<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-6150313039753411283</id><updated>2012-01-28T23:54:45.923-02:00</updated><title type='text'>Vida e Obra de Alma Welt</title><subtitle type='html'>Este espaço pretende ser um veículo de divulgação da obra literária da poetisa gaúcha Alma Welt (1972-2007), grande revelação feminina das Letras do nosso país neste começo de século.</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://almawelt.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6150313039753411283/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://almawelt.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><link rel='next' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6150313039753411283/posts/default?start-index=101&amp;max-results=100'/><author><name>Lúcia Welt</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07605250870392022092</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>283</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6150313039753411283.post-3142351380275449550</id><published>2008-03-29T05:59:00.010-03:00</published><updated>2008-04-01T13:23:50.353-03:00</updated><title type='text'>Carta de Lucia ao Guilherme relatando a morte da Alma</title><content type='html'>Passados já um ano e dois meses e meio da morte da Alma, resolvi hoje publicar aqui o e.mail que enviei ao nosso amigo Guilherme de Faria, de São Paulo que foi grande amigo da Alma e seu descobridor, lançador, prefaciador e ilustrador, relatando a ele as circunstâncias da morte trágica de minha amada irmã.  Este famoso artista plástico e poeta cordelista paulista descobriu a arte e a literatura da minha irmã em Julho de 2001 quando a visitou no ateliê de pintura que ela manteve por quatro anos na região dos Jardins na capital paulista, e merecia ser o primeiro a ser comunicado fora do nosso círculo familiar. Devo dizer que uma versão desta carta eu publiquei em seguida na página da Alma no Recanto das Letras, quando encontrei seu computador ligado e aberto na sua página com a senha salva, e resolvi participar a tragédia aos poetas recantistas, colegas da Alma e supostos amigos seus. Infelizmente minha carta produziu um imenso escândalo e, equivocada e mesquinhamente minha irmã e o Guilherme de Faria foram expulsos daquele site tendo, espantosamente, sido seus cadastros cancelados pelos editores daquele site. Eis aqui o relato que causou aquele imenso tumulto, e indignação:&lt;br /&gt;   &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Guilherme&lt;br /&gt; A tragédia abateu-se sobre a nossa casa. Alma está morta. Minha pobre irmã matou-se por volta do meio dia de hoje. Esperaram-na para o almoço, e como ela não chegava de suas andanças todos começaram a ficar inquietos, pois ela andava esquisita, novamente, nos últimos dias. Rodo, a doutora Jensen, e Matilde, saíram para procurá-la e percorreram os lugares preferidos dela, o quiosque do jardim, o pomar, o bosque, e até a pradaria em torno da casa. Afinal foram até a cascata. Ali, encontraram o seu vestido branco, sobre a alta margem de pedra do poço, ou piscina da cascata. Ali, pode-se ver de cima a superfície cristalina da piscina natural formada pelas águas que caem na cabeceira do poço, único ponto mais tumultuado. Rodo num ponto mais alto avistou o corpo nu muito branco, de minha irmã, a poucos metros do fundo. E mergulhando retirou uma corda que a prendia a uma pesada pedra, pelo pescoço, para que não subisse. Ele a retirou das águas, gritando, gritando seu nome, em desespero. Ele a colocou na margem e tentou fazer uma respiração boca a boca, mas que era mais um beijo trágico, pois ele desmaiou de dor sobre ela. Ao voltar a si, estava como louco, e está assim até agora, num tal sofrimento, que teme-se pela sua vida. Galdério, quase catatônico, de maneira automática e instintiva, paternalmente  como costumava fazer quando Alma era pequena ao tirá-la adormecida de sua charrete,  pegou seu corpo como estava e veio com ela nua nos seus braços andando pela pradaria em direção ao casarão enquanto a noticia corria, até entrar no salão e depositá-la sobre a grande mesa de jantar. Tudo isso me foi contado por Matilde ao telefone, em meio a um choro convulsivo. Deixei as crianças aos cuidados de Alícia, sem contar a elas o que e estava acontecendo, peguei o carro e dirigi em disparada até a estância. Aqui encontrei minha irmã posta ainda nua sobre a grande mesa da sala. Seu corpo tão branco estava mais lívido ainda, o que fazia com que se parecesse com uma estátua do mais puro mármore de Carrara, tal a beleza que ainda conservava. Tinha somente uma marca circular, avermelhada, ao redor do seu longo pescoço de bailarina. As pessoas da estância, até os peões e suas mulheres já tinham invadido a sala e velavam com enorme reverência seu corpo nu deslumbrante. Nem mesmo a doutora Jensen, arrasada, pediu que a vestissem. Era como se todos sentíssemos que sua nudez era sagrada. Foi então que Matilde suspendeu tal desvario, irrompendo na sala com uma grande toalha de mesa de renda branca na mão, gritando: “Cubram a minha guria, seus ímpios! Afastem-se todos, cubram minha guria!”&lt;br /&gt;        Começaram então as velas acesas, as novenas e o pranto coletivo.&lt;br /&gt;        Agora o corpo de minha irmãzinha será levado até Santana do Livramento  onde será cremado, como ela queria, para que suas cinzas sejam trazidas de volta e espalhadas ao vento, pelos locais da estância que ela mais amava: as flores do jardim, o pomar, o bosque, a campina ao redor do casarão e o vinhedo. Seu amado pampa será sua morada para sempre. Nossa estância, nossa terra nunca mais será a mesma. Não sei sequer se sobreviveremos à perda de nossa Alma amada, que era tão bela por dentro quanto por fora. Jamais haverá alguém como ela. Sentimo-nos perdidos, Guilherme, nosso amigo, que a descobriu e amou aí em São Paulo, e que tudo fez para que tivesse um livro seu publicado, e que tanto parece conhecer a alma e coração precioso de nossa irmã.&lt;br /&gt; O que mais temo agora é a reação de meus filhos e sobrinhos quando souberem do acontecido. Ai! Não sei o que será deles, que a amam tanto!&lt;br /&gt; Reze por nós, meu amigo, pois esta família precisa de orações, pois lágrimas já temos demais!&lt;br /&gt; Lucia&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; 20/01/2007&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6150313039753411283-3142351380275449550?l=almawelt.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://almawelt.blogspot.com/feeds/3142351380275449550/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6150313039753411283&amp;postID=3142351380275449550&amp;isPopup=true' title='19 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6150313039753411283/posts/default/3142351380275449550'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6150313039753411283/posts/default/3142351380275449550'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://almawelt.blogspot.com/2008/03/carta-de-lucia-ao-guilherme-relatando.html' title='Carta de Lucia ao Guilherme relatando a morte da Alma'/><author><name>Lúcia Welt</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07605250870392022092</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>19</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6150313039753411283.post-912603630549538361</id><published>2008-03-15T21:02:00.014-03:00</published><updated>2010-04-20T09:56:31.358-03:00</updated><title type='text'>OS SONETOS PAMPIANOS DA ALMA</title><content type='html'>&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_ZMrK3KE-cjw/SP6hL7VZJaI/AAAAAAAABnI/uieWVY6jGPg/s1600-h/alma+Welt+III.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;" src="http://1.bp.blogspot.com/_ZMrK3KE-cjw/SP6hL7VZJaI/AAAAAAAABnI/uieWVY6jGPg/s320/alma+Welt+III.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5259818641093371298" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;Este blog contém a obra monumental de Alma Welt, os famosos SONETOS PAMPIANOS DA ALMA, que lidos em seqüência relatam a saga da autora em sua estância nos pampas desde a sua infância. Seus sonhos, devaneios, ânsias, relatos, crônicas de sua vida cotidiana, estórias e diálogos pitorescos dos empregados da casa e dos peões, lembranças dos irmãos, pais e avós, seus amores, seus medos e dúvidas, seu entusiasmo comovedor pela vida e pela arte, formam um conjunto grandioso, e um retrato magnífico da vida numa estância gaúcha no extremo sul do Brasil.&lt;br /&gt;Eu, Lucia Welt, irmã da poetisa abri este e outros blogs (clique em visualisar perfil completo) para publicar a imensa obra póstuma ( ao todo mais de &lt;strong&gt;1.000 sonetos&lt;/strong&gt;, além de contos,crônicas, poemas e romances) desta poetisa renovadora das nossas letras, que já se tornou cult e que mesmo sendo de base essencialmente romântica consegue atualizar e justificar essa corrente em pleno alvorecer do século vinte e um.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6150313039753411283-912603630549538361?l=almawelt.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://almawelt.blogspot.com/feeds/912603630549538361/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6150313039753411283&amp;postID=912603630549538361&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6150313039753411283/posts/default/912603630549538361'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6150313039753411283/posts/default/912603630549538361'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://almawelt.blogspot.com/2008/03/257-sonetos-pampianos-da-alma.html' title='OS SONETOS PAMPIANOS DA ALMA'/><author><name>Lúcia Welt</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07605250870392022092</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_ZMrK3KE-cjw/SP6hL7VZJaI/AAAAAAAABnI/uieWVY6jGPg/s72-c/alma+Welt+III.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6150313039753411283.post-7610159907313215156</id><published>2008-03-15T21:01:00.051-03:00</published><updated>2011-12-17T14:41:05.035-02:00</updated><title type='text'>A Carruagem  (de Alma Welt)</title><content type='html'>&lt;strong&gt;A carruagem (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;1001&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um piano toca no salão!&lt;br /&gt;Ah! e não fui eu que coloquei&lt;br /&gt;Um CD ou um velho long play,&lt;br /&gt;Talvez seja o Vati, e então...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele voltou! Sim, ele me quer!&lt;br /&gt;Vou ao seu encontro e sou mulher!&lt;br /&gt;Sim, ele vai ver agora sou&lt;br /&gt;Pelo menos a guria que sonhou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olha, Vati, há muito não me vias,&lt;br /&gt;Mas de verso em verso muito errei&lt;br /&gt;Pelo mundo, a viajante que querias...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E agora, com toda esta bagagem,&lt;br /&gt;Leva-me contigo que eu irei&lt;br /&gt;Quietinha, assim, na carruagem! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;19/01/2007&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nota da editora:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este soneto, &lt;strong&gt;o último da vida e da obra da Alma&lt;/strong&gt;, publicado por ela no Recanto das Letras, tocou muitas pessoas que vinham acompanhando a série pampiana, publicados um ou mais por dia, em tempo real. Os leitores talvez sentiram que se tratava de uma despedida, mas não conscientizaram, pois as leituras registradas desse soneto só dispararam quando coloquei na página de minha irmã (por encontrá-la com a senha salva no seu computador) o anúncio de sua morte, com detalhes, o que indignou a muitos, e peço desculpas. A partir do momento da publicação do anúncio fúnebre, as leituras deste soneto foram rapidamente para mais de 300 registradas nos cinco dias seguintes,enquanto o total das leituras dos textos da Alma subiram mais 2.000 atingindo a marca de 14.000 e tantas, o que mostra a curiosidade válida, ou mórbida, não julgo, que as últimas palavras de um(a) grande poeta causam nos seus pares ou mesmo no público em geral. (Lucia Welt) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Despedida (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;1.000&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Está na hora, vou me despedindo...&lt;br /&gt;Foi uma longa jornada toda em verso.&lt;br /&gt;Cantei a vida, o bom e o lindo&lt;br /&gt;E por algum soneto controverso&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não pedirei desculpas a vocês&lt;br /&gt;Pois meu coração foi sempre puro&lt;br /&gt;E não quis chocar nem o burguês&lt;br /&gt;Nem bater cabeça contra o muro&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Das opiniões e dos costumes&lt;br /&gt;Pois quem sou pra amaciar o duro couro&lt;br /&gt;Que não queira passar pelos curtumes?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A alma abri e ela mesma eu sou,&lt;br /&gt;Preferi distribuir-me toda em ouro&lt;br /&gt;Que as pérolas meu orgulho não deixou...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;18/01/2007&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Auto-Retrato (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;999&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Toda uma vida em mil sonetos...&lt;br /&gt;Mais hum pra ser exata em minhas contas.&lt;br /&gt;Posso me orgulhar dos meus quartetos&lt;br /&gt;E algumas chaves, se o ouro me descontas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se não cheguem a ser fechos dourados,&lt;br /&gt;Também algumas pobres rimas falsas&lt;br /&gt;Sem contar os lamentáveis pés quebrados&lt;br /&gt;Com que tenho dançado algumas valsas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No final, o conjunto é até bem posto&lt;br /&gt;Conquanto discutível no detalhe&lt;br /&gt;E mesmo anacrônico no gosto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas quê importa? Cantei-me para mim,&lt;br /&gt;É risível, eu sei, nem bem me calhe&lt;br /&gt;Sincero auto-retrato, tanto assim... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;17/01/2007&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Encontro com a Moira (de Alma Welt)&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;998&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Encontrei a Moira em meu pomar&lt;br /&gt;E ela confirmou a minha data.&lt;br /&gt;Não deu tempo pra se resignar&lt;br /&gt;Àquela que o tempo nunca mata,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois não desperdicei as belas horas&lt;br /&gt;Que me foram dadas nesta vida&lt;br /&gt;E amei uma a uma estas senhoras&lt;br /&gt;Que servem o Tempo sem medida&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que entretanto medida nos impõe,&lt;br /&gt;O que me parece muito injusto&lt;br /&gt;Da parte de quem tanto dispõe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas não vou no final ironizar &lt;br /&gt;Que até a ironia tem um custo,&lt;br /&gt;É uma forma de nos desperdiçar...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;17/01/2007&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Folhas Mortas (de Alma Welt)&lt;br /&gt;997&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As folhas mortas pelo solo do jardim,&lt;br /&gt;Vejo-as transformarem se em adubo.&lt;br /&gt;Não farei disso comparações em mim,&lt;br /&gt;Que a paciência dos outros não perturbo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nada mais corriqueiro e aborrecido&lt;br /&gt;Que metáforas, e mais, edificantes!&lt;br /&gt;Se o soneto é o meu caminho preferido&lt;br /&gt;Não farei dele trilha de elefantes&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Repisando com patas adiposas...&lt;br /&gt;Cá estou a fazer também imagens,&lt;br /&gt;Que as tinha descartado, como às rosas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bah!Do meu jardim de folhas mortas&lt;br /&gt;Vim parar num deserto de miragens,&lt;br /&gt;Perdi o rumo evitando as linhas tortas...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Pequeno Teatro do Mundo (de Alma Welt)&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;(lembrando Der Mond, de Carl Orff 1895-1982)&lt;span style="font-style:italic;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;996&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fora da Poesia não há vida&lt;br /&gt;Que seja apreciável e condigna.&lt;br /&gt;É claro que há aquela sórdida,&lt;br /&gt;Sem contar com a versão malígna...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas me refiro à que cabe no Sonho&lt;br /&gt;E tem até seu teatrinho ao luar.&lt;br /&gt;Esta, a verdadeira, que suponho,&lt;br /&gt;Não distingue o chão do pleno ar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu não queria viver se não houvesse&lt;br /&gt;Uma saída lateral neste teatro&lt;br /&gt;E se entrar por ela não pudesse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois no Pequeno Teatro deste Mundo&lt;br /&gt;Prefiro estar no palco até de quatro,&lt;br /&gt;Ou então na coxia, mais ao fundo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nota&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"O PequenoTeatro do Mundo", este o título com que no Brasil foi apresentada a opereta Der Mond (A Lua), do compositor alemão Carl Orff (autor da célebre cantata Carmina Burana) nos anos 90 em São Paulo.( Lucia Welt)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Embora a associação de Carl Orff com o nazismo nunca tenha sido comprovada, Carmina Burana tornou-se muito popular na Alemanha nazista depois de sua apresentação na cidade de Frankfurt, em 1937. Orff era amigo de Kurt Huber, um dos fundadores do movimento de resistência Die Weiße Rose (em alemão, "A rosa branca"), condenado à morte pelo Volksgerichtshof e executado pelos nazistas em 1943. Depois da Segunda Guerra Mundial, Orff alegou ter sido membro do grupo, tendo-se envolvido na resistência, mas não há evidências disso". (Wikipedia)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;&lt;br /&gt;Poentes Dourados (de Alma Welt)&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;995&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os poentes dourados do meu pampa&lt;br /&gt;Me fizeram aqui permanecer&lt;br /&gt;E ir preparando a minha campa&lt;br /&gt;Para a esta grande troupe pertencer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fiz meu balcão ou coxia na varanda,&lt;br /&gt;Tiete ou camareira, não importa,&lt;br /&gt;Mas olhando o que o Diretor comanda&lt;br /&gt;Todo dia em frente à minha porta&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dizendo: "Acomoda-te, é hora!&lt;br /&gt;Dirijo luzes, não espera que eu dance&lt;br /&gt;Para ti que pouco reza e muito chora."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Sei que sabes dar valor à grande Arte.&lt;br /&gt;Escreveste o teu próprio romance&lt;br /&gt;Aprecia agora o show que venho dar-te."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;A Festa (de Alma Welt)&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;994&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não levantei o punho contra o céu&lt;br /&gt;Por saber meu prazo já tão curto&lt;br /&gt;Ao tirar dos olhos denso véu&lt;br /&gt;Sem a frágil mente entrar em surto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas se muito chorei já não o faço&lt;br /&gt;E os dias que me restam desafio&lt;br /&gt;Com as boas rimas e o compasso&lt;br /&gt;Conhecidos canais do desvario&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que ora ponho a serviço de mim mesma&lt;br /&gt;Como meio de dobrar o que me resta,&lt;br /&gt;Dupla vida para a pródiga abantesma&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que há de para sempre aqui ficar&lt;br /&gt;Entre os que jamais deixam a festa&lt;br /&gt;Do casarão e da vinha em pleno ar...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;A Visita de Lady Bones (de Alma Welt)&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;993&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pressinto que está chegando ao fim&lt;br /&gt;Conquanto ainda tão cheia de vida.&lt;br /&gt;Matilde diz que isso está em mim,&lt;br /&gt;Que vivo pensando em sua partida,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois a nossa visitante, Lady Bones,&lt;br /&gt;Gringa velha que hospedamos há um mês&lt;br /&gt;Não é dada a flautas nem trobones,&lt;br /&gt;Mas afável e gentil como uma rês.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quanto a mim, considero bem sinistra&lt;br /&gt;A insistência em ir comigo ao poço&lt;br /&gt;E como sua dieta administra,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sem almoço, nem café nem chimarrão,&lt;br /&gt;Não admira que esteja pele e osso&lt;br /&gt;E que ao recolher-se acene a mão...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;03/01/2007&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Macunaíma de saias (de Alma Welt)&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;992&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ninguém me diga que nem tudo revelei&lt;br /&gt;E que fiz do meu soneto promoção&lt;br /&gt;De mim, do pouco ou muito que pensei&lt;br /&gt;Ou do meu jeito de tomar o chimarrão,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quero dizer... do meu modo de vida,&lt;br /&gt;Aliás considerado extravagante&lt;br /&gt;Com esta tendência assumida&lt;br /&gt;Ao nudismo e à poesia divagante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já contei até minha internação&lt;br /&gt;Que terminou com fuga pela estrada&lt;br /&gt;E quase estupro por chofer de caminhão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bem... sou afinal anti-heroína,&lt;br /&gt;Minha poesia não serviu pra quase nada,&lt;br /&gt;De saias fui talvez... Macunaíma!