.

Isto pensado aceitaria nova chance
Se vivi pela metade minha saga:
Minha Mutti ficou fora do romance.

Que não pude deitar-me em sua cama
E colar-me num seio que me afaga,
E não mais chamá-la assim: Açoriana...

(sem data)


Nota
Acabo de descobrir este soneto inédito na Arca da Alma, e que expõe, em tema recorrente na obra da poetisa, a dificuldade de relacionamento com nossa mãe, que ela chamava com um certo distanciamento mítico de "a Açoriana". Essa distância e sua perda total aos 16 anos, está no cerne da tragédia da grande artista.

(Lucia Welt)



O Chão das Lembranças (de Alma Welt)
857


Quantas vezes prestes a me alçar
Retornei ao chão de minhas lembranças,
Aquelas que me prendem no pomar
Onde tu e eu fomos crianças...

Ali sob a inocente macieira
Que viu o nosso afoito desnudar,
Depois a nossa linda brincadeira
De que nos quisera envergonhar,

Debalde, eu diria como antigos,
Os brios da matrona Açoriana,
Morgado, a Mutti, a dona Ana...

Pois me alcei do chão pela poesia
Ao descobrir em mim pelos perigos:
Estrelas move o Amor, e nos movia...

(sem data)


Nota
Acabo de descobrir na Arca da Alma, este soneto de tema tão recorrente na obra da poetisa, o que mostra a extensão do trauma ocasionado na alma de minha irmã pelo flagrante produzido por nossa mãe, a Mutti, a Açoriana (como só a Alma a chamava). Entretanto, como tudo que ela escrevia, o tema transcende a mera circunstância pessoal, pela sua conotação arquetípica, universal, pois é vidente a alegoria da expulsão do inocente casal primordial, do paraíso terrestre, e o anátema de Deus, que os jogou no mundo, "contra natura" , por punição. Alma como poeta haveria de se rebelar, e, como ela diz, se alçar deste chão traumático, pela Poesia.
(Lucia Welt)

*Estrelas move o Amor, e nos movia...- A inversão da ordem por necessidade de rítmo ( que a Alma tanto prezava) talvez dificulte o entendimento: O "amor move estrelas", e nos movia é uma alusão ou paráfrase do último verso d' A Divina Comédia de Dante Alighieri : L'amor che muove il sole e l'autre stelle", O Amor que move o sol e as outras estrelas.
(Lucia Welt)




O Show do Amor (de Alma Welt)

856

Amor, que nem quer ser uma arte
Mas se sobrepõe às outras todas
Costuma dar um show à parte
No palco das exéquias e das bodas.

Vê como choram os presentes
Em torno do caixão do falecido
Ou quando se casam os nubentes
E Amor tem a palavra de sentido,

Mormente no beijo e no abraço
Do silêncio eloqüente dos amigos,
Na lágrima que na face faz um traço.

E as que jazem no coração suspensas
Por mágoas e rancores muito antigos
Brotam n’alma justo quando menos pensas...

(sem data)


Irrefletida (de Alma Welt)
855

No lago vi meu rosto refletido
De manhã como se fosse vez primeira,
Nas águas do meu poço proibido
Aonde tanto ia em brincadeira.

E senti, em susto, que esse espelho
Aprisionava sem dó o meu reflexo:
Segurava o cabelo meu, vermelho,
E este belo rosto pálido, perplexo.

E gritei de revolta e de medo
Ao Deus desta impassível pradaria:
“Aonde me levais, assim tão cedo?”

"Se somente orbitei o meu umbigo,
E não tenho sequer sabedoria,
Que serventia terei eu aí contigo?”


12/01/2007

Nota
Muito emocionada descobri esta manhã na Arca da Alma este pungente soneto que me fez mais uma vez chorar por minha irmã. Como ela sofreu, sozinha, esses sinais de sua morte próxima!... Nós, sua família, não sabíamos o que a fazia tão instável, oscilando entre tristeza e alegria. Não sabíamos...
(Lucia Welt)


A Bravata (de Alma Welt)
854

Conclamei os ventos na coxilha
Quando adolescente estabanada.
Olhai ali o trecho em minha trilha
Em que fiz a minha jura desnudada.

Despi-me lançando tudo ao ar
E tratei de assim voltar ao casarão
E entrando pela porta do salão,
Minha dura Açoriana provocar:

“Vê, Mutti, se maldade já se via,
Trouxeste-me assim pelos cabelos,
Me açoita como quando era guria!

“Procura nestes seios cor de nata
Ou mesmo nestes ralos ruivos pelos
Se o pecado ainda mora por bravata!”

(sem data)

Nota

Acabo de descobrir na arca este pungente, visceral soneto, em que a Alma revela a marca deixada para toda a vida pelo trauma produzido pelo flagrante dela com seu irmão Rodo, quando pequenos, por nossa mãe, que os arrastou nuzinhos pelos cabelos, gritando...
(Lucia Welt)


Meio Ofélia, meio Inês (de Alma Welt)
853

Permaneço plantada aqui no pampa
Como raiz de mim, não mais semente,
Preparando não a fronde mas a campa,
Que velha não serei, infelizmente.

Mas meus mil sonetos e poemas
Farão a vez do umbu ou do carvalho
À cuja sombra os homens e as emas
Vêm refrescar do sol como ao orvalho

As ervas e quem dera minha tez,
Posta, sim, em cruel desassossego
Na coxilha e bem longe do Mondego,*

Na vida, meio Ofélia e meio Inês,
Cheia de dores, suspiros e apego
Nesta híbrida saga em que me vês.


08/01/2007

Nota

*Posta, sim, em cruel desassossego/Na coxilha e bem longe do Mondego,- Trata-se de um paráfrase ou alusão aos famosos versos da estância CXX do Canto III dos Lusíadas de Camões, que aqui transcrevo no seu português original, arcaico (renascentista):

"Estavas, linda Ignês, posta em socego,
De teus annos colhendo o doce fruito,
Naquele engano da alma, ledo e cego,
Que a fortuna não deixa durar muito:
Nos saudosos campos do Mondego,
De teus formosos olhos nunca enxuito,
Aos montes ensinando e às hervinhas
O nome que no peito escrito tinhas."



No olho da Poesia (de Alma Welt)
852

Estou em pleno olho da Poesia
Como no funil de um furacão.
Tudo voe ou se retorça em agonia,
No vórtice mantenho os pés no chão.

O soneto é minha âncora ou porão
Quando tudo se torna muito instável
Pois os ventos da vida vêm e vão
No meu pampa inerente e imutável

Que trago no meu seio de memórias
Que mesmo transcendem a minha saudade
E vêm do tempo das batalhas e das glórias.

Mas se me indagam, depois do minuano,
Como posso viver só e nesta herdade:
“Vou e volto com o vento a cada ano...”

(sem data)


Receita (Alma Welt)
851

Sejamos céleres, solícitos, serenos,
Alçando-nos aos píncaros do humano;
Ligeiros, mas austeros, sem venenos,
Quando temos que vogar a todo pano;

Modestos, não hipócritas babosos
Bajulando os bravos do sucesso;
Evitemos os luxos e os gozos
Se frutos dos vícios e do excesso;

Tenhamos o talento do possível,
Não desvinculado da virtude
E nunca aos comuns inacessível.

Finalmente sejamos tão perfeitos
Que possamos bater nos nossos peitos
E dizer enfim: Fiz o que pude!

(sem data)


Nota
* Sejamos céleres... - Este soneto começa assim, por causa de uma cena de um filme que a Alma viu junto comigo em DVD aqui na estância. O filme era Os Três Mosqueteiros, e num certo momento, D'Artagnan esporeia o cavalo dizendo para um pagem ou o mensageiro que lhe trouxe uma mensagem urgente: "Sejamos céleres!" E o pagem responde: "Ótimo! Gosto de céleres!"
Alma riu muito, esse tipo de humor bateu-lhe na alma....
(Lucia Welt)



A Dama do Lobo (de Alma Welt)
850

Amo vagar assim pelo meu bosque,
Mas, vede, por um lobo acompanhada
Até a cercania de um quiosque
Sobre o qual eu deveria estar calada

Pois ali fui pelo lobo possuída
Em noite de prazeres e mistérios
Que me puseram, então, desfalecida
Em lances e perigos muito sérios...

E agora sou a branca dama errante
Nas noites derradeiras deste outubro
Que os peões tacham de infamante

Cogitando atear fogo na floresta
Quando a dama aquecida for ao rubro
Em tão lupina, escura e antiga festa...

31/10/1999


Tara (de Alma Welt)
849

Quando diante estou do meu amor
Tudo em mim desperta e se alteia:
O bom, o belo e, sim, um tanto a dor,
Nunca o mal, a face escura e feia.

E quero somente dar-me e dar-me,
Nada exigindo, e esse é ponto frágil
Dessa fina sintonia leve e ágil
Com seu riso, sua pele e o seu charme.

Mas, ai! Certo de mim, ele não pára
E pode então ser livre e ir pro mundo
Bem longe do que dizem: nossa tara!

E eu sei em minha poesia rebelada:
Voltará, não por remorso bem no fundo:
Por clamor de nossa carne abandonada...

(sem data)

Auto retrato (de Alma Welt)
848

Amo deitar-me nua na coxilha,
Ao luar, já que evito me dourar
À luz do sol, embora dele filha,
O que faz em meus cabelos se notar,

Loura arruivada e muito branca,
Visada aqui no pampa, destoante,
Desde guria com meu irmão infante,
Até o expandir de minha anca.

E o povo do campo ou das aldeias
Aponta aos seus filhos com o dedo
As minhas pernas alvas como meias.

E os imagino a dizer sem ironia:
“Guris, bem sei que ela faz medo,
Mas é só uma doida da Poesia...”


09/04/1999


Encontro com a jornalista (de Alma Welt)
847

A jovem jornalista veio à estância
(confessou depois) pra comprovar
Ou não a existência e circunstância
De ter nascido aqui um avatar:

A poetisa Alma, inexistente
Segundo os padrões do próprio mundo
Certamente mais palpável mas carente
De um pampa poético e profundo.

E me vendo na varanda a balançar,
Começou a tremer e deu um grito
Procurando com os dedos me tocar.

E disse: “Eu jurava que eras Mito,
E somente preparada pra encontrar
Uma frase em negra lousa de granito...

(sem data)


O Tempo, o sonho e o vento (de Alma Welt)
846

Quando está ventando, e muito venta,
Na planura sem resguardo da coxilha,
Eu vejo minha vida em marcha lenta
E ao som maravilhoso de uma trilha

Musical e de pequena orquestra,
Com momentos de festa de galpão
Com rabecas e fole, o acordeão,
Que aqui é só a gaita, e muito destra...

E eu, guria, dançando na torrente
A segurar a minha saia só de um lado
Rodopiando em torno, eternamente.

Sonho de vento, dúbio e recorrente,
Carregado de alegrias do passado
A confundir o Tempo em minha mente...

(sem data)



O Crítico (de Alma Welt)
845

Um dia um erudito literato
Ao ver que eu tinha escrito mil sonetos
Ficou por um instante estupefato
E me disse afiando os seus espetos:

“Não pode haver assunto para tanto...
Não serás por acaso falastrona?
Disse ele disfarçando o seu espanto
E se remexendo na poltrona.

Mas durante a leitura de viés
Do olhar experiente e até esnobe
De escritor de prefácio e rodapés,

Vai ele se calando, a mão na testa
E do seu peito um suspiro logo sobe
De quem olhou a vida pela fresta...

(sem data)


A castelã (de Alma Welt)
844

Sou Alma desta estância, ex Farroupilha,
Santa Gertrudes agora, em seu vinhedo
Cercando o casarão que ainda faz medo
Com estórias de guerras de guerrilha,

E de noites de gemidos e murmúrios
Que se ouvem ainda atrás das portas
Vindos de quartos, alcovas e tugúrios,
Ao som das batidas de horas mortas

Da torre de um relógio de outra era
Com seu dourado disco, mas de bronze,
Pendulando o silêncio até as onze...

Quem não teme visões de cemitérios,
Venha visitar-me, mas quem dera
Não ser eu a castelã destes mistérios...

(sem data)


Ainda o amor (de Alma Welt)
842

O amor é pessoal e intransferível.
Cada um que o vive o inventou...
Por isso é glorioso e imperecível,
Renova-se em cada um que amou.

Não se pode ensiná-lo, na verdade,
Mas podemos preparar as boas silhas
Para que o outro, n’alma, sua herdade,
Possa semeá-lo em suas trilhas.

E se temos seu teor diminuído
Já que vemos dele tanta fome,
Talvez seja por ser mal distribuído.

Cabe a mim e a ti vê-lo possível,
Não adianta evocar o amor sem nome,
Que ele é pessoal e intransferível...

(sem data)


A seus pés (de Alma Welt)
841

Quero gritar ao mundo o meu amor!
Vê, é ele! No seu carro, vem chegando!
Reconheço esse ronco do motor...
Logo estará aqui! E me abraçando!

Ai! Devo estar louca, ainda estou nua!
Talvez deva assim mesmo esperá-lo,
Ele assim me conheceu e perpetua
Esta imagem de quem sou só por amá-lo.

Depois de me abraçar nesta varanda,
Me carregará para o meu quarto,
Como um bebê de mim após o parto...

E eu saberei seu cheiro e sua lavanda,
E alguns outros perfumes de viés,
Ajoelhada, e ávida... a seus pés...

(sem data)


A ilha dos sem-muros (de Alma Welt)
840

Também eu canto de amor, impenitente,
Já que amo e amada sou por meu irmão,
Mas tão logo condenada pela gente
Que segue a norma, a lei e o padrão.

Mas, vede, um grande amor se sobrepõe
Às regras arbitrárias e as afronta
Qual aquele que o grande bardo conta
E no ápice do amor humano põe.

E tentei, bah, como! e ainda tento
Vencer a maré dos descontentes
Às custas do verbo e do talento

Navegando numa nau de versos puros
Em que vamos, ele e eu, pelos poentes,
À Ilha dos que desconhecem muros...

(sem data)


O Bobo da Colina (de Alma Welt)
“The Fool on the Hill” (Lennon–MacCartney)
839


Minh’alma a mim mesma me consome
Em ânsias deslocadas deste tempo
Que vomita e expele o que come
Tão rapidamente... que faz vento.

Meu lirismo, eu sei, é semi-louco,
Mas que importa se delira, o coração?
Declama e brada até tornar-se rouco
Como o doido da colina da canção...

E me agarro em mim, que insensatez!
Contar com um galho tão instável
Na torrente que o vento sempre fez

Para levar os sonhos (talvez manha)
Do que recusa um mundo miserável
E faz de uma colina a sua montanha...

(sem data)

Vaticínio (de Alma Welt)
838

Padecemos, Rodo e eu, de um desatino
Do coração ou da alma, não sei bem,
Que nos faz correr para o Destino
Conscientes demais que a vida o tem.

Somos trágicos, pois, é o que somos,
Malgrado seja nosso fim universal.
Ao homem foram dados muitos pomos
Pra iludi-lo, a cada dia no final.

Mas Ele a nós poetas não engana,
Embora nos prometa o louro e a lira
Como aquele vaticínio da cigana.

Como mágico em festa de criança,
Deus dá a moedinha que nos tira
Como prêmio ilusório de esperança...

24/09/2006




O contrato (de Alma Welt)
836

Abrir minhas janelas despertando
É como um contrato com o Tempo.
E firmo meu propósito cantando
Livre e leve como piuma al vento.

E em seguida sugando o chimarrão
Saio alegre a vagar pela coxilha
De que não rimarei que sou a filha
Pra não começar com um chavão.

E vou pela campina sem perigo,
Veríssimo cenário e maravilha
Dos tempos do Capitão Rodrigo,

Quando o sangue dos duelos se somava
A aquele mais antigo, numa trilha
Onde o tempo com o vento se encontrava...

09/05/2005


Remorsos (de Alma Welt)
835

Fui rebelde demais, até me espanto,
Guria irreverente e acintosa
Que do colóquio raso ouvia o canto,
E o poema não trocava pela prosa...

Depois de quase tudo ter negado,
Aos tabus me mostrado resistente
E o furor dos moralistas provocado,
Ora me vejo assim, tão reverente...

E começando a ter medos tardios,
Remorsos que renascem retardados
Muito longe da fonte dos desvios,

Escalo em calafrios na calada
Desta noite a fria torre dos pecados,
E eis-me nua, santa, e ajoelhada...

(sem data)


Onde estás, Vati? (de Alma Welt)
834

Onde estás agora, em que mundo?
Que tanto amavas, Vati, a cultura
E a Arte deste nosso, tão fecundo,
Malgrado crueldade e impostura...

Talvez sentado à mesa de uma sala
De requintes sóbrios e champanhe
Comentando tempos do alla Scala,
Da diva que agora te acompanhe

Nesse teu novo plano e nova vida
Onde estejas a contento, ladeado
De tua divina Callas, Norma, Aida...

Sim, por certo existe “il paradiso”
Talvez num nível bem mais elevado,
De camarote, e não do rés do piso...


(sem data)


Cabeça de Alma (de Alma Welt)
833

Para viver a minha alma escrevo.
Não poderia ser sem me atrever...
E pergunto ao vento: “A que devo
Tanta honra da visita merecer?”

“A que devo, ó sol, e brancas nuvens,
Suas dádivas, seu calor e suas chuvas?
E voz outras, avezinhas e corujas
Com essa maciez de suas penugens?”

Matilde abana sua cabeça, enfastiada,
E diz, voltando logo ao casarão:
“Por ti, guria, já não posso fazer nada...”

“Tens a cabeça fraca ou complicada
E perguntas do enviado a intenção,
Quando devias ajoelhar por seu Patrão...”

(sem data)

O violino do Mestre (de Alma Welt)
832

Que mais posso fazer por meu destino?
Deixar-me assim passiva, sem ação
Como uma rês que vai batendo um sino,
Pra acompanhada ser pelo patrão

De longe, na verdade indiferente
Enquanto não a queira alguém roubar?
Pois o objeto do desejo de outra gente
Passa a ser do que o vivia a desprezar...

Então cala-te, guria, não provoques
O Grão-Mestre das Sinas, caprichoso,
Que tem fama de fazer alguns retoques

Para afinar com perfeição o nosso fim
Como a um Stradivarius virtuoso
Não o sino da tal rês... e ai de mim!

16/01/2007

O Eterno Retorno (VI) (de Alma Welt)
831

Às vezes ser mais simples eu quisera,
E viver sem questionar o tempo e o ser,
A razão de se viver e essa quimera
Que nos exige trabalhar para viver,

E buscar ser feliz a todo custo,
Mesmo contra a nossa própria mente
A recordar a dor, o medo e o susto
De ver tudo perdido de repente...

Mas perdido o quê, além da vida,
Que pelo que se espera lá no fim
Infelizmente já é coisa resolvida?

Talvez viver seja somente procurar
Voltar ao par que fomos no jardim,
Bem antes deste mundo começar...

(sem data)



A volta do guerreiro (de Alma Welt)
830

Estarei contigo, Rodo, até o fim,
Quando afinal despojado da ilusão
Voltares sem teu Aston Martin,
Tendo perdido tua derradeira mão,

Traído pelas cartas que amavas
Mais do que a irmã que te venera,
Pois mantenho a porta sem as travas
Não precisas chamar a que te espera.

E pousando tua cabeça de guerreiro
No regaço da rainha renitente
Não necessitarás de outro parceiro

Por um mês, se tanto, quem me dera!
Quem sou para enfrentar tua quimera?
Já começo a destecer daqui pra frente...

(sem data)


A escolha (de Alma Welt)
829

Fiz minha opção pela Poesia...
O amor me espera mesmo assim,
Indulgente que é com a teimosia,
Vou encontrá-lo à noite no jardim

Para termos a conversa radical
Que pra sempre finde este dilema:
Viver a vida no plano do real,
Escolher entre a dor e o poema.

Mas o que é o real? Perguntarei,
Que há muito perdi a referência
Vivendo entre o príncipe e o rei

Num nobre casarão pleno de estórias
De sonhos de amor e resistência
E farrapos bentos de memórias...

(sem data)



Il Carnevale (de Alma Welt)
828

A vida é sofrimento, a morte é mais.
Prazer e dor, o resto é veleidade...
Vivemos nossos sonhos mais reais
Entre um e outro sonho de verdade,

Que são os que vêem de outro plano
Que de tão vasto e ignoto me consola
Por saber que esta vida é um engano
E o Sonho é maior, e não esmola

Pelos tormentos da vida neste vale
De sombras que bailam delirantes
Já que isto é mesmo “il Carnevale”

De uma louca Veneza atemporal
De gestos estudados e arrogantes,
Sob as neutras máscaras de cal...

(sem data)

Perdida de poesia (de Alma Welt)
827

Meus dias foram belos e dourados
E pois me doem mais estes sombrios
Em que agora vago pelos prados
No fluxo interior de escuros rios

Que me levam assim meio demente
A coroar-me de sonetos e jasmim
Como Ofélia que ficou para semente
E carrega suas flores sem ter fim.

Puseram-me camisa de onze varas
Ou aquela com um laço ali atrás
Com que sempre mimam as mais raras...

E agora assim perdida de poesia
Caminho ao poço inverso, mais e mais,
Onde toda vaidade se esvazia...

15/01/2007

A Alma do poema (de Alma Welt)
826

Já tudo é só poesia para mim,
E o poema não é algo destacado
Do viver, do ser, ou algo assim,
O justo sentido experimentado...

Mal posso conceber que uns não vejam
O mundo revelado como vejo,
E as coisas veladas mesmo estejam
Para alguns olhos eivados de desejo,

Que deveria ser motivo suficiente
Assim como o amor, para a poesia
Apresentar-se assim a toda gente.

Mas percebo afinal, e meio triste,
Que a alma do poema renuncia
A preencher um vazio que resiste...

(sem data)



O pó e a luz (de Alma Welt)
825

O pó tem sua essência revelada
Quando dança na luz filtrada em frestas.
Para o grego era a alma figurada
Que nos cobre o mundo e as arestas.

É um consolo saber que tudo vive,
O mistério preenche-lhe o vazio,
E o nada, pavor que sempre tive,
Seria a razão mesma do que crio...

Pois saber quão pouco conhecemos
Nos dá esperança de sentido
Nesta vida às cegas que vivemos.

Assim, é bem possível vida eterna
E até um paraíso prometido
Na pequenina luz de uma lanterna...

04/12/2005


Impotência (de Alma Welt)
824

O quê fazer? Senão olhar, e suspirar...
Pergunto a mim mesma nestes dias.
"Cuida, o caldo está para entornar!
Pensava que mais sábia tu serias..."

A casa afunda, e com ela meu vinhedo.
Ou é justo o contrário que acontece.
Ele a fazer das cartas seu degredo,
Ela já a destecer enquanto tece...

Está tudo perdido, é o que se diz.
A vida é um naufrágio programado...
Queres viver pra sempre e ser feliz?

Bah! Jardim perdido, ó meu pomar
Onde o mais puro amor foi estuprado!
Ó amor, ó vida minha... ó azar!

(sem data)



O Território do Vento (de Alma Welt)
823

Os meus dias felizes que se foram,
A memória os guarda, não acabam,
O tempo os não alcança aonde moram,
Do coração e mente não se apagam.

As paredes já estalam de agonia
As pranchas rangem no silêncio
Da solidão que há muito me seguia
E se instalou no casarão imenso...

Mas o poeta não pode ser detido
Nada pode abater o incansável
Que busca o território prometido,

O plano onde os sonhos são a norma
E constroem nova vida no Inefável
Onde o verbo e o vento tomam forma...

(sem data)


Sob a macieira (de Alma Welt)
822

Reincidindo vivi no meu exílio
Mesmo que cumprindo o meu dever:
A mim mesma a meta de escrever
Ao menos um soneto entre afazeres

Ou conto, uma lorota, uma lenda
Que já justificasse o meu degredo
Num paraíso em forma de fazenda,
Esta louca estância e seu vinhedo.

Mas sob a macieira e sua ramada
Entreguei-me de novo ao meu amor
Muito além da quota estipulada...

E sem labores, partos, dores pra pagar,
Que estava sem mais o que dispor,
Ainda em versos eu podia suspirar...

(sem data)

A videira e o pó (de Alma Welt)
821

Onde estão os avós de meus avós?
Sob lápides partidas, sob o solo
De origem ou adotado, como nós
Que de longe viemos a este pólo

Para plantar o vinho prometido
Ao lançar fundas raízes de videira
Para poder olhar o mundo refletido
Numa taça cristalina e alvissareira?

Não sabemos, mas o solo é um só...
A terra reclama o que brotou,
Que nada vai além do próprio pó.

Dele fomos feitos, em casa estamos,
Não adianta procurar por quem plantou,
Além da vide de quem somos só os ramos...


18/07/2006



A louca da varanda (de Alma Welt)
820

Eis a louca da varanda, que me sei,
Que estou aqui há muito meditando
Tentando descobrir onde eu errei
Para estar assim tanto esperando...

Penélope de mim em tempo morno,
Aguardo um sinal vindo do rei
Que me prometeu o seu retorno,
Que mesmo fria e morta esperarei.

Ai! Tempos de ventura, nossa infância,
E depois primeira juventude
Que tentei perpetuar enquanto pude!

Descobri meu destino pelas cartas
No jogo do meu rei, na louca instância
De sofrer-me que voltando logo partas...

(sem data)

Nota
A verdade é que Alma se tornou co-dependente do vício do Rodo no jogo. Meu irmão sempre se declarou um profissional do poker, se é que isso existe. A mim me parece que é um vício mesmo, pois moldou a sua vida numa andança e busca contínuas, que o afastava da Alma (e de nós) por longas temporadas, e a colocava nessa espera também viciosa... Há uma grande quantidade de sonetos da Alma que tratam disso... e a imagem de uma Penélope do poker é recorrente nessa vertente que chamei "Sonetos do Rodo- de Alma Welt", e para a qual abri um blog específico:



Meus dias (de Alma Welt)
819

Meus dias foram belos neste pampa
E não tenho queixas ou rancores...
Guria grácil, cresci em bela estampa
E Amor me foi pródigo de amores.

Dei-me ao meu irmão como a primeira,
Aquela irmã de Adão, sua costela,
Que quis voltar à grade costumeira
E deixou-se penetrar quase por ela

Sob a sacra macieira do seu sexo,
Em abraços nus, estertorantes
Para ver da Vida o próprio nexo,

Que é dar-se, dar-se e então gerar,
O que fiz, se não louros infantes,
Os versos que ao mundo quero dar...

(sem data)



A marca do poeta (de Alma Welt)
818

O direito da poesia, que sagrado,
Concedido foi ali ao Leste
Do Éden ao nosso antepassado,
Embora sua culpa não conteste,

Foi consolo no exílio e até agora
Àquele que caminha pela estrada
De cidade em cidade como outrora
Ao perder seu leito e sua morada.

Poetas somos filhos de Caim
E trazemos na fronte a sua marca
E um brilho nos olhos mesmo assim...

Pois a fé não perdemos e o prazer,
Pois Deus, com todo o peso com que arca,
Nos ouve em seus momentos de lazer...

08/03/2005


Pano de fundo (de Alma Welt)
817

Andar na fronteira de dois mundos...
Foi esse o meu caminho e privilégio,
Realidade e sonho, o sortilégio
De meus momentos mais fecundos

Que jorram dos poemas e sonetos
Do próprio coração desta coxilha
Que acolheu esta guria como filha
Que a honra em quadras e tercetos...

O pampa é o meu pano de fundo
E não foi preciso descrevê-lo
Pois é o meu ser e estar no mundo.

Bucólica não fui, ou paisagista,
Como outrora o foi com tal desvelo,
Aquela Sand que amou o pianista...

09/12/2006


Notas
*Aquela Sand que amou o pianista...- Alma se refere à escritora francesa do século XIX, Amandine-Aurore-Lucile Dupin 1804-1876, que usava o pseudônimo masculino George Sand (e andava vestida como homem) que amou o grande compositor e pianista Fréderic Chopin, e que era uma notável bucolista que se detinha a descrever detalhadamente as belas paisagens do sul da França em livros como o seu La mare au Diable (O Pântano do Diabo), belíssimo romance que descreve de maneira idealística e romântica a vida camponesa.

George Sand foi uma grande figura. Ela era bisexual, coisa muito avançada para a época. Ela se casou aos 18 anos com o barão Casimir Dudevant, e se assinava Aurore Dudevant, mas logo se separou dele e foi sozinha para Paris ser escritora. Além do Chopin, ela foi amante de Stéphane de Grandsagne e dos poetas Alfred de Musset, e Prosper Malarmé. E parece que teve um caso amoroso com a sua amiga, a atriz Marie Dorval.

Quanto à Alma , ela parece querer ressaltar que, se se tornou uma grande intérprete do Pampa, não foi por ser descritiva da paisagem, mas devido a um poder de sugestão inerente à sua alma pampiana, que produz magicamente esse pano de fundo ou cenário aos seus textos em geral e aos seus sonetos em particular... (Lucia Welt)


Minha Pavana (de Alma Welt)
816

Posso bem imaginar minha pavana
Aquela, triste, da defunta que serei,
Envolta em pranto, dor e muita gana
De vingança e juras do meu rei,

Sim, Rodo, meu irmão e soberano
E seu fiel Galdério, bom ministro,
A ostentar agora um ar sinistro
Ao chamar nosso aliado Minuano

Para a batalha final com a potência
Que levou “esta defunta infanta amada” *
Aos páramos além de sua demência

Coroada de flores de bromélias,
Na verdade uma pobre desastrada,
A mais branca e tola das Ofélias...

15/01/2007

Notas
*“esta defunta infanta amada”- citação de verso de Jorge de Lima do famoso soneto sem título : " Esta pavana é para uma defunta..."

O Guilherme de Faria adicionou este comentário à postagem deste soneto na sua página no facebook:
"Lucia Welt acabou de encontrar este soneto inédito na Arca da Alma. Trata-se de mais um dos muitos que revelam a fantasia romântica recorrente, da Alma, de sua morte romanesca, que embora às vezes auto-ironizada como no caso deste soneto, acabou mesmo por vitimá-la..."



O cristal do poema (de Alma Welt)
815

Sabemos que o poeta não tem fim
E fica vicejando eternamente,
Não porque não morra ou coisa assim,
Mas porque o que lança é a semente.

Pois o poema em si morre e se refaz
No pensamento vivo que o defronta,
Como uma alma que não tendo paz
Volta porque ainda não está pronta.

Assombrados então pelo poema
Convivemos com mundos perdidos
De palavras e seu pródigo sistema

De trazer-nos o espelho das idades
Pra que possamos ver-nos refletidos
No cristal terrível das verdades...

(sem data)


A Varanda (de Alma Welt)
814

Meus melhores silêncios ainda lembro
Nesta varanda agora decadente,
Naquela minha barca de Setembro
Que me transportava ao meu poente

Que eram luzes belas mas distantes
Como um futuro de glórias terminando
Depois de ver meus livros nas estantes,
Meus poemas e canções disseminando...

Sonhadora, báh! que fui e ainda sou!
As coisas não são nada lineares
E o trajeto uma roda se mostrou:

Os enganos e perdas de quem anda
E esse grande mistério dos azares
Me trouxeram de volta à minha varanda...


12/01/2007

A Linguagem de Deus (Alma Welt)
813

Estar com o poema, em sintonia,
Que existe palpitando sob tudo,
Que tudo é matéria de Poesia,
Que nada é opaco, inerte ou mudo...

Aos olhos do Poeta sob o céu
As coisas falam ainda, e o coração,
A linguagem primeva de Babel,
Aquela mesma anterior à confusão.

Eis a nossa sedução de filhos pródigos
Que buscam o pai malgrado os danos
Causados às terras e aos códigos!..

Nos recompomos na língua verdadeira,
(que Deus deixou um rabo da primeira)
Pr’ Ele mesmo entender o que falamos.

10/01/2007

Os vinhos da herdeira (de Alma Welt)
812

O sonho dos avós em mim habita
Transubstanciado na Poesia.
O que neles foi safra bendita
Maturou em mim e se anuncia...

Oriundos de um campo mais ao fundo,
Dormindo no silencio de outras caves,
Os vinhos-versos vêm para este mundo
Com estes outros travos, outras chaves,

Mas ainda com as cores do rubi
E talvez com delicado e igual buquê,
Atributos que por certo não esqueci,

Pois das uvas de campos tão vizinhos
E lagares que ninguém tampouco os vê,
Piso e sangro os meus melhores vinhos...

(sem data)



A Poetisa (de Alma Welt)
811

Então vede como a Poetisa nasce!
Seu estro do Nada não brotou,
Mergulhada que tem a sua face
Na Alma do Mundo que espelhou.

Ela sou eu, tu és e somos nós.
Sua alma está em nós disseminada
Tanto mais que paga o preço atroz
De ter a sua existência duvidada.

Mas ao debruçar-se sobre o verso
Nas horas de prazer ou de agonia
Descobriu seu consolo no adverso.

Pois se muito sofre quem amou,
Mais beleza planta quem a cria
E torna-se ela própria o que criou...

(sem data)


A Barca (de Alma Welt)
810

A barca já vem vindo no poente...
Estou ao pé do cais, o pala ao vento
A face pálida a olhar serenamente
As velas do meu próprio pensamento.

Leva-me, ó barca, que estou pronta!
Fechei o último soneto, pus um Fim
As resmas quis contar, perdi a conta,
E muito é o melhor, mesmo, de mim.

Mas dói! Ai! não é medo, é já saudade
E minha vida já está a desfilar
Ante estes meus olhos sem idade...

A vagar e a largar peça por peça,
No pomar põe-se a guria a desnudar,
A saga desta Alma então começa...

19/01/2007

O Jardim das Palavras (de Alma Welt)
809

As palavras que plantei em meu jardim
Floresceram, não posso me queixar,
E voltam com perfumes para mim,
Que é a forma da terra as consagrar.

Passo-as em revista, as reconheço,
Não as colho que pra isso as não plantei,
Estarão aí como um começo
Do cenário colorido que herdarei:

O coração dos homens e mulheres
Que se amalgamarem nas corolas
Das certezas e dos dúbios mal-me-queres...

Que eu, de mim mesma a Jardineira,
Plantei neste solo mais que as solas,
E encarnei a minha rosa verdadeira...

(sem data)


Testemunho (de Alma Welt)
808

Dar o testemunho meu de vida,
A mim mesma parecia pretensão
Conquanto já estivesse resolvida
A registrar cada passo neste chão.

E cada pensamento ou devaneio
Deveria fixar como sagrado
E nada me seria então alheio
E eu seria tudo o que é pensado.

Pois ser é infinito, sem limite
Se podemos o todo em tudo ver
E o inefável apresenta seu convite...

A beleza de tudo é coisa séria
Quando libertamos nosso ser
Do próprio desprezo da matéria...



Jardim anoitecido (de Alma Welt)
807

O jardim anoitecido nos espera
Nestas belas noites de luar
Em que vamos sob a branca esfera,
Abraçados, a rir, rodopiar,

A cada canteiro, a cada passo,
Felizes por nos termos tão somente,
Sabendo quão forte é o nosso laço
E como nosso amor é diferente...

Ai! Rodo, só a ti não digo "bah!"
Mas gemo de delícia e de desvelos
Em ais em que a dor mesma não há,

Que esta ficou longe, nem me lembro,
Apenas que era à tarde e era Setembro
E tivemos tão puxados os cabelos...

28/09/2006


Arremedo (Alma Welt)
806

Nossa vida se constrói à revelia
Dos sonhos todavia os refletindo,
Nosso ser sendo apenas quem seria
Se sendo assim não estivesse rindo

De nós, enganados de nós mesmos
Pelo arremedo de ser que nos habita
Pois ao vestir o ser então nos vemos
Na casca de Bernardo, o Eremita...

Assim a verdadeira história nossa
É aquela dos sonhos e quereres
Que ficaram na caixa dos haveres

Que destampada um dia qual pandora
Nos cobrarão no meio de uma coça,
Surra santa que já sinto desde agora...

(sem data)



Angústia (de Alma Welt)
805

Angústia entrecorta o fio da vida,
Suspende a narrativa qual soluço
Vindo das profundezas da descida
Que a alma realiza no seu curso...

Sim, porque não sobe, não ascende,
Como nos ensina algum prelado
Que consolo deve a quem atende
Em troca de cobranças de pecado.

Angústia nos ata e as asas corta
Para fazer descer ao fundo plano
Onde a verdade é puro desengano.

No fim do corredor subterrâneo
Angústia aponta a derradeira porta
Que sela a nossa cripta do crânio...

(sem data)


Pequena memória doméstica (de Alma Welt)
804

Um dia, bem me lembro, era guria
E andava no Jardim do Paraíso
Que ainda me cercava e acolhia
Como um pomar sagrado sem Juízo.

Então apareceu meu irmãozinho,
E era belo como poucos o guri,
Instando-me a erguer só um pouquinho
A minha longa saia de organdi...

E logo, logo, estávamos nuzinhos
Deitados debaixo da figueira,
Ou era a macieira, se me engano,

E eis que a Mutti vem qual minuano
Gritando que nós éramos daninhos,
Que ali eu estragara a terra inteira...

(sem data)

Raízes e metáforas (de Alma Welt)
803

Estar em sintonia com a Vida
Que pulsa ao meu redor na natureza
É algo necessário, com certeza,
Pra que poeta seja e logo lida.

Pois se sonhos cultivasse longe disso
Querer seria lançar ecos e raízes
No passar do vento e o rebuliço
De meus pequenos erros e deslizes...

Mas sentir meus pés no mesmo chão
Que acolheu aquela Anita como filha,*
Após subir a bordo de um lanchão,*

Não cânfora de um Vate lá de fora,*
Mas consagrando o mar desta coxilha,
Antes pura metáfora na aurora...

26/04/2006

Notas

* ...aquela Anita como filha- Anita Garibaldi era catarinense, de Laguna, mas com a sua saga junto a Giuseppe Garibaldi na Guerra dos Farrapos, foi acolhida como heroína riograndense, tornando se gaúcha para o povo do Rio Grande.

*Após subir a bordo de um lanchão- Giuseppe Garibaldi conheceu Anita em Laguna, e fê-la subir a bordo do seu lanchão. Eles se apaixonaram, ela deixando então seu marido bêbado para seguir o aventureiro italiano, o que lhe custou desprezo e detrações durante muito tempo. Ele chegara a Laguna já com a fama de herói pela épica travessia de dois lanchões pela coxilha, sobre rodas, puxados por 100juntas de bois por 80km até a lagoa de Tramandaí.

*...de um Vate lá de fora... metáfora na aurora. - ~Paráfrase alusiva ao belíssimo verso de Fernando Pessoa, no poema O Opiário; " Minha vida, cânfora na aurora" (que significa a volatilidade da vida, efêmera quando sem sentido ou ideal).
(Lucia Welt)


A Druidisa (de Alma Welt)
802

Sacralizar a vida, redundância,
Que sagrada é e por princípio,
Reitero-o no âmbito da estância
Desde cândida guria neste sítio,*

Aos oito vinda daquele novo burgo *
Que já fora belo e mais germânico,
Quando o Vati, como bardo, demiurgo*
Pra cá nos trasladou sem nenhum pânico.

Fui infanta, sou princesa e druidisa
Só não colhendo o visgo dos carvalhos,
Que aqui são do umbu os grandes galhos...

Mas a herança dos mortos permanece
Na coxilha que a guerra não esquece
Seus farrapos ondulando pela brisa...*


Notas...neste sítio- Com "sítio", aqui, Alma quer dizer simplesmente "lugar.

...novo burgo- Alma se refere a Novo Hamburgo, a cujo caminho nasceu na estrada e onde viveu até os oito anos. A cidade às vezes é chamada de Hamburgo Velho em referência ao seu passado de colônia alemã.

* ...o Vati como bardo, demiurgo...- "bardo", esta rica palavra que quando escrita com maiúscula se refere aos poetas celtas antigos, como aqui está escrita com minúscula está se referindo a uma espécie de curral mutável, onde ficam de noite as ovelhas para estercar a terra. Alma que dizer que o Vati (papai, em alemão, pr. Fáti) como um demiurgo (um deus criador) nos trasladou para a estância como um pequeno curral mutável, de ovelhas.


...druidisa - Os druidas e as druidisas, sacerdotes e sacerdotisas dos celtas , colhiam com a foice de ouro o visgo dos ramos dos carvalhos para fazer uma poção mágica que lhes dava força e longevidade.

*Seus farrapos ondulando pela brisa...- Alma se refere às lembranças da Guerra dos Farrapos.
(Lucia Welt)


Restos do Baile (de Alma Welt)
801

Que faremos nós de nossa vida
Com os restos do baile já no chão,
O amor tendo feito a despedida,
Despido o figurino de ilusão?

Sentaremos todos na varanda
A olhar o poente nosso eterno
Mestre de toda vida que desanda
Como verdes folhas ante o inverno...

Mas se algo nos resta de esperança
Foi porque o amor deitou semente,
Que Amor, como a vida, não se cansa

E volta, e volta sempre, mais e mais,
Para nos deixar claro e presente:
Nem na morte esse contrato se desfaz...

(sem data)

Oração ao Negrinho (de Alma Welt)
800

Ó nume, meu negrinho diligente,
Orando e trabalhando nas estrelas
Por mim neste plano, e indulgente
Co’as falhas, que me vês a cometê-las,

Quando não bizarrias ou loucuras
Por pura ardência de paixão
Pela vida e o amor, e as sinecuras
De ser a filha amada do patrão...

Não me deixe desgarrar teu pastoreio
Por mais que solitária tenho sido
De amar o meu amor tão proibido

E cantá-lo para o mundo e este pampa
Que já não ousa considerá-lo feio
Ao ver tão bela Arca já sem tampa...

(sem data)


Meu leito de sonetos (de Alma Welt)
799

Meus sonhos e sonetos sou eu mesma,
E assim estou inteira em cada um.
Se Carnaval só fossem, não quaresma,
Seriam face, não o todo, e já comum.

Se neles vibro e canto, também choro,
Me desintegro e íntegra prossigo;
Sou cristalina água, mas, sem cloro
Podeis, sim, beber dela sem perigo.

Se canto o meu Pampa, sei com isso
Estar a cantar tudo, o mundo todo,
Que louvação faz parte do serviço...

Para voltar à Natura em boa paz
Para que o solo não me seja puro lodo
Mas leito dado pelo Grande Capataz...

(sem data)


Manhãs de minha estância (de Alma Welt)
798

Tão belas manhãs de minha estância!
Estão dentro de mim, por isso belas,
Porque nunca lhes falta substância,
Que eu sempre sentiria falta delas

No exílio, em terras de além mar
Ou mesmo somente um pouco ao norte
Onde cessam as carícias ao olhar
Que se torna avaro ou sofre um corte

E não pode voar a extremos pagos
Como o pingo em disparada na coxilha
Ou os gestos do peão em grandes rasgos

De orgulho, entusiasmo e afeição
Enquanto em trote bravateia pela trilha
A me escoltar de volta ao casarão...

06/04/2006


Vida, nosso sonho (de Alma Welt)
797

Matilde me questiona desde a infância
Por quê a “guria” escrever tanto requer,
Se nada acontece aqui na estância
Que mereça pena e tinta ou mal-me-quer.

Se aqui não há mais boi, não há boiada
Que me preocupe ou faça-me esperar
Por uma rês que seja, desgarrada,
Ou mais peão que por mim queira duelar.

Reflito que a isso não me oponho,
Foi pensado, não precisa acontecer,
O mundo é seu eterno vir a ser...

Que Arte não é espera nem procura,
É sermos nesta vida nosso sonho,
O resto é só silêncio e desventura.

(sem data)


Voto de Minerva (de Alma Welt)
796

Perdida de amor me vi tão cedo
Mas não perdi o tempo nesta vida;
Encantada vivo em meu enredo
Penélope de mim entretecida,

À minha própria teia devotada
Tecendo minha saga bela e única
Com uns pretendentes de pousada,
Se ando por aí sem minha túnica.

Já que a fama de doida me preserva
Me desdobrei poeta e musa, logo duas,
Pra ganhar meu próprio voto de Minerva,

E afrontar a Afrodite Açoriana:
“No teu túmulo, Mutti, ainda suas
A ver-me dupla assim, nua e insana?”

(sem data)


A Coruja (de Alma Welt)
795

Longe canta a coruja num cupim
E sou a única aqui a dar-lhe crédito
Como se dissesse só pra mim:
“Alma, não figuras neste édito,”

“Mas se queres minhas asas lhe darei,
Que são silenciosas por demais,
Passarás despercebida do meu rei
E quem sabe poderás voltar atrás.”

“ Irás rever teu Vati e a Açoriana,
E ouvirás de novo da avó Frida
A casquinada pouco franciscana,”

“E agradecer ao teu avô Joachim,
Que saudoso da neta tão querida
Esta noite te recomendou a mim...”

14/01/2007

O Cordão (de Alma Welt)
794

Vejam na lombada da colina
O cordão trágico e dançante
Puxado pela silhueta fina
Da Moira descarnada, triunfante!

Dancem, ó dancem, infelizes!
Talvez façam a alegria retornar
No último instante nuns deslizes
Da megera que está a lhes puxar.

Já a onça bebeu água no riacho,
A porca o seu rabicó torceu,
A hora já chegou, fatal, eu acho.

Então dancem, que aí logo estarei,
Mas num solo (foi o que me prometeu)
Nesse palco da coxilha do meu rei...

(sem data)


Vigília espectral (de Alma Welt)
793

No silêncio crepitante da candeia
Recebo estancieiros de outra era,
Que comigo vêm plantar à meia
Sua seara de sonhos e de espera.

E eu os acolho em minha vigília,
Cavalhada espectral e exangue
A formar imensa teia na coxilha,
Penélope de mágoas e de sangue.

Quem espera essa tropa de farrapos,
Contrastando com os tais engalanados
Neste plaino abandonado pelos sapos?

Don Sebastião não seja, mas o Bento,
Canabarro e Netto, ambos montados,
Anita e Pepe no turbilhão do vento...

08/07/2004

Notas
*Dom Sebastião não seja, mas o Bento- esse verso alude ao rei de Portugal, Dom Sebastião, o Venturoso, chamado depois de seu desaparecimento na batalha de Alcácer-Quibir, "O Esperado", ocasionando desde então um movimento místico-político denominado Sebastianismo, que se estendeu até os sertões do Nordeste do Brasil e também ao Pampa, até o fim do século XIX.
Há quem diga que há resquícios desse mito até hoje em certas regiões do Brasil e de Portugal, em que o povo espera a volta de Dom Sebastião para uma espécie de redenção geral e volta da monarquia.
Este verso da Alma sugere que o povo gaúcho pampeano espera a volta do seu grande comandante farroupilha Bento Gonçalves.

* Canabarro e Netto- os dois outros mais importantes generais dos Farrapos

* Anita e Peppe no turbilhão do vento - Este verso extremamente rico, alude ao fato de que Giuseppe Garibaldi, aqui alcunhado Peppe, e Anita, não eram cavaleiros, mas marinheiros, portanto levados pelo vento. Mas, sobretudo evoca o turbilhão eterno que arrastava os também amantes clandestinos Paolo e Francesca da Rimini,abraçados, eternamente sem pouso, no segundo círculo do Inferno da Divina Comédia de Dante Alighieri.
(Lucia Welt)

Divagação (de Alma Welt)
792

Por vezes me sinto envergonhada
De divagar assim mais do que a média,
E ter tantos privilégios, e por nada,
Mormente ao ver tanta tragédia

No mundo lá fora, ou mesmo aqui
Neste pampa que não é uma redoma
Mas cenário de guerras num bioma
Onde viveu outrora o guarani

Que sofreu carregando tanta pedra
Em nome de um Deus de muito longe,
Um tanto parecido com um monge,

Mas que nos comovia o coração
Pela extrema brandura do sermão
Do grão que cai na terra, morre e medra...

(sem data)


Não foste ao pomar (de Alma Welt)
791

Não foste ao pomar, o combinado,
Em vez disso aproveitaste pra fugir,
No teu belo Aston Martin turbinado
Que estava preparado pra partir...

Em tua mala, sem a resma de papel,
Levas os teus ternos e o baralho
Com que treinas no quarto de um hotel,
Pois sei que com meu grude te atrapalho...

Embora isso me cause ainda mais sede
Resto a imaginar-te, mesmo assim,
Como deitas com as Marias-panoverde,

Em que copas dedilhas essas damas,
Ai! Sinos de cassinos, em que camas,
A baixar seus corações, em vez de mim...

(sem data)


Acalanto para mim (de Alma Welt)
790

É duro viver tão consciente
Quando se tem o sonho como meta,
E não sonho de algo, mas presente,
Sua alma a apostar nele, completa.

Infanta, escolhi o mundo mágico
Que há como uma face deste mundo
Que, juro, não direi que é profundo,
Rima fácil para tanto senso trágico.

E é isso que me quer puxar pra baixo:
Viver tanto sem deixar de perceber
A Morte em tudo em que me encaixo.

Então, me debatendo rio e canto,
Heróica em resistência por saber
Ser eu meu próprio sonho e acalanto...


08/01/2007

Pequena fábula doméstica (Alma Welt)
789

Prodígio de rancor e desenganos
Mantinha aquele homem num impasse:
A mulher o oprimia há muitos anos
Sem que jamais, covarde, revidasse...

Humilde, paciente e conformado
Parecendo de fato não dar trela
Pois tendo o cigarro já largado
Não deixava de comprar o maço dela.

Uma questão de tempo... ele esperava,
Trazendo-lhe mais maços e pacotes
Não ligando o quanto ela fumava.

Mas de avanço foi-se ele, de passivo,
Depois que lhes morreram os mascotes;
Com asma o papagaio ainda está vivo...

(sem data)

O Arco de Fogo (de Alma Welt)
788

Há quem acredite, minha amiga
Que a vocação do frango é o assado,
Assim como a do homem é o mercado,
A vida uma intrincada e triste intriga.

Não te iludas, e torna a repensar
O presente da vida que te deram
Sem que a ti pudessem consultar,
Se há erro ao fazê-lo ou se esmeram

Teus pais, os deuses ou destino
Pois não sabemos nada e suspeitamos
Que a vida seja mero desatino

De um Deus do acaso ou do jogo,
Um mago do circo que montamos,
Cujo número é o fatal arco de fogo...

(sem data)


Érato e Mercúrio (de Alma Welt)
787

Para escrever o meu soneto
Não faço algum preparo ou ritual,
Que esses só faço se prometo
Aos deuses um estado mais geral.

De espírito elevado já me vejo
Invocando a grande Musa antiga
Que odeia o atacado e o varejo
E só trata de soneto e de cantiga.

Nunca pois do comércio aquele deus
Que dos bandidos também é padroeiro,
Mercúrio que foi “boy” do próprio Zeus

E hoje chama o ouro no cascalho
Envenena o rio e o ribeiro
E agora é o deus do rebotalho...

(sem data)


A Outra (de Alma Welt)
786

Andando na campina nesta tarde
Encontrei-me de repente com a Alma.
Isso mesmo, a outra, a que mais arde
E sai porque não agüenta tanta calma,

E mirando com olhar que faiscava,
Gritou: “Porque me prendes, ó tirana,
Mormente em teu marasmo de mascava?!
Quero doce de outra vida e não da cana

Desse teu aconchego acomodado
Que me faz envergonhada de teu medo
De jogar-te, o que mesma fiz tão cedo

Nos braços da volúpia e da paixão,
Sim, debaixo do pomo abençoado
Pelo abraço tão nu de nosso irmão...”

(sem data)

Epitáfio no espelho (de Alma Welt)
785

Contar minhas fraquezas sem que torça,
Mesmo com alguns traços perversos,
E assim transfigurar-me em minha força,
Que fica então plasmada nos meus versos,

Que é ser vulnerável enquanto humana,
Tanto que sangrar é o meu mérito
Já que o fiz não só por minha "xana"
Mas diante deste mundo de pretérito...

E chorarão comigo o que não pude
Aqueles que me virem muito após,
Pois que não conheci decrepitude,

E se fui frágil, serei bela eternamente,
Rosto puro que não quis cremes e pós
Pra olhar-me no espelho que é a mente...

14/01/2007


Alma Nua (de Alma Welt)
784

Passear pela coxilha minha nudez
É ponto de honra além de gozo,
Pois assim honro a beleza que Deus fez
Ao dar-me este corpo glorioso...

Se não gostas do belo, não me tolha
E deixa que eu passe sem barrar-me,
Pois caminho entre o espírito e a carne
E apraz-me que um belo olhar me colha...

Vê, irei banhar-me como outrora
No poço da cascata com meu mano
Que nunca permitiu meu desengano,

Ou disse: “Corre, Alma, que estão vindo,
Veste-te logo e vamo-nos embora!”
Que ele mesmo era nu e tão bemvindo...

(sem data)



A Recriação de Lilith (de Alma Welt)
783

Consta que um mago da Judéia,
Que era um alquimista disfarçado,
Conseguiu recriar ante a platéia
O Ser Primeiro, belo e rejeitado,

A primordial mulher do pobre Adão,
Lilith, que por ter sopro divino
Entrava com o macho em colisão,
Mas já com a sedução do feminino.

E Adão que já era um bom covarde
Queixou-se ao Senhor, de sua consorte,
Que afinal o acudiu um pouco tarde

Pois o homem ainda tenta recriá-la
Pois seu fascínio Eva não iguala
Mesmo que seja Vida, e ela... a Morte.


(sem data)


Confusão (de Alma Welt)
782

De muito longe no tempo vem minh’alma,
Assim como as mais puras dentre vós
Que recordamos a raiz do nosso trauma
Co’a confusão lingüística da voz...

Mas Deus alternativa oferecia
Além do aprendizado desses códigos:
O dom maior da Música e Poesia
E da boa acolhida aos filhos pródigos.

Desculpai-me a confusão, por minha vez,
Que muitos acham só insensatez
Eu assim misturar temas e conceitos.

Mas creio estar tudo interligado,
E o Retorno ao Paraíso, programado,
A charrua abandonando e nossos eitos.

(sem data)


De rebanhos, solitários e espelhos (de Alma Welt)
781

Não há mais rebanhos nesta estância.
Melhor, já que com eles não perfilo...
E os solitários, que são o meu estilo,
Têm o meu amor... mas à distância,

Que não invado o campo do sozinho
E respeito-lhe a sagrada solidão,
Pois que escolhi este caminho,
Já que, ao sonho, votados todos são...

Mas quão diverso é o sonho solitário
Que paira acima da humana multidão
E a olha como humano desvario!

E pra poder falar de um só homem
Em meu espelho os vejo como são
Antes que meu próprio espelho tomem...


14/08/2005



Memória imaginada (de Alma Welt)
780

Posso bem imaginar-me já sem vida,
Chorada pelos meus e alguns peões,
Rodo em sua dor já garantida,
E Matilde, minha bá, aos borbotões,

Ela, que talvez arme um escândalo
Com sua exuberância em prantear;
Lucia com o incenso seu de sândalo
E o Galdério, com o olho a marejar,

De novo prestes no colo a me pegar,
Murmurando ao me colocar na mesa:
“Hoje temos leitoinha pro jantar”,

Ao ver-me lá, assim, ainda mais branca,
Qual o manjar da Mutti, a sobremesa,
Dela o único que lembro, pra ser franca...

09/01/2007


O morto (de Alma Welt)
779

O amado ente que privamos
Deixa tanto de si dentro de nós,
Que o levamos pelos dias, pelos anos
Que nos couberem muito após

Ter deixado o corpo vulnerável
Cheio de nobreza mas sem cores,
Despojado já então do dispensável
Triste fardo de misérias e de dores...

Mas se em matéria o recordemos,
Perpetua-se o corpo venerando,
Não cuspimos no prato que comemos

E o revemos num álbum de memória,
Os traços e a beleza conservando
Como quando começou a nossa estória...

(sem data)


A morte do Maestro (de Alma Welt)
778

O corpo mantinha a majestade
Também na alva barba e no cabelo,
E mais um traço forte de vontade
Que ainda nos lábios pude vê-lo,

Esse dom de comando generoso
Que fazia-nos chamá-lo de Maestro,
Ele, a quem saber é que era o gozo
E na arte de viver era o mais destro...

Mas eu, guria que reconheci seu colo
Que fora terno, aberto e acessível
E que pra mim era prumo, meta e pólo

Não poderei viver se assim deixá-lo,
Que nem seria justo ou permissível,
Enquanto na memória ainda o calo...

(sem data)


Teseu perdido (de Alma Welt)
777

As coisas se rebelam, tudo treme,
Está perdido o fio do labirinto;
Já não há quem o barco nosso reme,
Nossa nave em névoa de absinto...

Nosso fuso apresenta seu ananque
E tudo é fútil e vã necessidade;
Não há quem da inércia nos arranque
E vagamos à deriva em vacuidade.

Barco bêbado, perdido de seu rumo
Já sem fé vacila o coração
Nosso mastro mestre perde o prumo

E adernamos com risco de emborcar
Pois o naufrágio é nossa vocação
E a vela negra esquecemos de trocar...


09/01/2007

Amor, sonhos e rimas (de Alma Welt)
776

Entre a casa e a infinita pradaria
Que vejo ao acordar espreguiçando,
Há um trecho do jardim de fantasia
Que me viu guria e... já amando,

Fugindo de meu leito altas horas,
A rodopiar assim, braços abertos
A esperar o mano em suas demoras,
Que sempre o esperei, ambos despertos,

Ele já tão ligado em outro mundo
Nas loucas aventuras de guri,
E eu só a pensar no amor profundo

Mas buscando outras rimas mesmo aqui
Por ser filha deste chão, solo fecundo
Para o sonho que de mim mesma vivi...

(sem data)


De volta ao Pomar (de Alma Welt)
775

Quando meu pingo galopa na coxilha,
Em seu lombo a fugir também me vejo
A afastar-me do futuro pela trilha
Que me leva à raiz do meu desejo

De mais e mais viver, insaciável,
Pois que perdida a chave da inocência,
A vida foi pra mim reincidência
Num doce pecado inexplicável...

Por quê, por quê haveria maldição
Vinda de quem tão bem me quer
Que me fez bela poeta e tão mulher?

Mas meu destino breve, que bem sei,
Me faz correr assim na contramão
De volta ao pomar em que pequei...

(sem data)


Encontro com a Moira (de Alma Welt)
774

Estar em sintonia com a beleza
E ao ritmo fluindo de um adágio
Escolhido como som da Natureza,
Longe de conflito e de presságio,

Era só o que eu queria e esperava
Antes de encontrar-me com a Moira,
Surgida como dama fria e loira
Quando eu nestes prados passeava,

Que ao fitar-me quase me abismou
Enquanto me dizia em voz soturna:
“Alma cara, o seu tempo se esgotou...”

“Se tanto te esperei, não desesperes
Que não serei pra ti sombra noturna
Mas abraço de irmã, se assim preferes...”

17/01/2007

Cartas na varanda (de Alma Welt)
773

Toda noite esperei nesta varanda
Aquele que o meu coração oprime
Co’a ausência, ah! onde ele anda,
Aquele por quem já não sou sublime

E choro e me comporto como tonta
Ou como a triste dama da janela
Aquela tal que só vê a vida bela
Passar como égua que não monta?

Vê, já não mais sou poeta lírica
E longe vão imagens mais sublimes
Sem esta agora veia mais satírica.

E solitária boto cartas na varanda
Pelo pôquer com que amando te redimes
Enquanto a minha mão ou fé desanda...

(sem data)


Do sol, velas e estrelas (de Alma Welt)
772

Meu pai, votado ao culto da beleza,
Iniciou-me cedo nos Mistérios,
Ao piano ou ali à sua mesa,
E ao poente, momentos mais etéreos...

Diante daquelas rubras despedidas
E depois, já saudando o arrebol,
Um pacto então era em nossas vidas,
Nosso sol, constante e único farol.

Sim, porque se assim a luz cultuas
Mesmo que mais distante, nas estrelas,
Não poderás fazer o mal enquanto atuas

Nesta vida que a ti cabe iluminar
Com velas que o próprio sol, ao vê-las,
Como filhas as reconhece e vem saudar...

(sem data)


Eu, versos e estrelas (de Alma Welt)
771

Ser eu mesma, elaborada construção
Que empreendi após meus treze anos,
Quando vi a Açoriana em seu caixão
E olhei ao pé da cova meus arcanos:

Eu haveria de ser meu próprio tema,
Não houvera eu sofrido à toa
Por falta inexistente ou tão pequena
Que ao abraço da Natura mal destoa...

E cresceria mesmo à força de cantar
E amar, amar, amar e mais amar,
Que é só o que cabe ao frágil ser

Que quer se alçar ao teto do universo
Mas cuja alma é um pavio quase a tremer
Entre estrelas semeadas como verso...

(sem data)


Radares (de Alma Welt)
770

Voltei a deitar na pedra chata,
Nua como quando era guria
Neste mesmo poço da cascata
Que tanto me serviu de alegoria.

Mas algo está mudado, eu o sinto,
Como se do bosque venha olhares
E uma vaga ameaça que pressinto
Na pele e nos meus pelos, meus radares.

Lembro que Matilde advertia...
E a Mutti com a vara de marmelo
Não podia mudar o que eu sentia:

Esta forte atração primordial
Do meu ser corporal que assim desvelo,
Por beleza que me sei, talvez fatal...

11/01/2007

Nota
Acabo de descobrir este soneto, doloroso para mim por denotar o pressentimento do perigo que haveria de vitimar minha irmã dez dias depois...
Para que os leitores recentes entendam, republico aqui um soneto mais antigo em que a Alma fala dessa "pedra chata" do seu "poço da cascata", que lhe serviu de "alegoria", como estas:




Ainda o Poeta (de Alma Welt)
769

Observo as crianças nos seus jogos,
Lindas, a correr pelo jardim,
A brincar como o poeta com o Logos,
Qual se fora correto e sábio fim.

Tudo é infantil, e o esquecemos...
Levamo-nos a sério, a ferro e fogo,
Nos esfalfamos tanto e queremos
Com esforços ou só com prece e rogo.

Mas ao poeta cabe ser só o vigia
No farol, desarmado sentinela,
Ou curioso que tão somente espia.

E se tiver que tomar parte na loucura
Que seja para pôr mel e canela
Nesse confuso caldo de amargura...

(sem data)


Resumo (de Alma Welt)
768

Houveram dias de rosas e de vinhos
Como os do amargo chimarrão
Nesta estância amiga dos vizinhos
Que nos retribuíam afeição...

De repente começou a cupidez
Do olhar que já não mirava os meus
E percorria meu corpo e minha tez
Com lampejos e acentos mais ateus.

Não me queria frágil como presa...
Então ao perceber-me uma beldade,
A Poesia aliei à minha fraqueza.

E me dei conta do perdido Paraíso,
Que há muito já perdera, na verdade,
Sob a árvore de tão pouco juízo...

(sem data)



A Morte da Açoriana (de Alma Welt)
767

Guria vi o Outro em sua morte
Quando veio buscar a Açoriana,
Que não era indiferente à minha sorte,
Que tanto deplorou a minha chama...

Tão bela que estava em seu caixão
A produzir em mim terrível choque
Percebendo a suspensa animação,
Sua síntese a mudar o meu enfoque...

Bela face, belo corpo, bah! tão linda,
E no entanto já não estava ali!
Aquilo era onde o ser se finda

E não havia ser, não havia nada,
Só boneca de cera e de organdi
A transmutar a vida e minha mirada...

12/01/2007


Do amor vivido, ou A vida em uma hora (de Alma Welt)
766

Não perdi meu sono por amor,
Que este me faz querer sonhar...
Remorsos não me causam, nem pudor,
A falta de que querem me acusar.

Sinto muito, meus senhores, nada sinto
Quanto ao que causa tais furores;
Amar foi minha escolha e o absinto
Que me leva a mais e mais amores.

Se estou louca? Suspeito que... talvez.
Mas meu delírio é feito de poesia
Que é missão, labor e fantasia,

Tudo ao mesmo tempo, que é agora,
Como reza o mote que se fez
Para quem, uma vida... é uma hora.

(sem data)


Visões (de Alma Welt)
765

Sonhei minha vida e minha morte
E sei detalhes que nem posso explicar,
Que levantam questões de toda sorte
Como aquela expulsão do meu pomar...

Mas meu corpo nu sobre uma mesa
E a marca vermelha no pescoço...
Posso mesmo ver isso com clareza
Antes que comece um alvoroço:

Ouço um denso silêncio meio tenso
No velório que é meu e inusitado
(mulheres de chapéu preso com lenço)*

Que a Matilde furiosa romperia
Atirando alva toalha de bordado:
"Seus ímpios, cubram já a minha guria!”


14/01/2007

Nota
Estarrecida, descobri agora a pouco este soneto inédito na Arca de minha irmã, e que atesta a sua espantosa vidência, o sexto sentido que a acompanhou a vida toda, e que, imagino, duplicava o seu sofrimento nesta vida... Como pôde ela ver o que exatamente se passaria no seu espantoso velório?

*...(mulheres com chapéu preso com lenço)- As trabalhadoras da vinha, camponesas que trabalham sob o sol com chapéus de palha presos com um lenço debaixo do queixo, por causa do vento da coxilha. Elas e suas filhas é que encheram a grande sala do nosso casarão no velório da Alma, colocada nua como seu corpo foi resgatado da águas por Rodo e carregada nos braços por Galdério por um longo trecho de campina até ser colocada sobre a mesa e começar a inusitada visitação sem que ninguém ousasse cobri-la, até a Matilde, furiosa, irromper jogando uma toalha de renda sobre o alvíssimo corpo deslumbrante, gritando aquilo que Alma ouviu na sua visão. (Lucia Welt)

A propósito, republico aqui um soneto (relacionado a esse episódio) que descobri e publiquei aqui em 22 de julho de 2008, que explica o porquê de Alma ter sido colocada (nua!) sobre a mesa da nossa sala de jantar:


A leitoinha (de Alma Welt)

Galdério, prepara a tua charrete
Que hoje não quero cavalgar!
Leva-me como quando eu tinha sete
E dormia no teu colo ao regressar

E me tomavas nos braços com candor
Ao salão me transportando sem eu ver,
Me punhas sobre a mesa por humor,
Dizendo: “Hoje leitoinha vamos ter!”

E eu já despertada mas fingindo
Não resistia e gargalhava afinal
Sem ousar abrir os olhos, sensual,

Pois sentia o teu olhar tão inocente
Percorrer meu pequeno corpo lindo
Que queria ser tomado docemente...

09/07/2006

___________________________

Fiquei estarrecida ao descobrir hoje este soneto na arca da Alma. Senti-me primeiramente perplexa, depois chorei muito.
Ficou claro para mim, de repente, o gesto insólito, aparentemente incompreensível de Galdério ao pegar o corpo nu da Alma, quando de sua morte afogada no poço da cascata, e vir com ele nos braços como um sonâmbulo para depositá-la sobre a mesa do salão onde começou o seu espantoso velório nu, até ser interrompido pela irupção indignada de Matilde cobrindo-a com uma toalha de mesa, como um sudário.
Vide o blog "Vida e Obra de Alma Welt":(www.almawelt.blogspot.com) onde publiquei, já há tempos, a carta que escrevi na ocasião fatídica, narrando as circunstâncias da morte e do velório de minha amada irmã. (Lucia Welt)


Auto-críticas (de Alma Welt)
764

Algo me diz* que sou filha dos setenta
Dos quais vivo a vã virada de valores,
E que isso é que meu verso sustenta
Já que trai pouca luta e muitas dores;

Ou que sou meio louca ou bipolar
E que isso traduz um certo pathos
Que dá um interesse ao primo olhar
De quem ama delírios e não fatos;

Que nada me ocorreu em tenra idade
E tudo se passou em minha mente
(o que, confesso, talvez seja verdade)

Mas, vejam: minha alma é o meu gozo,
Rebelde como outrora minha gente
Neste pampa de passado poderoso...

(sem data)


Nota
*Algo me diz - Alma ensaia uma curiosa autocrítica já que ninguém jamais ousou fazê-lo em sua vida, ou até hoje, tal o poder e segurança de seu estro, e de seu olhar claro sobre tudo o que pousava ou lhe interessava, e que era o Mundo e sua alma. Ela tinha tanta consciência da força natural de seu Mistério, que se permitia oferecer chaves aos seus leitores... ( Lucia Welt)


Entre o mate e o verso (de Alma Welt)
763

Sonetar pra mim tornou-se hábito,
Conto sílabas e rimo a caminhar
Pela coxilha ao largo de onde habito
Ou sobre a relva escura do pomar.

Eis que diante da minha macieira
O soneto tende a um velho rito
E alguma falsa rima de estradeira
Desvanece e dá lugar ao Mito...

Mas onde o verso meu mesmo transcende
Longe do altar dos velhos deuses
É junto ao fogo que o gaúcho acende

Na vigília bravateira do meu mate
Co’as Marias, as Três e seus adeuses,
Sob o olhar do grande, eterno Vate...

(sem data)

Nota
Acabo de descobrir este gracioso soneto, muito revelador da alma gaúcha sob o estro e cultura universal da grande Poetisa. Seu amor à nossa cultura e hábitos ficam evidentes em sonetos assim... (Lucia Welt)


Reflexão (de Alma Welt)
762

Quão dúbia é a nossa humanidade,
Mormente no que tange à alegria
Que tanto almeja a eternidade *
Quanto dessa rota nos desvia!

Perdida nos meandros do nadir,
Às voltas com um rol de ninharia,
Em nome de hipotético porvir
Como se fim e morte não havia...

O passado, rico em seu resíduo,
E a memória, sua vocação eterna,
São o lastro-ouro do indivíduo,

Mas só a Poesia ainda elucida
O teatro de sombras da caverna *
Cujo elenco tememos na saída...

(sem data)

Notas

*...à Alegria que tanto almeja a eternidade - Alusão à "Canção de Zaratustra", de Nietszche:
"A dor diz: passa e acaba,
Mas toda alegria quer eternidade,
a profunda eternidade..."

*O teatro de sombras na caverna - Alma faz alusão ao famoso Mito da Caverna, de Platão.
___________________


O Anátema (de Alma Welt)
761

Por vezes me sinto esvaziada
Como se todo acervo de memória,
E mesmo a trajetória efetuada
Abandonada fosse ao fim da estória.

Uma simples guria desnudada,
Frágil, branca, nua em plena praça,
Como se fora a poetisa venerada
Uma centelha efêmera de graça...

Talvez só um pudor imenso sobre
Que ruborize minha face camponesa
E traia minha origem pouco nobre.

E então, num lapso de horror,
Cubro a rosa da vagina na surpresa
Daquele antigo anátema de dor...

26/ 09/2006

Nota
Acabo de descobrir na Arca da Alma esta maravilha inédita, em que Alma mais uma vez, de maneira pungente, ao falar de si, fala universalmente por toda a condição feminina.

*Daquele antigo anátema de dor- Alma se refere às palavras de Deus (no Gênesis ) ao espulsar Adão e Eva do Jardim do Éden (o paraíso terrestre) : " Parirás em dor, ganharás o pão com o suor do teu rosto"...

(Lucia Welt)


Elogio do Desespero (de Alma Welt)
760


Quando um homem perde a sua fé
Porque provavelmente nunca a teve,
O que ocorre em casa ou num Café,
Ou se ao cruzar a rua se deteve

Para ser atropelado com seguro,
Ele trai sua esperança em rebeldia
Almejando espiar de trás do muro
Aquela a quem amou um certo dia...

Que louca e extrema a sua bravata
Erguendo a mão crispada para Deus,
A outra a afrouxar a sua gravata!

Ou, pelo contrário, o laço pondo
De pé num banquinho, sem adeus,
O gerente do Banco descompondo...

(sem data)


Nota
Acabo de descobrir na Arca da Alma este insólito soneto. Creio que é um exercício de humor negro da grande Poetisa, que sempre revelou sua veia humorística, embora com uma ironia mais leve... Mas também acredito que ele revela muito da oculta fé que minha irmã tinha em Deus, apesar de ser uma Alma tão complexa e talvez atormentada... (Lucia Welt)


Pound (de Alma Welt)
759

Houve grande poeta equivocado
Que apesar de investir contra a Usura
(e por isso merece ser louvado),
Ficou do lado errado da loucura.

Escolheu um condottiere deslocado
Que o mundo intrigava e dividia;
Tardio, falso, dúbio e então amado,
Um doido duce a cabeça lhe fazia...

Mas ao chegar ao fim da trapalhada,
E ao fechar seus cantos eruditos,
Diante dos campos mudou sua mirada*

E ouvindo ao longe o som de um realejo
Murmurou após reler seus manuscritos:
“Não era bem assim, agora vejo...”

(sem data)

Nota
*Diante dos campos mudou sua mirada - o verso faz alusão aos irmãos Campos, os poetas Augusto e Haroldo que visitaram o poeta americano Ezra Pound, autor dos "Cantos", já muito velho, em Rapallo, retornado à Itália depois que foi libertado do hospício onde foi colocado como alternativa à sentença de morte por alta traição ao seu país por ter colaborado com Mussollini, por quem nutria grande admiração durante toda sua ascenção e mesmo durante a guerra, num programa literário que fazia numa rádio na Itália, onde vivia. Augusto de Campos contou num livro o episódio aqui posto em versos pela Alma.

*Usura- -um dos poemas mais fortes e mais conhecidos dos Cantos de Ezra Pound, contra a usura. e portanto, o capitalismo. Provavelmente o poeta de boa fé acreditava no suposto e apregoado socialismo do "Fascio".
(Lucia Welt)


Alma Frankenstein (de Alma Welt)
758

Que posso eu, vã poeta deste Pampa
Fazer em relação ao triste Mundo,
Que é o lado sombrio que destampa
A caixa de Pandora que é, no fundo?

O Olimpo éramos nós, ou Paraíso,
Num tempo que perdemos por maldade;
O abismo que cavamos, mal juízo
Que fizemos de nossa deidade...

Querer mais... da humanidade a maldição,
Fagulha a nós legada por aquele
Prometeu, de quem somos a metade.

Qual Frankenstein, somos filhos da Razão
Que nos deu a solidão, a mesma dele,
Desterrado de toda sociedade...

16/12/2006

Notas
*Prometeu, de quem somos a metade- com este verso a poetisa alude ao fato de que Prometeu, que doou o fogo dos deuses aos homens, sendo um dos Titãs rebelados contra Zeus na batalha que se travou entre estes e os deuses do Olimpo (Titanomaquia), os Titãs dilaceraram e devoraram Dioniso criança (a alma ) e tendo afinal sido vencidos, fulminados por Zeus suas cinzas foram lançadas à Terra. O homem teria pois uma dupla natureza: o corpo físico e a alma divino-dionisíaca, que é Dioniso encerrado no corpo titânico, que terá que cumprir dez ciclos (mil anos ) de reencarnações antes de recuperar as asas para escapar do "cárcere titânico" para voltar ao Empíreo, a morada dos deuses e das almas purificadas, segundo o Orfismo, religião grega relacionada aos Mistérios de Elêusis, surgida no século VII AC, e do qual Pitágoras é o mais célebre adepto, e o grande Platão, no sec IV AC, um reflexo tardio.

* Qual Frankenstein, somos filhos da Razão - Interligando no soneto, Frankenstein a Prometeu, Alma alude ao subtítulo da grande obra de Mary Shelley, Frankenstein, ou o Moderno Prometeu, em que a esposa do poeta Percy Bische Shelley criou um genial mito moderno, o seu monstro do doutor Victor Frankenstein, trágica criatura, tomada pelo ressentimento da rejeição e pela solidão, e que a uma certa altura, perseguido em pleno Ártico exclama: "Há muito tempo abandonei toda humanidade!... ". Alma parece dizer com este soneto, que ela, como ele, carrega esta solidão de desterro de um monstro social: o Poeta. Não esqueçamos as profundas raízes no romantismo alemão que a Poetisa tinha, por sua herança genética e formação, que dotavam sua visão e poesia de uma subjacente tragicidade. Alma tinha uma demasiada presente consciência de solidão e de morte, que afinal a abismou...
(Lucia Welt)

O cometa (de Alma Welt)
757

Meu olhar há muito afeito aos longes
Me permitiu viver em outros planos,
E também avessa como os monges
Ao desalento, raiva e desenganos.