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;O Soneto (de Alma Welt)&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;991&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do soneto, inesgotável como a música&lt;br /&gt;Que infinitas melodias nos permite,&lt;br /&gt;Menos me instiga a face lúdica&lt;br /&gt;Que a de uma dor que não se evite&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois se reprimo o verso que me venha,&lt;br /&gt;Enlouqueço logo com a insistência&lt;br /&gt;Com que ele exige que o mantenha&lt;br /&gt;Num soneto de amor, de preferência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas o melhor verso é o que aparece&lt;br /&gt;Quando nem mesmo amando estou,&lt;br /&gt;Coisa que difícil me parece,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois sonhadora do presente e do real,&lt;br /&gt;Vim ao mundo, versejei, daqui me vou&lt;br /&gt;Como se nunca tivesse visto o mal...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;27/11/2006&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;O Que Deixamos (de Alma Welt&lt;/span&gt;)&lt;br /&gt;990&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De alguma forma passemos o que fomos,&lt;br /&gt;E o que sabemos e onde estamos,&lt;br /&gt;A cadeia não rompamos e os pomos&lt;br /&gt;Não deixemos apodrecer nos ramos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ou tombados no solo de mil larvas,&lt;br /&gt;Pois não viemos aqui sem condições,&lt;br /&gt;Sem cobrança de atitudes parvas&lt;br /&gt;Ou um questionamento das ações&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que foram ou que são o nosso rastro&lt;br /&gt;Seguido pelos que depois virão&lt;br /&gt;E no vinhedo erguerão o nosso mastro...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois com condescendência ou com desgosto,&lt;br /&gt;Ao razoável vinho ou feio mosto,&lt;br /&gt;A cabeça de algum modo abanarão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Questionando o Tigre (de Alma Welt)&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;989&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O verso, disse Rilke, é experiência.&lt;br /&gt;E levei isso tanto ao pé da letra&lt;br /&gt;Que fiz do soneto minha vivência,&lt;br /&gt;Nele o bebê, a parida e o obstetra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então sou o que escrevo, a minha obra.&lt;br /&gt;Construí-me, em rimas me moldei,&lt;br /&gt;Não existo fora, não me cobra,&lt;br /&gt;Que a ti, que mais me exiges, já me dei. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Achas pouco milhares de sonetos&lt;br /&gt;(que os preferi ao verso livre)&lt;br /&gt;Que descrevem mundos nos quartetos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E nos tercetos os pondera? &lt;br /&gt;Se com Blake não questionei o Tigre,&lt;br /&gt;Não sei mais o que sou... e quem me dera!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Inconfidências do meu jardim (de Alma Welt)&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;989&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cada flor é um poema, sim, latente,&lt;br /&gt;Com seus disfarces e segredos.&lt;br /&gt;Muito cedo tornei-me confidente&lt;br /&gt;Do meu velho jardim de enganos ledos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele viu as decantadas maravilhas,&lt;br /&gt;E as rosas, mais velhas, indiscretas&lt;br /&gt;Contam casos amorosos farroupilhas&lt;br /&gt;Das donzelas e das paixões secretas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que nutriam por heróis esfarrapados&lt;br /&gt;Que morreram com os nomes seus nos lábios, &lt;br /&gt;Ou de jovens marinheiros importados &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que nos seus lanchões, anfíbias naus,&lt;br /&gt;As tinham como doces astrolábios&lt;br /&gt;Navegando em esperanças rumo ao caos... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Notícias do Front (de Alma Welt)&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;988&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As notícias do front carteado&lt;br /&gt;Chegam por Matilde até mim&lt;br /&gt;Quando estou vagando pelo prado&lt;br /&gt;Ou devaneando no jardim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rodo ganhou!Está a caminho!&lt;br /&gt;Vem vindo no seu bólido vermelho,&lt;br /&gt;E eu, entre a vergonha e o carinho&lt;br /&gt;Preciso correr até o espelho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E me vejo perdida em outra vida,&lt;br /&gt;Alienada, meus sonhos pelo chão,&lt;br /&gt;A esperar que uma cartada me decida...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que quero? Que tenho eu com a sorte&lt;br /&gt;Nas cartas vitoriosas de um irmão,&lt;br /&gt;Se a minha é sempre a tal, da Morte?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;06/01/2007&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;O Cristal do Tempo (de Alma Welt)&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;987&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As aparências enganam, já sou velha,&lt;br /&gt;Milenar por trás da pele lisa;&lt;br /&gt;No cristal do Tempo é que se espelha&lt;br /&gt;Aquela que foi sempre a Poetisa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então o meu espelho é o contrário&lt;br /&gt;Daqueles comuns que só devolvem&lt;br /&gt;Aquilo que o Desejo, nunca vário,&lt;br /&gt;Faz ver àqueles que o comovem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como são generosos tais espelhos!&lt;br /&gt;Que eterna juventude reproduzem!&lt;br /&gt;Que olhos claros, que lábios tão vermelhos!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E eu que só nos versos me revejo&lt;br /&gt;Sou feita de três Almas que se unem:&lt;br /&gt;O velho, a menina, o realejo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Honoris Causa (de Alma Welt)&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;986&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sempre disponível para o amor...&lt;br /&gt;Que digo? Tornei-me amor eu mesma!&lt;br /&gt;Se duvidam, reparem meu labor&lt;br /&gt;Singelo, de sonetos, mas em resma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que por doar-me em catadupas&lt;br /&gt;De versos e frações de eternidade,&lt;br /&gt;Justifico minha vida tão sem culpas,&lt;br /&gt;Eis a minha responsabilidade:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mim cabe estar entre os Poetas&lt;br /&gt;E traduzir minha vida em pensamentos&lt;br /&gt;Pra que outros reavaliem suas metas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E se um só entre os corações leitores&lt;br /&gt;Com minha ajuda decifar seus batimentos,&lt;br /&gt;Serei Honoris Causa entre doutores...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt; O Tributo (de Alma Welt)&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;985&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Manhãs gloriosas na coxilha&lt;br /&gt;Que fazem ver que sempre fui feliz,&lt;br /&gt;E nada pode apagar a minha trilha&lt;br /&gt;Em direção à meta que me fiz&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que foi somente manter esta guria&lt;br /&gt;Em sua eterna juventude&lt;br /&gt;Irradiando em sonetos a poesia&lt;br /&gt;De tudo o que sei e o que pude&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pra pagar o tributo que se deve&lt;br /&gt;Ao direito de viver em plenitude&lt;br /&gt;Tornando aquela carga bem mais leve:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O lastro da culposa humanidade&lt;br /&gt;Que remonta àquele anjo do Talmude&lt;br /&gt;Que por orgulho enfrentou a Deidade...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Esporas (de Alma Welt&lt;/span&gt;)&lt;br /&gt;984&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vinha o gaúcho montado com esporas&lt;br /&gt;E estacou o pingo ante a varanda&lt;br /&gt;E pediu "trabalho só por horas"&lt;br /&gt;Pois que "assim a sorte não desanda".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então apontei-lhe os esporões&lt;br /&gt;De galo orgulhoso e irreverente&lt;br /&gt;E exigi que arrancasse esses latões&lt;br /&gt;Pois aqui o cavalo é também gente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele, que o bigode só, se abaixa,&lt;br /&gt;Colocou a mão naquela prata&lt;br /&gt;Do cabo que emergia de sua faixa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas diante do meu olhar seguro,&lt;br /&gt;Ao curvar-se enfim ele desata&lt;br /&gt;As estrelas, que jogou pr'atrás do muro...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;A Provinciana (de Alma Welt)&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;983&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhando a coxilha da sacada&lt;br /&gt;Dei-me conta de que sou provinciana&lt;br /&gt;E vivo uma vidinha retirada,&lt;br /&gt;Muito, muito aquém da Taprobana. *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E me deu uma vontade novamente&lt;br /&gt;De sair por esse mundo à queima-roupa&lt;br /&gt;E tomar o rumo do Ocidente,&lt;br /&gt;Lá onde o sol dorme de touca,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E ver a Terra lá de cima do jirau&lt;br /&gt;De uma montanha da grande cordilheira&lt;br /&gt;Ou somente do Cerro do Jarau *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que é bem mais perto desta estância, &lt;br /&gt;E também me faz voltar à brincadeira&lt;br /&gt;De viajar o mundo em minha infância...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(13/07/1999)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nota&lt;br /&gt;*&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Taprobana&lt;/span&gt; - nome antigo dado pelos gregos e romanos à ilha de &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Ceilão&lt;/span&gt;, atual Sri Lanka.&lt;br /&gt;Paráfrase do último verso da primeira estância dos &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Lusíadas&lt;/span&gt; de &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Camões&lt;/span&gt;:&lt;br /&gt;"&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Passaram muito além da Taprobana.&lt;/span&gt;"&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Cerro do Jarau&lt;/span&gt; - Conjunto de montes de 200m de altura no município de Quaraí no Pampa rio grandense, quase na fronteira com o Uruguai, que deram origem à lenda gaúcha da &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Salamanca do Jarau&lt;/span&gt; (e da &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Teiniagu&lt;/span&gt;á), celebrizada na versão de &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Simões Lopes Netto&lt;/span&gt;, e que é uma das lendas mais famosas do Rio Grande do Sul.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Sobre o que falta falar (de Alma Welt)&lt;span &lt;br /&gt;style="font-weight:bold;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;982&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O quê mais há, de fato, pra dizer&lt;br /&gt;Quando já se fez soneto sobre tudo&lt;br /&gt;E o que resta não parece merecer&lt;br /&gt;Ou é algo para que se esqueça mudo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na realidade tudo vale a pena,&lt;br /&gt;Não há o que não valha sobre a terra&lt;br /&gt;A graça de um verso, de um poema&lt;br /&gt;Se o olhar for agudo ou como serra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Conheço um conto de um francês &lt;br /&gt;À cerca de uma pobre empregada *&lt;br /&gt;A quem nunca na vida ocorreu nada&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas que tinha amor a um papagaio,&lt;br /&gt;E eis o conto melhor que já se fez.&lt;br /&gt;Quanto a mim, falta falar do mês de Maio...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nota&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;*Conheço um conto de um francês&lt;/span&gt;- Alma se refere a &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Gustave Flaubert&lt;/span&gt; e sua obra-prima &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;"Un Âme Simple&lt;/span&gt;" (Uma Alma Simples), tanto do ponto de vista literário quanto humano um dos melhores contos de todos os Tempos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Os três canais (de Alma Welt)&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;981&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Três canais de sintonia com o mundo&lt;br /&gt;E então poder cantá-lo ou descrevê-lo&lt;br /&gt;No seu significado mais profundo:&lt;br /&gt;A Ciência, a Poesia e o Desvelo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Ciência reivindica a primazia&lt;br /&gt;E é sempre o debruçar-se sobre o outro.&lt;br /&gt;Reparem, dá-se o mesmo com a Poesia,&lt;br /&gt;Não há como fugir a esse encontro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quanto ao desvelo, este é a essência&lt;br /&gt;E está contido em tudo o mais&lt;br /&gt;Que busque a almejada transcendência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por desvelo devo então dizer Amor,&lt;br /&gt;Que não é senão poesia dos normais&lt;br /&gt;E a ciência de superar a dor...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Desdobramento (de Alma Welt)&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;980&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não pensem que não vi dificuldade&lt;br /&gt;Em conciliar a guria muito bela&lt;br /&gt;Com a Poeta do Pampa e da cidade&lt;br /&gt;Que a si mesma canta e se revela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eis então o que é desdobramento&lt;br /&gt;Que afinal quererão chamar de esquizo&lt;br /&gt;Tanto mais que produz este tormento&lt;br /&gt;De ser eu meu rato, o gato e o guizo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois eu mesma a mim me comovi&lt;br /&gt;Sempre abrindo o bico pra trinar-me&lt;br /&gt;Como fazem o sabiá e o bem-te-vi,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que sendo poeta e fazendeira&lt;br /&gt;Ou talvez por ter de milho a cabeleira&lt;br /&gt;Não posso escrever mais sem debulhar-me...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;A Máscara da Dama (de Alma Welt)&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;979&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando se vive curto e tão a fundo,&lt;br /&gt;Se chega fatalmente a um impasse:&lt;br /&gt;Não é mais possível estar no mundo&lt;br /&gt;Sem ver a nossa morte face a face,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E a encontramos nas esquinas,&lt;br /&gt;A vemos nos momentos delicados&lt;br /&gt;E até naqueles mais traquinas&lt;br /&gt;Quando ousados subimos num tablado&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E fazemos o nosso show de humor&lt;br /&gt;Que a nós mesmos nos espanta&lt;br /&gt;Pois se apresenta negro e quase horror.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então tudo que fomos se desvela,&lt;br /&gt;Cai a máscara da Dama e desencanta&lt;br /&gt;E um tardio novo mundo se revela...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;As Flores da Mente (de Alma Welt)&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;978&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Caminhemos, meu amor, pelo jardim&lt;br /&gt;A colher flores, como os guris que fomos&lt;br /&gt;E queríamos a vida sempre assim,&lt;br /&gt;Antes de ver a árvore dos pomos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naqueles minutos que antecedem&lt;br /&gt;O momento fatal de todo o drama&lt;br /&gt;Em que o lance final com que nos medem&lt;br /&gt;Não havia ocorrido em sua trama.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Inocência, candura com desejo,&lt;br /&gt;Eram os ingredientes da emoção&lt;br /&gt;E nada superava um tal ensejo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois ao evocá-lo novamente&lt;br /&gt;Percebo que é outra a nossa mão&lt;br /&gt;E estamos a colher flores da mente...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt;Postado por Lúcia Welt às 09:43 0 comentários Links para esta postagem&lt;br /&gt;domingo, 20 de fevereiro de 2011&lt;br /&gt;Mulher de Outrora (de Alma Welt)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Mulher de Outrora (de Alma Welt)&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;977&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ocorreu-me que me aprazeria ser&lt;br /&gt;Algo que já caiu no olvido,&lt;br /&gt;Uma simples mulher cujo prazer&lt;br /&gt;É a felicidade do marido&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E dos filhos, sobretudo e primeiro,&lt;br /&gt;Que deles fosse a realização&lt;br /&gt;O meu único moto prazenteiro&lt;br /&gt;E viver fosse essa interação,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Embora, creio eu, só pensável&lt;br /&gt;Quando há ingenuidade e imanência,&lt;br /&gt;Candura e sempre amor, o inefável...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que bela devia ser a vida&lt;br /&gt;Com esse dom de transferência&lt;br /&gt;Quando era verdadeira e escolhida!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Eu e minhas estrelas (de Alma Welt)&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;976&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meus dias foram ricos, não me queixo.&lt;br /&gt;Minha passagem por cá, embora breve&lt;br /&gt;Foi sulcada pelo lastro que ora deixo;&lt;br /&gt;Quanto às velas, direi: o vento as leve...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os versos prescreveram a minha sina&lt;br /&gt;E contaram minha verdadeira saga&lt;br /&gt;Vivida em sintonia muito fina&lt;br /&gt;Com a alma e a sua estrela maga.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alguns dirão que insisto na poesia&lt;br /&gt;Ao dar este franco depoimento&lt;br /&gt;Mas falando em estrelas e magia...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ora... não direi ouvir estrelas *&lt;br /&gt;Pois há muito deixei tal argumento!&lt;br /&gt;Eu mesma é que tratei de entretê-las...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nota&lt;br /&gt;* Ora... não direi ouvir estrelas! -Paráfrase do primeiro verso do famosíssimo soneto de Olavo Bilac: "Ora (direis) ouvir estrelas! Certo/ Perdeste o senso..."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;08/01/2007&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Sonetos na Rede (de Alma Welt)&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;975&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao mundo venho dando os meus recados&lt;br /&gt;Na forma de sonetos, oferendas&lt;br /&gt;Generosas pois na rede já postados&lt;br /&gt;De imediato, sem rasuras nem emendas,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E sinto irradiar-me pela mente&lt;br /&gt;Dos que comigo compartilham a experiência&lt;br /&gt;E aqueles que apreciam simplesmente&lt;br /&gt;As rimas, a música e a cadência...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E ponho-me a pensar no Vate luso:&lt;br /&gt;Que rei seria nesta terra o grão caolho!&lt;br /&gt;Quanto mais navegaria, tão difuso!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o Dante, Shakespeare, Petrarca!&lt;br /&gt;Teria eu que ter barba e a pôr de molho&lt;br /&gt;Ou então afundar a minha Arca! *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nota&lt;br /&gt;*... afundar a minha Arca!- Alma faz, com modéstia, trocadilho ou alusão à sua já famosa "Arca da Alma", onde foi encontrado o seu imenso espólio literário em grande parte inédito, de poemas, contos, crônicas, romances, hai-kais, lendas, cartas e sobretudo o espantoso conjunto de mais de 2.000 maravilhosos sonetos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Pampa e circunstância (de Alma Welt)&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;974&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Derradeiras manhãs de esperança&lt;br /&gt;Raiando sobre os campos ondulados&lt;br /&gt;Que vão até onde a vista alcança&lt;br /&gt;Nosso último encontro combinado&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na fronteira entre o céu e o prado&lt;br /&gt;Que é onde os sonhos se reúnem&lt;br /&gt;E trocam notícias de seu gado&lt;br /&gt;E as sonoras bravatas que os unem!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sempre os tangi até o limite&lt;br /&gt;Que é esse portal ou limiar&lt;br /&gt;Em que até o delírio se admite...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E onde a Alma é aceita em sua ânsia&lt;br /&gt;Cujo estro encontra o seu lugar&lt;br /&gt;Sem medos no seu pampa e circunstância... *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;08/05/2005&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nota&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;* Pampa e Circunstância&lt;/span&gt;- trocadilho com "Pompa e Circunstância", a famosa abertura musical do compositor inglês &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Edward Elgar&lt;/span&gt; (2 Junho 1857 – 23 Fevereiro 1934)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;&lt;br /&gt;Mais do Amor (de Alma Welt)&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;973&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A coisa mais bela desta vida,&lt;br /&gt;Além de flores, aves, natureza,&lt;br /&gt;O pôr-do-sol, a prece após a lida,&lt;br /&gt;É a candura do amor e sua certeza&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De ser, de estar e de se dar&lt;br /&gt;Como se o outro sempre merecesse.&lt;br /&gt;Que digo? Isso nem chega a colocar&lt;br /&gt;Como se Amor, de si se esquecesse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então temos no que crer, acreditar.&lt;br /&gt;Por quê precisaremos de outro deus?&lt;br /&gt;Amor é soberano e um avatar&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E nele então podemos confiar&lt;br /&gt;Que não seja raivoso como Zeus,&lt;br /&gt;E seus raios são só de irradiar...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Arroz de Festa (de Alma Welt)&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;972&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meus amigos, perdoem meus desmandos,&lt;br /&gt;Que afinal só atingem mesmo a mim...&lt;br /&gt;Mas se não aceito outros comandos&lt;br /&gt;É porque prezo a liberdade como um fim&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em si mesmo, sem regras definidas.&lt;br /&gt;E se não faço o mal, devo ao caráter,&lt;br /&gt;Ou melhor dizendo, às coisas lidas&lt;br /&gt;Que o livro foi pra mim célula mater...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por isso e por amar tanto os espaços,&lt;br /&gt;A moral pra mim é como um pum,&lt;br /&gt;Perfumes são afetos e seus laços.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas o amor, o amor, ah! eu me rendo.&lt;br /&gt;Não será ele jamais lugar-comum&lt;br /&gt;Por mais que deste arroz vamos comendo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;17/08/2001&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Celebração (de Alma Welt)&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;971&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Celebremos a Vida, meus amigos,&lt;br /&gt;E as grandes coisas que fizemos!&lt;br /&gt;Os erros esqueçamos como antigos,&lt;br /&gt;Teremos tempo para novos se quisermos...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Coroemo-nos de flores e brindemos&lt;br /&gt;Como nossos ancestrais da antigüidade&lt;br /&gt;Que viviam entre deuses e alguns demos&lt;br /&gt;Como nós ainda o fazemos, na verdade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como é belo estar entre vocês!&lt;br /&gt;Me encho de ternura e de entusiasmo&lt;br /&gt;Por estar viva e em relativa lucidez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E se ergo minha taça borbulhante&lt;br /&gt;Esta sou eu a celebrar perante o pasmo&lt;br /&gt;De mim mesma, perplexa e radiante!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Lobo no Sótão (de Alma Welt)&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;970&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando estava eu nos dezesseste&lt;br /&gt;Meu pai recebeu um velho amigo&lt;br /&gt;Que ele não via desde o tempo do topete,&lt;br /&gt;Que conhecera este mundo e o antigo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E era um poço de saber e de mistérios&lt;br /&gt;Que lançava no ar e no jantar&lt;br /&gt;Como meio de a todos fascinar,&lt;br /&gt;Que logo percebi os seus critérios...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois olhava demais para esta prenda&lt;br /&gt;Que era só uma ovelhinha desgarrada&lt;br /&gt;Em pleno centro do cercado da fazenda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então o lobo revelou-se num momento,&lt;br /&gt;E agarrando-me nas sombras da mansarda&lt;br /&gt;Lançou seu grande e último argumento...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;A Grande Chave (de Alma Welt)&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;969&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bem cedo descobri a grande chave&lt;br /&gt;Da Poesia ou de tudo o que se faz,&lt;br /&gt;Que é voar sem perguntar, como uma ave,&lt;br /&gt;Ou então ser só perguntas, e sem mais&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois as respostas não são o que importa&lt;br /&gt;Quando se ama o Mistério como eu&lt;br /&gt;Que pisei o limiar da Grande Porta&lt;br /&gt;Mesmo sem passar do Gineceu *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Onde fico a fiar e a desfiar *&lt;br /&gt;Esta minha grande saga do Ideal&lt;br /&gt;De tanto a vida e o mundo imaginar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E não será o mundo um pensamento?&lt;br /&gt;Haverá mesmo um plano do real?&lt;br /&gt;Toda pergunta é a chave de um tormento...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nota&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;* Gineceu &lt;/span&gt;era a parte da casa (ou palácio) reservada às mulheres na Grécia antiga e também clássica. Ali ficam principalmente fiando ou cuidando dos filhos pequenos.&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;&lt;br /&gt;*... a fiar e a desfiar&lt;/span&gt; - alusão ao estratagema de Penélope e sua teia em que ilustrava em tapeçaria no tear, a saga de seu marido Odisseu, que ela esperava desfiando à noite para ganhar tempo diante da pressão dos pretententes que acreditavam o rei morto na guerra de Tróia (vide a Odisséia, de Homero)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;A Mulher-Bomba (de Alma Welt)&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;968&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gostaria mesmo é de explodir-me&lt;br /&gt;Como a própria mulher-bomba de mim,&lt;br /&gt;E espalhar-me por aí pra mais sentir-me&lt;br /&gt;Como parte desse mundo, então, assim...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Perder-me de amor e entusiasmo&lt;br /&gt;Por tudo o que é belo à minha volta&lt;br /&gt;E mais além, por entre pasmos&lt;br /&gt;Daqueles que me sabem sem revolta&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E compreenderão que é puro amor&lt;br /&gt;Esta minha vontade de explosão,&lt;br /&gt;Embora muito louca em seu candor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois por trás dessa ânsia de espalhar-me&lt;br /&gt;Está a minha sede e a minha paixão&lt;br /&gt;Pela vida como afã de procurar-me...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Minha Lenda (de Alma Welt)&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;967&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O horizonte longínquo da varanda&lt;br /&gt;Estendeu o meu olhar além de mim.&lt;br /&gt;O meu pobre umbigo não comanda&lt;br /&gt;O que digo e escreverei até o fim&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que não hão de ser folhas ao vento&lt;br /&gt;Pois o que conto é de todos que me lêem&lt;br /&gt;E então se reconhecem a contento&lt;br /&gt;Ou que se refletem no que vêem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estaria a perder tempo ou fazer hora&lt;br /&gt;Se estivesse a falar da mera prenda&lt;br /&gt;Que sou ou que fui até agora...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tudo tem dois níveis, dupla face,&lt;br /&gt;E se em versos uma delas já é lenda,&lt;br /&gt;Eu mesma temo o triste desenlace...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Meu Nicho (de Alma Welt)&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;966&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Saber o nicho exato meu no mundo&lt;br /&gt;Foi por certo menos dom que privilégio&lt;br /&gt;Malgrado este ar nórdico oriundo&lt;br /&gt;E este decantado porte régio&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que me fez destoar das outras prendas&lt;br /&gt;Nestes prados que assim só eu nomeio,&lt;br /&gt;A coxilha da qual contam as lendas&lt;br /&gt;Do meu Negrinho em eterno pastoreio,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do Cerro do Jarau, da Salamanca,&lt;br /&gt;Da Teiniaguá, tão misteriosa,&lt;br /&gt;Que não viu o expandir da minha anca&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E se reclamo minha voz neste universo&lt;br /&gt;Tão mais antigo e de saga gloriosa,&lt;br /&gt;Que não destoe meu timbre, tão diverso...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;O Amor (de Alma Welt&lt;/span&gt;)&lt;br /&gt;965&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não ousarei dizer o que é o amor,&lt;br /&gt;Como o fizeram em vão poetas vários,&lt;br /&gt;Sendo que um deles, com louvor,&lt;br /&gt;Definiu-o melhor pelos contrários.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas sei que o amor não é usura&lt;br /&gt;Nem cobiça, desejo ou mesmo ciúmes.&lt;br /&gt;Certamente não é simples loucura&lt;br /&gt;E muito menos vive de queixumes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não vive da lembrança ou frustração,&lt;br /&gt;Não nos causa pena o desastrado,&lt;br /&gt;E nem imortaliza um coração...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas amor sustenta os moribundos&lt;br /&gt;Até a tal chegada do esperado,&lt;br /&gt;E assim vence a morte por segundos...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Santa (de Alma Welt)&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;964&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sei que escandalizo algum cristão&lt;br /&gt;Que me olha como a última perdida,&lt;br /&gt;Malgrado não ser minha intenção&lt;br /&gt;Ofender o pudor e a medida&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com que o outro vê seu próprio mundo,&lt;br /&gt;Que é como lhe cabe ou lhe parece.&lt;br /&gt;Conquanto me pareça pouco fundo,&lt;br /&gt;Quem sou eu pra lhe ensinar a sua prece?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas não me venha ajuntar a sua lenha&lt;br /&gt;Pra queimar esta herege e atrevida.&lt;br /&gt;Advirto que sou santa! Não me venha!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois se não é santidade tanta fé&lt;br /&gt;Na Poesia e na Beleza desta vida,&lt;br /&gt;Não saberei jamais o que isto é...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;18/05/2005&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;A Vida no Soneto (de Alma Welt&lt;/span&gt;)&lt;br /&gt;963&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vivo a minha vida duplamente&lt;br /&gt;Em ação e seu reflexo no verso,&lt;br /&gt;Que este é do âmbito da mente,&lt;br /&gt;Que é como uma efígie e seu reverso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como a dupla face da medalha,&lt;br /&gt;Ação e pensamento se conjugam&lt;br /&gt;Para criar a imagem que me calha&lt;br /&gt;E pela qual porfim me julgam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E se quando me revejo ou me releio,&lt;br /&gt;Percebo a minha mente mais ativa&lt;br /&gt;E mais clara no poema como veio,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sei que isso não é mentir ou falsear:&lt;br /&gt;O belo da verdade não se esquiva&lt;br /&gt;E o soneto é minha maneira de contar...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Eternidade (de Alma Welt)&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;962&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma imensa escada para o alto&lt;br /&gt;É talvez com que a Alma conte,&lt;br /&gt;E os milhares de sonetos o asfalto&lt;br /&gt;De uma estrada até o horizonte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu preciso crer na transcendência&lt;br /&gt;Do fazer, do ser, do escrever,&lt;br /&gt;Pra não mergulhar na impaciência&lt;br /&gt;De esperar os sinais de merecer&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A imortalidade de algum modo...&lt;br /&gt;Embora não saiba o que isto seja,&lt;br /&gt;Jamais queria eu morrer de todo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pra uns o eterno é mais que emblema:&lt;br /&gt;É o prazer fugaz de uma cerveja,&lt;br /&gt;Para outros o deleite de um poema...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;A Chave (de Alma Welt)&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;961&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tudo revelar é meu segredo,&lt;br /&gt;Por paradoxo que isto seja.&lt;br /&gt;Quanto mais conscia do seu medo&lt;br /&gt;Mais livre o coração viceja.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ando sempre próxima da morte,&lt;br /&gt;Com ela mantenho estreitos laços;&lt;br /&gt;Brincar com o azar é minha sorte,&lt;br /&gt;Meu abismo é dança de dois passos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tornei-me poeta de mim mesma&lt;br /&gt;Por construir-me no meu verso&lt;br /&gt;E ser de meu castelo a abantesma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E se minha carne é duvidosa&lt;br /&gt;Meu espírito abarca o universo&lt;br /&gt;Com esta Alma frágil e poderosa...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;A Fuga com os Ciganos (de Alma Welt)&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;960&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando estava eu nos dezesseis,&lt;br /&gt;A sério cogitei ir com os ciganos&lt;br /&gt;Pelo mundo em carroções, de três em três,&lt;br /&gt;Mas sempre com a Rafisa e seus hermanos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E cheguei a fugir com a confidente&lt;br /&gt;Que cativou-me o coração audaz,&lt;br /&gt;Mas alguns quilômetros à frente&lt;br /&gt;Fui alcançada por Rodo e o capataz&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que era o meu Galdério transtornado&lt;br /&gt;Que queria duelar com os dois romas&lt;br /&gt;À faca, mano a mano, em pleno prado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De rabo baixo voltei pra minha gente&lt;br /&gt;Com alguns soluços e hematomas&lt;br /&gt;De arrancarem-me dos braços da Vidente...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Anita dorme ao lado ( de Alma Welt)&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;959&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nunca mais ver o Pampa e esta casa&lt;br /&gt;É algo para mim inconcebível.&lt;br /&gt;Sua imensa história que extravaza&lt;br /&gt;Contém a minha agora, indivizível.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Misturei-me com outros fantasmas&lt;br /&gt;E entre as eras não ponho limites.&lt;br /&gt;Anita dorme ao lado e sem as asmas&lt;br /&gt;Que me causava, e estamos quites:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deixou-me dormir com o italiano&lt;br /&gt;Cuja grande barba me lembrava&lt;br /&gt;Meu pintor e mestre paulistano&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que deixei para voltar para o meu Pampa&lt;br /&gt;Pois sentia que ali eu destoava,&lt;br /&gt;Pandora que a si mesma se destampa...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;A Princesa das Czardas (de Alma Welt)&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;958&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pouco vi o mar na minha vida&lt;br /&gt;E nele só entrei quando nublado.&lt;br /&gt;A brancura que ostento decidida,&lt;br /&gt;Nem escolha é... é mesmo fado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por isso estas noturnas cavalgadas&lt;br /&gt;Que a meu próprio cavalo ainda revolta&lt;br /&gt;Pois as sombras o assustam nas caladas,&lt;br /&gt;O medo mesmo que vejo à minha volta&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois há muito este povo já temia&lt;br /&gt;Que uma prenda não ostente sardas&lt;br /&gt;Se sua pele com a lua se associa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E vejo que me vendo o gaúcho pira;&lt;br /&gt;Há quem me ache a "princesa das czardas",&lt;br /&gt;Eufemismo mesmo, pra Vampira...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Sublevando (de Alma Welt)&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;957&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As coisas mais sagradas para mim&lt;br /&gt;São amor e arte... e amizade,&lt;br /&gt;Que esta é arte e amor, porfim,&lt;br /&gt;Que tudo se resume a esta verdade&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como receita de viver, e viver bem...&lt;br /&gt;Mas por quê estou pontificando&lt;br /&gt;Se muito pouco sei do que convém,&lt;br /&gt;E já tenho o povo me apontando?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A "louca do soneto", a branca Alma&lt;br /&gt;Que o gaúcho oscila entre extremos&lt;br /&gt;De temer, amar e dar a palma...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um ou outro já ataca em reprimendas,&lt;br /&gt;Destilando não amargos mas venenos,&lt;br /&gt;Minha poesia a sublevar as suas prendas...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A Caixa no Jardim (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;956&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aqui estarei fiel até o final,&lt;br /&gt;Quando o tempo desta casa se esgotar &lt;br /&gt;E o casarão ruir, o que é fatal,&lt;br /&gt;Que toda obra humana há de acabar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Da poetisa um soneto sobrará,&lt;br /&gt;Que o enterrei numa caixa no jardim,&lt;br /&gt;Que certamente alguém descobrirá&lt;br /&gt;E lendo sonhará pensando em mim...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Isso são mais fantasias!”-há quem diga.&lt;br /&gt;“Depois o que te importa o que ocorrer,&lt;br /&gt;Não poderás mais ver, ó minha amiga!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas o que imagino é o que importa,&lt;br /&gt;Pois penso agora o futuro do meu ser, &lt;br /&gt;Que pensar é já o Tempo além da porta...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A Visita da Dama (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;955&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não morrerei de amor como pensava&lt;br /&gt;Que seria o meu fim quando guria,&lt;br /&gt;Mas certamente baterei naquela aldrava&lt;br /&gt;Mais cedo, que é o que a castelã queria&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E disse quando ao meu encontro veio&lt;br /&gt;Quando eu ia a vagar colhendo flores...&lt;br /&gt;E recordo que não tinha um porte feio&lt;br /&gt;Mas sim de dama digna de amores&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que por aqui passava como aragem, &lt;br /&gt;Honrada me deixando, e receosa&lt;br /&gt;De incomodar tão ilustre personagem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Embora não marcando hora nem dia,&lt;br /&gt;Agradeci-lhe a visita tão honrosa&lt;br /&gt;Que deixou claro o quanto me queria... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Varanda, un souvenir d’enfance (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;954&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não há mais varandas hoje em dia,&lt;br /&gt;Pelo menos aquela em que medita &lt;br /&gt;E que com o poente se inebria&lt;br /&gt;A mulher que aparece em minha fita&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que é a imagem quase extinta&lt;br /&gt;De uma memória antiga, de criança&lt;br /&gt;Que persiste no esmaecer da tinta &lt;br /&gt;Do álbum renitente da lembrança...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sim, havia uma em minha infância &lt;br /&gt;Que punha ao longo de sua coxa &lt;br /&gt;Um bebê, produzindo estranha ânsia&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em mim que ali fitava o belo quadro&lt;br /&gt;Sustando o meu respiro, quase roxa,&lt;br /&gt;Para ser o puro amor ali deitado... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;17/08/2005 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O Rei dos Descalabros (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;953&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acendam luzes, velas, candelabros,&lt;br /&gt;Quero a casa em festa nesta noite!&lt;br /&gt;Alguns o chamam “rei dos descalabros”, &lt;br /&gt;Mas peço, não me peçam que o acoite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jogou a nossa estância... mas ganhou!&lt;br /&gt;Até este casarão trocou em fichas.&lt;br /&gt;Com sua própria irmã ele dobrou&lt;br /&gt;E uma fortuna fez, de velhas rixas...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para saudar o aventureiro, acenderei!&lt;br /&gt;Vou esperá-lo na varanda com champanhe,&lt;br /&gt;Não o censurarei... Deus me acompanhe!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para não ser comedida com o sortudo, &lt;br /&gt;Ao abraçá-lo forte, esquecerei&lt;br /&gt;Ter jogado minha carne, alma, e tudo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A Caravela (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;952&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quero uma grande e doce caravela&lt;br /&gt;Para ir com ela a um novo mundo,&lt;br /&gt;Ou pra me carregar daqui com ela&lt;br /&gt;Como se salva alguém dum poço fundo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que é esta vertigem de abandono,&lt;br /&gt;E este vagar a esmo na coxilha &lt;br /&gt;A sonhar com mundos sem um dono&lt;br /&gt;E uma vida de constante maravilha&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Onde não mais seja eu este fantasma&lt;br /&gt;Imerso em nostalgia de outras eras, &lt;br /&gt;A fazer de meu respiro a minha asma...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sem avistar nas nuvens vãs quimeras,&lt;br /&gt;Mas os sinais que a vida traz nos ares &lt;br /&gt;Pr'um navegar de mim em novos mares...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;19/12/2006 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;Ao largo (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;951&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cai o véu de estrelas sobre o amor,&lt;br /&gt;E me pega só... que ele partiu &lt;br /&gt;E quase vejo um traço de vapor&lt;br /&gt;Ao largo, na coxilha, qual navio&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que se afasta no rumo do horizonte,&lt;br /&gt;Inexorável partida dolorosa,&lt;br /&gt;Enquanto eu começo o meu desmonte&lt;br /&gt;Do cenário que montei em verso e prosa&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para a grande chegada da goleta&lt;br /&gt;Em seu próprio porto ou estaleiro&lt;br /&gt;Eu com a minha banda, e na trombeta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tudo em vão, que um amor assim não pára!&lt;br /&gt;Durou a noite... e um dia, coisa rara,&lt;br /&gt;O repouso em mim, do marinheiro...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Alma Libertina (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;950&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vejo claro que o desejo comandou&lt;br /&gt;Desde muito cedo a minha vida,&lt;br /&gt;Que assim o meu bom pai propiciou&lt;br /&gt;Uma vez que dele fui a escolhida&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para ser o fruto de experimentos&lt;br /&gt;De criar uma obra de arte viva&lt;br /&gt;A partir de moldes e elementos &lt;br /&gt;Forjados numa mente criativa&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas calcados num molde imaginário&lt;br /&gt;De uma Grécia do herói e da heroína&lt;br /&gt;Certamente derivados só de mitos...