Espero, sim, por muito tempo ainda,
O amado, que se a vista não alcança,
O vejo na lembrança que não finda
Como não se acaba a sua andança

Pelo mundo, em busca de outro sonho
De damas e de amores fictícios
Dos quais, bem sei, sobrem resquícios

Quando volte a mim como um cometa
Porquanto permanência não prometa
Aos meus abraços e olhar então risonho...

04/06/2005


A carta na meia (de Alma Welt)
756

O amor veio a mim ainda guria...
Não me refiro ao amor que todos têm,
Mas à raiz primal de minha Poesia
Embora fonte de escândalo e desdém.

Por aquele que tanto me completa
Eu teria de pagar um alto preço
Como a Eva após nova dieta
Que lhe custou mudança de endereço.

Estou a brincar com a minha dor...
Agora pago eu minha ousadia:
Adão se tornaria um jogador,

E por ele, de quem sou carta na meia,
Desfio eu, qual Penélope tardia,
Em minha alma mesma, a minha teia...

(sem data)


Amor entre os amores (de Alma Welt)
755

Viver em sintonia de beleza
Foi para mim o naipe da Razão,
Pra não tremer ao dar com a tristeza
Se uma carta destoa em minha mão,

Pois Melancolia é minha amiga,
E me dá cartas melhores e poemas,
Me faz ver a minha alma tão antiga
Neste pampa de peleia e fortes temas,

De outros tempos, de sagas e prodígios
Que a rigor não caberiam na memória
Da guria que sou com a pouca história

De alegrias entre a espera e suas dores
Recorrentes, monocórdicos rodízios,
Para viver o Amor entre os amores...

(sem data)


Nota
* ...monocórdicos rodízios- Notem que com essa expressão Alma parece referir-se à sua obsessão por Rodo com um trocadilho: "rodízios", e a repetida espera por ele em suas temporadas de jogo (de pôquer ). Notem também que a palavra monocórdico quer dizer "uma só corda" (ou tom) mas também pode expressar "um só coração" (de cordis, lat. coração).

* Para viver Amor entre os amores- Alma se refere aos seus reencontros com o grande amor de sua vida, entre as temporadas do naipe de copas, os "amores" de Rodo.
(Lucia Welt)


Final do Baile (de Alma Welt)
754

De repente minha máscara caiu...
Levantei-a, desloquei-a para a testa
O baile desvelou-se e decaiu,
Para mim é chegado o fim da festa.

As doze badaladas já me soam,
E minha máscara no topo da cabeça
Mantém sorriso enquanto as horas voam,
Para que a Moira ainda não desça...

Bah! Como fui bela, quão dancei!
Meu riso cristalino agora mudo
Era um guiso que permeava tudo

E os que me mantêm são meros ecos
Dentro de um teatrinho de bonecos
Num Baile de Ilusões que comandei...


16/01/2007

Nota

Infelizmente a máscara no topo da cabeça e os ecos dos risos não lograram enganar mais tempo a terrível Moira. Dentro de quatro dias Alma estaria morta... (Lucia Welt)


Confidência ao coração (de Alma Welt)
753

Há tempos não me sinto mais feliz,
Os truques se acabaram de minh’alma,
Sou mais uma perdida, dou a palma,
E quase fui ao paraíso por um triz...

Lancei mão da Arte e da Poesia,
Amei como uma louca ao meu redor,
Corri atrás do meu belo irmão menor,
E nunca foi por mera estripulia...

Não cultivei o ódio... tive mágoas,
Mas só por não ser bem compreendida,
Que não para rimar passadas águas...

Mas agora ao coração vou confessar:
Que nunca eu soube bem o meu lugar,
E tudo, tudo em mim foi despedida...

10/01/2007

Sombras (de Alma Welt)
752

Já estive aqui em outras Eras
Neste Pampa de bravatas e de glória;
Voltei como voltam primaveras
Malgrado algumas sombras da memória,

De noite a pôr-me o sono perturbado
Com os suspiros e o ranger do casarão,
Bem mais que os concertos do meu prado
Saudados pelos uivos do meu cão.

Todavia quem amou e foi amada
Por um belo corsário de outros mares,
Não teme mais as sombras e os azares...

Só uma delas me confunde e desnorteia:
Grande pedra por um laço arrematada
De um fio que destoa em minha teia...

(sem data)

Nota
Acabo de descobrir este soneto inédito na Arca da Alma, e que é mais um, estarrecedor, das premonições da Alma sobre as circunstâncias de sua morte (vide a carta que escrevi e coloquei na época na página da poetisa naquele malfadado Recanto das Letras (por encontrar a senha salva) e que agora está há anos postada no blog Vida e Obra de Alma Welt:

www.almawelt.blogspot.com

(Lucia Welt)


Nichos e fronteiras (De Alma Welt)
751

Escrever para um leitor imaginário,
Reverente, disponível, apaixonado,
É a ilusão do poeta em seu contrário:
O ser nele socialmente motivado...

Pois o campo do poeta é a solidão,
Espaço de angústias indizíveis,
De um vago vagar na vastidão
Eivada de sombras e desníveis,

Espectros a se esgueirar furtivos
Que fazem sinais pra que os sigamos
Aos nichos profundos do que amamos,

E a uma outra fronteira perigosa
Onde cessa sua poesia e sua prosa,
Limite da razão e dos motivos...

(sem data)


De corações e espadas (de Alma Welt)
750

Somente de ilusões amor prospera
E se torna imenso, engalanado
Como um rito de ânsias e de espera
No porto sobre o rio, embandeirado

Para o retorno triunfal do amado
Que entrará na foz de meus delírios
Depois de tantos mares, tantos rios,
Tantos reinos outros do seu fado...

Bah! Mas é apenas minha varanda!
Tenho por certo sonhos de grandeza
Enquanto o coração louco desanda

E voraz envia apelos e torpedos
Para um guri na nave de brinquedos,
De corações e espadas sobre a mesa...

Nota
Sempre a bela Alma a esperar por seu amado irmão Rodo, que anda longe, pelo mundo, nas mesas de pôquer (copas e espadas sobre a mesa). (Lucia Welt)


A visita da velha senhora (de Alma Welt
749

A vida é um renovado enigma
Que muda a cada novo olhar,
Embora conserve o seu estigma:
A estrangeira, intrusa, a nos rondar,

Essa que tudo torna irrelevante
A menos que tenhamos o desplante
De afrontá-la com humor e ousadia
E mirá-la com olhar que não desvia.

Mas receber a tal Madame Bones
Costuma resultar em dor e assombro
Para todos, quer dormentes ou insones

Pois a sua compleição tão descarnada
E o objeto apoiado no seu ombro
Faz da gringa uma visita indesejada...


A Armadilha ( de Alma Welt)
748

Não sobreviverei à minha poesia
Que veio duplicar minha existência,
Ao renová-la assim, dia por dia
Com a mesma magia e reverência.

Privilégio? Sim. Ou não talvez.
Começo a suspeitar de uma armadilha
Armada pelos deuses da coxilha,
Ingênua que fui, por minha vez,

Que esperando um lugar no panteon,
Me votei ao verso e à solidão,
E nunca aos vãos letreiros de neon.

E agora: angústia, ar rarefeito,
Himalaia de alturas no meu peito,
Nas imensas escaladas de ilusão...

14/01/2007


De puro coração (de Alma Welt)
747

Como eu rodava em baile de galpão!
Eu e Rodo, jovens, tão felizes,
Às vezes cometendo alguns deslizes
Que não devo na frente de peão:

Um beijo daqueles, de querência
Ou um ardente olhar testemunhado
Por bombachas rivais, ali ao lado,
Que nos estranhavam tanta ardência!

E no final uma peleia deslocada,
Pretexto para compensar o espanto
E o desejo pela prenda inalcançada.

E eu, leve, muito solta e... leviana,
A pensar que a vida era um encanto,
Que puro coração jamais se engana...


08/09/2005


Revelando tudo (de Alma Welt)
746

Revelando tudo aos meus leitores
Construo o meu mistério humano,
Pois aquilo que se esconde não tem cores
Pelo menos nesta vida ou neste plano

Como os gatos na noite, todos pardos,
Que são furtivas sombras de delírios
De mente mais afeita aos duros cardos,
E à alvura avessa, como aos lírios...

Não que eu rejeite névoas, meios-tons,
E a sutil mensagem de entrelinhas
Que é prerrogativa de alguns bons...

Mas se foste firme, com inteireza,
Quem ousará cobrar mais do que tinhas
Se desnuda ofereces tua beleza ?

15/07/2006


Fim de verão (de Alma Welt)
745

Como nos amávamos nas noites,
Quando do jogo voltava o meu irmão!
Mas dizia a Matilde: “Não te afoites,
Que não dura nem todo o verão...”

“Logo o verás fazer a mala,
E roncar o motor em sua ânsia
De queimar pneu por essa ala
Que leva à porteira desta estância.”

“E sei que chorarás, tendo abraçado
Suas pernas, qual guria-carrapato,
E, louca, arrancando-lhe o sapato."

“Tanto agarramento até que parta,
Que pra mim já parece desculpado
De querer mais fichas e outra carta...”

(sem data)


Quando a névoa baixa (de Alma Welt)
744

Quando a névoa baixa na coxilha
Como um mar brumoso de memória
E ao longe emerge como ilha
Uma fronde de umbu em sua glória,

Meus passos perseguem uma trilha,
Que sinto palpitar sob meus pés,
De uma outra adotada como filha
Deste Pampa de batalhas e revés,

Aquela catarina de Laguna,
Que vem ser marinheira de italiano
Nestas ondas macias como duna,

Verde ventre de dois seres oriundos:
Eu, exilada de um seio açoriano,
Ela, heroína de dois mundos...


Notas
*Verde Ventre- o pampa ondulado ou uma engenhosa alusão à "barriga verde", como os gaúchos apelidam depreciativamente os irmãos "catarinas " (catarinenses).

*seio açoriano - Alma era filha de uma catarinense
descendente de açorianos, e nasceu na estrada a caminho de Novo Hamburgo onde passou a primeira infância antes de ser transplantada (aos 8 anos) para o Pampa, na estância dos avós alemães que vindos também de Santa Catarina (vale do Itajaí) , plantaram um vinhedo pioneiro em pleno Pampa.

* heroína de dois mundos- Giuseppe Garibaldi, tendo lutado na Itália, no Brasil e depois novamente na Itália, foi chamado "o herói de dois mundos". Anita Garibaldi, catarinense, depois gaúcha adotiva, depois da Guerra dos Farrapos foi com Giuseppe quando este voltou para a Itália e lá lutou ao seu lado pela liberdade, lá morrendo . Então Alma a chama também de "heroína de dois mundos". (Lucia Welt)


A batalha final (de Alma Welt)
743

Andei pelo mundo e apreendi
A ver tudo e o todo na porção,
Saber que já vi o que não vi
E que tinha em mim minha lição.

Cada homem traz a história inteira
De sua casa embora sem saber
Pois certamente não na cumeeira
Mas nos alicerces do seu ser.

Meu pampa de alegria e de desdita!
Aqui eu fui farrapo e vivandeira,
Fui Giuseppe tanto quanto Anita

E segui as secas naus pela coxilha
Projetando a batalha verdadeira
Que me espera ainda ao fim da trilha...

28/09/2006


Confissões de Náufraga (de Alma Welt)
742

As tais confissões reveladoras
Ocorrem-me ao calçar o meu sapato
Ou mesmo atravessando meu regato
Em busca de fontes mais canoras

Do ser, afastada da razão
Que insiste em me comprometer
Com o lado espúrio da questão,
Que é um jeito só de me vender

Como poeta ou artista tarde ou cedo,
E que é da esperança a cantilena
De poder viver sem meu vinhedo

Que afinal se tornou engano ledo
Pois que esta mão afeita à pena
O lançou, e ao lagar, contr’um rochedo.*

15/01/2007

Nota
* Neste terceto, Alma alude ao fato de que nossa estância com o vinhedo está em processo de falência e ela se culpa, pois sendo uma escritora ("... mão afeita à pena)fez naufragar a herança de nossos avós. Certamente ela exagera, pois caberia, creio, ao Rodo cuidar dos negócios, que ele como jogador de poquer negligenciou. Mas talvez nenhum de nós seja culpado... nada pudemos fazer, a decadência já vinha dos tempos do Vati (papai), ele também um artista, mais do que verdadeiro estancieiro... (Lucia Welt)

Sonho pampiano (de Alma Welt)
741

Sonhei tornar-me a Musa do meu Pampa
Desbordando os limites desta estância
E poder dizer sem jactância
Que afinal me tornei a sua estampa

Nas paredes dos peões em suas querências,
Ruiva a contrastar com o meu Negrinho
Do Pastoreio em suas trilhas do caminho
Ou ser uma entre as suas referências:

A estrela que os peões olham na noite,
Entre tantas outras, mas brilhante,
Buscando-me no sonho do pernoite

Na coxilha, mateando ao pé do fogo
Ou nas brasas derradeiras do Levante,
Para então ouvir da sela o novo rogo...

(sem data)

Nota
*Neste esplêndido terceto, há uma ambigüidade entre as brasas da fogueira que ferveu a água da chaleira do mate dos peões acampados na coxilha, e os vermelhos da alvorada, em que as selas dos cavalos pedem ("...rogo") para serem montadas novamente. (Lucia Welt)


O ninho do pássaro de fogo (de Alma Welt)
740

O vento acompanhou meu crescimento
Desde que aqui fui transplantada
Por sorte num perfeito e bom momento
Para neste Pampa ser moldada.

Bá! Como uma potra agradecida
A correr de imediato na coxilha,
A abrir assim os braços para a vida,
E a dar-me ao Minuano como filha.

Não posso, então, queixar-me, nunca pude,
Apesar daquele mítico percalço
A que refiro, comovida e amiúde,

Pois aqui fui arrancada como um ninho*
Do pássaro de fogo que ainda alço
E que persigo como um éden de carinho...

(sem data)

Nota
* Neste terceto a Poetisa usa uma deliciosa metáfora para se referir ao seu sexo, como "um ninho" que foi arrancado ao ardente pênis ("pássaro de fogo") que a ainda a deseja (se alça), de seu irmãozinho Rodo, quando do traumático flagrante produzido por nossa mãe (que arrancou-os com violência um ao outro) ao descobri-los nuzinhos debaixo da macieira do pomar, em sua inocente infância, episódio recorrente na poesia da Alma, e que tem um carácter alegórico universal evidente... (Lucia Welt)


Paradoxo (de Alma Welt)
739

Que mais posso escrever? perguntaria,
Se preciso fosse achar assunto...
Mas aquilo que nascer precisaria
Virá à luz sem aquilo que pergunto

Pois tão imperioso é o poema
Que tantas vezes temo o que virá,
E o suspense que antecede o tema
É prazer, sofrimento e... Deus dará.

Aquilo que surgiu é verdadeiro
Pelo fato de estar no mundo agora
Como filho de alguém que foi embora,

E que é melhor nem saber o paradeiro.
Mas qual a fonte mesma deste verso
Que falhou em refletir meu universo?

(sem data)


Eu estarei aqui depois de tudo
(de Alma Welt
)
738

Eu estarei aqui depois de tudo
Quando voltarem as flores no meu prado,
A macieira a florir no pomar mudo
E o casarão estiver todo arruinado,

Suas paredes recobertas pela hera
E no salão a grande mesa abandonada
Onde um dia quando bem guria eu era
Fui belamente adormecida colocada

Pelo fiel Galdério, também ido
Que com Matilde e seu dever cumprido
Foram prestar contas à patroa

Nossa bela, triste e branca Ana
Que afinal como rainha se coroa
E que já não chamo mais... Açoriana!



12/01/2007


O espectro (de Alma Welt)
737

Em noites frias aqui no casarão
Acontece do meu leito levantar
E enrolada num pala ir ao salão
Para sentir o silêncio crepitar

Na lareira, pois ali sou visitada
Por um mundo de imagens agradáveis
Que me trazem poemas inefáveis
Ou alguma coisa inusitada.

Foi ali que num lance inesquecível
O espectro da Mutti afinal veio,
Que fora tanto tempo inacessível,

E que porfim estendia-me os braços
Dizendo:"Filha, faltaram-nos abraços,
Quisera agora sentir-te no meu seio."

16/01/2007

Nota da editora:

Nossa mãe, Ana Morgado, que chamávamos Mutti, faleceu quando éramos adolescentes(Alma tinha 16 anos) tinha dificuldade de compreender o temperamento artístico da Alma, e havia muita dificuldade de relacionamento entre as duas, uma vez que Alma, apesar de aparentemente meiga era rebelde e tinha o respaldo do nosso pai, o Vati que tomara a sua educação em suas mãos e a criara como uma pequena pagã, em contato com a Arte e com os deuses do Olimpo e do Walhalla. Dir-se-ia que ele fazia uma espécie de experiência com sua filha predileta. Ele disse uma vez que faria da Alma não só uma artista, mas uma obra de arte. Alma teve muitos momentos penosos de conflito, incomprensão e intolerância por parte da Mutti, chegando mesmo a ser algumas vezes açoitada com vara de marmelo. Tudo isso transparece na série dos "Sonetos Pampianos da Alma".
Alma se referia à nossa Mãe com uma espécie distanciamento mítico como "a Açoriana", devido às origens de nossos avós maternos e à rigidez católica da Mutti, que impedia uma maior compreensão entre a duas.
Este soneto me comoveu, pois revelou uma reconciliação, de algum modo, entre elas. (Lucia Welt)


A cantadora (de Alma Welt)
736

Quantas vezes, depois de andar a esmo,
Voltando ao casarão eu me comovo
Ao me sentir assim, poeta mesmo,
E ainda estar no seio do meu povo.

E mesmo que isolada neste pago
Saber-me em sintonia com o mundo
Pela fonte de versos que propago
Pela rede virtual, solo fecundo.

E se transcrita com carinho e devoção
Vejo minha poesia qual mensagem,
Angústia me dá trégua ao coração,

Pois sinto que visito um outro ninho
Como estrela peregrina, de passagem,
Qual se fora um cantador pelo caminho...

07/08/2006

Nota

*"rede virtual, solo fecundo"- Alma se refere à Internet, que ela descobriu em 2001 , graças ao Guilherme de Faria, em São Paulo, e de que ela lançou mão para divulgar sua poesia para o mundo.

*...E se transcrita com carinho e devoção- Alma quer dizer que lhe agrada muito descobrir seus poemas transcritos nos blogs alheios, o que alivia a angústia de seu isolamento real, por estar visitando o espaço ou "o ninho" de outros, tal como os cantadores andarilhos vão de aldeia em aldeia, de casa em casa, pelos caminhos do mundo.(Lucia Welt)


Alef (de Alma Welt)
735

E me vi num espaço de alforria
Onde antes corria aquele vento
Ou rio do meu próprio pensamento,
Que há tempos a Morte perseguia.

E eis que o Tempo cessa por encanto
E me sinto de repente em plenitude
No cenário da minha juventude,
E dessa memória guardo o espanto.

Quão belo é o hiato que me acalma
E faz ver o equilíbrio delicado
A que o homem precisa dar a palma!

Essa zona de silêncio em meio ao prado
É um Alef sublime, e tudo é uno:
A alma e seu amor, o fogo e o fumo...

(sem data)

*Alef- a primeira letra do alfabeto hebraico, equivalente ao Alfa grego, na sua acepção esotérica se refere a um lugar metafísico, onde tudo, todas as coisas do universo estão concentradas simultaneamente num lapso atemporal da mente. (Vide o célebre conto " O Alef", de Jorge Luis Borges)


A Moira (de Alma Welt)
734

Ser prudente, modesta, equilibrada,
São coisas que nunca consegui;
Aceitar a pequenez como jornada
No mundo real em que me vi,

Jamais pude acatar e me rebelo
Somente por ser Alma e ignorar
Tudo o que mesmo não for belo
Ou que em beleza não possa transformar.

Meu consolo é que pouco desta vida
Não se pode em arte e graça revelar
Em sua bela imagem refletida.

Só a Moira* me é ainda estranha
Como uma estrangeira em nosso lar
Que há muito se hospedou e não se banha...

(sem data


* Moira - o arquétipo feminino da Morte, uma das personas de Ananque, a deusa da Necessidade ou do Destino, no Orfismo, doutrina reencarnacionista e religião de mistérios da antiga Grécia, nascida por volta do século VII AC e da qual Pitágoras é um expoente e Platão seu mais ilustre eco tardio. (Lucia Welt)


O Fardo (de Alma Welt)
733

Viver como se fosse eternamente,
Quando se tem a consciência vigilante,
E a morte a rondar, sempre presente,
Eis o fardo que carrego tão constante.

De tal contradição brotou a Alma
Em permanente urgência de sentir,
Enquanto os que me cercam vêm pedir
Menos ardor, paixão... e muita calma.

Mas o que pode uma moça como eu
Nascida sob o signo da Arte
A que meu próprio pai me prometeu?

Báh! Quisera descansar, mas só de mim,
E não mais ter assim, em toda parte,
O olhar que aceita tudo, exceto o fim...

(sem data)

Exausta (de Alma Welt)
732

Às vezes, de mim mesma fico exausta
E sem forças nem mesmo pra deixar-me.
Entretanto, garanto, não é charme
De quem está acostumada à vida fausta.

Como se fosse o derradeiro cada dia,
Sorvo avidamente o meu entorno
E isso tem trazido algum transtorno
Para quem me cerca e me avalia,

Como a minha fidelíssima Matilde,
Que da simplicidade é o protótipo,
Tão sensata embora pouco humilde

Pois bem que me queria ver mudada,
Tranqüila e bem feliz no estereótipo
De uma prenda deste Sul, apaziguada...

(sem data)


Da Poesia (de Alma Welt)
731

Interessar-me, sim, por quase tudo,
Foi esse o meu segredo de Poesia,
Mas também certo teor de fantasia
E algo do que está oculto e mudo.

A chave do soneto é a amarra
Daquele impossível que se diga;
Tanto o canto inútil da cigarra
Quanto o trabalho da formiga.

Não vem do sagrado nem do laico
A verdadeira linguagem do real
Mas daquilo que se forma no mosaico

De coisas tão distantes do ideal:
Não o gesto pleno, mas tremor...
E do vento, o sul, o medo e a cor.

(sem data)


Auto-retrato (de Alma Welt)
730

As minhas andanças na coxilha,
De meu pensamento são passeios
E semeiam minha alma como silha
Para frutificar por outros meios,

Poemas, sonetos e memórias
Que eu nem sequer sabia ter retido
De outras gerações e suas estórias,
Num fluxo permanente e incontido.

O corpo? Sim, também floresce...
E estes prados viram meu amor
E minha beleza enquanto cresce.

Mas a prenda tão cedo rebelada,
E, diz Matilde, perdida em despudor,
Não servirá pro homem e pra mais nada...

17/08/2006


O arco das paixões ( de Alma Welt)
729

Tem dias que mal posso me conter
E corro rasgando as minhas roupas
Como aquelas histéricas ou loucas
Que o doutor Freud julgava compreender.

O “arco histérico” também realizei,
Um pouco talvez pela cultura
Pois não sei onde acaba minha loucura
E começa o que de mim me imaginei.

Mas ver a prenda, bela filha do patrão,
No campo, nua, a fazer acrobacias
Foi de mais para o pobre de um peão

Que perdido também, ficou, de amores,
Pois seu pequeno mundo sem malícias
Corroeu-se em confusão, desejo e dores.

(sem data)


Final do Verão (de Alma Welt)
728

Não verei por certo um novo Outono
Ou então ele me foi antecipado,
Pois que sinto chegar o abandono
Algo triste como o ocaso do meu Fado.

Isto parece soar melodramático,
Mas não posso deixar de constatá-lo.
E então abandonando o tom enfático:
Vejo a vida me escorrendo pelo ralo...

E nem sequer doente mesma estou!
Será justo? Existe uma razão
Que a cigana depressa me ocultou?

Rafisa, que em meus braços te deixaste,
Perdeste assim o dom da previsão,
Ou minhas cartas leste, e me enganaste...

15/01/2007


A Chave (de Alma Welt)
727

Prenda igual às outras nunca fui,
Pois a Arte foi minha prioridade
Desde que, ao piano, em tenra idade,
Ouvi meu pai num tema que evolui

Em seqüência ou num moto perpétuo,
E vendo que aquilo era um inseto
Besouro ou abelha, tal e qual
Eu ouvia na coxilha ou no quintal.

E pareceu-me a chave do viver
Verter em melodia os sons da vida,
Que a palavra também podia ter.

Desde então eu persigo a tradução
De tudo ao meu redor com a intenção
De ver no mundo minha face refletida.

(sem data)


Os Hóspedes da Noite (de Alma Welt)
726

Meu casarão respira a gerações
Que remontam a célebres guerreiros
Que de noite ainda vêm, assombrações
De generais e seus mil negros lanceiros.

Bento e Netto, os hóspedes de fama
Sempre vinham planejar e matear,
Enquanto as mulheres... na azáfama,
Falsa rima pro servir e sussurrar.

Pé ante pé, de noite, se esgueiravam
Por corredores, e nas cerradas portas
Colavam seus ouvidos e auscultavam,

Corações em farrapos que sangravam
Pelos dias de agonia e horas mortas
Por aqueles que a guerra tanto amavam...

(sem data)


Confirmação (de Alma Welt)
725

Serei eu a imagem nesse espéculo
De minha criação inusitada?
Aquela que nos versos foi formada
Durará de mim por mais um século?

A imagem no poema assim gerada
É minha, ou de minha alma o Golem?
Imagem disforme ou alterada
Pra melhor, como flores para o pólen,

Feitas pra atrair os inocentes
Que perseguem mitos nas nascentes
Com seu acentuado tom ambíguo?

Então, me releio e me apaziguo:
Sou eu, sou eu, não me falseio!
Como sangue a jorrar-me de meu seio...


14/01/2007

A Escriba (de Alma Welt)
724

Escriba de minha própria história
Em processo, construída dia a dia
Junto com lampejos de memória
Que compõem minha saga na Poesia,

É privilégio, é dom e é missão,
Apesar de uma ou outra derrisão,
Alguns risos e abanos de cabeça
Daqueles que preferem que não cresça

E ainda muito menos que renasça
Aquela que morreu na flor da idade
Tendo sonetos produzido à saciedade.

E se quando for aberta a minha Arca
Houver ainda quem algum esforço faça,
Que fique um verso só... com minha marca.


(sem data)


A Confraria da Ilusão (de Alma Welt)
723

Ceder a uma lógica da Vida,
Ao senso comum e à Razão,
Não parecia ser a única opção
À argúcia em mim, enaltecida

Pelo entusiasmo de meu pai,
Ele próprio paradoxo escolhido,
Músico e médico escondido,*
Duplo, sem conflitos, sem um ai.

Seria então mulher amante e musa,
E a poeta cujo olhar desvendaria
O inaudito e o comum na forma lusa

Do soneto, a Confraria da Ilusão,*
Dos solitários dos cafés de padaria
Que sonham mundos, sentados no balcão...


(se data)

Notas
*Músico e médico escondido - Notem que este curioso verso parece inverter o sentido do lado escondido (Hide) do médico Dr. Jekil, da alegórica obra-prima de Robert Louis Stevenson. No verso da Alma, o médico é que é o lado oculto.

*Confraria da Ilusão - Referir-se aos praticantes do soneto como uma "confraria" já ocorrera na obra da Alma de forma satírica no conto "A Confraria dos Poetas do Soneto Triste", do livro publicado em 2004, Contos da Alma, de Alma Welt
(Lucia Welt)


Um Royal Straight Flush da Alma (de Alma Welt)
722


Que seguro estás, ó meu irmão,
Do jogo de amor que te dedico!
Teu pôquer é teu mundo de ilusão,
Que nela, desde sempre, eu mesma fico.

Parceiros de um jogo diferente
Tu corres o mundo em disparada
Eu, parada, o corro em minha mente
A sonhar contigo outra cartada

Em que nus, despojados, sem cacife,
Não haja blefe mas o coração em fogo
Como aquela vez em Tenerife

Em que dormiste sobre mim como guri
Enquanto no hotel corria o jogo
E um Royal Straight Flush só eu vi...

14/07/2006


Perto do coração da Vida (de Alma Welt)
721

No soneto de estro inesgotável
Persigo o próprio coração da vida.
E ele me há de revelar a impalpável
E real face do ser, quase perdida.

O significado da existência,
Estou persuadida: está oculto,
Desafiando o homem e sua ciência,
E alheio a toda fé e todo culto,

A um palmo, um dedo, um quase nada,
Misturado nos afetos e no laço
Que une um ser ao outro na jornada,

No garimpo do poema, na bateia,
Numa pedra, talvez de brilho baço,
A Verdade... sem aplauso e sem platéia.

(sem data)


Perfil da Alma (de Alma Welt)
720

Oriunda de dois mundos, peregrina
A buscar a Beleza em toda parte
Aqui, onde o vento dobra a esquina
E a vida se confunde com a Arte

E não há mais fronteiras entre as duas,
Que mal as temos com pagos de Castela
Onde Adão foi procurar sua costela
E meteu-se com a saga dos charruas;

Este é o meu reino louco, da Poesia,
Semeada nas silhas da coxilha
Pelos nossos ancestrais em rebeldia.

E misturo num enorme caldeirão
Meus tempos e a Idade Farroupilha
E o proibido amor de meu irmão...

18/08/2006


Auto definição (de Alma Welt)
719

Não sendo afinal tão transparente,
Por puro gosto do mistério e do oculto,
Nichos secretos guardei na minha mente
E sempre acompanhada por um vulto,

Não que seja o Mal ou coisa assim,
Nem mesmo eu diria ser a “sombra”
Porquanto sua presença não me assombra
Embora não também um serafim.

Mas a musa Erato, mais que ninfa,
Ou a bela Psiqué... então princesa,
Que é do meu pomar a própria linfa.

Uma forma-pensamento da Beleza,
O verso conclusivo e mais profundo,
Minha Anima, Welt, que é o Mundo...


(sem data)


A Teiniaguá (de Alma Welt)
718

Quando à noite meus cães fazem a ronda
E contra a lua principiam a uivar
Como o lobo que vem como uma onda
Dentro deles, que não mais podem calar,

Eu saio como um solitário espectro
Vindo do fundo de forças obscuras
Ou como uma rainha com seu cetro
Na mascarada do reino das loucuras.

E dirá mais de um peão ao me avistar
Que a Teiniaguá desceu do Cerro
Enquanto estavam na coxilha a matear,

Nua, branca, alheia, em despudor
"Corriendo en la pradera como un perro"
A evocar perdidos pactos de amor…

(Sem data)


A macieira não floriu (de Alma Welt)
717

“A macieira não floriu na primavera,
Como a dizer pra encerrar meu canto...”
“Como pode ser tão frágil um ser sagaz?”
Diz meu irmão Rodo com espanto;

“Aqui mesmo entrarás em novas eras
E esta árvore te verá como uma bisa,
Ou então como a velha poetisa
Consagrada e ilustre, como esperas.”

Mas olhando-me nos olhos se calou
Pois viu algo que não queria ver,
O que a mim mesma me alarmou.

E corri para o espelho a perscrutar
A sombra que ele não queria achar,
Ele que blefa suas cartas sem tremer...

12/01/2007


Meu Cavalo, Eu e o Lobo (de Alma Welt)
716

Um cavalo tenho, que é um amigo
E sabe como vai meu coração,
Encosta o seu focinho em meu umbigo,
No seio a testa pra sentir a pulsação.

E ele me comove, como agora...
Mais do que eu mesma posso ver
Ele parece sentir que vou embora,
Como os animais podem prever

Tempestade, morte ou uma fera,
Ou tal como a Mutti anunciava,
O lobo que existe e que me espera.

E então eu o consolo, cabe a mim,
Pois que com o lobo eu já contava
Desde que guria eu era, bem assim...

08/01/2007


O Mirante (de Alma Welt)
715

Desde logo soube que era a Pampa
A mãe-terra, e que eu era a sua filha,
E escolhi o local da minha campa
Num alteado ponto da coxilha

De onde avisto o meu destino
Que é aquela linha do horizonte
Para onde em sonhos peregrino
Para ver aonde o sol se esconde.

“Bá! És a maior das delirantes”
Dirão os homens da Razão,
Aqueles que projetam os mirantes.

Mas eu vivo aqui e noutro mundo
Onde Anita e o italiano já estão
E de onde o próprio sonho é oriundo...

(sem data)


O Eterno Retorno (V) (de Alma Welt)
714

Eu sei que voltarei como poeta,
E se abandonada na coxilha
Vagarei novamente, mas com meta,
Rumo à minha casa, porto e ilha

No mar ondulado verde e terno
Que me acolheu mais de uma vez
No mesmo casarão vetusto, eterno,
Com Anita a me contar que voto fez

Para seguir o italiano que a perdeu
De amores e de juras de futuro
E a coragem assim soprada lhe valeu.

E de novo, viverei com as memórias
Deles a cercar-me como um muro,
De sonhos, de farrapos e de glórias...

(sem data)


A Noite e Eu (de Alma Welt)
713

Minha fonte tem dois mananciais
Que são os dois lados do meu estro,
Pois sou herdeira de meus pais,
Começando pelo ouvido do maestro,

Meu Vati, pianista e homem culto;
De minha mãe, rouxinol açoriano,
Vem meu registro de mezzo-soprano,
A pele muito branca, o porte e o vulto.

Mas se algo reparto com meu mano
É o gosto do jogo: em mim, do amor,
Ele, de um pôquer sobre-humano,

Pois joga sua vida em mil cartadas
Enquanto o aguardamos, já sem dor,
A alta noite e eu... ambas caladas.

07/08/2005


O segredo dos meus versos (de Alma Welt)

712

Quando lanço um soneto no papel
Nunca sei o que virá, eis o segredo
E também a razão de tanto enredo
E tanto o que dizer, como um tropel,

Uma manada sem fim de pensamentos,
A brotar de um só manancial,
Como da coxilha os nobres ventos
Sob o comando do frio vento austral:

O Minuano, rio grande, rei patrono,
Que me permite ser poeta e ter amores
Desde que me curve ante seu trono.

E a razão de tanto tema, velho ou novo,
Perdoem-me ou não os meus leitores,
É que almejo ser um rio pro meu povo...

(sem data)



O olhar do Poeta ( de Alma Welt)

711

Tudo merece verso, nada escapa
Ao abraço amplo da Poesia
Que é tão somente a antiga capa
Que as coisas e os seres envolvia

No tempo das brumas e mistérios,
Quando envolto em névoas de magia
Vagava o ser por entre eremitérios
Buscando o que o Graal esconderia.

O Cálice, agora já o sabemos,
Está entre nós em quase tudo
Que o olhar desvela quando vemos.

Mas ver ainda é segredo do Poeta,
Pois que o vulgo tem o olhar mudo,
Sem o Todo e o Sacro como meta...

12/08/2005


O mausoléu (de Alma Welt)
710

Vai, constrói teu mausoléu de versos,
Diz Rodo, meu irmão, quase em sarcasmo.
Mas não irá diminuir meu entusiasmo
Saber que virão tempos adversos

Em que descerão das prateleiras
E baixarão ao limbo dos poetas
Pra ressurgir mais tarde nas fileiras
Dos que tardos alcançaram suas metas.

Pois que aberta a alma e o coração
Sem discriminar, e sem eleitos,
A todos o que quiseram uma porção,

Esta Alma que da vida fez um hino,
Malgrado alguns versos imperfeitos
Nada tem a deplorar do seu destino.

14/07/2006


O que é a Alma (de Alma Welt)

709

Ter um olhar claro sobre o mundo
Foi sempre o meu maior escopo.
Verde nos meus olhos, claro e fundo...
Quanto a julgamento: nem um pouco.

Buscando restaurar os tons primevos,
Em meio à uma bruma retornada
De tempos difíceis, medievos,
Entre trevas e a aurora anunciada...

Não mais me diz respeito a ninharia,
As falhas do meu tempo, a ignorância.
Viver como se o mundo a compreendia

Eis mesmo o que de si foi esperado
Por aquela que não conheceu ganância
E aguarda da Beleza o seu primado...

(sem data)


Druida (de Alma Welt)
708

Herdeira dos Bardos de outra era,
Não vim a este pampa visitar,
Mas reviver meu sonho e a quimera
De construir no verso o meu lugar

No mundo, na tessitura e forma
De um plano mais poético e real,
Pois meu coração só se conforma
Com a beleza, o trágico e o fatal.

Não vi pra conversar e perder tempo
Em ninharias que as mulheres amam,
Nem só pra lançar meu nome ao vento.

Mas replantar a árvore de outrora
Rica em frutos e ramos que secretam
O visgo que o Amor ainda elabora...

sem data)


Aos pósteros (de Alma Welt)
707

O que amei, além de mim perdura
E vibra em freqüência inaudível,
Mas passível de nova captura
Aos pósteros, no âmbito sensível:

“Aqui viveu a poetisa meio louca
Aquela que a si mesma cantou,
E assombrada a casa mais ficou
Qual se a antiga saga fosse pouca.

Agora os farrapos se confundem
Com as brancas vestes da poeta,
Que com os lírios mais se fundem...

Eis a sua Arca: e está vazia.
Dizem os anais que era repleta
De bela obra, romântica, tardia...”

08/01/2007


Outros heróis (de Alma Welt)
706

Desde bem guria tenho o hábito
De observar e avaliar a rebelião
Ou, por outro lado, o acordo tácito
Que o homem mantém com a solidão.

Vê: mais pungente é a que divises
Na aura dos mendigos das estradas,
Debaixo das pontes e marquises
Ou jogados nas ruas, nas calçadas.

Pois tal isolamento inenarrável
É o assumido e imponderável
Da humana condição após o parto.

E suspeito que os mendigos são heróis
Da solidão, que poeta, mal reparto,
Enquanto ardem e a exibem nos faróis...

(sem data)



Que o homem não separe (de Alma Welt)
705

Deitemos meu irmão, aqui na relva,
Que foi o leito original de Adão e Eva
E de onde partiram para a selva
Que o Horto se tornou, lenda primeva.

Mas finquemos pé, não mais saiamos
Pelo mundo atrás da imagem, aquela,
Que conosco mesmo carregamos,
Pois Adão não perdeu a sua costela.

E repare: a punição foi bem sutil
Já que o par continua interligado
E Deus não separou o que uniu.

Poderia, sim, ter sido bem pior,
Pois de dentro de mim foste arrancado
Por quem usurpou poder maior...

(sem data)


Caso (de Alma Welt)
704

Todo esforço é inútil sem amar.
Amor move tudo e torna claro
O ter, fazer, o ser e o desejar,
E o êxito sem ele é nulo ou raro.

Dito isso passo a lhes contar
O caso de um vizinho estancieiro
Que ocultava o ouro no celeiro
De uma vida inteira de poupar.

E a mulher que com ele conviveu
Não soube o que o marido amealhou
Nem mesmo depois que ele morreu.

Então, seu empregado de coxia
Num leilão a propriedade arrematou,
Pois na palha fornicava e se escondia...

(sem data)


Au Café, Rimbaud et moi (de Alma Welt)

703

Quando em Paris, eu sentava num Café
A escrever os meus sonetos todo dia,
Até que o chef, como ele se dizia,
Veio a mim, pra meu espanto até,

E com raro sorriso à la crème:
“Mademoiselle, on aperçoit que tu est poète,
Et tu as s'asseiée a la table même
Où Rimbaud, plume a la main, courbait la tète.”

E eu, grata, devagar a mão passei
Sobre a madeira escura e imaginei:
Aqui l’enfant prodige fez um ninho...

Pois o andarilho e mau caminho,
Sem mesmo ter perdido um pé sequer,
Estava ali, “un pied près de mon coeur...”

(sem data)

Notas
* l’enfant prodige- "criança prodígio", Rimbaud escrevia magistralmente desde os 14 anos, e fugiu de casa, a pé, aos 17, para encontrar Verlaine em Paris. A expressão parece também evocar "l'enfant prodigue" o filho pródigo que ele era, pois só voltou para casa para morrer.

andarilho e mau caminho- Rimbaud era um andarilho contumaz e cruzou parte da Europa várias vezes à pé. O "mau caminho" que Alma lhe atribui deve ser equivalente a "pedaço de mau caminho", alusão ao fato de que Rimbaud era um rapaz lindo, e também considerado um transviado de sua época.

*sem mesmo ter perdido um pé sequer
- Alma quis dizer que o espirito de Rimbaud estava intacto ali naquela mesa, sem apresentar a mutilação de uma perna com que morreu em Marseille num hospital, vindo da África com terrível gangrena.

“un pied près de mon coeur...”Verso final do célebre soneto "Ma Bohème" de Rimbaud, que sugere o curvar-se, o peito contra o joelho, para reamarrar o cadarço ("tirer les élastiques") da botina de andarilho. Mas o interessante é que a citação do verso no contexto do soneto da Alma parece dizer que aquela perna ferida ou ausente, está encostada no coração dela, Alma.

(Lucia Welt)


A protagonista (de Alma Welt)
702

Se me sinto num palco na coxilha,
É que minha alma aqui se integra
Ao cenário de que sou atriz e filha,
Em que vou de diva a contra-regra.

E me sinto fazer parte de um drama
Que nasceu bem antes de eu pivete,
De um autor que me tem na sua trama
De cordéis, quero dizer... marionete.

Sim, é Ele, o Divino Dramaturgo,
E manipula a mim ao seu compasso,
E a todos deste pampa e de seu burgo

A cujos figurantes cabe a ação
De apontar-me na rua se ali passo,
Como a outra, à fogueira, em Ruão...

(sem data)

Convite às vésperas da Páscoa (de Alma Welt)
701

Vamos juntos à campa do Maestro,
Rodo, meu irmão, hoje não escapas.
Sei que houve diferenças e até tapas
No afeto de vocês, duro e canhestro.

Mas ele te amava como a mim,
E no fundo se orgulhava da magia
Com que levas esse teu jogo sem fim
Que provaste ter sua própria melodia...

Vê, aqui podes trair-te pelo olhar,
Que o blefe não vigora neste sítio
Onde as aves e os ventos vem pousar.

E se ao me abaixar para pôr flores
Disfarçares na face um brilho vítreo,
Blefarás ante o maior dos jogadores...

(sem data


O Ser e a Morte (de Alma Welt)
700

A Morte sempre envia seus sinais,
Mas o faz em código sutil,
Nem sempre com os signos fatais
Mas como um vocábulo entre mil

Mensagens que o dia nos transmite
E nos tiram da possível sintonia
Com aquele pavio de dinamite
Que, visto, faz da vida uma agonia.

Não podemos pensar, este é o jogo
Proposto ao Homem racional,
Propenso a questionar o seu malogro.

Pois se a pedra dura, e o diamante,
Por quê é o Ser, assim, alvo do Mal,
Que torna todo esforço irrelevante?

09/07/02006


Meu Negrinho (de Alma Welt)
699

Quando guria no bosque me perdi,
Estava a colher flores e amoras,
E ouvir ao longe a voz da Mutti
Chamando pra o almoço foram horas

De angústia pelo medo do carão,
Pois esse era talvez o nosso vínculo,
O da mágoa, receio e incompreensão,
Que mais me fazia andar em círculo.

Mas então chamei o meu Negrinho
Que pastoreava sempre ao léu
E assim nem precisava estar no céu.

E juro, meu leitor que então sorriste
Deste soneto pueril ou comezinho:
Ele veio... e era belo, negro e triste.

(sem data)


O último fandango (de Alma Welt)
698

Não me verás jamais dizer assim
Que tudo vai ficar bem ou melhor,
Pois todos caminhamos pro pior
Que é a queda, a morte e o fim.

Mas vivamos e dancemos loucamente
Enquanto não bata a meia-noite
E a aldrava repouse no batente
E o fluir do rio não se afoite.

Amemos e brindemos, companheiro!
Coroemo-nos com folhas do mate
Como os antigos na festas de celeiro...

E se há um deus do Pampa a nos olhar,
Seja a vida uma chula ou bom combate
Ao longo de uma lança, sem relar...

31/12/2006


Quando a primavera retornar (de Alma Welt)
ou Proezas do Rodo

697

Quando a primavera retornar,
Quero colher flores nas coxilhas,
Como outrora, Rodo, a conversar
Ou só a admirar as maravilhas,

O que é mais aprazível e eficaz,
Pois que me causou grande aflição
Tua obscura proeza como ás
Do pôquer, na última estação,

Quando entre banqueiros te sentaste
Jogando “tua” estância alardeada
E ganhaste um milhão numa cartada.

Não sei se te bato ou se te abraço,
Ao me dares, não de flores, este maço,
Se minha vida em tuas mãos tomaste...

(sem data)

Recordações (de Alma Welt)
696

Me lembro que durante minha infância,
Quando a chuva caía torrencial
Com aqueles raios sobre a estância,
Eu via aquilo como algo pessoal.

Os estalos então eram açoites,
E a trovoada uma grande gritaria
Para me punir dentro das noites,
Que nelas me ocultar não poderia.

Mas, báh! debaixo do lençol
Ou da minha manta pampiana,
Eu estava segura como ao sol,

E mais, porque o Rodo aproveitava
Para entrar também nessa cabana
E era o sol que comigo se deitava...

28/04/2005


O espectro (de Alma Welt)
695

Diante da casa detive meu cavalo
E notei que continha não memórias,
Mas ninharias que não foram pelo ralo
Do tempo a escorrer as suas horas...

Dei rédeas ao meu pingo e retornei
Pois prefiro os espectros com que privo
Ainda que um pareça um morto vivo,
O Valentim, cuja saga já contei...

Pois bem: no seu pescoço ainda deixa
Um resto da corda que o sustenta
Para a toda a eternidade dos perdidos.

Mas posso conviver com sua queixa
Enquanto o coração ainda agüenta
Os lamentos, o pranto e os gemidos...

17/04/2005

O Ogro (de Alma Welt)
694

A cada dia descubro nova face
Do meu próprio enigma na vida,
Mas se a alma gosta de disfarce
A inteireza está comprometida.

Não sou uma, sou muitas, isso dói,
Embora faça viver intensamente.
Viver somente a vida como soe
Já não pode acalmar a minha mente.

Então amo, escrevo e vivo em dobro
Nos cenários desta e de outras vidas,
Sempre a fugir do Grande Ogro,

Um cavaleiro negro e embuçado
Que perpetra no escuro as investidas,
Pois nunca mostra a face o nosso Fado...

(sem data)


Minha riqueza (de Alma Welt)
693

Contar a riqueza da minha vida
É que a faz pra mim assim tão rica,
Mas não como o avaro classifica,
E conta e reconta, única lida,

As notas... que se ambos deixam rastro,
As minhas em si mesmas perpetuam
Os lances de uma vida e fazem lastro,
E não como aquelas que flutuam.

Se o personagem, apontado ser, queria:
“Lá vai Ivolguin, o usurário!” *
Eu quero que me apontem ao contrário:

“Aquela prenda, “tu viu” como ela ia?
Parece ter feito algo importante,
Não o sei, mas o vi em seu semblante.” *

12/08/2006

Nota
*“Lá vai Ivolguin, o usurário!” - Episódio do romance O idiota, de Dostoiévsky, em que o personagem Gânia (Ivolguin), revela ao príncipe Michkin (o "Idiota") o que pretende fazer com o dinheiro que ia ganhar (de maneira desonrosa, para grande escândalo e desgosto de sua família), isto é: nunca gastá-lo.

*... Parece ter feito algo importante... - Paráfrase de uma frase atribuida a um italiano desconhecido, ao se defrontar com o filósofo Schopenhauer sem saber quem ele era: "Signore, lei deve avere fatto qualche grande opera: non so cosa sia, ma lo vedo al suo viso."
(Lucia Welt)


A Verdade ( soneto humorístico de Alma Welt)
692

A nós não nos é dado conhecer
A face verdadeira da Verdade,
Como também é difícil perceber
O contraste entre ela e a Falsidade.

Mas o que é a Verdade? perguntou
Ao Cristo aprisionado o tal Pilatos,
Que depois em sangue as mãos lavou
Pois nada estava claro, nem os fatos.

Havia algum sentido de vingança?
O pobre contra o rico e seu camelo
Que passou no buraco, sem rompê-lo,

Da agulha, para então entrar no Céu
Sem o seu dono e sua enorme pança?
Bá! Estou confusa mesmo... pra dedéu.

(sem data)


O plano da Vida (de Alma Welt)
691

Qualquer coisa vista em minha vida,
Incluindo a que existe só na mente,
Será no meu poema revivida
Para eu ser em mim mais claramente.

Que presunção! És louca, hás de convir...
Dirão aqueles que lançados na corrente
Crêem que basta estar para existir,
E que a vida a si mesma se contente.

Mas, vê: todos lançam sua semente
Porque uma vida é pouco e nos desmente,
Sejamos animal ou simples planta,

Se após tanto penar e tanta lida
Seja o plano de Deus, pra nossa Vida,
Morrer, dormir, sonhar... depois da janta.

(sem data)


Édipo (de Alma Welt)
690

Saber nosso lugar aqui na Terra
Não é tão óbvio, simples e direto.
Alguns nascem no seu pé-de-serra
A maioria vem apenas sob um teto,

Inesquecível, sim, como cenário
Das visões primeiras, encantadas
Como aquela mancha no armário,
Um duende sorrindo para as fadas.

Mas depois começa o nosso exílio
E toda uma vida de procura
Para encontrar de novo o domicílio

Onde ocorreu em nós a ruptura.
E frente ao velho casarão estacionar,
Dizendo: Foi aqui. Cheguei, posso parar...


28/09/2006


O Cisne (de Alma Welt)
689

No escuro palco meu poema danço
A minha vida assim coreografada
Em belos passos de que não me canso,
Tenha tido ou não casa lotada...

E cada vez mais bela e exaltada,
Como uma Pavlova em branco cisne
Sei que a morte chegará sem que me tisne
As brancas penas na última noitada...

Quem me ouvirá o cisne que delira
Em derradeiro, estertorante canto,
Tardio apelo do Poeta em sua lira?

A casa do meu sonho está vazia
Desde a platéia espectral até a coxia,
E cai a negra cortina como um manto...


17/01/2007


Nefertiti (de Alma Welt)
688

Rodo trouxe um cientista pra jantar,
Dr. Piotr Ivanovitch, jovem russo,
“Arqueólogo”, disse ao se apresentar,
Eufórico me deslocando o pulso.

“Nefertiti em visão de Alma-Tadema!
Estou diante da beldade faraônica,
Mas ruiva de deixar Vênus afônica,
Destruiste de pronto o meu sistema!”

“Deixa-me medir tuas feições,
Que acabo de mudar minha teoria
E preciso de dados, proporções...”

E eu, louca pelo insólito que sou,
Deixando logo cair o que vestia,
Ofereci-me à ciência de Moscou...

21/05/2005


Boas Novas (de Alma Welt)
(a visão do otimista)
687

Eis afinal a nossa aurora e ascensão:
Já sabemos que a Terra é um ser vivo.
Estamos mesmo nas costas do Dragão
Como bem já o sabia o primitivo...

Merlin já o dizia ao moço Arthur
E pensávamos nisso como fábula,
Como a da bela espada Excalibur
E o reino de Avalon e sua távola.

Mas tudo é parte da cadeia milenar,
O rio morre mas renasce, já o vemos,
E o homem agora sabe e vai mudar...

Já nasceu o ser que vai, benevolente,
Sem cajado, mas mochila, até a nascente
Do grande rio eterno que herdaremos.

(se data)


Má notícia (de Alma Welt)
(a visão do pessimista)
686

Estar em sintonia com a alma
Não é, como se pensa, corriqueiro.
O homem de hoje não se acalma
Para estar, assim, uno e inteiro.

Um ser pasmado, abúlico, dormente,
Ou então excitado como louco;
Perdido, confuso e adolescente,
Boca muito aberta, ouvido mouco.

Ligado na corrente cento e vinte,
Mas sem foco, a não ser o do consumo,
Para quem dez palavras é um acinte,

Esse homem estéril é o futuro,
Embora sem passado e sem um rumo
Senão o da manada ou do monturo...

(sem data)


Metasoneto (de Alma Welt)
685

Hoje não escrevi o meu soneto
E passei o dia todo meio vaga,
Como se me faltasse o ser eleito
Ou tivesse perdido o dom de maga.

Nada de flores na senda da coxilha,
Sonhando com a volta do irmão
Ou me sentindo ainda aquela ilha
No meio do Oceano da Ilusão...

Não tive nenhuma boa idéia
Nem “onde foi que errei” quis perguntar,
Para assim me sentir uma plebéia.

Esperem! Dei-me conta ao divagar:
“Pero acabo de hacerlo, sin embargo!”
Eis o soneto, embora um tanto amargo.

(sem data)


Mercados (de Alma Welt)
684

"Fora do mercado nada existe"
Disse alguém sem o senso de poesia.
Então percebi que eu não existia,
E com estranho orgulho que persiste.

Pois o sentido de mercado para mim
É ainda o Les Halles em Paris,
Ou bazares de Marrocos ou Tunis,
Com lâmpadas, aquelas, de Aladim.

Mas jamais apregôo na Medina
Sonetos como jóias deslumbrantes
Ofertadas por mim a cada esquina.

Nada tenho a barganhar e a vender,
E meus versos, só alguns usam turbantes
Quando atravessam os desertos do meu ser...

14/08//2006


O analista em férias (de Alma Welt)
683

“Método percebo em tua loucura”
Dizia o analista de sistemas,
Trazido pelo Rodo em sinecura
Entremeada de vãos telefonemas.

Por uma semana aqui arranchou
E quis “analisar” minha mania
De escrever sonetos como um show
Sem fim, sem platéia e à porfia.

“Por mais que bela seja quem os cria”,
Era eu uma catadupa inesgotável
Que, segundo ele, ninguém lia.

Então pedi ao mano que o levasse
Depressa do meu mundo incomputável,
Antes que mais meu sonho conspurcasse...

(sem data)



Noites... ( de Alma Welt)
682

Noites de fandango em nossa estância,
Em que tudo concorria para amar:
Os sons, os cheiros, nossa infância,
Nosso jardim adormecido a flutuar

Naquela dança de coruscantes lumes
Que sabíamos que eram nossas fadas
E velavam como pequeninos numes
O sono leve das flores e ramadas.

Galdério, sua gaita em meu ouvido,
Esse nosso uruguaio tão dileto
Que já era esteio em nosso teto,

Doando-nos, de fundo, som e verso,
A um cenário da alma, comovido:
Meus pais, peões, a casa, o universo...

23/04/2005

A nave louca (de Alma Welt)
681

Devemos navegar e deixar ser,
Dizia meu pai prudente e sábio:
Os abrolhos ao outro dar a ver
E nos lábios dividir o astrolábio

Da tal navegação em boas águas
Para evitar arquipélagos fatais,
As Ilhas do Rancor e a das Mágoas
E aquelas de emergentes canibais

Frágil, por mais que destemida,
A nossa nave louca é uma só,
Com o lastro dos lances de uma vida.

E se formos a pique na empreitada,
Ligar pr’um seu compadre, o velho Jó,
A quem já foi tirado tudo e nada...

22/08/2006


Culpas (de Alma Welt)
680

Os ingleses e franceses não perdôo
Por terem queimado a Joana D’Arc
Embora o povo não mais arque
Com essa culpa, que outras apregôo:

Os franceses com a vergonha de Vichi
E das colônias da Guiana, as penais;
Também a pobre Argélia foi demais,
Como na Índia, o Churchill contra o Gandhi.

Mas em vez de amargar minha revolta,
É melhor olhar meu rabo de alemã
E ficar quieta, se não a coisa volta.

Ou meu lado açoriano ou luso,
E mesmo o brasileiro, tão louçã
Em cima da senzala a meio-uso...

(sem data)


Pelo dia das mulheres (de Alma Welt)
679

São Tomé não foi por Cristo rebaixado
Mas virou santo junto com seus pares,
Doze que eles eram, só um punhado,
Ainda deixaram Madalena aos azares.

Não me conformo com a hipocrisia
Em torno da mulher, a “pecadora”,
Que por mais que se esfalfe numa pia,
Nunca Pia, detratada e amadora.

Reivindico por isso uma carteira
Pras mulheres da rua e de madame
Nem que eu venha ser a derradeira

Invertendo a subida da ladeira,
Assim mesmo, desabrida, sem vexame:
Poetisa, santa mártir e rameira.

(sem data)



Os amigos... (de Alma Welt)
678

Os amigos fiéis da juventude,
Onde estão, eu pergunto, onde estão?
Como eu era livre enquanto pude,
E os amava pra sempre desde então!

Onde estão os amores, sonhos, planos
Que tivemos e os que persistem mesmo,
Projetados muito embora não a esmo
Pois que não realizados nos cobramos?

Aldo, Catarina, os dois Bernardos,
Um outro de que me esqueci o nome
E que, lembro, era um dos mais chegados.

Báh! Um era Leonardo, confundi,
O gêmeo era um outro e tinha fome
De amor e uma carência em que me vi...

28/12/2006


Crônicas “gáltchas” (de Alma Welt)
677

Ali jaz um que apartou-se da boiada,
E que se foi de modo deplorável,
Pois ainda não havia feito nada
E seu plano era simples e amável:

Ser o gaucho que se espera e nada mais,
Casar-se com a prenda e ter um filho,
Ter a sua querência e plantar milho,
E não ter que dizer sim ao capataz.

Mas ao campo deu aquela campa,
Nenhum rastro mais de sua raça.
A terra? Bebe sangue e acha graça...

Que por um segundo só, de rebeldia,
Coisa pouca, mormente nesta Pampa,
Foi de peleia o seu derradeiro dia.

07/04/1990

Posteridade (de Alma Welt)
676

Seremos vistos, Rodo, pelo mundo,
Embora isso, pouco, sei, te importe.
O Tempo sempre teve olhar profundo
E, verás, nos levará além da morte,

Lá onde vivem os filhos da paixão,
Num Parnaso povoado de Poetas,
Que não quero o paraíso dos ascetas
Nem dos anjos em coro e cantochão.

Ou seremos para sempre no meu verso,
Verdadeiro cenário dos amores
Que rimando erigi em universo.

E se o Rei aparecer para nos ver,
Talvez tente por orgulho lhe esconder
O vulto de mulher das minhas dores...

15/09/2006


Extra Amor... (de Alma Welt)
675

"Extra ecclesia nulla salus", era o mote
Dos prelados de Cristo e seu orgulho.
E o repito, sim, pra quem se importe,
Mas só quanto ao amor e seu mergulho.

Não te salvas sem amar e ser amado,
Que é pura conseqüência, isso é fato,
Pois a vida não existe noutro estado
Senão do amor a ela e seu contrato.

Repara à tua volta, tudo clama
E evoca o amor a cada passo,
E o vemos na água e na chama,

Na terra e no ar, em som e fúria,
Que tudo é amor e seu compasso
Difícil de seguir em sua luxúria...

(sem data)


Alma Capuletto (de Alma Welt)
674

Não te direi meu nome, ó meu leitor,
Conheces bem a minha alma de guria:
Uma rosa co’outro nome ainda seria
A mesma rosa a que Julieta deu amor.

Abri meu coração sem guardar nada
Ao longo desta minha vida breve,
Tão intensa como a noite densa e leve
Do encontro após a festa, na sacada.

Não troquei juras do amor que mesma sou,
E em versos não preciso protestá-lo
Se meu peito foi aberto num estalo

Na noite em que num primeiro vôo
Lancei ledo soneto que falava
Do que sob a sacada me aguardava...

(sem data)


Estória do umbu-rei (de Alma Welt)
673

Por amor a esta paisagem grandiosa
Mais de uma vez empunhei a carabina,
Mas foi um erro o que me fez ficar famosa
E salvar o umbu desta campina.

Foi quando um vizinho me peitou
Dizendo que estava em sua terra
O umbu onde Martinho se enforcou,
Que a árvore era sinistra e que aberra.

Então, melodramática, me amarrei
Ao tronco, disposta a ali morrer,
Com o risco de outra coisa acontecer

Pois fez com que o "gáltcho" gargalhasse
E rasgando meu vestido me mirasse
Dizendo: "Esse umbu agora é rei..."

29/12/2006



Maus vizinhos
672

Ontem esteve aqui o estancieiro
Que há muito cobiça o meu vinhedo,
Desde que o avô meu, o vinhateiro,
O despachara apontando com o dedo.

Mas, à parte os tais ressentimentos,
Botou-me olho grande, o velho touro,
Para si mesmo, talvez, por uns momentos,
Mas logo para o filho, seu tesouro.

E disse: “Prenda loura, serás nossa,
Como o teu ruivo vinho, eu te prometo.
Prepara o teu vestido e o teu soneto

De bodas, que será o teu derradeiro,
Nem que eu tenha que queimar a tua roça,
E transformar tua Vinha num braseiro...”

12/07/1995

Nota
Acabo de descobrir estre soneto, antigo, da Alma, e me lembro bem deste episódio. Minha irmã viveu momentos de angústia e preocupação por nossa propriedade e sua própria integridade física. E com razão, pois descobri um soneto relacionado que conta um episódio acontecido depois da ameaça desse velho tirano, e que diz respeito justamente ao seu filho, num confronto com a Alma que defendia um velho umbu que ele quis cortar, e que ficava na divisa com as nossas terras.(Lucia Welt)


Tantas vezes violada (de Alma Welt)
671

Às vezes questiono o privilégio
Dos dons de beleza que herdei,
Embora pareça um sacrilégio
Ou cuspir no prato que provei.

Mas revelo que fui muito violada,
E minh’alma ainda resta machucada,
Pela cobiça de homens desregrados
Apesar da resistência e meus brados.

Em desespero cinco vezes eu lutei
Com valentia, às vezes, e com garra,
Para evitar em vão a vil penetração.

Mas o bicho homem que me agarra
Parece querer algo que não dei
Ao dar-me à revelia... à sua visão.

(sem data)


O verão de minha desgraça (de Alma Welt)
670

O filho do Contardo, estancieiro,
Como seu velho, mau e cobiçoso,
Aproveitou-se de meu gesto espantoso
De amarrar-me ao tronco do umbuzeiro

Pra defender a árvore grande e bela
Que ele quis derrubar com moto-serra,
Pois Martinho, um tal filho da terra
Se enforcara ali, em sua sela.

E eu, que a mim tinha amarrado,
Depois de meu vestido estraçalhado,
Nua me vi diante dele e seu peão

Que alternadamente me estupraram,
Por bem mais de uma hora, no verão
Da desgraça a que me abandonaram...

(sem data)


O crítico (de Alma Welt)
669

Ao ver minha pintura no atelier
Um crítico, para ser aprovativo,
Sugeriu-me, um tanto impositivo,
Que deixasse a mania de escrever,

Que a poesia era veneno pra pintora
E que Chagall, o que tinha de pior
Era aquela vã noivinha voadora
Que "ele teimava em quase tudo pôr".

Uma repulsa imediata então me veio
Por perceber-me diante do demolidor
Que não mais via o homem... só o meio.

E dei por encerrada a entrevista
Pretextando, não que estava a sentir dor,
Ma que era eu a noiva tão mal vista...

(sem data)

Conselhos de meu pai (de Alma Welt)
668

Meu pai que era culto e muito sábio,
Ao notar algumas minhas tentativas
De tornar mais acessível o alfarrábio
Dos meus textos com notas redutivas,

Me disse, um dia: “Filha, que soberba,
Pensares que o mundo não compreende
O que tens para dizer ou se surpreende
Co'essa fala ora doce ora acerba...

Não subestimes tanto a inteligência
Do próximo, seja ele rico ou pobre
(nos extremos, sei, mora a carência)

Na forma mesma com que do coração vem,
Se dás, dês tudo tudo o que te sobre,
Mesmo que seja bem mais do que te pedem.”

(sem data)



Difícil resposta (de Alma Welt)
667

Perguntas-me o que pelo outro faço,
Pra a pobreza minorar ou sofrimento
Dos que já não tem o menor traço
De esperança, ou do coração o alento.

O que faço pela fome dos famintos,
Pela miséria imensa que há ao lado
E passamos como pelo lixo os pintos
Ou como pela xepa do mercado...

E eu que renunciando a toda posse,
Minha parte nesta estância já doei,
Na garganta me sinto vir a tosse,

Aquela da vergonha e embaraço.
Talvez fútil, só a alma mesma dei
Aos que me notaram enquanto passo...

22/04/2006

Um Eterno Retorno (de Alma Welt)
666

Os vikings, germanos e outros mais,
Morrer só desejavam com bravura,
Assim como os antigos samurais,
Pra voltar à mesma senda e vida dura.

Assim também est’Alma louca aqui,
Cedo tomada pela arte da Poesia,
Bem cedo irei morrer em nostalgia
Desta vida que, escrevendo, revivi.

Embora alguns bem cheios de revolta,
Acredito que os poetas são divinos...
Mas Deus com suficiente à sua volta

Relança sobre a terra os mais sofridos
Pela saudade dos ventos e dos sinos.
E bá!Tome mais cantos e alaridos!

(sem data)



Walhalla (de Alma Welt)
665

Meus pensamentos todos em sonetos!
Assim quero restar eternamente:
Cantar a vida em quadras, e somente,
Ludibriar a Morte nos tercetos...

Perturbar velhos amores em seu sono,
Despertá-los, revivê-los, cutucá-los,
Fazê-los ver que ainda o dono
É o velho coração cheio de calos

Ou mais: cicatrizes de batalhas,
Mesmo em alguns mais renitentes
Por temerem recair nas suas malhas.

E reuni-los então, todos no salão,
Onde, alegres veteranos combatentes,
Ao Walhalla dos meus sonhos brindarão...

18/09/2006


Sheraazade (de Alma Welt)
664

Mais uma estória ainda pra contar!
Meu coração é uma Sherazaade...
Meu rei ou meu sultão, quem há-de?
E a vida um desfile sob o olhar:

Mil crônicas em versos de sonetos
Perpetuam minhas noites e meus dias.
Mas ao amanhecer, novos motetos
E novo carrossel de alegorias...

Escrava num palácio de riqueza,
Além da última e milésima memória,
Mais uma... num serralho de tristeza

Em que velo meus amores do passado
Numa vigília que é só a moratória
Diante do sultão que é o nosso fado...

13/01/2007



Um outro Negrinho ( de Alma Welt)
663

Havia aqui na estância um negrinho
Que eu cismei de colocar no pastoreio
Pelo capricho de rasgar o pergaminho
E recontar a saga em outro meio.

Mas Rodo, meu irmão, por ironia,
Roubou-nos de noite uma só rês,
Só pra observar o que eu faria
Para dar um novo fecho desta vez.

Mas, ai de mim em minha jactância!
Esta foi a variante não prevista:
O Negrinho sumiu aqui da estância

Deixando meus remorsos neste Pampa,
E ruivos, repintados, como pista
Os cabelos da Virgem numa estampa...

(sem data)


Balanço Final (II) (de Alma Welt)
662

Amei, sonhei, andei o mundo,
Bem menos talvez do que podia,
Mas no que fruí eu fui bem fundo,
Descontados devaneio e fantasia.

Também me perdi por vãos momentos,
Não tão fúteis, mas de pura nostalgia
De tempos que deixaram monumentos
Que me dão a sensação que ali vivia...

Pouco vi, mas tudo sei, que sou poeta
E incorporo em mim todas as sagas
Enquanto a minha própria se completa

Pois posso me findar, que tudo tive,
Se minha bela história nestas plagas
No coração de um outro me revive...

16/01/2007


Votos (de Alma Welt)
661

Que não seja o amor uma armadilha
E suas juras sejam veras, não falácias;
Que não nos seja o sexo uma cilha
Mas rubras nossas rosas e hemácias.

Que não tenhamos penas e nem plumas,
E que não confundamos nossa sina
Com o vale de lágrimas e as dunas
De um retorno cruel à Palestina.

Que a vida seja clara como a água
Do riacho derradeiro e intocado
Que o Homem esqueceu em sua mágoa,

Mas tendo aparado suas arestas,
Seja o pródigo filho retornado
E que o Pai nos receba em meio a festas...

08/01/2007



Postfácio (de Alma Welt)
660

Saberei parar um dia e emudecer,
E conformar meu passo ao coração?
Olhar as profundezas do meu ser
E estar bem, ali, c’os pés no chão?

A dor se tornou arte, isso foi bom...
O poeta irá tornar-se o cisne negro
Num longamente acalentado som,
Seu solo patético e mais íntegro.

Cantei por não saber calar a vida
Neste coração que se entusiasma
Pelo belo, o puro, e mesmo a lida.

Quanto à dor, também a vejo assim:
Como um último e íntimo fantasma
A dizer: “Viva, viva, viva” até o fim...

15/01/2007

Planos pro Verão (de Alma Welt)
659

Vem encontrar-me no jardim, ó meu irmão!
A ti meu plano então revelarei,
Bem... irei contigo, já adiantei,
Estou fazendo as malas pro verão.

Em Punta de Leste, pro teu pôquer,
Ostentarei os meus melhores panos,
Serei a sedutora girl de gangster
Para que confundam seus arcanos.

E se, furiosos, vierem-nos atrás,
Fugindo contigo no Aston Martin
Pelas estradas, de mim te orgulharás.

Bem sei que desde já o Diabo ri,
Menos de ti, ó blefador, do que de mim.
"Ele" há muito é o Curinga por aqui...

(sem data)

Planos para el verano (de Alma Welt)
(versión al castellano de Lucia Welt)
658

Viene a mi, en el jardín, O! mi hermano!
Sin embargo, mis planos revelaré:
Iré contigo, y yo me adelanté,
Malas haciendo ya para el verano

En Punta de Leste, en el póquer ,
Con mis vestidos, que vienen de tus manos,
Yo seré la seductora girl de gangster
Para que ellos confundan sus arcanos.

Y se furiosos vienen en nuestro rastro,
Huyendo contigo en el Aston Martin
Por las carreteras, te veo como un astro.

Bien sé que el Diablo está se riendo
De mí, engañadora que estoy siendo,
Él, a tiempos, por acá, el Comodín.


O Mesmerista (de Alma Welt)
657

Meu irmão convidou um jogador,
Seu colega aventureiro e “mesmerista”,
Que dizia anular qualquer pudor
Até de antiga freira ou normalista.

E que usara esse poder para vencer
No pôquer, o que quase lhe custara
A vida e mais um olho de sua cara
Retirado a canivete, sem tremer.

Mas a pedido dele em reservado,
Deixei caolho-rei dos fascinantes
Exercer o seu dom em pleno prado...

E voltei com o olhar esgazeado
Com passos abertos, claudicantes,
E o ar pleno e perdido das amantes...

(sem data)


O Cenário (de Alma Welt)
656

Passamos a vida a construir
Um cenário coerente, quero crer,
Para podermos simplesmente ser,
Despojados da idéia do porvir,

Que é a maldição da consciência,
O rubro fruto amargo da Razão,
Que nos trouxe angústia e aflição,
Por nos ser da Morte a vã vivência.

Mas, pensando bem, nosso animal
Resta-nos no âmbito do instinto
E dele vem o tal terror fatal...

E sofro, hesito e me debato
Ante o Nada que será o entreato,
Ou a tela em branco que não pinto...

(sem data)

O Retorno II (de Alma Welt)
655

A Aurora do Homem está por vir
Quando sem o medo que o atrasa,
Andará, sem choro ou mesmo rir,
Sobre a Terra que será a sua casa.

Já o vemos: é uma luz na multidão
Que se espalha e abre uma cortina
No antigo e endurecido coração
Que treme pois ainda a raiva o mina

Contra a dura maldição do Criador
Que nos lançou também contra a mãe Gea
Numa fúria de revanche e de rancor.

E voltaremos às terras e às águas,
Como bem antes daquela má idéia
Que nos deu menos prazeres do que mágoas...

23/07/2006


A Loba (de Alma Welt)
654

Como poeta eu canto minha terra,
E a música, eu a tenho na palavra.
Há quem diga que meu poema aberra
Já que os versos são de minha lavra,

Não os colho no pomar do meu vizinho,
Aliás... estancieiro de cobiças,
Não de meu vinhedo e de meu vinho
Mas destas pernas longas e roliças.

E consciente vou da aberração
De ser esta gringa teuta e ruiva,
Para alguns branca demais, assombração,

Mas para o olhar mais puro do peão,
Albina loba que para a lua uiva
Nas noites que me sonham, de verão...

06/04/2005


Recordações do Éden (de Alma Welt)
653

Pela coxilha eu guria andava
E corria atrás das borboletas,
Sentindo como quem também voava,
Tinha a alma livre e sem muletas...

Pois então escrever nem precisava,
Que ainda o coração não confrontava
O dito “mal do mundo”, que eu não via,
Que não fora chegado aquele dia

Em que arrancado de mim o meu amor,
Pelos cabelos, risível cena triste
(só um piá com seu pintinho em riste),

Fomos ambos arrastados pelos pulsos
Levados para a casa como expulsos,
E a suar como quem vai parir em dor.

(sem data)


Notas
Acabo de descobrir na Arca, mais este soneto de tema recorrente na obra da Alma: o trauma do flagrante de nossa Mutti, "a Açoriana" sobre o pequeno casal de irmãos encontrados nuzinhos "brincando' debaixo da macieira preferida deles no nosso pomar. Como podem ver, Alma sempre trata essa ocorrência fundamental de sua vida como uma metáfora da expulsão de Adão e Eva do Paraíso terrestre, que é o exato significado que esse trauma teve para a sua sensibilidade, mais do que para a do nosso irmão, jovem forte, de temperamento cínico e mais leve.

*E a suar como quem vai parir em dor.- Este sugestivo verso alude ao anátema de Deus sobre o Homem (no Gênesis): "Parirás em dor e ganharás o pão com o suor de teu rosto."

(Lucia Welt)



A Solidão do Poeta (de Alma Welt)
652

Não espero ser bem compreendida
Pelos anos em que vivo ou logo após,
Mas se a Arte é solidão atroz,
É abraço também na despedida...

É consolo, pranto em ombro quente,
Pois que tudo é matéria de poesia,
É um olhar incólume entre a gente,
Mas que tudo colhe e se apropria.

E se à vezes me sinto assim tão só,
A ponto de gritar contra as paredes
Ou sair rolando nua pelo pó,

Eu me envergonho logo da fraqueza,
Ante vós, outros poetas que me ledes,
E volto a assumir minha riqueza...

21/07/2006



O Poeta e o levante (de Alma Welt)
651

Através dos milênios à porfia,
Carrega o poeta a sua tocha,
E o tão sagrado fogo da Poesia
Pesado vai ficando, como rocha.

A solidão aumenta a cada século,
Que, nós, milênios dentro carregamos,
Que ser poeta é ser como um espéculo
Da espécie que o saber e dor herdamos.

Que importa se o tempo nos compreende!
A missão é passar o fogo adiante,
Um poeta com outro só se entende

Desde o nadir do ser, de trás pra diante,
Como esgarçada malha que se estende,
A esperar de nós nosso levante...

(sem data)



O Hades da folha em branco (de Alma Welt)
650

Com a folha em branco ao defrontar-me
Com receio, assim, mergulhadora,
Não sei se vou voltar ou abismar-me
Na louca e vã descida de Pandora.

Abro a caixa, de mim mesma à mercê,
Sou presa de memórias, retrospectos,
Que desfilam ante o olhar que os revê,
Como Odisseu do Hades vê espectros

Invocados pela Circe, a dura maga,
Para que temendo o que o espera
O herói permaneça em sua esfera.