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o resultado é esta Alma libertina &lt;br /&gt;Que perdeu o rumo e o horário,&lt;br /&gt;E a ouvir de minha mãe ainda os gritos...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Vinde versos meus &lt;br /&gt;ou Sherazade (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;949&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vinde versos meus, eu vos vindico,&lt;br /&gt;Reuni-vos em torno de minha’alma! &lt;br /&gt;Sonhai meus sonhos só, eu vos suplico,&lt;br /&gt;Redesenhai as linhas desta palma!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se deverei partir assim tão cedo,&lt;br /&gt;Quero passar em revista meus amados.&lt;br /&gt;Ou terá sido tudo engano ledo,&lt;br /&gt;Uma vida perdida em seus achados?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acreditei em creditar-me um universo&lt;br /&gt;De pensamentos e fantasmas ideais&lt;br /&gt;Criados pela pura ação do verso...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E eis-me aqui mais só e mais extrema,&lt;br /&gt;Sherazade que fiz de mim meu tema,&lt;br /&gt;Refém de mim perdida em que me achais...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;10/01/2007 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Entre as flores (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;948&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entre as flores do meu jardim materno&lt;br /&gt;Brinquei, cresci e ainda me vejo.&lt;br /&gt;Sem elas na alma faz-se inverno&lt;br /&gt;Ou tendo a ver a vida sem desejo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que se torna um limbo, quase morte,&lt;br /&gt;Como envelhecimento prematuro&lt;br /&gt;Ou como as névoas muito ao norte&lt;br /&gt;De mim mesma, do meu ínclito futuro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E ao me ver brincar entre suas flores,&lt;br /&gt;Na Açoriana a dureza se abrandava,&lt;br /&gt;Esquecia por momentos seus rancores,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao menos de parir-me e já perder-me &lt;br /&gt;Para o mundo maior em que eu estava&lt;br /&gt;Pelas mãos de meu pai ao recolher-me... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Amores mortos (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;947&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De noite perambulo o casarão&lt;br /&gt;Na calada dos murmúrios e segredos&lt;br /&gt;Enquanto os amores mortos vão&lt;br /&gt;Tentando refazer os meus enredos...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E bem depois das doze badaladas &lt;br /&gt;Neste decrépito relógio do salão &lt;br /&gt;Começam as intrigas renovadas,&lt;br /&gt;As lágrimas, suspiros, rebelião...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todos eles, na verdade, foram meus. &lt;br /&gt;Reconheço esses hóspedes inquietos &lt;br /&gt;Que tomam por descaso o meu adeus,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E gritam, cerram punhos e ameaçam:&lt;br /&gt;“Tu nos fazia crer-nos prediletos!&lt;br /&gt;Tua ternura e beleza nos desgraçam!” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Pandora (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;946&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Amar e padecer no paraíso, &lt;br /&gt;Como dizia outrora o bom poeta.&lt;br /&gt;Para nós, quase todos, é preciso&lt;br /&gt;Desde o sibarita até o asceta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O tal Vale de Lágrimas é aqui:&lt;br /&gt;Ao homem não é dado ser feliz.&lt;br /&gt;Mas seja neste Pampa ou no Haiti,&lt;br /&gt;Temos névoa a um palmo do nariz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bah! Ser boba alegre por amar,&lt;br /&gt;Se ainda no melhor dos mundos canto&lt;br /&gt;Enquanto a casa está a desabar...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quisera eu, sonhadora do agora&lt;br /&gt;Que sonho o mundo e seu espanto,&lt;br /&gt;A fascinante caixa de Pandora... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Minha realidade (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;945&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minha realidade são meus sonhos.&lt;br /&gt;Dizem que a tal não nos pertence&lt;br /&gt;E que aqueles que a criam são bisonhos &lt;br /&gt;Ou então alienados ou nonsense.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas direito a minha teia já reclamo&lt;br /&gt;De meu mundo poético e sublime&lt;br /&gt;Com todas as belezas que eu amo &lt;br /&gt;E limitadas tão só pelo que rime,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que é uma mania que ainda porto:&lt;br /&gt;Rimar e obedecer boa cadência,&lt;br /&gt;Que arritmia apenas não suporto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E se assim tornei-me meu modelo&lt;br /&gt;E Mito, no limite da demência,&lt;br /&gt;Minha razão é amor, ternura e zelo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A Louca do Soneto (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;944&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assombrada pelos versos já me vejo&lt;br /&gt;Despertando bem no meio da calada,&lt;br /&gt;Não somente por anseio ou por desejo&lt;br /&gt;Mas para contar sílabas, inspirada...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A “Louca do Soneto” já me chamam,&lt;br /&gt;Mas a isso não pretendo renunciar.&lt;br /&gt;Os versos despertados em mim clamam,&lt;br /&gt;E são a minha razão de viva estar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Como?” - dirão alguns curiosos-&lt;br /&gt;“A vida tem o seu próprio compasso &lt;br /&gt;E os versos são momentos ociosos.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas poetisa ou só mulher no mundo,&lt;br /&gt;Tenho que repintar-me a cada passo&lt;br /&gt;Nesta espécie de espelho mais profundo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;24/05/2002 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Quem me ler (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;943&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem me ler me buscará no abismo&lt;br /&gt;E me trará à luz, e eu agradeço&lt;br /&gt;A quem me divisar neste grafismo&lt;br /&gt;Que é a própria teia em que me teço;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aqueles que me lerem, eu já morta,&lt;br /&gt;Estarão descendo, embora tardos,&lt;br /&gt;E me trazendo do fundo da retorta&lt;br /&gt;Onde se destila a flor dos cardos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Toda a minha vida e meus amores,&lt;br /&gt;Minhas saudades e vagas nostalgias,&lt;br /&gt;Meus imensos prazeres, minhas dores...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E como a minha Vinha neste pampa&lt;br /&gt;O meu lagar que agora é só a campa&lt;br /&gt;Ainda vaza de meus contos e poesias...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;As Velas da Matilde (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;942&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desce a cortina lenta sobre mim.&lt;br /&gt;A noite, a noite dos amantes,&lt;br /&gt;Dos sonhos fugazes, inconstantes,&lt;br /&gt;Eu sinto, agora desce para o fim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quanto cantei, dancei, versifiquei&lt;br /&gt;Milhares de rimas sobre resmas,&lt;br /&gt;Recriando as imagens que amei&lt;br /&gt;Reconstruindo gratas abantesmas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ai! Quisera ficar mais um instante&lt;br /&gt;Se me fosse retornada a alegria&lt;br /&gt;Ou somente a irmã Melancolia...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todavia ainda guardo um sonho infante:&lt;br /&gt;Da Matilde minhas estrelas são as velas,&lt;br /&gt;E eu feliz a dormir no meio delas...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;16/01/2007 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Tributo (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;941&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minha alegria me quer em pleno prado&lt;br /&gt;Onde eu posso correr, braços abertos,&lt;br /&gt;Com vivo e forte sentimento alado,&lt;br /&gt;O mesmo da chegada a estes desertos,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Guria nova egressa da cidade,&lt;br /&gt;Deslumbrada ao ver tanta amplidão&lt;br /&gt;Mas logo tanta gente de verdade&lt;br /&gt;Que me responderia ao coração.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ai! Pampa, Pampa meu ou minha,&lt;br /&gt;Como querem os daqui há gerações&lt;br /&gt;Indulgentes com as falas desta niña!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gaúchos, peões machos e suas prendas &lt;br /&gt;Que doam generosas suas canções&lt;br /&gt;A tais rimas, minhas pobres oferendas...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Como Sofre! (de Alma Welt) &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;940&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O ser humano sofre e não desiste,&lt;br /&gt;Continua ocupando em esperança&lt;br /&gt;O exíguo espaço que ainda existe&lt;br /&gt;E os leitos de sonhar desde criança.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como riem e cantam os humanos! &lt;br /&gt;Como dançam e brindam com o vinho!&lt;br /&gt;Como se abraçam forte como manos, &lt;br /&gt;Quando não se estranham neste ninho...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como ainda nos matamos nas fileiras&lt;br /&gt;Por uma gota a mais daqueles óleos&lt;br /&gt;Que há muito já não vem da oliveiras...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como vertemos água em catadupas&lt;br /&gt;Pelo poros pelo pão e pelos olhos,&lt;br /&gt;Mas pouco ou raramente pelas culpas...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Tentação (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;939&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando noto do mundo o lado feio&lt;br /&gt;Me vem a tentação de renegá-lo,&lt;br /&gt;E isso é um eufemismo pra deixá-lo &lt;br /&gt;E partir antes de ter chegado ao meio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Horrores, sofrimentos indizíveis,&lt;br /&gt;Brutalidade vil que logo esmaga &lt;br /&gt;Os patéticos recursos, tão risíveis,&lt;br /&gt;Da guria que brincava de ser maga&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No jardim e no pomar, mundos perfeitos&lt;br /&gt;Doces ninhos de belezas redentoras&lt;br /&gt;Que me prendem à terra e seus eleitos:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os seres que preservam suas canduras &lt;br /&gt;Como flores, gatos, cães, aves canoras,&lt;br /&gt;Alma infanta num reino de venturas...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;19/06/2005 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Dois Mundos (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;938&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A vida paralela que assim vivo&lt;br /&gt;Nos meus sonetos e cantares&lt;br /&gt;É a vida verdadeira e o motivo&lt;br /&gt;De estar aqui entre meus pares,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os poetas de todas as Idades&lt;br /&gt;Que fizeram como eu a opção &lt;br /&gt;Pelo verde olhar e suas verdades&lt;br /&gt;E eu diria “que por outra cousa não...”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não é pra mim sintoma de fracasso,&lt;br /&gt;Viver, portanto, em fantasia,&lt;br /&gt;Que por colombina não me passo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas por heroína de dois mundos&lt;br /&gt;Como a Anita que em mim já existia&lt;br /&gt;Quando guria em meu quintal dos fundos...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;As Mulheres Choram (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;937 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As mulheres choram. Ah! Choramos!&lt;br /&gt;De norte a sul choramos nós dores de amor...&lt;br /&gt;Que lágrimas salobras derramamos&lt;br /&gt;Pelos nossos, por nós mesmas, quanta dor!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cabe a nós chorar por todos nós: &lt;br /&gt;Os mortos os perdidos os distantes,&lt;br /&gt;Os pais, irmãos, amigos, tios e avós,&lt;br /&gt;Pelas sacras vida e morte dos infantes...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que por esses então, mais lamentamos,&lt;br /&gt;Quando crescem, quando partem, vão à guerra,&lt;br /&gt;E quando encaixotados os baixamos... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por quê assim, meu Deus, nos desmoronas?&lt;br /&gt;Que fontes desatadas sobre a terra! &lt;br /&gt;Quanto ainda choraremos! Que choronas!... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Tempestades (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;936&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando começava a tempestade&lt;br /&gt;Aqui sobre o pampa e o casarão,&lt;br /&gt;Era quando eu sentia mais vontade&lt;br /&gt;De nos braços ficar, de meu irmão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então fingia aquilo que sentia,&lt;br /&gt;Aconchegando-me nos braços do guri,&lt;br /&gt;Donzela que de medo me encolhia,&lt;br /&gt;Desde sempre o tom dúbio que escolhi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E quando um grande raio ribombava,&lt;br /&gt;Mais a ele tremendo eu me abraçava,&lt;br /&gt;Que desejo e medo eu confundia&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na volúpia temerosa e meio louca,&lt;br /&gt;No brilho úmido dos olhos e da boca &lt;br /&gt;Que era puro desejo e eu não sabia...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;03/10/1998 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Anti-retrato (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;935&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No meu bosque queria ser as árvores,&lt;br /&gt;Com elas me fascino e identifico;&lt;br /&gt;No céu claro eu queria ser as aves&lt;br /&gt;Mas de noite com as estrelas ainda fico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se ouço um bom cantor sou a canção&lt;br /&gt;E o poema sai de mim como respiro&lt;br /&gt;Em mim está a forma em formação&lt;br /&gt;E a tudo o que é belo me refiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não há limitação pra meus anseios,&lt;br /&gt;Alma sou e isso é o que me explica,&lt;br /&gt;Tampouco há para os meus meios:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Consistem em me apropriar de tudo,&lt;br /&gt;Do mito que meu sonho multiplica&lt;br /&gt;Ao simples suspirar singelo e mudo... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Ó meus amores! (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;934&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ó meus amores, quanto vos cantei!&lt;br /&gt;Em tanta canção apaixonada!&lt;br /&gt;Mais do que isso, eu peço, não querei,&lt;br /&gt;Que já não tenho forças nem mais nada...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estou entregue, prostrada, bah! Tomai-me! &lt;br /&gt;Fazei de mim o último banquete! &lt;br /&gt;Invadí minha carne, ó, abusai-me&lt;br /&gt;Fazei das minhas dores ramalhete!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desmembrai-me, cortai-me em mil pedaços,&lt;br /&gt;E que eu já não possa me lembrar&lt;br /&gt;Da dor de ser uma e de ter laços&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que me prendem à Terra como campa,&lt;br /&gt;Enquanto Ananke meu fuso faz girar&lt;br /&gt;De eu renascer e amar neste meu Pampa!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;15/01/2007 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A Vindima II (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;933&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agradeço ao Baco minha candura&lt;br /&gt;Que me foi preservada por milagre&lt;br /&gt;Entre muitos sonetos qual cultura&lt;br /&gt;De vinhos entre o bom e o vinagre,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Numa estância antiga com vinhedo&lt;br /&gt;Plantado novo entre velhas tradições&lt;br /&gt;Cheias de mistérios e o segredo &lt;br /&gt;Que é a fonte copiosa das canções&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que venho declinando no meu verso,&lt;br /&gt;Para que o fruto supremo da razão&lt;br /&gt;Não me seja escuro ou controverso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eis o sumo do lagar que prometia:&lt;br /&gt;Minha vida alcançar celebração&lt;br /&gt;Como a Vindima mesma da Poesia...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;12/01/2007 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Nossa Saga (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;932&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vivi somente pra contar o que vivi&lt;br /&gt;Embora isto pareça absurdo&lt;br /&gt;Ou no mínimo um monólogo pra surdo&lt;br /&gt;Pois o que importará o que senti&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ou as minhas aventuras de guria&lt;br /&gt;Que nada leva a crer a relevância,&lt;br /&gt;Tanto mais que se passam numa estância&lt;br /&gt;E num velho casarão em nostalgia&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A remoer nosso passado glorioso &lt;br /&gt;E querendo que o soneto nos reflita&lt;br /&gt;Malgrado vaidade e um tom verboso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E eis que a Musa generosa reconstrói&lt;br /&gt;Em mim a heroína e o seu herói:&lt;br /&gt;Sou eu mesma a minha amada Anita...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Receita do Soneto (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;931&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Para escrever sonetos como o faço,&lt;br /&gt;Primeiro fecha os olhos, depois canta,&lt;br /&gt;Ora repito eu como Picasso&lt;br /&gt;Sobre o desenhar, que nele encanta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jamais procures ser inteligente,&lt;br /&gt;Seja! E permita correr solto&lt;br /&gt;O verso que entenda toda gente,&lt;br /&gt;E o italiano diga: “Bello! Molto...” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E se alguém lembrar um verso teu,&lt;br /&gt;Como poeta, digo eu, tu já vingaste&lt;br /&gt;Como prece nos lábios de um ateu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E se após tanto revés e tanto verso&lt;br /&gt;For lembrado o pouco que cantaste,&lt;br /&gt;Podes morrer, deixaste um Universo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;Mare Nostrum (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;930&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O pouco que tu sofres não importa,&lt;br /&gt;Só o grande sofrimento tem valia&lt;br /&gt;E é o que nos faz abrir a porta&lt;br /&gt;Para outra dimensão, a da Poesia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas se abaixares os teus olhos&lt;br /&gt;E o teu peito arfar em afasia,&lt;br /&gt;Se mareado pareceres entre escolhos&lt;br /&gt;De uma tempestade de agonia;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se já não tens olhar e nem mais tentas&lt;br /&gt;Disfarçar a dor que te acomete,&lt;br /&gt;Então és navegante e não grumete.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que Amor te foi terra anunciada&lt;br /&gt;Na nau que nos arrasta a velas lentas,&lt;br /&gt;Neste Mare Nostrum rumo ao Nada...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;08/10/2005 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;De partos e poentes (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;929&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Varanda, balcão nobre dos poentes, &lt;br /&gt;Que me viu crescer com a reverência&lt;br /&gt;Com que beijava as mãos benevolentes,&lt;br /&gt;Prevendo de meu pai a rubra ausência,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O qual, por cuja força vim ao mundo,&lt;br /&gt;Que era a minha luz, o rei sol vivo&lt;br /&gt;Cujas mãos tiraram-me do fundo&lt;br /&gt;De um ventre açoriano retentivo,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na estrada deserta, quase selva,&lt;br /&gt;Num anti picnic nada farto,&lt;br /&gt;Minha mãe aberta sobre a relva...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E vem à minha mente, por instantes,&lt;br /&gt;O vermelho do sangue do meu parto&lt;br /&gt;Nas mãos abençoadas, tão distantes...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;As Três Graças (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;928&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando esteve aqui um certo conde&lt;br /&gt;Convidado de meu pai e seu amigo,&lt;br /&gt;Guria, fui brincar de esconde-esconde,&lt;br /&gt;Recurso feiticeiro e muito antigo,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois com as irmãs Lucia e Solange&lt;br /&gt;Entre risos, rodopios e pirraças,&lt;br /&gt;E beijos, que só à Sol constrange,&lt;br /&gt;De repente formamos as Três Graças.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então, o nosso conde embasbacado&lt;br /&gt;Vendo aquela cena antiga e grata&lt;br /&gt;Resolveu não nos deixar sem um noivado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas meu pai, churrasqueando, deu desconto,&lt;br /&gt;E sorrindo respondeu ao aristocrata:&lt;br /&gt;“Perdão, mas nenhuma está no ponto...”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;04/04/2004 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O Labirinto (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;927&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Escrever e escrever até morrer.&lt;br /&gt;Não mais poder parar de poetar,&lt;br /&gt;Assim me sinto viva e com poder &lt;br /&gt;De fazer a minha alma se alçar...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ou então, de mim perdida, pra voar&lt;br /&gt;Penas colar com favos, mel e breu &lt;br /&gt;Com risco de asas frágeis depenar&lt;br /&gt;E então cair de mim num mar Egeu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No centro, desde sempre, o Minotauro&lt;br /&gt;A devorar meus belos sonhos juvenis&lt;br /&gt;Que a cada festival de mim, restauro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas no arranjo de Ariadne e Teseu,&lt;br /&gt;O fio mestre e pai de todos os ardis,&lt;br /&gt;Reconstruo o labirinto, que sou eu...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A Medusa (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;926&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sabemos que a Medusa petrifica&lt;br /&gt;Com olhar terrível, de emboscada,&lt;br /&gt;E de olhos abertos ainda fica &lt;br /&gt;Mesmo com a cabeça decepada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas dizem que se a morte não fechar,&lt;br /&gt;E de olhos abertos um morrer&lt;br /&gt;Lhes devemos por piedade a mão passar,&lt;br /&gt;O que nunca me chegou a convencer... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O olho morto se medusa num instante&lt;br /&gt;E transforma os chorosos de costume &lt;br /&gt;Num velório de museu extravagante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por isso aqueles mármores famosos&lt;br /&gt;Conservam tanta vida já sem lume&lt;br /&gt;Nos gestos congelados, dolorosos... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Questões (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;925&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estarei equivocada sobre mim?&lt;br /&gt;Não é o meu destino grandioso?&lt;br /&gt;Não era meu o meu jardim,&lt;br /&gt;E o soneto não é mais precioso?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ninguém mais liga se alguém canta, &lt;br /&gt;Vive e cria beleza por sofrer?&lt;br /&gt;Não há mais mistério em se morrer&lt;br /&gt;E a tal banalidade nos suplanta?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi em vão escrever? Fui escrivão?&lt;br /&gt;A Poesia morreu antes de eu nascer&lt;br /&gt;E pecar na macieira foi em vão?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não! Não devo levantar-me essas questões!&lt;br /&gt;Vir ao mundo foi voltar pra me rever,&lt;br /&gt;Plantar versos, colher dores e canções...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;18/11/2006 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Masquerade (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;924&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Farei masquerade na Vindima,&lt;br /&gt;Não simples novo baile de galpão.&lt;br /&gt;Não mostrarei ao outro só estima:&lt;br /&gt;A máscara alheia é minha paixão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A máscara corresponde à verdade&lt;br /&gt;De cada um no baile à fantasia&lt;br /&gt;E as trocamos a cada nova idade,&lt;br /&gt;Mas as falsas não são dadas de bacia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E reparem: são poucos e furtivos&lt;br /&gt;Aqueles que se esgueiram nesta festa &lt;br /&gt;Com falsos pretextos e motivos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só conseguimos ser nós mesmos &lt;br /&gt;E sempre nos sobra testa ou fresta&lt;br /&gt;Na linda fantasia que escolhemos... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;Propósito e Postura (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;923&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Viver em alto plano sem descer...&lt;br /&gt;Jamais condescender ante o banal;&lt;br /&gt;Perante a vida a própria vida ser&lt;br /&gt;No que ela tem de grande e magistral.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esse foi desde sempre meu propósito.&lt;br /&gt;Que digo? Foi postura instintiva !&lt;br /&gt;Do refugo não serei mero depósito&lt;br /&gt;Se não puder ser minha própria diva.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voar alto, com perigo de cair...&lt;br /&gt;Arriscar tudo nas franjas do ridículo&lt;br /&gt;Para, estrela, ser Antares, Altair.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Construir meu destino verso a verso&lt;br /&gt;Manter com a Beleza único vínculo,&lt;br /&gt;Reconstruindo em mim o Universo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A Fênix (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;922&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Renasci nestes prados certamente&lt;br /&gt;Conquanto parida numa estrada.&lt;br /&gt;Aqui me enraizei como semente,&lt;br /&gt;Embora tenha sido transplantada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aqui me foi possível ser poeta,&lt;br /&gt;Coisa que apesar de ser inata &lt;br /&gt;Precisa de um sopro na hora certa&lt;br /&gt;Pra revelar o fluido sob a nata,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ou reavivar brasas dormidas,&lt;br /&gt;Fênix que volta após um século,&lt;br /&gt;Esquecida de retomar as vidas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eis como me sinto na coxilha: &lt;br /&gt;Reflexo no verdadeiro espéculo&lt;br /&gt;De uma muito antiga maravilha... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Encontro com a diva (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;921&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Morte, ó Morte, grande Diva!&lt;br /&gt;Sei que já estou na tua agenda,&lt;br /&gt;Desde sempre fui muito intuitiva... &lt;br /&gt;Marcaste um encontro na fazenda&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que é um privilégio e concessão&lt;br /&gt;Vires a mim até a minha estância,&lt;br /&gt;E não teres marcado a reunião&lt;br /&gt;Numa anódina maca de ambulância.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Num ponto de encontro eqüidistante&lt;br /&gt;Te esperarei como quando era guria&lt;br /&gt;E sustava o respirar por um instante&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para ver tudo girar e ler um pouco&lt;br /&gt;Do cartaz do teu teatro da Poesia,&lt;br /&gt;E encenavas “O pequeno mundo louco”...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A Escrava (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;920&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cercada estou de deuses e de numes&lt;br /&gt;E eles me acompanham na coxilha&lt;br /&gt;Povoam o casarão do chão aos cumes&lt;br /&gt;E com astúcias me tratam como filha &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas começo a perceber o que me custa:&lt;br /&gt;Deuses e numes não dão ponto sem nó&lt;br /&gt;E a partilha já não parece justa,&lt;br /&gt;Já começo a sofrer sem causar dó,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois eles me querem bem sofrida &lt;br /&gt;Para espremer o caldo da paixão &lt;br /&gt;E do talento que me deram nesta vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Virei escrava, caí na armadilha,&lt;br /&gt;E os versos que me chegam em profusão&lt;br /&gt;São emprestados da Musa da quadrilha.. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Os Círculos (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;919&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minha vida está inscrita em círculos.&lt;br /&gt;“Não podes então andar pra frente?”&lt;br /&gt;Aqueles que questionam os meus vínculos&lt;br /&gt;Me perguntam em tom meio reticente...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Deixa essa estância e fim de mundo,&lt;br /&gt;Pois aí o minuano faz a curva&lt;br /&gt;E volta pois não pode ir mais fundo&lt;br /&gt;Depois de te deixar a mente turva,”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Que estás a ver navios antigos,&lt;br /&gt;E mais: com tua tendência delirante&lt;br /&gt;Já fazes dos fantasmas teus amigos.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Já pediste ao teu Galdério, coisa à toa: &lt;br /&gt;Que construa grande traste navegante&lt;br /&gt;E o arraste com bois até a lagoa...”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nota &lt;br /&gt;&lt;strong&gt;* E o arraste com bois até a lagoa”&lt;/strong&gt; - Alusão à travessia épica do lanchão Seival, 80 km pela coxilha, com 100 juntas de bois até a lagoa Tramandaí , realizada por Garibaldi e seus marinheiros, para entrar em combate naval com os "imperiais". &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Horas Roubadas (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;918&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;As horas despendidas te esperando&lt;br /&gt;Amor, agora as sinto tão roubadas...&lt;br /&gt;Pois que em mim pouco pensando,&lt;br /&gt;Jogas teus amores, tuas cartadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sim, Rodo, cavaleiro da fortuna,&lt;br /&gt;Que te olho daqui já tão descrente,&lt;br /&gt;Tu, ao lado d’uma gata, mas gatuna&lt;br /&gt;Que te aliviará do excedente:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Teus lucros, tua beleza e juventude,&lt;br /&gt;O amor que ainda terias se quisesses,&lt;br /&gt;Que tanto apostei enquanto pude,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando já não tínhamos feitores,&lt;br /&gt;Tendo partido a dama dos Açores,&lt;br /&gt;E as cartas eram outras, como preces... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Arco de Pua (Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;917&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já percebo os perigos que me rondam&lt;br /&gt;Mas não sou paranóica ou coisa assim. &lt;br /&gt;Se devem ao capricho que me apontam&lt;br /&gt;De desnudar-me à noite no jardim,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E até de dia na coxilha, e por aí&lt;br /&gt;A torto e a direito, em compulsão:&lt;br /&gt;Não agüento mais as roupas que me dão&lt;br /&gt;Desde quando nua e bela apareci...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alma sou, e poeta, então sou nua!&lt;br /&gt;Nada podem contra mim esses senhores &lt;br /&gt;Carpinteiros com seu arco de pua,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Moralistas de caixão, da integridade,&lt;br /&gt;Que querem a beleza, minha verdade,&lt;br /&gt;Enterrada a dez palmos entre as flores... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Nas Ruínas da Alma (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;916&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando tudo aqui estiver quieto&lt;br /&gt;E as ervas e raízes invadirem&lt;br /&gt;As frestas desde o chão até o teto&lt;br /&gt;E não houver mais a quem inspirem,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como eu, que apenas rondarei &lt;br /&gt;Como o último espectro fiel&lt;br /&gt;A casa e o jardim que desfrutei&lt;br /&gt;Quando a vida era dourada como mel,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez ávido casal de professores,&lt;br /&gt;Ou só leitores de gerações futuras,&lt;br /&gt;Me busquem na mansarda e no porão&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E ao ver rastros de risos e de dores&lt;br /&gt;Abanem belas cabeças imaturas, &lt;br /&gt;Dizendo: “Ela pisava neste chão...”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;04/01/2007&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A Queda da Casa de Welt (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;915&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só não morro à míngua de Poesia&lt;br /&gt;Conquanto cada vez mais isolada&lt;br /&gt;Neste velho casarão, em nostalgia,&lt;br /&gt;Por lembranças e espectros cercada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Matilde, cada vez mais igrejeira,&lt;br /&gt;Velas acendendo em seu entorno&lt;br /&gt;E em toda a casa como esteira&lt;br /&gt;De um navegar em águas sem retorno.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu Rodo, percebi, me abandonou:&lt;br /&gt;Suas cartas já arriscam minha pele, &lt;br /&gt;Que é capaz de jogar o que sobrou...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, Galdério? Meu fiel Gaudério!&lt;br /&gt;Já não te peço que a Miranda sele,&lt;br /&gt;Ela não gosta de pastar no cemitério...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;15/01/2007 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Grande Nu Germânico (de Alma Welt) &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;914&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu amigo pintou-me numa tela&lt;br /&gt;E entitulou-a Grande Nu Germânico&lt;br /&gt;Tela quadrada, vasta e amarela &lt;br /&gt;Que a outra causaria talvez pânico,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois, lembro, estava eu naqueles dias&lt;br /&gt;E empapava o linho transparente&lt;br /&gt;Que despia por conta das poesias,&lt;br /&gt;Que por elas sangraria docemente...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi só abrir os braços e chamá-lo &lt;br /&gt;Ao ver que ele jamais faria troça,&lt;br /&gt;E eu podia sangrar sobre quem falo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E finda uma lambança mais intensa&lt;br /&gt;Nos vimos enlaçados numa poça&lt;br /&gt;E na tela estava eu nua e imensa...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;28/07/2001 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O Berço e a Forca (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;913&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Guilherme me pintou nua num tondo&lt;br /&gt;Diante de meu berço e cortinado,&lt;br /&gt;Mas não pude deixar de ter notado&lt;br /&gt;Um detalhe sutil mas hediondo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O pau do cortinado, relevante&lt;br /&gt;Demais, como forma ali se via&lt;br /&gt;De uma forca tão horripilante&lt;br /&gt;Que me estragou o quadro e o dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Essa forma, mesmo em leve esboço &lt;br /&gt;Um arrepio me trás de muito longe&lt;br /&gt;E uma certa pressão no meu pescoço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E eu pensei, eu juro, em meio à dor:&lt;br /&gt;“Se antes de secar ele a esponje,&lt;br /&gt;Darei pra ele, aberta, sem favor...”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O Olho Mágico (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;912&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O pintor pintou-me em olho mágico&lt;br /&gt;Não como a gente vê o elevador,&lt;br /&gt;Mas como se de fora o espectador&lt;br /&gt;Me visse com olhar antropofágico,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De costas e de rubra meia-calça&lt;br /&gt;Um tanto rebaixada no traseiro,&lt;br /&gt;E postura de braços que realça&lt;br /&gt;Eu estar indo correndo pro banheiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Perguntei-lhe: “porque assim me pintas,&lt;br /&gt;No meu pescoço longo esse lacinho,&lt;br /&gt;Mas mijona em meio a belas tintas?"&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Alma, sei... xixi, mais não se apresse,”&lt;br /&gt;-disse-“o olho captou o comezinho&lt;br /&gt;Mas garanto: sua beleza o enobrece...”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;25/07/2001 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;O Divã (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;911&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Perante o analista desnudei-me,&lt;br /&gt;Não, não me refiro ao nu simbólico,&lt;br /&gt;Ao antigo despojar a que obriguei-me&lt;br /&gt;E que me resultava melancólico...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Me despi no divã do consultório &lt;br /&gt;Na glória de formas tão louçãs&lt;br /&gt;Que são meu atributo meritório&lt;br /&gt;De desejos como um Éden de maçãs...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E tudo em torno era vermelho&lt;br /&gt;Meu corpete, branco qual narciso&lt;br /&gt;Reclinado no azul como no espelho... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bem... "E o analista?" perguntais. &lt;br /&gt;Só posso dizer que o tive inciso,&lt;br /&gt;E eram nossos agora os novos ais...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Ao Mundo Veio Uma Alma Chamada Frida&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;910&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vim ao mundo bela e belamente&lt;br /&gt;Se não me vanglorio... me compraz, &lt;br /&gt;Mas sei que isso não dura eternamente&lt;br /&gt;A beleza sendo efêmera, fugaz...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas não me horrorizou a avó Frida&lt;br /&gt;Em plena fascinante decadência&lt;br /&gt;Derretendo-se ali, semi despida&lt;br /&gt;Olhando-se no espelho da demência&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como quem está contente com seu fado&lt;br /&gt;Passando pó de arroz no colo vasto&lt;br /&gt;Acima de um corpete remendado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E então entendi que vindo ao mundo&lt;br /&gt;Sujeitos todos ao Tempo nefasto&lt;br /&gt;Somos belos mesmo quando já no fundo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nota&lt;br /&gt;Alma gostava muito da nossa avó Frida Welt ( seu nome signifca "a que protege do Mundo"), que ao envelhecer mais, parecia uma bruxa divertida que contava estórias picarescas como as do "Condestável Gottfried", que a Alma transcreveu no romance O Sangue da Terra, segundo volume da trilogia A Herança. &lt;br /&gt;(Lucia Welt) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Uma Noite em Paris (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;909&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Num salon das noites de Paris&lt;br /&gt;No meio de uma festa à fantasia&lt;br /&gt;Estive por momentos por um triz&lt;br /&gt;De ser protagonista de uma orgia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sob o efeito do absinto e algo mais&lt;br /&gt;Embora ainda vestidos todos eles&lt;br /&gt;George Sand tirou-me a roupa num zás-trás,&lt;br /&gt;O que me fez pensar já ser um deles. *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lá estavam Marcel Proust e Valéry,&lt;br /&gt;Maupassant estava já passando mal,*&lt;br /&gt;Também Baudelaire estava ali...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;James Joyce, que sendo de outra era *&lt;br /&gt;E caolho, um Polifemo genial&lt;br /&gt;Me acordou e... era tudo uma quimera!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Notas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;*O que me fez pensar já ser um deles&lt;/strong&gt;- com esse verso, Alma alude ao fato de George Sand ( embora excelente escritora) ser uma "devoradora " de personalidades célebres de sua época, homens e mulheres. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;*Maupassant estava já passando mal &lt;/strong&gt;- trocadilho como nome do grande contista, que acabou ficando louco e morrendo num hospício.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;*James Joyce, que sendo de outra era &lt;/strong&gt;- James Joyce era do começo do século XX , portanto não contemporâneo dos outros escritores citados ( o século XIX), e Alma alude ao seu romance Ulisses ( Polifemo era aquele Titã de um olho só, da Odisséia de Homero, que Odisseu (Ulisses ) cegou. Alma alude ao fato de Joyce ter ficado cego de um olho e usar uma venda, como aparece na ilustração do Guilherme, reparem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(Lucia Welt)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O Graal (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;908&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há muito tempo estou persuadida&lt;br /&gt;De que o Graal está aqui na estância,&lt;br /&gt;Não apenas como um símbolo de vida,&lt;br /&gt;Nem considerem isso jactância: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Santo Graal mesmo, aquela taça&lt;br /&gt;Que foi trazida por José de Arimatéia.&lt;br /&gt;Não pensem que isso digo por pirraça,&lt;br /&gt;Não tenho os ingleses por platéia...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu ousei beber nele o nosso vinho, &lt;br /&gt;O cálice do sangue em comunhão,&lt;br /&gt;E a Poesia se me fez sacro caminho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No meio de objetos e lembranças&lt;br /&gt;No sótão o achei, do amado irmão,&lt;br /&gt;Entre amores, cartadas e andanças...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;27/05/2004 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A Verdadeira Imagem (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;907&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por alguma razão ainda obscura&lt;br /&gt;Me impressiona muito aquele lenço,&lt;br /&gt;O da Verônica, sim, naquela altura&lt;br /&gt;De um caminho tão doloroso e tenso&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em que não se pensaria tal ação&lt;br /&gt;No meio de tormento tão selvagem...&lt;br /&gt;Momento calmo, da mais pura compaixão &lt;br /&gt;Plasmando uma verdadeira imagem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entretanto me parece perceber&lt;br /&gt;Uma outra alegoria nesse ato,&lt;br /&gt;A minha vida em poesia e paixão,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois creio que também posso fazer, &lt;br /&gt;Me perdoem os fiéis de religião,&lt;br /&gt;No meu próprio véu o meu retrato...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Veronica’s Veil (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;906&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Plasmar-me vero ícone em poesia &lt;br /&gt;Foi pra mim verdade e confissão,&lt;br /&gt;Pois jamais em falsidade conseguia&lt;br /&gt;Resistir ao linguajar do coração.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não há como mentir ou falsear &lt;br /&gt;Tua verdadeira face ao mundo&lt;br /&gt;Se tiveres alma e palma que rimar &lt;br /&gt;E chegar do coração ao poço fundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois se fores falso nem atinges&lt;br /&gt;O que se denomina de poema, &lt;br /&gt;O lenço que com más tinturas tinges...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quais cabelos as raízes mostrarão&lt;br /&gt;A cor de uma velhice que se tema:&lt;br /&gt;As mais feias rugas de expressão...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;A Máscara (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;905&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sob a máscara estranha permanece&lt;br /&gt;E eu percebo pelo porte pequenino&lt;br /&gt;Durante uma folia que se aquece,&lt;br /&gt;Que não passa de guria ou menino.