Assim também hesito e os questiono:
Sois felizes aí mesmo nessa plaga?
Tu, meu Vati, ainda tens teu trono?

18/04/2006

Nota
Tu, meu Vati, ainda tens teu trono?- Alusão ao episódio da Odisséia de Homero, quando, na Ilha de Circe, Odisseu se vê diante do espectro de Aquiles, que apareceu ao Circe invocar a sombras do Hades para amendrontá-lo com seu destino mortal e fazê-lo aceitar a imortalidade que ela lhe oferecia. Odisseu ao rever Aquiles, disse a este: "Aquiles, eras o maior de nós... certamente deves ser rei aí no Hades". E Aquiles respondeu: "Eu preferia ser um escravo no mundo dos homens a ser rei aqui no mundo das sombras..."

*Vati- "Papai", em alemão, pronuncia-se "Fáti" ( de Vater, pai, pr. Fáter ). É como chamávamos nosso pai, Werner Friedrich Welt, também dito "o Maestro". Nosso pai era formado em Medicina, mas quase não exerceu a profissão, a não ser em ocasiões de emergência . Era um magnífico pianista clássico, virtuoso, especializado nos grandes românticos, embora também tocasse Bach muito bem. Tinha grande cultura literária e era mesmo um erudito. Tinha a postura de um rei, era respeitado por todos, na estância e aonde fosse. Alma lhe tinha veneração e uma adoração comoventes. Ela era a sua preferida...
(Lucia Welt)

O real e a Poesia (De Alma Welt)
649

Pra penetrarmos o real e sua essência,
Ao soneto coube-nos fazer emendas *
Conquanto o perigo da demência
Nos ronde desde o tempo das calendas.

Os gregos, que vão sempre além do muro,*
Vadearam uma vez o mesmo rio,*
Mas agarrados aos deuses, por seguro,
Aos quais nem eu mesma renuncio.

E jogados na caverna escura e oca, *
De sombras, sem a luz no céu da boca,*
De Diógenes não temos nem o lume *

Que nos faria enxergar à luz do dia,
Pra não sermos o mero galo implume,*
Mas os filhos de Orfeu e da Poesia...

(sem data)

Notas
*Ao soneto coube-nos fazer emendas - alusão ào ditado "Pior a emenda que o soneto". Parece-me que Alma quis dizer que, na intenção de aprofundarmos as intuições dos gregos sobre a Natureza e sua Física, complicamos e nos afastamos mais do sentido do real que eles, povo de gênio, tinham...

*Os gregos, que vão sempre além do muro- alusão velada aos muros penetrados de Tróia, como metáfora da curiosidade científica e filosófica dos gregos.

*Vadearam uma vez o mesmo rio- alusão ao famoso fragmento de Heráclito de Éfeso: "Não podemos atravessar duas vezes o mesmo rio. Nós mesmos somos e não somos..."

*E jogados na caverna escura e oca - alusão ao famoso "Mito da Caverna", de Platão, mito esse tão caro aos psicanalistas do século XX.

*De sombras, sem a luz no céu da boca- alusão a detalhes do Mito, em que os seres colocados na caverna vêm somente sombras distorcidas, projetadas de fora, pela luz que vem da boca da caverna, e cuja (falsa) realidade eles temem...

*De Diógenes não temos nem o lume- alusão à famosa anedota sobre o filósofo Diógenes, de Atenas, que uma vez saiu com uma lanterna acesa, pelas ruas, em pleno dia, e quando interpelado respondeu: "Estou procurando um Homem... "

*Pra não sermos o mero galo implume- alusão à outra famosa anedota de Diógenes, que tendo ouvido Sócrates dar a definição do homem (por derrisão) como "um bípede implume", depenou um galo e saiu com ele erguido na mão, pelas ruas de Atenas, gritando: "Eis o Homem de Sócrates!"
(Lucia Welt)


O Tesouro (de Alma Welt)
648

Há na estância o mito do tesouro
Muito anterior à luta farroupilha,
Que pra tapar da guerra o sorvedouro
Bento havia procurado em sua trilha,

Mas não tivera o tempo necessário
Para escavar ou dar uma peneira,
E largara essa tarefa de corsário,
Que não estava ali pra brincadeira...

Mas eu que vim ao mundo com fartura
De tempo para as ilusões e mitos,
Que, se não a meta, é minha procura,

Enquanto eu na lenda me envolvia,
Como Vestal celebrei secretos ritos,
E meu Tesouro encantou-se-me em Poesia...

(sem data)




A vela no poente (de Alma Welt)
647

Alguém me disse que esta minha ânsia
De contar tudo tudo que me ocorre,
Não é senão da juventude o porre,
E por certo passará com a distância,

Como quando na velhice recuamos
E olhamos nossa vida da janela,
Onde, sábios, afinal nos instalamos
Para olhar distante e branca vela,

Que, ao vento, se apequena lentamente,
Quando então, nossa vida, em privilégio,
Se aproxima da glória do poente...

Mas sentindo meu olhar meio absorto,
Sacudi-me, reagindo ao sortilégio:
“- Sou eu a branca vela e não o porto!”

05/04/2005


O Mesmerista (de Alma Welt)
648

Meu irmão convidou um jogador,
Seu colega aventureiro e “mesmerista”,
Que dizia anular qualquer pudor
Até de antiga freira ou normalista.

E que usara esse poder para vencer
No pôquer, o que quase lhe custara
A vida e mais um olho de sua cara
Retirado a canivete, sem tremer.

Mas a pedido dele em reservado,
Deixei caolho-rei dos fascinantes
Exercer o seu dom em pleno prado...

E voltei com o olhar esgazeado
Com passos abertos, claudicantes,
E o ar pleno e perdido das amantes...

(sem data)


Nota
Acabo de descobrir na Arca da Alma este curioso soneto, nitidamente humorístico, em que Alma conta um episódio real, que em parte testemunhei. Rodo trouxe, para passar uns dias aqui na estância, um "colega" jogador de pôquer profissional, que realmente tinha um olho de vidro e que contou que tinha usado seu dom de hipnotizar em pleno jogo privado com um milionário, e descoberto, passou por maus bocados, quase foi morto e acabou perdendo um olho como lição, retirado a canivete por um capanga do dito ricaço. Insinuante, deu um jeito de ser desafiado no seu dom mesmérico pela Alma, extremamente curiosa que ela era. Mas eu não soube na época desse resultado perturbador, que se deduz deste soneto... Teria a Alma, hipnotizada, sido estuprada em plena coxilha por esse pilantra? (Lucia Welt)


Não ao anátema (de Alma Welt)
647

Me disseram que amar o meu irmão
É uma doença que tenho que tratar.
Mas jamais concordarei com tal visão,
Que um amor não serei eu a extirpar,

Sob pena de lesar-me a existência,
E ficar só e vazia, de repente,
Que sem amor a vida é quase ausência
E o Nada entra, fica, e nos desmente.

Pois lembro que expulsos do Jardim
E arrastados debaixo de um berreiro,
Rejeitei a dor do anátema... em mim:

Não reneguei o amor de meu irmão,
Que, audaz, afrontei o mundo inteiro,
E o canto em prosa e verso desde então.

(sem data)


A vida e seu duplo (de Alma Welt)
646

Viver só por hoje, agora, aqui...
Sim, mas sem deixar de lado
A carga do saber acumulado,
Com os erros também, que cometi.

A dádiva divina da memória
Terra, casa, lar, solo, querência,
Dá ao ser firmeza e consistência,
Somos súmula viva de uma história

Que é nossa pelos nossos ancestrais,
Que de lutas e amor deixaram fruto,
E a mim, a própria vida que desfruto.

Bá! Com tal sentido e coerência,
Olvidava o duplo da existência:
Nosso mistério e enigma fatais...

12/11/2006


Ode à Alegria (de Alma Welt)
645

A dor do mundo vem do coração,
De nossa angústia, peso e compunção;
Mas a alegria, ah! essa é profunda,
Que de água meus olhos quase inunda.

É a tal celebração na despedida,
E o abraço ardente na chegada;
É quando mais a gente fica unida
E mais se sente amar e ser amada.

Mas se só amamos quem amamos,
Perdemos o valor de sermos homens
Em meio a tantas lutas e desordens.

Alegria congrega e unifica,
Traz de volta a inocência e reivindica
O Éden que era em nós, e o deixamos...

(sem data)


O Grande Parque Místico (de Alma Welt)
644

A vida não é senão algodão doce:
Metidos numa roda muito quente,
Ficamos enredados qual se fosse
Nuvem nauseante em fios de gente.

Ou é um realejo à manivela,
Na mão do Criador que é um cigano
Cujo verde periquito nos revela
Bom destino, por certo ledo engano.

Há quem diga que, vãos balões de gás,
Queremos só subir a quaisquer custos,
E em mãozinhas lá nos vamos, num zás-trás.

Mas, creia, o trem fantasma e seus sustos,
Como a casa dos espelhos distorcidos,
Somos nós, medo e riso refletidos...

26/08/2006



Alma, casada (de Alma Welt)
643

Minha Matilde me quer fazer rezar
Pro seu Santo Antonio das gurias.
Ela acha que preciso me casar
Pra parar de fazer estrepulias

E correr louca atrás de meu irmão,
Escândalo antigo que agonia
A minha boa bá que isso já via
Desde que éramos piás no casarão.

Mas lhe digo enquanto se persigna:
"Sabe, querida, com Rodo sou casada,
Secreto rito celebrou a minha fada,

No bosque foi o enlace consumado.
A culpa não é da fada, mas do Fado,
Se aos teus olhos ainda sou indigna"...

(sem data)


De sonhos e de sagas (de Alma Welt)
642

Quando vem a consciência de existir,
Eis quando me sinto mais desperta.
Não somente em solidão, mas no devir
De minha projeção como poeta.

Não trocaria a vida de meus sonhos,
Meu dom de criar ou recriar,
Pela vida aventureira dos bisonhos,
Que mal sentem, por não saber contar.

Shelley e Byron um pirata agregaram
Ao seu seleto grupo junto ao lago
Onde com Mary um Prometeu sonharam,

Mas logo descartaram aquela praga
Ao constatar o quanto ele era vago,
E inconsciente de sua própria saga...

27/04/2005


Notas
*devir - Termo de filosofia que significa o "vir-a-ser", tornar-se, enquanto projeção idealística do ser.

*Onde com Mary um Prometeu sonharam - Lord Byron, junto com o casal Shelley, Mary e Percy, este, grande poeta como ele, passaram alguns verões numa mansão alugada, Villa Diodati, à beira do lago de Geneva, na Suiça. Ali Mary Shelley surpreendeu ao escrever (por causa de um "concurso " entre os amigos) sua obra imortal, "Frankenstein ou o Moderno Prometeu". André Maurois, no seu romance biográfico "Don Juan ou A Vida de Lord Byron", conta que, eles, tendo conhecido e agregado ao grupo um verdadeiro pirata (que se revelou um parasita, claro), desses que abordaram e pilharam navios nos oceanos, se decepcionaram logo, ao perceber que esse homem, no convívio pessoal era desinteressante e nada sabia contar do que vivera. ( Lucia Welt)



A Última Mascarada (de Alma Welt)
641

Rodo, ainda sermos belos é o sinal
De que não estamos em pecado.
Perdida, a alma traz cenho fechado,
Ricto de agonia em signo do mal.

Vê, somos leves, rimos tanto,
A primavera não nos abandonou;
A relva que pisamos como um manto
Jogado sobre o lodo, nos honrou.

Somos nobres, ergamos a cabeça,
Mal uma voz ou outra se elevou.
Pisemos e subamos na caleça.

Um baile de alegrias nos espera,
Se não no mundo, na corte que restou
Na derradeira Mascarada desta era...

(sem data)

Para o Guilherme * (de Alma Welt)
640

Ainda posso ouvir aquele canto
Da juventude bela e tão naïve.
Em segundos ia eu do riso ao pranto
Apesar do cultivado dom que tive

Desde cedo para o verso aprimorado
Em que eu, ingênua e talvez tola
Falava com saudade do passado,
Eu, que não passava de uma rola

A arrulhar pensando ser ouvida
Embora fosse cobiçada presa
Só por ser e existir em minha pureza.

Quanto eu teria ainda de sofrer
Para ter o privilégio de ser lida
Por grande artista que veio só me ver...

29/07/2001

Nota
* Guilherme- trata-se de Guilherme de Faria, mestre pintor e cordelista paulistano, que em Julho de 2001, a Alma estando já há dois anos em São Paulo como pintora, ouviu falar dela pela grande gravadora Renina Katz, e, curioso resolveu procurar minha irmã em seu ateliê, que afinal era na mesma rua em que ele tem o seu próprio há mais 50 anos. Após a morte da Alma, em 2007, Guilherme me confessou, que tinha ouvido falar da extraordinária beleza física da Alma e que foi isso que o fez procurá-la, ocorrendo então descobrir uma extraordinária escritora e Poeta. Não é preciso dizer que o velho artista apaixonou-se pela totalidade dos dons da Alma, mas ele mesmo atribiu seu amor, principalmente à doçura (de "rola") e candura imprevistas na personalidade de tão grande artista. (Lucia Welt)


O ser e o nada (de Alma Welt)
639

Não podemos entender o que é Morte
Tampouco sabemos o que é Vida
A cultura quer trazer algum aporte,
A coisa é o que lhe é atribuída.

Mas se nossos hábitos deixamos
E esquecemos um pouco das lições,
Nada refaz o senso que emprestamos,
Cai o mistério sobre as mínimas ações.

Vede como é fútil o dia a dia,
A passagem das horas é atroz,
Nos debatemos a falar algaravia,

Um código de sons balbuciados,
Mero jogo de crianças nos gramados
Enquanto avança a sombra sobre nós...

(sem data)

Funhouse (de Alma Welt)
638

Quantos mundos existirão no mundo?
Infinitos, responderei com espanto.
E entre tantos, só já não confundo
O que demônio é... e o que é santo.

Vejo reflexos, ouço ressonâncias,
Fragmentos que formam um mosaico,
Fazendo do real e suas instâncias
Um jogo de montar um tanto arcaico.

Assim, nada é mesmo o que parece,
E é preciso cada fato interpretar
Para entender a teia que se tece.

Mas não pode apostar em seu juízo
Quem, por viver, como eu crê habitar
Uma casa de espelhos e de riso...

14/05/2005

Nota
Ontem assisti, fascinada, na TV a cabo o magnífico show "Funhouse", da talentosíssima e graciosa cantora Pink, cujo cenário, figurinos e coreografia eram baseados na "casa do riso" (e dos espelhos) dos grandes parques de diversão (tinha inclusive belíssimos números de trapézio com a própria cantora como trapezista). Fiquei entusiasmada e comovida. Então, descobri este soneto na Arca da Alma, sem título, e em homenagem à linda Pink, entitulei-o Funhouse. Imagino que Alma aprovaria. (Lucia Welt)

http://www.youtube.com/watch?v=ZE2XCbkXWxo


Carnaval no pampa (de Alma Welt)
637

Quisera último e antigo Carnaval
Em que pudesse despir-me da persona
E embarcar na minha própria nau
Mesmo que me fosse dar à zona.

Sou eu mesma minha máscara, descubro,
E com ela enfrento meus receios
Ao aquecer meu coração ao rubro
Armando meus ardis por outros meios

E mesmo ser a Colombina desvairada
Que na verdade sou, pois tendo aberto
Um palco para toda a peonada,

Ou desnuda deixar que me alcançasse
A nave de desejos que desperto
Nem que ao pé do cais eu naufragasse...

(sem data)


Colombina (de Alma Welt)
636

É Carnaval e então a carne vale
E pelo oposto até tento me vestir
De Colombina, e que eu me rale
Para um Pierrot aqui me descobrir.

Na Pampa a fantasia está no lucro
Mas só de “gáltcho” macho e de chinoca;
Coringa foi tirado até do truco,
E Arlequim também não sai da toca.

Mas, delirante, correndo neste prado
Quero despir meu corpete e o saiote,
Deslocados que estão para o meu fado.

E logo nua, colocando a fantasia
No topo de um mourão, mero pacote,
Ateio fogo, como outrora se fazia...


20/02/2004

Os marcados (de Alma Welt)
635

Ponderemos, Rodo, meu irmão:
Só temos um ao outro, pois malditos
Nossa fama correu, não o sertão,
Mas o Pampa mesmo, dos conflitos.

Ontem mesmo puxaste a tua arma
A defender o teu amor, a tua irmã,
Em mais uma vã lide temporã,
Tardio duelista, que é teu carma...

Aos marcados só resta o desafio
E se ao passar nas ruas das aldeias
Temermos o apupo e assovio

Que nos faça corar, indignados,
Só se por me amares já me odeias,
Estaremos perdidos, derrotados...

(sem data)


A longa espera (de Alma Welt)
634

Estarei sentada aqui nesta varanda
Ou junto à nossa cerca de jasmim,
Esperando por quem tão longe anda,
Já que, Alma, nem eu mesma sei de mim.

Bá! A quanto tempo espero assim!
A quanto... ouço roncos à distância
Do teu veloz e novo Aston Martin,
Que disseste supriria a tua ânsia

De mais vertigem, ventos que haveriam
Nas estradas do mundo e que viriam
Todas convergir aos nossos muros.

Vem! Tu prometeste, não me deixes,
Ou logo estarei muda como os peixes,
Que já nem posso fazer versos mais puros...



A filha natural (de Alma Welt)
633

Vivendo no final do fim da Terra,
E crescendo com o mais belo guri
Que havia no Mundo, que era aqui,
Só me podia dar amor e guerra.

Deu amor... que o Fado se encantou,
Pela ardência desse par em sua pureza
E conivente ou cúmplice, deixou
Que cedessem os irmãos à natureza.

Sob a árvore de colorados pomos
Afinal fomos vistos pelo mundo
Através de olhar severo, mas fecundo,

Pois punidos, compensados também fomos:
Arte, filha natural da rebeldia
Foi o rebento que nasceu, e era Poesia...

(sem data)

Nota
Encontrei agora na Arca, este soneto inédito, um dos muitos em que a Alma aborda o episódio de seu amor incestuoso por nosso irmão, que motivou um humilhante flagrante por nossa mãe, uma surra e uma dolorosa separação dos irmãos, que durou anos. Alma sempre se refere a esses fatos, que marcariam sua vida e arte para sempre, como sua vivência pessoal da expulsão do paraíso terrestre, o Éden, cujo centro era a macieira do nosso pomar, debaixo da qual tudo começou...
(Lucia Welt)



A Nau, ou O Mistério de Viver (de Alma Welt)
632

É tão fina a sintonia do real
Que podemos perdê-la por descuido.
O menor toque errado no dial
E teremos só estática, ruído,

Além dos tais fantasmas do passado,
Aqueles que geramos todo dia
Formando, paralelo, um outro fado,
Que da rota verdadeira nos desvia.

Mas, o mistério de ser e estar na vida
É que sendo tão frágil o equilíbrio
Como nau na procela enraivecida

Que quer ver capitão vencido e morto,
Singramos e empenhamos nosso brio
Qual se nos aguardasse um belo porto...

28/09/2006



O eterno retorno (III)(de Alma Welt)
631

As crianças adoro ver brincando,
O quanto é belo, riem e fazem rir,
Pois vejo que conseguem transferir
Os gestos dos adultos se esfalfando,

Para um plano mais leve, sem o drama,
Como na hora de dormir, o homem sério
Escova o dentes, bochecha e põe pijama
E talvez mesmo reze a um ser etéreo

Como a Virgem, um santo ou o Jesus,
Para de manhã, depois do banho,
Café, jornal, depois fila do rebanho.

E me ocorre que o homem nunca cresce,
Tudo são jogos infantis e nos conduz
De volta àquele riso, aquela prece...

08/06/2005



O Segredo da Alma (de Alma Welt)


Alma Welt- No olho mágico- óleo s/ tela (tondo) de Guilherme de Faria, 60cm de diâmetro, coleção Rafael Cortez( CQC), São Paulo

Encontrei, finalmente, um soneto em que a Alma revela o pacto que ela fez com o artista Guilherme de Faria, um grande mestre paulistano, quando se conheceram no "auto-exílio" de cinco anos que Alma se impôs, naquela cidade, após a morte de nosso Vati.
Os leitores da Internet que duvidam da "existência real" da grande poetisa, o fazem justamente pela ausência de fotos dela e de sua família, na estância, etc, no âmbito da Internet. Já me referi algumas vezes a esse pacto feito entre a Alma e o artista, único pintor brasileiro a quem a Alma confiou sua imagem, a partir desse "pacto" que aconteceu entre eles no quinto dia após o primeiro encontro, em 15/07/2001, nos Jardins, em São Paulo. Eles muito se amaram, e praticamente se viam diariamente no ateliê da Alma, onde ela posava para ele em toda a glória de sua nudez deslumbrante. Nota-se que o pintor representa os cabelos da Alma ora louros, ora totalmente ruivos. Era mesmo dificil dintinguir a predominância dos tons que pareciam se alternar conforme o dia, a luz, etc, e (pasmem!) o estado de espírito da nossa Musa (acreditem ou não) Eis o soneto:

O Segredo da Alma (de Alma Welt)
630

Não guardar segredos para o mundo
Foi o meu propósito e mistério.
Ninguém como eu mesma foi mais fundo
Sem confessionário ou batistério;*

Uma volúpia de revelar também,
Nos impulsos de um ingênuo coração,
As ânsias sem alívio de oração,
Desta alma que o corpo mal contém.

Doravante um segredo não revelo:
Meu rosto, que dizem ser tão belo,
E eu mesma o sei perante o espelho,

Será mostrado pelo olho de um artista *
Cuja paixão será última conquista,
Em minha alvura dois pontos de vermelho.*

25/07/2001

Notas

*sem confessionário ou batistério - Alma não se considerava católica, nem sequer cristã. Nosso pai, livre pensador e agnóstico, a retirara dos braços da Mutti, nossa mãe, a "Açoriana" (como Alma a chamava ), católica, que tentava furtivamente levar o bebê para a cidade mais próxima para batizá-la, o que não ocorreu, pois nosso pai, tendo percebido, perseguiu a cavalo a charrete conduzida por Galdério e a interceptou, tomando a Alma dos braços de sua esposa e dizendo categoricamente: "Essa é minha!"

*será mostrado pelo olho de um artista- Única referência descoberta até agora, num texto da Alma, ao referido "pacto" com o pintor, talvez o maior reponsável por esse "Mistério Alma Welt". Mas,devo reconhecer que a Alma, com toda sua doçura, malgrado grande inteligência, e com sua tendência a confessar-se quase ingenuamente, era mesmo uma personalidade misteriosa em suas contradições, pela estranha beleza com que revestia tudo o que fazia e tocava em sua vida. Poucos seres neste mundo viveram, como ela, em permanente dimensão poética.

* Em minha alvura dois pontos de vermelho- Alma, que era de uma brancura extrema, como uma estátua de alabastro, tinha cabelos belíssimos que produziam um lindo contraste porque eram arruivados. Mas pode-se notar em alguns sonetos que, às vezes, ela se referia também, eroticamente, aos seus pelos púbicos, que eram ruivos.



Expedição ao Cerro (de Alma Welt)
629

Bem cedinho partimos pro Jarau
Com nossas mochilas e cajados.
Chegamos, não mais jovens e corados,
Tendo atravessado o rio a vau.

Perdi nessa jornada um meu amigo,
Outros tiveram medo e desistiram
Os amores que, valentes, persistiram,
Surpreendentemente estão comigo.

Os que restamos com fé e sem cobiça,
Mantendo a esperança como antes,
Chegaremos à sala dos diamantes

Onde a Salamandra se espreguiça
Do sono milenar enquanto espera,
Vencermos em nós mesmos nossa fera...

(sem data)



A prece de minha mãe (de Alma Welt)
628

Pobre minha mãe, que me queria,
Sim, puxar pra baixo, receosa,
Pois temia pela mente da guria
Que ela via crescer em verso e prosa,

Mas sobretudo em beleza e impudor,
Com aquela tendência a desnudar-me
A pretexto de uma ânsia ou de calor,
Com volúpia mesma, de mais dar-me...

Quantas varadas finas de marmelo!
E um dia até queimou a minha resma,
Pois que calar queria o que mais zelo.

Mas tudo se atenua e se evanesce
Ao me lembrar de ouvi-la numa prece:
“Ó Virgem, protegei-a de si mesma”...

22/05/2006


A morte de Allan Poe (de Alma Welt)
627

Nossas faltas perdoadas almejamos,
Conseguirmos será graça alcançada,
Pois a carga final que carregamos
Mantém no corpo a alma lastreada.

Quanto agonizou o Poe poeta!...
Muitas horas no leito, agoniado,
Pois bêbado, caíra na sarjeta
Onde fora parar, pauperizado.

E gritava como quem se desespera,
Não como quem avista um porto:
Reynolds! que ninguém soube quem era.

Mas no último momento se aquietou;
"Deus, se apiede de minh’alma", murmurou,
Deu um suspiro longo e estava morto.

12/01/2007

Nota
Encontrei agora há pouco, na Arca da Alma, este estranho e dramático soneto, que conta de maneira prodigiosamente sintética, com muita fidelidade, a morte do grande e triste poeta e escritor Edgar Allan Poe, um dos preferidos da Alma. A obra de Poe é genial e profunda, e é impressionante que ele tenha tido uma veia humorística e que os contos dessa vertente sejam muito mais numerosos que os contos de terror que o consagraram. Apenas se pode deplorar que ele fosse alcoólatra, muito pobre e infeliz. Uma alma verdadeiramente atormentada. Pesquisando, encontrei essa referência sobre este nome que Poe chamava gritando, repetidamente, em grande desespero: Reynolds! que até hoje ninguém descobriu quem foi. Eis aí um mistério literário, ou pelo menos biográfico... Alma não poderia deixar de citá-lo. (Lucia Welt)


A Lição de Rilke (de Alma Welt)
626

Sim, os versos vida própria têm,
E um puxa o outro, de enfiada,
E o que dizem, por certo não convém
Rejeitar como se vindos fossem nada.

Os versos são filhos da experiência...
A certo jovem poeta reverente,
Mestre Rilke o dizia com veemência,
Que não podia haver escolha diferente,

E à questão feita de se poder viver
Acaso fosse proibido de escrever,
A si mesmo ele respondesse “posso”,

Já não teria o direito de fazê-lo,
Pois se Poesia já não nos é pão-nosso,
Ainda é sangue, olhar, gesto e apelo.

(sem data)

Mãe solteira (de Alma Welt)
625

Entre as muitas crias de minh’alma
A dos sonetos, creio, é a primeira.
Na verdade, com orgulho, dou a palma,
Que filhos eles são de mãe solteira,

Amados duplamente e protegidos
Com lambida tanta em suas peles,
Preciosos, uns aos outros acrescidos,
E me nutrindo bem mais que eu a eles.

Me reconstruo a cada bom soneto,
Raríssima opção de crescimento,
Ou “anacrônico recurso obsoleto”,

Dirão alguns, sem meu conhecimento,
Pois sei que a mim não ousarão dizê-lo,
Vendo a árvore crescer, de tanto zelo.

19/07/2004

O Eterno Retorno (II) (de Alma Welt)
624

Regressaremos ao ponto de partida
Que foi há muito tempo, nas calendas,
Num tempo mais sagrado para a vida
Em que éramos nós mesmos nossas lendas.

Nos primórdios de uma aurora enevoada
Em que nós nos fundíamos aos deuses
E subíamos ao Olimpo em revoada
Depois dos ritos de nossa sacra Eleusis,

Os rituais de morte que eram vida,
Em que descíamos ao vale noturno
Para provas necessárias à subida.

E então saberemos nossa origem,
Não no berço, mas no seio de Saturno
Que é dos próprios deuses a vertigem...

(sem data)


Notas
Acabo de descobrir este soneto na Arca da Alma, mais um de vários de tema análogo. E me lembrei de que, uma vez, conversando com ela à luz das estrelas, percebi que minha divina irmã acreditava mesmo nos deuses do Olimpo grego(ela uma vez afirmou ser uma "órfica"), assim como nos do Walhalla de nossos ancestrais germânicos . Olhei-a fundo nos olhos e fiquei pasma de ver neles a expressão e o brilho de uma absoluta ingenuidade e sinceridade. Sendo tão culta, às raias da erudição, como pôde ela conservar essa pureza é que o mistério e sacralidade que todos nós atribuíamos à nossa grande Poetisa. Sim, nós mesmos, sua família, a venerávamos desde guria como uma pequena deusa... (Lucia Welt)

* Eleusis- Região e templo onde ainda antes do século VII, se realisavam os rituais dos "Mistérios de Eleusis", da doutrina "órfica", o Orfismo, religião iniciática que tinha um teor reencarnacionista. Seus adeptos realizavam um ritual secreto em que realizavam a Catábase, isto é , causavam a própria morte (não se sabe como) e desciam ao reino de Hades (no soneto da Alma, "vale noturno"), o Vale do rio Letes (rio do esquecimento, de cujas águas não bebiam, (vide o Mito de Er, na República de Platão) e depois de um rito subterrâneo de escolha de uma nova vida subiam novamente para vida, como iniciados, um plano muito superior aos homens comuns.

* Saturno- Como era chamado pelos romanos o deus Cronos, o Tempo, dos gregos (deus primordial, o primeiro de todos os deuses, e que devorava os próprio filhos, isto é, todos nós). Alma aqui usou o nome romano por uma questão de rima.



Amor e Arte (de Alma Welt)
623

Francamente eu preferia a Morte
Se na vida não mais houvesse Arte.
Sei que é radical e muito forte
Proclamá-lo aqui e em qualquer parte.

Mas Amor é básico e irradiante
E faz rodar a Terra no seu eixo;
O sol e outras estrelas, disse Dante,*
E de citar il Bardo não me queixo.

Se é a Arte que a vida nos sublima
Com as cores mais belas da paleta,
O Amor é quem pinta e ilumina,

Faz obra-prima de simples garatuja,
Cria um Iris em pincelada preta,
E torna lindo o filho da coruja...*

16/08/2005


A Confraria do Retrós (de Alma Welt)
622

Não mais contem comigo, ó ociosos,
Que aos mistérios preferem ninharias,
E acreditam seus flertes mais gozosos
Pois agradam o comum dessas gurias.

Não tenho tempo, que é curto e veloz,
Embora tenha o tempo deste mundo
E talvez de um outro, bem no fundo
Do tear que é cobrado a todas nós.

Mas se a mim foi dada outra arte
Não posso e não quero fazer parte
Dessa grande Confraria do Retrós

Ou do tricô, crochê e outras rendas
Que ocupam até hoje vossas prendas,
Penélopes tardias, mas... sem voz.

07/06/2006


Ensejos e reveses (de Alma Welt)
621

Terei vindo com o dom de escrever,
Mas só recentemente descobri
Que a minha missão é a de ser,
Que pra isso vim e... escrevi.

A inspiração que me atribuem
Não é a minha, simplesmente,
Mas a que causo em certa gente,
Alento que em si mesmos alguns fruem.

Seria isso sugestão ou só viés,
Mas quero acreditar pois sinto e vejo,
O que me fez persistir após revés:

O mal que um desejoso me causara
E que a mim me atribuíram dar ensejo
Somente por ser bela, nua, e... rara.

(sem data)


Nota

Este soneto que, comovida, acabo de descobrir na Arca da Alma, aborda uma questão delicada de nossas vidas. Mas como a Alma se propôs desde sempre a contar tudo, absolutamente tudo, de sua vida, e esse fato ao contrário de lhe tirar o mistério parece tê-lo aumentado (a julgar pela opiniões e debates de seus fãs e leitores na Internet) resolvi agora também revelar ou confirmar algo que a poetisa contou no seu romance A Herança: Sim, meu ex-marido Geraldo (falecido), foi esse "desejoso" a que Alma alude no seu soneto. Esse homem, apesar de ser o pai dos meu filhos, se revelou um bandido, durante o episódio da luta familiar entre a Alma, ele próprio e nossa irmã Solange de quem ele se tornaria amante e cúmplice no roubo do espólio de nosso pai. Esse conturbado episódio foi agravado pelo estupro de minha irmã por esse bandido e adúltero, que aliás, talvez por justiça divina acabou assassinado por um membro de sua quadrilha depois de ele próprio ter atirado em Solange, que acabou morrendo nos braços da Alma, num perdão mútuo que foi uma trégua na desgraça que reinava sobre esta casa. Sei que isso parece um imbrólio dos diabos, ou excessivamente romanesco, mas reamente aconteceu, e pensei que o desenlace redentor atenuaria os traumas e seqüelas deixadas por tão trágicos acontecimentos em nossa famila. Mas, a verdade é que esse estupro deixou marcas profundas na alma da doce e genial poetisa, minha irmã, declanchando uma depressão bipolar que talvez a tenha levado, anos depois, à sua morte trágica. (Lucia Welt)



Lied (de Alma Welt)
620

Esta dor que sinto mal se explica,
Pois vem d’alma e não do coração,
Que este me é alegre e justifica
O brilho que nos olhos me verão.

Poucos deram pelo pranto da guria
Que na coxilha, sim, na vastidão,
Cantar ouvem numa tal algaravia
Que é somente um lied, em alemão.

Mas nesta ambigüidade que não vêem
Refugio-me pra ter meu próprio mundo
Embora eu seja dele uma refém...

E apesar de alguns lances indigestos,
A beleza que emana dos meus gestos
Vem de fonte cristalina, bem do fundo.

(sem data)


Palmo e meio (de Alma Welt)
619

Poderei desatar um dia o veio,
Libertar o coração, a alma, e tudo
Que luta pelas asas, sem contudo
Erguer-me mais além de palmo e meio?

Todavia, o que já faz alguns pasmarem:
Ver meus pés se despregando mal e mal
Do solo, asas abrindo sem me alçarem
Pois que vieram faltando o manual...

Que esforço pr'unir-me sem que apele
Com quem me fez tão bela e tão covarde!
Tanto medo que me eriça ainda a pele!...

Mas persisto soneto após soneto
E um pouco deixo ver do que prometo
Pairando enquanto o fogo ainda arde...

27/12/2006


Som e fúria (de Alma Welt)
618

A vida é a estória, só, de um louco,
Cheia de som e fúria, e sem sentido,
Como disse o Bardo esclarecido
Para o nosso ouvido ainda mouco?

Bem provável, pois não encontro par
No meu próprio sonho, e, ao contrário,
Tenho muito, por meu reino, que lutar
Neste pampa que me coube por cenário.

Pois a Poesia é vista com reserva,
Se não for para cantar a gauchada
Depois do chimarrão de amarga erva.

E, sombra a avançar pela coxilha,
Seria eu apenas prenda amalucada,
Se não fosse do patrão a bela filha...

(sem data)


Meu credo (de Alma Welt)
617

O que me faz crer que Deus existe
Não é uma doutrina exorbitante,
Mas a própria Natureza que persiste
Mesmo agredida a todo instante.

Desde o primeiro riso do menino
Ao livre crescimento de uma planta;
Ao ar que respiramos, antes fino,
Agora grosso e pesado como manta.

Mas pra que a descrença não me morda
Ouço a grande soprano não mais gorda
E um portento a tocar um violino

Maravilhosamente e desde antes,
Quando o arpejou e era franzino,
Brincava e sonhava com elefantes...

(sem data)




Outros tempos (de Alma Welt)
616

Bá! Como corríamos no prado!
Havia flores de todos os matizes,
Risos e canções por todo lado,
Os tempos eram outros e felizes...

Olhar estrelas e cantar à lua cheia,
Algo que no ouvido ainda soa,
Quando se apagava uma candeia
Para na varanda estar à toa

E ouvir os rumores circundantes
Como os cantos vagos e dispersos
Dos sapos e o latir de cães distantes.

Também, meu pai Maestro, todo ouvidos,
Instando-me a declamar uns versos
Que nos pusesse a todos comovidos...

08/11/2006



Cada homem é uma Ilha, ou Os sonhos da Razão (de Alma Welt)
615

Poderemos conhecer um ser humano?
Nossas mentes poderão sintonizar
E as palavras e os sentidos conformar
Sem incorrer no velho ledo engano?

Cada um de nós é só uma ilha
Perdida na imensidão do pélago,
Ou então com espaços de uma milha
Formamos infinito arquipélago.

Os continentes?... são inflados egos,
Contrariando a proposta do poeta
Que estava a escrever para uma neta

Ou para alunos jovens bem bisonhos
E tratava de mantê-los todos cegos,
Que da Razão os sonhos são medonhos...

(sem data)


Fim de Análise (de Alma Welt)
614

“Pense na expulsão do paraíso
Como o teu ponto de partida,
E a Vida não mais como o Juízo”,
Disse a Doutora em despedida.

E uma espécie de rumor convulso,
De súbito explodiu naquela sala.
Demorei pra perceber o meu soluço
Vindo de onde mesmo a alma cala.

Então o escuro acervo de Pandora,
Guardado na tal caixa do Medo,
Perdia o seu sentido desde agora.

E aninhando-me à doutora Jensen,
(não importa o que os doutores pensem)
Descobri que era amor o seu segredo...

(sem data)


Final de Análisis (de Alma Welt)
(versión al castellano de Lucia Welt)


“Piense en la expulsión del paraíso
Como tu punto mismo de partida,
Y la vida no más como el Juicio”,
Ha dicho la doctora en despedida.

Y una especie de rumor convulso
De pronto explotó en esa sala.
Demoré a retomar aliento y pulso
Porque en tal momento el alma cala.

Sin embargo el acervo de Pandora
Guardado en su caja de Miedo
Perdía su sentido desde ahora.

Y abrasándome a la doctora Jensen
(no importa lo que los doctores piensen)
Descubrí que amor no es engaño ledo...



Resumo do Exílio (de Alma Welt)
613

Após sete anos de auto-exílio
Nos jardins da grande Paulicéia,
Perdidos meu Vati e até um filho,
Numa rápida e dramática odisséia

Que narrei na novela de um tríptico
Que foi intitulada assim: “Narciso”,
E que tinha um romanesco típico
Das gurias sem o tal dente de siso;

Voltei ao meu Pampa abandonado,
Não sem antes um artista ter amado,*
Embora fosse ele quase idoso.

Mas o saldo positivo da jornada:
Com ele recobrei o antigo gozo
De amar, poetar, viver por nada...

12/02/2006



Lances do Amor (de Alma Welt)
612

Eu cantaria aqui o meu amor
Como outrora os bardos o faziam,
Não apenas com palavras de louvor
Ou aquelas que como fogo ardiam

E subiam ao céu, qual de uma pira
O fumo sagrado de ervas mágicas,
Ao som plangente de uma lira
Entre guerras e despedidas trágicas.

Todavia, a mim cabe relembrá-lo
Quando no seu Porsche ele se afasta
Jogando os meus sonhos pelo ralo.

E enquanto ele carteia num cassino,
Meu raro coração já em subasta,
Espera o arremate do Destino...


(sem data)

Nota
Acabo de descobrir na Arca da poetisa, este soneto dramático, na verdade de tom levemente patético, em que Alma mais uma vez se refere com ligeira amargura e auto-ironia ao seu amor, já conhecido por todos, Rodo, nosso irmão, inveterado jogador de pôquer, aventureiro elegante, aficionado de carros esporte e que depois de moço não pára mais muito tempo aqui na estância, percorrendo os cassinos do mundo no seu Porsche. (Lucia Welt)


Lances de amor (de Alma Welt)
(versión al castellano de Lucia Welt)


Yo cantaría aquí mismo mi amor
Como ayer los Bardos lo hicieran,
No sólo con palabras de honor
O aquellas que con fuego ardieran

Arribando al cielo por la pira
De humo sagrado de hierbas mágicas,
Al sonido lloroso de una lira
Entre guerras y despedidas trágicas.

Todavía cabe a mi rememorarlo,
Si en su Porsche él se aleja sin razón
Retirando mis sueños de su halo

Y en cuanto él juega en el casino
Es como en la subasta, el corazón
Anhelarse el remate del Destino…

03/02/2010

Revisitando o Nada (De Alma Welt)
611

Não nasci no Pampa, vocês sabem,
Mas na beira de uma rodovia
De Hamburgo Novo, na pastagem
Cortada pela estrada que havia,

E que ainda havendo, um certo dia,
Quilômetro fui ver, o trinta e cinco,
Cuja precisa indicação, eu já sabia,
Dispensava uma procura com afinco.

E lá estava eu olhando o nada,
Ou as ervas do meu primeiro berço
Num trecho comum daquela estrada.

Mas ali havia flores e um cruzeiro
Onde ao pé jazia aquele terço,
Um rosário do meu Sul alvissareiro...

(sem data)

No poente (de Alma Welt)
610

Hoje vamos mais longe, meu Galdério.
Atrele a Zóia, nossa égua paciente.
Quero ir ao horizonte, isto é sério,
Sonhei que chegaremos, no poente,

A uma estranha casita de madeira
Onde está o Amor que não conheço,
Que me enviou recado e endereço
Como a última casa da fronteira.

Eu sei que isso parece delirante,
Mas tu me conheces, tenho tino,
Que não perco tempo e sigo adiante

Religando os meus pontos em destaque,
Como aquele seu jogo de almanaque,
A fechar-me um circuito de Destino...

15/11/2006



A Virgem dos Rochedos (de Alma Welt)
609

Sou devota da Virgem dos Rochedos,
A do quadro do Leonardo, vocês sabem.
Eu, às vezes, pra rimar, penso “penedos”,
Que só eles já rezar quase me fazem.

Tanta graça sutil... e as crianças!
Joãozinho se ajoelhando ante o primo
Com tocantes e precoces esperanças,
Mas o anjo certamente é que é divino.

Quanto à Virgem mesma, é sugestivo
O gesto que impõe ao seu infante
Ou que parece protegê-lo, mas distante.

Mas será que o priminho ele abençoa?
Pois seria só um gesto instintivo
Se não fosse a auréola que o coroa...

17/05/2006


O coração da vida (de Alma Welt)
608

Não te vás, ó Rodo, eu te suplico!
Devolvo a chave, sei, fui atrevida.
Falo demais, talvez, complico,
Mas estamos no coração da Vida,

O mundo está aqui como lá fora.
Ou o vejo daqui, por isso fico.
Por quê tens, irmão, que ir embora
Só porque só sei jogar o mico?

Coração sempre tiveste destemido,
Sou tola e pegajosa, que sei eu?
Anseias o teu pôquer de bandido...

Não tens mais paciência com a guria.
Onde, pois, a aventureira se meteu?
Que escreve, chora e se angustia...

25//11/2006


Nota

Acabo de encontrar esta jóia na Arca da Alma, que muito me comoveu. É bem da Alma, em sua paixão de toda uma vida por nosso irmão mais novo, este, sim, aventureiro, homem de ação, apaixonado por carros esporte, velocidade, e pôquer internacional, perigoso. Depois de moço, não parava em casa e corria o mundo, em longas temporadas, percorrendo cassinos e até casas clandestinas de jogo. Muitas vezes esteve em perigo de morte. Alma, companheira sua de infância, de todas as horas, sentia sua falta como de um amor perdido. (Lucia Welt)

__________________________________


El corazón de la vida (Alma Welt)
(versão al castellano de Lucia Welt)


No te vayas, O Rodo, te lo ruego!
Tomé la clave, lo sé, gesto atrevido.
Hablo por demás, con tanto fuego;
De la vida el corazón no está perdido,

El mundo está aquí y en otras partes.
Pero lo vedo desde acá, por eso resto.
Sin embargo, hermano, no te apartes,
Si como jugadora no me presto.

El coraje tienes, desmedido…
Soy tonta y pegajosa, qué sé yo?
Anhelas por tu póquer de bandido…

Paciencia ya non hay con “la guria”,
Cuyo don de aventura se perdió,
Y solo escribe, llora y se angustia…

31/01/2010



Tempo dos horrores (de Alma Welt)
607

Vão meus bosques, vão, ó meus amores!
Eu diria, recordando antigos Vates
De outrora, antes do tempo dos horrores,
Este tempo de cobiça e de "desmates".

Exageras, me dirão vagos doutores,
Houve bomba sem a cuia nem o mate,
Inaugurada no deserto, com louvores,
E jogada em Hiroshima, de arremate.

Esqueceste que tudo já houvera
E Noé pra ter a Arca desmatou
E ainda o rank dos ecólogos lidera.

Mas a vida ainda assim não melhorou...
E que fizeste, além de queixas, ó guria,
A colher flores e a vagar na pradaria?!

(sem data)


Asas (de Alma Welt)
606

O verso tem as tais "asas ligeiras",
Bem posso imaginar aonde vai,
Muito além da coxilha de fronteiras
Com o argente Pampa e Uruguai.

E mais, além do Prata, além dos mares,
Às terras firmes da língua de Camões,
Não terras áridas, areias e bazares,
Onde caiu dom Sebastião com seus barões.

Nada pode segurar meus pensamentos:
O mundo é meu! Esperem a guria!
Que asas abro a tantos outros ventos...

E se algo pode deter-me e encerrar-me,
Não mais será da Morte a ironia,
Beijos que a Moira insiste em dar-me...

26/11/2006


Diário da Guria (de Alma Welt)
605

Ao acordar, o meu soneto matinal
É o primeiro alento do meu dia;
É a página primeira de um jornal,
Um pressuposto “Diário da Guria”.

Aí constam pensamentos das andanças
Pelo prado, aqui chamado de coxilha,
A colher flores entre criaturas mansas,
Minha platéia de um teatro-maravilha.

Mas não pensem que tudo ali são flores:
Há muito sangue a escorrer ainda
Nas páginas seguintes, dos amores

E proezas da guria louca e linda,
Estrela em ascensão, ba! tão modesta,
Enquanto o Tempo escorre pela fresta...



A chorona (de Alma Welt)
604

Embora tendo tantos privilégios
E vir da natureza o meu quinhão
Somado a alguns presentes régios,
Reconheço a humana condição

Em mim mesma, patética e sofrida
Pois tenho uma angústia recorrente,
Na mentira vital interrompida,*
Da tal dura consciência tão presente.

Somos para morte e disfarçamos
Pela vã dignidade que portamos
Pois, dirão alguns, isto é com todos!

E tu, poeta, não és senão chorona
E pensas que essa dor só vem à tona
Nos versos como ressumantes lodos...

(28/11/2006)

Nota

*Na mentira vital interrompida- Esta expressão remete à uma teoria psicanalítica de Otto Rank, da Escola de Viena, segundo a qual, mais ou menos aos três anos de idade, ao notar suas próprias fezes como algo decomposto que vem de si, viria à tona na criança, uma consciência súbita da Morte, que seria fatal não fosse uma espécie de "comporta" que o ser humano ergue na mente a partir desse momento crucial, separando o inconsciente do consciente, bloqueando essa consciência fatídica, para tornar a vida possível. A isto, Rank denominou " A Mentira Vital", que nos permite viver. Esta é a razão de vermos a morte quase como se fosse algo que se passa somente com o outro. Vivemos como se não fôssemos morrer. Os artistas parecem ter uma falha ou rachadura nessa comporta, por onde intermitentemente "ressumam" os eflúvios dessa consciência mortal, na forma de uma angústia criadora. O artista cria para "ludibriar" a Morte...
(Lucia Welt)


Acalantos e sementes (de Alma Welt)
603

A Poesia não foi uma opção,
Mas sim destino certo anunciado
Ainda em meu berço, no sobrado,
Ao ouvir da Matilde uma canção

Que era um acalanto castelhano*
Repleto de uma doce nostalgia,
Alternado com o canto açoriano
Daquela que a sorte não previa

De sua filha, de quem só esperava
Fosse um dia a prenda bem normal
Sem ver que lhe a Poesia semeava.

Uma voz destoante, mas em termos,
Razão tanto do bem quanto do mal,
Que Orfeu há muito paira nestes ermos...

(sem data)


Da Poesia (de Alma Welt)
602

A Poesia é um estado de visão
Ou uma compleição nova da mente,
Um tanto mais bizarra na feição
Do que o normal de toda gente.

O burguês não a quer, que é só consenso,
Pois elegeu o comum e o banal
A que queima dia-a-dia o seu incenso
Para que a vida mude e fique igual.

Mas o Poeta prefere velhos deuses
Secretos, no silêncio dos seus livros
Ou no sótão sem fim de seus adeuses

Ao duo da Beleza e da Verdade.
Ah!... e encontros renovados e furtivos
Com o Amor, o Sonho e a Saudade...

27/08/2006


Gauchadas (de Alma Welt)
601

O tenente vinha vindo, sobranceiro,
Montado no seu pingo, muito sério,
E eu que certamente o vi primeiro
Puxei logo a manga do Galdério,

Que já a mão levou a uma pistola
Antiga, de dois canos, sob a faixa,
Enquanto um pensamento, na cachola
Diz: “Bá! Esta coisa não se encaixa

Nos dias de hoje, neste século!”
E que por certo estávamos de volta
E o tempo era outro, ou só espéculo

De nossa passagem no oitocentos,
Quando os farrapos armaram a revolta
Que o Tempo levou com outros ventos...

12/07/2006


Uma Ilha da Mente (de Alma Welt)
600

Um poeta descreveu a sua ilha
Como o cenário, em sua mente,
Da paixão, cegueira e maravilha,
Pela sua mulher bela e demente.

Faz tempo e o poema subsiste,
Conquanto não me lembre nem do título;
Eis, creio, no que o Poeta insiste:
Em si mesmo escrever cada capítulo

Da legenda de amor em seu destino,
Que é um e sempre o mesmo, malgrado
As diferenças de cenário e de tablado.

Se perguntam se um verso ainda sei,
Só citarei o som de um violino
Que havia no poema e... que lembrei.

(sem data)


Pelo vento (de Alma Welt)
599

Aonde foram os amigos tão fiéis
Que alegravam a casa em burburinho
E risos de abundantes decibéis,
E que fariam falta no caminho?

O ressonar já se sente, da Natura,
E não se ouve mais a tal zoada
Dos guris a fazer caricatura
Dos gáutchos de sela e de invernada.

Mas no silêncio que reina, secular,
Posso de novo minh’alma auscultar
E saudar os que agora espectros são:

Anita, Giuseppe, Netto e Bento,
Voltam saudosos pra rever o casarão,
Como farrapos trazidos pelo vento...

17/07/2006


Metafísica, ou O vôo do mosquito (de Alma Welt)
598

Às três ou quatro conhecidas dimensões
Que podemos constatar ou só inferir,
Se juntará a mais sutil das ilações,
Que é a nossa dimensão de Existir.

Entretanto dela não sabemos nada,
Nem o sentido, quanto mais definição.
Todavia persistimos na jornada
Como se isso fosse mesmo conclusão.

Mas o simples mistério da Existência
Descortina para nós o Infinito
Que por certo disso tudo é a essência.

Mas o que é a Essência não sabemos,
Pois ainda nem sabemos do que vemos
Além do simples vôo de um mosquito.

(sem data)



Quase (de Alma Welt)
597

Alguns de nós ficamos quase ricos,
Alguns, quase felizes, mas nem tanto;
Outros restamos quase invictos,
E houve um que quase virou santo.

De nós, de nosso grupo quase unido,
Houve os que quase foram pro Tibet,
E um de nós, que foi mais atrevido,
Quase foi pra Sibéria andando a pé.

Mas todos, quase todos, nos perdemos
De nossos sonhos perfeitos, de guri,
Que quase alguns de nós ainda temos.

Somente eu, que quase me cumpri,
Estou firme, quase, nesta estância,
Fiel ao quase-quase meu, da Infância...

09/01/2007



A Quota de Poesia (de Alma Welt)
596

A todos é servida a sua quota
De poesia e de beleza nesta vida,
Por menos que isto seja algo de nota
Por ser muito guardada e escondida.

Os ingênuos a possuem em alto grau
E os burgueses não têm nem o verniz
Daqueles que procuram o Graal,
E do feliz que ser poeta sempre quis.

A outros ela mirra sem adubo,
E no fim ficam perdidos, em desgraça,
A esmurrar as paredes de um cubo.

Pois a Poesia é dada a nós de graça
Mas somente os eleitos a merecem
E plantam suas sementes, que florescem.

(sem data)


De rosas e margaridas (de Alma Welt)
595

As rosas do jardim de minha mãe,
Apesar de sua beleza inconteste,
Ainda me intimidam, não estranhem:
Seus espinhos não afastam só a peste.

Báh! Dura imponência a dessas rosas!
São rainhas, sim, puras e frias.
Seus espinhos não as tornam mais formosas,
Que mil reservas nada valem às gurias

Que afastam quem lhes pode querer bem,
Só açulando o mal intencionado,
Que, esse... o mundo sempre tem.

E lá vou eu colher a margarida
Cujo simplório pudor é demonstrado
Num bem-me-quer eterno... pela vida.


08/09/2005



O Pequeno Tufo de Ervas (de Alma Welt)
594

Existe um simples trecho em meu jardim
Em que um tufo de ervas me fascina;
É quase um mistério dentro em mim,
Mas aconchego que sinto, de menina,

Ao olhar o tal montículo arbitrário,
Com três ou quatro espécies de capim,
E um ou outro botão meio ordinário
De uma florzinha pangaré, cor de carmim.

E percebo que é o dom que recebi
De enxergar sempre o todo na porção
E o universo contido aqui e ali

Nas pequeninas coisas que me sondam
E que fizeram de mim minha canção,
A afastar as sombras que me rondam...

16/07/2005


Paraísos (de Alma Welt)
593

Não escolhemos bem a que viemos,
Mesmo assim nós podemos transformá-lo;
O espaço de manobra que nos demos
Abrirá uma coxilha ou um valo...

Há quem do paraíso faz o inferno
E d’um palácio a gruta dos horrores;
Há quem de uns farrapos faça um terno
E há quem os prazeres torne em dores.

Mas eu que fui expulsa do meu Éden,
Que era a pura inocência do brincar
De crianças que se tocam e se medem,

Tive, sim, que o paraíso restaurar
Dentro de mim, pois agora já sabia
A pureza que no corpo se escondia...

(sem data)


Caleidoscópio (de Alma Welt)
592

Veja o mundo: é um caleidoscópio
Que somente faz sentido nos detalhes;
As peças não combinam, há muitos males
E o sonho é o nosso alívio e ópio...

Há tanto horror e dores, que nem sei...
É difícil acreditar no bem divino
Quando ontem morreu um bom menino
Aqui perto, e apenas por ser gay.

Eu mesma, ainda viva, estou no lucro
Por ser estranha e um tentador apelo
A tanta macheza e a tanto xucro,

Com esta brancura e ruivo pelo,
Com estes olhos verdes de coxilha,
E sendo do patrão a doida filha...

12/01/2007


A girar (de Alma Welt)
591

Me colocar no meio da coxilha
Com os braços abertos a girar
E a receber no corpo a maravilha
Da brisa deste Pampa e então voar!

É como sentiria este momento,
No auge da beleza e juventude,
Se não fosse o alçar do pensamento
Que enquanto sufocado ainda me ilude,

Mas teimando em voltar à consciência
Me faz sentir o mundo como um logro
(e agora isso ocorre com freqüência)

A esta que apostou tanto na vida
A ponto de vivê-la mesmo em dobro
Ao dar-lhe tão poética acolhida...

06/01/2007


Vigilância (de Alma Welt)
590

Pra construir uma vida em beleza,
Foi necessária certa vigilância;
Não devo transigir com a estreiteza
Que ronda estes pagos e esta estância.

Falecido meu Vati, que era o Rei,
Tive muito que lutar para manter
Cada umbu (e o bosque preservei),
E continuo a Natureza a defender...

Mas me refiro também à altitude
Da mente e da alma em sua pureza
Que mantive todavia como pude

Apesar de um início em dor e trauma,
E de algumas mulheres a presteza
Em julgar o coração da pobre Alma...

(sem data)



Nota
Acabo de encontrar este soneto na Arca da Alma, em que mais uma vez minha irmã se refere ao trauma de sua infância, quando foi flagrada junto com o Rodo pela nossa Mutti, "a Açoriana" , os dois nuzinhos debaixo da "macieira sagrada" do nosso pomar. Mas com "mulheres", no plural, parece se referir também à nossa irmã mais velha Solange, que perseguiu a Alma desde crianças, por ciúmes e inveja. Mas é bom que os leitores saibam que elas se perdoaram mutuamente, na morte de Solange nos braços da Alma, cena tocante que está descrita no final do romance A Herança .
(Lucia Welt)


Depoimento da Alma (de Alma Welt)
589

A consciência da Vida e da Morte
Me impediu de pensar em ninharias
E de ser simples prenda e com sorte
Levar a vida simples das gurias;

Poeta, sou antena de mistérios
Tanto quanto do sentido do real.
Amo tanto o peão de sonhos ideal
Quanto os nossos pícaros gaudérios.

E neste trecho do Pampa que me coube
Vagar, amar, colher flores, cavalgar
Desde muito jovem sempre soube

Do meu destino breve, mas fecundo,
Já que posso um quadro nítido deixar
Do meu percurso d’Alma e de meu mundo.

(sem data)


Duplo etéreo (de Alma Welt)
588

Ter a minha vida acompanhada,
A cada passo e a cada pensamento,
Por sonetos, qual diário da jornada,
Foi, bem cedo, a saída e o alento

Para viver em dobro, alternativa
Para quem tem, como eu, contados dias,
Pois que me vendo de novo nas poesias
Reitero meu viver, e estou mais viva.

Esse diário teve um custo quando nova,
Pois fez de minha Mutti minha crítica
E tenho marcas no traseiro como prova;

Mas tendo em duas vidas duplo etéreo,
Percebo agora que atingi a feição mítica
Que faz de mim mesma o meu Mistério.

(sem data)


De poetas e poesia (de Alma Welt)
587

Poetas somos poucos, não adianta
Dizerem que é qual serviço público
Ou que poeta almoça mas não janta,
Que hoje o leitor é tão abúlico...

A poesia não morreu, está presente
Nas letras das canções que o povo canta
E deixa n’alma a tão grata semente
Que morrendo, sim, germina em planta.

A Poesia está em tudo, é parceira
Do tal homem do povo, dia-a-dia,
Que sem ela ninguém suportaria

Vir ao Hotel Mundo em dura estada
Ou nascer de cruel parto sem parteira,
Se não temos mais Queen Mab* nossa fada...

(sem data)

Nota
*Queen Mab - Rainha Mab, a "parteira das fadas", isto é, das ilusões, que aparece no sono dos apaixonados, descrita minuciosamente (em sua carruagem de casca de nóz, puxada por minúscula parelha) no delirante monólogo de Mercutio, na Cena IV do Primeiro Ato da peça Romeu e Julieta, de Shakespeare.
(Lucia Welt)


Presságio (de Alma Welt)
586


Um corvo crocitando sobre um tronco...
Mas não há corvo aqui no Pampa!
Alma, eu sei que não passo de um bronco,
Mas é coisa que a mente, só, destampa,

Veres sinais em tudo... é meio vago.
É somente um bacurau, é bem verdade
Que esse bicho tem fama de aziago
E há quem não o queira pela herdade.

Mas sou teu Galdério, e te protejo,
Vem logo, minha guria, e descontraia
Esse rosto que é a luz que sempre vejo;

Na coxilha a tocar nossa boiada,
Que a peonada o veja quando saia,
Mas nunca como última invernada...

(sem data)

De Beethoven entre colegas (de Alma Welt)
585

Meu pai, dito “o Maestro” ou nosso “Vati”
Era um músico talentoso e de primeira;
Tinha Beethoven como entrada e saideira
Assim como Goethe era o seu Vate.

No salão de nossa casa um certo dia
Recebendo um colega que não via
Desde os tempos de ginásio na Alemanha
Teve dele a má surpresa desta manha:

“Não gosto de Beethoven, me perdoem
Pois é muito marcial e prepotente,
Prefiro o Chopin que é mais dolente.”

E eu, guria, do Maestro logo ouvi :
“Meu amigo, não gostares de Beethoven
Não fica mal pra ele... só pra ti!”

(27/07/2006)

Nota
Acabo de encontar este soneto inédito na Arca da Alma, que me pareceu delicioso, e que retrata bem o espírito de nosso "Vati" ("papai" em alemão), que era um médico que não exerceu a profissão porque a grande música clássica o tomou completamente, e era um pianista virtuose. (Lucia Welt)


O gaúcho triste (de Alma Welt)
584

Um gaúcho triste aqui da estância
Contou-me que perdeu a genitora
Muito cedo, ainda em sua infância
E que isso era a razão de usar espora

E também a chibata em seu cavalo,
E que então não saberia mais montar
Se eu lhe tirasse esse direito ralo
(continuou algum tempo a rezingar).

Então eu perguntei-lhe o que queria
Para deixar de lado esses tormentos
Ao pobre do animal, filho dos ventos...

E à réplica do olhar sem mais rodeios,
A condição implícita que havia,
Rasguei o meu vestido bem nos seios.

(sem data)

Nota
Encantada, acabo de encontrar na Arca da Alma, este soneto inédito, que é uma amostra perfeita de como a minha doce irmã era, e como podia reagir de maneira imprevista e surpreendente, por impulsos de seu generoso coração, quando se tratava de suas mais nobres convicções. (Lucia Welt)

O Trato (de Alma Welt)
583

Façamos trato, ó dias que me cabem!
Não quero ser solene ou prepotente
Mas retardem só as horas que me sabem
E guardem meu minuto impaciente,

Aquele mesmo do último respiro
Que a tradição romântica reclama,
Eufemística, chamando de suspiro,
E que presumo terei em minha cama.

De amor desprendido e de doçura
Eu em troca prometo um pensamento
Que sei das altas mentes a procura.

E não me cortem antes a palavra,
Não me neguem o verso como o vento
Que a coxilha percorre e tanto lavra!...

14/01/2007
Nota
Emocionada, acabo de encontrar na Arca da Alma, nesta madrugada, este pungente "trato" da Poetisa com as horas que lhe restavam, e das quais que ela tinha plena e dolorosa consciência. Também, mais tragicamente ainda, ela não morreria em sua cama...
(Lucia Welt)


A pedra e a rosa (de Alma Welt)
582

O ser humano tem a ânsia da fusão,
Do misturar-se ao outro docemente
Pra estar além da inata solidão
Em que o corpo é cárcere da mente.

Mas quantos vãos rodeios sedutores
A alma pra se unir deve fazer,
Tão próxima do outro, seus pendores,
E tendência a tão só permanecer

E de restar no meio do caminho
Por medo do silêncio que ali medra
Depois de todo o imenso burburinho.

Pois a procura é antiga e duvidosa
Como a filosofal e rara pedra
Que cria ouro, em vez de pura rosa...

19/01/2005

Nota
Acabo de descobrir, nesta manhã, este notável soneto inédito na Arca da Alma, que trata do amor como a procura elaborada de uma dúbia transmutação alquímica, uma amálgama que deveria criar a rosa, em vez do cobiçado ouro.
Todavia imagino que as pessoas preferem (como eu) a Alma em sua faceta dominante, que é a confessional, isto é, quando ela fala na primeira pessoa, e de si mesma, o que é o seu encanto, pois podemos nos identificar com ela em sua alma feminina universal.
(Lucia Welt)


De moinhos e monjolos (de Alma Welt)
581

Creio que tudo é baseado na visão
Que temos do real em nossa mente,
E o mundo pode ser uma canção
Ou inferno de um mal inconsciente.

Acusada de viver em fantasia
Desde tenra guria nesta estância,
Cedo descobri em minha infância
Que fora do sonho pouco havia.

E erguendo um mundo verso a verso
Como um pedreiro assenta seus tijolos
Nos muros de um castelo controverso,

Investi contra gigantes dentro e fora
Que não eram moinhos, mas monjolos
Que a vaidade renitente corrobora...

(sem data)


A Nova Invernada (de Alma Welt)
580

Quando a noite é clara, de luar,
Eu me ergo do leito sem demora
E no jardim de antes e de agora
A lua mira esta Alma caminhar,

Muito branca, eu sei, o que assusta
Algum peão desperto aqui da estância
Que logo seu bivaque e o mate susta
E se põe a tremer como na infância.

E se estou antecipando o que farei
Por anos a porfia, eu os previno,
Que pelo amor a esta terra voltarei.

Se lograr com berreiros ou cantada
Dobrar o Capataz nosso, divino,
A coxilha me dará nova invernada...

12/01/2007


Nota
Realmente, Alma cumpriu sua promessa e deve ter "dobrado" o nosso Grande Capataz, pois até hoje a avistamos aqui na estância, vagando no jardim ou na coxilha em noites claras de luar, o que no início nos assustava, agora não mais... (Lucia Welt)


Balanço da Vida (de Alma Welt)
579

Poeta, não deploro em minha vida
Absolutamente nada nada...
E “a Açoriana”, Mutti, mãe perdida
Que tão cedo me deixou, foi perdoada!

Tive alguns percalços, mesmo traumas
Que a qualquer outra teriam destruído;
Até vivo assombrada pelas almas
Daqueles de destino interrompido,

Se é que isso existe, pois o povo
Diz que só peru morre na véspera,
E eu sei que esse dito não é novo...

Mas a dor que carrego é a de viver
E amando tanto a vida, já saber
O dia e quase a hora que me espera.

(sem data)




"O espectro da rosa" (de Alma Welt)
578


Mulheres, há uma dor em nosso peito
Fininha, insidiosa, permanente,
Que até por ser crônica e latente
Despercebida passa em nosso leito

Na hora de dormir por entre os sonhos,
Que na verdade são os nossos bálsamos,
Quando espectros rosáceos e bisonhos
Convidam à dança e então valsamos

Com um Nijinsky leve e vaporoso
Ou outro fauno qualquer insuspeitado
E que venha socorrer o nosso fado

De eternas princesas ou donzelas
Do borralho e do baile duvidoso
De abóboras de pobres Cinderelas...

11/09/2006

A parte que nos coube (de Alma Welt)
577

A memória é a dádiva do Tempo,
Uma concessão ao nosso apelo
De poder andar a contrapelo,
Apagando ali um contratempo,

Corrigindo aqui com um retoque,
Correndo mais depressa a bobina
Já que arrastamos a reboque
O peso antigo da carga feminina

Que atrasa nossas metas e anseios
Se sonhamos demais e pouco agimos
A esperar chegar lá por outros meios

Que não trabalho e suor de nosso pão
Que aos homens caberiam e a nós não,
Que esperando tanto... em dor parimos.

(sem data)


Nota
Neste soneto que acabo de descobrir na Arca da Alma, a Poetisa, que era profundamente feminista, deixa transparecer uma ironia ou crítica à tendência feminina de separar os papéis da condição humana, entre homem e mulher, o que atrazou o nosso desenvolvimento ao longo da História, já que tomamos ao pé da letra as palavras de Deus no Gênese. Entretanto devo dizer que isso vem mudando rapidamente nas quatros últimas décadas, pois as mulheres já contam com o trabalho fora de casa e a idéia da auto-suficiência, apesar de carregarem a carga da maternidade. (Lucia Welt)


Alma Welt psicografada por Lucia
576

“Depois de fazer valer meu canto,
Chocou-me me ver tão odiada
Pelos meus colegas do Recanto,
Eu... que só queria ser amada...

Só porque morri em "circunstância
Suspeita", e de maneira romanesca.
Por me velarem nua aqui na estância
Até Matilde lhes pareceu farsesca

Ao lançar toalha tão rendada
Sobre minha alvura de alabastro
Finalmente coberta, amortalhada,

E gritando: “Cubram a minha guria!”
Afastem-se seus ímpios! E eu castro
Aquele que falar do que não via!”

Alma Welt

07/01/2010

Nota
Esta madrugada, compelida subitamente a escrever, emocionada recebi a surpreendente mensagem psicografada de minha saudosa irmã, a grande poetisa Alma Welt, que depois de muito hesitar resolvi publicar aqui. Doeu-me saber que, além de tudo, ela sofreu também com sua expulsão póstuma do Recanto das Letras, cinco dias depois que publiquei no dia 21/01/2007, na sua página (por encontrá-la aberta, com a senha salva) a notícia de sua morte ocorrida no dia anterior. O escândalo que ali se seguiu à notícia da morte da Alma, foi no mínimo apoteótico e resultou também na expulsão do pintor e cordelista Guilherme de Faria (que foi quem descobriu e lançou a Alma em São Paulo) pois o Editor e os moderadores daquele portal encasquetaram que a Alma era um heterônimo dele (o que faria de mim, também um heterônimo (risos). (Lucia Welt)

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O que eu temia... aconteceu: fui compelida a pegar de novo a caneta e compulsivamente escrever este soneto que me foi enviado rapidamente, quase de um jato, pela Alma. Estou devastada pela revelação, que no fundo eu intuía. Não sei o que é pior, esta verdade ou a que tão precipitadamente todos nós, sua família, acreditamos. Aquele horrível delegado Benotti afinal tinha razão...


Revelação (novo contato psicográfico da Alma)
575

“A todos que na vida me amaram
E continuam a me amar ainda agora,
Que tanto minha morte amargaram
Acreditando que eu quis ir embora,

Devo agora revelar, e eu sinto tanto,
Que tenham que passar por isto ainda:
As marcas que lhes causaram espanto
E cuja dor espero esteja finda,

Não foram causadas pela pedra,
Que jamais teria atado ao meu pescoço,
Mas pela luta na praia do meu poço.

Também saibam que embora dominada,
Por dois bandidos cem vezes violada,
Rancor neste ventre ainda não medra...”

Alma Welt

07/01/2010


O Tempo suspenso (de Alma Welt)
574

Não me fales, amor, de um novo ano,
Não o vejo, vês, estou sonhando?
A coxilha corrobora o meu engano,
O próprio Tempo aqui sonha pairando,

Imóvel, suspenso, entorpecido,
A confundir os tempos e as idades,
Por isso este meu Pampa é dolorido
E pleno de guerras e saudades.

Anita veio esta manhã à revelia
Do sapateiro embriagado contumaz
E amor confidenciou-me, de guria,

Por aquele italiano belo e audaz
Que hasteou farrapos, como o Bento,
E no cais espera só soprar o vento...


09/07/2004


Femme-enfant(de Alma Welt)
573

O grande moto da mulher é o amor
Que faz dela esse ser meio encantado
E até a pobre Amélia do cantor,
Passava fome, sim, mas a melado.

Dêem-nos, pois, abraços e carinhos,
Beijinhos sem ter fim também é bom...
O importante é manter o nosso tom
E não nos deixar a ver barquinhos.

Conquanto já não digam “femme-enfant”,
Somos débeis, infantis, eu reconheço,
E eis porque ainda temos tanto fã.

Mas se nos querem comprar com vil metal
Ou nos pedirem trégua e recomeço
Com um beijo tens recibo e nosso aval...

(sem data)


O juramento (de Alma Welt)
572

Quando guria eu fiz um juramento
De jamais ceder ao comezinho,
De não perder meu tempo e meu talento
Com a tolice, o falso e o mesquinho.

Não me veriam a sorte lamentar
E muito menos jogar conversa fora;
Jamais um prêmio ou objeto cobiçar
E viver somente o aqui e agora.

Quase uma vida passou e me cumpri,
E posso afinal congratular-me:
Meu tempo em ninharia não perdi.

E olhando para trás me vejo inteira,
Límpida e capaz de amar e dar-me
A quem bem me sabendo ainda me queira...

25/09/2006


O Enigma (de Alma Welt)
571

Nunca hei de perder a esperança
De encontrar no código do verso
A resposta oculta ou a balança,
Em que pese o mundo controverso.

O que pesa mais: amor ou sorte?
Virtude ou a força do querer,
Malícia ou o senso de dever,
Coragem ou o medo só, da Morte?

Enfim, qual o sentido que buscamos
Todos, simplesmente de viver,
Mistério com o qual nos defrontamos

Ao som do próprio grito agoniado,
No primeiro despertar já a sofrer,
Um Ser perplexo no Enigma lançado...

06/11/2006


Cavaleiro Andante (de Alma Welt)
570

Não peçam ao Poeta contenção,
Modéstia, pudores ou receios.
A poesia é a missão por outros meios
De alargar a mente e o coração.

E vou por este pampa metafísico
Que fiz das cercanias desta estância
Qualquer, em seu real limite físico,
Universo de amor e de constância.

Eis a minha lealdade de viver
E de pensar a vida em alegria
Sem descartar a carga de sofrer,

Como um louco gaudério vai avante,
Do pampeiro a singrar a ventania
No seu pingo qual fidalgo e Rocinante...

(sem data)


A missão do Poeta (de Alma Welt)
569

Tantos pedem ao poeta caridade
No sentido social ou do dever;
Acham pouco acreditar na validade
Da beleza, da verdade e do Ser.

Julgam que Poesia é sentimento,
Ou militância filantrópica e urgente,
E cheios da culpa do momento
A consideram alienada ou demente.

Mas viver em sintonia magistral
Com o Ser em sua sina de pensar
E se tornar pro outro esse fanal

Que desperta em nós a divindade,
Faz o homem a si mesmo voltar
E ao seio da esquecida humanidade.

06/05/2006


O Muro (de Alma Welt)
568

No fundo do jardim existe um muro
O qual desde guria eu suspeito
Que separa o meu presente do futuro
O lado claro e o escuro do meu peito.

Suponho que os dois pólos profundos
Separam para todos estes mundos,
Não somente em mim com o meu sisma,
Sonhos, medos, devaneios e carisma.

Mas se a Poesia nasce do absurdo
Como a invisível presença de uma ilha
No maternal e imenso seio da coxilha,

O que me dá esse ar vago e passo etéreo
É que ouço uma trilha, num tom surdo,
Na cercania desse muro de mistério...

(sem data)


Literalmente nua (de Alma Welt)
567

Para escrever um poema me desnudo
Eis porquê por aqui mais de um peão
Flagrando minha brancura ficou mudo
E a Mutti quis mandar-me pra Cantão,

Quer dizer, do outro lado deste mundo
Que não pode aceitar os devaneios
Da guria do Pampa e seu “desmundo”,
Seu pronto desnudar-se sem receios.

Razão pura que pudor ou medo mata
E o coração desnudo em sua pureza
Me exigem reincidir, não por bravata

Mas por bela lealdade de meu ser
À essa dádiva de amor e de beleza
Que desnuda faço assim por merecer.

17/08/2006


O pensar do coração (de Alma Welt)
566

Pensando bem, não creio noutro mundo,
Mas crer não tem a ver com o pensar,
Meu coração quer sempre ir mais fundo
E tinha que a barreira ultrapassar

Do ser-aqui, do estar-aí, do vir-a-ser
E de toda essa embrulhada da razão
Que atormenta a mente por não crer
Deixando a fé ao relutante coração.

Mas... que posso eu, pobre guria,
Saber além da beleza e da poesia,
Que isso já são dádivas demais,

E certamente vêm de além do muro
Que existe em meu jardim, aqui atrás,
Limite entre meu ser e... seu escuro.

(sem data)


A chave da Poesia (de Alma Welt)
565

A memória é tudo o que somos,
Já que a menor célula a retém
E a transmite além de cromossomos
Como sonho que o coração mantém,

Herdeiro de um primeiro devaneio
Que cresceu e se tornou obsessão
De toda uma estirpe de permeio
Até nós em nosso próprio coração.

Eu que persigo a poesia que há em tudo,
Na raiz de cada evento, em cada ser
E que é chave que não requer estudo,

Procurei em vão nos livros o poder
Que um violeiro analfabeto pode ter,
Em que, pasma de mim, eu me transmudo.

25/07/2007


Amores perdidos (de Alma Welt)
564

Amores perdidos não houveram,
Que amor não se deixa para trás...
Aquilo que fruímos, que nos deram,
De nós mesmos para sempre parte faz.

Por isso não há queixas ou lamentos
Que tenham validade ao coração
Que não os considera vãos momentos,
Os que se não renovam e que se vão

Como folhas de outono em ventania,
Leves, secas, mas douradas na feição
A fazer do próprio vento a alegria.

E se a árvore desgalhada permanece,
Com os membros retorcidos de aflição,
Faz-se inverno (talvez morra) e refloresce.

(19/10/2006)


A Leste do Éden (de Alma Welt)
563

Na vida, minhas etapas alteradas
A ordem tive, raiz dos dissabores
Profundos da alma, em trapalhadas,
A confundir ainda amor e amores.

Dei-me cedo, e guria fui mulher
Punida pelo amor tal qual foi Eva.
Desfolhada não joguei o mal-me-quer,
Que ser amada é só o que me leva.

E quanto paguei por minha virtude,
Como se crime fora ou só defeito
O que de melhor dei enquanto pude!

Depois, do Éden no Levante foi preciso
Chorar de dor o belo corpo rarefeito
De quem nos expulsou do paraíso...

03/04/2005



A canção do bem-te-vi (de Alma Welt)
562

A canção do bem-te-vi está nos genes
E a maneira de um vestir o paletó
Assim como outras coisas mais perenes
É sempre algo que retornará do pó.

Nisto consiste da memória o tal milagre
Que morando nas pequeninas células
Faz que um gesto ou canto se consagre,
Mal-me-quer a renovar as suas pétalas...

Assim, o amor também já vem de longe
E tudo é reencontro ou só memória,
Ninguém foge da sina, nem o monge.

E se o barquinho persiste na procela
Eis nosso afinal consolo e glória:
Temos mesmo do divino uma parcela!

14//08/2007

Nota
Acabo de descobrir na Arca da Alma, neste primeiro do ano, com grande alegria, este soneto que considerei imediatamente uma obra-prima, e que me apazigua, pois afinal ele revela que Alma, à sua maneira peculiar, tinha, sim, fé em Deus... (Lucia Welt)


Retrato da artista enquanto jovem (de Alma Welt)
561

Tendo o grande Rimbaud como patrono
E a rebeldia como minha musa amarga,
Quando guria eu poetava até no trono
Disfarçando ao som logo da descarga

Enquanto a Açoriana se esfalfava
De bater na porta preocupada
Ou furiosa de saber que se ocupava
De "só poesia" esta guria “alienada”.

Não tinha os pés na terra, ela pensava,
A cabeça nas nuvens... é o perigo,
Pois na certa o manicômio me esperava.

Ba! Bem que ela quis me pôr (à) venda
Ou mordaça pra calar seu inimigo:
Meu sonho de ser mais do que uma prenda...

(sem data)

O pomar da Poesia (de Alma Welt)
560

Ser bela e disso ter conhecimento
Entre as flores da coxilha e do jardim,
É meu privilégio e meu tormento
Que tanto me conforta ainda assim

Pois sou grata aos dons que a Natureza
Quis por bem dotar-me de sobejo
Embora me olhem com a estranheza
Do medo... ou talvez, só do desejo.

Mas tão cedo doar-me ao meu irmão,
Que guria fora eu pequena Eva
No pomar de nossa doce perdição,

Com isso não contava, era destino,
E como o meu penhor do feminino
Eis o que à Poesia ainda me leva...


(sem data)


Quero viver, explodir (de Alma Welt)
559

Quero viver, explodir, quero cantar!
Venha o tempo, tempestades, vendavais;
Venha o pampeiro e arranque meus varais,
Caia a chuva sobre mim e o que eu amar!

Que é tudo, esta amplidão, este vinhedo,
O casarão plantado fundo na coxilha,
O jardim onde fui neta e ainda sou filha
E o Pampa a circundar o meu segredo.

Desçam nuvens e envolva-me a neblina,
Quero fundir-me à alma deste Sul,
Tornar-me a própria luz que me ilumina!

E se após tanto, veja, eu retornar
Qual lua ébria a vagar sobre um paúl:
Desci para o meu sonho reencontrar...

12/01/2007


Os viajantes do Nada (de Alma Welt)
558

O que poucos viajantes nos contaram
Da Morte não merece neles crer,
E foram muito raros os que voltaram:
Orfeu, Hércules, Dante, e o armênio Er.*

E talvez uns poucos mais discretos
Que preferiram na volta se calar
Pois os lances e ritos mais secretos
Não quiseram certamente alardear.

Cristo foi um deles: por seguro
Não deixou que o tocasse a Madalena*
Alegando ainda não estar puro...

Só sei que o mal tocado em forma plena
Só nos aumenta o medo desse escuro
E ao Nada novamente nos condena.

(sem data)



Quando cessam as palavras (de Alma Welt)
557

Tendo vivido pela força da palavra
Só temo o tal momento de afazia
Final, quando a mente a língua trava
Pois nada mais restou para a Poesia,

Quando não mais se tem o que dizer
E tudo se resume num suspiro
Ou numa dor tão grande de morrer
E deixar o mundo em seu respiro,

Que afinal era tão belo como era
Com as mágoas e a feiúra sem sentido
Pois nele havia infância... ou houvera.

E numa espécie muda de “aqui vamos”,
Talvez como um sonho indefinido
Alcançamos a paz que não sonhamos.*

(sem data)




A “divina comédia” (de Alma Welt)
556

Meu pai costumava me dizer
Que não há injustiça neste mundo
E que tudo o que de mal acontecer
Vem sempre de um desígnio profundo

Ou se deve a um simples erro crasso,
No caso, resultando num desastre
Ou simplesmente num fracasso
Que ao sucesso de outro faz contraste.

Mas não fico convencida totalmente
Quando o mal acontece a uma criança
Ou outra boa criatura, e inocente,

O que resulta em dor e em tragédia.
Isso então me faz perder a esperança
De perceber divina esta comédia...

(sem data)



Peregrinação à Árvore Sagrada (de Alma Welt)
555

Eu que venho do plano da coxilha
À colina junto ao mar peregrinei
E emocionada então me prosternei
Como pródiga e reverente filha

Diante da sacra Árvore da Vida
Que ali frente ao azul Mediterrâneo
Permanece desde o tempo do Druida
E invisível ao olhar contemporâneo.

Então em minha pira os votos ardo
Com o mate que pra fumigar abafo
Grata à minha Musa e ao meu Bardo*

Pois receber um soneto cada dia
Não é pouco privilégio a cortesia
De Ossian e da divina abelha Safo.*

(sem data)

Notas
* Ossian - o bardo celta dos "Cantos de Ossian", livro de sagas e poemas do tempo dos druidas, em lingua gaélica, uma obra-prima descoberta no final do século XVIII, na Escócia, e que traduzida para o inglês se tornou a obra poética preferida de Goethe e de Napoleão I. Posteriormente descobriu-se ser apócrifa e atribuida ao jornalista escocês James Macpherson.
*Safo (de Lesbos)- a maior poetisa da antigüidade, e de quem a Alma era devota, foi elevada pelos gregos à condição de sétima Musa, e tinha o epíteto de " a Abelha da Piéria". (Lucia Welt)



A Dama do Lago (II) (de Alma Welt)
554

À vezes me sinto quase exausta
De ser este vulcão, esta torrente
De poemas, visões e vida fausta,
Derramada, liberta, transparente.

Tudo revelei, não por bravata,
E me doei generosa a este mundo
E ao Pampa, como água vem do fundo
Da fonte do meu poço da cascata

Aonde sinto deitarei como na cama
Pois aqui avistei-me como a Dama
Do Lago, que recolhe a bela espada

Que eu, como Arthur, me atirarei,
Cumprida a minha missão inusitada,
De volta ao mar de brumas como o rei...

20/12/2006


Acusado! (de Alma Welt)
553

Os amigos vão-se e nós restamos.
Permanecemos a brincar, mas temerosos
Esperando nossa vez nos disfarçamos
Como crianças, como se ainda novos.

Escondidos à espera do: “Acusado!
Te vi aí atrás daquela moita!”
Daquele que nos vendo não se afoita
Pois basta o dedo a nós ter apontado.

E saímos um a um do esconderijo
Escolhido por nós na brincadeira,
Alguns sem conter o medo e o mijo.

É duro brincar com esse vizinho,
Tanto mais que brincamos na ladeira,
E alto ou baixo, no final... brincas sozinho.

(sem data)


As horas voam (de Alma Welt)
552

As horas voam, é o que elas fazem,
Ou então cavalgam os cometas,
Não param, e no tempo se desfazem
Não antes de pedir que não te metas.

São senhoras sérias e apressadas
Talvez por serem filhas de um atleta,
O Tempo de larguíssimas passadas
Só tem tempo para a sua predileta,

A temporã, que te vê e se emociona,
A única que ainda se debruça
E ouve teus lamentos de chorona.

E então vês que a vida é fictícia
E já não tens teu ursinho de pelúcia,
Não tens mais as horas de delícia...

09/12/2006


A charrete na ventania (de Alma Welt)
551

Depressa, Galdério, com a charrete!
Faça a égua correr, mas sem chicote.
Sei que podes conseguir, a ti compete,
Use de persuasão... e que ela trote!

Bá! Velho Mino, tu me assustas!
E temo que invadindo teu espaço
Nos percamos assim nas tuas volutas
Ou nos enrolemos no teu laço.

Contigo não disputo, tu me gelas!
Vai, Miranda, bota sebo nas canelas
Ou esta noite não verei meu casarão

Com a lareira a crepitar em nossa sala,
Uma ceia à doce luz do lampião
E vinho vindo da adega na senzala...

(sem data)

Notas
Velho Mino- era como a Alma chamava o vento minuano, que ela temia e venerava.

*...vindo da adega na senzala- No seu romance A Herança, Alma conta como descobriu uma safra inteira de 1.000 garrafas de um vinho magnífico, a verdadeira herança de nossos avós, escondida numa adega por nós desconhecida, debaixo do casarão e que fora uma antiga senzala.


O rio (de Alma Welt)
550

Atirados na corrente sempre fomos
Em que nos debatemos e bradamos;
O rio em que nascendo mergulhamos
Ainda é o mesmo desde Cronos,

E não como o Heráclito dizia
Que nunca é o mesmo para nós;
O Tempo para o homem não sorria
Na aurora e tampouco logo após,

E ínclito, impávido, inclemente
Como rio real, e não da mente,
Passa sem levar-nos em questão,

Pois o que é uma folha que navega
Ou um pequeno galho que se entrega
Se levados vamos todos de roldão?...


08/07/2006

nota
Acabo de encontrar este soneto inédito na Arca da Alma, e encantada, vou imediatamente postá-lo lá no blog dos Metafísicos da Alma.
(Lucia Welt)


O Segredo da Alma (de Alma Welt)
549

Diante de mim mesma me persigno,
Eu que reverencio tantos deuses…
A musa que elegi, do mesmo signo,
É fiel e me acompanha desde Elêusis.

A Musa a que há muito me votei,
O fiz, modesta, em honra do que sou,
Pois já Zeus a fizera, o que amei,
Com meus traços, e vai aonde vou.

Anima sou e me chamavam Psiqué,
Mas neste Pampa um tanto esdrúxulo
Volto a saber quem sou, quem ela é:

Alma Welt, prenda ruiva e poetisa
Devo cantar a terra madre do gaúcho,
Sagrada, e que a nós dois imortaliza…



Dias tristes II (de Alma Welt)
(ou O outro canto da cigarra)
548

Dia cinza e chuvoso, novamente,
E eu que sou tão susceptível
Amanheci também triste e carente
A crer que esta vida é impossível

Pois há muito findaram aqueles dias
De vinhos e de rosas no poente,
Quando junto a mim permanecias
E em torno ainda havia tanta gente,

E tudo era fartura e esbanjamento,
De tanto vão carinho dissipado
Com o breve vinho do momento

Sem guardar o desta temporada,
Somente de memórias do passado
Pois o aqui e agora é quase nada...

(sem data)


O bobo na colina (de Alma Welt)
547

Longe dança o bobo, de contente,
E o vejo e aos outros na colina
Em silhueta no cenário do poente
A que meu ser no âmago declina.

Meu coração rejeita esse cordão
De desgraçados e teme o que ilude
Nessa dança macabra de roldão
De que fugi até agora como pude.

Sei bem quem é o tal bobo sinistro
Disfarçado de coringa esfuziante
E que na falsa dança segue adiante

Envolvente como um sutil jogral,
Mas que é o ardiloso e vil ministro
Do rei que nos quer o bem e o mal...

08/01/2007


La vida es sueño (de Alma Welt)
546

Penso logo existo, diz Descartes,
E eu de mim começo a duvidar.
Serei eu uma alma a me pensar
Ou o fruto final de minha arte?

Se olho para trás minha bagagem
Constato que ela é bem mais real,
Em peso, densidade e coragem,
Do que esta pele branca de areal.

Somos sonho de um deus desconhecido,
Não sabemos o seu nome para orar
E tememos mais ainda o acordar...

Pois no despertar tudo é perdido,
E dói, ah! como dói ver desfiar
Um sonho noutro sonho entretecido...

(sem data)


Tempestade (de Alma Welt)
545

Vê: o céu se adensa e escurece,
Procelárias se agitam sobre a face
Que se ergue na mais sinistra prece
Prevendo o iminente desenlace.

O mar se turva e mais se encrespa
E as ondas lançam brados de loucura
Enquanto um ribombo força a fresta
De um teto de chumbo sem pintura.

Então o caos se instala e ai de nós
Neste pequenino barco rubro
Que não passa de vã casca de noz

À deriva, a medo, e sem poesia,
Se o vórtice indigesto de um tubo
Nos devora em ânsias de agonia...

14/09/2006



Canção sinistra (de Alma Welt)
544

Chegamos ao fim, não tem mais jeito,
O mundo se acabou e já o vemos,
O Mal é burgomestre ou o prefeito,
O caos se instalou e é o que temos.

Corram, corram, amigos desta aldeia
Aí vêm do tirano os quatro esbirros,
Foices já não brilham, e a cara feia,
Respingadas pelo sangue aos espirros.

Um corvo ali crocita no patíbulo
Mas a madrugada ainda teremos,
Vamos todos juntos ao prostíbulo.

Dancemos, cantemos e bebamos
A manhã por certo não veremos.
Ah! A vida foi tão breve e já nos vamos...

17/01/2007



A Pergunta (de Alma Welt)
543

Saberei morrer, chegada a hora?
Eis a pergunta que nunca quer calar.
Somos para morte aqui e agora,
Nunca prontos e sempre a adiar.

Não estou muito certa de que a vida
Seja mesmo um projeto que deu certo
Uma vez que é menos bela que sofrida
E o final se passa sempre no deserto.

Ou então, triste, solitária e dolorida
É a nossa chegada àquele porto
Onde não há festa e sim um morto,

Que somos nós, esticados, macilentos,
Expostos como nunca nesta vida
Num falso carnaval de gestos lentos.


(sem data)

O Mistério Alma Welt (um acróstico apócrifo)

Descobri, através da pesquisa Google, o blog do escritor Milton Ribeiro com uma página sobre a polêmica que se estabeleceu na Internet sobre a existência real ou não da Poetisa Alma Welt. Esse blog ressalta a existência de um "mistério Alma Welt". Seria divertido para mim, não fosse o fato de que a lembranças de minha irmã sobrepostas às imagens de sua morte trágica me emocionam ainda, demais, e trazem-me lágrimas aos olhos e um aperto no coração. Entretanto encontrei numa outra página do mesmo blog este comentário da pessoa que se diz chamar Jungmar Jensen e que tem um blog dedicado a investigar o "mistério Alma Welt". Fiquei pasma e (como ele diz que fez) também escrevi para o Guilherme de Faria que reiterou a sua negação, indignado de que estejam usando seu nome no acróstico de um soneto falsamente a ele atribuido.
Imediatamente escrevi ao sr Jungmar e consegui permissão para transcrever aqui o que ele postou no blog do Milton Ribeiro:


Jungmar Jensen
on Dec 7th, 2009 at 1:41 am
Já confessei aqui o meu fracasso em elucidar o Mistério Alma Welt, mesmo tendo aberto há meses um blog com essa finalidade. Ainda não cheguei a uma conclusão, tanto mais que acabo de receber através de um e.mail nitidamente falso este notável soneto em acróstico que fui imediatamente conferir com o mestre poeta e pintor Guilherme de Faria, que veemente e indignadamente negou a autoria. É curioso perceber como o veterano artista se emociona ao falar de sua grande musa, a cuja imagem e memória está dedicado em magníficas telas desde que a conheceu e amou. Entretanto, como contribuição ao debate, e por sua curiosidade e engenho transcrevo aqui o citado soneto, mesmo que apócrifo:

Quem sou


Gostariam de saber quem mesmo sou,
Um bardo ou poetisa delicada
Interiorizando um grande show
Literalmente ao longo da jornada.

Herdei, confesso, o estro e o resto,
E devo tudo à Alma peregrina
Resoluta, rebelde e feminina
Mesmo que acabe num protesto

E revolte alguns dúbios sentimentos
Fazendo com que me dêem as costas
Aqueles que choravam meus tormentos,

Rindo também se alegre estava,
Indicando minhas vitórias nas apostas
A que dei tanto valor quando jogava…



Se deixo assim passar (de Alma Welt)
542

Se deixo assim passar um dia só
Sem ter escrito ao menos um soneto
Ou conto, uma crônica, um quarteto,
Um verso que seja... me faz dó.

O Tempo por certo não é meu sócio
Ou tenho dele uma quota tão restrita!
Não posso dar-me o luxo de tal ócio
E o verso que perdi ainda me irrita.

Não consigo entender que uma pessoa
Se deixe estar a viver sem criar algo
Que palpado possa ser e que ressoa.

É como ver as horas irem pelo ralo
Nessa nossa temporada de fidalgo
A perseguir pobres raposas a cavalo...



Vida do poeta (de Alma Welt)
541

Se penso minha vida nesta estância
Eu vejo que afinal não me perdi
Conquanto meus desejos e esta ânsia
Produzam uma tocha em que me vi,

De repente, ardendo em minhas noites
No meio destes prados esquecidos
Neste fim de mundo e seus amoites
De valentes exilados ou fugidos.

Logo busco encontrar o meu prazer
Que está na base mesma da procura
E que a culpa me quer comprometer.*

E então uma coerência se faz ver*
Mesmo dentro do quadro de loucura
Que é a vida do poeta enquanto ser...


(sem data)

Notas
Acabo de encontrar este soneto inédito na Arca da Alma, e mais uma vez constato essa coerência que ela menciona.

*...e a culpa me quer comprometer- Alma certamente se refere ao seu relacionamento incestuoso com nosso irmão Rodo, que nasceu inocentemente na infância de ambos, e a que nossa mãe cobriu de escândalo, procurando incutir um sentimento de culpa que não era natural à indole da Alma, criada por nosso pai, sem batismo e "como uma pequena pagã".

* ...uma coerência se faz ver- Existe uma expressão inglesa se referindo a certos loucos que dizem de repente coisas muito lógicas: "há um método nessa loucura..." Alma brincava com isso, pois somente nossa mãe achava que a Alma era atacada de uma espécie de loucura poética, que ela, a "Açoriana", gostaria de coibir. (Lucia Welt)



A anti-condoreira (de Alma Welt)
540

São poucos os chamados à Poesia
Entre os milhões que fazem versos.
E os verdadeiros, os dotados de magia,
Quase sempre no silêncio estão imersos.

Quero dizer, sem voz que nos alcance,
Tateando ao frio sol de seus degredos
Esperando finalmente a grande chance
De revelarem seus delírios e segredos.

Pois Poesia não é cartilha de decência
Ou de conduta um perfeito manual,
E muito menos declarações de amor

Se não mesmo ao poema e sua essência
Gratuita, aérea, livre e, se animal,
Capaz de mergulhar, não um condor.

(sem data)


A cal e a pedra (de Alma Welt)
539

Olhando meu passado e o presente,
Não vivo de pequenas alegrias,
Devo confessar humildemente,
Mas de grandes arroubos e euforias.

Pruridos ou mania de grandeza!
Dirão alguns, como eu ouvia
Já de minha mãe, não com rudeza,
Mas dura, cortante e um tanto fria.

Mas vede, é com pouco que construo
E transformo em epopéias a jornada
Destes meus dias que tão ávida fruo.

Fazer do vão momento e até do tédio
A cal e a pedra do nosso grande prédio,
Ser poeta é justamente a empreitada...

17/06/2005


O segredo (de Alma Welt)
538

Crescer e ser chamada a escrever,
Dar meu testemunho da paixão
De ser... e a lealdade de viver
Em sintonia de alma e coração,

Eis a chave de uma vida em poesia
Que por certo me fez pagar um preço
Muito alto e excludente de honraria,
Pois ser poeta é ter na Arte o endereço.

Quem no dinheiro estiver sintonizado,
No dinheiro está... e não em Arte.
Impossível dos dois mundos fazer parte.

E se me perguntas: “É um brinquedo?”
Eu murmuro te puxando para um lado:
“Não posso revelar-te um tal segredo...”

14/05/2005


Estrela peregrina (de Alma Welt)
537

Estrela peregrina do meu pampa,
De quem viria a ser dileta filha!
És a cigana que por aqui acampa
E eu te evoquei em minha vigília,

Rafisa, musa destas pradarias,
Que me deste a honra da amizade,
E que ainda bem mais dividirias:
Teu leito e um dom de divindade,

O poder de divinar o meu futuro
Que me fez enxergar além do muro
Com sensível clareza e acuidade.

E este louco sentimento de urgência
Contra o fundo cenário de saudade
Que dá a esta poesia permanência...

(sem data)




Soneto antigo (de Alma Welt)
536

Queria ir com a branca caravela
Que vejo no poente deslumbrante
Aqui deste grato meu mirante,
A varanda da casa grande e bela

Que não obstante me confina
Num canto limitado deste mundo,
Esta Alma cuja propensão sulina
É ir mais para o sul, ou mais ao fundo.

Leva-me, ó barco dos meus sonhos!
Como diriam as ledas poetisas,
Flores belas de tempos mais bisonhos...

Também tenho em mim barcos alados,
Mas vogo entre os perigos de banquisas
De um mar que subsiste nestes prados...

(sem data)


A suspeita (de Alma Welt)
535

Vivo desperta o sonho desta vida
Só possível ao grato coração
Conquanto a inquietação contida
Tenha o timbre da dor e da paixão

E um pesadelo oculto me acompanhe
Cada copo de vinho esvaziado
E mesmo a bela taça de champanhe
A saudar um novo cume conquistado.

Pois a contraparte percebida
É a terrível ameaça que perdura
Na suspeita do nadir da criatura.

Pois se a psique é alma e nos constrói,
Que será de nós se ela é perdida
Na poeira e no verme que nos rói?

(sem data)


O retorno (de Alma Welt)
534

Sem algum conflito estar no mundo
É uma leda utopia ou devaneio
Pois temos um vão rancor profundo
Disto tudo não ser o nosso meio

Amniótico, silencioso e tão seguro
Do qual fomos tirados brutalmente
Pelas boas intenções de um ente puro
Se considerado essencialmente:

A mãe que nos expulsa de si mesma
E nos lança afinal no labirinto
Ligados ao seu fio qual abantesma

E buscando escapar do Minotauro.
Eis como nesta vida mal me sinto:
Numa saga de retorno e de restauro.

(sem data)


O último verso (de Alma Welt)
533

Quando acordo e me ponho escrever,
E eu o faço o tempo todo, compulsiva,
Eu sinto que, assim só, posso viver
Ou que assim me sinto bem mais viva.

Entre o espírito e a carne o vão conflito
Expresso em outros termos, vida e arte,
Não existe mais pra mim, pois acredito,
Só se reflete o que do espelho fizer parte.

Solitária a vagar, devaneando
E parando pra anotar um simples verso,
Encontro o meu nicho no universo.

Mas cercada de poemas e de dores,
Se no leito estiver agonizando,
Roubai-me o derradeiro aos estertores...

(sem data)



Evocando Rimbaud (de Alma Welt)
532

Se tendo a enternecer demasiado
Perdendo a dureza necessária
Como o bravo Che tinha alertado*,
Relembro outra verve visionária

Que pôs ponto final mas perdurou,
E o fez correr o mundo escuro
Além dos dezessete, o que o mudou
Na procura da beleza além do muro.

E na carta do Arthur Rimbaud vidente*
Reencontro o segredo que já havia
Em tão precoce e mágica poesia

Que deixou como lastro permanente,
No oceano sem farol, tão conturbado,
De nosso próprio barco embriagado*.

19/08/2006


Notas
Ao enviar este soneto (que acabo de encontrar na Arca da Alma) para o meu colaborador o mestre Guilherme de Faria, este, encantado, lembrou-se de ainda possuir em sua coleção este Retrato Imaginário de Rimbaud, meio maldito, trágico, pois representado no período final do poeta, com uma estranha e ambígua perna negra, gangrenada ou de pau, já amputada. (Lucia Welt)

...Como o bravo Che tinha alertado - Alusão à famosa frase de Che Guevara: "Hay que endurecer, pero sin perder la ternura jamás".

*...carta de Rimbaud vidente- Alusão à célebre Lettre du Voyant(carta do Vidente) de Rimbaud.

*...dos dezessete, o que o mudou - Rimbaud aos dezessete anos pôs ponto final na sua obra poética e tornou-se aventureiro na África negra (... "mundo escuro"), indo traficar armas para o Ras (imperador) Menelik, da Etiópia.

*...barco embriagado - menção ao Le Bateau Ivre (O Barco Bêbado), célebre poema de Rimbaud.


Nau pirata (de Alma Welt)
531

Para poder escrever e ser legítima
Sigo a esteira desta vã nave ignota
Em prados de ondulação marítima,
Mas de pó e pampa a minha rota.

Aqui desta varanda eu comando
Minhas horas matinais e do poente
Como sinistra capitã do meu desmando
Ou pirata do meu riso de contente.

E cedo tive meu motim denunciado
No Almirantado da dura Açoriana*
Que quis ver o meu sonho sufocado,

Pois viver a minha vida sem bandeira
E com estandarte de poesia pampiana,
Era guerrilha, não batalha verdadeira...

(sem data)


Nota
Acabo de encontrar este soneto inédito, manuscrito, na arca da Alma, e logo o digitei por considerá-lo especialmente significativo da maneira como a Poetisa considerava seu métier, e como a oposição de nossa mãe, a *Açoriana (neta de portugueses açorianos) era um constante desafio (ou mágoa) para ela. (Lucia Welt)



Efeméridas (de Alma Welt)
ou A Roda de Samsara
530

Eu costumava olhar as mariposas
E as efeméridas* fugazes no seu cio,
Dançando a doce dança das esposas
Enquanto eu meditava no que crio,

Se vale mesmo a pena de criar
Tanto verso e tanto sonho em vão,
Já que a vida é um breve iluminar
No meio da infinita escuridão.

Ou, se poeta, estou fora do mundo
Pois os seres vêm só para amar
E dar à luz um outro mais fecundo.

E se na festa dessa roda de Samsara,
O artista é só o flash que dispara,
Capturando sem jamais participar...

16/08/2005

Nota
Efeméridas- uma espécie de insetos voadores cujo ciclo completo de vida: nascimento, crescimento, vôo nupcial, procriação e morte, dura apenas um dia.



Ariadne em Náxos (de Alma Welt)
529

Não temos planta baixa desta vida,
Suas câmaras, alcovas, confusão.
Uma aposta errada ou indevida
Põe tudo a perder e sem perdão.

Alguma lógica a nós perceptível
É a do encadear de circunstâncias
Que vemos perscrutando o fio sensível
Que atravessa nosso dédalo de ânsias,

Como aquele da Ariane sem dedal,
Alinhavados como ela ao ser amado,
Pasmo herói confuso e... enrolado,

Pois encontrar a completude original
Numa Náxos aberta e sem volutas,
Eis o nexo, afinal, das nossas lutas.

06/04/2005

Patética e inacabada* (de Alma Welt)
528

O soneto é a partitura do meu dia
E contém as notas, timbre e tom
De um andante meu na pradaria,
Dispondo se o concerto será bom.

Mas ao primeiro acorde inusitado
Regerei meu dia entre visões
E propensa a consultar o Fado,
Maestro verdadeiro... de ilusões.

Vê, o primo verso em tom saudoso
Já me arrasta em vã melancolia
Por um longo adágio de agonia...

Mas de minha sinfonia inacabada
O patético “finale maestoso”
Há de compor-se ao termo da jornada.

(sem data)


Nota
* Patética e inacabada - uma fusão, na alusão poética a duas famosas sinfonias: a "Patética" de Tchaikovsky e a "Inacabada" de Schubert.


De feiticeiras, sopranos e contraltos (de Alma Welt)
528

Amar, grande mistério, é Deus em nós,
Assim como odiar é o Diabo.
E este dito perdura muito após
O tempo em que o cujo era invocado

Não só a torto e a direito nas igrejas
Mas na cozinha das velhas feiticeiras
Que com a feiúra e nariz de brotoejas
Aqueciam mais que nossas mamadeiras,

Mas asas de morcego e alguns sapos
Com o fio de cabelo de um incauto
Que ousara cuspir nos nossos trapos.

Bah! Miséria... do soprano até o contralto,
Destino da mulher por tantos séculos,
Pernas abertas a sementes e espéculos!...

(sem data)


Notas
Acabo de encontrar na Arca da Alma, este forte e chocante soneto, a meu ver, profundamente feminista.

*...do soprano até o contralto- Alma quer dizer: das mulheres frágeis até as mais fortes.

*...sementes e espéculos- significa a procriação e a tortura (espéculo, hoje em dia um instrumento médico ginecológico, era um instrumento de ferro para torturar mulheres nas masmorras da Inquisição. Sugestivamente, a palavra deriva do latim, speculum = espelho. (Lucia Welt)

Magia do Verbo (de Alma Welt)
527

Mestre Freud dizia que as palavras
São uma espécie de magia atenuada.
Então, análise vem a ser abracadabras
Que a linguagem põe desencantada.

Nesses termos o poeta é o contrário,
Recompondo o encanto primitivo
Do verbo em seu impulso instintivo
Que marca a relação com o imaginário

Mas também com o mundo do real,
Mandrake, ilusionista e assombroso,
E a vida, um truque herdado mal e mal.

E estamos ainda agora como dantes,
Em plena festa da Natura como infantes
Diante do mágico, do acrobata e do Bozo*.

(sem data)

Nota
*Bozo- alcunha de um palhaço muito estereotipado da televisão brasileira nos anos oitenta, aqui usado como imagem do lado ridículo da nossa natureza... (Lucia Welt)

Arte em mim (de Alma Welt)
526

Dei-me cedo a mim mesma permissões
Que a Vida não daria de bom grado
A um astro, soberano ou potentado,
Mas no mundo interno: o das visões.

Aqui fui princesa e sou rainha,
Estrela maga, infanta, feiticeira.
Aqui a bela Terra é toda minha
E a minha visão é a verdadeira

Pois não há como de mim desencantar
O mundo que criei, de tão sutil
A diferença entre o ser e o avatar.


E se o Mistério há em toda parte,
Em mim cristalizou-se como arte
Com as palavras gravadas a buril....

(sem data)


Meus heróis (de Alma Welt)
525

Perdida de mim na pradaria...
Uma vez me vi quase perdida
No labirinto que me confundiria,
E Ariane fui de minha saída.

E no núcleo rochoso do meu Eu
Em torno ao qual orbitam tais delírios
Estava o acorrentado Prometeu
Que tanto acende lumes como círios.

Mas libertei de mim o herói titã
Apoiada no meu próprio cabedal
Da ave do poder mesmo, xamã,

Que era o Abutre da minha mente
Empenhado no embate figadal,
Renovado sempre... eternamente.

(sem data)



Nota
Acabo de encontrar na Arca da Alma este notável soneto metafísico, em que a Poetisa reconhece, de acordo com a teoria da Mitanálise Junguiana, seus próprios arquétipos libertadores, no caso Ariadne, a do fio no labirinto (aqui grafada Ariane por questão de cadência), Prometeu, o libertador derrotado, mas que deu o fogo (a razão) ao homem, e a quem a Poetisa atribui também um elemento de morte, ao acender nossas velas fúnebres (círios); e afinal, surpreendentemente, o próprio Abutre, que devora eternamente o fígado, sede da alma = psique (figué, fígado, entre os gregos) como o seu animal de poder no Xamanismo, doutrina animista de que a Alma às vezes lançava mão pela sua beleza primitiva. (Lucia Welt)




Retrato de Jomara (penúltima musa do pintor)- óleo s/ tela de Guilherme de Faria, 1976,30x40cm, coleção Flavio Pacheco, São Paulo, Brasil

Retrato de Jomara
ou Meu plano (de Alma Welt)
524


Contemplando um retrato de Jomara
Que musa fora do pintor Guilherme
E no qual o artista a morte captara
Em vida, e a que só faltava o verme

Que a esperava em breve sob a terra
Oculto e insidioso predador...
Eu, modelo vivo e diva do pintor
Resolvi poupar-me o que me aterra,

Que por meu plano justo e infalível
Hão de encontrar-me nua e bela
Sob um lago, espelho mais sensível.

E pelas instruções que dei de mim,
As chamas levarão como uma vela
Minha beleza preservada até o fim...

05/01/2007

Nota
Acabo de encontrar, assombrada e comovida, este aterrador soneto na Arca da Alma, em que ela revela o seu plano de morte incorruptível, e que dissipou para sempre as dúvidas que em nós foram plantadas sobre as circunstâncias da morte da Poetisa, por aquele nefasto delegado Bennotti. (Lucia Welt)

* O pintor imediatamente após receber este soneto republicou seu quadro no seu blog com este comentário: "Espantou-me saber que o retrato que pintei (nos anos 70) de minha segunda musa, Jomara, realmente premonitório do aspecto terrível que ela adquiriria pela doença que haveria de matar aquela que fora uma beldade na nossa louca juventude, serviria de inspiração às avessas para o plano de morte de outra beldade, a minha última musa, a poetisa Alma Welt. (Guilherme de Faria)

O Vale e a Aurora (de Alma Welt)
523

Minha mãe, a dura Açoriana,
Queria dobrar-me à tal doutrina
Do Vale de Lágrimas... e lama,
Pois meu riso iria contra a Sina

Do homem votado ao sofrimento
E que demandava austeridade
Para do dever o cumprimento,
Não entregue ao riso ou à saudade

Como era o meu caso, simplesmente.
Saudade, bem... a ânsia que eu sentia
Era a que o artista sempre sente.

Quanto ao riso... o oposto dos adeuses,
E ao ver o sol também que Arte nascia
Como aurora dos homens e dos deuses...


19/07/2005

Deus, deuses (Alma Welt)
522

Atribuir a Deus coisas de nós
Como amor, ira, onipotência
Tédio, ou pior, onisciência,
Bem, isso fazemos muito após

A era dos deuses encarnados...
Não me refiro àquele do madeiro
Mas aos dos tempos mais dourados
Em que se era cru e verdadeiro

E se punha ao largo contra Ílio,
Por Helena ou pra pilhar sem culpa,
Por puro vitalismo, ódio ou idílio.

E confesso preferia ter nascido
No tempo em que se era recebido
Sem a água-benta de desculpa...

(sem data)





Anita, eu e as visitas (de Alma Welt)
521

Meus verões de guria na fazenda
Inesquecíveis, mágicos, brilhantes,
Me fazem chorar por encomenda
Se me pedem pra contar os visitantes

Que parecem vindos de outro tempo
Com olhares intrusos de outro mundo,
Se tomam como fora um monumento
Tudo aquilo que é meu viver profundo.

E me pego a narrar então a saga
De Giuseppe Garibaldi e sua Anita,
Que sou eu, relembrando até afligir,

Meu amor, as batalhas e a desdita,
Com a minha decantada verve maga
Com que logro, a nós todos, confundir...

05/08/2001


O Sonho do casarão (de Alma Welt)
520

À meia-noite o sonho começava
Após a badalada derradeira,
Como doze golpes numa aldrava
De outra grande porta de madeira

Que não a do próprio casarão
Mas do castelo em festa, revelado,
Que há aqui mesmo no sobrado
E que emerge das sombras do porão

Lá onde as garrafas dormem cheias
E esperam, cada vez mais preciosas
Novos dias de vinhos e de rosas

Que só ocorrerão no mesmo sonho
Pois o Tempo suspenso tece teias
Que enredam o real reino tristonho.

(sem data)


A vida (de Alma Welt)
519

A vida, meu amigo, é tão estranha
Que não fosse o risco de uma rima
Eu diria que é a teia de uma aranha
E no centro está aquela que dizima.

Ou então que a vida é uma aventura
Num trem fantasma de verdade
Em que os companheiros de tortura
Vão sumindo a cada feia novidade.

Ou ainda que a vida é uma trapaça
E que somos nós o trapaceiro
Vendedor de elixires de cachaça

Para nós e até para os amados
A quem amor juramos, verdadeiro,
Quando mal suportamos nossos Fados.

(sem data)




Babilônia (de Alma Welt)
518

No mundo não há refúgio ou paz
A não ser na sua própria mente
Quem a tiver em paz, naturalmente,
Ou quem de altos vôos for capaz.

Não vêem os ingênuos ou incultos
Que o mundo foi sempre a Babilônia,
E não houve um só entre mil cultos
Que evitasse a falsa rima para esbórnia?

O segredo do mundo é a senda oculta
Que percorre o inferno nesta terra
Em meio a confusão da turbamulta

Da qual fazemos parte até o dia
Da recusa de uma tal de “mais valia”
E a solidão primordial que nos desterra.

09/10/2006

O Coro (de Alma Welt)
517

O canto da planície eu apreendi,
Seu coro visual ou seu entôo
Inaudível, mas que nítido senti
Observando os pássaros no vôo.

O vento em meus cabelos é a lira,
Em que pese o sabor parnasiano,
Pois deuses ainda há quem os prefira
Por mais simples, belo, ledo engano.

Envolta em natureza e sendo ela
Posso me encantar e ganhar tempo
Ou roubar do Tempo uma parcela.

E espero em meu último suspiro
(que não haja surdo contratempo)
Ouvir os sons do coro que admiro...

15/01/2007

O sentido da Vida (de Alma Welt)
516

Viver é já por si um bom mistério
Sem resposta no plano da razão,
E somente um suposto plano etéreo
Vem ainda alimentar nossa ilusão.

Pois se pensarmos muito no sentido
De estar aqui a comer e ver televisão,
Mesmo sendo um filme divertido,
Ou pior: americano e... de ação,

É pouco, muito pouco e fim de linha
Para uma caminhada tão sofrida
Já que a humanidade assim caminha.

Mas ser poeta é encontrar o tempo todo
A Beleza até na Morte, para a Vida:
A tal da flor a brotar em meio ao lodo...

28/07/2005


Amor, amores (de Alma Welt)
515

Coleciono amores com carinho
E nunca em pensamento os deserdei
Pois que ao respeitar o que amei
Não me perdi no meio do caminho.

Nenhum só jamais eu reneguei
Incluindo os que me foram infiéis,
Que do balanço d’alma só guardei
Um único amor em mil papéis.

Que importam faltas e fraqueza,
Os erros de pessoa e o sofrimento
Produzido por um doce sentimento?

O amor pouco deve ao ser amado,
Se ingênuo por mistério e natureza
Existe por que assim o quis o Fado.

(sem data)

O gaucho* (de Alma Welt)
514

O Pampa não tem franjas nem limite
E se estende bem além do horizonte
Onde vive o gaucho e, sem desmonte,
O Martín Fierro em si ele admite.

Na ondulada planura destes pagos
Como manta de um charque visceral
Os peões são profetas e são magos
De uma oculta confraria de bagual

Cuja honra ou altivez é a grandeza
Do ser, embora às vezes confundida
Com a simples bazófia da macheza.

Mas se acaso recusares um convite
Para mais uma rodada de bebida,
Saca logo teu punhal... e não hesite.


06/05/2004



A música dos versos (de Alma Welt)
513

Cedo eu encontrei o diapasão
Entre o meu vagar na pradaria
E o viver e poetar em comunhão
Com a própria cadência da poesia

Que reúno, rimada por requinte
Em versos ritmados e redondos
Cuidando não haver para o ouvinte
Tropeços e ainda menos tombos.

Com o uso da palavra algo cantante
A música entreouvida assim cativa
Faz nascer uma poesia celebrante

Como a antiga, dos aedos dos Aqueus
Cuja lira acompanhava a narrativa
Como estórias contadas por um deus...

(sem data)



A Última Primavera (de Alma Welt)
512

O que me guardará a primavera
Que é com certeza a derradeira
Já que a carta revelada, tão sincera
Me diz que não está pra brincadeira?

O meu jardim florido está deserto
Com as lindas crianças já crescidas,
Que já não as tenho tão por perto,
Que revoam, batem asas estendidas...

E se o meu perfil ainda comove
Por certo é a mim mesma que o faz
Se no espelhado lago ele se move.

Mas persisto em colher flores, tão Ofélia,
A me dizer que o espelho sempre traz
Sobre a face liquefeita uma camélia...


20/10/2006

Contratempo (de Alma Welt)
511

Eu pedi ao Tempo o beneplácito
De uma prorrogação além do tempo,
Que me foi dado por acordo tácito,
Já que tive na vida um contratempo:

O de ter amado o mesmo sangue
E de ter sido por isso renegada
Por aquela que eu queria fosse a fada
Desse amor e não pântano ou mangue

Em que eu chafurdaria suplicante
Por quase duas décadas de exílio
No próprio seio da Vida circundante,

Que quis acalentar-me, não lamento,
E manteve-me num vago e incerto trilho,
Que em poesia me trouxe a este momento...

12/19/2006


A cepa da videira (de Alma Welt)
510

Eu fui a este mundo transplantada
Entre os muitos mundos deste mundo,
Eu, tendo nascido numa estrada
Num parto perigoso mas fecundo

Pois fui colocada sobre a relva
E meu ser o palpitar sentiu da terra
E raízes deitou, como na selva
A semente que cai não se desterra.

E estava pronta, não pr’uma cidade,
Embora tenha sido a encubadeira
Preparando-me o enxerto sem saudade,

Ao vinhedo que eu iria incorporar
Como cepa de uma exótica videira
Com meu estro e sangue em seu lagar.

(sem data)



O início (de Alma Welt)
509

Nunca esquecerei meu próprio olhar
Primeiro, ao chegar aqui na estância.
Eu estava ainda em minha infância
E tinha tudo tudo a desvendar.

O casarão sombrio era vetusto
E as salas me deixaram pasma;
A avó Frida sorrindo era um susto
E o avô, então, era um fantasma.

Mas o jardim deitava o seu encanto
E a varanda mirava sobre as flores
Ao longe a pradaria como um manto.

Então, corri, sorri, chorei deveras,
E apossei-me da alma e das dores
Que a casa abrigava de outras eras...

08/05/2004

Finitude (de Alma Welt)
508

Estar-se consciente é a tragédia,
Do ser-e-estar-aí diante da morte
Se pra essa lucidez além da média,
Não temos sequer um bom suporte.

A finitude de tudo é tolerável
Quando vista por nós na natureza
Pois a transformação é inefável
E produz as estações e sua grandeza.

Assim como água sobe e pura cai,
Nada se cria, também se perde nada,
Ao pó voltamos com ou sem um “ai”.

Mas suspeito que o ego e seu mistério,
Completa imagem na vida conquistada,
Antes se perde no que jaz no necrotério...



A nascente (de Alma Welt)
507

Meu despertar diário em Poesia
É um riacho claro que pressinto,
E como tal, em vislumbre todavia,
Ao localizá-lo o não desminto

Se o soneto matinal nasce melhor
À mesa do café ou chimarrão
Com as lindas crianças ao redor
E o toque furtivo em minha mão

De Rodo, meu irmão, que escolheria
O pôquer, pra minar nosso passado,
Eis aí outro mistério ou ironia...

Pois constato que a nascente tão sutil
E de equilíbrio ambiental tão delicado
Começa por um cristalino fio...

(sem data)


Ritual (de Alma Welt)
506

Para a minha Musa eu merecer
E os poemas que me entrega,
Devo estar e não somente parecer
Clara, fresca, não saída de refrega.

O olhar límpido, a pele descansada,
Os cabelos soltos e sem laços
Vestes brancas, também, de iniciada
E meus brancos pés em lentos passos.

Assim escrevo meu soneto matinal
Que abre o meu dia sem deveres,
Todavia em constante ritual.

Pois muito cedo votei-me à Poesia
E descartei os fúteis padeceres,
Percebendo que a Morte também lia...

(sem data)


O Labirinto de Dioniso (de Alma Welt)
505

É possível um ser o outro conhecer?
Poderemos penetrar num coração?
A pobre alma trancada num porão
Realmente quer fugir ou transcender?

Estaria o grego antigo enganado:
Como Ícaro de mal coladas penas,
No corpo de um Titã, encarcerado,
Dioniso mal tem asas de falenas...

E medroso, submisso, acovardado
Quisera ali ficar eternamente
Pois teme o que haverá do outro lado,

Já que o teto azul, solar, do labirinto
(não se trata de um porão, eu bem o sinto)
É consolo e ledo engano suficiente...

(21/08/2005)



O Pacto (de Alma Welt)
504

A vida, meu amigo, não perdoa
O menor engano, erro ou deslize
E cobrará de modo que te doa
Seja aqui, em Paris ou em Belize.

Não poderás fugir pra Patagônia
Se na hora mesma da conquista
Trocares uma rosa por begônia,
E essa não for a flor bem quista.

E se pela atração de suas peles
Casares com um ser incompatível,
Acordo que nem sabes quando seles

E que o Tempo cobrará, embora lento,
Verás que os orgasmos de um momento
Se tornaram essa tua vida horrível...

(sem data)


Nota
Acabo de encontrar este enigmático e belo soneto na Arca da Alma, e me pergunto a quem ela se dirigia... Trata-se de uma alusão à coisas acontecidas com um amigo? Ou, mais genericamente, uma alegoria da própria implacabilidade do destino humano, feita de cobrança e ironia.... (Lucia Welt)




A Dama do Lago (de Alma Welt)
503

Dediquei-me à tarefa de sonhar
Tornando o meu sonho testemunho
Da vera vida em mim, subliminar
Que é o cerne, o centro, o punho

Fechado da existência e que se abre
Emergindo à tona do meu verso
Desde o fundo negro do universo
Com a pena e não com aquele sabre

Que a Dama submersa recolhia
Num lago distante deste prado
E que no sonho meu é aqui ao lado,

No poço da cascata, a mim sagrado,
Onde nua mergulhava e onde escrevia
A minha própria saga e o meu fado.

08/01/2007


Angústia (de Alma Welt)
502

É difícil desfrutar da juventude
Quando se tem aguda a consciência,
Não de deveres, que isso até eu pude,
Mas da finitude da existência,

Que é a razão de toda angústia
Que persegue o homem racional
E o fez criar consumos e indústria,
Como faz uivar em nós o animal.

Eis o mistério, como eu sinto,
Em que nos debatemos por saber
Ou nos esquivamos por instinto,

Embora eretos, ao lado do caixão
Do que antes de nós deixou de ser,
Solenes, mão na alça, sem paixão...

(sem data)

O Ser e a Poesia (de Alma Welt)
501

Pensar o Ser, tarefa inconclusiva
É do filósofo a grande obsessão,
Embora o Ser em si, matéria viva,
Dispense o pensar, tal como a ação.

"Estar-aí-no-mundo", eis a senha,
Possível entre o Poeta e a Poesia
A quem, real, repugna a resenha
Do que claro e pronto já nascia.

Assim, não confundamos os estribos
Das selas de um e outro cavaleiro
Que por certo vêm de duas tribos.

Quanto a mim, seduzida, já o sinto,
Na Noite do pensar, sem candeeiro,
Perdida devo estar, no labirinto...

29/12/2005

Meta-física (de Alma Welt)
500

Concentro meu olhar numa cadeira,
Para sentir a essência da Natura.
Ou muito além, naquela vã fronteira,
Para inferir da Terra a curvatura.

Poeira, relva, inseto ou ave,
Tudo contém o todo e o universo.
Na verdade, o mundo e seu reverso,
Pois no hiato mesmo está a chave.

No átomo o vazio é bem maior,
Dizem os cientistas (um espanto!),
Do que a matéria ao seu redor.

E entre saudade, dor, e a solidão,
Que sempre me acompanharam tanto,
Está o espaço da humana condição...

(sem data)


Reminiscências farroupilhas (de Alma Welt)
499

Tantas vezes, vagando pelo prado
Eu sinto aquela estranha nostalgia
Desta mesma pradaria em outro fado,
Que esqueci, e que outrora percorria

Num tempo remoto, entre guerreiros
De bombachas e espadas, e lanceiros.
Então penso que na saga farroupilha
Estive mais pra vivandeira do que filha.

Ah! Como eu amava o italiano,
E como admirava a brava Anita!
Por eles fui lá atrás por mais de ano...

Todavia em flashes de memória
Me avisto junto a ele e a favorita,
A contar ao par mais de uma estória...

(sem data)


O Eterno Retorno (II) (de Alma Welt)
498

Não digo adeus às coisas tão amadas
Que me acompanharam nesta vida,
Como o canto das aves nas ramadas
Ou as cores que me põem embevecida

Dos poentes que me fazem ver o além
E descortinam a glória que teremos,
Quando não diremos mais “amém”,
Mas seremos já o que nós vemos,

Integrados no Mundo e no Devir,
Sóis, espaço-tempo, eternidade,
Ou só um cometa em sua saudade

Na viagem solitária, extrema em si,
Durante a longa jornada a se esvair,
Para voltar ao lar, que é mesmo aqui...

08/01/2007


Stradivarius (de Alma Welt)
497

Conquanto nascida pra escrever,
Sei que não serei bem compreendida
Pois sonetos somente pra entreter
Não terá sido meu propósito de vida.

Mas subir bem alto em pensamento
E entregar-me à ardência da paixão
Por tudo o que é vivo em andamento,
Sabendo que voltamos para o chão

Como semente de um sonho usufruído
Lançando fundas raízes na memória
E lutando contra as trevas e o olvido,

Eis a meta, meu escopo, meu destino,
Mais do que um soprano, um violino,
Stradivarius de mim, e minha glória...


14/01/2007

"O Tempo e o Vento" (de Alma Welt)
(para Érico Veríssimo, in memoriam)
496

Para expressar o pampa, a minha terra,
Raízes fundas lancei de umbu-pampeiro,
Aquele grande da colina, sobranceiro,
(que nada mais me ceifa ou me desterra)...

Eu e a terra temos laços, somos um
E a planura se reflete em minha mirada
A buscar no horizonte como um zoom
A razão de ser poeta e... desvairada.

Mas tudo que me cerca está lançado
Num livro de registros imanente
De sonetos como flores do meu prado.

E se chegar um tempo sem memória,
Estarei plana e vasta em minha mente,
E o minuano há de contar a minha estória...



A Usurpadora (de Alma Welt)
495


Após a queda, retorno ao casarão,
Que andara pelo mundo, peregrina
Em busca de algo numa esquina
Que mesmo aqui estava, neste chão.

De meu feudo a Morte me expulsara,
Não me queria aqui sem o meu Vati.
Da Infanta destronada se livrara,
Que me tornara amarga como o mate...

A Usurpadora lágrimas não quer,
Um pé lá, outro na vida, qual anfíbia,
Mas na macabra orgia é só mulher,

Devassa, sinistra e falsa amável,
A vi tocar um violino numa tíbia
Na sala do defunto inigualável...


10/06/2005


A queda livre (de Alma Welt)
494

A montanha subi nada hesitante,
Eu, que venho da terra da planura
E ali tenho a vertigem do rasante
E corro numa espécie de loucura.

Nos prados quero alçar-me e voar
Com o pampeiro e seus abismos
De horizonte e seus ocultos sismos
Que são despenhadeiros do olhar...

E me vi subindo alto, muito alto,
Rumo ao pensamento sempre virgem,
À era em que começou meu salto.

Pois sinto-me viver em despedida,
Espírito que almeja sua origem
Na grande queda livre que é a vida...

25/08/2004


O Sangue do Poeta (de Alma Welt)
493

Quando guria um tonel eu vi jorrar
De vinho pela relva em catadupas
Quando um peão com outras culpas,
Com o machado rachou-o a gritar:

“Eis de volta o sangue desta terra!
E logo, igualmente, o meu, verão.
Mas antes verterei de um que aberra
E não merece o amargo que lhe dão!”

E naquela tarde houve o embate
Na sinistra Colina do Enforcado
Mais regada de sangue que de mate.

E eu, que tudo em volta absorvia,
Jurei jorrar por conta do meu fado,
Meu sangue pela vida e a Poesia...

(sem data)



Penélope do Pampa (de Alma Welt)
492

Nos meus olhos lágrimas faltando,
Lanço mão da fonte da memória
Que me põe as imagens desfilando
De tempos mais felizes e de glória

Neste mesmo jardim onde eu colhia
Flores para os risos de outra era
Quando a vagar alegre eu antevia
Abraços ao final da minha espera.

E era o mesmo amor, mas tão puro
Que julgava pertencer ao paraíso,
Alheia às nuvens densas do juízo

Que logrei adiar até que ouvisses
Falsos cantos atrás do verde muro
Que haveria de levar o meu Ulisses...


Nota
Acabei de encontrar na Arca este sugestivo soneto, que a meu ver poderia também se entitular Penélope do Pôquer, uma vez que nitidamente se refere à infância do amor de Alma e Rodo, quando a espera entre eles era curta e somente de expectativas breves de seguidos reencontros. Mais tarde viriam os "falsos cantos" (das sereias da fortuna) atrás do "muro verde" (as mesas de jogo) da Tróia do pôquer, que haveria de afastar por longas temporadas nosso irmão de sua amada Alma em esperas mais longas e agoniadas. (Lucia Welt)

Estaremos (de Alma Welt)
491

Estaremos por aqui na derrocada,
Percorrendo o arruinado casarão
Com as ervas lá subindo pela escada
Que nos viu escorregar no corrimão

Em risos e gritinhos, eu e Rodo,
Quando de nossa infância gloriosa,
Depois nos amando em cada cômodo,
Na doce transgressão já rumorosa...

Ou então, espectros belos e traquinas,
Nos verão outros peões e suas prendas
No pomar em novos ritos e oferendas.

E quando um viajante aqui passar,
Dirão, o dedo em riste para as ruínas:
"Alma e Rodo ainda são vistos ao luar"...

(sem data)



Nota
Fiquei pasma com este belíssimo soneto, e o achei profético, pois é realmente o que tem acontecido por aqui: Alma tem sido vista pelos peões e suas mulheres e filhas, tanto quanto por mim, acreditem vocês ou não. Seu espectro muito branco, translúcido, vaga pelo jardim, pelo pomar e pelas colinas, perdendo-se no bosque. Eu já o segui três vezes, e numa delas encontrei na praia da cascata, brilhando á luz da lua, o anel de prata de lenço de vaqueiro que serviu para a identificação de seu assassino. Mas isto é uma penosa história que fico devendo e contarei mais tarde aqui mesmo neste blog. (Lucia Welt)

A Verdade (de Alma Welt)
490

A Verdade a todos nos liberta,
Ou torna a mente bem mais leve,
Já dizia um velho bom profeta.
Mas fará mais longa a vida breve?

Encarar a Verdade em fundamento
Quase foi fatal a esta guria,
Pois a Morte, angústia-pensamento,
Cedo à consciência me irrompia.

A idéia de que possa ser o Nada
E a dissolução de todo o Ser
Atormenta cada rês desta manada.

A mim quase me fez desesperada,
Até o poeta em mim me prometer
Deixar-me ser em nova temporada...

(sem data)


A Frota de Naufrágios (de Alma Welt)
489

Reconstruo a cada dia o arcabouço
De meus planos e sonhos acordados
Que ao final do dia eu bem os ouço
Gemer e afundar qual naufragados

Com o belo sol poente deste pampa
Que anuncia a noite de outro sonho
E logo da Pandora erguendo a tampa,
Aquela dos poemas que componho

Como barcos de gregos e de sírios
Que se juntam na praia, controversos,
E constroem uma frota de delírios...

Quantas inquietudes, cismas várias,
Quanta lucidez perdida em versos,
Estranha frota de barcaças solitárias!

21/11/2005


Nostalgia (de Alma Welt)
488


À noite na varanda ante a planície
E a florida transição deste jardim
Que traz o meu amor à superfície
Com o doce cheiro do jasmim

Me comovo com ser parte do pampa
Ou ser dele um reflexo condigno
Embora a minha face tenha a estampa
De outro hemisfério e outro signo.

Minha ruiva cabeleira e a pele branca
Acalmam o peões e amansam feras
Desde quando ostentava estreita anca,

Conqunto uma inquietude no meu peito
Persiste em tirar-me do meu leito
Numa estranha nostalgia de outras eras...

(sem data)


O poeta (de Alma Welt)
487

O poeta não nasce em qualquer um
Senão naqueles seres de exceção
Que recusam o falso e o comum
Procurando alturas e amplidão.

Não me venham dizer que a poesia
É vã ou que sem ela bem vivemos!
O ser que, infeliz, não se extasia
É menor que o animal que percebemos

Como o lobo uivando à luz da lua
Ou o pássaro que canta na floresta
E a cigarra que o minuto perpetua

Alongando os segundos com seu verso,
E na muralha cavando aquela fresta
A minar o grande dique do universo...

(sem data)

O Vale (de Alma Welt)
486

Já se vão os irradiantes dias
E eu devo me render às evidências
De um futuro talvez de penitências
Pelos dias de cigarra e alegrias.

Tanto, tanto que a Mutti nos dizia
Que de lágrimas o vale é mesmo aqui,
E que ela própria nunca se iludia
Pois o pranto é o prêmio de quem ri!

Ela, o Vati e os genros já não estão,
E Solange que via como escolhos
Cada riso e brilho nos meus olhos...

E as velas da Matilde e sua homilia
Que fazem tanto rir ao meu irmão,
Enquanto a casa, da mobília se esvazia...

29/12/2006



"A Louca de Albano" do Pampa (de Alma Welt)
485

Noites do meu pampa, estrelas nuas
Que me vêem como sonâmbula vagar
Esperando me elevar à luz da lua
Pequena e branca gôndola no ar!

Me conhecem os peões e suas prendas,
Esta “louca de Albano” desvairada,*
Que sai de sua cama toda em rendas
Para andar no jardim, de madrugada,

Pois que não resisto aos seus apelos,
Noites e luas sedutoras da planura,
Que me puxam no leito os cabelos

E que, antigos, meus delírios alimentam
(sou eu a lenda viva que comentam)
Na sutil voragem branca de loucura...

27/02/2004

Nota
*...louca de Albano- Nossa mãe, Ana Morgado, catarinense neta de açorianos, nos contou esta estória antiga, portuguesa, em versos, apreendida com seus avós, e costumava chamar a Alma de Louca de Albano como censura quando ouvia contar que ela vagara nua, de noite, pelo jardim ou pela pradaria, ou outra aventura bizarra de minha irmã.


Alma e o Lobo (de Alma Welt)
484


Um lobo é meu amigo, isto é sério!
Isso afirmei quando ainda era guria
E não fui acreditada em meu mistério,
Lobo-guará como esse não havia...

“Esse animal é tímido, covarde”,
Diziam Galdério e mesmo o Rodo.
“O sonho que em ti por certo arde
Te faz crer amigo o mundo todo”.

Mas eles não sabem e não podem
Saber que para atraí-lo eu me desnudo
Que assim o meu guará aceita a ordem

Natural de nossa pele e do meu cheiro
Pois eu creio que assim medo transmudo
Em instinto de amor ao mundo inteiro...

(sem data)


Versejando (de Alma Welt)
483

Esta ânsia dos versos na guria
Não foi ignorada desde a infância
Pelo povo tolerante desta estância,
Que vê jorrar tal fonte de poesia:

“-Essa prenda põe a fala no tinteiro,
Uma palavra jogada assim a esmo
Vira verso como muda o pampeiro
Em haragano ou minuano mesmo”.

“Por isso tome tento, gauchada!
Na digam tonterías, charla à toa ,
Que o que ela pega... é que revoa.

Mas quando ela recita pr’um gaudério
O amargo se refina, o mate côa,
E tudo fica claro ou... um mistério!”

(sem data)



O Pampa, eu, e o Maestro (de Alma Welt)
482

Quando estou a vagar na pradaria
Por entre brisas, vôos e zumbidos,
Aguçados os meus olhos e os ouvidos,
Posso sentir a deferência e honraria

De ser do Pampa aceita pelo povo,
Eu, nascida à beira de uma estrada,
Arrancada do ventre, ensangüentada,
Pelo cirurgião de Hamburgo Novo.

Também seria o pampa assimilado
Por ele, o Maestro, de bombachas,
Com notável respeito e até agrado.

E sinto ainda, ele no solo e eu vagando
Nas sendas que são gaudérias faixas,
O punhal o meu cordão ainda cortando...


A candeia (de Alma Welt)
481

Sob a luz aconchegante da candeia
Que tremula viva qual carícia,
Sou como a aranha em minha teia
Embora espere idéias sem malícia,

E nunca como presas, sem piedade,
Mas aquelas que vierem por encanto
Que é como nascem de verdade
Os poemas, o riso e mesmo o pranto.

E começo por pensar a natureza
Dessa luz tão doce e aliciante
Que aqui no casarão é ainda acesa.

E se, poeta, queimo velas e pestanas
É que percebo que a chama leva adiante
A vigília do Tempo em filigranas...

19/08/2005



A estirpe dos Sonhos (de Alma Welt)
480

Os seres que povoam nossos sonhos
Pertencem a estirpes muito antigas.
Não sabemos o que os põe tristonhos
E o que os alegra em risos e cantigas.

Em mim os vejo sempre em algo misto
De uma Arcádia bucólica e um Walhalla
Onde ali no bosque ou cá na sala
Erguem brindes de honra ao mais bem-quisto.

Mas sei que o festejado é Dioniso
E não um guerreiro, e meu espanto
É que Orfeu ao lado jaz e eu o diviso

Na forma de um cisne apaixonado
Que no último momento lança um canto
E trai em arte seu amor desesperado.


O poeta e o Logos (de Alma Welt)
479

Estaremos todos juntos no final?
A humanidade é só uma alma mesma?
Estilhaçada como vidro no quintal,
Espera que um “rewind” a torne ilesa?

Tudo é um mistério sobre a terra,
Se somos sozinhos tudo é inútil,
E o medo persiste e nos aterra,
Fazendo do viver algo bem fútil.

Mas se somos parte do Indizível
O poeta é que teima em decliná-lo
Com frações daquele logos irascível,

Os versos a juntar cada pedaço
Da triste humanidade para amá-Lo
E sentir-se um pouco em Seu regaço...



Os ciganos (de Alma Welt)
478

Os ciganos chegaram novamente
E sou eu a defendê-los e hospedá-los.
Desde o tempo do Maestro entre a gente
Vou à orla do bosque encontrá-los.

O Vati, que era sábio e tolerante,
Ensinou-me a respeitar e até amar
Aqueles que desfrutam cada instante
E assim parecem nunca trabalhar.

E qual Dalí, grão-mestre surreal,
Direi que, embora um ente laborioso,
Defenderei até a morte o ocioso.

Então percebo que, poeta, sofro igual,
Pois sou vista como ovelha desgarrada
Que se afastou a esmo e... por nada.


Antípodas (de Alma Welt)
477

Para ser a Alma mesma que me cabe
Devo cantar somente ou versejar
Acordar em ser e êxtase de amar
Para viver como se nada nunca acabe.

Todavia aquele espectro soturno
Teima em me seguir e acompanhar
Mesmo quando é dia e não seu turno,
Que é da noite seu tempo e seu lugar.

Mas eu sei que os polos se entrelaçam
E para um deles ser, o outro oponho,
Que sozinhos ambos doem e ameaçam.

E o mistério de viver nisto consiste:
Estar no mundo e saber que tudo é sonho,
O mundo é belo, e de verdade... nem existe.



Espelhos (de Alma Welt)
476

Como branca nau entre as ervinhas,
Singrando leve na campina, e sem mastro,
Eu penso em ti, ó bela Inês de Castro
E “no nome que no peito escrito tinhas.”

Bah! Quisera eu ser somente em mim,
E nenhuma imagem santa carregar
Para minha própria imagem respaldar,
Ser eu mesma e só, esta Alma, assim.

Porém, se colho a flor ao meu alcance
Outra imagem, a de Florbela, tão amada,
Me joga noutro tempo, noutro lance.

E eu perambulo viva entre os séculos
Fazendo do Tempo minha morada,
Neste jogo de almas e de espéculos...

(sem data)



Anti-receita do poeta (de Alma Welt)
475

O poeta não vive o “dia a dia”,
O rame-rame, o tédio, se quiseres.
Sob o signo da atroz melancolia
Por certo não desfolha mal-me-queres.

Não edifica, não ora ou pontifica,
Afasta-se das regras e dos códigos.
O poeta entre os raros nidifica
E voa melhor em meio aos pródigos.

Nada de sermões de bons costumes
Ou causas e missões a abraçar...
Não pretende a ninguém levar os lumes.

E se o poema nasce, que surpresa!
(que nunca sai o que é de se esperar)
Um novo olhar à face da beleza...

(sem data)


Amor e Arte (de Alma Welt)
474


Muitos são os nomes do divino
Mas por certo o Amor é o primeiro,
Com a Arte, sua face e violino,
O poético real e verdadeiro.

Passar por esta vida como um canto,
Um poema, um quadro ou um desenho
Que tenham do amor o mesmo encanto
E se queira buscar com mesmo empenho

É milenar nota do artista, distintiva,
Que há de pagar por ela um alto preço,
É dom que traz de Deus a marca viva.

Então a alma canta, os traços vibram
A palavra recobra o seu apreço,
E pronto: vida e morte se equilibram.

(sem data)


Abramos as janelas (de Alma Welt)
473

Abramos as janelas, meu irmão!
A vida esta penumbra não requer.
Os mortos receberam sua porção
Do respeito e pranto que se quer.

Nosso pai era alegre, bonachão
E não um melancólico qualquer.
Nossa mãe era o poder como mulher,
Agora esse poder está no chão.

Nossa índole é clara, luminosa,
Não fomos feitos para o pranto
Nem culpas, e muito menos, glosa.

A verdade estava ali naquele prado:
A terra os cobria com o seu manto
E eu sentia tuas carícias, disfarçado...

(sem data)




A Arca insensata (de Alma Welt)
472

Construir minha Arca de poesia
É menos veleidade que ambição
E nada ou ninguém me denuncia
Um furo nesta nave em construção.

Olho para trás e me orgulho
De cada soneto entre um milhar
E apesar de falsa rima congratulo
A mim mesma por ser meu avatar.

Musa de si mesma!-alguém protesta-
Ou de nau insensata o capitão?
Não devias ser bem mais modesta?

Retruco que a humildade é rendição,
E o contrário da essência do fazer:
A Poiesis, meu navio e meu dever...

(sem data)


O Turbilhão (de Alma Welt)
471

Tem dias que me vê a pradaria
Correr e rasgar as minhas vestes
Por puro entusiasmo de guria
Quando de carinhos me revestes,

Rodo, meu amado e meu irmão,
A quem me foi dado assim me dar
Como o sangue das uvas no lagar
Embora num tonel de maldição...

Que importa o fruto proibido?
Viveremos, acaso, eternamente,
Ou libertos do peso da libido?

Somente um turbilhão subjacente
Como na exemplar saga dantesca,
Enlaçados, Paolo tu, eu a Francesca...

02/10/2005

Balanço final (de Alma Welt)
470

Quão colhemos nós dourados pomos
No sacro pomar da juventude!
No balanço, afinal, felizes fomos,
Eu a manter a chama enquanto pude

Malgrado injúrias, dores e pressão
Contra o amor puro e desatado
Que nascera antes mesmo da estação
E que quiseram logo ver ceifado.

Entretanto não devo me queixar
E sim prostrar-me ante meus numes
E agradecer a dádiva de amar,

Reconhecendo que debaixo do cilício
Pela transgressão aos bons costumes,
Abençoados fomos desde o início!...

(sem data)


Noites retornadas (de Alma Welt)
469

Noites retornadas na memória!
Belas noites quentes de verão
Quando eu contava nossa história
Para meus guris amados, no portão

Frente à relva coruscante deste prado
Na orla do jardim da velha Frida
Do ilustre casarão meio arruinado
Pela saga intensa de outra vida

E revíamos os amores e as lutas
Que eu mesma narrava sem receios
Sem me saber herdeira das disputas

Que depois fizeram ver a dura lança
À nossa estirpe por outros rubros meios:
Derramando nosso vinho e nossa herança...

(sem data)



O amor guardado (de Alma Welt)
459

O primeiro amor, eternizado
É como se lançado no papel,
Ou com apuro cinzelado,
(e a paixão possui um bom cinzel).

Melhor se preservado na missiva,
Carta se possível, ou o bilhete
Que acompanha o simples ramalhete
Fanado... na memória ainda viva.

O beijo, então, da despedida,
É sempre guardado numa arca
Para vir à tona bem mais tarde,

Quando a emoção que nele arde
Das cinzas dos lábios, sua marca,
Como a fênix recobra a sua vida.

(sem data)

Meu mastim (de Alma Welt)
458

Longe ladra o mastim fiel da casa
E sabê-lo correndo e farejando
Me faz sentir que tenho asa
E longe vou... e pelos longes ando.

Mas quando ele volta assim, babando,
Excitado por algo insondável
Suspeito que jamais tive o comando
Desse mundo sutil e incontrolável,

Já que um dia percebi com emoção
Que era eu que ele mais longe farejava,
O aroma que pra ele era uma festa,

E que a prova real de que me amava
Era trazer a sua leal comparação
Encostando o focinho em minha testa.

(sem data)



Revelações (de Alma Welt)
457

O poeta em mim fixa no olhar
A condição perene do momento
E transforma a ação em pensamento
E em verbo o cenário do pensar.

A cor do gesto o olhar plasma
No exercício do diário poetar
Onde o ser comum deixa passar
Como se a ação fora um miasma.

Mas tudo permanece na retina
Como a daqueles mortos de terror
Que gravam a face do assassino

Na pupila que logo perde a cor
Assim que o detetive a examina
E revela como prova de um destino.

(sem data)


O cavaleiro (de Alma Welt)
456

Pelas noites vinha o cavaleiro
Armado de fuzil e cartucheira,
No peito, cruzada, a bandoleira
E na cintura uma faixa de toureiro

Com o punhal de prata e bombachas,
O chapéu era pequeno e dobrado,
Tinha fileiras de bordadas tachas
Na frente, e aos ventos do meu prado.

Mas ele cavalgava sem um senso
E mirando-me assim ele apontava
Mas passando por mim arremetia

No louco rumo do nevoeiro denso
Onde por encanto ele sumia
Enquanto o véu do tempo se fechava...



Névoas (original de Alma Welt)
455

A neblina que paira sobre a estância
A revela em sua falsa letargia.
Dois séculos de espera e de constância,
Lhe fizeram firme e cega companhia.

Quem chega ao casarão e suas soleiras?
Que esporas já retinem na varanda?
Que olhos doces de casadas e solteiras
Lacrimejam e se abaixam como manda?

Na névoa revivem os áureos tempos,
Os risos e esperanças se renovam,
Ainda não se contam contratempos...

No salão Anita entra, e Garibaldi,
E talvez esta família já comovam,
Que aqui não haverá quem deles malde.



Névoas (de Alma Welt)
454

A neblina que paira sobre a estância
A revela em sua falsa letargia.
Dois séculos de espera e de constância,
Lhe fizeram firme e cega companhia.

Quem chega ao casarão e suas soleiras?
Que esporas já retinem na varanda?
Que olhos doces de casadas e solteiras
Lacrimejam e se abaixam como manda?

Na névoa revivem os áureos tempos,
Os risos e esperanças se renovam,
Ainda não se contam contratempos...

No salão Anita entra, e Garibaldi,
E tavez esta família já comovam
Que aqui não haverá quem deles malde.

(sem data)


A prenda (de Alma Welt)
453

Sou guria orgulhosa deste Pampa
Que ousa cantá-lo em verso e prosa.
Que digam que a caixa só destampa
Quando os grandes fazem sua glosa!

Evocando a valente farroupilha,
Os maiores já contaram seus revezes,
Mas não com a candura de uma filha
Como eu que a espero tantas vezes

Na soleira desta casa tão vetusta
E ilustre em sua anciã modorra
Que nada faz crer que um dia morra.

Ostentando pelo menos um punhal
Reencontro Anita e não me custa
Galopear junto dela o meu bagual...


As Naus (de Alma Welt)
452

Leiam estes meus versos, ó futuros,
Não despendia assim tanta energia
Em rimas, em palavras de poesia,
Não quisera eu transpor tais muros.

Não estaria brincando no serviço
Ao inventar assim tantos motetos...
Há muito notariam meu sumiço
Aqueles que invejam meus sonetos

Se não fosse aquele ilustre clero
De farrapos e de homens como Netto,
Escoltando-me ao meu verso completo.

Mas como Anita se lhe falta o italiano,
Vejam, nos meus versos eu lidero,
E arrasto naus em meio ao Minuano...



Os errantes (de Alma Welt)
451

As ocultas trilhas do meu pampa
Conduzem ainda ao meu portão,
E espectros saídos de sua campa
Assombram mesmo agora o casarão.

Não busco exorcizar ou demovê-los:
As velas são porque os quero bem
E procuro com meus versos comovê-los
Embora não me sinta sua refém.

Mas compartilho sim, a solidão,
De almas que malgrado sua paixão
Ainda erram e deixam suas prendas.

Eu mesma, a esperar Rodo, meu irmão
(que este vaga vivo em outras sendas),
Sou a novilha de um pródigo marrão...



A cigarra (de Alma Welt)
450

Quando chega o tempo das cigarras,
Eu que trabalhei como a formiga
Num romance, soltando as suas amarras,
Nem por isso dou ouvido à sua intriga.

Sou da raça daquela cantadora
E trabalhar pra mim é eufemismo.
Cantar, cantar, mesmo que amadora
Na glória do meu diletantismo!

Isso o é que faz feliz a pampiana
Sem os remorsos que me cobra
A lembrança da dura Açoriana...

Malgrado este prazer que quase aberra
Cantar, cantar a alma desta terra
E seu cenário ilustre... é minha obra!



A Noviça do Pampa (de Alma Welt)
449

Olho o meu cenário de tal modo,
Que feliz por existir, como noviça
Eu abrindo os braços rodo e rodo
E agradeço isto ser pampa e não Suiça.

Meus avós aqui chegaram por acaso?
Não creio como creio no destino,
Embora misterioso, no meu caso...
Por quê o cabelo ruivo e o pêlo fino?

Esta herança germânica que teima
Em me deixar nostálgica do gelo
Que por aqui a geada, apenas, queima...

E esta pele tão alva como um halo
Que os gaúchos me querem ver o grelo
Apostando que é rubro ou muito ralo...




O Jogral (de Alma Welt)
448

Para prosseguir minha jornada
Abro mão de certos artifícios,
Como os da vaidade declarada
De que dispenso os sacrifícios,

Mas plantar sementes no agora
Dos frutos do porvir, a macieira
Dos pomos dourados de uma aurora
Vislumbrada por mim a vida inteira,

Eis a maior vaidade! -vós direis-
Tudo é vão, na morte tudo finda,
Até o fausto e poder de antigos reis.

Mas eu, ainda guria, constatei
Que o jogral do rei o canta ainda,
Eis o poder maior que já encontrei.

(sem data)



Prece (de Alma Welt)
447

Pelas doces manhãs da juventude
Em que eu acordo a rir e a rodar
E tudo é motivo e completude:
O casarão, a pradaria e o pomar...

Pela graça de ser bela e muito mais
Por ser amada pelo Vati, meu Maestro
Pela Mutti, irmã Lucia e o irmão destro
Nos jogos de cartas e pedais

De seus bólidos brilhantes, perigosos
Que ele jura como as cartas dominar
Como fazem os talentos ociosos

E ao fim das temporadas retornar
Para os braços meus já tão saudosos...
Eu sou grata demais por tanto amar!