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais não pude precisar desse mistério&lt;br /&gt;Pois não emite canto, grito... nada!&lt;br /&gt;Talvez vá retornar ao cemitério&lt;br /&gt;Ao chegar a quarta-feira acinzentada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já começo a ficar amedrontada&lt;br /&gt;Pois durante todo, todo o Carnaval&lt;br /&gt;Fez seus meneios sob minha sacada&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas debaixo da cabeça monstruosa&lt;br /&gt;De patética hibridez medieval,&lt;br /&gt;A tristeza é minha, em verso e prosa...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;05/03/2003 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Meu amor e meu cão (de Alma Welt) &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;904&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Amo meu cão e isso me acrescenta;&lt;br /&gt;Não morrerei à míngua solitária&lt;br /&gt;Se me faltar a mim parte contrária, &lt;br /&gt;O que me ama e em solidão agüenta&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esperando a sua órbita cruzar &lt;br /&gt;Pelo menos o caminho do meu cão&lt;br /&gt;Que costuma quase sempre se adiantar&lt;br /&gt;Desejo farejando, amor, e solidão...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então vivo da esperança reviver&lt;br /&gt;Que no tranco pegando o meu motor&lt;br /&gt;Meu amor logo renasce se morrer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com meu fiel e amado cão farejador,&lt;br /&gt;Se na fronteira de dois mundos me perder&lt;br /&gt;Foi que topei com o cão do meu amor...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;De Vinhos e de Rosas (Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;903&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Munir-me de esperanças é preciso&lt;br /&gt;Em meio a tanta dor e decadência&lt;br /&gt;Desta casa que não mais conhece riso,&lt;br /&gt;E o vinhedo agora é de demência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No centro a própria doida poetisa &lt;br /&gt;Conquanto ainda bela desvairia,&lt;br /&gt;A ver-te em verde mesa numa Ibiza &lt;br /&gt;A jogar a nossa última quantia... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas se a Vinha é sonho como penso,&lt;br /&gt;Verei teu Aston Martin a caminho&lt;br /&gt;Depois de um Royal Flush meio tenso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bah! Os dias de beleza e plenitude!&lt;br /&gt;Está tudo perdido, a rosa e o vinho,&lt;br /&gt;Bebi a minha quota enquanto pude...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Mulher que sonha (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;902&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O melhor de mim é o meu sonhar...&lt;br /&gt;Eu nele ponho a alma e o coração;&lt;br /&gt;Sou eu o próprio sonho e o luar,&lt;br /&gt;Nada pode arrastar-me pelo chão&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se eu puder olhar-me quando sonho,&lt;br /&gt;E posso, e comigo me comovo,&lt;br /&gt;Embora isso pareça assim bisonho&lt;br /&gt;É oblongo e ocluso como um ovo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mulher anima sou em carne viva,&lt;br /&gt;O que me vale ser quase divindade,&lt;br /&gt;Helena, Psiqué ou uma Gradiva. *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como tais sou musa, e bem por isso,&lt;br /&gt;Embora uma essência em liberdade,&lt;br /&gt;Com a beleza em sério compromisso...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nota&lt;br /&gt;* Gradiva- "aquela que avança", a Musa criada por Wilhelm Jensen em 1903, no seu famoso romance homônimo, que tanto influenciou a literatura européia na primeira metade do século XX&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Gradiva é de fato um baixo-relevo neoático romano, da primeira metade século II, feito à maneira das obras gregas do século IV a.C., e representa uma jovem que dança e levanta a barra de seu traje. É parte do relevo das Aglaurides - as filhas de Cécrope, cuja mulher se chamava Aglauros ou Agraulos - e está no Museu Chiaromonti, no Vaticano..&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O romance de Jensen foi tema do famoso estudo de Sigmund Freud O delírio e os sonhos na 'Gradiva' de W. Jensen (Der Wahn und die Träume in W. Jensens ″Gradiva″), de 1907 e inspirou vários surrealistas. (Wikipédia) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O Tear (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;901&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sou branca qual diáfana quimera,&lt;br /&gt;Por isso Alma sou minha elegia.&lt;br /&gt;Entretanto minha mãe já o temera&lt;br /&gt;Esse nome que ditou minha poesia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só a dura Açoriana quis calar &lt;br /&gt;Este estro que teimava em ascender,&lt;br /&gt;E na sombra das maçãs do meu pomar&lt;br /&gt;Quase vi essa poesia se perder.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E por isso esse constante refilar&lt;br /&gt;A cada novo ponto que desfia,&lt;br /&gt;Qual Penélope de mim no meu tear...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois tênue, etérea, o olhar disperso,&lt;br /&gt;Ganho cores por artes de magia &lt;br /&gt;Ao remendar sem fim meu universo... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A Jornada (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;900&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A quem agradecer tanta beleza?&lt;br /&gt;A Deus, ao Cosmo, à Mãe Natura,&lt;br /&gt;Ou ao Tempo que a todos nos matura&lt;br /&gt;Pra ceifar-nos logo, com crueza?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acabamos de aprender alguma cousa&lt;br /&gt;E depois de tantos erros e erratas&lt;br /&gt;Estamos aptos a escrever na lousa,&lt;br /&gt;Que afinal será um nome e duas datas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas se a vida foi bem desfrutada&lt;br /&gt;E co’a sabedoria estamos quites&lt;br /&gt;Pelo menos já fruímos a jornada&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que terá sido tão bela de se ver,&lt;br /&gt;E a verdade é a beleza, disse Keats,&lt;br /&gt;Era tudo o que havia pra saber...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;06/11/2006&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Meu aniversário (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;899&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Quando meu aniversário celebravam,&lt;br /&gt;Me punha entre feliz e perturbada.&lt;br /&gt;Afinal não tinha ainda feito nada,&lt;br /&gt;Por quê razão assim tanto me amavam? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas logo percebi que pra ser boa&lt;br /&gt;Devia aceitar os cumprimentos&lt;br /&gt;Que não apenas falsos documentos&lt;br /&gt;Mas generosidade de quem doa...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E se, como insistem, sou princesa,&lt;br /&gt;A recusar tanta loa, incenso e ouro&lt;br /&gt;É preferível perder a realeza.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, se noblesse oblige uso um colar,&lt;br /&gt;O grosso vai pro fundo do tesouro&lt;br /&gt;Pois que pode o barco-reino naufragar... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A Bruma e o Vento (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;898&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando a neblina baixa na coxilha&lt;br /&gt;E o olhar se perde assim em sonho&lt;br /&gt;Conformando essa branca maravilha &lt;br /&gt;Com as parcas rimas que disponho,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu mergulho nas brumas do passado&lt;br /&gt;E logo emergem sombras e o alarido&lt;br /&gt;Das batalhas de um povo rebelado&lt;br /&gt;E daquela que deixou falso marido&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para seguir a sua alma verdadeira,&lt;br /&gt;Como eu que voltei para a poesia&lt;br /&gt;Como volta um corpo à sua poeira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E então vejo que estou no meu lugar&lt;br /&gt;Com direito à bruma e à ventania &lt;br /&gt;A levar-me a nau e versos além-mar...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A Náufraga do Éden (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;897&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Me imputem erros, vícios e pecados,&lt;br /&gt;Outros muitos mas que não o Original,&lt;br /&gt;Que desse não assumo os resultados&lt;br /&gt;Nem essência, que rejeito como o Mal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Amar e me entregar ao companheiro&lt;br /&gt;Foi sublime mesmo em tenra idade;&lt;br /&gt;No Levante jogados no estrangeiro&lt;br /&gt;Isso foi ou resultou pura maldade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Armar-me de poesia e inocência&lt;br /&gt;E também pequena dose de ironia,&lt;br /&gt;Eis reação sublime e não demência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E sobre estes campos de coxilha,&lt;br /&gt;Naufragada de mim em minha Ilha,&lt;br /&gt;De volta ao meu pomar sou a Guria...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;25/08/2005 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Anti Bela Adormecida (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;896&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jamais estive bela adormecida,&lt;br /&gt;Que, anima de mim, sou coração,&lt;br /&gt;Cuja carta tirei logo de saída,&lt;br /&gt;O príncipe encantado é meu irmão...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seu beijo fui eu que o roubei&lt;br /&gt;Quando éramos guris no meu pomar.&lt;br /&gt;Um pacto com ele então selei:&lt;br /&gt;Não poderiam nos desencantar&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um do outro, duas almas rebeladas &lt;br /&gt;Contra espinhos e dragões de oposição&lt;br /&gt;Ou nossas mesas verdes separadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois se iremos roubar nossas noitadas,&lt;br /&gt;Não serei eu que frustrarei a sua mão&lt;br /&gt;Retirando nossas cartas tão marcadas...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O Primo Gay (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;895&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No verão hospedei aqui na estância&lt;br /&gt;Nosso estranho primo Raulzito, &lt;br /&gt;Que por ser assim meio esquisito&lt;br /&gt;Foi minha cobaia em minha infância&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A quem eu desnudava e examinava&lt;br /&gt;Como a médica que eu dizia que seria&lt;br /&gt;E um andrógino achei que descobria&lt;br /&gt;Ou mesmo o Hermafrodita que faltava&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desde a antiga e cruel separação&lt;br /&gt;Por Zeus ou Thor com seu machado&lt;br /&gt;E não esperava esta nova sensação,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma espécie de volúpia de Narciso:&lt;br /&gt;Com a irmã faz um par sofisticado&lt;br /&gt;Que adora me ver nua sem aviso... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Stradivarius (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;894&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um vizinho no bairro de Pinheiros&lt;br /&gt;A quem deu a mania de comprar&lt;br /&gt;Violinos e rabecas sem parar&lt;br /&gt;Que lhe levavam falsos companheiros&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De um carteado fútil, sem sentido,&lt;br /&gt;Vilipendiado em sua inocência&lt;br /&gt;Em seu lar doce lar mais que invadido,&lt;br /&gt;Já estava à beira da demência...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E me convidando especialmente &lt;br /&gt;Com a presença dos falsários&lt;br /&gt;No meio de um jantar beneficente&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Destrincharam violinos como frangos &lt;br /&gt;E até o seu falso Stradivarius,&lt;br /&gt;A pinçar-me-lhes a alma ao som de tangos...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A Ronda (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;893&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Creiam-me, há um fauno que me ronda&lt;br /&gt;Fazem dias, meses, anos... que sei eu?&lt;br /&gt;Ele quer algo de mim, meu sonho sonda &lt;br /&gt;Para em mim capturar algo que é seu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Erro meu foi contar isso pros doutores&lt;br /&gt;Que abanaram as cabeças venerandas&lt;br /&gt;E puseram em torno platibandas &lt;br /&gt;Para conter meus "acessos de terrores".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas ele é o meu fauno e não o demo,&lt;br /&gt;E me quer longe daqui, na nossa Arcádia,&lt;br /&gt;É o meu conterrâneo e não o temo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acreditem-me ou não, sou uma ninfa!&lt;br /&gt;Narcoléptica, sim, mas não vadia&lt;br /&gt;Ou maníaca de quem drenam a linfa...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;12/01/2006&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nota&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este perturbador soneto descoberto hoje, Domingo, na Arca da Alma, corresponde ao período de internação da Alma em Alegrete, em Janeiro de 2006, na Clínica da qual fugiu. Os médicos a diagnosticaram com um "blend" de síndromes : Ninfomania (daí a alusão no soneto à "ninfa" e à "maníaca"), bipolaridade e (pasmem!) Histería , essa desde o doutor Breuer e Freud, caída em desuso. Eles a mantinham dopada ("narcoléptica") e tiravam suas energias (a" linfa"). O resultado foi que Alma conseguiu afinal fugir daquela Clínica, pois o aparecimento lá da boa Doutora Jensen foi tardio e não logrou retê-la. Ela ficou perdida por quatro dias nas estradas do Pampa pegando caronas de caminhão, e tudo leva a crer que foi estuprada por um caminhoneiro na primeira tentativa...&lt;br /&gt;(Lucia Welt) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Salomé (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;892&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu fui um dia a dançarina Salomé...&lt;br /&gt;Eu sei disso e no fundo trago a culpa&lt;br /&gt;De ser bela e não ter samba no pé&lt;br /&gt;E ter fandango e chula por desculpa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E se tenho o minuano como amigo&lt;br /&gt;Que neste casarão vem se hospedar,&lt;br /&gt;Eu sei que é uma espécie de castigo&lt;br /&gt;Pela cabeça que um dia fiz rolar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao meu baile mascarado compareça &lt;br /&gt;Com teus próprios fantasmas se tu podes;&lt;br /&gt;O Batista trago eu, e sem cabeça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois sei que até Anita, Pepe e Bento, &lt;br /&gt;A pedido do meu gordo rei Herodes&lt;br /&gt;Dançarão comigo ao som do vento...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O Quadrinho de Jonas (Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;891&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu pequeno aluno tem suas manhas:&lt;br /&gt;Pintou-me um quadrinho com endereço,&lt;br /&gt;Onde estou guria entre montanhas &lt;br /&gt;De uma Minas que nem sequer conheço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele me quer levar consigo pras Gerais&lt;br /&gt;A um cenário de que jamais fui filha,&lt;br /&gt;Entre morros para mim altos demais&lt;br /&gt;Que só conheço o plano da coxilha...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E enquanto ando nua em nostalgia&lt;br /&gt;Dentro do ateliê e ele me pinta,&lt;br /&gt;Imagina que, ali, dele eu seria...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então pego a vassoura e disfarço&lt;br /&gt;Unindo o belo, o útil e o embaraço&lt;br /&gt;Em meio a tanto amor pra pouca tinta...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;15/11/2000&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nota&lt;br /&gt;Este quadro se refere a um episódio da temporada paulistana da Alma, entre 1999 e 2005, com seu aluno muito amado, o negrinho Jonas, de 12 anos na ocasião, que a pintou num quadro naïf encantador (bem menor do que aparece no quadro do Guilherme). Alma guria diante de um quadro igual, num cavalete entre montanhas, numa espécie de espelhamento infinito. As pessoas podem estranhar que a Alma andasse nua no ateliê com seu discípulo menino por ali... Mas Alma era assim, não tinha malícia e parecia pressentir que seu aluno também não a teria nunca: o menino morreria em Minas baleado através do quadrinho de sua Alma, que apertava contra o peito... ( vide o conto "Meu Pequeno Vizinho", dos Contos da Alma). &lt;br /&gt;(Lucia Welt) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Pureza (Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;890&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu busco minha pureza não perdida&lt;br /&gt;Nos primórdios de minha humilde saga,&lt;br /&gt;Embora aviltada e ofendida&lt;br /&gt;Pela mão que ainda hoje não afaga,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que é a que puxou pelos cabelos&lt;br /&gt;A pequena Alma ruiva e branca&lt;br /&gt;Que ainda espera os tais desvelos&lt;br /&gt;Para vencer a mágoa que a desanca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ah! Se pudesse um dia por semana &lt;br /&gt;Aconchegar-me ao seio da rainha &lt;br /&gt;E não chamá-la mais “a Açoriana”!...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bah! Eu não seria pois quem sou...&lt;br /&gt;Esta dor que me deu o que eu já tinha,&lt;br /&gt;O Poeta que em mim se revelou... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Peregrinação à Árvore Sagrada (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;889&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Andei à sua procura pelo mundo&lt;br /&gt;Digo, a ela, a Árvore Sagrada&lt;br /&gt;Que encontrei na alma, enraizada, &lt;br /&gt;De onde todo mistério é oriundo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na paisagem perfeita e irreal&lt;br /&gt;Com montanhas rosas e amarelas,&lt;br /&gt;(minha casa num recôncavo ideal&lt;br /&gt;aparecia ao longe sem janelas)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E eu diante dela, que é tão rubra,&lt;br /&gt;Reafirmo meus votos e missão&lt;br /&gt;Sem que a veste branca me descubra,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois estou diante de mim e meu pudor&lt;br /&gt;De ser quem sou neste fundo coração,&lt;br /&gt;No cenário de onde brota o meu amor...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Mensagem de Fim de Ano (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;888&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Daqui deste rincão do fim do mundo&lt;br /&gt;Lançar quisera poderosas vibrações &lt;br /&gt;Enquanto o papel e a tela inundo&lt;br /&gt;Com versos que permeiam corações.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas não sou terno poeta, comportado&lt;br /&gt;Ou sequer cheio de boas intenções,&lt;br /&gt;Que dessas o inferno está lotado&lt;br /&gt;E a Poesia não é feita de razões&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E ainda menos de dogmas morais,&lt;br /&gt;Pontificantes esquemas de conduta&lt;br /&gt;Ou conselhos aceitos como tais...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas ao ver-se livre e desregrada,&lt;br /&gt;Poesia a realidade nos transmuta &lt;br /&gt;E libera a nossa fonte represada...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;23/12/2006 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O Poeta (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;887&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;As convenções me atraem e as repilo,&lt;br /&gt;Vivo mil contradições a cada passo,&lt;br /&gt;Sou a favor disto e contra aquilo,&lt;br /&gt;E logo minha opinião refaço...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não terei então nenhum caráter?&lt;br /&gt;Creiam, nisso na verdade mal atino.&lt;br /&gt;A poesia há de ser célula mater,&lt;br /&gt;Pois que nela forjarei o meu destino.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o que é ser poeta? Me perguntas...&lt;br /&gt;Eu diria que é ser o que tu mires&lt;br /&gt;E não ser as coisas que ora ajuntas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O olhar sábio escolhe no que vemos&lt;br /&gt;No presente os passados e os porvires&lt;br /&gt;Dos muitos que nós fomos e seremos...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;17/10/2006 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Expulsos do pomar (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;886&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Expulsos fomos do pomar quando guris,&lt;br /&gt;O mano e eu pelos cabelos agarrados;&lt;br /&gt;Mãos na frente e atrás mas obrigados,&lt;br /&gt;Que nunca fôramos covardes ou servis...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas bah! que dor imensa, colossal! &lt;br /&gt;Por ser raro esse arrasto e pelos pulsos,&lt;br /&gt;Demoramos pra sabê-lo universal:&lt;br /&gt;Todos os guris são sempre expulsos...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E seríamos por anos separados,&lt;br /&gt;Um oceano até nos interpondo&lt;br /&gt;Para que não se juntassem nossos fados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cruel e extremo zelo de mulher!&lt;br /&gt;Deus não fez assim nos descompondo,&lt;br /&gt;Que separar nunca é o que Ele quer...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt; &lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Depois da briga (Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;885&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rôdo, estou triste e não me venha...&lt;br /&gt;Deixa eu chorar o quanto possa.&lt;br /&gt;Amanhã se lembrares nossa senha,&lt;br /&gt;Vem, que estarei fora desta fossa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas lembra-te: consolo não me pega&lt;br /&gt;E palavra de carinho vem de dentro&lt;br /&gt;Não pode ser assim lançada ao vento,&lt;br /&gt;Nasce do próprio seio da refrega.