A jornada de outono (de Alma Welt)
446

Não estaremos prontos no final
Nem felizes, talvez, o que é pior.
O prêmio reservado no portal
É um remordimento bem menor,

De consciência, digo, e não é pouco
Pois o espectro daquilo que evitamos,
Agoniza ou gesticula como um louco
Exigindo a atenção que não lhe damos.

Mas um puro coração é sempre leve
E voa ao vento oeste como folha
Na jornada de outono muito breve...

Então, sentemos na varanda, meu irmão
E deixemos que o inverno nos acolha
Enquanto ardente beijas minha mão...

14/01/2007


Da Saudade (Alma Welt)

“Estranho, não desejar mais nossos desejos...”
(primeira Elegia de Duino- Rainer Maria Rilke)
445


“Não desejar mais nossos desejos...”
Imagino que isso chega com a idade,
Se alcançarmos o tempo da saudade
Que já não almeja os seus ensejos,

A pura saudade, conformada,
Que é dom e consolo dos idosos
Como compensação da caminhada
Igualmente para tristes ou ditosos.

Então, feliz do homem despojado
Cuja saudade é plena e não carente
E que a afaga lenta e docemente...

Vê: na nossa mente tudo temos,
Nada perdemos e tudo é renovado
Pois que só na alma é que vivemos.



Iniciação (de Alma Welt)
444

À meia noite o portal se abria
E tudo se passava no meu bosque.
Eu saía do meu quarto e lá eu ia
Para o mágico encontro no quiosque

Das fadas e demais elementais
Que temias, eu me lembro, e evitavas
Como conspirações de ardis fatais
Que nos mandariam e tudo às favas:

A ordem, os desígnios e o destino
Que a gente há muito construía
No plano destes prados, dia a dia.

Mas tu mesmo, Rodo, foi primeiro
A me mostrar no espelho o aço fino
Entre o bosque e o mundo verdadeiro.

(sem data)



Perdidos Amores (de Alma Welt)
443

Ausculto o silêncio desta casa
E ouço a algaravia de seu sonho
Distinguindo o murmurar tristonho
Dos amantes perdidos, já sem asa,

Arrojados ao solo do malogro
Quando tudo perderam, com a vida
Que ofereceu sua chance como jogo
De falsas opções cobrando a dívida...

Como é triste a estória dos amores
Que tudo apostaram sem futuro
Na fusão do ser, ó meus senhores!

E tudo enfim perderam, como soe
Acontecer na vida de um ser puro
Que crê no amor eterno, ah! como dói!



O sentido do ser (de Alma Welt)
“A poesia é o autentico real absoluto.
Quanto mais poético, mais verdadeiro”. (Novalis)
442

Encontrar o sentido de viver
Não é tarefa simples, corriqueira...
Percebo que a humanidade inteira
Vive a esmo acreditando ser

E existir sem ao menos suspeitar
De que possa ser parte da ilusão
Que a vida edifica em pleno ar,
Onde ser ou não ser é tudo em vão.

Questionar a existência do real
Já é parte da construção possível
Do universo em seu plano ideal

Que é o sonho lúcido em poesia
Como termo verdadeiro e mais tangível
Que o divino com o ser reconcilia...

(sem data)


Revelação (de Alma Welt)
441

Voltemos para casa, meu irmão,
Que sinto um aperto aqui no peito.
O Vati nos espera, eu bem suspeito,
Com a resposta ou melhor: revelação

Da pergunta que deixei plantada
Na mesa na forma de um enigma
Que pode decidir, numa cartada
E retirar de nós o nosso estigma.

Antes do que for, pois, respondido,
Saiba: eu creio não seres meu irmão
E que assim, nosso amor é permitido.

Eu sempre vi em ti um outro sangue
Que me chama ao real mundo de ação,
Que, sem ti na vida, eu era exangue...


Sonetos (de Alma Welt)
440

Escrever sonetos infindáveis
É a minha missão e minha meta
Embora haja quem ache memorável
Outros hão que achem-me pateta.

Mas sei que registrando em poesia
Tudo o que vivo e sinto a cada dia,
Nada perderei da quintessência
Do existir em alma e consciência.

"É um vicio, isso sim!"- dirão alguns
"Porque então não contas o teus podres
Ou ao menos confessas os teus puns?"

Mas eu não levo a sério tais reclamos,
E tratando como se fossem meus amos,
Lhes sirvo o melhor vinho dos meus odres.


O ananque das coisas (de Alma Welt)
439

A graça de viver é o mistério
Maior que podemos conceber
Já que não levando-nos a sério
É que descobrimos nosso ser.

Tudo é paradoxo e enigma
O contrário explica-nos melhor
O justo se denota pelo estigma
E o mal cria o bem ao seu redor.

Assim jogados neste mundo
É fácil em labirinto nos perdermos
Pois a vida é o dédalo profundo.

O ananque das coisas rege a vida,
Impondo-nos seus controversos termos
Em meio a tanta luta e tanta lida...


Cabra-Cega (de Alma Welt)
438

A Poesia que coloco no papel
Será sempre a imagem verdadeira
Daquilo que projeto sob o céu
Enquanto brinco a louca brincadeira

Que é este estar às cegas nesta vida
Como aquele jogo dos infantes
Cuja eterna tensão durava instantes,
Meu tatear e o reencontro, comovida.

Assim, também cego é o soneto
Que me faz percorrer sombria senda
De dores, emoções e algum tropeço,

Quando, afinal, na chave do terceto,
Inaudito como o fecho de uma lenda,
Toco meu próprio rosto, e o reconheço.

(sem data)


O Nascimento de Vênus (de Alma Welt)
437


Convidei o artista, velho mestre,
Pra acompanhar-me ao poço da cascata
Onde após deambulação breve e eqüestre
Já planejo banhar nua, por bravata...

E chegando nesse sítio dos meus deuses,
Na praínha de cascalho me desnudo
Ao deixar cair meus panos como adeuses
E emergindo branca e pura disso tudo,

Entro assim nas águas tépidas, a vau,
Até a linha do meu púbis depilado,
Como nostálgica, leve e alva nau.

Então, nesse momento comovido
Julguei ter o pintor isto exclamado:
“O Nascimento de Vênus revivido!”

(sem data)


Nota

Acabo de encontrar na Arca da Alma este soneto cujo episódio narrado presumi ter sido o que inspirou o quadro do mestre pintor paulistano Guilherme de Faria, que foi amigo, descobridor, ilustrador e lançador da Alma, e a quem ela convidou para uma temporada aqui na estância no final do ano de 2001.(Lucia Welt)


O Diapasão (de Alma Welt)
436

Eis-me aqui, poeta deste prado,
Senão do povo, por certo desta estância
Em que o peão, ao menos à distância
Se mistura, contente, com seu gado.

Sim, porque o gado é dele mesmo
Enquanto tangido na coxilha
E não importa a posse da novilha
No meio da boiada, assim a esmo.

E eu também sou parte, mera, então,
Canora deste mundo que me molda
Como uma andorinha no verão

Emitindo a nota mestra da canção,
Como voz que de perto não se amolda
Mas é grito de alegria e... diapasão.

(sem data)



Vida e Arte (de Alma Welt)
435

Creio que uma vida é bem vivida
Quando deixa rastros indeléveis,
Não aqueles tímidos e débeis
Que mal fazem crer que foram vida.

Uma carta intensa e apaixonada
Já é esforço e marca suficiente,
Ou um cartão na arca da mansarda
Que achado comova algum parente...

Um quadro, um livro, é o que proponho,
Um soneto, se possível mil sonetos
E a surpresa final de alguns tercetos.

Nunca como “a pena de existir”,
Vida, vida e arte, como um sonho,
E o agora de um fantástico porvir!


12/01/2007

Nota

Encontrei agora há pouco este soneto que é bem uma "profissão de fé" típica da Alma. A grande Poetisa acreditava na absoluta nescessidade de criar para estar viva, como expresso naquele prólogo famoso de Fernando Pessoa à suas Obras Completas, na frase dos antigos navegadores portugueses: "Navegar é preciso, viver não é preciso", que o Poeta parafraseou em "Criar é preciso, viver não é preciso." (Lucia Welt)


Como Florbela (de Alma Welt)
433

Não me perderás, ó meu irmão
Pois perdida de te amar eu já estou,
Como dizia a Florbela desde então,
Num tempo que o vento já levou.

Sei que evitas dramas, caem mal,
E às tragédias loucas da paixão.
Nisso não és nada original
Pois é do ser humano essa aversão.

Mas não pude a sensação mais evitar
De uma taça a afastar em nosso horto
Quando flagrados fomos no pomar

Pois de dentro de mim ela arrancou
Teu pequenino membro, como aborto,
E então algo pra sempre me faltou...

(sem data)



A Vindima (de Alma Welt)
432

Estás em mim, irmão, sou toda tua,
E o êxtase de amar já me ilumina.
Não ousarão nublar a minha lua
Os que me vêm ao sol desta Vindima,

Irradiante pela graça deste amor
Que brilhou na minha face desde cedo,
Quando guria nova o destemor
Em quem talvez se espere tanto medo.

Não haveria para nós aquela carga
Atribuída aos pares desde Adão
E Eva, que provaram fruta amarga...

Vê, o fruto se fez doce de saída
E jamais culpa e pecado caberão
A quem de tanto amar nasceu perdida!

03/08/2002

Nota
Acabo de encontrar este glorioso soneto, inédito, na Arca da Alma. Pretendo montar um novo blog com os sonetos mais líricos da Alma, como este, que celebra o seu desabrido amor por seu irmão Rodo, que a rigor seria condenado pela sociedade, mas a que eles deram essa nota de liberdade e destemor, talvez mesmo de leveza, o que configura afinal um caso único, inaudito na História dos grandes amores.
É maravilhoso ver como às tristes folhas de parreira dos envergonhados parceiros bíblicos, Alma contrapõe a sua Vindima Nua, isto é, sua festa do vinho e do sexo assumido e celebrado. (Lucia Welt)

A Moratória (de Alma Welt)
ou O sono dos amores (de Alma Welt)
431

De noite as fragrâncias do jardim
Trazem sonhos de antigos moradores
Desta casa tão vivida, e o jasmim
Como os elos perdidos dos amores...

Tais anseios não morrem, não têm fim
Conquanto adormecidos na memória
Das coisas que já eram mesmo assim
Ao pedirem paz ou... moratória

Por sofridas perdas e fracassos
Que são como os acertos, no final,
Pois tudo são caminhos e são passos

Já que a morte deixa tudo inacabado,
Sonetos em que o fecho é sempre igual:
Gozo e dor a reflorir sobre o gramado...

17/08/2006


Amor guerreiro (de Alma Welt)
430

O amor triunfante que concebo
Não é a minha teima ou meu consolo
E não venci reservas de um mancebo
Com a insistência de um monjolo,

Mas colheita ideal de uma procura
Em que a nota terá sido a liberdade
E o desafio além de uma saudade
Da fonte virginal que a alma cura.

Terá sido privilégio ou coincidência
Tê-lo encontrado aqui perto de mim
Mas nunca comodismo ou indulgência

Pois o preço a pagar pela ousadia
De assumir e cantar um amor assim
Faz de mim guerreira e... não vadia.

(sem data)


Nota

Acabo de encontrar este impressionante soneto em que a Alma afirma o seu amor por nosso irmão Rôdo, nascido por escolha (se é que isso é possível) apesar de começar na tenra infância dos dois. Mas não se pode duvidar da coragem que isso representou numa guria, por toda a sua vida, numa sociedade provinciana como a nossa, e com o escândalo e a lógica oposição ferrenha da Mutti, da Solange (nossa irmã) e até da Matilde. (Lucia Welt)

Dupla Saga, ou Sonhos do casarão (de Alma Welt)
429

Quando à noite o casarão dormita
E sonha a saga digna e honrosa
De uma família não tão esquisita
Como esta dos Welt, espantosa,

Eu ouço os murmúrios e até gritos
Das batalhas finais dos farroupilhas,
Quando as preces igualmente dos aflitos
Eram por outros lances e outras filhas.

Agora quem nos reza longo terço
É a Matilde, o vero esteio desta casa
Que protegeu “las niñas” desde o berço

E jurou não deixar o mal interno
Se agitar em nós como uma asa
Negra, que ela teme vem do Inferno...

(sem data)



Sobreviveremos (de Alma Welt)
428

Sobreviveremos, Rodo, meu amor
E o Tempo não há de sepultar-nos
Junto com os corpos sem calor,
Que nisso não há como poupar-nos,

Mas na memória viva sempiterna
Dos abraços e beijos que trocamos
E a ventura que se queria eterna
No hálito que ávidos sugamos

Um do outro, como brisa destes prados
Que para nós foram mesmo Paraíso
De juras e carinhos, que trocados

Eram como o chimarrão no inverno,
Que nada era mais justo, mais preciso,
E a nós não caberia escuro Averno...


15/01/2007



De sonhos, pipas, corações (Alma Welt)
427

Arrastados na corrente dos eventos
Vão os corações, de cambulhada,
Sonhos empinando-se nos ventos
Como pipas infantis na madrugada.

Bah! Depois sempre a derrocada,
Enroscados em fios ou altos galhos,
Pendendo, ali, patéticos frangalhos
Como triste ilusão abandonada.

Como custa renovarmos nossos sonhos
E empinar novas pipas encarnadas
Com os mesmos propósitos bisonhos!

Subir cabeceando, ah! subir
Esperando que as alturas alcançadas
Nos chamem, como a mãe, para dormir...

(sem data)


Nota
Acabo de encontrar este notável soneto simbolista, inédito, na Arca da Alma. A Poetisa realmente podia falar de sonhos e... pipas, pois, com Rodo, como moleques, muito ela os empinou, brancos em noites enluaradas ou de manhã cedinho, sempre interrompidos pelo chamado da Mutti, para dormir, para almoçar... (Lucia Welt)

Ulisses (de Alma Welt)
426


Viver o mundo, esperança e agonia
E a louca incerteza da existência,
Driblando a mortal melancolia
Que é sempre o final ou a falência

De todos os sonhos e saudades
Por mais que a névoa dispersemos
De nossos erros e maldades,
Pequenos que sejam, de somenos,

Eis a tarefa heróica desse ser
Que é o homem, na sua dimensão
Tão dúbia de tristezas e prazer.

Enfim, tornar-se surdo à algaravia
Ou amarrar-se ao mastro da razão
Na última e arrastada calmaria...

05/01/2007

Uma Ilha da Mente (de Alma Welt)
600

Um poeta descreveu a sua ilha
Como o cenário, em sua mente,
Da paixão, cegueira e maravilha,
Pela sua mulher bela e demente.

Faz tempo e o poema subsiste,
Conquanto não me lembre nem do título;
Eis, creio, no que o Poeta insiste:
Em si mesmo escrever cada capítulo

Da legenda de amor em seu destino,
Que é um e sempre o mesmo, malgrado
As diferenças de cenário e de tablado.

Se perguntam se um verso ainda sei,
Só citarei o som de um violino
Que havia no poema e... que lembrei.

(sem data)


Pelo vento (de Alma Welt)
599

Aonde foram os amigos tão fiéis
Que alegravam a casa em burburinho
E risos de abundantes decibéis,
E que fariam falta no caminho?

O ressonar já se sente, da Natura,
E não se ouve mais a tal zoada
Dos guris a fazer caricatura
Dos gáutchos de sela e de invernada.

Mas no silêncio que reina, secular,
Posso de novo minh’alma auscultar
E saudar os que agora espectros são:

Anita, Giuseppe, Netto e Bento,
Voltam saudosos pra rever o casarão,
Como farrapos trazidos pelo vento...

17/07/2006


Metafísica, ou O vôo do mosquito (de Alma Welt)
598

Às três ou quatro conhecidas dimensões
Que podemos constatar ou só inferir,
Se juntará a mais sutil das ilações,
Que é a nossa dimensão de Existir.

Entretanto dela não sabemos nada,
Nem o sentido, quanto mais definição.
Todavia persistimos na jornada
Como se isso fosse mesmo conclusão.

Mas o simples mistério da Existência
Descortina para nós o Infinito
Que por certo disso tudo é a essência.

Mas o que é a Essência não sabemos,
Pois ainda nem sabemos do que vemos
Além do simples vôo de um mosquito.

(sem data)



Quase (de Alma Welt)
597

Alguns de nós ficamos quase ricos,
Alguns, quase felizes, mas nem tanto;
Outros restamos quase invictos,
E houve um que quase virou santo.

De nós, de nosso grupo quase unido,
Houve os que quase foram pro Tibet,
E um de nós, que foi mais atrevido,
Quase foi pra Sibéria andando a pé.

Mas todos, quase todos, nos perdemos
De nossos sonhos perfeitos, de guri,
Que quase alguns de nós ainda temos.

Somente eu, que quase me cumpri,
Estou firme, quase, nesta estância,
Fiel ao quase-quase meu, da Infância...

09/01/2007



A Quota de Poesia (de Alma Welt)
596

A todos é servida a sua quota
De poesia e de beleza nesta vida,
Por menos que isto seja algo de nota
Por ser muito guardada e escondida.

Os ingênuos a possuem em alto grau
E os burgueses não têm nem o verniz
Daqueles que procuram o Graal,
E do feliz que ser poeta sempre quis.

A outros ela mirra sem adubo,
E no fim ficam perdidos, em desgraça,
A esmurrar as paredes de um cubo.

Pois a Poesia é dada a nós de graça
Mas somente os eleitos a merecem
E plantam suas sementes, que florescem.

(sem data)


De rosas e margaridas (de Alma Welt)
595

As rosas do jardim de minha mãe,
Apesar de sua beleza inconteste,
Ainda me intimidam, não estranhem:
Seus espinhos não afastam só a peste.

Báh! Dura imponência a dessas rosas!
São rainhas, sim, puras e frias.
Seus espinhos não as tornam mais formosas,
Que mil reservas nada valem às gurias

Que afastam quem lhes pode querer bem,
Só açulando o mal intencionado,
Que, esse... o mundo sempre tem.

E lá vou eu colher a margarida
Cujo simplório pudor é demonstrado
Num bem-me-quer eterno... pela vida.


08/09/2005



O Pequeno Tufo de Ervas (de Alma Welt)
594

Existe um simples trecho em meu jardim
Em que um tufo de ervas me fascina;
É quase um mistério dentro em mim,
Mas aconchego que sinto, de menina,

Ao olhar o tal montículo arbitrário,
Com três ou quatro espécies de capim,
E um ou outro botão meio ordinário
De uma florzinha pangaré, cor de carmim.

E percebo que é o dom que recebi
De enxergar sempre o todo na porção
E o universo contido aqui e ali

Nas pequeninas coisas que me sondam
E que fizeram de mim minha canção,
A afastar as sombras que me rondam...

16/07/2005


Paraísos (de Alma Welt)
593

Não escolhemos bem a que viemos,
Mesmo assim nós podemos transformá-lo;
O espaço de manobra que nos demos
Abrirá uma coxilha ou um valo...

Há quem do paraíso faz o inferno
E d’um palácio a gruta dos horrores;
Há quem de uns farrapos faça um terno
E há quem os prazeres torne em dores.

Mas eu que fui expulsa do meu Éden,
Que era a pura inocência do brincar
De crianças que se tocam e se medem,

Tive, sim, que o paraíso restaurar
Dentro de mim, pois agora já sabia
A pureza que no corpo se escondia...

(sem data)


Caleidoscópio (de Alma Welt)
592

Veja o mundo: é um caleidoscópio
Que somente faz sentido nos detalhes;
As peças não combinam, há muitos males
E o sonho é o nosso alívio e ópio...

Há tanto horror e dores, que nem sei...
É difícil acreditar no bem divino
Quando ontem morreu um bom menino
Aqui perto, e apenas por ser gay.

Eu mesma, ainda viva, estou no lucro
Por ser estranha e um tentador apelo
A tanta macheza e a tanto xucro,

Com esta brancura e ruivo pelo,
Com estes olhos verdes de coxilha,
E sendo do patrão a doida filha...

12/01/2007


A girar (de Alma Welt)
591

Me colocar no meio da coxilha
Com os braços abertos a girar
E a receber no corpo a maravilha
Da brisa deste Pampa e então voar!

É como sentiria este momento,
No auge da beleza e juventude,
Se não fosse o alçar do pensamento
Que enquanto sufocado ainda me ilude,

Mas teimando em voltar à consciência
Me faz sentir o mundo como um logro
(e agora isso ocorre com freqüência)

A esta que apostou tanto na vida
A ponto de vivê-la mesmo em dobro
Ao dar-lhe tão poética acolhida...

06/01/2007


Vigilância (de Alma Welt)
590

Pra construir uma vida em beleza,
Foi necessária certa vigilância;
Não devo transigir com a estreiteza
Que ronda estes pagos e esta estância.

Falecido meu Vati, que era o Rei,
Tive muito que lutar para manter
Cada umbu (e o bosque preservei),
E continuo a Natureza a defender...

Mas me refiro também à altitude
Da mente e da alma em sua pureza
Que mantive todavia como pude

Apesar de um início em dor e trauma,
E de algumas mulheres a presteza
Em julgar o coração da pobre Alma...

(sem data)



Nota
Acabo de encontrar este soneto na Arca da Alma, em que mais uma vez minha irmã se refere ao trauma de sua infância, quando foi flagrada junto com o Rodo pela nossa Mutti, "a Açoriana" , os dois nuzinhos debaixo da "macieira sagrada" do nosso pomar. Mas com "mulheres", no plural, parece se referir também à nossa irmã mais velha Solange, que perseguiu a Alma desde crianças, por ciúmes e inveja. Mas é bom que os leitores saibam que elas se perdoaram mutuamente, na morte de Solange nos braços da Alma, cena tocante que está descrita no final do romance A Herança .
(Lucia Welt)


Depoimento da Alma (de Alma Welt)
589

A consciência da Vida e da Morte
Me impediu de pensar em ninharias
E de ser simples prenda e com sorte
Levar a vida simples das gurias;

Poeta, sou antena de mistérios
Tanto quanto do sentido do real.
Amo tanto o peão de sonhos ideal
Quanto os nossos pícaros gaudérios.

E neste trecho do Pampa que me coube
Vagar, amar, colher flores, cavalgar
Desde muito jovem sempre soube

Do meu destino breve, mas fecundo,
Já que posso um quadro nítido deixar
Do meu percurso d’Alma e de meu mundo.

(sem data)


Duplo etéreo (de Alma Welt)
588

Ter a minha vida acompanhada,
A cada passo e a cada pensamento,
Por sonetos, qual diário da jornada,
Foi, bem cedo, a saída e o alento

Para viver em dobro, alternativa
Para quem tem, como eu, contados dias,
Pois que me vendo de novo nas poesias
Reitero meu viver, e estou mais viva.

Esse diário teve um custo quando nova,
Pois fez de minha Mutti minha crítica
E tenho marcas no traseiro como prova;

Mas tendo em duas vidas duplo etéreo,
Percebo agora que atingi a feição mítica
Que faz de mim mesma o meu Mistério.

(sem data)


De poetas e poesia (de Alma Welt)
587

Poetas somos poucos, não adianta
Dizerem que é qual serviço público
Ou que poeta almoça mas não janta,
Que hoje o leitor é tão abúlico...

A poesia não morreu, está presente
Nas letras das canções que o povo canta
E deixa n’alma a tão grata semente
Que morrendo, sim, germina em planta.

A Poesia está em tudo, é parceira
Do tal homem do povo, dia-a-dia,
Que sem ela ninguém suportaria

Vir ao Hotel Mundo em dura estada
Ou nascer de cruel parto sem parteira,
Se não temos mais Queen Mab* nossa fada...

(sem data)

Nota
*Queen Mab - Rainha Mab, a "parteira das fadas", isto é, das ilusões, que aparece no sono dos apaixonados, descrita minuciosamente (em sua carruagem de casca de nóz, puxada por minúscula parelha) no delirante monólogo de Mercutio, na Cena IV do Primeiro Ato da peça Romeu e Julieta, de Shakespeare.
(Lucia Welt)


Presságio (de Alma Welt)
586


Um corvo crocitando sobre um tronco...
Mas não há corvo aqui no Pampa!
Alma, eu sei que não passo de um bronco,
Mas é coisa que a mente, só, destampa,

Veres sinais em tudo... é meio vago.
É somente um bacurau, é bem verdade
Que esse bicho tem fama de aziago
E há quem não o queira pela herdade.

Mas sou teu Galdério, e te protejo,
Vem logo, minha guria, e descontraia
Esse rosto que é a luz que sempre vejo;

Na coxilha a tocar nossa boiada,
Que a peonada o veja quando saia,
Mas nunca como última invernada...

(sem data)

De Beethoven entre colegas (de Alma Welt)
585

Meu pai, dito “o Maestro” ou nosso “Vati”
Era um músico talentoso e de primeira;
Tinha Beethoven como entrada e saideira
Assim como Goethe era o seu Vate.

No salão de nossa casa um certo dia
Recebendo um colega que não via
Desde os tempos de ginásio na Alemanha
Teve dele a má surpresa desta manha:

“Não gosto de Beethoven, me perdoem
Pois é muito marcial e prepotente,
Prefiro o Chopin que é mais dolente.”

E eu, guria, do Maestro logo ouvi :
“Meu amigo, não gostares de Beethoven
Não fica mal pra ele... só pra ti!”

(27/07/2006)

Nota
Acabo de encontar este soneto inédito na Arca da Alma, que me pareceu delicioso, e que retrata bem o espírito de nosso "Vati" ("papai" em alemão), que era um médico que não exerceu a profissão porque a grande música clássica o tomou completamente, e era um pianista virtuose. (Lucia Welt)


O gaúcho triste (de Alma Welt)
584

Um gaúcho triste aqui da estância
Contou-me que perdeu a genitora
Muito cedo, ainda em sua infância
E que isso era a razão de usar espora

E também a chibata em seu cavalo,
E que então não saberia mais montar
Se eu lhe tirasse esse direito ralo
(continuou algum tempo a rezingar).

Então eu perguntei-lhe o que queria
Para deixar de lado esses tormentos
Ao pobre do animal, filho dos ventos...

E à réplica do olhar sem mais rodeios,
A condição implícita que havia,
Rasguei o meu vestido bem nos seios.

(sem data)

Nota
Encantada, acabo de encontrar na Arca da Alma, este soneto inédito, que é uma amostra perfeita de como a minha doce irmã era, e como podia reagir de maneira imprevista e surpreendente, por impulsos de seu generoso coração, quando se tratava de suas mais nobres convicções. (Lucia Welt)

O Trato (de Alma Welt)
583

Façamos trato, ó dias que me cabem!
Não quero ser solene ou prepotente
Mas retardem só as horas que me sabem
E guardem meu minuto impaciente,

Aquele mesmo do último respiro
Que a tradição romântica reclama,
Eufemística, chamando de suspiro,
E que presumo terei em minha cama.

De amor desprendido e de doçura
Eu em troca prometo um pensamento
Que sei das altas mentes a procura.

E não me cortem antes a palavra,
Não me neguem o verso como o vento
Que a coxilha percorre e tanto lavra!...

14/01/2007
Nota
Emocionada, acabo de encontrar na Arca da Alma, nesta madrugada, este pungente "trato" da Poetisa com as horas que lhe restavam, e das quais que ela tinha plena e dolorosa consciência. Também, mais tragicamente ainda, ela não morreria em sua cama...
(Lucia Welt)


A pedra e a rosa (de Alma Welt)
582

O ser humano tem a ânsia da fusão,
Do misturar-se ao outro docemente
Pra estar além da inata solidão
Em que o corpo é cárcere da mente.

Mas quantos vãos rodeios sedutores
A alma pra se unir deve fazer,
Tão próxima do outro, seus pendores,
E tendência a tão só permanecer

E de restar no meio do caminho
Por medo do silêncio que ali medra
Depois de todo o imenso burburinho.

Pois a procura é antiga e duvidosa
Como a filosofal e rara pedra
Que cria ouro, em vez de pura rosa...

19/01/2005

Nota
Acabo de descobrir, nesta manhã, este notável soneto inédito na Arca da Alma, que trata do amor como a procura elaborada de uma dúbia transmutação alquímica, uma amálgama que deveria criar a rosa, em vez do cobiçado ouro.
Todavia imagino que as pessoas preferem (como eu) a Alma em sua faceta dominante, que é a confessional, isto é, quando ela fala na primeira pessoa, e de si mesma, o que é o seu encanto, pois podemos nos identificar com ela em sua alma feminina universal.
(Lucia Welt)


De moinhos e monjolos (de Alma Welt)
581

Creio que tudo é baseado na visão
Que temos do real em nossa mente,
E o mundo pode ser uma canção
Ou inferno de um mal inconsciente.

Acusada de viver em fantasia
Desde tenra guria nesta estância,
Cedo descobri em minha infância
Que fora do sonho pouco havia.

E erguendo um mundo verso a verso
Como um pedreiro assenta seus tijolos
Nos muros de um castelo controverso,

Investi contra gigantes dentro e fora
Que não eram moinhos, mas monjolos
Que a vaidade renitente corrobora...

(sem data)


A Nova Invernada (de Alma Welt)
580

Quando a noite é clara, de luar,
Eu me ergo do leito sem demora
E no jardim de antes e de agora
A lua mira esta Alma caminhar,

Muito branca, eu sei, o que assusta
Algum peão desperto aqui da estância
Que logo seu bivaque e o mate susta
E se põe a tremer como na infância.

E se estou antecipando o que farei
Por anos a porfia, eu os previno,
Que pelo amor a esta terra voltarei.

Se lograr com berreiros ou cantada
Dobrar o Capataz nosso, divino,
A coxilha me dará nova invernada...

12/01/2007


Nota
Realmente, Alma cumpriu sua promessa e deve ter "dobrado" o nosso Grande Capataz, pois até hoje a avistamos aqui na estância, vagando no jardim ou na coxilha em noites claras de luar, o que no início nos assustava, agora não mais... (Lucia Welt)


Balanço da Vida (de Alma Welt)
579

Poeta, não deploro em minha vida
Absolutamente nada nada...
E “a Açoriana”, Mutti, mãe perdida
Que tão cedo me deixou, foi perdoada!

Tive alguns percalços, mesmo traumas
Que a qualquer outra teriam destruído;
Até vivo assombrada pelas almas
Daqueles de destino interrompido,

Se é que isso existe, pois o povo
Diz que só peru morre na véspera,
E eu sei que esse dito não é novo...

Mas a dor que carrego é a de viver
E amando tanto a vida, já saber
O dia e quase a hora que me espera.

(sem data)




"O espectro da rosa" (de Alma Welt)
578


Mulheres, há uma dor em nosso peito
Fininha, insidiosa, permanente,
Que até por ser crônica e latente
Despercebida passa em nosso leito

Na hora de dormir por entre os sonhos,
Que na verdade são os nossos bálsamos,
Quando espectros rosáceos e bisonhos
Convidam à dança e então valsamos

Com um Nijinsky leve e vaporoso
Ou outro fauno qualquer insuspeitado
E que venha socorrer o nosso fado

De eternas princesas ou donzelas
Do borralho e do baile duvidoso
De abóboras de pobres Cinderelas...

11/09/2006

A parte que nos coube (de Alma Welt)
577

A memória é a dádiva do Tempo,
Uma concessão ao nosso apelo
De poder andar a contrapelo,
Apagando ali um contratempo,

Corrigindo aqui com um retoque,
Correndo mais depressa a bobina
Já que arrastamos a reboque
O peso antigo da carga feminina

Que atrasa nossas metas e anseios
Se sonhamos demais e pouco agimos
A esperar chegar lá por outros meios

Que não trabalho e suor de nosso pão
Que aos homens caberiam e a nós não,
Que esperando tanto... em dor parimos.

(sem data)


Nota
Neste soneto que acabo de descobrir na Arca da Alma, a Poetisa, que era profundamente feminista, deixa transparecer uma ironia ou crítica à tendência feminina de separar os papéis da condição humana, entre homem e mulher, o que atrazou o nosso desenvolvimento ao longo da História, já que tomamos ao pé da letra as palavras de Deus no Gênese. Entretanto devo dizer que isso vem mudando rapidamente nas quatros últimas décadas, pois as mulheres já contam com o trabalho fora de casa e a idéia da auto-suficiência, apesar de carregarem a carga da maternidade. (Lucia Welt)


Alma Welt psicografada por Lucia
576

“Depois de fazer valer meu canto,
Chocou-me me ver tão odiada
Pelos meus colegas do Recanto,
Eu... que só queria ser amada...

Só porque morri em "circunstância
Suspeita", e de maneira romanesca.
Por me velarem nua aqui na estância
Até Matilde lhes pareceu farsesca

Ao lançar toalha tão rendada
Sobre minha alvura de alabastro
Finalmente coberta, amortalhada,

E gritando: “Cubram a minha guria!”
Afastem-se seus ímpios! E eu castro
Aquele que falar do que não via!”

Alma Welt

07/01/2010

Nota
Esta madrugada, compelida subitamente a escrever, emocionada recebi a surpreendente mensagem psicografada de minha saudosa irmã, a grande poetisa Alma Welt, que depois de muito hesitar resolvi publicar aqui. Doeu-me saber que, além de tudo, ela sofreu também com sua expulsão póstuma do Recanto das Letras, cinco dias depois que publiquei no dia 21/01/2007, na sua página (por encontrá-la aberta, com a senha salva) a notícia de sua morte ocorrida no dia anterior. O escândalo que ali se seguiu à notícia da morte da Alma, foi no mínimo apoteótico e resultou também na expulsão do pintor e cordelista Guilherme de Faria (que foi quem descobriu e lançou a Alma em São Paulo) pois o Editor e os moderadores daquele portal encasquetaram que a Alma era um heterônimo dele (o que faria de mim, também um heterônimo (risos). (Lucia Welt)

_____________________________________


O que eu temia... aconteceu: fui compelida a pegar de novo a caneta e compulsivamente escrever este soneto que me foi enviado rapidamente, quase de um jato, pela Alma. Estou devastada pela revelação, que no fundo eu intuía. Não sei o que é pior, esta verdade ou a que tão precipitadamente todos nós, sua família, acreditamos. Aquele horrível delegado Benotti afinal tinha razão...


Revelação (novo contato psicográfico da Alma)
575

“A todos que na vida me amaram
E continuam a me amar ainda agora,
Que tanto minha morte amargaram
Acreditando que eu quis ir embora,

Devo agora revelar, e eu sinto tanto,
Que tenham que passar por isto ainda:
As marcas que lhes causaram espanto
E cuja dor espero esteja finda,

Não foram causadas pela pedra,
Que jamais teria atado ao meu pescoço,
Mas pela luta na praia do meu poço.

Também saibam que embora dominada,
Por dois bandidos cem vezes violada,
Rancor neste ventre ainda não medra...”

Alma Welt

07/01/2010


O Tempo suspenso (de Alma Welt)
574

Não me fales, amor, de um novo ano,
Não o vejo, vês, estou sonhando?
A coxilha corrobora o meu engano,
O próprio Tempo aqui sonha pairando,

Imóvel, suspenso, entorpecido,
A confundir os tempos e as idades,
Por isso este meu Pampa é dolorido
E pleno de guerras e saudades.

Anita veio esta manhã à revelia
Do sapateiro embriagado contumaz
E amor confidenciou-me, de guria,

Por aquele italiano belo e audaz
Que hasteou farrapos, como o Bento,
E no cais espera só soprar o vento...


09/07/2004


Femme-enfant(de Alma Welt)
573

O grande moto da mulher é o amor
Que faz dela esse ser meio encantado
E até a pobre Amélia do cantor,
Passava fome, sim, mas a melado.

Dêem-nos, pois, abraços e carinhos,
Beijinhos sem ter fim também é bom...
O importante é manter o nosso tom
E não nos deixar a ver barquinhos.

Conquanto já não digam “femme-enfant”,
Somos débeis, infantis, eu reconheço,
E eis porque ainda temos tanto fã.

Mas se nos querem comprar com vil metal
Ou nos pedirem trégua e recomeço
Com um beijo tens recibo e nosso aval...

(sem data)


O juramento (de Alma Welt)
572

Quando guria eu fiz um juramento
De jamais ceder ao comezinho,
De não perder meu tempo e meu talento
Com a tolice, o falso e o mesquinho.

Não me veriam a sorte lamentar
E muito menos jogar conversa fora;
Jamais um prêmio ou objeto cobiçar
E viver somente o aqui e agora.

Quase uma vida passou e me cumpri,
E posso afinal congratular-me:
Meu tempo em ninharia não perdi.

E olhando para trás me vejo inteira,
Límpida e capaz de amar e dar-me
A quem bem me sabendo ainda me queira...

25/09/2006


O Enigma (de Alma Welt)
571

Nunca hei de perder a esperança
De encontrar no código do verso
A resposta oculta ou a balança,
Em que pese o mundo controverso.

O que pesa mais: amor ou sorte?
Virtude ou a força do querer,
Malícia ou o senso de dever,
Coragem ou o medo só, da Morte?

Enfim, qual o sentido que buscamos
Todos, simplesmente de viver,
Mistério com o qual nos defrontamos

Ao som do próprio grito agoniado,
No primeiro despertar já a sofrer,
Um Ser perplexo no Enigma lançado...

06/11/2006


Cavaleiro Andante (de Alma Welt)
570

Não peçam ao Poeta contenção,
Modéstia, pudores ou receios.
A poesia é a missão por outros meios
De alargar a mente e o coração.

E vou por este pampa metafísico
Que fiz das cercanias desta estância
Qualquer, em seu real limite físico,
Universo de amor e de constância.

Eis a minha lealdade de viver
E de pensar a vida em alegria
Sem descartar a carga de sofrer,

Como um louco gaudério vai avante,
Do pampeiro a singrar a ventania
No seu pingo qual fidalgo e Rocinante...

(sem data)


A missão do Poeta (de Alma Welt)
569

Tantos pedem ao poeta caridade
No sentido social ou do dever;
Acham pouco acreditar na validade
Da beleza, da verdade e do Ser.

Julgam que Poesia é sentimento,
Ou militância filantrópica e urgente,
E cheios da culpa do momento
A consideram alienada ou demente.

Mas viver em sintonia magistral
Com o Ser em sua sina de pensar
E se tornar pro outro esse fanal

Que desperta em nós a divindade,
Faz o homem a si mesmo voltar
E ao seio da esquecida humanidade.

06/05/2006


O Muro (de Alma Welt)
568

No fundo do jardim existe um muro
O qual desde guria eu suspeito
Que separa o meu presente do futuro
O lado claro e o escuro do meu peito.

Suponho que os dois pólos profundos
Separam para todos estes mundos,
Não somente em mim com o meu sisma,
Sonhos, medos, devaneios e carisma.

Mas se a Poesia nasce do absurdo
Como a invisível presença de uma ilha
No maternal e imenso seio da coxilha,

O que me dá esse ar vago e passo etéreo
É que ouço uma trilha, num tom surdo,
Na cercania desse muro de mistério...

(sem data)


Literalmente nua (de Alma Welt)
567

Para escrever um poema me desnudo
Eis porquê por aqui mais de um peão
Flagrando minha brancura ficou mudo
E a Mutti quis mandar-me pra Cantão,

Quer dizer, do outro lado deste mundo
Que não pode aceitar os devaneios
Da guria do Pampa e seu “desmundo”,
Seu pronto desnudar-se sem receios.

Razão pura que pudor ou medo mata
E o coração desnudo em sua pureza
Me exigem reincidir, não por bravata

Mas por bela lealdade de meu ser
À essa dádiva de amor e de beleza
Que desnuda faço assim por merecer.

17/08/2006


O pensar do coração (de Alma Welt)
566

Pensando bem, não creio noutro mundo,
Mas crer não tem a ver com o pensar,
Meu coração quer sempre ir mais fundo
E tinha que a barreira ultrapassar

Do ser-aqui, do estar-aí, do vir-a-ser
E de toda essa embrulhada da razão
Que atormenta a mente por não crer
Deixando a fé ao relutante coração.

Mas... que posso eu, pobre guria,
Saber além da beleza e da poesia,
Que isso já são dádivas demais,

E certamente vêm de além do muro
Que existe em meu jardim, aqui atrás,
Limite entre meu ser e... seu escuro.

(sem data)


A chave da Poesia (de Alma Welt)

565

A memória é tudo o que somos,
Já que a menor célula a retém
E a transmite além de cromossomos
Como sonho que o coração mantém,

Herdeiro de um primeiro devaneio
Que cresceu e se tornou obsessão
De toda uma estirpe de permeio
Até nós em nosso próprio coração.

Eu que persigo a poesia que há em tudo,
Na raiz de cada evento, em cada ser
E que é chave que não requer estudo,

Procurei em vão nos livros o poder
Que um violeiro analfabeto pode ter,
Em que, pasma de mim, eu me transmudo.

25/07/2007


Amores perdidos (de Alma Welt)
564

Amores perdidos não houveram,
Que amor não se deixa para trás...
Aquilo que fruímos, que nos deram,
De nós mesmos para sempre parte faz.

Por isso não há queixas ou lamentos
Que tenham validade ao coração
Que não os considera vãos momentos,
Os que se não renovam e que se vão

Como folhas de outono em ventania,
Leves, secas, mas douradas na feição
A fazer do próprio vento a alegria.

E se a árvore desgalhada permanece,
Com os membros retorcidos de aflição,
Faz-se inverno (talvez morra) e refloresce.

(19/10/2006)


A Leste do Éden (de Alma Welt)
563

Na vida, minhas etapas alteradas
A ordem tive, raiz dos dissabores
Profundos da alma, em trapalhadas,
A confundir ainda amor e amores.

Dei-me cedo, e guria fui mulher
Punida pelo amor tal qual foi Eva.
Desfolhada não joguei o mal-me-quer,
Que ser amada é só o que me leva.

E quanto paguei por minha virtude,
Como se crime fora ou só defeito
O que de melhor dei enquanto pude!

Depois, do Éden no Levante foi preciso
Chorar de dor o belo corpo rarefeito
De quem nos expulsou do paraíso...

03/04/2005



A canção do bem-te-vi (de Alma Welt)
562

A canção do bem-te-vi está nos genes
E a maneira de um vestir o paletó
Assim como outras coisas mais perenes
É sempre algo que retornará do pó.

Nisto consiste da memória o tal milagre
Que morando nas pequeninas células
Faz que um gesto ou canto se consagre,
Mal-me-quer a renovar as suas pétalas...

Assim, o amor também já vem de longe
E tudo é reencontro ou só memória,
Ninguém foge da sina, nem o monge.

E se o barquinho persiste na procela
Eis nosso afinal consolo e glória:
Temos mesmo do divino uma parcela!

14//08/2007

Nota
Acabo de descobrir na Arca da Alma, neste primeiro do ano, com grande alegria, este soneto que considerei imediatamente uma obra-prima, e que me apazigua, pois afinal ele revela que Alma, à sua maneira peculiar, tinha, sim, fé em Deus... (Lucia Welt)


Retrato da artista enquanto jovem (de Alma Welt)
561

Tendo o grande Rimbaud como patrono
E a rebeldia como minha musa amarga,
Quando guria eu poetava até no trono
Disfarçando ao som logo da descarga

Enquanto a Açoriana se esfalfava
De bater na porta preocupada
Ou furiosa de saber que se ocupava
De "só poesia" esta guria “alienada”.

Não tinha os pés na terra, ela pensava,
A cabeça nas nuvens... é o perigo,
Pois na certa o manicômio me esperava.

Ba! Bem que ela quis me pôr (à) venda
Ou mordaça pra calar seu inimigo:
Meu sonho de ser mais do que uma prenda...

(sem data)

O pomar da Poesia (de Alma Welt)
560

Ser bela e disso ter conhecimento
Entre as flores da coxilha e do jardim,
É meu privilégio e meu tormento
Que tanto me conforta ainda assim

Pois sou grata aos dons que a Natureza
Quis por bem dotar-me de sobejo
Embora me olhem com a estranheza
Do medo... ou talvez, só do desejo.

Mas tão cedo doar-me ao meu irmão,
Que guria fora eu pequena Eva
No pomar de nossa doce perdição,

Com isso não contava, era destino,
E como o meu penhor do feminino
Eis o que à Poesia ainda me leva...


(sem data)


Quero viver, explodir (de Alma Welt)
559

Quero viver, explodir, quero cantar!
Venha o tempo, tempestades, vendavais;
Venha o pampeiro e arranque meus varais,
Caia a chuva sobre mim e o que eu amar!

Que é tudo, esta amplidão, este vinhedo,
O casarão plantado fundo na coxilha,
O jardim onde fui neta e ainda sou filha
E o Pampa a circundar o meu segredo.

Desçam nuvens e envolva-me a neblina,
Quero fundir-me à alma deste Sul,
Tornar-me a própria luz que me ilumina!

E se após tanto, veja, eu retornar
Qual lua ébria a vagar sobre um paúl:
Desci para o meu sonho reencontrar...

12/01/2007


Os viajantes do Nada (de Alma Welt)
558

O que poucos viajantes nos contaram
Da Morte não merece neles crer,
E foram muito raros os que voltaram:
Orfeu, Hércules, Dante, e o armênio Er.*

E talvez uns poucos mais discretos
Que preferiram na volta se calar
Pois os lances e ritos mais secretos
Não quiseram certamente alardear.

Cristo foi um deles: por seguro
Não deixou que o tocasse a Madalena*
Alegando ainda não estar puro...

Só sei que o mal tocado em forma plena
Só nos aumenta o medo desse escuro
E ao Nada novamente nos condena.

(sem data)



Quando cessam as palavras (de Alma Welt)
557

Tendo vivido pela força da palavra
Só temo o tal momento de afazia
Final, quando a mente a língua trava
Pois nada mais restou para a Poesia,

Quando não mais se tem o que dizer
E tudo se resume num suspiro
Ou numa dor tão grande de morrer
E deixar o mundo em seu respiro,

Que afinal era tão belo como era
Com as mágoas e a feiúra sem sentido
Pois nele havia infância... ou houvera.

E numa espécie muda de “aqui vamos”,
Talvez como um sonho indefinido
Alcançamos a paz que não sonhamos.*

(sem data)




A “divina comédia” (de Alma Welt)
556

Meu pai costumava me dizer
Que não há injustiça neste mundo
E que tudo o que de mal acontecer
Vem sempre de um desígnio profundo

Ou se deve a um simples erro crasso,
No caso, resultando num desastre
Ou simplesmente num fracasso
Que ao sucesso de outro faz contraste.

Mas não fico convencida totalmente
Quando o mal acontece a uma criança
Ou outra boa criatura, e inocente,

O que resulta em dor e em tragédia.
Isso então me faz perder a esperança
De perceber divina esta comédia...

(sem data)



Peregrinação à Árvore Sagrada (de Alma Welt)
555

Eu que venho do plano da coxilha
À colina junto ao mar peregrinei
E emocionada então me prosternei
Como pródiga e reverente filha

Diante da sacra Árvore da Vida
Que ali frente ao azul Mediterrâneo
Permanece desde o tempo do Druida
E invisível ao olhar contemporâneo.

Então em minha pira os votos ardo
Com o mate que pra fumigar abafo
Grata à minha Musa e ao meu Bardo*

Pois receber um soneto cada dia
Não é pouco privilégio a cortesia
De Ossian e da divina abelha Safo.*

(sem data)

Notas
* Ossian - o bardo celta dos "Cantos de Ossian", livro de sagas e poemas do tempo dos druidas, em lingua gaélica, uma obra-prima descoberta no final do século XVIII, na Escócia, e que traduzida para o inglês se tornou a obra poética preferida de Goethe e de Napoleão I. Posteriormente descobriu-se ser apócrifa e atribuida ao jornalista escocês James Macpherson.
*Safo (de Lesbos)- a maior poetisa da antigüidade, e de quem a Alma era devota, foi elevada pelos gregos à condição de sétima Musa, e tinha o epíteto de " a Abelha da Piéria". (Lucia Welt)



A Dama do Lago (II) (de Alma Welt)

554

À vezes me sinto quase exausta
De ser este vulcão, esta torrente
De poemas, visões e vida fausta,
Derramada, liberta, transparente.

Tudo revelei, não por bravata,
E me doei generosa a este mundo
E ao Pampa, como água vem do fundo
Da fonte do meu poço da cascata

Aonde sinto deitarei como na cama
Pois aqui avistei-me como a Dama
Do Lago, que recolhe a bela espada

Que eu, como Arthur, me atirarei,
Cumprida a minha missão inusitada,
De volta ao mar de brumas como o rei...

20/12/2006


Acusado! (de Alma Welt)
553

Os amigos vão-se e nós restamos.
Permanecemos a brincar, mas temerosos
Esperando nossa vez nos disfarçamos
Como crianças, como se ainda novos.

Escondidos à espera do: “Acusado!
Te vi aí atrás daquela moita!”
Daquele que nos vendo não se afoita
Pois basta o dedo a nós ter apontado.

E saímos um a um do esconderijo
Escolhido por nós na brincadeira,
Alguns sem conter o medo e o mijo.

É duro brincar com esse vizinho,
Tanto mais que brincamos na ladeira,
E alto ou baixo, no final... brincas sozinho.

(sem data)


As horas voam (de Alma Welt)
552

As horas voam, é o que elas fazem,
Ou então cavalgam os cometas,
Não param, e no tempo se desfazem
Não antes de pedir que não te metas.

São senhoras sérias e apressadas
Talvez por serem filhas de um atleta,
O Tempo de larguíssimas passadas
Só tem tempo para a sua predileta,

A temporã, que te vê e se emociona,
A única que ainda se debruça
E ouve teus lamentos de chorona.

E então vês que a vida é fictícia
E já não tens teu ursinho de pelúcia,
Não tens mais as horas de delícia...

09/12/2006


A charrete na ventania (de Alma Welt)
551

Depressa, Galdério, com a charrete!
Faça a égua correr, mas sem chicote.
Sei que podes conseguir, a ti compete,
Use de persuasão... e que ela trote!

Bá! Velho Mino, tu me assustas!
E temo que invadindo teu espaço
Nos percamos assim nas tuas volutas
Ou nos enrolemos no teu laço.

Contigo não disputo, tu me gelas!
Vai, Miranda, bota sebo nas canelas
Ou esta noite não verei meu casarão

Com a lareira a crepitar em nossa sala,
Uma ceia à doce luz do lampião
E vinho vindo da adega na senzala...

(sem data)

Notas
Velho Mino- era como a Alma chamava o vento minuano, que ela temia e venerava.

*...vindo da adega na senzala- No seu romance A Herança, Alma conta como descobriu uma safra inteira de 1.000 garrafas de um vinho magnífico, a verdadeira herança de nossos avós, escondida numa adega por nós desconhecida, debaixo do casarão e que fora uma antiga senzala.


O rio (de Alma Welt)
550

Atirados na corrente sempre fomos
Em que nos debatemos e bradamos;
O rio em que nascendo mergulhamos
Ainda é o mesmo desde Cronos,

E não como o Heráclito dizia
Que nunca é o mesmo para nós;
O Tempo para o homem não sorria
Na aurora e tampouco logo após,

E ínclito, impávido, inclemente
Como rio real, e não da mente,
Passa sem levar-nos em questão,

Pois o que é uma folha que navega
Ou um pequeno galho que se entrega
Se levados vamos todos de roldão?...


08/07/2006

nota
Acabo de encontrar este soneto inédito na Arca da Alma, e encantada, vou imediatamente postá-lo lá no blog dos Metafísicos da Alma.
(Lucia Welt)


O Segredo da Alma (de Alma Welt)
549

Diante de mim mesma me persigno,
Eu que reverencio tantos deuses…
A musa que elegi, do mesmo signo,
É fiel e me acompanha desde Elêusis.

A Musa a que há muito me votei,
O fiz, modesta, em honra do que sou,
Pois já Zeus a fizera, o que amei,
Com meus traços, e vai aonde vou.

Anima sou e me chamavam Psiqué,
Mas neste Pampa um tanto esdrúxulo
Volto a saber quem sou, quem ela é:

Alma Welt, prenda ruiva e poetisa
Devo cantar a terra madre do gaúcho,
Sagrada, e que a nós dois imortaliza…



Dias tristes II (de Alma Welt)
(ou O outro canto da cigarra)

548

Dia cinza e chuvoso, novamente,
E eu que sou tão susceptível
Amanheci também triste e carente
A crer que esta vida é impossível

Pois há muito findaram aqueles dias
De vinhos e de rosas no poente,
Quando junto a mim permanecias
E em torno ainda havia tanta gente,

E tudo era fartura e esbanjamento,
De tanto vão carinho dissipado
Com o breve vinho do momento

Sem guardar o desta temporada,
Somente de memórias do passado
Pois o aqui e agora é quase nada...

(sem data)


O bobo na colina (de Alma Welt)
547

Longe dança o bobo, de contente,
E o vejo e aos outros na colina
Em silhueta no cenário do poente
A que meu ser no âmago declina.

Meu coração rejeita esse cordão
De desgraçados e teme o que ilude
Nessa dança macabra de roldão
De que fugi até agora como pude.

Sei bem quem é o tal bobo sinistro
Disfarçado de coringa esfuziante
E que na falsa dança segue adiante

Envolvente como um sutil jogral,
Mas que é o ardiloso e vil ministro
Do rei que nos quer o bem e o mal...

08/01/2007


La vida es sueño (de Alma Welt)
546

Penso logo existo, diz Descartes,
E eu de mim começo a duvidar.
Serei eu uma alma a me pensar
Ou o fruto final de minha arte?

Se olho para trás minha bagagem
Constato que ela é bem mais real,
Em peso, densidade e coragem,
Do que esta pele branca de areal.

Somos sonho de um deus desconhecido,
Não sabemos o seu nome para orar
E tememos mais ainda o acordar...

Pois no despertar tudo é perdido,
E dói, ah! como dói ver desfiar
Um sonho noutro sonho entretecido...

(sem data)


Tempestade (de Alma Welt)
545

Vê: o céu se adensa e escurece,
Procelárias se agitam sobre a face
Que se ergue na mais sinistra prece
Prevendo o iminente desenlace.

O mar se turva e mais se encrespa
E as ondas lançam brados de loucura
Enquanto um ribombo força a fresta
De um teto de chumbo sem pintura.

Então o caos se instala e ai de nós
Neste pequenino barco rubro
Que não passa de vã casca de noz

À deriva, a medo, e sem poesia,
Se o vórtice indigesto de um tubo
Nos devora em ânsias de agonia...

14/09/2006



Canção sinistra (de Alma Welt)
544

Chegamos ao fim, não tem mais jeito,
O mundo se acabou e já o vemos,
O Mal é burgomestre ou o prefeito,
O caos se instalou e é o que temos.

Corram, corram, amigos desta aldeia
Aí vêm do tirano os quatro esbirros,
Foices já não brilham, e a cara feia,
Respingadas pelo sangue aos espirros.

Um corvo ali crocita no patíbulo
Mas a madrugada ainda teremos,
Vamos todos juntos ao prostíbulo.

Dancemos, cantemos e bebamos
A manhã por certo não veremos.
Ah! A vida foi tão breve e já nos vamos...

17/01/2007



A Pergunta (de Alma Welt)
543

Saberei morrer, chegada a hora?
Eis a pergunta que nunca quer calar.
Somos para morte aqui e agora,
Nunca prontos e sempre a adiar.

Não estou muito certa de que a vida
Seja mesmo um projeto que deu certo
Uma vez que é menos bela que sofrida
E o final se passa sempre no deserto.

Ou então, triste, solitária e dolorida
É a nossa chegada àquele porto
Onde não há festa e sim um morto,

Que somos nós, esticados, macilentos,
Expostos como nunca nesta vida
Num falso carnaval de gestos lentos.


(sem data)

O Mistério Alma Welt (um acróstico apócrifo)

Descobri, através da pesquisa Google, o blog do escritor Milton Ribeiro com uma página sobre a polêmica que se estabeleceu na Internet sobre a existência real ou não da Poetisa Alma Welt. Esse blog ressalta a existência de um "mistério Alma Welt". Seria divertido para mim, não fosse o fato de que a lembranças de minha irmã sobrepostas às imagens de sua morte trágica me emocionam ainda, demais, e trazem-me lágrimas aos olhos e um aperto no coração. Entretanto encontrei numa outra página do mesmo blog este comentário da pessoa que se diz chamar Jungmar Jensen e que tem um blog dedicado a investigar o "mistério Alma Welt". Fiquei pasma e (como ele diz que fez) também escrevi para o Guilherme de Faria que reiterou a sua negação, indignado de que estejam usando seu nome no acróstico de um soneto falsamente a ele atribuido.
Imediatamente escrevi ao sr Jungmar e consegui permissão para transcrever aqui o que ele postou no blog do Milton Ribeiro:


Jungmar Jensen
on Dec 7th, 2009 at 1:41 am
Já confessei aqui o meu fracasso em elucidar o Mistério Alma Welt, mesmo tendo aberto há meses um blog com essa finalidade. Ainda não cheguei a uma conclusão, tanto mais que acabo de receber através de um e.mail nitidamente falso este notável soneto em acróstico que fui imediatamente conferir com o mestre poeta e pintor Guilherme de Faria, que veemente e indignadamente negou a autoria. É curioso perceber como o veterano artista se emociona ao falar de sua grande musa, a cuja imagem e memória está dedicado em magníficas telas desde que a conheceu e amou. Entretanto, como contribuição ao debate, e por sua curiosidade e engenho transcrevo aqui o citado soneto, mesmo que apócrifo:

Quem sou


Gostariam de saber quem mesmo sou,
Um bardo ou poetisa delicada
Interiorizando um grande show
Literalmente ao longo da jornada.

Herdei, confesso, o estro e o resto,
E devo tudo à Alma peregrina
Resoluta, rebelde e feminina
Mesmo que acabe num protesto

E revolte alguns dúbios sentimentos
Fazendo com que me dêem as costas
Aqueles que choravam meus tormentos,

Rindo também se alegre estava,
Indicando minhas vitórias nas apostas
A que dei tanto valor quando jogava…



Se deixo assim passar (de Alma Welt)
542

Se deixo assim passar um dia só
Sem ter escrito ao menos um soneto
Ou conto, uma crônica, um quarteto,
Um verso que seja... me faz dó.

O Tempo por certo não é meu sócio
Ou tenho dele uma quota tão restrita!
Não posso dar-me o luxo de tal ócio
E o verso que perdi ainda me irrita.

Não consigo entender que uma pessoa
Se deixe estar a viver sem criar algo
Que palpado possa ser e que ressoa.

É como ver as horas irem pelo ralo
Nessa nossa temporada de fidalgo
A perseguir pobres raposas a cavalo...



Vida do poeta (de Alma Welt)
541

Se penso minha vida nesta estância
Eu vejo que afinal não me perdi
Conquanto meus desejos e esta ânsia
Produzam uma tocha em que me vi,

De repente, ardendo em minhas noites
No meio destes prados esquecidos
Neste fim de mundo e seus amoites
De valentes exilados ou fugidos.

Logo busco encontrar o meu prazer
Que está na base mesma da procura
E que a culpa me quer comprometer.*

E então uma coerência se faz ver*
Mesmo dentro do quadro de loucura
Que é a vida do poeta enquanto ser...


(sem data)

Notas
Acabo de encontrar este soneto inédito na Arca da Alma, e mais uma vez constato essa coerência que ela menciona.

*...e a culpa me quer comprometer- Alma certamente se refere ao seu relacionamento incestuoso com nosso irmão Rodo, que nasceu inocentemente na infância de ambos, e a que nossa mãe cobriu de escândalo, procurando incutir um sentimento de culpa que não era natural à indole da Alma, criada por nosso pai, sem batismo e "como uma pequena pagã".

* ...uma coerência se faz ver- Existe uma expressão inglesa se referindo a certos loucos que dizem de repente coisas muito lógicas: "há um método nessa loucura..." Alma brincava com isso, pois somente nossa mãe achava que a Alma era atacada de uma espécie de loucura poética, que ela, a "Açoriana", gostaria de coibir. (Lucia Welt)



A anti-condoreira (de Alma Welt)
540

São poucos os chamados à Poesia
Entre os milhões que fazem versos.
E os verdadeiros, os dotados de magia,
Quase sempre no silêncio estão imersos.

Quero dizer, sem voz que nos alcance,
Tateando ao frio sol de seus degredos
Esperando finalmente a grande chance
De revelarem seus delírios e segredos.

Pois Poesia não é cartilha de decência
Ou de conduta um perfeito manual,
E muito menos declarações de amor

Se não mesmo ao poema e sua essência
Gratuita, aérea, livre e, se animal,
Capaz de mergulhar, não um condor.

(sem data)


A cal e a pedra (de Alma Welt)
539

Olhando meu passado e o presente,
Não vivo de pequenas alegrias,
Devo confessar humildemente,
Mas de grandes arroubos e euforias.

Pruridos ou mania de grandeza!
Dirão alguns, como eu ouvia
Já de minha mãe, não com rudeza,
Mas dura, cortante e um tanto fria.

Mas vede, é com pouco que construo
E transformo em epopéias a jornada
Destes meus dias que tão ávida fruo.

Fazer do vão momento e até do tédio
A cal e a pedra do nosso grande prédio,
Ser poeta é justamente a empreitada...

17/06/2005


O segredo (de Alma Welt)
538

Crescer e ser chamada a escrever,
Dar meu testemunho da paixão
De ser... e a lealdade de viver
Em sintonia de alma e coração,

Eis a chave de uma vida em poesia
Que por certo me fez pagar um preço
Muito alto e excludente de honraria,
Pois ser poeta é ter na Arte o endereço.

Quem no dinheiro estiver sintonizado,
No dinheiro está... e não em Arte.
Impossível dos dois mundos fazer parte.

E se me perguntas: “É um brinquedo?”
Eu murmuro te puxando para um lado:
“Não posso revelar-te um tal segredo...”

14/05/2005


Estrela peregrina (de Alma Welt)
537

Estrela peregrina do meu pampa,
De quem viria a ser dileta filha!
És a cigana que por aqui acampa
E eu te evoquei em minha vigília,

Rafisa, musa destas pradarias,
Que me deste a honra da amizade,
E que ainda bem mais dividirias:
Teu leito e um dom de divindade,

O poder de divinar o meu futuro
Que me fez enxergar além do muro
Com sensível clareza e acuidade.

E este louco sentimento de urgência
Contra o fundo cenário de saudade
Que dá a esta poesia permanência...

(sem data)




Soneto antigo (de Alma Welt)
536

Queria ir com a branca caravela
Que vejo no poente deslumbrante
Aqui deste grato meu mirante,
A varanda da casa grande e bela

Que não obstante me confina
Num canto limitado deste mundo,
Esta Alma cuja propensão sulina
É ir mais para o sul, ou mais ao fundo.

Leva-me, ó barco dos meus sonhos!
Como diriam as ledas poetisas,
Flores belas de tempos mais bisonhos...

Também tenho em mim barcos alados,
Mas vogo entre os perigos de banquisas
De um mar que subsiste nestes prados...

(sem data)


A suspeita (de Alma Welt)
535

Vivo desperta o sonho desta vida
Só possível ao grato coração
Conquanto a inquietação contida
Tenha o timbre da dor e da paixão

E um pesadelo oculto me acompanhe
Cada copo de vinho esvaziado
E mesmo a bela taça de champanhe
A saudar um novo cume conquistado.

Pois a contraparte percebida
É a terrível ameaça que perdura
Na suspeita do nadir da criatura.

Pois se a psique é alma e nos constrói,
Que será de nós se ela é perdida
Na poeira e no verme que nos rói?

(sem data)


O retorno (de Alma Welt)
534

Sem algum conflito estar no mundo
É uma leda utopia ou devaneio
Pois temos um vão rancor profundo
Disto tudo não ser o nosso meio

Amniótico, silencioso e tão seguro
Do qual fomos tirados brutalmente
Pelas boas intenções de um ente puro
Se considerado essencialmente:

A mãe que nos expulsa de si mesma
E nos lança afinal no labirinto
Ligados ao seu fio qual abantesma

E buscando escapar do Minotauro.
Eis como nesta vida mal me sinto:
Numa saga de retorno e de restauro.

(sem data)


O último verso (de Alma Welt)
533

Quando acordo e me ponho escrever,
E eu o faço o tempo todo, compulsiva,
Eu sinto que, assim só, posso viver
Ou que assim me sinto bem mais viva.

Entre o espírito e a carne o vão conflito
Expresso em outros termos, vida e arte,
Não existe mais pra mim, pois acredito,
Só se reflete o que do espelho fizer parte.

Solitária a vagar, devaneando
E parando pra anotar um simples verso,
Encontro o meu nicho no universo.

Mas cercada de poemas e de dores,
Se no leito estiver agonizando,
Roubai-me o derradeiro aos estertores...

(sem data)



Evocando Rimbaud (de Alma Welt)
532

Se tendo a enternecer demasiado
Perdendo a dureza necessária
Como o bravo Che tinha alertado*,
Relembro outra verve visionária

Que pôs ponto final mas perdurou,
E o fez correr o mundo escuro
Além dos dezessete, o que o mudou
Na procura da beleza além do muro.

E na carta do Arthur Rimbaud vidente*
Reencontro o segredo que já havia
Em tão precoce e mágica poesia

Que deixou como lastro permanente,
No oceano sem farol, tão conturbado,
De nosso próprio barco embriagado*.

19/08/2006


Notas
Ao enviar este soneto (que acabo de encontrar na Arca da Alma) para o meu colaborador o mestre Guilherme de Faria, este, encantado, lembrou-se de ainda possuir em sua coleção este Retrato Imaginário de Rimbaud, meio maldito, trágico, pois representado no período final do poeta, com uma estranha e ambígua perna negra, gangrenada ou de pau, já amputada. (Lucia Welt)

...Como o bravo Che tinha alertado - Alusão à famosa frase de Che Guevara: "Hay que endurecer, pero sin perder la ternura jamás".

*...carta de Rimbaud vidente- Alusão à célebre Lettre du Voyant(carta do Vidente) de Rimbaud.

*...dos dezessete, o que o mudou - Rimbaud aos dezessete anos pôs ponto final na sua obra poética e tornou-se aventureiro na África negra (... "mundo escuro"), indo traficar armas para o Ras (imperador) Menelik, da Etiópia.

*...barco embriagado - menção ao Le Bateau Ivre (O Barco Bêbado), célebre poema de Rimbaud.


Nau pirata (de Alma Welt)
531

Para poder escrever e ser legítima
Sigo a esteira desta vã nave ignota
Em prados de ondulação marítima,
Mas de pó e pampa a minha rota.

Aqui desta varanda eu comando
Minhas horas matinais e do poente
Como sinistra capitã do meu desmando
Ou pirata do meu riso de contente.

E cedo tive meu motim denunciado
No Almirantado da dura Açoriana*
Que quis ver o meu sonho sufocado,

Pois viver a minha vida sem bandeira
E com estandarte de poesia pampiana,
Era guerrilha, não batalha verdadeira...

(sem data)


Nota
Acabo de encontrar este soneto inédito, manuscrito, na arca da Alma, e logo o digitei por considerá-lo especialmente significativo da maneira como a Poetisa considerava seu métier, e como a oposição de nossa mãe, a *Açoriana (neta de portugueses açorianos) era um constante desafio (ou mágoa) para ela. (Lucia Welt)



Efeméridas (de Alma Welt)
ou A Roda de Samsara

530

Eu costumava olhar as mariposas
E as efeméridas* fugazes no seu cio,
Dançando a doce dança das esposas
Enquanto eu meditava no que crio,

Se vale mesmo a pena de criar
Tanto verso e tanto sonho em vão,
Já que a vida é um breve iluminar
No meio da infinita escuridão.

Ou, se poeta, estou fora do mundo
Pois os seres vêm só para amar
E dar à luz um outro mais fecundo.

E se na festa dessa roda de Samsara,
O artista é só o flash que dispara,
Capturando sem jamais participar...

16/08/2005

Nota
Efeméridas- uma espécie de insetos voadores cujo ciclo completo de vida: nascimento, crescimento, vôo nupcial, procriação e morte, dura apenas um dia.



Ariadne em Náxos (de Alma Welt)
529

Não temos planta baixa desta vida,
Suas câmaras, alcovas, confusão.
Uma aposta errada ou indevida
Põe tudo a perder e sem perdão.

Alguma lógica a nós perceptível
É a do encadear de circunstâncias
Que vemos perscrutando o fio sensível
Que atravessa nosso dédalo de ânsias,

Como aquele da Ariane sem dedal,
Alinhavados como ela ao ser amado,
Pasmo herói confuso e... enrolado,

Pois encontrar a completude original
Numa Náxos aberta e sem volutas,
Eis o nexo, afinal, das nossas lutas.

06/04/2005

Patética e inacabada* (de Alma Welt)
528

O soneto é a partitura do meu dia
E contém as notas, timbre e tom
De um andante meu na pradaria,
Dispondo se o concerto será bom.

Mas ao primeiro acorde inusitado
Regerei meu dia entre visões
E propensa a consultar o Fado,
Maestro verdadeiro... de ilusões.

Vê, o primo verso em tom saudoso
Já me arrasta em vã melancolia
Por um longo adágio de agonia...

Mas de minha sinfonia inacabada
O patético “finale maestoso”
Há de compor-se ao termo da jornada.

(sem data)


Nota
* Patética e inacabada - uma fusão, na alusão poética a duas famosas sinfonias: a "Patética" de Tchaikovsky e a "Inacabada" de Schubert.


De feiticeiras, sopranos e contraltos (de Alma Welt)
528

Amar, grande mistério, é Deus em nós,
Assim como odiar é o Diabo.
E este dito perdura muito após
O tempo em que o cujo era invocado

Não só a torto e a direito nas igrejas
Mas na cozinha das velhas feiticeiras
Que com a feiúra e nariz de brotoejas
Aqueciam mais que nossas mamadeiras,

Mas asas de morcego e alguns sapos
Com o fio de cabelo de um incauto
Que ousara cuspir nos nossos trapos.

Bah! Miséria... do soprano até o contralto,
Destino da mulher por tantos séculos,
Pernas abertas a sementes e espéculos!...

(sem data)


Notas
Acabo de encontrar na Arca da Alma, este forte e chocante soneto, a meu ver, profundamente feminista.

*...do soprano até o contralto- Alma quer dizer: das mulheres frágeis até as mais fortes.

*...sementes e espéculos- significa a procriação e a tortura (espéculo, hoje em dia um instrumento médico ginecológico, era um instrumento de ferro para torturar mulheres nas masmorras da Inquisição. Sugestivamente, a palavra deriva do latim, speculum = espelho. (Lucia Welt)

Magia do Verbo (de Alma Welt)
527

Mestre Freud dizia que as palavras
São uma espécie de magia atenuada.
Então, análise vem a ser abracadabras
Que a linguagem põe desencantada.

Nesses termos o poeta é o contrário,
Recompondo o encanto primitivo
Do verbo em seu impulso instintivo
Que marca a relação com o imaginário

Mas também com o mundo do real,
Mandrake, ilusionista e assombroso,
E a vida, um truque herdado mal e mal.

E estamos ainda agora como dantes,
Em plena festa da Natura como infantes
Diante do mágico, do acrobata e do Bozo*.

(sem data)

Nota
*Bozo- alcunha de um palhaço muito estereotipado da televisão brasileira nos anos oitenta, aqui usado como imagem do lado ridículo da nossa natureza... (Lucia Welt)

Arte em mim (de Alma Welt)
526

Dei-me cedo a mim mesma permissões
Que a Vida não daria de bom grado
A um astro, soberano ou potentado,
Mas no mundo interno: o das visões.

Aqui fui princesa e sou rainha,
Estrela maga, infanta, feiticeira.
Aqui a bela Terra é toda minha
E a minha visão é a verdadeira

Pois não há como de mim desencantar
O mundo que criei, de tão sutil
A diferença entre o ser e o avatar.


E se o Mistério há em toda parte,
Em mim cristalizou-se como arte
Com as palavras gravadas a buril....

(sem data)


Meus heróis (de Alma Welt)
525

Perdida de mim na pradaria...
Uma vez me vi quase perdida
No labirinto que me confundiria,
E Ariane fui de minha saída.

E no núcleo rochoso do meu Eu
Em torno ao qual orbitam tais delírios
Estava o acorrentado Prometeu
Que tanto acende lumes como círios.

Mas libertei de mim o herói titã
Apoiada no meu próprio cabedal
Da ave do poder mesmo, xamã,

Que era o Abutre da minha mente
Empenhado no embate figadal,
Renovado sempre... eternamente.

(sem data)



Nota
Acabo de encontrar na Arca da Alma este notável soneto metafísico, em que a Poetisa reconhece, de acordo com a teoria da Mitanálise Junguiana, seus próprios arquétipos libertadores, no caso Ariadne, a do fio no labirinto (aqui grafada Ariane por questão de cadência), Prometeu, o libertador derrotado, mas que deu o fogo (a razão) ao homem, e a quem a Poetisa atribui também um elemento de morte, ao acender nossas velas fúnebres (círios); e afinal, surpreendentemente, o próprio Abutre, que devora eternamente o fígado, sede da alma = psique (figué, fígado, entre os gregos) como o seu animal de poder no Xamanismo, doutrina animista de que a Alma às vezes lançava mão pela sua beleza primitiva. (Lucia Welt)




Retrato de Jomara (penúltima musa do pintor)- óleo s/ tela de Guilherme de Faria, 1976,30x40cm, coleção Flavio Pacheco, São Paulo, Brasil

Retrato de Jomara
ou Meu plano (de Alma Welt)

524


Contemplando um retrato de Jomara
Que musa fora do pintor Guilherme
E no qual o artista a morte captara
Em vida, e a que só faltava o verme

Que a esperava em breve sob a terra
Oculto e insidioso predador...
Eu, modelo vivo e diva do pintor
Resolvi poupar-me o que me aterra,

Que por meu plano justo e infalível
Hão de encontrar-me nua e bela
Sob um lago, espelho mais sensível.

E pelas instruções que dei de mim,
As chamas levarão como uma vela
Minha beleza preservada até o fim...

05/01/2007

Nota
Acabo de encontrar, assombrada e comovida, este aterrador soneto na Arca da Alma, em que ela revela o seu plano de morte incorruptível, e que dissipou para sempre as dúvidas que em nós foram plantadas sobre as circunstâncias da morte da Poetisa, por aquele nefasto delegado Bennotti. (Lucia Welt)

* O pintor imediatamente após receber este soneto republicou seu quadro no seu blog com este comentário: "Espantou-me saber que o retrato que pintei (nos anos 70) de minha segunda musa, Jomara, realmente premonitório do aspecto terrível que ela adquiriria pela doença que haveria de matar aquela que fora uma beldade na nossa louca juventude, serviria de inspiração às avessas para o plano de morte de outra beldade, a minha última musa, a poetisa Alma Welt. (Guilherme de Faria)

O Vale e a Aurora (de Alma Welt)
523

Minha mãe, a dura Açoriana,
Queria dobrar-me à tal doutrina
Do Vale de Lágrimas... e lama,
Pois meu riso iria contra a Sina

Do homem votado ao sofrimento
E que demandava austeridade
Para do dever o cumprimento,
Não entregue ao riso ou à saudade

Como era o meu caso, simplesmente.
Saudade, bem... a ânsia que eu sentia
Era a que o artista sempre sente.

Quanto ao riso... o oposto dos adeuses,
E ao ver o sol também que Arte nascia
Como aurora dos homens e dos deuses...


19/07/2005

Deus, deuses (Alma Welt)
522

Atribuir a Deus coisas de nós
Como amor, ira, onipotência
Tédio, ou pior, onisciência,
Bem, isso fazemos muito após

A era dos deuses encarnados...
Não me refiro àquele do madeiro
Mas aos dos tempos mais dourados
Em que se era cru e verdadeiro

E se punha ao largo contra Ílio,
Por Helena ou pra pilhar sem culpa,
Por puro vitalismo, ódio ou idílio.

E confesso preferia ter nascido
No tempo em que se era recebido
Sem a água-benta de desculpa...

(sem data)





Anita, eu e as visitas (de Alma Welt)
521

Meus verões de guria na fazenda
Inesquecíveis, mágicos, brilhantes,
Me fazem chorar por encomenda
Se me pedem pra contar os visitantes

Que parecem vindos de outro tempo
Com olhares intrusos de outro mundo,
Se tomam como fora um monumento
Tudo aquilo que é meu viver profundo.

E me pego a narrar então a saga
De Giuseppe Garibaldi e sua Anita,
Que sou eu, relembrando até afligir,

Meu amor, as batalhas e a desdita,
Com a minha decantada verve maga
Com que logro, a nós todos, confundir...

05/08/2001


O Sonho do casarão (de Alma Welt)
520

À meia-noite o sonho começava
Após a badalada derradeira,
Como doze golpes numa aldrava
De outra grande porta de madeira

Que não a do próprio casarão
Mas do castelo em festa, revelado,
Que há aqui mesmo no sobrado
E que emerge das sombras do porão

Lá onde as garrafas dormem cheias
E esperam, cada vez mais preciosas
Novos dias de vinhos e de rosas

Que só ocorrerão no mesmo sonho
Pois o Tempo suspenso tece teias
Que enredam o real reino tristonho.

(sem data)


A vida (de Alma Welt)
519

A vida, meu amigo, é tão estranha
Que não fosse o risco de uma rima
Eu diria que é a teia de uma aranha
E no centro está aquela que dizima.

Ou então que a vida é uma aventura
Num trem fantasma de verdade
Em que os companheiros de tortura
Vão sumindo a cada feia novidade.

Ou ainda que a vida é uma trapaça
E que somos nós o trapaceiro
Vendedor de elixires de cachaça

Para nós e até para os amados
A quem amor juramos, verdadeiro,
Quando mal suportamos nossos Fados.

(sem data)




Babilônia (de Alma Welt)
518

No mundo não há refúgio ou paz
A não ser na sua própria mente
Quem a tiver em paz, naturalmente,
Ou quem de altos vôos for capaz.

Não vêem os ingênuos ou incultos
Que o mundo foi sempre a Babilônia,
E não houve um só entre mil cultos
Que evitasse a falsa rima para esbórnia?

O segredo do mundo é a senda oculta
Que percorre o inferno nesta terra
Em meio a confusão da turbamulta

Da qual fazemos parte até o dia
Da recusa de uma tal de “mais valia”
E a solidão primordial que nos desterra.

09/10/2006

O Coro (de Alma Welt)
517

O canto da planície eu apreendi,
Seu coro visual ou seu entôo
Inaudível, mas que nítido senti
Observando os pássaros no vôo.

O vento em meus cabelos é a lira,
Em que pese o sabor parnasiano,
Pois deuses ainda há quem os prefira
Por mais simples, belo, ledo engano.

Envolta em natureza e sendo ela
Posso me encantar e ganhar tempo
Ou roubar do Tempo uma parcela.

E espero em meu último suspiro
(que não haja surdo contratempo)
Ouvir os sons do coro que admiro...

15/01/2007

O sentido da Vida (de Alma Welt)
516

Viver é já por si um bom mistério
Sem resposta no plano da razão,
E somente um suposto plano etéreo
Vem ainda alimentar nossa ilusão.

Pois se pensarmos muito no sentido
De estar aqui a comer e ver televisão,
Mesmo sendo um filme divertido,
Ou pior: americano e... de ação,

É pouco, muito pouco e fim de linha
Para uma caminhada tão sofrida
Já que a humanidade assim caminha.

Mas ser poeta é encontrar o tempo todo
A Beleza até na Morte, para a Vida:
A tal da flor a brotar em meio ao lodo...

28/07/2005


Amor, amores (de Alma Welt)
515

Coleciono amores com carinho
E nunca em pensamento os deserdei
Pois que ao respeitar o que amei
Não me perdi no meio do caminho.

Nenhum só jamais eu reneguei
Incluindo os que me foram infiéis,
Que do balanço d’alma só guardei
Um único amor em mil papéis.

Que importam faltas e fraqueza,
Os erros de pessoa e o sofrimento
Produzido por um doce sentimento?

O amor pouco deve ao ser amado,
Se ingênuo por mistério e natureza
Existe por que assim o quis o Fado.

(sem data)

O gaucho* (de Alma Welt)
514

O Pampa não tem franjas nem limite
E se estende bem além do horizonte
Onde vive o gaucho e, sem desmonte,
O Martín Fierro em si ele admite.

Na ondulada planura destes pagos
Como manta de um charque visceral
Os peões são profetas e são magos
De uma oculta confraria de bagual

Cuja honra ou altivez é a grandeza
Do ser, embora às vezes confundida
Com a simples bazófia da macheza.

Mas se acaso recusares um convite
Para mais uma rodada de bebida,
Saca logo teu punhal... e não hesite.


06/05/2004



A música dos versos (de Alma Welt)
513

Cedo eu encontrei o diapasão
Entre o meu vagar na pradaria
E o viver e poetar em comunhão
Com a própria cadência da poesia

Que reúno, rimada por requinte
Em versos ritmados e redondos
Cuidando não haver para o ouvinte
Tropeços e ainda menos tombos.

Com o uso da palavra algo cantante
A música entreouvida assim cativa
Faz nascer uma poesia celebrante

Como a antiga, dos aedos dos Aqueus
Cuja lira acompanhava a narrativa
Como estórias contadas por um deus...

(sem data)



A Última Primavera (de Alma Welt)
512

O que me guardará a primavera
Que é com certeza a derradeira
Já que a carta revelada, tão sincera
Me diz que não está pra brincadeira?

O meu jardim florido está deserto
Com as lindas crianças já crescidas,
Que já não as tenho tão por perto,
Que revoam, batem asas estendidas...

E se o meu perfil ainda comove
Por certo é a mim mesma que o faz
Se no espelhado lago ele se move.

Mas persisto em colher flores, tão Ofélia,
A me dizer que o espelho sempre traz
Sobre a face liquefeita uma camélia...


20/10/2006

Contratempo (de Alma Welt)
511

Eu pedi ao Tempo o beneplácito
De uma prorrogação além do tempo,
Que me foi dado por acordo tácito,
Já que tive na vida um contratempo:

O de ter amado o mesmo sangue
E de ter sido por isso renegada
Por aquela que eu queria fosse a fada
Desse amor e não pântano ou mangue

Em que eu chafurdaria suplicante
Por quase duas décadas de exílio
No próprio seio da Vida circundante,

Que quis acalentar-me, não lamento,
E manteve-me num vago e incerto trilho,
Que em poesia me trouxe a este momento...

12/19/2006


A cepa da videira (de Alma Welt)
510

Eu fui a este mundo transplantada
Entre os muitos mundos deste mundo,
Eu, tendo nascido numa estrada
Num parto perigoso mas fecundo

Pois fui colocada sobre a relva
E meu ser o palpitar sentiu da terra
E raízes deitou, como na selva
A semente que cai não se desterra.

E estava pronta, não pr’uma cidade,
Embora tenha sido a encubadeira
Preparando-me o enxerto sem saudade,

Ao vinhedo que eu iria incorporar
Como cepa de uma exótica videira
Com meu estro e sangue em seu lagar.

(sem data)



O início (de Alma Welt)
509

Nunca esquecerei meu próprio olhar
Primeiro, ao chegar aqui na estância.
Eu estava ainda em minha infância
E tinha tudo tudo a desvendar.

O casarão sombrio era vetusto
E as salas me deixaram pasma;
A avó Frida sorrindo era um susto
E o avô, então, era um fantasma.

Mas o jardim deitava o seu encanto
E a varanda mirava sobre as flores
Ao longe a pradaria como um manto.

Então, corri, sorri, chorei deveras,
E apossei-me da alma e das dores
Que a casa abrigava de outras eras...

08/05/2004

Finitude (de Alma Welt)
508

Estar-se consciente é a tragédia,
Do ser-e-estar-aí diante da morte
Se pra essa lucidez além da média,
Não temos sequer um bom suporte.

A finitude de tudo é tolerável
Quando vista por nós na natureza
Pois a transformação é inefável
E produz as estações e sua grandeza.

Assim como água sobe e pura cai,
Nada se cria, também se perde nada,
Ao pó voltamos com ou sem um “ai”.

Mas suspeito que o ego e seu mistério,
Completa imagem na vida conquistada,
Antes se perde no que jaz no necrotério...



A nascente (de Alma Welt)
507

Meu despertar diário em Poesia
É um riacho claro que pressinto,
E como tal, em vislumbre todavia,
Ao localizá-lo o não desminto

Se o soneto matinal nasce melhor
À mesa do café ou chimarrão
Com as lindas crianças ao redor
E o toque furtivo em minha mão

De Rodo, meu irmão, que escolheria
O pôquer, pra minar nosso passado,
Eis aí outro mistério ou ironia...

Pois constato que a nascente tão sutil
E de equilíbrio ambiental tão delicado
Começa por um cristalino fio...

(sem data)


Ritual (de Alma Welt)
506

Para a minha Musa eu merecer
E os poemas que me entrega,
Devo estar e não somente parecer
Clara, fresca, não saída de refrega.

O olhar límpido, a pele descansada,
Os cabelos soltos e sem laços
Vestes brancas, também, de iniciada
E meus brancos pés em lentos passos.

Assim escrevo meu soneto matinal
Que abre o meu dia sem deveres,
Todavia em constante ritual.

Pois muito cedo votei-me à Poesia
E descartei os fúteis padeceres,
Percebendo que a Morte também lia...

(sem data)


O Labirinto de Dioniso (de Alma Welt)
505

É possível um ser o outro conhecer?
Poderemos penetrar num coração?
A pobre alma trancada num porão
Realmente quer fugir ou transcender?

Estaria o grego antigo enganado:
Como Ícaro de mal coladas penas,
No corpo de um Titã, encarcerado,
Dioniso mal tem asas de falenas...

E medroso, submisso, acovardado
Quisera ali ficar eternamente
Pois teme o que haverá do outro lado,

Já que o teto azul, solar, do labirinto
(não se trata de um porão, eu bem o sinto)
É consolo e ledo engano suficiente...

(21/08/2005)



O Pacto (de Alma Welt)
504

A vida, meu amigo, não perdoa
O menor engano, erro ou deslize
E cobrará de modo que te doa
Seja aqui, em Paris ou em Belize.

Não poderás fugir pra Patagônia
Se na hora mesma da conquista
Trocares uma rosa por begônia,
E essa não for a flor bem quista.

E se pela atração de suas peles
Casares com um ser incompatível,
Acordo que nem sabes quando seles

E que o Tempo cobrará, embora lento,
Verás que os orgasmos de um momento
Se tornaram essa tua vida horrível...

(sem data)


Nota
Acabo de encontrar este enigmático e belo soneto na Arca da Alma, e me pergunto a quem ela se dirigia... Trata-se de uma alusão à coisas acontecidas com um amigo? Ou, mais genericamente, uma alegoria da própria implacabilidade do destino humano, feita de cobrança e ironia.... (Lucia Welt)




A Dama do Lago (de Alma Welt)
503

Dediquei-me à tarefa de sonhar
Tornando o meu sonho testemunho
Da vera vida em mim, subliminar
Que é o cerne, o centro, o punho

Fechado da existência e que se abre
Emergindo à tona do meu verso
Desde o fundo negro do universo
Com a pena e não com aquele sabre

Que a Dama submersa recolhia
Num lago distante deste prado
E que no sonho meu é aqui ao lado,

No poço da cascata, a mim sagrado,
Onde nua mergulhava e onde escrevia
A minha própria saga e o meu fado.

08/01/2007


Angústia (de Alma Welt)
502

É difícil desfrutar da juventude
Quando se tem aguda a consciência,
Não de deveres, que isso até eu pude,
Mas da finitude da existência,

Que é a razão de toda angústia
Que persegue o homem racional
E o fez criar consumos e indústria,
Como faz uivar em nós o animal.

Eis o mistério, como eu sinto,
Em que nos debatemos por saber
Ou nos esquivamos por instinto,

Embora eretos, ao lado do caixão
Do que antes de nós deixou de ser,
Solenes, mão na alça, sem paixão...

(sem data)

O Ser e a Poesia (de Alma Welt)
501

Pensar o Ser, tarefa inconclusiva
É do filósofo a grande obsessão,
Embora o Ser em si, matéria viva,
Dispense o pensar, tal como a ação.

"Estar-aí-no-mundo", eis a senha,
Possível entre o Poeta e a Poesia
A quem, real, repugna a resenha
Do que claro e pronto já nascia.

Assim, não confundamos os estribos
Das selas de um e outro cavaleiro
Que por certo vêm de duas tribos.

Quanto a mim, seduzida, já o sinto,
Na Noite do pensar, sem candeeiro,
Perdida devo estar, no labirinto...

29/12/2005

Meta-física (de Alma Welt)
500

Concentro meu olhar numa cadeira,
Para sentir a essência da Natura.
Ou muito além, naquela vã fronteira,
Para inferir da Terra a curvatura.

Poeira, relva, inseto ou ave,
Tudo contém o todo e o universo.
Na verdade, o mundo e seu reverso,
Pois no hiato mesmo está a chave.

No átomo o vazio é bem maior,
Dizem os cientistas (um espanto!),
Do que a matéria ao seu redor.

E entre saudade, dor, e a solidão,
Que sempre me acompanharam tanto,
Está o espaço da humana condição...

(sem data)


Reminiscências farroupilhas (de Alma Welt)
499

Tantas vezes, vagando pelo prado
Eu sinto aquela estranha nostalgia
Desta mesma pradaria em outro fado,
Que esqueci, e que outrora percorria

Num tempo remoto, entre guerreiros
De bombachas e espadas, e lanceiros.
Então penso que na saga farroupilha
Estive mais pra vivandeira do que filha.

Ah! Como eu amava o italiano,
E como admirava a brava Anita!
Por eles fui lá atrás por mais de ano...

Todavia em flashes de memória
Me avisto junto a ele e a favorita,
A contar ao par mais de uma estória...

(sem data)


O Eterno Retorno (II) (de Alma Welt)
498

Não digo adeus às coisas tão amadas
Que me acompanharam nesta vida,
Como o canto das aves nas ramadas
Ou as cores que me põem embevecida

Dos poentes que me fazem ver o além
E descortinam a glória que teremos,
Quando não diremos mais “amém”,
Mas seremos já o que nós vemos,

Integrados no Mundo e no Devir,
Sóis, espaço-tempo, eternidade,
Ou só um cometa em sua saudade

Na viagem solitária, extrema em si,
Durante a longa jornada a se esvair,
Para voltar ao lar, que é mesmo aqui...

08/01/2007


Stradivarius (de Alma Welt)
497

Conquanto nascida pra escrever,
Sei que não serei bem compreendida
Pois sonetos somente pra entreter
Não terá sido meu propósito de vida.

Mas subir bem alto em pensamento
E entregar-me à ardência da paixão
Por tudo o que é vivo em andamento,
Sabendo que voltamos para o chão

Como semente de um sonho usufruído
Lançando fundas raízes na memória
E lutando contra as trevas e o olvido,

Eis a meta, meu escopo, meu destino,
Mais do que um soprano, um violino,
Stradivarius de mim, e minha glória...


14/01/2007

"O Tempo e o Vento" (de Alma Welt)
(para Érico Veríssimo, in memoriam)
496

Para expressar o pampa, a minha terra,
Raízes fundas lancei de umbu-pampeiro,
Aquele grande da colina, sobranceiro,
(que nada mais me ceifa ou me desterra)...

Eu e a terra temos laços, somos um
E a planura se reflete em minha mirada
A buscar no horizonte como um zoom
A razão de ser poeta e... desvairada.

Mas tudo que me cerca está lançado
Num livro de registros imanente
De sonetos como flores do meu prado.

E se chegar um tempo sem memória,
Estarei plana e vasta em minha mente,
E o minuano há de contar a minha estória...



A Usurpadora (de Alma Welt)
495


Após a queda, retorno ao casarão,
Que andara pelo mundo, peregrina
Em busca de algo numa esquina
Que mesmo aqui estava, neste chão.

De meu feudo a Morte me expulsara,
Não me queria aqui sem o meu Vati.
Da Infanta destronada se livrara,
Que me tornara amarga como o mate...

A Usurpadora lágrimas não quer,
Um pé lá, outro na vida, qual anfíbia,
Mas na macabra orgia é só mulher,

Devassa, sinistra e falsa amável,
A vi tocar um violino numa tíbia
Na sala do defunto inigualável...


10/06/2005


A queda livre (de Alma Welt)
494

A montanha subi nada hesitante,
Eu, que venho da terra da planura
E ali tenho a vertigem do rasante
E corro numa espécie de loucura.

Nos prados quero alçar-me e voar
Com o pampeiro e seus abismos
De horizonte e seus ocultos sismos
Que são despenhadeiros do olhar...

E me vi subindo alto, muito alto,
Rumo ao pensamento sempre virgem,
À era em que começou meu salto.

Pois sinto-me viver em despedida,
Espírito que almeja sua origem
Na grande queda livre que é a vida...

25/08/2004


O Sangue do Poeta (de Alma Welt)
493

Quando guria um tonel eu vi jorrar
De vinho pela relva em catadupas
Quando um peão com outras culpas,
Com o machado rachou-o a gritar:

“Eis de volta o sangue desta terra!
E logo, igualmente, o meu, verão.
Mas antes verterei de um que aberra
E não merece o amargo que lhe dão!”

E naquela tarde houve o embate
Na sinistra Colina do Enforcado
Mais regada de sangue que de mate.

E eu, que tudo em volta absorvia,
Jurei jorrar por conta do meu fado,
Meu sangue pela vida e a Poesia...

(sem data)



Penélope do Pampa (de Alma Welt)
492

Nos meus olhos lágrimas faltando,
Lanço mão da fonte da memória
Que me põe as imagens desfilando
De tempos mais felizes e de glória

Neste mesmo jardim onde eu colhia
Flores para os risos de outra era
Quando a vagar alegre eu antevia
Abraços ao final da minha espera.

E era o mesmo amor, mas tão puro
Que julgava pertencer ao paraíso,
Alheia às nuvens densas do juízo

Que logrei adiar até que ouvisses
Falsos cantos atrás do verde muro
Que haveria de levar o meu Ulisses...


Nota
Acabei de encontrar na Arca este sugestivo soneto, que a meu ver poderia também se entitular Penélope do Pôquer, uma vez que nitidamente se refere à infância do amor de Alma e Rodo, quando a espera entre eles era curta e somente de expectativas breves de seguidos reencontros. Mais tarde viriam os "falsos cantos" (das sereias da fortuna) atrás do "muro verde" (as mesas de jogo) da Tróia do pôquer, que haveria de afastar por longas temporadas nosso irmão de sua amada Alma em esperas mais longas e agoniadas. (Lucia Welt)

Estaremos (de Alma Welt)
491

Estaremos por aqui na derrocada,
Percorrendo o arruinado casarão
Com as ervas lá subindo pela escada
Que nos viu escorregar no corrimão

Em risos e gritinhos, eu e Rodo,
Quando de nossa infância gloriosa,
Depois nos amando em cada cômodo,
Na doce transgressão já rumorosa...

Ou então, espectros belos e traquinas,
Nos verão outros peões e suas prendas
No pomar em novos ritos e oferendas.

E quando um viajante aqui passar,
Dirão, o dedo em riste para as ruínas:
"Alma e Rodo ainda são vistos ao luar"...

(sem data)



Nota
Fiquei pasma com este belíssimo soneto, e o achei profético, pois é realmente o que tem acontecido por aqui: Alma tem sido vista pelos peões e suas mulheres e filhas, tanto quanto por mim, acreditem vocês ou não. Seu espectro muito branco, translúcido, vaga pelo jardim, pelo pomar e pelas colinas, perdendo-se no bosque. Eu já o segui três vezes, e numa delas encontrei na praia da cascata, brilhando á luz da lua, o anel de prata de lenço de vaqueiro que serviu para a identificação de seu assassino. Mas isto é uma penosa história que fico devendo e contarei mais tarde aqui mesmo neste blog. (Lucia Welt)

A Verdade (de Alma Welt)
490

A Verdade a todos nos liberta,
Ou torna a mente bem mais leve,
Já dizia um velho bom profeta.
Mas fará mais longa a vida breve?

Encarar a Verdade em fundamento
Quase foi fatal a esta guria,
Pois a Morte, angústia-pensamento,
Cedo à consciência me irrompia.

A idéia de que possa ser o Nada
E a dissolução de todo o Ser
Atormenta cada rês desta manada.

A mim quase me fez desesperada,
Até o poeta em mim me prometer
Deixar-me ser em nova temporada...

(sem data)


A Frota de Naufrágios (de Alma Welt)
489

Reconstruo a cada dia o arcabouço
De meus planos e sonhos acordados
Que ao final do dia eu bem os ouço
Gemer e afundar qual naufragados

Com o belo sol poente deste pampa
Que anuncia a noite de outro sonho
E logo da Pandora erguendo a tampa,
Aquela dos poemas que componho

Como barcos de gregos e de sírios
Que se juntam na praia, controversos,
E constroem uma frota de delírios...

Quantas inquietudes, cismas várias,
Quanta lucidez perdida em versos,
Estranha frota de barcaças solitárias!

21/11/2005


Nostalgia (de Alma Welt)
488


À noite na varanda ante a planície
E a florida transição deste jardim
Que traz o meu amor à superfície
Com o doce cheiro do jasmim

Me comovo com ser parte do pampa
Ou ser dele um reflexo condigno
Embora a minha face tenha a estampa
De outro hemisfério e outro signo.

Minha ruiva cabeleira e a pele branca
Acalmam o peões e amansam feras
Desde quando ostentava estreita anca,

Conqunto uma inquietude no meu peito
Persiste em tirar-me do meu leito
Numa estranha nostalgia de outras eras...

(sem data)


O poeta (de Alma Welt)
487

O poeta não nasce em qualquer um
Senão naqueles seres de exceção
Que recusam o falso e o comum
Procurando alturas e amplidão.

Não me venham dizer que a poesia
É vã ou que sem ela bem vivemos!
O ser que, infeliz, não se extasia
É menor que o animal que percebemos

Como o lobo uivando à luz da lua
Ou o pássaro que canta na floresta
E a cigarra que o minuto perpetua

Alongando os segundos com seu verso,
E na muralha cavando aquela fresta
A minar o grande dique do universo...

(sem data)

O Vale (de Alma Welt)
486

Já se vão os irradiantes dias
E eu devo me render às evidências
De um futuro talvez de penitências
Pelos dias de cigarra e alegrias.

Tanto, tanto que a Mutti nos dizia
Que de lágrimas o vale é mesmo aqui,
E que ela própria nunca se iludia
Pois o pranto é o prêmio de quem ri!

Ela, o Vati e os genros já não estão,
E Solange que via como escolhos
Cada riso e brilho nos meus olhos...

E as velas da Matilde e sua homilia
Que fazem tanto rir ao meu irmão,
Enquanto a casa, da mobília se esvazia...

29/12/2006



"A Louca de Albano" do Pampa (de Alma Welt)
485

Noites do meu pampa, estrelas nuas
Que me vêem como sonâmbula vagar
Esperando me elevar à luz da lua
Pequena e branca gôndola no ar!

Me conhecem os peões e suas prendas,
Esta “louca de Albano” desvairada,*
Que sai de sua cama toda em rendas
Para andar no jardim, de madrugada,

Pois que não resisto aos seus apelos,
Noites e luas sedutoras da planura,
Que me puxam no leito os cabelos

E que, antigos, meus delírios alimentam
(sou eu a lenda viva que comentam)
Na sutil voragem branca de loucura...

27/02/2004

Nota
*...louca de Albano- Nossa mãe, Ana Morgado, catarinense neta de açorianos, nos contou esta estória antiga, portuguesa, em versos, apreendida com seus avós, e costumava chamar a Alma de Louca de Albano como censura quando ouvia contar que ela vagara nua, de noite, pelo jardim ou pela pradaria, ou outra aventura bizarra de minha irmã.


Alma e o Lobo (de Alma Welt)
484


Um lobo é meu amigo, isto é sério!
Isso afirmei quando ainda era guria
E não fui acreditada em meu mistério,
Lobo-guará como esse não havia...

“Esse animal é tímido, covarde”,
Diziam Galdério e mesmo o Rodo.
“O sonho que em ti por certo arde
Te faz crer amigo o mundo todo”.

Mas eles não sabem e não podem
Saber que para atraí-lo eu me desnudo
Que assim o meu guará aceita a ordem

Natural de nossa pele e do meu cheiro
Pois eu creio que assim medo transmudo
Em instinto de amor ao mundo inteiro...

(sem data)


Versejando (de Alma Welt)
483

Esta ânsia dos versos na guria
Não foi ignorada desde a infância
Pelo povo tolerante desta estância,
Que vê jorrar tal fonte de poesia:

“-Essa prenda põe a fala no tinteiro,
Uma palavra jogada assim a esmo
Vira verso como muda o pampeiro
Em haragano ou minuano mesmo”.

“Por isso tome tento, gauchada!
Na digam tonterías, charla à toa ,
Que o que ela pega... é que revoa.

Mas quando ela recita pr’um gaudério
O amargo se refina, o mate côa,
E tudo fica claro ou... um mistério!”

(sem data)



O Pampa, eu, e o Maestro (de Alma Welt)
482

Quando estou a vagar na pradaria
Por entre brisas, vôos e zumbidos,
Aguçados os meus olhos e os ouvidos,
Posso sentir a deferência e honraria

De ser do Pampa aceita pelo povo,
Eu, nascida à beira de uma estrada,
Arrancada do ventre, ensangüentada,
Pelo cirurgião de Hamburgo Novo.

Também seria o pampa assimilado
Por ele, o Maestro, de bombachas,
Com notável respeito e até agrado.

E sinto ainda, ele no solo e eu vagando
Nas sendas que são gaudérias faixas,
O punhal o meu cordão ainda cortando...


A candeia (de Alma Welt)
481

Sob a luz aconchegante da candeia
Que tremula viva qual carícia,
Sou como a aranha em minha teia
Embora espere idéias sem malícia,

E nunca como presas, sem piedade,
Mas aquelas que vierem por encanto
Que é como nascem de verdade
Os poemas, o riso e mesmo o pranto.

E começo por pensar a natureza
Dessa luz tão doce e aliciante
Que aqui no casarão é ainda acesa.

E se, poeta, queimo velas e pestanas
É que percebo que a chama leva adiante
A vigília do Tempo em filigranas...

19/08/2005



A estirpe dos Sonhos (de Alma Welt)
480

Os seres que povoam nossos sonhos
Pertencem a estirpes muito antigas.
Não sabemos o que os põe tristonhos
E o que os alegra em risos e cantigas.

Em mim os vejo sempre em algo misto
De uma Arcádia bucólica e um Walhalla
Onde ali no bosque ou cá na sala
Erguem brindes de honra ao mais bem-quisto.

Mas sei que o festejado é Dioniso
E não um guerreiro, e meu espanto
É que Orfeu ao lado jaz e eu o diviso

Na forma de um cisne apaixonado
Que no último momento lança um canto
E trai em arte seu amor desesperado.


O poeta e o Logos (de Alma Welt)
479

Estaremos todos juntos no final?
A humanidade é só uma alma mesma?
Estilhaçada como vidro no quintal,
Espera que um “rewind” a torne ilesa?

Tudo é um mistério sobre a terra,
Se somos sozinhos tudo é inútil,
E o medo persiste e nos aterra,
Fazendo do viver algo bem fútil.

Mas se somos parte do Indizível
O poeta é que teima em decliná-lo
Com frações daquele logos irascível,

Os versos a juntar cada pedaço
Da triste humanidade para amá-Lo
E sentir-se um pouco em Seu regaço...



Os ciganos (de Alma Welt)
478

Os ciganos chegaram novamente
E sou eu a defendê-los e hospedá-los.
Desde o tempo do Maestro entre a gente
Vou à orla do bosque encontrá-los.

O Vati, que era sábio e tolerante,
Ensinou-me a respeitar e até amar
Aqueles que desfrutam cada instante
E assim parecem nunca trabalhar.

E qual Dalí, grão-mestre surreal,
Direi que, embora um ente laborioso,
Defenderei até a morte o ocioso.

Então percebo que, poeta, sofro igual,
Pois sou vista como ovelha desgarrada
Que se afastou a esmo e... por nada.


Antípodas (de Alma Welt)
477

Para ser a Alma mesma que me cabe
Devo cantar somente ou versejar
Acordar em ser e êxtase de amar
Para viver como se nada nunca acabe.

Todavia aquele espectro soturno
Teima em me seguir e acompanhar
Mesmo quando é dia e não seu turno,
Que é da noite seu tempo e seu lugar.

Mas eu sei que os polos se entrelaçam
E para um deles ser, o outro oponho,
Que sozinhos ambos doem e ameaçam.

E o mistério de viver nisto consiste:
Estar no mundo e saber que tudo é sonho,
O mundo é belo, e de verdade... nem existe.



Espelhos (de Alma Welt)
476

Como branca nau entre as ervinhas,
Singrando leve na campina, e sem mastro,
Eu penso em ti, ó bela Inês de Castro
E “no nome que no peito escrito tinhas.”

Bah! Quisera eu ser somente em mim,
E nenhuma imagem santa carregar
Para minha própria imagem respaldar,
Ser eu mesma e só, esta Alma, assim.

Porém, se colho a flor ao meu alcance
Outra imagem, a de Florbela, tão amada,
Me joga noutro tempo, noutro lance.

E eu perambulo viva entre os séculos
Fazendo do Tempo minha morada,
Neste jogo de almas e de espéculos...

(sem data)



Anti-receita do poeta (de Alma Welt)
475

O poeta não vive o “dia a dia”,
O rame-rame, o tédio, se quiseres.
Sob o signo da atroz melancolia
Por certo não desfolha mal-me-queres.

Não edifica, não ora ou pontifica,
Afasta-se das regras e dos códigos.
O poeta entre os raros nidifica
E voa melhor em meio aos pródigos.

Nada de sermões de bons costumes
Ou causas e missões a abraçar...
Não pretende a ninguém levar os lumes.

E se o poema nasce, que surpresa!
(que nunca sai o que é de se esperar)
Um novo olhar à face da beleza...

(sem data)


Amor e Arte (de Alma Welt)
474


Muitos são os nomes do divino
Mas por certo o Amor é o primeiro,
Com a Arte, sua face e violino,
O poético real e verdadeiro.

Passar por esta vida como um canto,
Um poema, um quadro ou um desenho
Que tenham do amor o mesmo encanto
E se queira buscar com mesmo empenho

É milenar nota do artista, distintiva,
Que há de pagar por ela um alto preço,
É dom que traz de Deus a marca viva.

Então a alma canta, os traços vibram
A palavra recobra o seu apreço,
E pronto: vida e morte se equilibram.

(sem data)


Abramos as janelas (de Alma Welt)
473

Abramos as janelas, meu irmão!
A vida esta penumbra não requer.
Os mortos receberam sua porção
Do respeito e pranto que se quer.

Nosso pai era alegre, bonachão
E não um melancólico qualquer.
Nossa mãe era o poder como mulher,
Agora esse poder está no chão.

Nossa índole é clara, luminosa,
Não fomos feitos para o pranto
Nem culpas, e muito menos, glosa.

A verdade estava ali naquele prado:
A terra os cobria com o seu manto
E eu sentia tuas carícias, disfarçado...

(sem data)




A Arca insensata (de Alma Welt)
472

Construir minha Arca de poesia
É menos veleidade que ambição
E nada ou ninguém me denuncia
Um furo nesta nave em construção.

Olho para trás e me orgulho
De cada soneto entre um milhar
E apesar de falsa rima congratulo
A mim mesma por ser meu avatar.

Musa de si mesma!-alguém protesta-
Ou de nau insensata o capitão?
Não devias ser bem mais modesta?

Retruco que a humildade é rendição,
E o contrário da essência do fazer:
A Poiesis, meu navio e meu dever...

(sem data)


O Turbilhão (de Alma Welt)
471

Tem dias que me vê a pradaria
Correr e rasgar as minhas vestes
Por puro entusiasmo de guria
Quando de carinhos me revestes,

Rodo, meu amado e meu irmão,
A quem me foi dado assim me dar
Como o sangue das uvas no lagar
Embora num tonel de maldição...

Que importa o fruto proibido?
Viveremos, acaso, eternamente,
Ou libertos do peso da libido?

Somente um turbilhão subjacente
Como na exemplar saga dantesca,
Enlaçados, Paolo tu, eu a Francesca...

02/10/2005

Balanço final (de Alma Welt)
470

Quão colhemos nós dourados pomos
No sacro pomar da juventude!
No balanço, afinal, felizes fomos,
Eu a manter a chama enquanto pude

Malgrado injúrias, dores e pressão
Contra o amor puro e desatado
Que nascera antes mesmo da estação
E que quiseram logo ver ceifado.

Entretanto não devo me queixar
E sim prostrar-me ante meus numes
E agradecer a dádiva de amar,

Reconhecendo que debaixo do cilício
Pela transgressão aos bons costumes,
Abençoados fomos desde o início!...

(sem data)


Noites retornadas (de Alma Welt)
469

Noites retornadas na memória!
Belas noites quentes de verão
Quando eu contava nossa história
Para meus guris amados, no portão

Frente à relva coruscante deste prado
Na orla do jardim da velha Frida
Do ilustre casarão meio arruinado
Pela saga intensa de outra vida

E revíamos os amores e as lutas
Que eu mesma narrava sem receios
Sem me saber herdeira das disputas

Que depois fizeram ver a dura lança
À nossa estirpe por outros rubros meios:
Derramando nosso vinho e nossa herança...

(sem data)



O amor guardado (de Alma Welt)
459

O primeiro amor, eternizado
É como se lançado no papel,
Ou com apuro cinzelado,
(e a paixão possui um bom cinzel).

Melhor se preservado na missiva,
Carta se possível, ou o bilhete
Que acompanha o simples ramalhete
Fanado... na memória ainda viva.

O beijo, então, da despedida,
É sempre guardado numa arca
Para vir à tona bem mais tarde,

Quando a emoção que nele arde
Das cinzas dos lábios, sua marca,
Como a fênix recobra a sua vida.

(sem data)

Meu mastim (de Alma Welt)
458

Longe ladra o mastim fiel da casa
E sabê-lo correndo e farejando
Me faz sentir que tenho asa
E longe vou... e pelos longes ando.

Mas quando ele volta assim, babando,
Excitado por algo insondável
Suspeito que jamais tive o comando
Desse mundo sutil e incontrolável,

Já que um dia percebi com emoção
Que era eu que ele mais longe farejava,
O aroma que pra ele era uma festa,

E que a prova real de que me amava
Era trazer a sua leal comparação
Encostando o focinho em minha testa.

(sem data)



Revelações (de Alma Welt)
457

O poeta em mim fixa no olhar
A condição perene do momento
E transforma a ação em pensamento
E em verbo o cenário do pensar.

A cor do gesto o olhar plasma
No exercício do diário poetar
Onde o ser comum deixa passar
Como se a ação fora um miasma.

Mas tudo permanece na retina
Como a daqueles mortos de terror
Que gravam a face do assassino

Na pupila que logo perde a cor
Assim que o detetive a examina
E revela como prova de um destino.

(sem data)


O cavaleiro (de Alma Welt)
456

Pelas noites vinha o cavaleiro
Armado de fuzil e cartucheira,
No peito, cruzada, a bandoleira
E na cintura uma faixa de toureiro

Com o punhal de prata e bombachas,
O chapéu era pequeno e dobrado,
Tinha fileiras de bordadas tachas
Na frente, e aos ventos do meu prado.

Mas ele cavalgava sem um senso
E mirando-me assim ele apontava
Mas passando por mim arremetia

No louco rumo do nevoeiro denso
Onde por encanto ele sumia
Enquanto o véu do tempo se fechava...



Névoas (original de Alma Welt)
455

A neblina que paira sobre a estância
A revela em sua falsa letargia.
Dois séculos de espera e de constância,
Lhe fizeram firme e cega companhia.

Quem chega ao casarão e suas soleiras?
Que esporas já retinem na varanda?
Que olhos doces de casadas e solteiras
Lacrimejam e se abaixam como manda?

Na névoa revivem os áureos tempos,
Os risos e esperanças se renovam,
Ainda não se contam contratempos...

No salão Anita entra, e Garibaldi,
E talvez esta família já comovam,
Que aqui não haverá quem deles malde.



Névoas (de Alma Welt)
454

A neblina que paira sobre a estância
A revela em sua falsa letargia.
Dois séculos de espera e de constância,
Lhe fizeram firme e cega companhia.

Quem chega ao casarão e suas soleiras?
Que esporas já retinem na varanda?
Que olhos doces de casadas e solteiras
Lacrimejam e se abaixam como manda?

Na névoa revivem os áureos tempos,
Os risos e esperanças se renovam,
Ainda não se contam contratempos...

No salão Anita entra, e Garibaldi,
E tavez esta família já comovam
Que aqui não haverá quem deles malde.

(sem data)


A prenda (de Alma Welt)
453

Sou guria orgulhosa deste Pampa
Que ousa cantá-lo em verso e prosa.
Que digam que a caixa só destampa
Quando os grandes fazem sua glosa!

Evocando a valente farroupilha,
Os maiores já contaram seus revezes,
Mas não com a candura de uma filha
Como eu que a espero tantas vezes

Na soleira desta casa tão vetusta
E ilustre em sua anciã modorra
Que nada faz crer que um dia morra.

Ostentando pelo menos um punhal
Reencontro Anita e não me custa
Galopear junto dela o meu bagual...


As Naus (de Alma Welt)
452

Leiam estes meus versos, ó futuros,
Não despendia assim tanta energia
Em rimas, em palavras de poesia,
Não quisera eu transpor tais muros.

Não estaria brincando no serviço
Ao inventar assim tantos motetos...
Há muito notariam meu sumiço
Aqueles que invejam meus sonetos

Se não fosse aquele ilustre clero
De farrapos e de homens como Netto,
Escoltando-me ao meu verso completo.

Mas como Anita se lhe falta o italiano,
Vejam, nos meus versos eu lidero,
E arrasto naus em meio ao Minuano...



Os errantes (de Alma Welt)
451

As ocultas trilhas do meu pampa
Conduzem ainda ao meu portão,
E espectros saídos de sua campa
Assombram mesmo agora o casarão.

Não busco exorcizar ou demovê-los:
As velas são porque os quero bem
E procuro com meus versos comovê-los
Embora não me sinta sua refém.

Mas compartilho sim, a solidão,
De almas que malgrado sua paixão
Ainda erram e deixam suas prendas.

Eu mesma, a esperar Rodo, meu irmão
(que este vaga vivo em outras sendas),
Sou a novilha de um pródigo marrão...



A cigarra (de Alma Welt)
450

Quando chega o tempo das cigarras,
Eu que trabalhei como a formiga
Num romance, soltando as suas amarras,
Nem por isso dou ouvido à sua intriga.

Sou da raça daquela cantadora
E trabalhar pra mim é eufemismo.
Cantar, cantar, mesmo que amadora
Na glória do meu diletantismo!

Isso o é que faz feliz a pampiana
Sem os remorsos que me cobra
A lembrança da dura Açoriana...

Malgrado este prazer que quase aberra
Cantar, cantar a alma desta terra
E seu cenário ilustre... é minha obra!



A Noviça do Pampa (de Alma Welt)
449

Olho o meu cenário de tal modo,
Que feliz por existir, como noviça
Eu abrindo os braços rodo e rodo
E agradeço isto ser pampa e não Suiça.

Meus avós aqui chegaram por acaso?
Não creio como creio no destino,
Embora misterioso, no meu caso...
Por quê o cabelo ruivo e o pêlo fino?

Esta herança germânica que teima
Em me deixar nostálgica do gelo
Que por aqui a geada, apenas, queima...

E esta pele tão alva como um halo
Que os gaúchos me querem ver o grelo
Apostando que é rubro ou muito ralo...




O Jogral (de Alma Welt)
448

Para prosseguir minha jornada
Abro mão de certos artifícios,
Como os da vaidade declarada
De que dispenso os sacrifícios,

Mas plantar sementes no agora
Dos frutos do porvir, a macieira
Dos pomos dourados de uma aurora
Vislumbrada por mim a vida inteira,

Eis a maior vaidade! -vós direis-
Tudo é vão, na morte tudo finda,
Até o fausto e poder de antigos reis.

Mas eu, ainda guria, constatei
Que o jogral do rei o canta ainda,
Eis o poder maior que já encontrei.

(sem data)



Prece (de Alma Welt)
447

Pelas doces manhãs da juventude
Em que eu acordo a rir e a rodar
E tudo é motivo e completude:
O casarão, a pradaria e o pomar...

Pela graça de ser bela e muito mais
Por ser amada pelo Vati, meu Maestro
Pela Mutti, irmã Lucia e o irmão destro
Nos jogos de cartas e pedais

De seus bólidos brilhantes, perigosos
Que ele jura como as cartas dominar
Como fazem os talentos ociosos

E ao fim das temporadas retornar
Para os braços meus já tão saudosos...
Eu sou grata demais por tanto amar!



A jornada de outono (de Alma Welt)
446

Não estaremos prontos no final
Nem felizes, talvez, o que é pior.
O prêmio reservado no portal
É um remordimento bem menor,

De consciência, digo, e não é pouco
Pois o espectro daquilo que evitamos,
Agoniza ou gesticula como um louco
Exigindo a atenção que não lhe damos.

Mas um puro coração é sempre leve
E voa ao vento oeste como folha
Na jornada de outono muito breve...

Então, sentemos na varanda, meu irmão
E deixemos que o inverno nos acolha
Enquanto ardente beijas minha mão...

14/01/2007


Da Saudade (Alma Welt)

“Estranho, não desejar mais nossos desejos...”
(primeira Elegia de Duino- Rainer Maria Rilke)
445


“Não desejar mais nossos desejos...”
Imagino que isso chega com a idade,
Se alcançarmos o tempo da saudade
Que já não almeja os seus ensejos,

A pura saudade, conformada,
Que é dom e consolo dos idosos
Como compensação da caminhada
Igualmente para tristes ou ditosos.

Então, feliz do homem despojado
Cuja saudade é plena e não carente
E que a afaga lenta e docemente...

Vê: na nossa mente tudo temos,
Nada perdemos e tudo é renovado
Pois que só na alma é que vivemos.



Iniciação (de Alma Welt)
444

À meia noite o portal se abria
E tudo se passava no meu bosque.
Eu saía do meu quarto e lá eu ia
Para o mágico encontro no quiosque

Das fadas e demais elementais
Que temias, eu me lembro, e evitavas
Como conspirações de ardis fatais
Que nos mandariam e tudo às favas:

A ordem, os desígnios e o destino
Que a gente há muito construía
No plano destes prados, dia a dia.

Mas tu mesmo, Rodo, foi primeiro
A me mostrar no espelho o aço fino
Entre o bosque e o mundo verdadeiro.

(sem data)



Perdidos Amores (de Alma Welt)
443

Ausculto o silêncio desta casa
E ouço a algaravia de seu sonho
Distinguindo o murmurar tristonho
Dos amantes perdidos, já sem asa,

Arrojados ao solo do malogro
Quando tudo perderam, com a vida
Que ofereceu sua chance como jogo
De falsas opções cobrando a dívida...

Como é triste a estória dos amores
Que tudo apostaram sem futuro
Na fusão do ser, ó meus senhores!

E tudo enfim perderam, como soe
Acontecer na vida de um ser puro
Que crê no amor eterno, ah! como dói!



O sentido do ser (de Alma Welt)
“A poesia é o autentico real absoluto.
Quanto mais poético, mais verdadeiro”. (Novalis)
442

Encontrar o sentido de viver
Não é tarefa simples, corriqueira...
Percebo que a humanidade inteira
Vive a esmo acreditando ser

E existir sem ao menos suspeitar
De que possa ser parte da ilusão
Que a vida edifica em pleno ar,
Onde ser ou não ser é tudo em vão.

Questionar a existência do real
Já é parte da construção possível
Do universo em seu plano ideal

Que é o sonho lúcido em poesia
Como termo verdadeiro e mais tangível
Que o divino com o ser reconcilia...

(sem data)


Revelação (de Alma Welt)
441

Voltemos para casa, meu irmão,
Que sinto um aperto aqui no peito.
O Vati nos espera, eu bem suspeito,
Com a resposta ou melhor: revelação

Da pergunta que deixei plantada
Na mesa na forma de um enigma
Que pode decidir, numa cartada
E retirar de nós o nosso estigma.

Antes do que for, pois, respondido,
Saiba: eu creio não seres meu irmão
E que assim, nosso amor é permitido.

Eu sempre vi em ti um outro sangue
Que me chama ao real mundo de ação,
Que, sem ti na vida, eu era exangue...


Sonetos (de Alma Welt)
440

Escrever sonetos infindáveis
É a minha missão e minha meta
Embora haja quem ache memorável
Outros hão que achem-me pateta.

Mas sei que registrando em poesia
Tudo o que vivo e sinto a cada dia,
Nada perderei da quintessência
Do existir em alma e consciência.

"É um vicio, isso sim!"- dirão alguns
"Porque então não contas o teus podres
Ou ao menos confessas os teus puns?"

Mas eu não levo a sério tais reclamos,
E tratando como se fossem meus amos,
Lhes sirvo o melhor vinho dos meus odres.


O ananque das coisas (de Alma Welt)
439

A graça de viver é o mistério
Maior que podemos conceber
Já que não levando-nos a sério
É que descobrimos nosso ser.

Tudo é paradoxo e enigma
O contrário explica-nos melhor
O justo se denota pelo estigma
E o mal cria o bem ao seu redor.

Assim jogados neste mundo
É fácil em labirinto nos perdermos
Pois a vida é o dédalo profundo.

O ananque das coisas rege a vida,
Impondo-nos seus controversos termos
Em meio a tanta luta e tanta lida...


Cabra-Cega (de Alma Welt)
438

A Poesia que coloco no papel
Será sempre a imagem verdadeira
Daquilo que projeto sob o céu
Enquanto brinco a louca brincadeira

Que é este estar às cegas nesta vida
Como aquele jogo dos infantes
Cuja eterna tensão durava instantes,
Meu tatear e o reencontro, comovida.

Assim, também cego é o soneto
Que me faz percorrer sombria senda
De dores, emoções e algum tropeço,

Quando, afinal, na chave do terceto,
Inaudito como o fecho de uma lenda,
Toco meu próprio rosto, e o reconheço.

(sem data)


O Nascimento de Vênus (de Alma Welt)
437


Convidei o artista, velho mestre,
Pra acompanhar-me ao poço da cascata
Onde após deambulação breve e eqüestre
Já planejo banhar nua, por bravata...

E chegando nesse sítio dos meus deuses,
Na praínha de cascalho me desnudo
Ao deixar cair meus panos como adeuses
E emergindo branca e pura disso tudo,

Entro assim nas águas tépidas, a vau,
Até a linha do meu púbis depilado,
Como nostálgica, leve e alva nau.

Então, nesse momento comovido
Julguei ter o pintor isto exclamado:
“O Nascimento de Vênus revivido!”

(sem data)


Nota

Acabo de encontrar na Arca da Alma este soneto cujo episódio narrado presumi ter sido o que inspirou o quadro do mestre pintor paulistano Guilherme de Faria, que foi amigo, descobridor, ilustrador e lançador da Alma, e a quem ela convidou para uma temporada aqui na estância no final do ano de 2001.(Lucia Welt)


O Diapasão (de Alma Welt)
436

Eis-me aqui, poeta deste prado,
Senão do povo, por certo desta estância
Em que o peão, ao menos à distância
Se mistura, contente, com seu gado.

Sim, porque o gado é dele mesmo
Enquanto tangido na coxilha
E não importa a posse da novilha
No meio da boiada, assim a esmo.

E eu também sou parte, mera, então,
Canora deste mundo que me molda
Como uma andorinha no verão

Emitindo a nota mestra da canção,
Como voz que de perto não se amolda
Mas é grito de alegria e... diapasão.

(sem data)



Vida e Arte (de Alma Welt)
435

Creio que uma vida é bem vivida
Quando deixa rastros indeléveis,
Não aqueles tímidos e débeis
Que mal fazem crer que foram vida.

Uma carta intensa e apaixonada
Já é esforço e marca suficiente,
Ou um cartão na arca da mansarda
Que achado comova algum parente...

Um quadro, um livro, é o que proponho,
Um soneto, se possível mil sonetos
E a surpresa final de alguns tercetos.

Nunca como “a pena de existir”,
Vida, vida e arte, como um sonho,
E o agora de um fantástico porvir!


12/01/2007

Nota

Encontrei agora há pouco este soneto que é bem uma "profissão de fé" típica da Alma. A grande Poetisa acreditava na absoluta nescessidade de criar para estar viva, como expresso naquele prólogo famoso de Fernando Pessoa à suas Obras Completas, na frase dos antigos navegadores portugueses: "Navegar é preciso, viver não é preciso", que o Poeta parafraseou em "Criar é preciso, viver não é preciso." (Lucia Welt)


Como Florbela (de Alma Welt)
433

Não me perderás, ó meu irmão
Pois perdida de te amar eu já estou,
Como dizia a Florbela desde então,
Num tempo que o vento já levou.

Sei que evitas dramas, caem mal,
E às tragédias loucas da paixão.
Nisso não és nada original
Pois é do ser humano essa aversão.

Mas não pude a sensação mais evitar
De uma taça a afastar em nosso horto
Quando flagrados fomos no pomar

Pois de dentro de mim ela arrancou
Teu pequenino membro, como aborto,
E então algo pra sempre me faltou...

(sem data)



A Vindima (de Alma Welt)
432

Estás em mim, irmão, sou toda tua,
E o êxtase de amar já me ilumina.
Não ousarão nublar a minha lua
Os que me vêm ao sol desta Vindima,

Irradiante pela graça deste amor
Que brilhou na minha face desde cedo,
Quando guria nova o destemor
Em quem talvez se espere tanto medo.

Não haveria para nós aquela carga
Atribuída aos pares desde Adão
E Eva, que provaram fruta amarga...

Vê, o fruto se fez doce de saída
E jamais culpa e pecado caberão
A quem de tanto amar nasceu perdida!

03/08/2002

Nota
Acabo de encontrar este glorioso soneto, inédito, na Arca da Alma. Pretendo montar um novo blog com os sonetos mais líricos da Alma, como este, que celebra o seu desabrido amor por seu irmão Rodo, que a rigor seria condenado pela sociedade, mas a que eles deram essa nota de liberdade e destemor, talvez mesmo de leveza, o que configura afinal um caso único, inaudito na História dos grandes amores.
É maravilhoso ver como às tristes folhas de parreira dos envergonhados parceiros bíblicos, Alma contrapõe a sua Vindima Nua, isto é, sua festa do vinho e do sexo assumido e celebrado. (Lucia Welt)

A Moratória (de Alma Welt)
ou O sono dos amores (de Alma Welt)

431

De noite as fragrâncias do jardim
Trazem sonhos de antigos moradores
Desta casa tão vivida, e o jasmim
Como os elos perdidos dos amores...

Tais anseios não morrem, não têm fim
Conquanto adormecidos na memória
Das coisas que já eram mesmo assim
Ao pedirem paz ou... moratória

Por sofridas perdas e fracassos
Que são como os acertos, no final,
Pois tudo são caminhos e são passos

Já que a morte deixa tudo inacabado,
Sonetos em que o fecho é sempre igual:
Gozo e dor a reflorir sobre o gramado...

17/08/2006


Amor guerreiro (de Alma Welt)
430

O amor triunfante que concebo
Não é a minha teima ou meu consolo
E não venci reservas de um mancebo
Com a insistência de um monjolo,

Mas colheita ideal de uma procura
Em que a nota terá sido a liberdade
E o desafio além de uma saudade
Da fonte virginal que a alma cura.

Terá sido privilégio ou coincidência
Tê-lo encontrado aqui perto de mim
Mas nunca comodismo ou indulgência

Pois o preço a pagar pela ousadia
De assumir e cantar um amor assim
Faz de mim guerreira e... não vadia.

(sem data)


Nota

Acabo de encontrar este impressionante soneto em que a Alma afirma o seu amor por nosso irmão Rôdo, nascido por escolha (se é que isso é possível) apesar de começar na tenra infância dos dois. Mas não se pode duvidar da coragem que isso representou numa guria, por toda a sua vida, numa sociedade provinciana como a nossa, e com o escândalo e a lógica oposição ferrenha da Mutti, da Solange (nossa irmã) e até da Matilde. (Lucia Welt)

Dupla Saga, ou Sonhos do casarão (de Alma Welt)
429

Quando à noite o casarão dormita
E sonha a saga digna e honrosa
De uma família não tão esquisita
Como esta dos Welt, espantosa,

Eu ouço os murmúrios e até gritos
Das batalhas finais dos farroupilhas,
Quando as preces igualmente dos aflitos
Eram por outros lances e outras filhas.

Agora quem nos reza longo terço
É a Matilde, o vero esteio desta casa
Que protegeu “las niñas” desde o berço

E jurou não deixar o mal interno
Se agitar em nós como uma asa
Negra, que ela teme vem do Inferno...

(sem data)



Sobreviveremos (de Alma Welt)
428

Sobreviveremos, Rodo, meu amor
E o Tempo não há de sepultar-nos
Junto com os corpos sem calor,
Que nisso não há como poupar-nos,

Mas na memória viva sempiterna
Dos abraços e beijos que trocamos
E a ventura que se queria eterna
No hálito que ávidos sugamos

Um do outro, como brisa destes prados
Que para nós foram mesmo Paraíso
De juras e carinhos, que trocados

Eram como o chimarrão no inverno,
Que nada era mais justo, mais preciso,
E a nós não caberia escuro Averno...


15/01/2007



De sonhos, pipas, corações (Alma Welt)
427

Arrastados na corrente dos eventos
Vão os corações, de cambulhada,
Sonhos empinando-se nos ventos
Como pipas infantis na madrugada.

Bah! Depois sempre a derrocada,
Enroscados em fios ou altos galhos,
Pendendo, ali, patéticos frangalhos
Como triste ilusão abandonada.

Como custa renovarmos nossos sonhos
E empinar novas pipas encarnadas
Com os mesmos propósitos bisonhos!

Subir cabeceando, ah! subir
Esperando que as alturas alcançadas
Nos chamem, como a mãe, para dormir...

(sem data)


Nota
Acabo de encontrar este notável soneto simbolista, inédito, na Arca da Alma. A Poetisa realmente podia falar de sonhos e... pipas, pois, com Rodo, como moleques, muito ela os empinou, brancos em noites enluaradas ou de manhã cedinho, sempre interrompidos pelo chamado da Mutti, para dormir, para almoçar... (Lucia Welt)

Ulisses (de Alma Welt)
426


Viver o mundo, esperança e agonia
E a louca incerteza da existência,
Driblando a mortal melancolia
Que é sempre o final ou a falência

De todos os sonhos e saudades
Por mais que a névoa dispersemos
De nossos erros e maldades,
Pequenos que sejam, de somenos,

Eis a tarefa heróica desse ser
Que é o homem, na sua dimensão
Tão dúbia de tristezas e prazer.

Enfim, tornar-se surdo à algaravia
Ou amarrar-se ao mastro da razão
Na última e arrastada calmaria...

05/01/2007

Big Bang, ou a Fúria do Logos (de Alma Welt)
425

Medito sobre a verve do poeta
E o perigo de lidar com as palavras
Para além da ilação delas, direta,
Com a semeadura e suas lavras

Já que os vocábulos são germe
De novas inquietudes e questões,
Quer colhidos com outras intenções
Ou plantados abaixo da epiderme

Do ser, aquém da carapaça,
Ou ainda bem debaixo da razão
(e nisso consiste a ameaça)

Pois a fúria contida na origem
Fez do “logos” a causa da explosão
Que criou o Universo e sua vertigem...

(sem data)

Nota
Acabo de encontrar este soneto na Arca da Alma, de nítida conotação metafísica e notável complexidade, escrito num guardanapo de papel (gostaria de saber em que ocasião e contexto ela o escreveu). Creio que a profundidade do pensamento da Poetisa a levou a essa "vertigem" fatal que ela pressentia e temia.( Lucia Welt)




Big Bang, ou a Fúria do Logos (de Alma Welt)
425

Medito sobre a verve do poeta
E o perigo de lidar com as palavras
Para além da ilação delas, direta,
Com a semeadura e suas lavras

Já que os vocábulos são germe
De novas inquietudes e questões,
Quer colhidos com outras intenções
Ou plantados abaixo da epiderme

Do ser, aquém da carapaça,
Ou ainda bem debaixo da razão
(e nisso consiste a ameaça)

Pois a fúria contida na origem
Fez do “logos” a causa da explosão
Que criou o Universo e sua vertigem...

(sem data)

Nota
Acabo de encontrar este soneto na Arca da Alma, de nítida conotação metafísica e notável complexidade, escrito num guardanapo de papel (gostaria de saber em que ocasião e contexto ela o escreveu). Creio que a profundidade do pensamento da Poetisa a levou a essa "vertigem" fatal que ela pressentia e temia.( Lucia Welt)

Inverno (de Alma Welt)
415

Quando no meu pampa finde o inverno
E as flores despontarem no jardim
Como se seu brilho fora eterno
E a vida canção cálida e sem fim,

Eu me lembrarei destes momentos
De um calor interno de lareira,
E mais ainda do nosso andar aos ventos
Carregando cuias, bombas e chaleira,

Montados nos queridos alazões
Envoltos nos nossos grossos palas,
Com meus poemas, cismas e razões

De quem somos, por quê aqui estamos,
Enquanto com os dedos tu me calas
E apontas o caminho que trilhamos...

(sem data)


Dias tristes (de Alma Welt)
414


Dias tristes do meu pampa, "dias tristes
Como sentir-se viver” disse o poeta,*
Quando abandonávamos os chistes
E tentávamos deixar a vida quieta

E quase hibernados concentrando
Os nossos sentimentos e amores
Na espera paciente de esplendores
Que nos aguardariam triunfando.

E em silêncio vagava com meu Rodo
Embrulhados nos palas, mateando,
Evitando sendas calvas e seu lodo.

E então se nos pegava o minuano
Eu, aninhada em meu irmão, e tiritando,
Poderia assim viver por todo um ano...


(sem data)


Nota
* ... "dias tristes como sentir-se viver"- citação de um verso de um poema de Álvaro de Campos (Fernando Pessoa).




Zen (de Alma Welt)
413


Para poder conhecer e revelar
A linguagem das coisas, tão cifrada,
É preciso ter a mágica mirada,
Aquela do pintor ao retratar

O tema, o ser humano ou objeto,
Que o mesmo amor sem sentimento
Ou sentimentalismo, o que é mais certo,
É preciso para tal empreendimento.

O olho preciso é o que é preciso
E a mente vazia de conceito
Para captar o mais conciso

Que nasce da forma em traço ágil
E é a fala das coisas, seu proveito,
Quando tudo se calou, e é tão frágil...

(sem data

Nota
Acabo de encontrar este notável soneto na Arca da Alma, e pensei primeiramente em postá-lo no blog dos Sonetos Metafísicos da Alma, que à primeira vista me pareceu ser seu lugar, mas logo me lembrei que o Zen, corrente do budismo, não deve ser confundido com o conceito ocidental de Metafísica. (Lucia Welt)




Pássaros migrantes (de Alma Welt)

412


Pássaros migrantes do meu sonho!
Eu os avisto a voar em formação
A caminho do Norte e sua canção
Que conheço só do que disponho

De livros e poemas nas estantes
Desde que era a guria tão curiosa
Projetando vagar mundos distantes
Talvez como escritora já famosa...

Me alce, ó bando, e leve com você
Nesse vôo lindo em esquadrilha
Com formato sugestivo de um “V”

Do qual não almejo a liderança,
E humilde seguirei à maravilha
O sonho de que a Alma não se cansa...

(sem data)



Canção de guarani (de Alma Welt)
411

Entre os nossos peões havia aqui
O Solano olhado assim de esguelha
Pelos outros por ser um guarani
E bem mais calado que uma telha.

Também não se encaixava no telhado
E não por trabalhar errado ou menos,
Mas por suposto olhar de mau-olhado
Ou sua importância de somenos.

Então experimentei me aproximar
Para talvez lhe dar outro destaque,
Uma amizade buscando semear,

Semente que Solano em solidão
Levou, fugindo só com o almanaque
Em que eu lhe dedicara uma canção...

(sem data)


O embuçado (de Alma Welt)
410

Galdério, ó Galdo, o que é aquilo
Que vimos embuçado pela estrada
Quando íamos a passo bem tranqüilo
E então me vi sobressaltada?

“Alma, patroinha, não é nada,
Aquele não é senão Judas Leproso,
E a sineta de som pouco lamentoso
Ele agita pra afastar a peonada,

Que de longe lhe deixa o de comer
Pois dinheiro não lhe querem pôr na mão,
Que outros não iriam receber...

E a pobre alma penada é intocável,
E morrerá sem que jamais nenhum peão
Le mire a face morta e deplorável.”

(sem data)


Notas
Acabo de descobrir este notável soneto na arca e embora percebendo-lhe o nítido teor simbolista, impressionada fui perguntar ao Galdério se esse episódio realmente acontecera, se ele se lembrava disso... Galdério confirmou dizendo: "Patroa, si Alma lo ha escrito, es verdad."
Jamais saberei definir os limites entre realidade e invenção no mundo da Alma...

Le mire- escrito assim mesmo, como falam os peões por aqui.
(Lucia Welt)


O haragano e o minuano (de Alma Welt)
409

O haragano é uma força deste prado,
Irrupção vital e alegre vento
Como fora verão, sem o tormento
Do nosso minuano, o outro lado

Do pampa quando mostra seu semblante,
Gélida, implacável e feia cara...
É então que ess’ outra face nos prepara
Para o longo inverno, duro amante.

E então acolhemos o monarca
E não o usurpador, embora feio,
Com nossos grossos palas e o mateio.

Mas, bah! quando ao açoite a nave geme,
No salão deste sobrado e minha arca
Lanço versos qual se ainda houvesse leme.


09/04/2004

O Edital (de Alma Welt)
408

Manhãs do meu sonho, esfuziantes,
Que me faziam descer o corrimão
Deslizando como outrora os infantes
Que habitaram este vetusto casarão

Naquela ânsia de viver e de voar
Pelo nosso jardim e pradaria
Ou sob a macieira do pomar
Cujo pomo a passarada me anuncia!

Gloriosas e radiantes minhas manhãs
Em que por sentir-me tão vital
Fazer quisera, igualmente, um Edital

Anunciando os frutos da Poesia
Que honrei, malgrado as horas vãs,
E “o tempo que perdi em ninharia”...

05/09/2006


Nota

Acabo de encontrar este belo soneto, verdadeira "profissão de fé" de poeta, na Arca da Alma. Notem que "...o tempo que perdi em ninharia" é uma citação na íntegra de um verso do primeiro terceto do soneto de Benvenuto Cellini (célebre ourives e escultor da Renascença Italiana) que serve de epígrafe ou prólogo para a sua famosa autobiografia. O soneto termina com estes versos:
" ...benvindo (Benevenuto) fui
Na graça desta terra da Toscana!"



Coração infame (de Alma Welt)
407

Às vezes me surpreende estar no mundo
Com minhas circunstâncias tão propícias
À poesia, à música e ao profundo
Senso de beleza, e das delícias

De ser a filha amada de meu Vati
E de Rodo meu irmão e da irmã Lúcia
Embora haja o contraponto da angústia
Que por certo é o que faz de mim um vate.

Mas pra tornar-me forte e não passiva
Tive a honra de fazer uma inimiga,
A irmã Sol* cujo ódio dói e instiga

A manter-me a mente alta e compassiva
Pra não tornar-me o branco cisne*, presa
Do infame coração, triste princesa...


(sem data)

Notas

...irmã Sol- nossa irmã mais velha, Solange, falecida, que tendo ciúmes e inveja da Alma a perseguiu e atormentou a vida inteira, mas que nos momentos finais, nos braços da Alma, pediu-lhe perdão. Este episódio trágico e comovente está descrito no romance autobiográfico da Alma, a ser publicado em breve em livro.

Tornar-me o branco cisne
- presumo que se trata de uma alusão à reencarnação do poeta Orfeu no corpo de um cisne, citada no Mito de Er, de Platão, na "República", ou na tranformação de Odette em um cisne branco, pelo feiticeiro (aqui o seu próprio coração, que por licença poética ela chama de "infame") no ballet O Lago dos Cisnes de Tchaycowski (Lucia Welt)



A quermesse (de Alma Welt)
406

Eu gostava da quermesse na cidade
E há pouco descobri a razão disso,
Ali há uma pequena sociedade,
Arremedo do mundo a seu serviço:

Sortes, jogo, comércio e pescaria
Além os tiros, desafios e os aportes,
Um jovem descobrindo uma guria,
Os olhares, suspiros e transportes,

E, bah! Os sonhos que não morrem,
Os anseios numa eterna romaria
Do coração que busca sua poesia

Em que lança suas raízes para o fundo
E se agarra enquanto as horas correm,
O carrossel girando como o mundo...


28/10/2006


O dia e a noite (de Alma Welt)
405

Os últimos albores na planície
Costumam me levar à compreensão
Súbita e fugaz da imensidão
Contra o humano limite e superfície.

Eu sei, o sol é Deus e é visível,
Olho severo mas sensível e amoroso
Que doura o nosso mundo compreensível
Pra mergulhar depois no duvidoso.

E assim, o que o sol nos esclarece
O sono desmente ou desvirtua
E temos que rever o que parece.

Agora em suas sombras e estigmas
A noite das estrelas e da lua
Nos convida ao sonho dos enigmas...


(sem data)



Memórias farroupilhas (de Alma Welt)

404

Pelas trilhas em volta do sobrado
Que se eleva sobranceiro na planície,
A fachada como a face de um barbado,
Com sua decantada esquisitice,

Recoberta pela hera e não grisalha
Conquanto mais vetusta que a do Vati,
E que sobe a parede até a calha
Com sua textura cor de mate,

Eu perambulo nos dias e nas noites
Procurando senhas e vestígios
Dos antigos farrapos e prodígios

Que me são anunciados por murmúrios,
Gemidos de cilícios, seus açoites,
Os vôos da memória e seus augúrios...

17/11/2006



Os Tempos e os Ventos (de Alma Welt)
403

Inolvidáveis tardes do meu prado
Quando em silhueta e uma aura
O adeus deste poente agraciado
O rubro dos cabelos me restaura

E junto ao grande umbu frondoso
No alto da colina em pleno pampa
Me vejo tal qual aquela estampa
Do vento que levou o nosso gozo

E então retorno e subo ao casarão
Que anoitecido desperta suas memórias
Como os guris a descer o corrimão

De seus jovens sonhos revividos
De outros poentes e outras glórias
De tempos e ventos esquecidos...

(sem data)


Largo al Factotum * (de Alma Welt)
402

Galdério, factotum desta estância,
Filho dileto da banda oriental*
Do Pampa e de sua circunstância*
Com sua fala um tanto gutural

Tem como uma espécie de mistério
O nome que, entre nós, ele detesta
Por ser ele confundido com gaudério*
Embora não ostente em sua testa

Pois é gaucho do trabalho como poucos
E apesar do desrespeito inicial
Impôs-se com rigor e brados roucos

Pois, irmão mais esperto da Matilde,
Tornou-se o paladino de um graal*:
Alma viva, nem Rosina, nem Brunhilde...*

(sem data)

Notas

Acabo de encontrar este curioso soneto inédito na Arca da Alma, que faz uma homenagem ao nosso administrador, charreteiro, motorista, emfim, o "faz-tudo" aqui da nossa estância desde que éramos piás, e sua irmã, a nossa querida Matilde, nossa babá.

* Largo al Factotum- título da famosíssima ária da ópera O Barbeiro de Sevilha, de Gioacchino Rossini. A expressão significa : "Abram alas ao Faz-tudo"

*banda oriental- o Uruguay

*Pampa e sua circunstância- Trocadilho com a famosa Pompa e Circunstância , obra orquestral solene de Edward Elgar

*gaudério- expressão gauchesca que designa um tipo sem eira nem beira, fanfarrão, vagabundo e jogador de truco. Às vezes os gaúchos assim se referem jocosamente uns aos outros. Nosso administrador e fiel amigo Galdério não gosta de ter seu nome (com l) assim confundido por galhofa.

* gaucho- assim, sem acento é como o próprio Galdério, que é uruguaio, se auto-designa e aos otros peões. Pronuncia-se "gáltcho".

* paladino de um graal- A fidelidade e dedicação do Galdério à nossa Alma o tornaram um verdadeiro "chevalier-servant", ou cavaleiro andante da sua amada "patroinha" que é para ele um graal, isto é, sagrada...

* Alma viva, nem Rosina nem, Brunhilde... - curioso verso que alude ao personagem do conde Almaviva, que é apaixonado por Rosina no O Barbeiro de Sevilha e adota o nome de Lindauro para se apresentar ao tutor dela, Bartolo, que a mantém prisioneira e quer casar-se ele próprio com a sua tutelada, por dinheiro. Com a ajuda de Fígaro, o barbeiro "faz-tudo" que aí se torna alcoviteiro, o conde Almaviva conseguirá no final casar-se com sua amada. Quanto à Brunhilde, essa é personagem do Anel dos Nibelungos, a grande saga germânica da ópera de Richard Wagner. Alma quis dizer que ela não está nem para a heroína burlesca de Rossini, nem para a solene walkíria Brunhilde de um Wagner da ascendência germânica dos Welt, mas mais para uma "Alma viva", ela mesma, poetisa-heroína do nosso pampa. (Lucia Welt)


Ao irmão (de Alma Welt)

401

Estarei sempre por aqui, ó meu irmão,
Quando voltares do jogo e das andanças,
Esgotado pelas guerras do mundão
E precisares do colo e das lembranças

De nossa juventude e doce infância
Que não podes levar pr’aquela mesa
Já que tens que deixar aqui na estância
Toda candura, sonhos e pureza.

Eu estarei aqui, se mais não possa
Resguardar-te de ti mesmo, ó leviano
Ator de nova trupe e de outro pano.

Pois aqui jogo e teatro eram poesia
E o perigo a enfrentar, somente a coça
E a vara de marmelo na coxia.

09/05/2006


Nota

Acabei de encontrar, esta manhã, este soneto que descobri ser inédito (nunca publicado) e que percebo pertencer à serie dos Pampianos da Alma. Então acrescentei-o àquele ciclo específico no blog Vida e Obra de Alma Welt, como n° 398, elevando para 401 a série até agora. A Carruagem permanece como o último, mesmo, da vida da grande Poetisa do Pampa. (Lucia Welt

Plantei um poema em meu jardim (Alma Welt)
400

Plantei um poema em meu jardim,
Mais secreto e apto a dar flores
E que oculto permanece quieto assim
No tempo em que se agitam os amores.

Enquanto a juventude canta e geme
Lançando sua semente aos quatro ventos,
As minúsculas embarcações sem leme
Que vão dar às praias e tormentos,

Esta semente do poema da velhice
Lança suas raízes bem mais fundo
Antes de alcançar a superfície.

Pois meu poema sábio e despojado
Ainda não nasceu e é tão calado
Que talvez nem seja deste mundo.


05/10/2006


Nota
Acabo de encontrar este soneto na Arca da Alma, e que me parece uma obra-prima.
Este soneto parece ter nacido já como um "clássico" e contém as características fundamentais da poesia da grande Musa: o lirismo e nostalgia inconfundíveis da Alma, sempre mesclados de uma fina ironia, sugerida por sutis paradoxos. ( Lucia Welt)


Esplêndidas manhãs (de Alma Welt)
399


Esplêndidas manhãs me esperavam
Grande parte do ano aqui na estância
E me lembro das da gloriosa infância
Em que estar viva e amar me exaltavam

A ponto de gritar em correrias
De brisas e andorinhas em milícias
Com rasantes e estridentes arrelias
Pelos prados de vôos e carícias!

Mas a Vinha herdada dos avós
Somada à memória farroupilha
Era por certo um peso para nós...

E eu voltava então com muitas flores
Pra seduzir a casarão como uma filha
E em segredo ofertar aos meus amores...

07/11/2006



Ao irmão (de Alma Welt)
398


Estarei sempre por aqui, ó meu irmão,
Quando voltares do jogo e das andanças,
Esgotado pelas guerras do mundão
E precisares do colo e das lembranças

De nossa juventude e doce infância
Que não podes levar pr’aquela mesa
Já que tens que deixar aqui na estância
Toda candura, sonhos e pureza.

Eu estarei aqui, se mais não possa
Resguardar-te de ti mesmo, ó leviano
Ator de nova trupe e de outro pano.

Pois aqui jogo e teatro eram poesia
E o perigo a enfrentar, somente a coça
E a vara de marmelo na coxia.

09/12/2006





A abantesma (de Alma Welt)
397

No riacho que produz minha cascata
Costumo vadear erguendo a saia,
Ou “vadiar”, diz Matilde caricata
A frisar minha brancura que desmaia.

Ou então, ela diz, "faz desmaiar",
Pois pudica que é, quer alertar-me
Ou prevenir que o povo vai acreditar
Qu’é d’uma abantesma este meu charme.

Mas estou mais inclinada ao nu total
E há muito que com Rodo ou sozinha
Sou eu a alva ninfa em meu quintal.

E o povo a lenda ama e perpetua:
“Visagem” sou da branca patroinha,
Que muito hei de vagar à luz da lua...

08/06/2005



Ofélia (de Alma Welt)
396

Hoje o dia amanheceu enevoado
Evocando antigas brumas de Avalon,
Mas levanto e capricho no penteado
Em bandós e nem um toque de baton.

E com uma saia longa e meu chale
Me vejo um tanto mais vitoriana
A vagar numa charneca ou num vale
Como Tess, e muito menos pampiana.

Então, triste e encarnada no papel
Vou até o soturno lago meio opaco
E me inclino sobre águas como um véu

Que me nega as luzes que preciso
Para mirar meu rosto ainda que fraco
E mais para uma Ofélia que Narciso...

10/01/2007

Nota
Acabo de encontrar na Arca da Alma este soneto triste, que, como muitos outros contém uma velada premonição de seu destino, isto é, de sua morte afogada nesse lago, como uma Ofélia, tão anunciada, e que entretanto não podíamos prevenir ou deter... (Lucia Welt)



A corredeira (de Alma Welt)

395

Ultimamente vivo mais acelerada
E tenho um sentimento de urgência
Que não tinha enquanto era mimada
Qual Infanta, princesa ou excelência,

Guria branca de cabelo quase rubro,
Ouro velho, melhor dito, e como seda,
A vagar no jardim e na alameda
Florida como fora sempre outubro

Pois então a primavera era perene
E as horas fluíam sobre um rio
Como um barco feliz de pouco leme

E eu não pressentia como agora
A corredeira que me lança em desvario
Numa ânsia entre ficar e ir embora...

8/10/2006

Nota
Este soneto recém-descoberto revela, como tantos outros, o pressentimento de minha irmã de sua morte próxima, que a revoltava e abismava, ao mesmo tempo. (Lucia Welt)



Esta noite me sento à lua cheia (de Alma Welt)

395

Esta noite me sento à lua cheia
Orgulhosa a matear entre os peões
Ouvindo as estórias de peleia
E os chistes, as risadas e as canções

Que correm em nossas veias aquecidas
Pelo mate e o prazer de pertencer
A estas pradarias esquecidas
Pela História que ficou a nos dever

Desde que firmou-se espúrio acordo
Com os imperiais que derrotamos
Segundo conta agora o mano Rodo

Entre gargalhadas e altos brados
Que saúdam os bravos pampianos
Que fomos e ainda somos nestes prados.