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se agora tens por mim só compaixão&lt;br /&gt;Não baseies nisso o teu beijo&lt;br /&gt;Não faças da piedade uma missão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Levantar tua luxúria me consola&lt;br /&gt;Afinal não estou lá tanto na sola, &lt;br /&gt;Se ainda despertar o teu desejo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Frinéia (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;884&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como em cada um de nós se encontra&lt;br /&gt;O mistério da humana condição,&lt;br /&gt;Resolvi estudar-me num verão&lt;br /&gt;Pelo tanto que o coração demonstra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E era o meu verão de plenitude,&lt;br /&gt;Em que minha beleza era o evento &lt;br /&gt;Neste fim de mundo em solitude&lt;br /&gt;Entre os convidados do momento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por quê estou eu ainda a disfarçar?&lt;br /&gt;A verdade é que um eco de Narciso&lt;br /&gt;Me fez ante os presentes desnudar...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ou eu quis ver o efeito sem idade,&lt;br /&gt;Nos olhos e nos peitos, sem aviso,&lt;br /&gt;Da visão de uma fração de eternidade...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Quem sou, de onde vim... (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;883&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Quão perto estou de entender tudo!&lt;br /&gt;Quem sou, de onde vim, vou para onde...&lt;br /&gt;Acreditem-me, eu creio e não me iludo,&lt;br /&gt;É algo que ao olhar se nos esconde&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas que mora dentro de nós mesmos; &lt;br /&gt;Algo que está conosco sob um teto,&lt;br /&gt;Que a Poesia co’ele lida em outros termos&lt;br /&gt;Como um culto iniciático e secreto&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em que remexe as vísceras de um bode&lt;br /&gt;Como outrora os gregos e romanos &lt;br /&gt;(que o ser humano procura como pode)...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bah! Falando em vão de tudo isso,&lt;br /&gt;Chego a conclusão que há muitos anos&lt;br /&gt;Habito um caos secreto e insubmisso...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Metamor (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;882&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não mais me importar com ser amada...&lt;br /&gt;Quem me dera chegar a tal momento&lt;br /&gt;E viver em plenitude e alheamento&lt;br /&gt;O Ser do ser, e amar sem sentir nada!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sim, como se Amor o corpo fosse&lt;br /&gt;No gesto simples de doar e de colher&lt;br /&gt;Como as flores se dão ao nosso ser,&lt;br /&gt;Só muda fragrância, seca ou doce... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nada de palavras, nem poemas&lt;br /&gt;E muito menos os dúbios sentimentos &lt;br /&gt;Tão cheios de equívocos, esquemas... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sem coração que quer reter, capturar,&lt;br /&gt;A aura intangível dos momentos&lt;br /&gt;Inefáveis, que podemos só lembrar... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;18/09/2006 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O meta-temporal (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;881&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu vinha doida correndo pela trilha&lt;br /&gt;Que sempre me devolve ao casarão&lt;br /&gt;O minuano soprava na coxilha&lt;br /&gt;E eu tremia ao ribombo do trovão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então logo começou o temporal &lt;br /&gt;E vi-me enregelada e em terror.&lt;br /&gt;Não lograva chegar no meu quintal&lt;br /&gt;Para afinal recuperar o meu calor...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então me lembrei que sou a Alma&lt;br /&gt;E que posso questionar meu Criador&lt;br /&gt;Ou mudar pr’um soneto que me acalma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas nos versos, mesmo mundos inventados,&lt;br /&gt;Não escapamos das encrencas e da dor,&lt;br /&gt;Se Poetas, pelos deuses adorados...*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;19/10/2004&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nota&lt;br /&gt;*Se Poetas, pelos deuses adorados...- Este verso faz alusão à famosa frase (anônima ou de um grego antigo?): "Aos deuses apraz fazer sofrer àqueles que eles mais amam..."&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A filha do Desejo (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;880&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Sou filha do desejo dos contrários&lt;br /&gt;E de tal dicotomia me ressinto:&lt;br /&gt;Quisera ser aceita nos ovários&lt;br /&gt;Como água numa taça de absinto&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ou mesmo como filha pródiga&lt;br /&gt;No seio maternal e seu calor,&lt;br /&gt;E não essa acolhida espasmódica,&lt;br /&gt;Cheia de repulsa e de rancor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vê, Açoriana, o que me fazes,&lt;br /&gt;Cerceando-me pelos quatro lados&lt;br /&gt;Dos apelos e dos pelos dos rapazes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim, já amorosa e tão ardente&lt;br /&gt;Me restavam as gurias, simplesmente,&lt;br /&gt;Que sem elas meus dias são contados...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;09/04/1998&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nota &lt;br /&gt;Alma se vê como a filha do desejo de dois seres muito diversos e até antípodas: o Vati (nosso pai) e a" Açoriana" (nossa mãe). Quando ela diz que queria ser aceita nos ovários de sua mãe ela reflete a grande carência e mágoa por sua mãe convencional e repressora não aceitá-la com ela era: artista, hiper-sensível e aparentemente excêntrica. Como nossa mãe fez tudo o que pôde para cercá-la ("cerceá-la") para que, por seu fogo vital e sexual, não se entregasse aos rapazes, a começar nosso irmão Rodo (em vão) ou até jovens peões da estância, Alma tentou driblar essa vigilância apaixonando-se e mantendo relações secretas, amorosas e eróticas com gurias, amigas e primas. No último verso, ela afirma que sem elas ela morreria...&lt;br /&gt;(Lucia Welt) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Quadrilha (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;879&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Já estive com Noé naquela Arca,&lt;br /&gt;E fui cabeleireira de Sansão&lt;br /&gt;Depois de ser expulsa com Adão &lt;br /&gt;Por furibundo anjo do Tetrarca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dei sopa de lentilhas ao irmão,&lt;br /&gt;Por pura cobiça o fiz de bobo, &lt;br /&gt;E causei no cego pai uma ilusão&lt;br /&gt;Com pele de cordeiro feito lobo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois, muito depois de consumado&lt;br /&gt;Quis beijar a mão do falecido:&lt;br /&gt;“Não me toques!” e saiu meio de lado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E agora estou no Pampa com os sapos&lt;br /&gt;Depois do coração ter em farrapos&lt;br /&gt;Por amar um carcamano enlouquecido...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nota&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alma, neste divertido soneto narra sua passagem como reencarnações por diversos episódios do Gênesis da Biblia, como a expulsão do Paraiso; Dalila cortando a cabeleira de Sansão; a sopa de lentilhas de Jacó (o maior embusteiro) da Biblia, trocada pelo direito de progenitura com o pobre do Esaú enganado pelo menos duas vezes; depois o episódio de Esaú , peludo e Jacó, liso, em que este engana o pai Isaac, cego, vestindo uma pele de cabrito, para ser tocado nas costas pelo pai e assim confundido com o Esaú.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No primeiro terceto do soneto, Alma , como Maria Madalena, faz alusão ao episódio do novo Testamento conhecido como o "Noli Me Tangere", quando Cristo Resssucitado, encontrado pela Madalena, que se ajoelha perante ele e tenta tocá-lo , por devoção e carinho (talvez para comprovar), diz a ela: "Não me toques" porque ainda não subi ao meu Pai" ( ele tinha descido aos Infernos, subido ao terceiro dia , e ainda estava "impuro" (!!!).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E finalmente no último terceto Alma está afinal no Pampa, atual, desencantado (só sapos, nada de príncipes), e lembra de sua encarnação como Anita na Guerra dos Farrapos, o coração em "farrapos" por amor ao aventureiro louco pela liberdade (" enlouquecido" ) o italiano ("carcamano") Giuseppe Garibaldi.&lt;br /&gt;(Lucia Welt)&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Teto azul (Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;878&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Não me posso imaginar sem mais dizer,&lt;br /&gt;Exaurida, esgotada, findo o estro&lt;br /&gt;Ou sem mais inspiração para escrever,&lt;br /&gt;Pra ser direta e clara no meu texto&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mesmo em rima falsa e pé quebrado,&lt;br /&gt;Que pouco me importo, dou de ombros, &lt;br /&gt;Que o verso mais belo e bem achado&lt;br /&gt;É veio d’ouro que salta dos escombros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois Poesia é um jeito de olhar,&lt;br /&gt;Frontal ou de viés, que pouco importa,&lt;br /&gt;E muitas vezes só maneira de falar,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas que diz bem mais do que o falado&lt;br /&gt;Como quem calado abriu a porta&lt;br /&gt;Sob um teto azul e sem telhado...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Beleza do Mundo (de Alma Welt)&lt;br /&gt;877&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Escolhi a Beleza, e sinto muito&lt;br /&gt;Aos que mo apontam o lado imundo,&lt;br /&gt;A querer-me mais que olhar fortuito&lt;br /&gt;Sobre a face real do nosso mundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas dessa tal realidade, que sei eu?&lt;br /&gt;O sonho anda comigo e dele sei.&lt;br /&gt;E se amiúde a dor me comoveu,&lt;br /&gt;Também era beleza, e então parei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E pus a minha mão sobre o leproso&lt;br /&gt;E a mulher carente tão materna&lt;br /&gt;Que jamais tivera seu esposo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E aquela suja e bela boa cigana &lt;br /&gt;Que comigo foi expulsa da taberna&lt;br /&gt;Pois que lia a mão que só me engana...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nota&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acabo de descobrir na Arca da Alma este soneto inédito que me comoveu pois no último terceto reconheci as circunstâncias reais do primeiro encontro de minha irmã com a cigana Rafisa, que iria daí por diante ser sua amiga e mesmo amante... Alma escreveria vários textos contando episódios da convivência delas, que já postei aqui, como a crônica Safira, Eu e os Ciganos, e A Peregrina. E há um capítulo inteiro sobre essa relação ardente, quando se reencontraram no sertão da Paraiba, no romance O Retorno dos Menestréis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aqui neste soneto, minha irmã alude ao episódio em que a Rafisa entrou numa taberna em que estávamos tomando vinho, e com um olhar fulgurante foi direto em direção à Alma e agarrou-lhe a mão para ler a sua sorte. Como a Alma deixou e começou a passar a mão no rosto sujo da moça, depois de uma discussão com o taberneiro que queria arrastar para fora a cigana, acabamos todas expulsas e a Alma levou a Rafisa para nossa casa para dar-lhe um banho de banheira com suas próprias mãos...&lt;br /&gt;(Lucia Welt) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Eu e a Primavera (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;876&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Poesia é o que sou, é minha essência&lt;br /&gt;E não que eu com ela faça um Duo.&lt;br /&gt;Sou eu que a tenho e distribuo, &lt;br /&gt;O que a mãe chamava de indecência...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se ando a esmo aí pela coxilha&lt;br /&gt;Em pleno esplendor de primavera&lt;br /&gt;Ela sou eu, essa prima maravilha&lt;br /&gt;Vinda da Alemanha e que me espera&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na cama ao lado, de noite, na calada&lt;br /&gt;Para trocarmos carícias e segredos,&lt;br /&gt;E lábios rubros até a madrugada...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E ao nascer do sol sobre esta estância &lt;br /&gt;À mesa me ouvirão contar enredos &lt;br /&gt;De um reino de pompa e circunstância...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;21/08/1999 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A calejadinha dos marmelais (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;875&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os apelos do amor são infindáveis &lt;br /&gt;E me ocuparam desde o amanhecer,&lt;br /&gt;Digo desde a própria aurora do viver&lt;br /&gt;Tão plena de momentos inefáveis&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando eu tinha que seguir o coração&lt;br /&gt;E erguer-me do meu leito na calada&lt;br /&gt;E tateando ir ao sótão do irmão&lt;br /&gt;Ou ao leito de uma prima tão amada...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que medos, que suspense e que coragem!&lt;br /&gt;Tão secreta vida e amor tão cedo! &lt;br /&gt;Só podia dar poesia ou dar bobagem...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E eis que continuo provocando,&lt;br /&gt;Calejada dos marmelos e do medo,&lt;br /&gt;Rebelde, com o Amor ainda ando...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nota&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* A calejadinha dos marmelais- percebe-se que a Alma com esse título faz trocadilho com o do romance português A Morgadinha dos Canaviais, de Julio Diniz, que foi o único que nossa mãe, "a Açoriana", sugeriu à Alma ler. E como ela castigava muito a Alma com a vara de marmelo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(Lucia Welt) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O Muro e a Porta (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;874&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Transformar flagrante em algo eterno&lt;br /&gt;E assim perpetuar a sutileza&lt;br /&gt;De um olhar ou gesto forte e terno,&lt;br /&gt;Capaz de dar à mente uma clareza,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nem que seja de um momento tão fugaz&lt;br /&gt;Mas que me pode, captado, redimir&lt;br /&gt;De tantos outros perdidos sem sentir,&lt;br /&gt;Pastora inepta do Eterno Capataz...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eis a meta que a si mesma se elabora&lt;br /&gt;Não só como um projeto de futuro&lt;br /&gt;Mas a cada instante, aqui, agora...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois se o sonho meu nasceu de um trauma *&lt;br /&gt;E por meio do temor constrói um muro,&lt;br /&gt;Também abriu a porta desta Alma... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nota&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;*Pois se o sonho meu nasceu de um trauma &lt;/strong&gt;- Embora possamos deduzir que o trauma a que a poetisa se refere foi o flagrante produzido por nossa mãe, a Açoriana, da Alma e Rodo, guris, brincando eroticamente sob a macieira do nosso pomar, a conseqüente expulsão do seu paraíso infantil e a separação dos irmãos por muito tempo, é curioso notar que em alemão a palavra sonho é Traum ou Träumen, da qual derivou em português o termo psicanalítico "trauma". Pode-se ler, então um subtexto: pois se o sonho meu nasceu de um "sonho perdido"...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(Lucia Welt) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Balanço da vida II ( de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;873&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Construir-me em poesia é meu escopo&lt;br /&gt;Mesmo que me seja a vida breve.&lt;br /&gt;Se não posso de mim chegar ao topo,&lt;br /&gt;Que o vento faça a curva e que me leve.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aqui mesmo no final do fim do mundo&lt;br /&gt;Contei a minha saga imaginária,&lt;br /&gt;E era tudo verdade bem no fundo&lt;br /&gt;Conquanto de mim mesma estagiária.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se rimei fácil o mundo com profundo &lt;br /&gt;Todavia direi com certo orgulho&lt;br /&gt;Que evitei rimá-lo com o imundo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E se não fiz nada pra mudá-lo,&lt;br /&gt;Dei em sua banheira meu mergulho&lt;br /&gt;Com o risco de escoar-me pelo ralo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;12/01/2007 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O Armário (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;872&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Tanta poesia no mundo a nos cercar!&lt;br /&gt;Quem ousará dizer que tudo é mau?&lt;br /&gt;Haja alma para tanto assimilar&lt;br /&gt;E haja coração pra tanto sal&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Da Vida, da Poesia, da Beleza&lt;br /&gt;Que mesmo o próprio homem recriou&lt;br /&gt;Além da que restou por gentileza&lt;br /&gt;De Deus quando ralhando nos deixou&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E se retirou pro firmamento &lt;br /&gt;Onde permanece até o momento&lt;br /&gt;De vir suspender nosso castigo &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que é da alma o armário escuro e fero&lt;br /&gt;Onde eu com minha letra mal consigo&lt;br /&gt;Escrever o meu poema enquanto espero...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O Realejo (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;871&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Como agir, eu pergunto, o quê fazer?&lt;br /&gt;O quê ser, o quê dizer, o quê pensar?&lt;br /&gt;Dormir, sonhar, morrer e renascer&lt;br /&gt;Para termos novamente o quê amar?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ou crer, brincar de ser e se iludir,&lt;br /&gt;E voltar a querer o que se quis...&lt;br /&gt;Será a vida só a roda do devir?&lt;br /&gt;Tudo é mistério no círculo de giz!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E minha dor é essa fonte desatada&lt;br /&gt;Que me tem dado esse tanto que falar,&lt;br /&gt;Que melhor fora sentir e recalcar...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entretanto no poema me revejo,&lt;br /&gt;Reencontro-me, guria, na calçada&lt;br /&gt;Diante daquele Eterno Realejo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Etemenanki (a Torre) (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;870&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Levada pela Arte já me encontro &lt;br /&gt;Declamando-me a mim assim de cor, &lt;br /&gt;Deixo-me levar de chofre e pronto,&lt;br /&gt;Que me leve o destino e pra melhor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para o alto construí, aqui estou,&lt;br /&gt;Aceito-me, proclamo meus delírios,&lt;br /&gt;Por isso escrevo e gravo o que ficou&lt;br /&gt;De tudo o que ganhei... e foram rios.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As línguas convergiram em minha mente&lt;br /&gt;Na torre de meu pai, Etemenanki,&lt;br /&gt;Pra produzir esta guria, simplesmente,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que agora flui e verte com candura,&lt;br /&gt;Poesia que não há mais o que estanque&lt;br /&gt;De tudo que restou e que perdura... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;09/05/1998&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nota&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais uma bela "profissão de fé" de poeta , da nossa Alma. Ela aqui se refere à biblioteca de nosso pai como a torre de Babel, "Etemenanki", que produziu a divisão das línguas. Essa biblioteca ainda existente a duras penas aqui na estância, é em cinco idiomas: português, alemão, francês, inglês, espanhol e italiano. Dentro dela Alma foi criada, e percebe-se que ela se refere a essas linguas como os "rios" que convergiram para ela. Tendo assimilado ( "de cór") a cultura clássica em várias línguas (se é que isso é possível), ela estava pronta para fluir, derramar Poesia , o que fez copiosamente em sua curta mas intensíssima vida intelectual e afetiva conjugadas, como se percebe em cada um dos mais de 1.800 sonetos que deixou.&lt;br /&gt;(Lucia Welt) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O Resgate (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;869&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Quando me sinto assim, exasperada&lt;br /&gt;Por tanto, tudo e todos tanto amar &lt;br /&gt;Me ponho a andar a esmo pela estrada&lt;br /&gt;Como se fosse assim a algum lugar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E assim caminho tanto, tanto ando&lt;br /&gt;Que caio exaurida em plena estrada,&lt;br /&gt;E choro de uma dor de estar amando&lt;br /&gt;E espero por um carro ser levada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E é então que aparece o meu resgate:&lt;br /&gt;O fiel Galdério em sua charrete&lt;br /&gt;Para pôr neste drama um arremate.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E manso, forte, apeia compassivo&lt;br /&gt;Me toma nos braços qual pivete,&lt;br /&gt;Me leva qual se fosse de improviso...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O Riso e a Flama , ou O Contrato II (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;868&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Desperto vendo névoa na campina&lt;br /&gt;E se ela está branca como um manto&lt;br /&gt;Depois como um tapete, muito fina&lt;br /&gt;E pronta para a glória e para o canto&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que me deslumbrava ainda guria,&lt;br /&gt;Com grande revoada de andorinhas,&lt;br /&gt;Medito nesta graça da alegria&lt;br /&gt;Que Deus sempre nos doou nas entrelinhas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De um texto tão severo e cobrador&lt;br /&gt;Que é o grande contrato desta vida&lt;br /&gt;Que inclui tanto dever e tanta dor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E vejo que afinal tanto nos ama&lt;br /&gt;Que se ainda cobra velha dívida&lt;br /&gt;Nos deixou de graça o riso e a flama...