(sem data)

Nota
Acabo de encontrar este soneto que pertence à veia "gauchesca" da Alma. A Poetisa realmente adorava essas vigílias de bivaque, com a chaleira a chiar sobre a fogueira, entre os peões mateando o chimarrão, acompanhada ou não de Rodo. (Lucia Welt)



As vozes do Tempo (de Alma Welt)
394

Levanto-me ao ouvir os sons da noite
Que aos outros parecem inaudíveis,
Não de grilos e sapos, sons tangíveis
Do Tempo, onde quer que ele se amoite

Pois de dia se evaporam e exalam
Sob o azul que quer só o presente
Ao vento das campinas onde calam
Os talos do capim que se ressente.

E como os que estiveram deste lado
Eu me vejo desde uma outra infância
Auscultando os sussurros do passado

E a verter das noites para os dias
As vozes gravadas à distância
No silêncio destas velhas pradarias...

(24/05/2006)



A preceptora (de Alma Welt)

392

Minha mãe contratou preceptora
Para botar cabresto em sua guria
Que desembesta por aí c’uma pletora
De velhos deuses e numes à porfia,

Pelo prado, o lago e o vinhedo,
Pelo pomar e o poço mágico vetado,
Pelo bosque que guarda o meu segredo,
Pelas palhas do galpão abandonado.

“Senhorita, põe um freio nesta prenda
E ensina-lhe a conter os seus impulsos,
A comportar-se como o livro recomenda.”

“O resto, o francês e os algarismos
Podem vir se a prenderes pelos pulsos,
Contendo seu vulcão, sonhos e sismos.”

(sem data)



A preceptora II (de Alma Welt)

391

A mim, a Mutti sem saber presenteou
C’uma austera professora inusitada
Que assim que me viu se abrandou
De modo que me pôs emocionada.

O semblante, antes duro, amoleceu,
O olhar a destilar um certo mel,
E a tocar minhas mãos e o rosto meu
Como a afastar um fino véu.

E logo, ai de nós! apaixonadas,
Transformamos as aulas na mansarda
Num doce Kama-Sutra de vanguarda.

Eis o teatro de emoções mui delicadas,
Em que a mestra abrandava o coração
E o corpo, ao deslizar de minha mão...

(sem data)


Nota
Para os leitores que quiserem conhecer melhor este episódio real da adolescência da Alma recomendo a leitura do belo conto "A Preceptora", no blog Contos da Alma. (Lucia Welt)



Minhas vidas paralelas (de Alma Welt)

390

Sobre a folha branca de papel
Tenho minhas horas renovadas,
Passadas a limpo sob um céu
Escolhido em azul ou trovoadas.

Eis aqui o meu mundo paralelo
Não menos real que minha prosa
Ao gerir o casarão como um castelo
Onde reino e sou toda poderosa.

Bah! Pois se é esse o meu destino,
Perdoem-me descrentes e aflitos,
Meus versos e o sangue com que assino.

Pois assim se na vida rio e choro,
Esta folha vai renovar-me os ritos:
Nova vida, riso, dor, que não deploro.

09/12/2006



A Era romântica (de Alma Welt)

389

Eu já estive nesta casa, eu o sinto.
Sentava-me à mesa como agora,
Os convivas se enchiam de absinto
E tardavam muito a ir embora.

Mas me lembro de um que era sóbrio
E notando meu desgosto e desalento
Para evitar-me algum opróbrio
Me convidava a passearmos ao relento.

E eu já então chegada ao verso
Declamava para ele minha poesia,
Concentrando seu olhar nada disperso.

“Abandonei os bebedores comezinhos”
-ele com olhos marejados me dizia-
“E me embriago agora de outros vinhos...”

08/03/1990

Nota
Alma quando estudou na Alemanha, foi à França e visitou parentes na Alsácia-Lorena, terra de nossa avó Frida, e disse ter sentido a sensação de já ter estado na vetusta casa onde aquela nasceu e morou até a juventude. Então escreveu este soneto que expressa essas sensações, que ela considerou reminiscências de uma sua encarnação na “era romântica”. Resta saber quem foi esse interlocutor...
(Lucia Welt)



De eras, heras e medos (de Alma Welt)

"...Où sont les neiges d'antan?"
(Balada das Damas dos Tempos Idos-
(François Villon)


388

As vetustas paredes desta casa
Guardam sonhos da farroupilha era,
Também medo tardio que extravasa
E se alastra agora como a hera

A recobrir daninha esta fachada
Tornando-a mais sombria que vital
E nada hospitaleira à convidada
Que eu trouxe da longínqua capital

E que de noite acorda e se me agarra
A debater-se qual barca em sua amarra
Na torrente dos suspiros e das mágoas

Das prendas que qual "neves d’antanho"
Ora permitem degelar as suas águas
Pois que então o heroísmo era tamanho...

2004



A ânfora em vermelho (de Alma Welt)

(ou Auto-biografia breve)
387

Eu sinto que estou perto da vida
Quando observo o mundo e sua lida
A partir deste reduto aonde vim
Viver desde que me dei por mim,

Guria entre piás, e deslumbrada,
Chegada da pequena Novo Hamburgo
Onde após me ver parida numa estrada
Meu pai fora viver qual demiurgo.

E aqui fui, neste vetusto casarão
Educada para ser o seu orgulho
E não a simples filha do patrão,

Mas aquela que seria o seu espelho,
E como grega ânfora em vermelho
Compensar do passado o mero entulho.

(sem data)

Nota
...grega ânfora em vermelho- Alma (que era ruiva) se refere àquele tipo característico de cerâmica ática (da antiga Grécia) que tem como característica as figuras pintadas somente em vermelho (ficando assim chamadas pelos arqueólogos, colecionadores e museus), das quais constam tantas obras-primas, e que quando encontradas numa escavação compensam toneladas de entulho, ou simples terra e pedras inúteis. (Lucia Welt)



Álbum de memórias (de Alma Welt)
386


Meu álbum fotográfico do Pampa!
Bah! Como narram minha história
As fotos em que o rosto meu se estampa
Fundidas co’as que guardo na memória!

Ali me vejo pequena e cacheada,
Com estranho vestido até os pés,
De antiga gola branca e rendada
E co’aquele olharzinho de viés.

Depois, donzela branca e sensível
A colher flor no jardim ou na campina,
A Infanta que a si mesma se imagina.

Depois ainda, a pintora-poetisa
Pincel na mão e a paleta indefectível
Muito melhor que o quadro, e mais precisa...

(sem data)


O Iceberg (de Alma Welt)
385

Deus criou o mundo inconsciente
Onde somos todos Anima e magia.
A razão é um universo penitente,
Diminuto, limitado, dia a dia.

Mas na base imensa do iceberg,
Que riqueza, que cosmos, que amplidão,
No sonho que a alma ainda persegue
Ao despertar pela manhã em solidão!

Como, pois, duvidar do dom divino
Se a própria divindade compartilha
O poder, o mito e a alegoria

No sono do velho e do menino?
E desta Alma desperta em sua ilha
A sonhar um oceano de alegria...

15/12/2006


Fênix (de Alma Welt)
384

Toda a experiência acumulada
Foi vã diante da força do momento
De emoção pungente e desatada
Produzida por antigo sentimento

Que voltou a mim como um pampeiro
Quando confrontei meu próprio amor
Ao vê-lo adentrar o meu terreiro
Vindo em minha direção... o predador!

E então, ó santa ingenuidade!
Um rubor me sobe, ó inocência!
E o tremor substitui toda a saudade.

E como uma donzela de outra era
Voltei a sonhar a tal quimera
Do primeiro amor em sua demência...

(sem data)


O pêndulo parado (de Alma Welt)
383

Vou-me daqui, Rôdo, por ora.
Não posso mais, não passarei na prova,
Nosso pai amado foi-se embora,
Eu mesma o vi descer àquela cova.

Tudo por aqui clama ou ilude,
Meu coração tropeça em sua sombra,
Ouço ainda seus passos sobre a alfombra
Que deveria guardá-los em quietude.

Mas os livros, mudos, o piano...
E o relógio da sala é só silêncio,
Os ponteiros no vão doze romano,

Imóveis congelados no momento,
O pêndulo inerte, ponte pênsil
Sobre o nada eterno e seu tormento...

(sem data(1999?)



Sonho e projeção (de Alma Welt)
382

Nas noites da estância há muito brilho,
Quero dizer, outro brilho que não meu,
Como o comboio da lua no seu trilho,
A viagem que meu pai me prometeu.

Sim, quando guria no seu colo,
Ele me apontando a Branca Via,
Turnê brilhante de uma carreira solo,
Que assim no seu sonho ele me via...

Mas de cabelos soltos, muito branca,
Ladeada por ele e pelo irmão
Eu sonhava que ali cavalgaria.

E era essa a imagem pura e franca
Que eu fazia dele mesmo em projeção
Pois meu mundo era pleno, e eu sabia...

(sem data)


Manhãs (de Alma Welt)
381

Belas manhãs, esplêndidas manhãs
Quando após um breve chimarrão,
A geléia e o queijo sobre o pão,
Eu corria para o prado e seus afãs.

E abrindo meus braços para o céu
Azul de doer de tão perfeito,
Eu experimentava vir do peito
Das andorinhas o mágico escarcéu.

E no calor girava até cair
De tontura, emoção e euforia
Por estar viva e tanto isso sentir.

Mas eis que a sombra começava a vir,
Não do umbu a fronde que alivia,
Mas do afoito coração que entardecia.

(sem data)

Nota
Acabo de encontrar este belo soneto inédito na Arca da Alma, que no entanto denuncia já o trantorno bipolar, doença que a acometeria nos últimos anos e que pode ter sido a causa da morte da grande poetisa. (Lucia Welt)


Arcádicas vigílias (de Alma Welt)

380

Espectros arcaicos desta estância!
Nas noites das vigílias gauchescas
Eu os vejo em torno desde a infância
A rodar e a dançar chulas grotescas.

Mas eu os saúdo e a eles brindo
Com o vinho dos avós para aplacá-los
Ou mesmo seduzi-los, e até rindo
Quando estão a exibir imensos falos.

E em noites de luar desmesurado
Vago com eles alva e seminua
Pela relva grisalha do meu prado.

E se da prenda xucra e sem dono
Em malícia o povo o mito perpetua,
Em arcádicas orgias me abandono...


(sem data)



A Noite do Maestro (de Alma Welt)
379

Noite perplexa, pálida e demente
A se estender da casa à pradaria
Desde o coração da minha gente
Concentrada no salão e escadaria,

Todos à roda do corpo tão presente
A que só eu via a grande espada
Entre as mãos no peito e repousada
Longitudinal e reluzente...

O maestro jazia inanimado
Mas a música de seus dedos se ouvia
A tocar num gravador ultrapassado,

Parecendo vir de longe, muito longe,
D’uma idade recheada de magia
Onde fora grão-senhor, guerreiro e monge...


03/01/2001

Nota
Acabo de encontrar este soneto na arca da Alma, que junto à serie dos "Delirantes", embora seja bem claro e descritivo do velório do Vati (papai) que para os novos leitores esclareço que também era chamado de Maestro pelos peões e alguns de nós, pois era um grande pianista embora fosse médico (só exerceu a medicina na juventude). (Lucia Welt)



O gaucho triste (de Alma Welt)
378

Vinha o gaucho ereto em sua sela,
Montado no vento e sem cavalo.
A noite carecia de uma vela
Que a lua era negra e sem um halo.

“Vai-te”, disse eu, “por quem me tomas?”
“Sou a prenda fiel de pai e irmão,
E não deixarei que escuras formas
Venham entrever meu coração!”

E o gaucho espectral continuava
Ali, com a face branca e triste,
E o zum de seu silêncio se arrastava.

Longos bigodes, chapéu de barbicacho,
No seu punho uma lâmina em riste,
A outra mão a conter o rubro facho...

05/02/2004



Sob a figueira (de Alma Welt)
377

Sob a figueira em sonho estava ela,
A branca peregrina de uma noite,
Sentada de viés em sua sela
Os olhos a pedir que não me afoite.

E eu me aproximei arrepanhando
Minha longa saia de cetim
Com meus pés inseguros caminhando
Numa espécie sedosa de capim

Dourado, como a bruma que luzia
E envolvia tudo em doce flama
Que por si apaziguava e seduzia.

E eu ouvi a voz que se me canta,
E o coração, ao recordar, ainda inflama:
"Virás comigo em breve, Alma, Infanta."



A Cavalhada (de Alma Welt)
376

A cavalhada vem durante o sono
E passa por mim em sobressalto,
Que desperto então em pleno Outono
Com as folhas varridas para o alto.

E corro, bah! eu corro desde então
Das minhas horas em fluxo contrário
Que buscam varrer-me para o chão
Com seu vento forte e arbitrário,

O Minuano, sim, que se diz dono,
E me quer não como às folhas, mas mulher,
Eu que prefiro os cavalos do meu sono

Que brancos como ondas me seduzem
E no abismal galope me conduzem
Aos páramos profundos do meu ser...

10/03/2005



Noites abrasadas (de Alma Welt)
375

Noites abrasadas, tão freqüentes
De minha grande dor transfigurada,
Quando o vão clamor pelos ausentes
Deixava o meu rastro pela escada.

Madrugadas doridas entre os galos
E os latidos longínquos na estrada;
Os minutos escorrendo pelos ralos,
Dedos e passos percorrendo o nada.

Depois o som há muito ausente do piano
Negro e mudo, a vir do tétrico Steinway
Que o mestre dedilhava e tanto amei,

Agora que só tons graves se ouvem
Tangidos pelo intruso Minuano
Como arremedo surdo de um Beethoven...

06/01/2007


Nota
Acabo de descobrir um novo tesouro na Arca da Alma: um grosso maço de papel contendo sonetos manuscritos que pelo seu timbre e conteúdo resolvi entitular "Sonetos Delirantes da Alma".
A grande poetisa cultivava também uma vertente obscura e misteriosa, por vezes assustadora, na sua imaginação tão rica de mundos e timbres.
À medida que os for compilando e digitando, irei publicando numerados. Talvez tome a liberdade de entitulá-los, para efeito de melhor divulgação no Google, pois Alma não fez, nem sequer os numerou.
(Lucia Welt)


O espírito do vinho (de Alma Welt)
374

O ser que vive em nossa adega
Vela o eterno sonho desse ninho,
Brinca de deixar a alma cega
E nomeia-se “o espírito do vinho”.

Eu sei, ele mesmo me tomou
E me fez aos quinze desnudar-me,
Tateando quando a luz aqui faltou
Para ir ao sótão e entregar-me.

Depois de cada festa pampiana,
Lá estava sussurrando do meu lado,
Instando-me a correr esse perigo:

Eu tinha que passar pelo inimigo,
O sono leve da matrona Açoriana,
Para em risos colar no irmão amado...

(sem data)


Natura e Divindade (de Alma Welt)
373

O segredo de crescer é admirar
O imenso dom da vida e o mistério
Do extremo afã de se perpetuar
Que vemos desde cima ao andar térreo,

Ali mesmo, no âmbito invisível
Dos seres que constroem a fina teia
À qual o ser humano é remissível,
E que é a própria base da “cadeia”.

Foi esse o pensamento de cientista
Que o Vati legou-me como herança
Dizendo ser o seu mesmo, de artista:

Se a Natura tem tal complexidade
Redundando em espetáculo e pujança,
A Beleza é o embrião da Divindade...

08/03/2005

Nota

Encantou-me encontrar agora há pouco na Arca da Alma, este belo soneto desconhecido e inédito, de tom filosófico e científico ratificando a visão de artista que Alma diz ter herdado de nosso pai (o Vati= papai, em alemão) que era médico e pianista ao mesmo tempo. (Lucia Welt)



Amores meus! (de Alma Welt)
372

Amores meus, mitos sagrados,
Ícones de minh’alma agradecida,
Quão grata sou aos meus amados
Por se deixarem ser em minha vida!

Aquele inaugurou meu próprio ser
Debaixo da Árvore da Inocência,
A que escolhi, na aurora, pertencer,
Malgrado dúbio fruto e consciência;

Outro, tão ardente e de meu sexo,
Que colada a mim me duplicava,
Pois que ainda sinto o seu amplexo...

E outro e mais outro, como açoites,
Rubras flechas tiradas de uma aljava
E lançadas de mim nas minhas noites...

16/01/2007



As palavras vivem (de Alma Welt)
371

As palavras vivem e me constroem,
Sou filha delas, mito e criação;
Afinal menos letra e mais canção
Já não sei se me nutrem ou se doem...

Pintei o meu mundo com meus versos
Desde o nascimento numa estrada
Até os vãos momentos adversos
Em que tive minha candura violada.

Mas quanto vi crescer este meu Pampa
Interior, como o reflexo do espelho
De um cenário real e não de estampa:

Esta casa, seu jardim e meu pomar,
O vinhedo entre o roxo e o vermelho
Do sangue desta terra em meu lagar!

15/01/2007



O ninho da Salamandra (de Alma Welt)
370

Iremos lá, àquele Cerro, meu irmão,
Como fomos juntos às Missões,
Sete Povos, lembra? num verão,
Quando a lenda nos tocou os corações.

Mas ao Jarau iremos delirantes
E assim encontraremos o caminho
E chegaremos à sala dos diamantes
Onde a Salamandra fez seu ninho.

E seguiremos, eu sei, e não malditos
Pois não somos movidos por ganância,
Mas pela graça de nossa leda infância.

Quanto ao ouro e o poder, estes gigantes
Não nos poderão deixar aflitos,
Que o tesouro vive em nós e vem de antes.


14/10/2006
Missões- Alma se refere aos Sete Povos das Missões, conjunto de ruinas grandiosas das "reduções" jesuítas no Pampa riograndense, que Alma e Rodo visitaram algumas vezes, à primeira vez ainda guris, com o nosso Vati.

* (Cerro do) Jarau- Alma se refere à lenda gaúcha da Salamanca do Jarau, de origem popular anônima pampiana, mas consagrada na versão do escritor gaúcho Simões Lopez Netto em 1913. Note-se que há versões em que a palavra Salamanca (da princesa moura que vem dessa terra de Espanha) se torna Salamandra, o elemental do fogo, que na lenda é chamada de Teiniaguá. (Lucia Welt)



Original, sem pecado (de Alma Welt)
369

Meu pai criou-me sem pecado,
Refiro-me ao meu Vati e ao conceito
Que dotou o ser humano de um defeito
No nascedouro e com certificado,

Sim, o batismo, que faltou-me
E que eu não devia carregar,
E pra isso da charrete retirou-me
Quando a Mutti ia ao padre me levar.

Mas ao longo desta minha jornada
Por Jesus me confesso fascinada,
Ao menos por seu dom de compaixão.

Quanto ao resto, credito não ao Cristo
Mas ao Gênesis, com seu pobre Adão
Que não merecia tudo isto...


Páscoa de 2006


Nota
Soneto nitidamente humorístico, que acabo de encontrar na arca da Alma, e oportuno pois escrito na páscoa de 2006. Apesar do humorismo e suave ironia, nele Alma ressalva a mensagem fundamental de Cristo, esta indiscutível: a compaixão. Alma quis dizer que Cristo não expulsaria o homem do Paraíso terrestre.
(Lucia Welt)



A cidade e o rio (de Alma Welt)
368

Na cidade fui um dia questionada:
“O que fazes pelo povo?” alguém provoca:
“Estás encolhida em tua toca
E tens a vista para ti mesma voltada”.

E eu que não sou nada de polêmica
E nem por defesa ando armada,
Por momento quedei desconcertada
E quase me senti um tanto anêmica.

Então me subiu rubor e brios,
Dizendo: “sou somente servidora,
Centrada em mim mesma como os rios

Para os que ali vivem às margens,
Pois que broto de uma vã fonte canora
Que dá frutos, colheitas e pastagens.”

12/07/2006



O Promontório e a Ilha (de Alma Welt)
367


Eu levantava muito cedo ainda guria
E tateava para ir ao escritório
Fuçar no que meu pai lia e relia,
Livros sobre a mesa, em promontório.

Eu achava que esta honra lhe devia,
Formando erudição muito precoce
Pois se perguntasse o que eu sentia,
Saberia responder fosse o que fosse.

E tentava acompanhar suas pesquisas
Descobrindo um universo colossal
Como um mar a bater sobre banquisas.

Mas um dia, questionada, afinal,
Senti que o promontório virou ilha:
“Vai ao sol, estás pálida, minha filha.”

06/05/2005


O Labirinto do Minuano (de Alma Welt)
366

Encontrei a passagem numa estante
Da fiel biblioteca e nosso gozo
Aqui no casarão, que num instante
Afigurou-se um labirinto perigoso.

Esta noite irei me aventurar
Pelo dúbio corredor mas instigante,
Não deixando todavia de me atar
À ponta de um novelo de barbante,

Mas temo que a passagem, por secreta,
Levará a imponderável metaplano
Que por certo nunca foi a minha meta,

E no centro do sulino labirinto
Estará o minotauro: o Minuano
Que, sim, me levará, eu bem o sinto.

03/11/2006


Nota
*Minuano- Nome do vento típico e famoso das planícies do Pampa. Este vento frio e veloz se insinua sibilante pelas frestas das portas e janelas fazendo cair de súbito a temperatura, enregelando e assustando as pessoas. Alma tinha grande temor e reverência por este vento, que quando soprava a deixava fora de si, histérica. Ela chamava o minuano de "rei Mino "e aterrorizada gritava que ele vinha buscá-la. Apavorada, assisti algumas vezes minha irmã perder o controle e debater-se no chão em convulsões quando soprava este vento terrível. Garanto que minha irmã não era epilética, mas sim hipersensível. (Lucia Welt)
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Quinta-feira, 9 de Abril de 2009
Gato na cama (de Alma Welt)





Gato na cama (de Alma Welt)
365


Sobre a colcha colorida do meu leito
Deixo o gato subir e aproveitar
Ronronando e oferecendo o preito
Ao aconchego que acabo de deixar

Desse caos macio e retalhado
Que é o próprio universo goghiano
Que num relance vejo ali plasmado
Antes de sair pra um outro plano:

O de minha pradaria tão eqüestre
Não como as de Arles ou de Flandres
Onde outrora viveu o ruivo mestre

Que não me consta ter tido o seu gatinho,
Que a ele faltou, como a "noigandres"*
O sentido que perdeu-se no caminho...

18/05/2005

Notas
Deste curioso e notável soneto que encontrei recentemente na Arca da Alma, o mestre Guilherme de Faria pintou uma verdadeira ilustração a meu pedido, o maravilhoso quadro acima reproduzido, a que ele deu, naturalmente, o mesmo título do soneto da Alma : "Gato na Cama". A pintura de Guilherme sugere sutil e remotamente o quadro da cama no quarto de Van Gogh, que o próprio soneto da Alma parece evocar .

*noigandres- Palavra enigmática encontrada no último verso de um poema do poeta provençal (da Idade Média) Arnault Daniel ("...y olor de noigandres"). Ezra Pound, grande poeta e filólogo, numa entrevista a Haroldo de Campos, em Rapallo, na Itália, no fim de sua vida, comenta que jamais pode encontrar o significado dessa palavra, que se perdeu no tempo. Os irmãos Campos e Décio Pignatari, então, na década de 50 fundaram a revista literária Noigandres, porta-voz do movimento concretista na poesia paulistana.(Lucia Welt)

Pretenciosamente, pois não sou filóloga, arrisco por minha conta a seguinte interpretação da palavra noigandres baseada no fato de ela vir precedida no verso de A. Daniel da palavra olor (perfume). Poderia ser uma erva ou uma flor odorífera... Mas tentando analisá-la etimologicamente, eu diria que
noig é a raiz da palavra nóz (semente)
e andres deriva do grego andros = viril
portanto a palavra noigandres quereria dizer: semente viril= esperma

Entretanto me desconcerta o fato de não ter encontrado em parte alguma um raciocínio daqueles poetas ou de qualquer outro no sentido do que arrisquei aqui. Eles permaneceram até o fim de suas vidas cultuando essa palavra como um enígma insolúvel ou uma espécie de mistério etimológico.
Eu adoraria ter conversado pessoalmente com eles sobre isso (quanta pretensão!...) mas, sendo da geração do meu pai, já faleceram, ou me são inacessíveis.


Tanscrevo aqui a "transcriação" de Augusto de Campos para o poema em idioma provençal Noigandres , de Arnaut Daniel:

Er vei vermeils, vertz, blaus, blancs, gruocs
Vergiers, plans, plais, tertres e vaus;
Ei' l votz del auselz sona e tint
Ab doutz acort maitin e tart.
So'm met en cor qu'ieu colore mon chan
D'un aital flor don lo fruitz sia amors
E jois lo grans, e l'olors de noigandres.


Vejo vermelhos, verdes, blaus,brancos, cobaltos
Vergéis, plainos, planaltos, montes, vales;
A voz dos passarinhos voa e soa
Em doces notas, manhãs, tarde, noite.
Então todo o meu ser quer que eu colora o canto
De uma flor cujo fruto é só de amor,
O grão só de alegria e o olor de noigandres *

* O grão só de alegria e o olor livre de tédio

Pela nota que Augusto de Campos colocou sob o poema, percebe-se se que o tradutor atribuiu a noig o significado de tédio, talvez por abrandamento do g em a produzindo a palavra noia (tédio, em italiano ainda hoje)mas mais certamente porque partiu da expressão do francês "L'enoi gandir ( francês arcaico enoi que transformou-se no moderno l'ennui,o tédio) gandir" (achando gandres derivada do francês gandir (proteger). Mas confesso que prefiro a minha tradução que tem mais a ver com o sentido do poema, da "flor cujo fruto é só de amor", e seria própria da malícia ou erotismo típicos desse autor provençal. (Lucia Welt)




O canto da colina (de Alma Welt)
364

É domingo e eu preparo a ida
À colina levar flores aos finados,
Ao meu Vati, ao boche e avó Frida
E o melhor dos destinos malfadados:

Minha pobre e triste irmã Solange
Que depois de uma vida equivocada,
No momento final, o do alfanje,
Cresceu, perdoou, foi perdoada.*

E agora está com eles na colina
Gozando a paz, a luz, a brisa fria
E aquele bem-te-vi que tanto trina

Como a dizer que os viu e aprovou,
Bem os quis, como alguém que os queria
E por amá-los viveu e tanto errou...

12/01/2007

Nota
*... cresceu, perdoou...-Para o leitor entender o significado deste verso, ou do soneto inteiro, recomendo que leia o romance A Herança, que, nas últimas páginas descreve os momentos finais de nossa irmã Solange nos braços da Alma, a quem até então hostilizara e tratara como inimiga. Elas se perdoaram mutuamente naquele derradeiro minuto.(Lucia Welt)



Álbum de memórias (de Alma Welt)

363

Meu álbum fotográfico do Pampa!
Bah! Como narram minha história
As fotos em que o rosto meu se estampa
Fundidas co’as que guardo na memória!

Ali me vejo pequena e cacheada,
Com estranho vestido até os pés,
De antiga gola branca e rendada
E co’aquele olharzinho de viés.

Depois, donzela branca e sensível
A colher flor no jardim ou na campina,
A Infanta que a si mesma se imagina.

Depois ainda, a pintora-poetisa
Pincel na mão e a paleta indefectível
Melhor ali que o quadro, e mais precisa...

(sem data)



Amores meus! (de Alma Welt)

362

Amores meus, mitos sagrados,
Ícones de minh’alma agradecida,
Quão grata sou aos meus amados
Por se deixarem ser em minha vida!

Aquele inaugurou meu próprio ser
Debaixo da Árvore da Inocência
A que escolhi na aurora pertencer,
Malgrado dúbio fruto e consciência;

Outro, tão ardente e de meu sexo,
Que colada a mim me duplicava,
Pois que ainda sinto o seu amplexo...

E outro e mais outro, como açoites,
Rubras flechas tiradas de uma aljava
E lançadas de mim nas minhas noites...

16/01/2007



As palavras vivem (de Alma Welt)

361

As palavras vivem, me constroem,
Sou filha delas, mito e criação;
Afinal menos letra e mais canção
Já não sei se me nutrem ou se doem...

Pintei o meu mundo com meus versos
Desde o nascimento numa estrada,
Até os vãos momentos adversos
Em que tive minha candura violada.

Mas quanto vi crescer este meu Pampa
Interior, como o reflexo do espelho
De um cenário real e não de estampa:

Esta casa, seu jardim e meu pomar,
O vinhedo entre o roxo e o vermelho
Do sangue desta terra em meu lagar!

15/01/2007



O ninho da Salamandra (de Alma Welt)

360

Iremos lá, àquele Cerro, meu irmão,
Como fomos juntos às Missões,
Sete Povos, lembra? num verão,
Quando a lenda nos tocou os corações.

Mas ao Jarau iremos delirantes
E assim encontraremos o caminho
E chegaremos à sala dos diamantes
Onde a Salamandra fez seu ninho.

E seguiremos, eu sei, e não malditos
Pois não somos movidos por ganância,
Mas pela graça de nossa leda infância.

Quanto ao ouro e o poder, estes gigantes
Não mais nos poderão deixar aflitos,
Que o tesouro vive em nós e vem de antes.

14/10/2006


Original, sem pecado (de Alma Welt)

359

Meu pai criou-me sem pecado,
Refiro-me ao meu Vati e ao conceito
Que dotou o ser humano de um defeito
No nascedouro e com certificado,

Sim, o batismo, que faltou-me
E que eu não devia carregar,
E pra isso da charrete retirou-me
Quando a Mutti ia ao padre me levar.

Mas ao longo desta minha jornada
Por Jesus me confesso fascinada,
Ao menos por seu dom de compaixão.

Quanto ao resto, credito não ao Cristo
Mas ao Gênesis, com seu pobre Adão
Que não merecia tudo isto...


Páscoa de 2006


Nota
Soneto nitidamente humorístico, que acabo de encontrar na arca da Alma, e oportuno pois escrito na páscoa de 2006. Apesar do humorismo e suave ironia, nele Alma ressalva a mensagem fundamental de Cristo, esta indiscutível: a compaixão. Alma quis dizer que Cristo não expulsaria o homem do Paraíso terrestre.
(Lucia Welt)

A cidade e o rio (de Alma Welt)

358

Na cidade fui um dia questionada:
“O que fazes pelo povo?” alguém provoca:
“Estás encolhida em tua toca
E tens a vista para ti mesma voltada”.

E eu que não sou mesmo de polêmica
E nem por defesa ando armada,
Por momento quedei desconcertada
E quase me senti um tanto anêmica.

Então me subiu rubor e brios,
Dizendo: “sou somente servidora,
Centrada em mim mesma como os rios

Para os que ali vivem às margens,
Pois que broto de uma vã fonte canora
Que dá frutos, colheitas e pastagens.”

12/07/2006



O Promontório e a Ilha (de Alma Welt)

357

Eu levantava muito cedo ainda guria
E tateava para ir ao escritório
Fuçar no que meu pai lia e relia,
Livros sobre a mesa, em promontório.

Eu achava que este esforço lhe devia,
Formando erudição muito precoce
Pois se perguntasse o que eu sentia,
Saberia responder fosse o que fosse.

E tentava acompanhar suas pesquisas
Descobrindo um universo colossal
Como um mar a bater sobre banquisas.

Mas um dia, questionada, afinal,
Senti que o promontório virou ilha:
“Vai ao sol, estás pálida, minha filha.”

06/05/2005



O Labirinto do Minuano (de Alma Welt)

356

Encontrei a passagem numa estante
Da fiel biblioteca e nosso gozo
Aqui no casarão, que num instante
Afigurou-se um labirinto perigoso.

Esta noite irei me aventurar
Pelo dúbio corredor mas instigante,
Não deixando todavia de me atar
À ponta de um novelo de barbante,

Mas temo que a passagem, por secreta,
Levará a imponderável metaplano
Que por certo nunca foi a minha meta,

E no centro do sulino labirinto
Estará o minotauro: o Minuano
Que, sim, me levará, eu bem o sinto.

03/11/2006


Nota
*Minuano- Nome do vento típico e famoso das planícies do Pampa. Este vento frio e veloz se insinua sibilante pelas frestas das portas e janelas fazendo cair de súbito a temperatura, enregelando e assustando as pessoas. Alma tinha grande temor por este vento, que quando soprava a deixava fora de si, histérica. Ela chamava o minuano de "rei Mino "e aterrorizada gritava que ele vinha buscá-la. Apavorada, assisti algumas vezes minha irmã perder o controle e debater-se no chão em convulsões quando soprava este vento terrível. Garanto que minha irmã não era epilética, mas sim hipersensível. (Lucia Welt)



O canto da colina (de Alma Welt)

355

É domingo e eu preparo a ida
À colina levar flores aos finados,
Ao meu Vati, ao boche e avó Frida
E o melhor dos destinos malfadados:

Minha pobre e triste irmã Solange
Que depois de uma vida equivocada,
No momento final, o do alfanje,
Cresceu, perdoou, foi perdoada.

E agora está com eles na colina
Gozando a paz, a luz, a brisa fria
E aquele bem-te-vi que tanto trina

Como a dizer que os viu e aprovou,
Bem os quis, como alguém que os queria
E por amá-los viveu e tanto errou...

12/01/2007



Amo colher flores (de Alma Welt)
354

Amo muito colher flores nestes prados
Já tangidos pela aragem da manhã,
E cercada por volteios e agrados
Das abelhas e os zumbidos feito imã

Como disse o canoro Djavan
Do som dos besouros e seu ouro
Em torno à brancura tão louçã
De minha própria carne e pêlo louro,

Em sossego também entre as ervinhas
Que me fazem, bah! lembrar-te, “linda Inês”
E “o nome que no peito escrito tinhas”,

Eu que não passo, cercada de mensagens
E poemas do antigo amor cortês,
De uma prenda a vagar entre pastagens...

08/06/2006


Nota
Como este soneto é de tema recorrente na obra da Alma, por curiosidade republico aqui o n°58:


As mulheres que colhem flores (de Alma Welt)

(58)

Quanto tenho estado a colher flores
Neste jardim amado desde a infância!
Aqui eu dediquei aos meus amores
Os melhores instantes de constância.

A mulher que colhe flores permanece
No tempo e nas retinas de alguém.
É imagem que a todos enternece
E é ícone e símbolo também.

Quando não houver quem as colher
No pé que as formou sem as tolher
As flores morrerão envelhecidas:

Foram belas, ali, por algum tempo,
Mas não produziram o momento
Do sorriso e das mãos agradecidas...

24/12/2006




Perdidas ilusões (de Alma Welt)
353

Sonhos meus, perdidas ilusões!
Como diziam as que me precederam,
Tolas donzelas, as que excederam
As regras, como eu, com os varões.

Quebrei contratos, talvez, e mesmo a cara,
Como dizem agora, e com razão.
Recolho-me ao meu sexo, mais avara,
Que não provoco mais nenhum machão.

Traumatizada? Sim. Eu me confesso.
Fui invadida mesmo, sem mercê,
Mas à mercê de fato de um possesso.

Trago ventre e traseiro doloridos,
A retaguarda mais, como se vê
Pelo mau passo e sorriso, tão sofridos...

14/10/2004

Nota
Acabo de encontrar na arca este singular soneto, que pela data corresponde ao período logo após a chegada de volta ao nosso casarão, depois de sofrer o estupro (inclusive anal!) por parte do namorado de Aline, que invadiu o ateliê-apartamento de São Paulo quando Alma se encontrava sozinha encaixotando os livros para retornar com Aline à estância. Alma tinha se tornado amante de sua modelo que abandonara o namorado de mais de um ano, por ela, a pintora e poetisa que a contratara e por quem se apaixonara ( episódio que consta no romance autobiográfico inédito A Herança, de Alma Welt).
Resolvi publicar aqui, e não nos “Eróticos” simplesmente, este patético e estranho soneto revelador, de humor auto-crítico e ligeiramente amargo, pois pretendo me manter fiel ao voto de respeitar o seu desejo de revelar tudo, de tudo narrar, sem nenhuma auto-censura, a extraordinária e por vezes sofrida trajetória anímica e existencial que fez dela uma das mais extraordinárias autoras confessionais da literatura universal, ao meu ver e já no de muitos leitores. (Lucia Welt )


Voltem meus amores (de Alma Welt)
352

Voltem, oh! voltem meus amores,
Que aqui os espero em meu tugúrio!
Agora o meu amor e seus humores
Devem menos a Eros que a Mercúrio,

O esperto deus ligeiro das mensagens
Dos amantes, dos deuses e ladrões,
E tanto aos vãos amores temporões
Como àqueles precoces e selvagens.

Saibam que os espero em concílio,
Todos à roda do perdido coração,
Que acabo de voltar do meu exílio...

Estou de volta à terra do meu ser:
Aqui posso amar sem exclusão,
Abraçá-los todos juntos e... morrer.

05/07/2004

Nota
Este belo soneto já revela o pressentimento da Alma de que o ciclo de sua vida se fechava e que não viveria muito mais. Ela queria reunir poeticamente todos os seus amores e paixões, reconciliando-se com todos, inclusive com os que duraram tão pouco. Alma conseguiu expressar algo difícil como este concílio simbólico dos amores de toda uma vida num abraço final, carinhoso, redentor... ( Lucia Welt)


Meus navios (de Alma Welt)
351

Meu destino, estou mais que convencida,
É deixar minha passagem bem gravada
Em sonetos e também na própria vida
Que me cerca, a paisagem e a peonada.

Assim, sei que estarei perpetuando
Não a mim, mas o quê, o como, o quando
Desta casa, do jardim, do meu pomar,
Destas trilhas singradas como um mar.

E assim, quando acaso recordarem
Esta Alma, vã guria serelepe,
Reverão uma saga, se me amarem,

Que carreei por aqui um belo dia,
Como aqueles do audaz e bom Giuseppe,
Os navios da minha própria fantasia...

29/12/2006


Nota
Acabo de descobrir mais este soneto inédito, na arca da Alma. Nele podemos ver como ela encarava seu destino, não só literário, mas como vida imaginária... no imaginário de futuros leitores. Alma acreditava como poucos na vida do espírito, como o verdadeiro próposito da existência: nós somos mais duradouros, ou reviveremos... na mente dos outros. (Lucia Welt)

*como aqueles do audaz e bom Giuseppe- Alma se refere ao episódio histórico da Revolução Farroupilha, dos dois navios que Giuseppe Garibaldi e seus homens arrastaram em carretas puxadas por bois, através das pradarias por 104 kms, até o oceano para entrarem em batalha contra os "imperiais".


O que é a Verdade? (de Alma Welt)
350

“...a Verdade é a Beleza, a Beleza é a Verdade,
isto é tudo o que há para saber.”
(John Keats, em Ode a uma urna grega)



Olhar a vida, o mundo e o de dentro
É a prerrogativa do poeta
Mas simultaneamente, como esteta,
Pois que a Beleza está no centro

De tudo, pois que ela é a Verdade,
Como escreveu Keats no poema
Da urna grega, que logo virou lema
E responde à pergunta sem idade

Que Pilatos teria formulado
Num momento ao Cristo aprisionado,
Deixando-nos, a muitos, sem ação

Pois o Mestre calou-se sabiamente
Legando aos poetas a missão
De reconstruí-la lentamente...

(sem data)

Nota
Vale lembrar aqui a confirmação desse conceito metafísico da Verdade, que Alma adotava, nas palavras célebres de outro grande poeta-filósofo, mas do Romantismo Alemão, Novalis:

"A Poesia é o autêntico real absoluto. Quanto mais poético, mais verdadeiro".


Muito além das minhas rosas (de Alma Welt)
349

Aninhada no quarto entre paredes
Vetustas e entretanto carinhosas,
Mesmo assim percebo minhas sedes,
A ânsia de ir além das minhas rosas,

De ganhar a pradaria e o mundo...
Mas que sei eu do mundo? Eis a verdade,
Se vejo esta planície como fundo
Ou fundamento da própria eternidade!

E então uma inquietude geradora
De poemas e cantos me agoniza,
E talvez por isso mesmo salvadora,

Liberta-me do ninho e do aconchego
E posso ver o mundo sem ter visa,
Posso fazer voar o meu apego.

(sem data)


De viagens e úteros (Alma Welt)
348

Devo deixar meu Pampa e esta estância
Por longa temporada, em viagem,
E dói-me como abandonar a infância
Ou arrancar raiz, não só ramagem.

É sempre um desterro, um auto-exílio
Contra o qual me revolto e me debato
Não tanto contra a dor, mas contra o fato
De ser eu a própria lágrima em meu cílio

Que, frágil, trêmula, demoro
Para correr, descer, ganhar o mundo
Para o mundo saber que também choro.

E, bah! então voltar (falso pudor)
E recolher-me ao útero profundo
De onde nasço e renasço sem mais dor.

(18/02/1999)

Nota
Acabo de encontrar este soneto inédito da Alma em sua Arca e reconheço nele o momento que precedeu sua partida para São Paulo, num "auto-exílio", como ela se expressou, por imensa angústia logo após a morte do nosso Vati. Alma permaneceria quatro anos naquela metrópole, estabelecida num ateliê como pintora, onde conheceria Guilherme de Faria, que a descobriria como poetisa e a lançaria, conseguindo uma editora para publicar seu livro Contos da Alma (em 2004) (Lucia Welt)


O vinho e o Graal (de Alma Welt)
347

Percorrendo em vigia meu vinhedo
Tive linda visão e inusitada:
Um cacho isolado qual segredo
Pois que sua cor era dourada.

"Um cacho de ouro!"- exclamei.
"Galdério! Vem ver o que encontrei!
Vê se é uma praga, anomalia
Que possa destruir toda a valia

Da safra e também do nosso esforço!
É dente de pirata ou belo corso?
Deixo contigo juízo e decisão."

“Alma”- respondeu sábio o peão-
“Então não vês que o ouro é o sinal
De que temos o vinho e o Graal?”

(sem data)

Nota
Acabo de encontrar este curioso e encantador soneto, de acentuado pendor simbolista. E me lembrei de que na época, eu morando em Alegrete, ouvi comentários sobre o espantoso cacho dourado no meio do vinhedo, que se tornou uma das lendas da Alma e de nossa estância. (Lucia Welt)


A Árvore dos Sonhos (de Alma Welt)
346

As coisas que amamos nos dão paz
E levam-nos de volta às raízes
Do ser, ou dos seres tão felizes
Que fomos quando éramos piás.

Ali, ante a árvore dos sonhos
Antes do escândalo e do susto
Quando vida e mundo eram risonhos
E ainda não sabíamos o custo,

Prosternei-me um dia sem rancor
E sem mais a memória de horror
De quando tive a inocência violada

Debaixo dessa velha macieira
Que permanece pura e intocada
E a me ensinar a ser dessa maneira.

08/12/2006


A ribalta (de Alma Welt)
345

Sou feliz, meus leitores, reconheço,
Pois amo e sou amada, nada falta.
Em torno a mim, a teia que não teço:
A platéia calorosa, eu na ribalta.

Atenta aos meus versos de guria,
(pois que piá ainda já me ouviam)
Que somente ventos fortes impediam
Declamar meus versos... que mania!

E assim se me tornou essencial,
Que como respirar eu necessito
Escrever o meu soneto matinal,

Outros tantos depois durante o dia,
Sonetos que, esses sim, tecem o mito
Que me fiz em honra mesma da Poesia!

(sem data)

Nota
Este curioso soneto que acabo de descobrir na arca e de identificar como inédito, contém ao meu ver a chave para o entendimento de como a Alma via o seu fazer poético quase compulsivo: ela tinha consciência de viver através de sua própria poesia, que foi, realmente, erigindo-a em mito vivo, "tecido" soneto por soneto. (Lucia Welt)


Onde vivem os deuses (de Alma Welt)

344

E eu cantaria o amor que me coubera
Ao nascer de novo nestes pagos
Isolados do mundo, noutra era,
Onde vivem os deuses e os magos.

Aqui me apaixonei por meu irmão,
Que como Eros piá vivia alado,
Sem dar-nos conta da cruel proibição,
Pois somente guiados pelo Fado.

Eis que num certo dia, aziago,
Fomos flagrados ao pé da minha Ara
Num lance que faria grande estrago

Não fora em nós a reverência e a fé
Nos nossos velhos deuses, coisa rara,
Que nos salvou o amor e... a alma até.

(sem data)


Nota
Acabo de encontrar na arca este soneto de tema recorrente, onde Alma atribui à sua fé nos deuses a preservação da pureza de seu amor proibido, legitimado por ela em termos poéticos e estéticos, senão históricos e sociais, durante toda a sua vida. (Lucia Welt)


O navio na pradaria (de Alma Welt)
343

Eu canto o amor em sua constância
Nascido ainda guria nesta Alma
E que se acha inscrito em minha palma
Assim como as sendas desta estância

Que demarcam o embate farroupilha
Entre os rubros lenços e o quepe
Ou aquele amor de maravilha
Entre a bela Anita e o Giuseppe.

Assim, creio, meu amor tem o aval
Da força e do sangue pelas trilhas
De um estranho e pitoresco show naval

Quando o bravo Garibaldi carreou
Seu navio por entre ondas de coxilhas
Como carrego o amor que me tomou...

(sem data)

Nota
Acabo de encontrar na arca este soneto verdadeiramente épico, em que Alma compara o seu amor proibido (por Rodo, seu irmão) com a saga do navio de Garibaldi, arrastado pelos farroupilhas pela pradarias, passando por esta estância em que, um dia, muito depois, viveria a famíla Welt e uma grande poetisa que confundiria o seu amor com o passado glorioso destas terras. (Lucia Welt)


O Dia e a Noite (de Alma Welt)
342

Na infinita pradaria dos meus sonhos
Coruscante de orvalho e pirilampos
Com esparsos umbus por sobre os campos
Como sóbrias silhuetas, tão tristonhos

No sono reverente da Natura
Que espera o amanhã pra renascer
Em explosão de sons e de verdura
Com toda a passarada a agradecer,

Fiz da vida meu dia e meu poema,
Que da noite faria meu momento
De reflexão do Grande Tema...

Pois estou viva e jazo no elemento
Meu, que me foi dado pelos deuses
Que neste Sul demoram seus adeuses.

14/01/2007


Nota
Encontrei esta manhã na arca do sótão este soneto que confirma o panteísmo da Alma. A grande Poetisa convivia com os deuses antigos do Olimpo e do Walhalla, neste Sul, onde ela acreditava que vieram se refugiar e hesitavam em abandonar a Mãe Natura, "demorando-se" em infinitos adeuses, renovados todas as noites.(Lucia Welt)



Soneto e ruptura (Alma Welt)
341

Lançar um soneto no papel
É como “deitar sortes à ventura”*
Na expressão antiga do cordel
Que incorre numa certa ruptura.

Sim, pois que há o antes e o após
Do soneto último e durável
Por fração do gozo e do inefável
Desfrute produzido assim a sós.

Serei eu o que fui antes do verso
Que me transfigurou o pensamento
Fechando ciclo agora controverso?

Lançada em novo impulso para o mundo
Sou doravante o fruto do momento
Que ofertou não sua face, mas o fundo...

(sem data)


Nota

Neste soneto recém-descoberto na arca da Alma, e de implicação metafísica, Alma expressa a modificação (ou renovação) que o poeta sente durante e mesmo após a criação de um novo poema. Ela quer dizer que o momento da criação não pode ser avaliado em sua superfície, e que a Poesia revela esse "momento" (a instantaneidade do presente) em sua profundidade iniciática que só os poetas inspirados costumam perceber.

"...deitam sortes à ventura"- Essa expressão lusa arcaica, que pode ser entendida como um jogo qualquer de tirar a sorte para escolher alguém, é citada do poema narrativo português, precursor do cordel brasileiro, "Romance da Nau Catarineta", que no Sul ganhou melodia e era cantado no "fandango" até o final do século XIX.
(Lucia Welt)


Onde andarão? (de Alma Welt)
340

Por onde andarão os meus amigos
Que construíram comigo aquela teia
De pequenos prazeres e perigos
Que a memória viva ainda permeia?

Por onde andarão, estabanados,
Aqueles que passaram dos limites
E que foram entretanto perdoados
Para prosseguirmos sempre quites?

E aqueles mais amados, que varavam
A fronteira sutil da intimidade
E vinham em mim plantar o que amavam?

Estão em mim, eu sei, que ainda acalento
O profundo olhar e o momento
Supremo do abraço... e da saudade!

(sem data)

Nota
Emocionada acabo de encontrar este belíssimo soneto na arca da Alma, que constatei completamente inédito. Pena a Alma não ter datado, mas presumo que pertence ao últimos meses da grande poetisa, quando ela já se achava nostálgica e como que se despedindo do seu rico mundo, que ela tanto amava... (Lucia Welt)


Soneto da Quarta-feira (de Alma Welt)
339

Não direi que a vida é quarta-feira
De cinzas, muito menos Carnaval.
Contudo a mornidão não é o normal,
E o prazer tem muito pouco de rameira.

A alegria, sim, e até momentos
De euforia plena, desvairada,
São próprios da alma aventurada
Que busca atenuar os vãos tormentos.

Aqui nesta amplidão da natureza
Vivi a minha vida neste Pampa,
Com muitas alegrias, com certeza.

E ouso dizer que a vida é bela
Não como um clarão antes da campa,
Mas com a singeleza de uma vela.


(Fevereiro de 2004)


Adeus Pampa (de Alma Welt)
338

Pampa amado de minha juventude,
Da guria que fui e ainda sou!
Dói-me demais saber que não mais pude
Prorrogar os prazos que me dou.

Devo partir, eu sei, chegou o fim,
O Grande Gáltcho recusou a apelação,
A última que fiz, não só por mim
Mas por meu amor e meu irmão.

Por Lucia, Matilde e o bom Galdério,
Pelos guris no jardim do casarão,
E o bosque que me foi um refrigério.

Ah! A biblioteca imensa e amada
Também sala do "piano do patrão",
E, ai! Rodo, nossa alcova na mansarda...

18/01/2007

A Arca (de Alma Welt)
337

Aventureira fui em minha vida
E estive no limite, nos extremos.
Quantas vezes me julguei até perdida,
Vagando por lugares muito ermos

Da alma, onde poucos se arriscaram,
E a sentir o quanto é perigoso
Chegar onde os maiores habitaram,
Seus longínquos páramos de gozo!

É hora de fazer meu testamento
Implícito nos versos derradeiros
E legar o cabedal do pensamento:

Deixar meu tesouro nesta arca
Que veio dar a mim desde Petrarca,
Ouro d’alma em sonetos verdadeiros...*

17/01/2007

Notas
Acabo de encontrar na arca da Alma este "testamento" que constatei ser inédito, nunca publicado pela Poetisa em nenhum portal. Por ele percebemos que ela considerava a sua arca como o resultado de uma vida de aventuras anímicas (a alma como uma espécie de transcendente pirata?) ou a herança do manacial de inspiração dos grandes sonetistas desde Petrarca, cuja Musa celebrada foi Laura. (Lucia Welt)

* "Ouro d'alma em sonetos verdadeiros"-
Encontrei na arca uma variante deste soneto em que o terceto o final aparece assim:

Deixar meu tesouro nesta arca
Que veio dar a mim desde Petrarca,
Laureada em sonetos verdadeiros*

em que, curiosamente, a palavra "laureada" ao mesmo tempo que evoca a coroa de louros que cingem as têmporas dos grandes poetas na iconografia antiga, faz evocação de Laura, a musa celebrada de Petrarca.
Não sabemos por qual verso final Alma realmente optou no seu soneto.


Carnaval no pampa (de Alma Welt)
336

Quisera último e antigo Carnaval
Em que pudesse despir-me da persona
E embarcar na minha própria nau
Mesmo que me fosse dar à zona.

Sou eu mesma minha máscara, descubro,
E com ela enfrento meus receios
Ao aquecer meu coração ao rubro
Armando meus ardis por outros meios

E mesmo ser a Colombina desvairada
Que na verdade sou, pois tendo aberto
Um palco para toda a peonada,

Ou desnuda deixar que me alcançasse
A nave de desejos que desperto
Nem que ao pé do cais eu naufragasse...


(sem data)


Colombina (de Alma Welt)
335

É Carnaval e então a carne vale
E pelo oposto até tento me vestir
De Colombina, e que eu me rale
Para um Pierrot aqui me descobrir.

Na Pampa a fantasia está no lucro
Mas só de “gáltcho” macho e de chinoca;
Coringa foi tirado até do truco,
E Arlequim também não sai da toca.

Mas, delirante, correndo neste prado
Quero despir meu corpete e o saiote,
Deslocados que estão para o meu fado.

E logo nua, colocando a fantasia
No topo de um mourão, mero pacote,
Ateio fogo, como outrora se fazia...


20/02/2004

Pôquer de máscaras (de Alma Welt)
334

Em torno da mesa, mascarados
Camuflam os olhares e a esperteza,
Os meneios sutis, inusitados
Deste antigo pôquer de Veneza.

É pleno Carnaval, e os jogadores
Reunidos num salão abobadado,
Palácio de outra era, de outras dores,
Num tempo que parece retornado

Desdêmona passou de tranças feitas,
Feliz, antes da Noite das suspeitas,
E Giacomo, depois, como aprendiz

De aventureiro e sedutor empedernido
Sob a máscara de fálico nariz
Que tanto coração deixou perdido.

25/02/2005


Nota
Alma assistiu uma vez, em Veneza, em pleno Carnaval, num palácio sobre o Grande Canal, um tradicional jogo de pôquer mascarado, de que Rodo participou. Alma em longo vestido de época, armado, com magnífica máscara branca e um grande leque de plumas, deslisava por ali, à volta da mesa (diga-se de passagem: auxiliando nosso irmão no blefe). Ela jamais se esqueceria dessa experiência que fez seu espírito vagar por outras eras, naquela misteriosa e romântica cidade. Pouco depois, retornada ao Brasil ela me declamou esse soneto. Agora, como estamos no Carnaval me lembrei dele e fui procurá-lo na montanha de papéis de sua arca. Encontrei-o afinal, oportuno, pois Rodo se encontra em Veneza e me enviou um postal dizendo que está participando novamente desse tradicional e exclusivo pôquer de máscaras, em que se senta ao lado de banqueiros, magnatas, e eventualmente, até... chefões da Máfia (não posso deixar que a preocupação me tome...) (Lucia Welt)*(Desenho: Alma, como "Moira", em Veneza- de Guilherme de Faria)

*Desdêmona passou de tranças feitas- Alma sugere com este verso que a mulher de Otelo, vagou por esse salão quando donzela, solteira (de tranças) feliz , antes de começar o tempo das terríveis suspeitas, dos cíúmes, de seu futuro marido, o Mouro de Veneza.



A Flauta de Pã (de Alma Welt)
333

Em meio à pradaria esta manhã
Topei um peão chamado Acácio
Que como um pastor do antigo Lácio
Tocava estranha flauta: era de Pã.

Atraída, perguntei-lhe se sabia
Que essa flauta antiga assim chamava
E que com ela Dionisos comandava
Os cantos, as danças e... a orgia.

Então o pastor, desconfiado,
Olhou-me suspendendo o seu trinado
E respondeu com a charla de gaudério:

“Patroa, esta gaita é de família,
Nunca tocou só pr’uma guria,
E meu avô a ganhou num monastério.”

12/05/2005


Nota
Acabo de encontrar este gracioso soneto, para mim totalmente desconhecido, na arca da Alma. Publiquei-o imediatamente no blog dos Sonetos Gauchescos da Alma. (Lucia Welt)



Minha glória (de Alma Welt)
332

Ao erguer-me do leito de manhã
Eu me sinto na alvorada de uma vida
Pois ao me ver no espelho tão louçã,
Tão jovem ainda e... atrevida,

Vou enfrentar meus mares sem temores,
Pois lastreada na arca de sonetos
Há muito me despi dos meus pudores
E navego só meus cantos e motetos

Pelas rotas adoradas da campina
Que traço em minha trajetória
Com meus olhos em sintonia fina

Para com ondas de cor e de prazer,
Até eu não mais poder conter
Esta franca nudez que é minha glória...

24/08/2006


O Portal (de Alma Welt)
331


Quando olho a amplidão diante de mim
Deste tapete estendido ao horizonte,
Ondulado em leves pregas e sem fim,
Eu sei de onde brota a minha fonte

A minar esta poesia cristalina
Que busco porejar na minha pena
E que sendo alegria me condena
E que tristeza sendo mais me anima.

Então eu me levanto e ergo os braços
Para o alto oferecendo-me afinal
Àquele que me abriu este Portal

Pelo qual em breve, eu sinto, voltarei
Ao Grande Editor, co’os calhamaços,
Tendo cumprido o contrato que assinei.

06/01/2007


Ío e a nuvem ( das Metamorfoses de Zeus, de Alma Welt)
330

Depois do cisne, resolvi, uma por uma,
Desafiar Metamorfoses mais sutis
Pois há sempre a rota em que se ruma
E Zeus não lança mão de formas vis.

Como Danaé no estranho banho
Dourado que a veio iluminar
Assim eu mesma tive um ganho
Ao pedir ao meu amor pra me dourar.

Faltava agora por nuvem ser tomada,
E como nunca apreciei o “fumacê”
Não conseguia matar esta charada.

Então junto à cascata do meu rio
Envolta nua no vapor que ali se vê,
Fui possuída como a sonhadora Ío.

(sem data, circa 1999)

Nota

Percebe-se que o Mito da chuva de ouro de Danaé Alma resolveu com a simples urofilia, coisa que na verdade ela já conhecia bem com nosso irmão Rodo desde a infância. Note-se que urofilia ou urolagnia é uma prática sexual mais comum do que se pensa e conhecida popularmente como "banho dourado". Quanto à transformação de Zeus em nuvem para possuir a princesa Ío, Alma resolveu lindamente ao entregar-se ao seu amor em meio à neblina que se forma na nossa cascata, mais fortemente numa certa época do ano.(Lucia Welt)



Leda e o Cisne ( das Metamorfoses de Zeus, de Alma Welt)
329

Decidi experimentar volúpia nova
E encarnar princesas mitológicas
Acolhendo as entidades pouco lógicas
Em que Zeus transfigurado punha à prova

A doce e embevecida prontidão
Em tê-lo entre as coxas bem no meio
Ou como chuva de ouro no meu seio
Mesmo que ensopasse meu colchão.

Assim comecei pelo meu cisne
Que ganhara de meu pai, enternecida
Por sua beleza branca enaltecida

Em que senti das plumas como seda
Emergir rubro arpão sem que me tisne
As pétalas e encantos, como Leda...


(sem data)

Nota
Alma viveu sua extraordinária vida toda numa permanente dimensão poética. Ao ganhar de presente de nosso pai um maravilhoso e alvíssimo cisne vivo para soltá-lo no laguinho (o poço) da cascata, resolveu vivenciar os mitos das Metamorfoses de Zeus começando pelo de Leda. Por isso a vimos, sem atinar, muito íntima daquele cisne por um período. Minha louca irmãzinha...(risos). (Lucia Welt)


Das tentações (de Alma Welt)
328

"Deitam sortes à ventura qual se havia de matar.
Logo foi cair a sorte no capitão general."
(Romance da Nau Catarineta)


A superfície do papel em branco
Sempre me convida à aventura,
Não numa espécie de colóquio franco
Já que nela “deito sortes à ventura”

Como diziam os antigos navegantes,
Aqueles da Nau Catarineta,
Que viram a tentação um pouco antes
Do capitão saltar sua mureta.

Pois entre o espírito e o papel
Há todo um oceano de tensões
Antes das palavras em tropel.

No perigoso mar desta brancura
Assim também sofro as tentações,
Quando a mente namora sua loucura...

11/08/2006

Nota

Acabo de encontrar este notável soneto na arca da Alma, a meu ver digno de figurar nas melhores antologias do soneto universal, principalmente entre os de teor metafísico, ou os que abordam a própria arte de escrever poesia. (Lucia Welt)


(meu retrato pelo mestre Guilherme de Faria)
327

Observo o artista em sua prancheta
A desenhar como um divino arquiteto.
Comovida ao vê-lo assim tão quieto,
Me pego a afagar a minha teta

Pois este homem, sublime no desenho,
Revelou-se um amante inusitado
Em cujas mãos hábeis me detenho
Há noites, e bem longe de esgotado...

Então vem um rubor de mais malícia
Ao pensar que tem o creme e o refil
Que escorre do meu ventre qual carícia.

E antes que o distraia eu fico inerme
Para não interromper o meu perfil
Que está sendo traçado por Guilherme.

25/07/2001

Nota
Encontrei há pouco esta bela e sensual homenagem ao artista Guilherme de Faria, o mestre que descobriu, prefaciou, ilustrou e lançou a Alma. E que tanto a amou. Enviei-o a ele para que publicasse no seu blog, mas ele, por pudor ou por modéstia não quis fazê-lo. Ficou muito comovido, pois também não conhecia este soneto. Entretanto permitiu que eu o publicasse. (Lucia Welt)


O casarão (de Alma Welt)
326

Meu casarão é vivo e tem história
Mas também tristezas e rancores.
Por trás de sua velhice e sua glória
Há paixões, a sede dos amores.

É de noite que arfando mostra vida,
Cobrando suas dores e falências...
E eu saio a vagar entre as hortênsias
No jardim espectral da velha Frida,

Pra só voltar ao leito quando exausta
E quando já os galos predominam
Sobre os rumores desta casa infausta.

Então eu me desnudo e os convido,
Amores que em torno os ares minam,
A repousar em mim o seu olvido....

07/06/2006


Agradecimentos finais (de Alma Welt)
325

Pelos amores em vão correspondidos
Que não puderam por destino florescer,
Pelo prazer que me deram os escolhidos
E aqueles que ousaram me escolher;

Pelos bons momentos dissipados
Das orgias ressoando entre paredes,
Que tanto conhecemos, disfarçados,
E que não saciaram nossas sedes;

Pela paixão que nos fez a alma louca
Pelo gozo que demos um ao outro
Com o gosto de mel em nossa boca;

Por tudo o que é vital em nossa lida
E manteve o coração como de um potro,
Eu agradeço, ó Pampa, ó Sina, ó Vida!

18/01/2007


Arca de amor e fel (Alma Welt)
324


Quanto procurei na velha arca
As cartas e os vestígios de um amor
Que foi o de meu pai em seu vigor
E mais além, já quase em sua barca!

Espero que a Mutti me perdoe
Mas sei que não era o seu papel,
Que sem amor não há o que se doe
E a ela caberia a dor e o fel.

E nesta tragédia pampiana
Tomei eu partido do meu Vati
Em prejuízo da pobre Açoriana

Em quem não obstante o amargor
Plasmado em cada folha deste mate,
Reconheço agora tanto amor...

21/12/2006

Nota
Nessa mesma arca que agora guarda a imensa obra inédita de minha irmã, também procurei os vestígios desse misterioso amor de toda a vida de nosso pai, encontrando, como a Alma, somente pistas igualmente misteriosas. Alma se refere a isso também num capítulo de seu romance A Herança e também na crônica O rosto de Musidora, publicada no blog Crônicas de Alma Welt e também no site Texto Livre. (Lucia Welt)


Os encantos da alma (de Alma Welt)
323

Nas sombras cristalinas do meu bosque
Eu andei desde pequena solitária
E aprendi a ver as fadas num quiosque
E a rainha em sua forma vária

Que me chamava assim ao seu convívio
Pra me ensinar as coisas encantadas,
Longe da aridez e do oblívio
Das almas em que elas são negadas.

E eu ainda hoje me admiro
Do paradoxo da negação de tantos,
Já que à própria alma sobra encantos

Apesar de estar no mundo camuflada
A refletir no corpo quase nada,
A não ser num olhar e num suspiro...

09/11/2005



Nota

Por minha vez encantada, acabo de encontrar este soneto encantador da Alma em sua Arca inesgotável de inéditos. Este soneto me parece que já nasceu como um "clássico"...
(Lucia Welt)


Cassandra* (de Alma Welt)
322

Meu sonho de guria era real:
Eis-me aqui, poeta em plenitude.
Mas ao vivê-lo, eu vejo quão fatal
É ter um sonho chegado à completude!

Posso enxergar em mim, o dom das Parcas,
Meu Presente, Passado, e meu Futuro,
E neste, pouco além, meu próprio Muro,
Que dos três na palma tenho as marcas.

Mas, bah! por justamente tudo ver,
Muito embora por todos sendo amada,
É que é maior a dor de se viver...

Pois meu dom é ironia do Destino:
No cerne do meu ser (que desatino!)
Cassandra de mim mesma... ignorada.

08/12/2006

Nota:
Acabo de encontrar este fantástico soneto na arca da Alma. Minha irmã devia sofrer muito com o seu dom de vidência,que ela mesma buscava em vão ignorar...
(Lucia Welt)


*Cassandra, filha de Príamo, rei de Tróia, irmã de Heitor e Páris, que era sacerdotisa de Netuno e profetisa. Por um falta cometida, manteve seu dom de vidência, mas com a pena de jamais ser acreditada.



Abadia na floresta de carvalhos, de Caspar David Friedrich 1774-1840
Abadia na floresta de carvalhos (de Alma Welt)

321


Aqui estive eu, nesta abadia
Em ruínas em meio aos desgalhados
E retorcidos carvalhos de agonia
Entre túmulos esparsos, semeados.

Andei com estes monges no seu frio,
E conheço a solidão destas paragens,
Tão longe dos sonhos que ainda crio,
Tão próxima da Morte em sua imagem.

De nós mesmos, da terra e do ar,
Não há o que dizer, o que cantar,
Aqui o silêncio vem de dentro.

Eu vi o portal que ainda me espera
E por onde passarei à outra esfera
Para atingir do Mistério o pleno centro...

Alma Welt

(sem data)



A Ilha dos Mortos de Boecklin (de Alma Welt)
320

Não pare de remar, ó meu barqueiro!
Faça jus à soma que lhe pago,
Não hesite perante o nevoeiro
Que já desce saudando o que aqui trago.

Ajude-me também co’este caixão
Pois sozinha não poderei plantá-lo
Num nicho desta ilha em solidão
Com somente minha dor a acompanhá-lo.

Ilha Fatal, eis que sou tripla refém,
De pé na proa, como tu a me alçar
Das águas que ousei atravessar

Desse Letes obscuro em que vogamos,
Com meu próprio caixão que me contém,
Nós três: um só, no barco que remamos...


18/01/2007


Nota
Acabo de descobrir este soneto na arca da Alma e que pela data foi escrito na antevéspera da morte da Poetisa. De profundo teor alegórico-metafísico, Alma parece ter interpretado o famoso quadro do Boecklin, que lhe inspirou o soneto, com o barqueiro, a figura de pé na proa e mais o morto dentro do caixão como sendo três faces do mesmo ser: o morto que chega por seus próprios meios à Ilha da Solidão. (Lucia Welt)


Testamento gáltcho* (de Alma Welt)
319

Por estes belos pagos do meu Sul
Que me foram dados de cenário
E raízes sob o imenso toldo azul
Que é o teto do meu templo imaginário;

Aqui onde os “gáltchos” machos são
Reis de um reino todo em seu cavalo,
Nos limites da honra e da razão
Que os leva a transpor o imenso valo

Que existe entre domínio e dominado,
Entre o ser de escolha e o malfadado
Tantas vezes alcunhado de “gaudério”;

Aqui cresci, me alcei, fui poetisa
Votada ao meu próprio mistério,
De meu próprio destino a pitonisa!

15/01/2007


Nota
Acabo de descobrir na arca dos escritos da Alma, este "testamento", que percebi ser inédito (ela já escrevera outros testamentos). Este me pareceu especialmente significativo, pois revela o grau de consciência que ela tinha de seu singular destino e grandeza. Sim, o mistério foi nota dominante em sua trajetória, pois tal dimensão de beleza numa vida vivida em permanente dimensão poética não é corriqueiro na história da literatura ou das artes. ( Lucia Welt)
*gáltcho - fonético de gaucho, como os "castelhanos" (uruguaios e argentinos, nossos vizinhos de "la Pampa" pronunciam o nosso "gaúcho". Alma normalmente se referia assim aos nossos peões.


Primeiro amor (de Alma Welt)
318

Amores como sonhos se desfazem
Tênues como teias entre as ramas
Se deixamos de urdir as nossas tramas
Enquanto as ilusões se liquefazem.

Mas resta o amor que ainda esperas,
Somente aquele um, da nossa infância,
O beijo virginal de uma criança
Que reconhecemos de outras eras.

Os olhos de uma corça em seu candor
E o cheiro, ah! o perfume de uma boca
De pequenos lábios como flor

De que perseguiremos o respiro
(conquanto uma só vida seja pouca),
De cujo alento é feito o último suspiro.


(sem data)


Nota
Deslumbrada encontrei este soneto, sem data, na arca da Alma, e que fui logo conferir, o que é possivel graças ao instrumento de pesquisa dos blogs, e confirmei ser inédito. Alma, nele se refere ao primeiro amor,definitivo, que para alguns acontece ainda na infância, como foi o caso dela, nós sabemos por quem... (Lucia Welt)


Ecos no casarão (de Alma Welt)
317

De noite percorro o casarão
Por soturnos corredores silenciosos
Mas cheios de murmúrios capciosos
Das memórias do último verão

Quando a casa abrigava a alegria
Dos hóspedes ruidosos e parentes
Que lotavam como fosse hospedaria
Estes quartos agora tão silentes.

Ai! A casa já suspira de carência,
E chora e geme em sua demência
Tremelicando ao vento da campina!

Só restou Matilde, a mais fiel,
Galdério na charrete, sua sina,
E esta Alma que vaga, assim, ao léu...

16/01/2007

Nota

Encontrei nesta manhã de domingo, na arca da Alma, este belo e triste soneto, que denuncia o estado de espírito da Alma nos seus últimos dias. Infelizmente eu estava com meus quatro filhos (dois da falecida Solange, nossa irmã mais velha)em Alegrete e nada pude fazer por minha irmã, que eu não imaginava assim, tão desesperada... (Lucia Welt)



Profissão de Fé (II) (de Alma Welt)
316


Ungida no vinhedo dos avós,
Eu sinto que estou legitimada
E desde bem guria consagrada
A dar-me como vinho a todos vós.

Eis-me aqui, poetas e leitores
Nua, branca e bela, sem pudores
Com meus secretos filtros e perfumes,
Há muito devassada pelos lumes

Que lanço sobre mim, ó meus senhores!
Pois já nada escondo e tudo sou
Como a prerrogativa dos atores

E dos poetas, performers e cantores
Que sobem no palco e dão o show
Para glória do humano e seus humores..


08/01/2007
______________________________

Nota
Emocionada encontrei na arca da Alma este soneto que percebi como variante de um tema recorrente, e como estava sem título batisei-o com um já existente mas adicionando (II), para distingüi-lo. Alma conseguiu neste, a meu ver, expressar a vocação de todos os artistas e a legitimidade de seu suposto "exibicionismo". (Lucia Welt)


Camerata pampiana (de Alma Welt)
315

Corramos, meu irmão, depressa, vamos!
Pois temos muito chão nesta campina,
Se pro almoço atrasados, só, chegamos,
Haverá solo de relho e em surdina.

A Açoriana, maestrina, nos espera
Com a batuta na mão, e de marmelo.
Nos “fortíssimos” é onde ela se esmera,
Dos quais tenho um medo que me pelo.

Mas, bah! meu Rodo, valeu tanto
Ter estado contigo em camerata,
Nossos arpejos, sem pejos, na cascata...

Ai! Minha pele canta como os lábios
Lembrando teus abraços e o encanto
Dos teus “pianíssimos” tão sábios!

03/09/2006

Notas

Acabo de encontrar este soneto encantador na arca de inéditos da Alma. Suspeito que muitos sonetos ainda encontrarei tão primorosos como este, que nunca foram publicados pela Alma em nenhum site. Já são bem mais de 1.000 os sonetos dela compilados por mim até o momento. (Lucia Welt)

*Açoriana- como muitos já sabem, é como somente a Alma chamava nossa mãe, Ana Morgado, chamada "Mutti" por nós. Nossa mãe era muito católica e severa, ao contrário de nosso pai, o Vati, que criou a Alma como "uma pequena pagã". Havia muita dificuldade de relacionamento entre elas desde a infância, pois minha mãe temia o temperamento artístico exacerbado de minha irmã. Não obstante, creio que elas se amavam...


Balanço da Vida (de Alma Welt)
314

Lancei meu nome aos quatro ventos
Desde o Pampa a plena pradaria,
Levei minhas notícias de Poesia
Nas pequenas aventuras e eventos

Que me souberam assim universais,
Pois homens são um só, o mesmo medem
A oeste, norte, sul... leste do Éden,
Quanto mais fiéis aos seus quintais.

E assim vi minha Vinha prosperar
E as ramas do vinhedo me cercarem
Com os cachos sumarentos a brilhar.

Mas sei também meus poemas como hera
Cujos ramos pressinto se alastrarem
Nas paredes da Casa que me espera...

17/01/2007

Nota
Emocionada, encontrei agora há pouco este soneto, que deveria estar nos "Sonetos Pampianos", e que já fazia o balanço final da vida da grande Poetisa.(Lucia Welt)


A Ronda (de Alma Welt)
313

Esta noite irei ao meu jardim
Rever minhas memórias prediletas,
Ali, entre os eflúvios do jasmim
E o aroma mais sutil das violetas.

Como danço e giro em minha ronda!
Como sinto leves os meus braços!
Meu corpo quer rolar como uma onda
Ao rememorar os meus abraços,

Sim, dos meus amores, de guria
Que de tanto amar já me perdia
Naquela ânsia louca de entregar-me

Que fez de mim mesma minha amante
Por puro entusiasmo pela carne
Que tornava eterno cada instante...

10/01/2007

Nota
Encontrei agora, de madrugada, mais este soneto inédito, na arca da Alma, que me parece especialmente belo, e que reitera essa nota característica do "egotismo sublime" da nossa Poetisa. Por sua excepcional beleza, Alma tornou-se sua própria amante, como Narciso poético (redundância) que ela era. Não podemos culpá-la: diante dela sentia-se a legitimidade dessa paixão que transcendia a mera auto-estima. Pois nela, tudo parecia belo. Pelo tom, pelo talento, pela estética doce e natural de suas atitudes.(Lucia Welt)


O prelúdio sem fim (de Alma Welt)
311

Uma vez, voltando do meu prado
E já atravessando o nosso mate,
Ouvi um prelúdio executado
Por alguém que só podia ser o Vati.

Corri pelo jardim, logo o salão,
E chegando ao escritório para vê-lo
Surpreendi-me ao encontrar o irmão
Como de praxe a coçar o cotovelo.

Onde? Onde está nosso maestro?
Eu indaguei, espantada e meio tonta.
Quero ouvi-lo, me parece falta um resto!

"Minha irmã"- disse ele sério para mim-
"É um prelúdio para ti, não faça conta,
Que jamais irei tocá-lo até o fim..."

(sem data)


Acabo de encontrar este soneto na arca da Alma, que me dei conta de ser inédito, nunca publicado por ela ou por mim. Fui testemunha desse episódio. Rodo tocava piano maravilhosamente e compunha, raramente. Alma achava que ele desperdiçava seu talento, dedicando-se cada vez mais ao pôquer. Mas me parece que, ele ter composto um prelúdio inacabado para a sua Alma, contém uma vaga alegoria... (Lucia Welt)


No Labirinto da Alma (de Alma Welt )
310

Pelos labirintos desta estância
Vagueio como outrora sob a luz
Agora com temor e esta ânsia
Que não obstante me conduz

Pelas sendas onde ontem fui feliz
E corria alada a colher flores
Para florir meu quarto de aprendiz
Da Poesia, do Amor e suas dores.

Como viver os dias que me restam?
É a pergunta recorrente, intrometida
No rol de pensamentos que me infestam.

Ruivas colunas, galgando patamares,
Ruivos cabelos flamejando pelos ares,
Eis a Alma... que corre... já ferida!

18/01/2007

_______________________

Nota
Estarrecida acabo de encontrar este soneto inédito da Alma em sua arca do sótão, em que a imagem do Labirinto se confunde com a escadaria de colunata vermelha do palácio de Cnossos, em Creta, que nitidamente é o cenário ou metáfora que perpassa o poema, de dolorosa premonição da morte. Na verdade, cheguei rapidamente a essa interpretação porque Alma tinha um cartão postal dessa escadaria ladeada de colunas ("ruivas" como os seus cabelos) pregado com alfinete num painel de cortiça, de recordações de viagens e amigos, no seu quarto. Alma acreditava ter já vivido em Creta nesse palácio do Labirinto. Mais uma vez tive que chorar... (Lucia Welt)



Como conheci Rafisa (de Alma Welt)
309

Pela verde amplidão desta campina
Que se estende desde os pagos castelhanos
Até este quintal da minha vinha,
Vinha vindo uma carroça de ciganos.

Então a mula estacou extenuada
(seu nome logo eu haveria de escutar)
E da boléia desceu (eu deslumbrada)
A cigana que me caberia amar.

E com dois passos, lenta em sua nobreza,
Parou diante de mim na minha varanda,
Inusitada curvando um dos joelhos

Numa vênia como se eu fora a princesa,
E num gesto apresentando sua Miranda:
"Ela me trouxe a ti por entre espelhos!"


(sem data)

Nota:
Depois de algumas semanas sem poder pesquizar a montanha de textos da Alma na sua arca do sótão, da qual creio que já compilei, digitei e publiquei pelo menos a metade nestes 25 blogs, encontrei este soneto em manuscrito, sem título, que percebi que não havia visto até então, e que me pareceu importante pois conta como conheceu aquela que viria ser uma amiga muito especial (uma amante mesma, sejamos claros...), a cigana Rafisa, referida em tantos belos sonetos e que tendo contado à minha irmã aquele belo e trágico episódio da "coronelinha", que a Alma contou ao cordelista Guilherme de Faria, este escreveu sua obra-prima de cordel: "Romance da Vidência". Vide o blog:
www.guilhermedefariacordel.blogspot.com


Poema haragano (de Alma Welt)
208


Por ser filha do pampa e de meu pai
Eu pude amar, ser poeta e ser poesia
Que o peão já lembra e se extasia
Se pelo prado canta enquanto vai.

Sim, eu ouvi mais de um gaudério
Entoar um canto em sua sela
Em que reconheci o meu mistério
Ou dele a inspiração que me revela.

Pois quando o povo canta um verso teu,
Então está tudo certo, e podes rir:
Eis que o poeta atingiu seu apogeu.

E preciso é manter o diapasão
Para deixar mais música fluir
Como haragano quente no verão...


02/10/2006


Amor sem rosto (de Alma Welt)
307

Meu amor, a ti me dirigindo,
Saiba que te não personaliso,
Ao menos por enquanto, o que é lindo,
Pois és Amor, és Eros, Dioniso...

Bah! Quisera manter-te assim sem rosto,
Já que sendo deuses pouco valem
Os traços de uma máscara ou de um gosto
Que o Tempo não retém ou que se calem.

Como um nume, ou príncipe, quem sabe,
Toma-me nos braços que sou Alma
E minha alma no corpo já não cabe...

E leva-me, que me finjo adormecida,
Com aquela volúpia nada calma
Da guria que fui... cheia de vida!


15/01/2007


A mensagem (de Alma Welt)
306

Entre os livros de meu pai eu encontrei
Uma carta que há muito procurava.
Ele teria que escrevê-la, eu pensava,
Pois era o seu feitio, que dele herdei.

E ao cair ao chão, de entre as folhas,
Voltei o olhar pra ver quem era o Vate,
Pois sempre havia algo em suas escolhas
(eu conhecia os códigos do Vati...)

Mas eis que, surpresa, deparei
Com o livro que sempre me comove:
De Dostoiévski Os Irmãos Karamazovi

Em seguida li a carta propriamente,
E, implícita, a mensagem do meu rei:
"Alma, sê Aliocha, e una a gente..."


(sem data)


Nota
Acabo de encontrar este soneto solto no meio da montanha de textos da Alma na sua já famosa arca que estou há mais de um ano compilando. Nosso Vati sempre enviava mensagens secretas para a Alma desde guria, na forma de charadas, enígmas, capciosas indicações ou pistas, que a divertiam muito e, ao revelarem-se, a emocionavam. Esta, me comoveu, ao descobri-la agora, pois sua mensagem diz respeito a um momento de profunda desunião e conflito interno desta familia, com nossa irmã Solange e meu marido em guerra contra Rodo e Alma, na disputa da herança de nossos avós. Mas a verdade é que Alma, para salvar a estância, por seu temperamento apaixonado esteve mais próxima de um Dmitri Karamazov, num embate bastante violento com Solange e Geraldo, que gerou até mesmo processos de parte a parte e dois dramáticos julgamentos (vide o romance A Herança, de Alma Welt) antes de poder afinal, como Aliocha, unir a família.

www.almaweltromances.blogspot.com

(Lucia Welt)


Eu estarei aqui depois de tudo (de Alma Welt)
Acabo de encontrar este belo soneto nostálgico, perdido na montanha de papéis da arca da Alma, e que não encontrei publicado (depois de extensa pesquisa) em nenhum dos conjuntos de sonetos já publicados nos blogs da nossa Poetisa. A verdade é que espero encontrar outras jóias como essa neste espólio grandioso dos manuscritos inéditos de minha grande e saudosa irmã, que estou apenas arranhando com estes 25 blogs.
O curioso é que do ponto de vista contextual este soneto contrasta com o penúltimo que eu coloquei aqui ( o n°35 e último que traduzi para o castelhano: "Não estarei aqui quando voltares... " Mas ambos contêm a certeza de sua morte próxima e a convicção de alguma forma de retorno, mesmo que espectral, o que afinal acabou se confirmando, pois ainda a avistamos intermitentemente vagando por aqui, o que nos confrange e desnorteia, pois nos parece que ela não se libertou de sua vida aqui neste plano ou quer nos comunicar algo que não conseguimos entender. Nossos peões, que amiúde a vêm, a chamam "Alma da Pampa"...



Eu estarei aqui depois de tudo
(de Alma Welt)

305

Eu estarei aqui depois de tudo
Quando voltarem as flores no meu prado,
A macieira a florir no pomar mudo
E o casarão estiver todo arruinado,

Suas paredes recobertas pela hera
E no salão a grande mesa abandonada
Onde um dia quando bem guria eu era
Fui belamente adormecida colocada

Pelo fiel Galdério, também ido
Que com Matilde e seu dever cumprido
Foram prestar contas à patroa

Nossa bela, triste e branca Ana
Que afinal como rainha se coroa
E que já não chamo mais... Açoriana!



12/01/2007

Acabo de encontrar este belo soneto nostálgico, perdido na montanha de papéis da arca da Alma, e que não encontrei publicado (depois de extensa pesquisa) em nenhum dos conjuntos de sonetos já publicados nos blogs da nossa Poetisa. A verdade é que espero encontrar outras jóias como essa neste espólio grandioso dos manuscritos inéditos de minha grande e saudosa irmã, que estou apenas arranhando com estes 25 blogs.
O curioso é que do ponto de vista contextual este soneto contrasta com o penúltimo que eu coloquei aqui ( o n°35 e último que traduzi para o castelhano: "Não estarei aqui quando voltares... " Mas ambos contêm a certeza de sua morte próxima e a convicção de alguma forma de retorno, mesmo que espectral, o que afinal acabou se confirmando, pois ainda a avistamos intermitentemente vagando por aqui, o que nos confrange e desnorteia, pois nos parece que ela não se libertou de sua vida aqui neste plano ou quer nos comunicar algo que não conseguimos entender. Nossos peões, que amiúde a vêm, a chamam "Alma da Pampa"...



SONETOS CASTELHANOS DA ALMA



O último comboio (de Alma Welt)
304

Não estarei aqui quando voltares,
Ó vento-rei do meu sonho passado,
Sinto que as partidas e os “chegares”
Já não escamoteiam o meu fado.

Sei que vou partir, o trem vem vindo
A silvar e a ranger na noite enorme,
Na plataforma já vou me consumindo
A esperar que a alma se conforme.

Espera, dá-me tempo, ó minuano!
E tu, meu trenzinho de fumaça,
Me deixe ficar só mais um ano

Enquanto assisto aqui nesta varanda
O comboio do meu próprio ser que passa
Como o fumo, o vapor e a lavanda...

16/01/2007

Nota

Emocionou-me muito encontrar este soneto manuscrito, com a tinta borrada provavelmente pelas lágrimas de minha irmã. Alma pressentia claramente a sua morte iminente, que ocorreria quatro dias depois (20/01/2007). Derramando por minha vez, no teclado, minhas lágrimas, mal pude digitá-lo e vertê-lo para o castelhano. (Lucia Welt)

___________________________________

El último convoy (de Alma Welt)
(versión al castellano de Lucia Welt)

Todavía no estaré cuando tornares
Oh! viento-rey de mi sueño pasado,
Siento, pues, que las salidas, los llegares,
Ya no logran engañar este mi hado.

Yo sé que voy partir, el tren viniendo
A silbar y a crujir en noche enorme,
Y en la banqueta voy me consumiendo
A esperar que el alma se conforme.

Espera oh!viento! Tempo, torna a atrás!
Y tu mi trenito de humareda
Déjame restar un año más

En cuanto asisto acá en la baranda
El convoy de mi ser que pasa y queda
Como el humo, el vapor y la lavanda…


O porto (Alma Welt)
303

Ergam-se meus sonhos na alvorada,
Que os quero junto a mim ao despertar
E com eles percorrer minha jornada
Ainda que mal saia do lugar.

Sou toda mente, anseios, devaneios
E meu corpo reflete essa loucura
Pois alvo como a lua em seus meneios
Entre nuvens, ora clara, ora obscura.

E miro horizontes bem mais amplos
Mesmo aqui desta cadeira balançando
A singrar meu olhar por estes campos

Qual caravela perdida neste mundo
De águas rasas todavia procurando
Um porto onde o mar é mais profundo.


21/09/2006

El puerto (de Alma Welt)
(versión al castellano de Lucia Welt)


Erganse mi sueños en la alborada
Que los quiero junto a mí al despertar
Y con ellos recorrer esta jornada
Aunque no me salga del lugar.

Soy toda mente, ansias, devaneos
Y mi cuerpo refleja esa locura
Blanco como luna en sus meneos
Entre nubes, ora clara, ora obscura.

Y miro horizontes bien más amplios
Mismo acá en esta silla oscilando
A singlar mi mirada por los campos

Cual carabela perdida en este mundo
De aguas rasas todavía procurando
Un puerto donde el mar es más profundo.



Flor noturna (de Alma Welt)
302


Uma flor nasceu em meu jardim
Até então desconhecida, e inusitada
Pois que tem um cheiro doce de jasmim
Não sendo co'este todavia aparentada

Pois de noite evola outro perfume
E eu diria que de modo até perverso
Assim como essa lua que resume
A doce febre de onde nasce o verso.

Mas logo a senti como uma irmã
Das dores e anseios com que lido
De dia a rescender o meu amor,

Pálida e bela, mas altiva barregã
Que se erguesse do seu leito proibido,
A vagar nua entre os seres de labor...

(sem data)

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Flor nocturna (de Alma Welt)
(versión al castellano de Lucia Welt)

Una flor nació en mi jardín
Hasta ayer desconocida y inusitada
Pues que tiene un perfume de jazmín
Sin siquiera ser pariente y ni nada

Pues de noche aromatiza otro perfume
Y yo diría de modo muy perverso
Así como esa luna que resume
Esta mi fiebre donde nace el verso.

Y desde luego la sentí como una hermana
De los dolores con que me he habido
De día a respirar mi oculto amor,

Ramera pálida, por cuanto altiva y vana,
A erguirse de su lecho prohibido,
Desnuda a irse entre los seres del labor.



Sons da noite (de Alma Welt)
301


As paredes vetustas desta casa
Trazem-me os sons de outra era
Como um ruflar de negra asa,
Cheios de dor que reverbera .

Distingo nas noites os gemidos
Das filhas do pobre Valentim,
Os gritos da viúva, os latidos
E logo o uivo de um fiel mastim

Ali, ao pé do corpo que pendia
Da trave do telhado, assim, no sótão
Onde depois o belo Rôdo dormiria

Impávido e inocente o meu irmão,
A embalar seu sono a algaravia
E o sussurrar de um proibido coração.

11/12/2005

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Sonidos de la noche (de Alma Welt)
(versión al castellano de Lucia Welt)

Las paredes viejas de esta casa
Me traen los sonidos de otra era
Cual ala negra o un tonel que vaza,
Llenos del dolor que reverbera.

Distingo en la noche los gemidos
De las hijas del pobre Valentim,
La grita de su viuda, los ladridos
Y el aullido triste del fiel mastín

Allá, al pie del cuerpo que pendía
De la viga en el sótano sufrido
Donde el bello Rodo dormiría,

Hermano inocente y confundido,
Su sueño a acunar la algarabía
De otro corazón tan prohibido.

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Nota
Mais un soneto em que Alma insere menção à sua relação com nosso irmão Rodo. Entretanto pareceu-me detectar aqui, pela primeira vez, uma nota de consciência (não de culpa) da proibição dessa relação.(Lucia Welt)



Mea culpa (de Alma Welt)
300

Estar com meus irmãos e as crianças
É para mim o paraíso nesta terra,
Pois com eles alimento as esperanças
De afugentar de mim o que aberra...

Sim! minhas idiossincrasias,
E ânsias que ora chamo de ilegítimas
Pois faziam sofrer outras gurias,
Minhas irmãs, talvez um tanto vítimas.

Percebo que a ardência de minh’alma
Lhes foi e ainda é bem dolorosa
Por tirar-lhes as certezas e a calma.

Ah! Irmãs de quem tornei-me a agonia,
Mais quisera ser um ser de pura prosa
E menos o vulcão desta poesia!

28/11/2005


Nota

Emocionou-me encontrar este soneto perdido na montanha de inéditos da arca da Alma. Vieram à minha mémória 35 anos de convivência e amor pela doce Alma, que aqui se trata tão duramente. Sim, sofríamos por ela, mas de tanto amor, de tanta admiração impotente pelos seus sofrimentos de guria hiper-sensível. Sua intensidade tirava-nos o fôlego, pois a beleza de tudo que vinha dela era como conviver permanentemente com uma obra de arte viva, genial, surpreendente, comovedora... Ai! minha irmã, tua doçura tudo justificava, teu amor a tudo e a todos... a tua beleza de corpo e alma! Jamais houve um ser como tu!...
(Lucia Welt)


Mea culpa (de Alma Welt)
(versión al castellano de Lucia Welt)

Estar con mis hermanos y los niños
Es para mí el paraíso en esta tierra,
Pues con ellos alimento los cariños
Que ahuyentan de mi lo que aberra

Me referí a idiosincrasias y manías
Y ansias que ahora llamo ilegítimas
Pues las hacían sufrir, hermanas mías,
Persuadida estoy de que eran víctimas.

Percibo que la urgencia de esta Alma
Les ha sido y todavía es dolorosa
Por sacarles las certezas y la calma.

Ah! hermanas mías de agonía,
Bien más quisiera ser un ser de prosa
Y menos el volcán de esta poesía!


O sentido da vida (de Alma Welt)
299

Quantas vezes em silêncio me pergunto
O sentido de estarmos neste mundo
Embora tal pergunta seja assunto
Dos filósofos em seu labor profundo...

Que por sinal não chegaram a um acordo
Já que tudo permanece misterioso:
A vida, a morte, a dor, o riso e o gozo,
A cotovia e o rouxinol... e ainda o tordo.*

Mas, ai de mim, de nós, da humanidade!
Como cegos tateamos sob o céu
E, laboriosos, erigimos a cidade

Como outrora a grande torre de Babel
(da qual perpetuamos arremedos),
Orgulhoso monumento aos nossos medos.*

12/04/2006


Notas

*...A cotovia e o rouxinol... - este curioso verso é uma graciosa alusão ao famoso diálogo de Romeu e Julieta ao despertar de sua noite de núpcias, lá como aqui exemplo das dúvidas que o amor suscita como ingênua artimanha para perpetuar-se. Quanto ao adendo "e ainda o tordo", além de boa rima trata-se de uma maneira hábil poeticamente de sugerir que tudo, toda a natureza, é um mistério.

*Orgulhoso monumento aos nossos medos- A torre de Babel (Etemenanki), considerada um símbolo universal do orgulho humano, é aqui associada ao Medo, o que me parece bastante sutil.(Lucia Welt)


El sentido de la vida (de Alma Welt)
(versión al castellano de Lucia Welt)

Cuantas veces en silencio me pregunto
El sentido de estarmos en el mundo
Por cuanto tal pregunta sea asunto
De filósofos en su labor profundo.

Que sin enbargo no llegan a nada igual
Pues que todo es sin respuesta y misterioso:
La vida, la muerte, el dolor, la risa y el gozo
La cogujada y el ruiseñor… y el zorzal.

Ay de mí, de nosotros, de nuestra humanidad!
Manoteamos como ciegos debajo del dosel,
Y tontos laboriosos, erigimos la ciudad

Como ayer y hacia arriba, la torre de Babel,
(que todavía perpetuamos sus remedos),
Orgulloso monumento a nuestros miedos.



O espelho do ser (de Alma Welt)
298

Hoje olhei no espelho e vi meu ser,
Quero dizer, a face minha oculta,
Aquela que costuma se esconder
E que não pertence à vida culta:

O ser primevo, o mito primitivo,
Eco primal do grito, não vagido,
Que o homem lançou e foi ouvido
Pela Natura num recuo intuitivo.

Eis o animal de Deus marcado
C’o sinal de distinção no fundo olhar,
Na fronte ereta onde repousa o fado!

E ao mirar assim meus belos olhos
A profunda superfície dos abrolhos,
Tive medo de mim como de um mar...


(sem data)

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El espejo del ser (de Alma Welt)
(versión al castellano de Lucia Welt)


En el espejo hoy me miré y he visto el ser,
Quiero decir, mi faz, aquella oculta
Que todavía se acostumbra a esconder
Y no hace parte de nuestra vida culta:

El ser primero, el mito primitivo
Eco anciano del grito, no el vagido,
Que el hombre ha lanzado y fue oído
Por la Natura en su reculo intuitivo.

He aquí el animal de Dios, marcado,
Con señal de distinción a así mirar
Desde la frente erecta donde posa el hado!

Y sin embargo al clavar mis bellos ojos
En superficie honda y de abrojos,
Tuve miedo de mí como una mar…



A insensata nau (de Alma Welt)
297

Disparam-me das torres pensamentos
Contra o mastro desta nave de sonetos.
Meus bispos e a rainha, muito lentos,
E os peões, ou marinheiros, são suspeitos

De sedição ou motim perto das ilhas
Na insensata nau que é o casarão
Entre as vagas verdes das coxilhas,
E o minuano a soprar... mas no verão.

Porém, poder perdido, perco o punho
De ferro com que manobrava a vela
E o leme que era rota e testemunho

Do meu ser racional e orientado
Com que outrora pilotava a caravela
Do meu sonho lúcido e acordado.

(sem data)



La insensata nave (de Alma Welt)
(versión al castellano de Lucia Welt)


Desde las torres disparan pensamientos
Al mástil de mis versos dudosos.
Mis obispos y la reina son muy lentos
Y los peones, marineros sospechosos.

Hay motines cerca de las islas
En la nave insensata, el caserón
A singlar por entre olas de cochillas
Y el minuano a soplar fuera de ton.

Dejando el poder al enemigo,
Perdí el puño, el viento de mi vela
Y el timón, la ruta y el testigo

De mi ser racional, aunque abierto,
Que pilotaba, ayer, la carabela
De mi sueño lucido y despierto.



A fada da minha mente (de Alma Welt)
296

Esta noite irei ao meu pomar,
Apesar de escura e enevoada.
Ali estarei com minha fada
Com quem combinei de me encontrar.

Rôdo, mas só ele, está ciente,
Pois os outros não podem suspeitar.
Estou em perigo, ultimamente,
Há quem queira mesmo me internar.*

Na minha "Grande Noite de Walpurgis",*
Quando terminei por levitar,
Todos os deuses vieram me encontrar...

Mas o espanto agora é diferente:
"Ó minha fada, eu sinto quando surges
A partir da minha própria mente!"

18/12/2005

Nota

*"Grande Noite de Walpurgis" - Alusão à "Noite Clássica de Walpurgis", cena apoteótica, magistral e iniciática do Fausto, de Goethe. Trata-se de uma grande reunião ou Orgia dionísiaca, de todos os deuses da Grecia Antiga, a que Fausto assiste com a ajuda de Mefistófeles. A cena é longuíssima, extremamente erudita e cheia de ocultismo. Há mesmo estudiosos que se debruçaram anos a fio sobre o estudo dessa parte do Fausto, inclusive teses de doutorado.
Alma assim se refere à sua experiência mística pagã, de invocação mágica dos deuses e numes do Pampa, diante de sua macieira sagrada do pomar, que está descrita magistralmente em certo capítulo do seu romance A Herança, e sucintamente no seu soneto "Todos os deuses", postado nos blogs Vida e Obra de Alma Welt, e nos Sonetos de Mistérios da Alma. (Lucia Welt)

* ... me internar"- Alma temia ser internada como afinal realmente o foi, numa Clínica pouco depois da data deste soneto. Mas não é verdade que queríamos interná-la. Fomos pegos de surpresa, quando ela sumiu num sábado e foi encontrada por nós que a procurávamos preocupadíssimos, em lamentável estado vagando no bosque, fora de si, com o vestido rasgado e arranhões nos seios e nas coxas, que suspeitamos como vestígios de estupro.(Lucia Welt)


La Hada de mi Mente (de Alma Welt)
(versión al castellano de Lucia Welt)


Esta noche iré por cierto a mi pomar,
Aunque esté oscura y nublada.
Todavía allí estaré junto a mi hada
Con quien me acordé de encontrar.

Rodo, y solamente él, está esciente,
Pues los otros no pueden sospechar.
Estoy en peligro, últimamente,
Hay mismo quien me quiera internar.

En mi “Gran Noche de Walpurgis”,
Cuando al fin acabé por levitar,
Todos los dioses vinieron me encontrar…

Pero el espanto ahora es diferente:
¡Oh! Mi hada, yo siento cuando surges
De allá, venida de mi propia mente!



Testamento (de Alma Welt)
295

O meu Pampa é um sonho derradeiro
E primevo ao mesmo tempo, mas um sonho
De Deus, dos deuses e onde ponho
Todo o peso do sentir e ser, inteiro.

Aqui é o centro, o ponto, o fulcro
De onde avisto o mundo que me é grato,
Não o vale de sombras do contrato,
Mesmo que aqui cavem meu sepulcro.

E quando eu morrer, fique bem claro
Que não tive queixas nem rancores
Embora tenha tido as minhas dores.

Pois viver a vida em plenitude
Foi privilégio, conquanto não tão raro,
Mas certamente a minha máxima virtude.

14/01/2007


Testamento (de Alma Welt)
(versión al castellano de Lucia Welt)

Mi Pampa es mi sueño postrero
Y primero también, pero un sueño
De Dios, de los dioses, y el sendero
De mi sentir y ser, que no es pequeño.

Acá es el centro, el punto, asiento
Donde miro el mundo que me es grato,
No el vale de las sombras del contrato,
Aunque acá me acabe el dulce aliento.

Y cuando me muera, esté bien claro
Que no tuvo quejas ni rencores
Por cuanto haga sufrido mis dolores.

Pues vivir la vida en plenitud
Fue privilegio, todavía no tan raro,
Sin embargo, mi máxima virtud.



Das noites no jardim (de Alma Welt)
294

Guria apenas, do quarto meu, fugia
Pela janela, de noite, já contei,
Para ir ao jardim que tanto amei
Para ver dos pirilampos a folia.

E rodava sob o meu lustre da lua
A branca camisola qual princesa
Que valsasse num palácio de grandeza
Com a minha sombra logo nua.

E então me deitava, esfusiante,
No tecido, assim, pra não coçar
E me punha branca a me lunar

Sentindo que meu corpo coruscante
Estava ali, aberto, sob o olhar
De meu irmão, no sótão, vigilante.

(sin data)


Noche en el jardín (de Alma Welt)
(versión al castellano de Lucia Welt)


Cuando muchacha de mi cuarto yo huía
Por la ventana, de noche, ya he narrado,
Para irme al jardín que he tanto amado,
Las luciérnagas a darme su folía.

Como quien bajo la luna se demuda,
El camisón rodaba cual princesa
Que valsase en un palacio de grandeza
Con mi sombra tan luego o ya desnuda.

Sin embargo me acostaba, así, radiante,
En la enagua, sí, para no rascarme
Y me ponía cruda y a mostrarme

Y sentía que mi cuerpo brillante
Estaba allí, abierto, bajo el ojo
De mi hermano, atento como un zorro.



De nuvens e Paciência (de Alma Welt)
293

Aprendi das nuvens as canções,
Suas sutis mudanças de formato,
De peso, tons, e seu contrato
Com o rei dos raios e trovões.

Foi Galdério, o montevideano
Que criado na Pampa oriental
E guiando a charrete ano após ano
Me doava ali seu cabedal,

Sua grande bagagem de experiência
Contemplativa, ali, na sua boléia
Ao som do trotar da Paciência,

Sim, o nome da egüinha atrelada
Que envelheceu sem ter idéia
Do quanto era rica a nossa estrada.


(sem data)


De Nubes y Paciencia (de Alma Welt)
(versión al castellano de Lucia Welt)

De las nubes aprendí el canto bueno,
Sus sutiles mudanzas de formato,
Tonalidades, pesos y el contracto
Que tienen con el rayo y el Rey Trueno.

Fue Galderio, montevideano y peón,
Que criado en la Pampa oriental
Conducía año a año el carretón
Donándome allí su gran caudal

Su enorme bagaje de experiencia
Contemplativa allí en su asiento,
Al trotar de nuestra Paciencia.

Sí, el nombre de la yegua atraillada
Que de ojos bajos, añejada y sin aliento
No logró comprender nuestra jornada.



O jardim das memórias (de Alma Welt)
292

Minhas crianças amadas me rodeiam
E me fazem saber que sou feliz,
A mim, que não sou simples aprendiz
Pois beleza e alegria me permeiam

Desde guria, aqui, por estes pagos
Em torno ao casarão na pradaria:
De mãos dadas com Rôdo eu corria,
E os dedos já sentiam seus afagos

Que depois, no bosque, ou na cascata
Se estenderiam aos meus pequenos seios
Incipientes e brancos como nata.

Então eu me enterneço duplamente
Ao brincar neste jardim com seus enleios
Que me levam a mim mesma novamente.



24/11/2006


Exorcizando (de Alma Welt)
291

Matilde veio logo me avisar
Que uma sombra rondou o casarão
E parou de frente ao nosso sótão,
Depois partiu no rumo do lagar.

"É o Valentim!" ela adverte-
"Que olhou para onde se enforcou,
Voltou para onde o vinho verte
E ali novamente se afogou."

E eu, a quem não custa espicaçar,
Saí no temporal e fui às uvas
Para o tal fantasma exorcizar:

"Perdoa, a ti me dou, tardia embora,
E me desnudo sob o frio de tuas chuvas
Que são as tuas lágrimas de outrora!"

(sem data)


Nota

Valentim- Para quem ainda não sabe ou não leu o romance autobiográfico da Alma "A Herança", Valentim Ferro foi o último proprietário gaúcho autêntico de nossa estância (antiga Querência Farroupilha, agora Sta Gertrudes) e que endividado acabou vendendo sua propriedade para o nosso avô Joachin Welt, em seguida por desgosto enforcando-se no sótão do próprio casarão. Alma conta como nosso avô narrou a ela ter encontrado o corpo de Valentim, ainda quente como o mate fumegante esparramado da cuia (e bomba) sob os pés do enforcado, este todo ataviado nas sua melhor bombacha, botas, esporas, faixa, chapéu, lenço vermelho farroupilha, e tudo.
Alma dizia ter tido vários encontros com o espectro do infeliz proprietário autêntico derradeiro, com o qual ela acreditava termos uma dívida insaldável, usurpadores que éramos desta propriedade farroupilha tradicional, nós, "boches arrivistas" que viemos plantar uvas numa terra tradicional de gado, charque e mate. (Lucia Welt)


Flor de Fobos (de Alma Welt)
290

Encontrei no jardim de minha avó
Uma flor inusitada e ignota
E que parecia muito, muito só
Como um forasteiro em sua rota

Por entre os homens e as aléias.
Bah! Que solitários são os lobos
Rejeitados por suas alcatéias,
Que vagam a despertar aquele Fobos!

Então eu, condoída, sim, deixei-a,
Curiosa para ver se explodiria
Em novas flores formando sua aldeia.

Todavia ali voltando todo dia,
Eu, pasma, a encontrava orgulhosa
Por ser única, tão só e... tão formosa.

18/11/2006


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Flor de Fobos (de Alma Welt)
(versión al castellano de Lucia Welt)

Encontré en el jardín de mi abuelo
Flor ignota, sin nonbre o heredero
Y que, muy sola, allí, me huelo
Que es como, así, un forastero

Por entre los hombres y su mando.
!Oh! Que solitarios son los lobos
Cuando desechados de su bando,
A vagar despiertan aquel Fobos!

Sin embargo, conpungida, la he dejado
Curiosa para ver se explotaría
En nuevas flores y en su propio prado.

Todavía, allí tornando todo día
Yo, pasmada, la encontraba orgullosa
De ser única, tan sola… y tan hermosa.


Não cantarei de amor... (de Alma Welt)
289

Não cantarei de amor mais do que o faço
Ao contar a saga do meu ego
E as estrepolias com que traço
Meu rumo e o sonho a que me entrego

Ao simplesmente viver a minha vida
Com toda a intensidade da alegria
E a louca intimidade compartida
Com tantos (que jamais me encolheria).

Assim, cantando-me a mim mesma,
Ouvi alhures: “Ah! Ególatra sublime...”
Como se isso fora um abantesma...

Até (pasmem!) compreender que ao fazê-lo
Meus versos pertenciam a certo time
Que tem em Wordsworth seu modelo...

06/02/2005


Nota

Percebe-se que Alma, com "ególatra sublime" quis se referir ao conceito de "egotista sublime" usado pelo grande poeta romântico inglês John Keats (1795-1821) numa de suas famosas cartas. Certamente Alma preferiu a paráfrase por questão de rítmo no verso. Naquela carta, Keats coloca o seu contemporâneo William Wordsworth (1770-1850) como exemplo do "egotista sublime", isto é, o poeta que falando de si em termos ideais se erige como arquétipo, na medida em que, usando como tema sua própria experiência cotidiana existencial transfigurada pela arte, fala por toda humanidade. (Lucia Welt)


No cantaré de amor (de Alma Welt)
(versión al castellano de Lucia Welt)

No cantaré de amor más que lo hago
Al narrar la saga de mi ego
Y las picardías con que halago
Mi destino como sueño a que me entrego

Por simplemente así vivir mi vida
Con la intensidad de la alegría
Y la loca intimidad compartida
Con tantos (que jamás me encogería)

Sin embargo, cantando voy mi misma
A oír que soy "ególatra y sublime”
Y como se yo fuera una papisa

Hasta que (usted pasme) he entendido
Que mi verso con un otro ilustre rime
Pues Wordsworth lo habría conocido...


Odisseu (de Alma Welt)
288

"Somos para a Morte", disse alguém,
E desde então eu me pus a meditar,
Coisa inusitada para quem
Todas as dádivas vieram se somar.

A beleza é vã, efêmera, fugaz,
Diz Matilde, o que a Mutti já dizia,
E eu desconfio que apesar de pertinaz,
Tal pensamento deriva da apatia.

Ah! Odisseu, meu grego predileto,
Que disseste (e por isso foste honrado)
O quê é o homem? Cabal, doido completo

Que se acaba com um simples resfriado
E que no entanto, aqui como em Elêusis,
É capaz de afrontar os próprios deuses!


09/07/2006

Odisseu (de Alma Welt)
(versión al castellano por Lucia Welt)


A la muerte somos, uno ha dicho bien
Y desde luego me puso a meditar,
Cosa muy inusitada para quien
Todas las dádivas vinieron acrecentar.

Matilde ha dicho y la Mutti ya decía,
"La belleza es vana, efímera, fugaz",
Y yo supongo, aunque pertinaz,
Tal pensamiento redunda en apatía.

Ah! Odisseu, mi griego favorito
Que dice (y por eso fue alabado),
Que es el hombre?! Cabal, loco bendito,

Que se acaba con un simple resfriado
Y todavía, acá como en Eleusis
Es capaz de afrontar sus propios dioses!



A caravela (de Alma Welt)
287

Lanço no papel minha experiência
De ser o fulcro ou centro desta saga
Tão amada, vivaz, com tal ardência,
Como um druida, bardo ou velha maga.

Nada de queixumes ou lamento,
Mas afirmação total de vida
Que aos outros possa ser alento,
Inspiração vital e comovida.

Pois sei que a vida é mesmo bela
E o frágil ser humano, interessante
Como pode ser imenso e triunfante!

Eis porque vago pela face do papel
Como tardia, embevecida caravela
Fazendo deste espelho o próprio céu.

1401/2007



La carabela (de Alma Welt)
(versión al castellano por Lucia Welt)


Lanzo en el papel mi experiencia
De ser el centro mismo de esta saga
Tan amada, viva, y con vehemencia
Como un druida, bardo o vieja maga.

Nada de quejas, lloros o lamento,
Pero afirmación total de vida
Que a otros pueda ser aliento,
Inspiración vital y conmovida

Pues sé que la vida es mismo bella,
El fragil ser humano, interesante:
Sin embargo grande y triunfante.

Así navego en la net o papel viejo
Como tardía, orgullosa carabela
Haciendo acá mi cielo de este espejo.



O eterno retorno (de Alma Welt)
286

Contarei e cantarei até o fim
Dos meus dias como vou ao meu irmão
Encontrá-lo alta noite no seu sótão
Para entregar-me a ele e ele a mim.

E como, tateando no escuro
Nos longos corredores, já ardente,
Eu me dispo no caminho, de repente
Naquele impulso claro e escuro

Que me leva assim a dar-me e dar-me
E exausta adormecer sobre seu ombro
Depois de tanto cavalgar a sua carne.

E como, adormecida, recomponho
A clara roda de ir ao seu encontro
Na obscura clareza do meu sonho.

(sem data)
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El eterno retorno (de Alma Welt)
(versión al castellano por Lucia Welt)


Cantaré y cantaré hasta el fin nuestro,
Como voy tan repetido al mi hermano,
Encontrarlo, alta noche, en su sótano
Para entregarme a ello, por supuesto.

Y como, palpando el aire oscuro
De los corredores onde, ardiente,
Me desnudo en el camino, de repente
En un raro impulso claro y puro

Que me lleva así a darme y darme
Y exhausta dormir con ello adentro
Después de cabalgar tanto su carne

Y como recompongo el diseño
De la rueda de irme al su encuentro
En la oscura claridad de nuestro sueño.



A Fronteira e o Portal (de Alma Welt)
285

Saio de manhã com cuia e bomba
A vagar por minhas velhas trilhas
Até rondar o bosque em sua lomba
Que nasce no sopé destas coxilhas.

Ali penetro então chimarreando
Aquecida por dentro pelo amargo
Para ouvir a natureza despertando
E o meu alento bem mais largo.

E logo tomada de entusiasmo
Me ponho a correr por entre os troncos
E a girar no centro de um orgasmo

Até desfalecer numa clareira
Cercada por seres nada broncos,
Abertos o Portal e a Fronteira...

(sem data)

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La Frontera y el Portal (de Alma Welt)
(versión al castellano de Lucia Welt)


Salgo yo, la calabaza y su aroma
A vagar por mi querida senda vieja
Hasta rondar el bosque en su loma
Que nace en la falda de la sierra.

Allí entro todavía mateando
Calentada por el sabroso “amargo”,
A oír la Natura despertando
Y también mi aliento bien más largo.

Y luego dotada de entusiasmo
Me pongo a correr por entre troncos
Y a girar en el centro de un orgasmo

Hasta quedarme desnuda y irreal,
Pero cercada por seres nada broncos
Y abiertas la Frontera y el Portal.

__________________________________

Nota
Acabo de encontrar este curioso soneto manuscrito entre os papéis da Alma na sua arca, e dei-me conta de que nunca foi publicado. Apressei-me em digitá-lo e colocá-lo no seu blog dos Sonetos de Mistérios da Alma. Mas logo percebi que se trata, na verdade, de um soneto erótico, embora simbólico e velado. Não preciso dizer o que são "o Portal" e "a Fronteira". Ri muito e mais saudades tive de minha extraordinária irmã, de sua intensidade vital e de seu humor. (Lucia Welt)



Se me perguntarem... (de Alma Welt)
284

Se me perguntarem o que quero
Com tanto escrever, em catadupa
Soneto após soneto, eu reitero
Que isso me elimina toda a culpa.

Sim, a que se instala em nossa alma
Com o primeiro vagido após o tapa
E faz o ser humano ter um mapa
Do inferno gravado em sua palma.

Em sendas ocultas e entrelinhas
Eu vou, vago, vôo e deixo ir-me
Ignorando as coisas comezinhas.

Escrevendo recupero a inocência
E posso tudo, e na alma permitir-me
Ir muito além da dor e da demência.

15/12/2005

Nota
Ao encontrar há pouco este soneto, apertouse-me o coração, pois pela data percebi que fora escrito poucos dias antes da sua internação na Clínica em Dezembro de 2005, que tanta preocupação e dor nos causou, inclusive com sua fuga e percalços em caronas de caminhão pelas estradas do nosso Pampa. Este soneto testemunha a luta heróica da Alma para fugir "da dor e da demência" que rondavam a sua alma de poeta, de artista predestinada e de mulher muito bela, excepcionalmente pura e ardente.(Lucia Welt)


Se me preguntan... (de Alma Welt)

(versión al castellano de Lucia Welt)
Me preguntan que quiero yo con eso
De tanto escribir, en catarata,
Soneto tras soneto, se este peso
No representa el fardo de una rata,

Yo digo que eso por contrario
Descarta la culpa que se instala
En nosotros con aquel golpe primario
Que ha de hacer la vida entera mala,

En senda, trilla y entrelínea
Yo me voy vagando o a volar
Ignorando las cuentas por pagar.

Escribiendo recupero la inocencia
Y todo puedo, en el alma curvilínea
Driblando el dolor y la demencia.



Minha "Estrela de Absinto" (de Alma Welt)
283

Estrela minha, a mim mesma me revela!
Eu te invoco como outrora o Druida
Ou muito antes o rei da torre aquela
Etemenanki que em Babel foi destruída!

Vem ao meu encontro e me desvia
Do fatal caminho que pressinto,
Eu sei, estamos todos nessa via,
Na rota de uma estrela de Absinto,*

Mais sonhos, mais delírios, mais anseios,
Ainda não cumpri meus devaneios
E ainda faltam centenas de sonetos,

Cavalgadas, êxtases, amores,
Vagar por entre temas e motetos
A colher emoções como se flores!

19/12/2006


Nota
* Estrela de Absinto -Obra de Oswald de Andrade, 1927. A expressão se refere à uma estrela apocalíptica, para alguns místicos e esotéricos caracterizada como o planeta Vênus(estrela Dalva). Absinto: bebida muito consumida na Belle Époque parisiense, e que, com o ópio, custou a vida de muitos poetas e pintores. No Apocalípse de São João, Absinto é o nome de uma estrela da destruição que cai sobre as fontes de águas e os rios, no final dos tempos (um meteorito?).Entretanto, não está claro, no poema, em qual sentido Alma a está usando. (Lucia Welt)


Mi estrella de Absinto (de Alma Welt)
(versión al castellano de Lucia Welt)


Mi estrella, me reveles a mi misma!
Yo te invoco como otrora el druida,
O antes aquél rey de gran carisma
Aunque tuve su alta torre destruida!

Vien a mi encuentro y me desvía
Del fatal camino que presiento.
Estamos todos, yo lo sé, en esa vía,
De Absinto la estrella como aliento.

Quiero más sueños, delírios, nuevos temas,
Aunque no he cumplido mis proyectos
Y hagan falta todavía cien poemas,

Cabalgadas, éxtasis, amores,
A vagar por entre mis versos selectos
A coger emociones como flores!




Não irei queixar-me ao rei dos pampas (de Alma Welt)
282

Não irei queixar-me ao rei dos pampas,
O Minuano que selou o meu destino...
Não rezarei ao pé daquelas campas
Nem ali tocarei meu violino.

Bah! Tanto me alertaram sobre aquilo
De escolher e abraçar a "vã Poesia"
Abandonando o caminho mais tranqüilo,
Do Lar, e ainda ficando "pra titia"!

Sobretudo não irei me prosternar
Diante da matéria ou de seus signos,
Que não tenho o afã de conservar...

Pois que há muito abri minhas eclusas,
Fiz juras e votos bem mais dignos
E jamais renegarei as minhas Musas!

(sem data)
_______________________________________________

Al rey no iré quejarme (de Alma Welt)
(versión al castellano de Lucia Welt)

Al rey no iré quejarme, de la pampa,
El Minuano que me conduce al fin;
No oraré al pie de aquella campa
Ni tampoco tocaré mi violín.

¡Ah! Tanto he caminado sobre el hilo
Que en peligros me llevó a la Poesía,
Abandonando el camino más tranquilo,
Tía y soltera acá restando todavía!

Tampoco iré mi cuerpo prosternar
Delante la materia o sus signos,
Que no tengo el afán de conservar…

Pues que ha mucho he abierto mis esclusas,
Y haciendo juramentos bien más dignos
Jamás he renegado aquellas Musas.


A névoa e a Alma (de Alma Welt)
281

Quando a névoa ainda não se alçou
E paira sobre a relva confundindo
Céu e terra como quando começou
O mundo e Deus ainda estava urdindo

A tessitura de seu reino endiabrado,
Depois cheio de tesouros e magia,
Eu sinto que pertenço a este prado
E nutro-me de sua nostalgia.

Mas logo em alegria me desnudo
Pois orvalhada já em minha roupa
Posso sentir-me parte disso tudo:

De Deus o puro caos primevo e vago
Quando tudo ainda era parte dessa sopa
Do grande caldeirão do Eterno Mago...


(sem data)

___________________________________

Nota
Acabo de encontrar na montanha dos inéditos da Alma, em sua arca do sótão, este soneto encantador sobre o qual testemunhei as cirunstâncias de sua inspiração, pois acompanhei uma vez a Alma num de seus passeios matinais, bem cedinho, e a vi impulsivamente desnudar-se para sentir a névoa da alva da manhã em sua pele, no corpo todo, rodopiando de alegria em sua integração sentida nesse "caos úmido". Alma era uma criatura profundamente telúrica e nutria-se, como ela dizia, das forças da terra e do ar, como todos os seres, é verdade, mas com mais intensa consciência poética, se podemos dizer assim, do que a maioria de nós. (Lucia Welt)


La niebla y la Alma (de Alma Welt)
(versión al castellano de Lucia Welt0


Cuando la niebla aún no se ha alzado
A pararse de la hierba confundiendo
Cielo y tierra como cuando ha comenzado
El mundo y Dios se estaba urdiendo

La textura de su reino endiablado,
Después lleno de tesoros y magia,
Yo siento que hago parte de ese prado
Y me nutro de su enorme nostalgia.

Pero de pronto me pongo desnudada
Pues aunque orvallada en mi ropa
Quiero sentirme parte, o integrada,

De Dios el puro caos primero y vago
Cuando todo era parte de esa sopa
Del eterno calderón del Grande Mago.



Da vida vivida (de Alma Welt)
280

Por amor, me desnudei a alma
No papel em versos escandidos,
Não me poupei em nada, dei a palma
A ler, como às ciganas os escolhidos.

Sim, por que nelas eu confio
Se vêem em nós o dedo do destino
Ou espada a pender daquele fio.
Mas ouvindo da Gitana o violino

Cantei, dancei, de mim me desnudei
E nos leitos dos amados supliquei
Que tocassem as fibras do meu ser.

E louca, penetrada e fruída
Fui verso e canção pra ouvir e ler
E nada deixei pra outra vida...


17/01/2006

Nota

Mais uma vez emocionadíssima, ao descobrir agora há pouco este soneto, me defrontei com um "testamento espiritual" da Alma, poderoso, de comovente grandeza.
Vou tentar vertê-lo para o castellano para publicar no site La Voz de La Palabra Escrita-Internacional. (Lucia Welt)


De la vida vivida (de Alma Welt)
(Versión al castellano de Lucia Welt


Por amor me he desnudado el alma
En la página de verso encendido
Sin enbargo,siempre he dado la palma
Como a una gitana el escogido.

Si, porque fieles siempre han sido
Y en nosotros veen la oscura gana
O el sable que de un hilo está pendido.
Pero al oír el violín de la Gitana

He cantado, danzado y desnudado,
Y en los lechos de amados, he suplicado
Que tocasen las fibras de mi ser.

Pues loca, tocada o ceñida
He sido verso y canción de oír y leer
Y nada he dejado a otra vida.



A Alma destas águas (de Alma Welt)
279

A trilha que leva à minha cascata,
A cantar percorro todo dia,
Descalça, pois retiro a alpargata
Para sentir do solo a energia.

E logo vou a blusa retirando
Ou o vestido inteiro, se é o caso,
Depois a calcinha, ali deixando
Na senda como rastro e ao acaso

As belas tramas um tanto obsoletas
Pois me dou à transparência destas águas
(que nunca me escondi em vãs anáguas).

Depois saio brilhando, nada feia...
E mais: para atrair as borboletas,
Crua me agacho a urinar na areia.

(sem data)

___________________________

Nota

Encantada, acabo de descobrir na arca da Alma este soneto lindo, ligeiramente erótico, que revela algo que eu mesma testemunhei algumas vezes: nua, molhada e brilhando, Alma urinava na areia da prainha da cascata, e logo ali se fazia uma revoada de borboletas que apreciavam o sal ou a amônia onde pousavam numerosas, sugando, para encanto de minha bela irmã, que eu ficava olhando, admirando, como uma ninfa que ela realmente era. (Lucia Welt)


Alma de estas aguas (de Alma Welt)
(Versión para el castellano de Lucia Welt)

En el camino que leva a mi cascada
A cantar me voy todos los días
Y luego me pongo desmontada
Para sentir del suelo la energía

Y desde luego la camisa allí sacando,
O el vestido entero, si es el caso,
Después las bragas voy dejando
En la senda como rastro y al acaso

De las vanas tramas aúnque hermosas
Pues en la transparencia de la escena,
Jamás he escondido aquellas rosas...

Y me salgo reluciendo, rica y plena
Y más: para atraer las mariposas
Me agacho a orinar sobre la arena.

(sin data)


Dúbios domingos (de Alma Welt)
280

Tenho com os domingos dúbia liga
Pois embora ensolarados em essência
Me fazem ver do Tempo a vã carência
E a tal fugacidade, ó minha amiga.

A contagem domingueira se revela
Ultimamente regressiva e voraz
Embora eu seja jovem, viva e bela,
Já me vejo saudosa a olhar pra trás.

Eis que me sinto assim contemplativa,
Que nunca fui alguém que muito chore,
E me ponho a vagar como uma diva

A colher florzitas como a Core
No seio claro desta natureza viva
Antes que o escuro solo me devore.


28/11/2006


Nota
Acabo de encontrar este belo e impressionante soneto da Alma, que faz ver a persistência de seu pressentimento da morte próxima. Vale aqui relembrar o mito de Core (a Perséfone dos gregos) filha de Ceres, a deusa das colheitas(a Deméter, dos gregos) que estando a colher flores na pradaria, subitamente o solo se abriu e ela foi agarrada pelo deus Hades, do escuro subsolo do mundo (o reino de Hades)onde passaria, por intercessão de Zeus, a pedido de sua suplicante e sofrida mãe, a viver por seis meses, sendo que os outros seis poderia passar com sua mãe sobre os campos. Esses ciclos se relacionavam com o tempo do plantio e o da colheita. (Lucia Welt)


Dudosos domingos (de Alma Welt)
(Versión para el castellhano de Lucia Welt)

Tengo con los domingos una liga
Por quanto solarados en esencia
Me hacen ver del Tiempo la carencia
Y la fugacidad, oh! mi amiga!

La cuenta dominguera se revela
Desde luego regressiva y voraz
Todavía soy jóven, viva y bella
Sin enbargo estoy mirando hacia atrás

Y me siento tan contemplativa,
Jamás ha sido así quien tanto llore...
Y me pongo a vagar como una diva

Que coje florecitas como Core
Nel seño de la Natura viva
Antes que el suelo me devore.


Palavras à cigana (de Alma Welt)
279

Rafisa, lê depressa a minha palma
Mas não pares no meio da leitura.
Sempre o fazes como se uma ruptura
No fio do destino desta Alma.

Eu vejo como fechas minha mão
E o disfarças com um beijo ou sorriso.
Mas não conténs, cigana, o coração
E teu peito que ofega, em prejuízo

Do segredo do que é meu e tu me deves,
Pois se és vidente e quiromante
Honra a tua fama, a mal não leves,

Vai, revela tudo, não importa
Se a Morte for um hóspede galante
Que está prestes a bater na minha porta...

05/01/2007

_____________________

Nota
Descobri emocionada este soneto que mostra como Alma andava cheia de pressentimentos da morte próxima, mas não totalmente consciente, que é como o Destino brinca de se apresentar...
(Lucia Welt)



Palabras a la gitana (de Alma Welt)
(versión al castellano de Lucia Welt)


Rafisa, lea de pronto mi mano
No te detengas en medio a la lectura.
Siempre lo haces como una ruptura
En el hilo de mi destino humano.

Yo lo veo como miras con cuidado
Y a veces me confundes con un beso;
No te contienes el corazón alborotado
Y tu pecho que se pone teso

Si el secreto revelar no puedes,
Por seres vidente y quiromante
Honra tu fama, y dáme lo que debes,

Vá, revela todo, lea mi suerte.
Que la Muerte sea un huésped galante
Que todavía en mi puerta bate fuerte!



O claro e o escuro da Alma (de Alma Welt)
278


Amanhã verei meu ser refeito
E envolto em aura, libertado,
Serei o ser que sou, o ser eleito
De mim mesma, aceso, iluminado.

Farol na noite eterna de esperança
Ou sol no dia claro sempiterno,
O timbre escolhi eu desde criança
Ao escolher o amor, o bom e o terno.

Mas, bah! se o Cerro esfria e escurece
E pelas faldas onduladas de coxilhas
Do Jarau o minuano escorre e desce,

Da alma o lado escuro me fascina
Ao perceber o quanto, sim, ele me anima,
Esse contraste que produz as maravilhas!

(sem data)

Nota
Com o seu poder de criar ou de realimentar mitos, Alma parece dizer que o minuano nasce no Cerro do Jarau (vide A Salamanca do Jarau, de João Simões Lopes Neto) e quando este escurece e esfria, escorre pelas encostas e corre pela pradaria, como um desbordamento do lado escuro do mundo. (Lucia Welt)


El claro y el oscuro del Alma (de Alma Welt)
(Versión al castellano de Lucia Welt)


Mañana no seré lo que he sido
Pero envuelta en aura, libertada
Yo seré la nueva Alma emplazada
En mi ser verdadero y alumbrado.

Farol en la noche de esperanza
O sol nel día claro y sienpiterno
El timbre he escogido: la abastanza
De mi misma, del bueno y del terno.

Pero si el Cerro se resfria y oscurece
Por las faldas ondeadas de "coxillas"
Del Jarau el minuano escurre y desce

Y del alma el lado oscuro me fascina
Al darme cuenta de cuanto, si, me anima,
Ese contraste que produce maravillas!



Noite Xamânica (de Alma Welt)
277

Quando a noite é quente em meu jardim
Me ponho na varanda, excitada
E logo vou sair fora de mim
Para livre me sentir, e mesmo alada.

E vôo, ah! eu vôo sobre as flores
Pra de cima divisar o meu quiosque
Em que um dia iniciei-me nos amores
Pra depois consagrá-los no meu bosque

Onde então me torno loba ou cadela
Ssschhh!.. a grande coisa, um sábio disse*,
Exige que jamais falemos dela,

Pois me sinto voltar ao animal,
Enquanto vultos negros como piche,
Com seus lumes já me espreitam como tal...

29/06/2006

Nota

*"...um sábio disse"- Penso que Alma, parafraseando, se refere à famosa frase de Nietzsche: "As grandes coisas exigem que não se fale delas. A menos que falemos delas com grandeza. Com grandeza quer dizer: com cinismo e inocência".

Este soneto, de nítida inspiração xamânica, parece insinuar que Alma começa a noite como um pássaro (uma coruja?) e depois se transforma numa loba no cio (cadela), espreitada por uma alcatéia de vultos escuros mas de olhos luminosos. Alma se tranforma no seu "animal de poder". (vide Xamanismo).
(Lucia Welt)



Noche de Chamán (de Alma Welt)

(versión libre al castellano, de Lucia Welt)


Cuando es noche caliente en mi jardín
Me pongo en la baranda y excitada
A mirar la pampa y su negror sin fin
Para sentirme libre, leve y alada

Y vuelo, si, yo vuelo hasta las flores
Para el quiosco ver de arriba
En que un día me he quedado de amores
Que en el bosque he consumado, oh! mi amiga,

Adonde ahora me pongo sin candelas
(cosas hay, ha dicho el Gogh, buen profeta,
que no quieren que las pinten sobre telas)

Pues me siento tornarme al animal
Cercada ya por sombras y repleta
Con el lumen de su frío ojo fatal.



Reencontrando o general (de Alma Welt)
276

Amarrei minha montaria no mourão
Adentrando então a estância estranha.
No peito eu sentia o coração
Pulsando como os palpos de uma aranha

Que aguardasse a si mesma como presa
No centro de uma teia que era o mundo.
E assim eu caminhava muito tesa,
A sentir que o momento era profundo.

Então me vi diante da varanda
Do herdeiro de meu Netto general,
Que tirou o chapéu, como se manda

E mostrando os cabelos cor de nata
Disse: "Voltaste, minha princesa, meu Graal,
Que te espero, há muito, desde el Plata."

(sem data)

Acabo de encontrar este misterioso soneto da Alma na montanha de seus textos em sua arca do sótão. Alma parece querer dizer que, rencontrando o atual descendente direto do general Netto da Revolução Farroupilha, morto misteriosamente na Argentina
(em Corrientes) aqui indicada pela expressão "el Plata", este (por ser uma reencarnação do seu tetravô?) a reconhece como seu último grande amor (Maria Escayola) e a chama de seu "Graal", expressando a grandeza de sua procura romântica. (Lucia Welt)

Reencuentro con el general (de Alma Welt)
(Versión al castellano de Lucia Welt)


Amarré mi caballo en un montón
Delante la hacienda extraña
En el pecho yo sentía el corazón
A pulsar como palpos de una araña

Que aguardáse a si misma como presa
En el centro de una tela que era el mundo
Y todavía caminaba así muy tesa
Por sentir que el momento era profundo

Y fué cuando me ví en la baranda
Del Netto, el general o su heredero
Que se sacó de pronto el sombrero

Y ostentando el pelo color de nata
Ha dicho: tornaste, mi princesa blanda,
Que te espero, hay mucho, desde el Plata.

(sin data)


Palavras ao Vati (de Alma Welt)
275

Dá-me teu colo, Vati, estou carente,
A Açoriana acaba de afastar-me.
Eu sei, ela me acha delinqüente,
Somente tu, ó Vati, sabe amar-me.

Ela diz que me espevito ao ver "um macho",
Tu ou Rôdo, dia e noite, e sem que
Jamais, ela diz, "sossegue o facho"
Mesmo servida a minha quota de rebenque.

Mas, pai, foste tu que me criaste
E me disseste pra ser sempre verdadeira,
Que minha pele já propunha esse contraste

Com, do falso a escura face, escondida,
E que jamais porias na coleira
O ser que iluminou a tua vida!


06/11/2006

Palabras al Vati (de Alma Welt)
(Versión al castellano de Lucia Welt)

Dáme tu cuelo, Vati, estoy carente,
La Azorana acaba de alejarme.
Yo lo sé que me reputan delincuente,
Y solamiente tú sabes amarme.

"Ay! que no puedes ver macho, desde luego,
Tu Vati o el Rodo, dia y noche, sin que
Desdichadamente te despierte el fuego"
Y me sirve mi cuota de rebenque...

Pero, mi padre, ha sido tú que me criaste
Y me alertado a ser siempre verdadera
Y que mi piel propugna este contraste

Con la oscura cara del falseo, escondida,
Y que jamás quisieras ver en la collera
El ser que siempre ha alumbrado tu vida.


A leitoinha (de Alma Welt)
274

Galdério, prepara a tua charrete
Que hoje não quero cavalgar!
Leva-me como quando eu tinha sete
E dormia no teu colo ao regressar

E me tomavas nos braços com candor
Ao salão me transportando sem eu ver,
Me punhas sobre a mesa por humor,
Dizendo: “Hoje leitoinha vamos ter!”

E eu já despertada mas fingindo
Não resistia e gargalhava afinal
Sem ousar abrir os olhos, sensual,

Pois sentia o teu olhar tão inocente
Percorrer meu pequeno corpo lindo
Que queria ser tomado docemente...

09/07/2006

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Fiquei estarrecida ao descobrir hoje este soneto na arca da Alma. Senti-me primeiramente perplexa, depois chorei muito.
Ficou claro para mim, de repente, o gesto insólito, aparentemente incompreensível de Galdério ao pegar o corpo nu da Alma, quando de sua morte afogada no poço da cascata, e vir com ele nos braços como um sonâmbulo para depositá-la sobre a mesa do salão onde começou o seu espantoso velório nu, até ser interrompido pela irupção indignada de Matilde cobrindo-a com uma toalha de mesa, como um sudário.
Vide o blog "Vida e Obra de Alma Welt":(www.almawelt.blogspot.com) onde publiquei, já há tempos, a carta que escrevi na ocasião fatídica, narrando as circunstâncias da morte e do velório de minha amada irmã. (Lucia Welt)

La lechona (de Alma Welt)
(versión al castellano de Lucia Welt)

Galderio, en el carro "andiamo via"
Pues que hoy no quiero cabalgar!
Recuerdas cuando siete yo tenia
Y dormía en tu cuello, al retornar?

Y me tomabas en tus brazos con candor
Al salón me portando a nueva escena
Y al ponerme en la mesa con humor:
“Hoy habremos lechón para la cena.”

Y yo, ya despertada y disfrazando
No podría contenerme carcajada
Sin osar abrirme el ojo y encantada

Pues que sentía tu mirada inocente
En mi cuerpito tan bonito y ya amando
Que quisiera ser tomado allí, caliente


Nota
Aproveito para republicar aqui um dos Sonetos Pampianos da Alma (o de n° 232) em que ela aborda esse tema, tão terno e sugestivo: o de ser retirada adormecida da charrete e ser carregada por Galdério até a sala do casarão onde era colocada num sofá ou mesmo sobre a grande mesa como ela revelou no soneto acima.



Pietà sulina (de Alma Welt)
273

Vinha o gaúcho troncho em sua sela
Ferido por adaga gravemente,
Na mão direita a rédea como vela,
A outra mão a segurar o rubro ventre.

E estacando o seu pingo emfim cedeu,
Fez um aceno vago e foi caindo
Nos braços do Galdério que acorreu
A ampará-lo como a um guri dormindo.

E enquanto a alma ia sem adeus
Eu gravei a cena em minha retina
Como uma Pietà leda e sulina

Pois agora já estava entre os seus
Como o outro na estação divina
Fixando a morte insólita de um deus.


(sem data)

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Pietá del Sur (de Alma Welt)
(Versión libre al castellano de Lucia Welt)

Venia el gaucho curvo en su silla
Herido por espada y ya exangüe
Y en la mano derecha la cedilla
De la rienda rubra de su sangre

Y estacando su caballo me miró,
Ha hecho un gesto vago y se cayó
En los brazos del Galderio decidido
Que lo amparó como a un niño dormido

Y al ver el alma fuera de su campa
Yo gravé la escena en mi retina
Como una pietá honda y canina

Pues ahora ya estaba entre los suyos
Como aquél otro de la trágica estampa
A fijar la muerte insólita de un dios.


(sin data)



Conluios da Noite (de Alma Welt)
272

Elevam-se na noite os murmúrios
Das conspirações que aqui houveram
Nos tempos farroupilhas, e os conluios
Que nos ecos desta casa ainda prosperam.

E ouço: Canabarro se rebela
Contra Bento nosso grande comandante
Enquanto o bravo Netto se revela
O mais fiel amigo doravante.

Mas bah! são as prendas que os inspiram
Com seu doce pranto derradeiro
Na paixão ardente em que deliram,

Juntas, pelos quartos, e ao fogão
Cujas cinzas liberam um rico cheiro
Que, alta noite, invade o casarão...

02/10/2006

Conjuras en la noche (de Alma Welt)
(versión al castellano de Lucia Welt)

Suben en la noche los susurros
De las conjuras que acá hubieron
En los tiempos farroupillas y los turros
Que en esta casa se murieron

Y oigo: Canabarro se rebela
Contra Bento el nuestro comandante
En cuanto el bravo Netto se revela
Un amigo fiel, más adelante.

Pero son las “prendas” que los inspiran
Con su llanto verdadero y los de broma
En la pasión ardiente en que deliran

Juntas en los cuartos y al fogón
Cuyas cenizas aún liberan rico aroma
Que de noche invade el caserón.


Meu overmundo (de Alma Welt)
271

Tive um sonho esta noite, recorrente,
Pois me pareceu bem familiar:
Eu morria jovem, de repente,
E não podia decidir quando voltar.

Antes me era dado ver o mundo,
Mas sem escolher hora e lugar
E teria assim meu overmundo
Pois que Deus me queria premiar.

Mas, bah! eu chorava de saudade
Do meu pampa, estância e casarão,
Minha querência, Rôdo, nossa herdade!

E tanto solucei, e o pé batia,
Que Deus não suportando a confusão
De cabeça me atirou na pradaria!...
14/11/2006

Nota
Surpreendentemente, encontrei hoje de manhã este soneto inédito da Alma, em sua arca, que evidencia que ela conhecia o poema de Murilo Mendes, e que este a inspirou de maneira singular. Mas pode-se perceber também a semelhança da cena por ela descrita com um outro texto, um belíssimo monólogo de Cathy Earnshaw (ou Cathy Lindon), do romance O Morro dos Ventos Uivantes( Wuthering Heights) de Emily Brönte, que Alma amava sobretudo, por sua imensa identificação com a personagem da charneca inglesa vitoriana). (Lucia Welt)


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Mi overmundo (de Alma Welt)
(versión al castellano de Lucia Welt)



Tuvo un sueño esta noche, recurrente
Pues me pareció muy familiar:
Yo moría joven, de repente,
Y no podría decidir cuando tornar

Antes me era dado ver el mundo
Aunque sin escoger hora y lugar,
Yo tenería así mi "overmundo"
Pues que Dios me quería premiar.

Pero yo lloraba en nostalgia
De mi Pampa, hacienda y caserón
Nuestra herencia, Rodo, lo que habría!

Y tanto he sollozado y el pie batía
Que Dios, que no es ningún cabrón,
Me lanzando en la pradera se reía.



Memória do Bosque Sagrado (de Alma Welt)
270

Esta noite irei ao meu pomar
Acender a pira dos meus deuses
Ali eles verão eu me ajoelhar
Como outrora no bosque de Elêusis.

E ao ver o fumo branco ascender
Do nosso mate em proporção secreta,
Eu me regozijarei ao perceber
Que os deuses aceitaram minha oferta.

E então eu abrirei meu coração
Para que vejam o ardor do meu desejo
Que não exclui pureza e devoção,

Pois quero somente preservar
A união de todos em que vejo
A mesma solidão, o mesmo olhar...

24/12/2006

Nota
Encontrei na arca da Alma esta reprodução de quadro de Arnold Boecklin do acervo do Hamburger Kunsthalle, em cartão postal onde no verso ela escreveu este soneto na véspera do seu último Natal. Como podem perceber Alma acreditava ter, numa de suas encarnações, vivido em Elêusis onde fora uma sacerdotisa órfica, do culto de Mistérios daquela doutrina reencarnacionista do século VII A.C., na Grécia. (Lucia Welt)


Aqui estarei... (de Alma Welt)
269

Aqui estarei, meu Rôdo, quando tudo
Naufragar em nós com o navio
Que é este casarão já quedo e mudo
A crepitar como uma vela sem pavio,

E nós, como sombras sorrateiras
Esgueirarmo-nos por estes corredores
Ou por este salão e suas soleiras
Que olharão para os últimos albores

Já a nos ver espectrais em cavalgadas
Ou mesmo a pé a vagar nas pradarias
Nas novas noites, eternas e tão frias...

Ai! Não mais claras manhãs, e orvalhadas,
Onde rindo perdoavas meus deslizes
E eu aos teus, por sermos tão felizes!

14/01/2007

Nota
(Encontrei agora mais este soneto que me fez chorar. Alma previa sua morte iminente e expressava seu amor desmedido por isto tudo, sua vontade de permanecer para sempre por aqui, mesmo vagando, sem manhãs orvalhadas. Mas... ela se via a vagar eternamente com Rôdo, o irmão amado.(Lucia Welt)


De sonhos e de vinho (de Alma Welt)
268

Os sonhos dos meus antepassados
Perpassam meus sonhos, eu percebo,
Mas nem por isso são sobressaltados.
E assim posso amá-los, e os recebo

Densos, encorpados, como o vinho
Que legaram a nós no casarão,
Ali sob meus pés, que os advinho
Dormitando mansos no porão

E que quando vêm à mesa entre risos
E o tilintar dos brindes e desejos
Trazem lágrimas de amor por entre beijos

Que estalam nos lábios como guizos
De uma canção ouvida dos avós
Ou como um só coração dentro de nós.

(sem data)


Meu trem fantasma (de Alma Welt)
267

Venham formas-pensamentos, devaneios,
E invadam-me de noite o casarão!
Meus amores estão longe, e os anseios
Preservam-me da negra solidão.

Mas o vazio... a custo eu o evito
Pois sei que ele, só, pode matar-me.
Venha aquele trem, pois, assombrar-me
Com seus brancos fumos e o apito

Naquela plataforma enevoada
Onde sempre deixei os meus queridos
Para vê-los partir em revoada

Envoltos no vapor de suas glórias,
Me deixando aqui, como os banidos,
Num comboio eterno de memórias...

29/12/2006

Nota
(Acabo de encontrar na arca da Alma, este magnífico e misterioso soneto, até então desconhecido por mim, que evoca como metáfora a estaçãozinha e o trem maria-fumaça que serve as nossas terras, imagem recorrente em outros sonetos e também em crônicas e romances de minha saudosa irmã. (Lucia Welt)
______________________________________

A título de curiosidade republico aqui este soneto da série Pampiana, para evidenciar a recorrência dessa imagem da estaçãozita e do trenzito maria-fumaça que serve nossas terras e que era tão querido por minha saudosa irmã. (Lucia Welt)


Os últimos brindes (de Alma Welt)
266

Por ser filha amada de meu pai
Eu pude acreditar em ser poeta,
E suspeito que o mundo um dia vai
Fruir e degustar a predileta

Nascida sob estrela de abastança,
Interior, quero dizer, e dadivosa
Meu desejo é desbordar-me generosa
Como o cálice servido na festança

Quando o "gáltcho" grato na querência
Começa a discursar aos seus compadres
E a mão já lhe treme em conseqüência

Pois os brindes brotam já em borbotões,
Junto com as juras aos confrades
De veraz fidelidade entre peões.

19/12/2006



Nota

Emocionou-me a descoberta recente de mais esta "profissão de fé" da Alma, mista de saudação (ou brinde) e despedida do seu público como os confrades da festa da Vida. (Lucia Welt)


Sonhos (de Alma Welt)
265

Meu corpo traz em sua memória
O toque e as carícias dos amados,
Homens e mulheres, e a história
Dos murmúrios e silêncios encontrados.

E assim, abandono-me no sonho
Carregada de vívidas lembranças
Como arquivo vivo que disponho
Para os dias de menos esperanças.

Eis porque acordo perturbada,
Menos por carência e mais paixão,
Por vezes uma ânsia exasperada,

E erguendo-me da noite na calada
Vou ao seu leito, em sonho da razão,*
Insinuar-me nua, assim, colada...


(sem data)

*Nota
O fato de Alma ter colocado como epígrafe a famosa frase encontrada numa gravura de Goya da série Caprichos denota a consciência plena de sua relação proibida, já bem conhecida de seus leitores. Todavia sempre achei que a beleza lírica que ela punha na abordagem dessa relação, a fazia transcendente, a justificava e absolvia. (Lucia Welt)


O recurso Münchhausen (de Alma Welt)
264

Como viver depois de ter vivido
Não o amor mas horror do coração
Após golpe, desonra, humilhação
Ou violação da carne sem sentido?

Como viver com o sonho desfeito
Do que era a própria imagem do viver?
Cair das nuvens ou mesmo desse leito
Onde se foi feliz, e não morrer?

Bah! Há que puxar-se por cabelos
Da alma como o lance do barão
Que afundava só e sem apelos

No poço de uma movediça lama,
E com o baio magro da razão
Alçar-se bem acima dessa cama!


08/03/2002

Nota

Acabo de encontrar mais este soneto inédito da Alma, na sua arca. Publiquei-o imediatamente no blog dela dos Metafísicos. Entretanto detectei nas duas estrofes uma alusão a um estupro real sofrido por ela, não sei se aqui na estância ou em São Paulo. Mas ela se refere a um leito. A julgar por outras narrativas suas eu teria que descartar a imagem de uma cama, que aqui seria meramente simbólica, pois as ocorrências que eu conhecia descartavam esse artefato e mais horrorizavam pelos locais e circunstâncias. Mas, por outro lado, admito a possibilidade de estar equivocada e o soneto da Alma ser uma pura alegoria das desiluções, das dores da alma e da capacidade do ser humano de recompor-se com as próprias forças. Devo lembrar também que a evocação desse episódio das aventuras do famoso barão bávaro é recorrente na obra da Alma, e já fora citado, por exemplo, no final do belíssimo conto Aline, dos Contos da Alma de Alma Welt , publicado pela Editora Palavras & Gestos, de São Paulo.(Lucia Welt)


Agradecida (de Alma Welt)
263

Pelos amores que quis ou que vivi
Nos dias e nas noites estreladas,
Em apelos à lua e às amadas
Estrelas cujas luzes recebi;

Pelo dom que assim me fora dado
Quando erguida nos braços de meu Vati*
Fui consagrada como ser predestinado
A ser um ser de luzes, mesmo um Vate;

Pelas doces coisas que me deram
Aqueles que tão logo rodearam
A guria que em contentar se esmeram,

Mimada, servida, tão louvada...
E a alguns que até me bajularam
Como se princesa fora... OBRIGADA!

16/01/2007

Notas
Descobri nesta madrugada este sugestivo e comovente soneto de minha irmã, que ao mesmo tempo que reflete seu reconhecimento pelos privilégios de sua vida, soa como uma despedida, sim, um agradecimento final de quem está prestes a sair de cena, o que ocorreria quatro dias depois, no fatídico 20/01/2007. E novamente chorei... (Lucia Welt)

* Vati- pronuncia-se Fáti (papai, em alemão. De Vater (pr. Fáter, pai). É como chamávamos nosso pai, o músico, estancieiro e erudito Werner Friedrich Welt.





O fio da navalha (de Alma Welt)
262

Quando penso nos lances que vivi,
Vejo que já estavam em meu destino
E ao passar por eles revivi
Um trajeto antigo e muito fino:

Uma espécie de fio de uma navalha
Em que caminhamos entre abismos
Para subir ao Olimpo ou ao Walhalla
Ou alguns que tais paroxismos.

E depois do caminho percorrido
Quase divididos pelo fio
Chegamos ao plano prometido

Um enorme e belo prado ondulado
Pelo Letes* cortado, aquele rio,
E teremos a nós mesmos alcançado.

09/06/2006

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Notas

Encontrei este soneto manuscrito, solto no meio da papelada da Alma, e dei-me conta de que não o conhecia, não o transcrevera ainda nos seus blogs. Acabo de publicá-lo nos "Sonetos Metafísicos da Alma", que recomendo aos leitores:
www.sonetosmetafisicosdealmawelt.blogspot.com (Lucia Welt)

Letes- rio do esquecimento que cortava a planície do mesmo nome, e de cujas águas as almas dos mortos eram obrigadas a beber, esquecendo assim a sua vida anterior antes de escolherem sua nova vida. Ao todo passamos por dez encarnações em cada ciclo de mil anos, segundo Platão no mito órfico de Er, nas últimas páginas de A República.


Altas horas (de Alma Welt)
261

Altas horas, o sono interrompido
Pelas batidas do relógio pendular
De meu avô, o boche pouco lido
Que o instalou na sala de jantar

Para ser um marco ou referência
De sua passagem tão austera
Por este casarão e sua esfera:
O vinhedo, o pomar e a querência...

Então eu me levanto e saio nua
Quando estamos do verão no suadouro
Ou de camisola, menos crua,

Para ir ao mundo dos meus livros
Pousados nas estantes, logradouro
Dos mortos que permanecem vivos.


17/12/2006

Nota:

Não paro de descobrir novas preciosidades da Alma na sua arca do nosso sótão. Seus sonetos (já passam de mil os que publiquei nestes seus 22 blogs) constituem por si só um corpo de obra monumental, sem contar os textos em prosa, contos e crônicas, lendas e romances. Este soneto me encantou sobremaneira, pois, como testemunha, quantas vezes também despertei com as sonoras e sinistras badaladas do relógio e fui encontrar a Alma, linda e nua a ler na poltrona do escritório onde adormecia novamente com freqüência, até ser descoberta ali, nesse estado, por nossa mãe, que a arrastava dando-lhe lambadas até o quarto, ou por nosso Vati, que ao contrário a carregava nua no colo, com carinho, de volta ao seu leito.(Lucia Welt)

Meu Pampa verdadeiro (de Alma Welt)
260

Para além do meu jardim e do vinhedo
Começa o meu pampa verdadeiro,
Bem mais que de um mar o arremedo,
As ondas em que o “gaucho” é marinheiro:

As coxilhas ondulantes, femininas,
Semeadas de intermitentes frondes
Dos umbus que coroam as colinas
Onde senta o peão mirando os “ondes”

Para logo remontar o fiel pampa
A galope desatado atrás da rês
Ou as bolas girando, aquelas três

Pra bolear as pernas de uma ema,
Ou o laço enroscar num par de guampa
Como quem lança o fecho de um poema.

04/12/2006
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Encontrei recentemente mais estas duas jóias de minha irmã (na montanha de papéis dos inéditos da sua obra, na arca do nosso sótão) que se enquadram na série "Sonetos Pampianos" que eu precipitadamente fechara em 258. As novas descobertas deste tipo estou agora publicando aqui e no blog dela entitulado "Sonetos Gauchescos da Alma" (Lucia Welt)

Meu evangelho do Pampa (de Alma Welt)
259

Por esta manhã que me acordou
Eu sigo pela senda renovada
Que me confirma onde Amor brotou
Quando dei por mim tão deslumbrada

E era a guria apaixonada
Por tudo e por todos nestes prados
Em que renasci, pois transplantada
Viera de uma terra de emigrados,

Lá do Novo Hamburgo, Hamburgo Velho
Que a mim me dera só germanidade
Faltando do meu Pampa o evangelho

Que consiste na amplidão da herdade
E o meu senso de vôo (bah! não riam!)
Em que corpo e alma se uniriam...

16/11/2006