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Os adeuses do Pampa (Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;867&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;As constantes lições da Mãe Natura,&lt;br /&gt;Aqui são, eu o sinto, as mais sutis,&lt;br /&gt;Neste Pampa que nos trata com brandura&lt;br /&gt;Mas não tolera os covardes e servis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eis por que o gaúcho é altaneiro&lt;br /&gt;Pois a coxilha misteriosa seleciona&lt;br /&gt;Aqueles que ela acolhe por inteiro&lt;br /&gt;E insere em seu fantástico bioma&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que inclui os espectros e os deuses,&lt;br /&gt;Se quiseres entender sua magia&lt;br /&gt;E sua vocação para os adeuses,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois devo despedir daquela Anita &lt;br /&gt;Ou do italiano que à luta nos incita,&lt;br /&gt;Se daqui me vou, no trem, desde guria...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Dois mil Sonetos (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;866&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Atingir dois mil sonetos é a meta,&lt;br /&gt;E a quantidade não é irrelevante&lt;br /&gt;Assim como a dosagem numa seta&lt;br /&gt;De ópio pra tratar um elefante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois pra anestesiar a dor de amar&lt;br /&gt;E ser em rebeldia neste mundo,&lt;br /&gt;Eu preciso em carradas sonetar&lt;br /&gt;E encher a minha arca já sem fundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;És louca, me disseram, pra quê isso?&lt;br /&gt;Não, não me disseram, estou mentindo,&lt;br /&gt;Mas certamente não brinco no serviço...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois criar é o que cabe, não viver,&lt;br /&gt;Quando se é poeta, não fingindo&lt;br /&gt;Pessoa que se quer sentir e ser... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Notas&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Acabei de descobrir, inédito, este curioso soneto na "Arca da Alma", em que ela atesta o seu propósito de escrever 2.000 sonetos (!!!) em sua (curta) vida. É, a meu ver, espantoso... Desconfio que ela conseguiu, pois não paro de encontrar sonetos inéditos na sua Arca, realmente "sem fundo". ( Lucia Welt)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*Este hábil terceto contém alusão aos famosos versos de Fenando Pessoa, que de certa forma Alma parafraseia: &lt;strong&gt;"Navegar &lt;/strong&gt;(criar) &lt;strong&gt;é preciso. Viver não é preciso."&lt;/strong&gt;E também : &lt;strong&gt;"O poeta é um fingidor/ Finge tão completamente/ que chega a sentir que é dor/ a dor que deveras sente." &lt;/strong&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Picnic (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;865&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Também vivi meu belo picnic&lt;br /&gt;Nesta plena coxilha num verão,&lt;br /&gt;Quando era romântico e até chic&lt;br /&gt;E sempre terminava em confusão&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E era eu a bela dentre as prendas,&lt;br /&gt;A que melhor dançava, falo sério,&lt;br /&gt;E usava vestido todo em rendas&lt;br /&gt;E romântico achava o cemitério.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E também acreditava, meio tola,&lt;br /&gt;Que a vida bem mais me reservava&lt;br /&gt;Que um ninho para esta pomba rola.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas vejo agora que tudo era verdade:&lt;br /&gt;Poeta, vi o mundo à saciedade,&lt;br /&gt;Malgrado a dor de ser quem me julgava...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Meu eterno Natal (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;864&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando guria sonhei ser poetisa&lt;br /&gt;E cantar o amor e a beleza;&lt;br /&gt;Enxergar o mundo com a clareza&lt;br /&gt;Do olhar que quase tudo mimetiza.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não parecia haver maior escopo,&lt;br /&gt;Nada mais importante ao ser humano;&lt;br /&gt;E agora que atingi de mim o topo&lt;br /&gt;Continuo a esperar o fim do ano:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os festejos em que sou sempre feliz,&lt;br /&gt;Natal de minha infância eternizada,&lt;br /&gt;Que sou da eternidade a aprendiz...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E escrever é buscar meu paradeiro,&lt;br /&gt;Pois o poeta em mim é a risada,&lt;br /&gt;Aquela ao ver as luzes do pinheiro...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;20/12/2006 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Canção do Amor Louco (Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;863&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Também hei de cantar o louco amor,&lt;br /&gt;E desde logo consultei o coração&lt;br /&gt;Para saber se atingi um tal teor&lt;br /&gt;Que me mereça cantar sua canção.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que não ouse aquele que amou pouco&lt;br /&gt;Ou fez do amor barganha ou possessão&lt;br /&gt;Tentar ser porta voz de um amor louco&lt;br /&gt;E alheio a meios tons e à concessão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Amor move as estrelas disse Dante&lt;br /&gt;Que sabia do amor em sua fonte,&lt;br /&gt;Embora nem amado e nem amante,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas amou tanto que chegou até a luz&lt;br /&gt;Que é da Divindade a própria ponte &lt;br /&gt;Que leva ao louco Amor que nos conduz...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O interdito (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;862&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Este senso de beleza que ganhamos&lt;br /&gt;De Deus, em nossa própria natureza, &lt;br /&gt;É o melhor de nós, que desfrutamos&lt;br /&gt;Do paraíso, não perdido com certeza,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se jaz em nossa alma assimilado&lt;br /&gt;E posso recompô-lo a cada passo&lt;br /&gt;Quando estou a vagar pelo meu prado,&lt;br /&gt;Diária romaria que ainda faço...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E vejo que está completa a vida,&lt;br /&gt;Não perdemos nada, isso me intriga&lt;br /&gt;A expulsão nos foi só advertida&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como falsa reprimenda, só um pito&lt;br /&gt;Diante do mistério do interdito&lt;br /&gt;Contra o qual Deus mesmo nos instiga... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Retorno ao Éden (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;861&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Mereço estar de novo em plenitude, &lt;br /&gt;Já que é este o paraíso que me coube, &lt;br /&gt;E o mais que desejar jamais eu pude:&lt;br /&gt;Meu pampa e que ninguém, Senhor, mo roube.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu sei, expulsa fui do meu pomar,&lt;br /&gt;Longe até desabrochei, mas exilada&lt;br /&gt;Sonhei a ele do degredo só voltar,&lt;br /&gt;Eis-me aqui, poeta e retornada!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por meu levante andei, sangrei, do Éden,&lt;br /&gt;E as feridas e canseiras que sofri&lt;br /&gt;Não há versos ou sonetos que os medem...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas estar a contar sílabas na Vinha&lt;br /&gt;Entre as uvas cujos vinhos nem bebi,&lt;br /&gt;É tão belo, Senhor... serei boazinha! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Contando Sílabas (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;860&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Viver nesta Pampa sem criar,&lt;br /&gt;Não parecia justo desde o início&lt;br /&gt;Com esta Mãe Natura tão sem par&lt;br /&gt;Que não tolera bem tal desperdício&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E conta com meus versos como ventos,&lt;br /&gt;Como aves revoando em alegria,&lt;br /&gt;Com meus solenes passos meio lentos&lt;br /&gt;Ou mancando por andar na pradaria&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A contar nos dedos, sem desdouro,&lt;br /&gt;Pra levar pro capataz Alexandrino&lt;br /&gt;Pé-quebrado sem sequer chave de ouro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o gaúcho que me vê nesta coxilha&lt;br /&gt;Já não pensa, creio eu, que desatino.&lt;br /&gt;Sorri, cabeceia e segue a trilha...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A Fronteiriça (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;859&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Presa do sonho me vi por tantos anos,&lt;br /&gt;Que a vida como espelho se instalou,&lt;br /&gt;Que não posso distinguir os meus enganos&lt;br /&gt;Desta real e louca vida que restou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E se vivo em poesia dupla vida,&lt;br /&gt;Atravesso a ponte desse espelho&lt;br /&gt;Ou vivo na fronteira, dividida&lt;br /&gt;Entre o azul de mim e o vermelho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não que haja conflito ou coisa assim&lt;br /&gt;Entre o mundo de cá e o de lá&lt;br /&gt;Ou seja eu a espiã fria de mim...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas essa dupla mão e seu perigo,&lt;br /&gt;Sem o gosto do banal que já não há,&lt;br /&gt;Fez de mim o mistério que persigo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nota&lt;br /&gt;Acabo de descobrir este soneto inédito na inesgotável Arca da Alma, e, como sempre, riquíssimo de subtexto:&lt;br /&gt;Alma, que era bipolar, temia estar se tornando esquizofrênica por viver uma dupla vida espelhada, já que traduzia tudo em poesia, isto é, todos os seus pensamentos e sensações e tudo o que a sua vista captava ao seu redor. A " fronteira" representa o limite entre o "real" e esse espelho de Alice que é o nosso inconsciente como reflexo invertido da nossa suposta realidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O azul e o vermelho no soneto faz ricas alusões à bipolaridade não só dela, Alma, mas de mundos que se confrontam e se interpenetram (" espião que saiu do "frio", guerra fria, azul ocidente- vermelho Rússia; cristãos e mouros- condão azul e vermelho das cavalhadas; mundo ocidental e oriental- mundo de racional e do "primitivo teocrático" ...&lt;br /&gt;E no último verso, ela menciona o fato de ser o seu próprio tema e cada vez mais misterioso, à medida que a sua vida-obra crescia, a ponto de se hoje se falar em um "Mistério Alma Welt", uma poetisa tão rica e universalmente profunda que muitos duvidam que ela tenha existido em carne e osso...&lt;br /&gt;(Lucia Welt) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A vida vivida (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;858&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Com tal sofreguidão vivi a vida&lt;br /&gt;E tanto a fruí que pouco devo&lt;br /&gt;A uma outra vida imerecida&lt;br /&gt;Se já vivi em dobro no que escrevo,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Malgrado esta dor de incompreensão&lt;br /&gt;De minha mãe Morgado, a dura Ana,&lt;br /&gt;Que tanto me faz falta ao coração,&lt;br /&gt;Que sempre acreditou-me ser insana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isto pensado aceitaria nova chance&lt;br /&gt;Se vivi pela metade minha saga:&lt;br /&gt;Minha Mutti ficou fora do romance.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que não pude deitar-me em sua cama&lt;br /&gt;E colar-me num seio que me afaga,&lt;br /&gt;E não mais chamá-la assim: Açoriana...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nota&lt;br /&gt;Acabo de descobrir este soneto inédito na Arca da Alma, e que expõe, em tema recorrente na obra da poetisa, a dificuldade de relacionamento com nossa mãe, que ela chamava com um certo distanciamento mítico de "a Açoriana". Essa distância e sua perda total aos 16 anos, está no cerne da tragédia da grande artista. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(Lucia Welt)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O Chão das Lembranças (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;857&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quantas vezes prestes a me alçar&lt;br /&gt;Retornei ao chão de minhas lembranças,&lt;br /&gt;Aquelas que me prendem no pomar&lt;br /&gt;Onde tu e eu fomos crianças...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ali sob a inocente macieira&lt;br /&gt;Que viu o nosso afoito desnudar,&lt;br /&gt;Depois a nossa linda brincadeira&lt;br /&gt;De que nos quisera envergonhar,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Debalde, eu diria como antigos,&lt;br /&gt;Os brios da matrona Açoriana,&lt;br /&gt;Morgado, a Mutti, a dona Ana...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois me alcei do chão pela poesia&lt;br /&gt;Ao descobrir em mim pelos perigos:&lt;br /&gt;Estrelas move o Amor, e nos movia...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Nota&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Acabo de descobrir na Arca da Alma, este soneto de tema tão recorrente na obra da poetisa, o que mostra a extensão do trauma ocasionado na alma de minha irmã pelo flagrante produzido por nossa mãe, a Mutti, a Açoriana (como só a Alma a chamava). Entretanto, como tudo que ela escrevia, o tema transcende a mera circunstância pessoal, pela sua conotação arquetípica, universal, pois é vidente a alegoria da expulsão do inocente casal primordial, do paraíso terrestre, e o anátema de Deus, que os jogou no mundo, "contra natura" , por punição. Alma como poeta haveria de se rebelar, e, como ela diz, se alçar deste chão traumático, pela Poesia.&lt;br /&gt;(Lucia Welt)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;*Estrelas move o Amor, e nos movia...- &lt;/strong&gt;A inversão da ordem por necessidade de rítmo ( que a Alma tanto prezava) talvez dificulte o entendimento: O "amor move estrelas", e nos movia é uma alusão ou paráfrase do último verso d' A Divina Comédia de Dante Alighieri : L'amor che muove il sole e l'autre stelle", O Amor que move o sol e as outras estrelas.&lt;br /&gt;(Lucia Welt) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;O Show do Amor (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;856&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Amor, que nem quer ser uma arte&lt;br /&gt;Mas se sobrepõe às outras todas&lt;br /&gt;Costuma dar um show à parte&lt;br /&gt;No palco das exéquias e das bodas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vê como choram os presentes&lt;br /&gt;Em torno do caixão do falecido&lt;br /&gt;Ou quando se casam os nubentes&lt;br /&gt;E Amor tem a palavra de sentido,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mormente no beijo e no abraço&lt;br /&gt;Do silêncio eloqüente dos amigos,&lt;br /&gt;Na lágrima que na face faz um traço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E as que jazem no coração suspensas&lt;br /&gt;Por mágoas e rancores muito antigos&lt;br /&gt;Brotam n’alma justo quando menos pensas... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Irrefletida (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;855&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;No lago vi meu rosto refletido&lt;br /&gt;De manhã como se fosse vez primeira,&lt;br /&gt;Nas águas do meu poço proibido&lt;br /&gt;Aonde tanto ia em brincadeira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E senti, em susto, que esse espelho &lt;br /&gt;Aprisionava sem dó o meu reflexo:&lt;br /&gt;Segurava o cabelo meu, vermelho,&lt;br /&gt;E este belo rosto pálido, perplexo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E gritei de revolta e de medo&lt;br /&gt;Ao Deus desta impassível pradaria:&lt;br /&gt;“Aonde me levais, assim tão cedo?” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Se somente orbitei o meu umbigo,&lt;br /&gt;E não tenho sequer sabedoria,&lt;br /&gt;Que serventia terei eu aí contigo?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;12/01/2007&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nota&lt;br /&gt;Muito emocionada descobri esta manhã na Arca da Alma este pungente soneto que me fez mais uma vez chorar por minha irmã. Como ela sofreu, sozinha, esses sinais de sua morte próxima!... Nós, sua família, não sabíamos o que a fazia tão instável, oscilando entre tristeza e alegria. Não sabíamos...&lt;br /&gt;(Lucia Welt) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A Bravata (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;854&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Conclamei os ventos na coxilha &lt;br /&gt;Quando adolescente estabanada.&lt;br /&gt;Olhai ali o trecho em minha trilha&lt;br /&gt;Em que fiz a minha jura desnudada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Despi-me lançando tudo ao ar&lt;br /&gt;E tratei de assim voltar ao casarão&lt;br /&gt;E entrando pela porta do salão,&lt;br /&gt;Minha dura Açoriana provocar:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Vê, Mutti, se maldade já se via,&lt;br /&gt;Trouxeste-me assim pelos cabelos,&lt;br /&gt;Me açoita como quando era guria!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Procura nestes seios cor de nata&lt;br /&gt;Ou mesmo nestes ralos ruivos pelos&lt;br /&gt;Se o pecado ainda mora por bravata!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nota &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acabo de descobrir na arca este pungente, visceral soneto, em que a Alma revela a marca deixada para toda a vida pelo trauma produzido pelo flagrante dela com seu irmão Rodo, quando pequenos, por nossa mãe, que os arrastou nuzinhos pelos cabelos, gritando...&lt;br /&gt;(Lucia Welt) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Meio Ofélia, meio Inês (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;853&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Permaneço plantada aqui no pampa&lt;br /&gt;Como raiz de mim, não mais semente,&lt;br /&gt;Preparando não a fronde mas a campa,&lt;br /&gt;Que velha não serei, infelizmente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas meus mil sonetos e poemas&lt;br /&gt;Farão a vez do umbu ou do carvalho&lt;br /&gt;À cuja sombra os homens e as emas&lt;br /&gt;Vêm refrescar do sol como ao orvalho&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As ervas e quem dera minha tez,&lt;br /&gt;Posta, sim, em cruel desassossego &lt;br /&gt;Na coxilha e bem longe do Mondego,*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na vida, meio Ofélia e meio Inês,&lt;br /&gt;Cheia de dores, suspiros e apego&lt;br /&gt;Nesta híbrida saga em que me vês.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;08/01/2007&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nota&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*Posta, sim, em cruel desassossego/Na coxilha e bem longe do Mondego,- Trata-se de um paráfrase ou alusão aos famosos versos da estância CXX do Canto III dos Lusíadas de Camões, que aqui transcrevo no seu português original, arcaico (renascentista):&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Estavas, linda Ignês, posta em socego,&lt;br /&gt;De teus annos colhendo o doce fruito,&lt;br /&gt;Naquele engano da alma, ledo e cego,&lt;br /&gt;Que a fortuna não deixa durar muito:&lt;br /&gt;Nos saudosos campos do Mondego,&lt;br /&gt;De teus formosos olhos nunca enxuito,&lt;br /&gt;Aos montes ensinando e às hervinhas&lt;br /&gt;O nome que no peito escrito tinhas." &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;strong&gt;No olho da Poesia (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;852&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Estou em pleno olho da Poesia&lt;br /&gt;Como no funil de um furacão.&lt;br /&gt;Tudo voe ou se retorça em agonia,&lt;br /&gt;No vórtice mantenho os pés no chão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O soneto é minha âncora ou porão&lt;br /&gt;Quando tudo se torna muito instável&lt;br /&gt;Pois os ventos da vida vêm e vão&lt;br /&gt;No meu pampa inerente e imutável&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que trago no meu seio de memórias&lt;br /&gt;Que mesmo transcendem a minha saudade&lt;br /&gt;E vêm do tempo das batalhas e das glórias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas se me indagam, depois do minuano,&lt;br /&gt;Como posso viver só e nesta herdade:&lt;br /&gt;“Vou e volto com o vento a cada ano...” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Receita (Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;851&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Sejamos céleres, solícitos, serenos, &lt;br /&gt;Alçando-nos aos píncaros do humano;&lt;br /&gt;Ligeiros, mas austeros, sem venenos,&lt;br /&gt;Quando temos que vogar a todo pano;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Modestos, não hipócritas babosos&lt;br /&gt;Bajulando os bravos do sucesso;&lt;br /&gt;Evitemos os luxos e os gozos &lt;br /&gt;Se frutos dos vícios e do excesso;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tenhamos o talento do possível,&lt;br /&gt;Não desvinculado da virtude&lt;br /&gt;E nunca aos comuns inacessível.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Finalmente sejamos tão perfeitos &lt;br /&gt;Que possamos bater nos nossos peitos&lt;br /&gt;E dizer enfim: Fiz o que pude!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nota&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;* Sejamos céleres...&lt;/strong&gt; - Este soneto começa assim, por causa de uma cena de um filme que a Alma viu junto comigo em DVD aqui na estância. O filme era Os Três Mosqueteiros, e num certo momento, D'Artagnan esporeia o cavalo dizendo para um pagem ou o mensageiro que lhe trouxe uma mensagem urgente: "Sejamos céleres!" E o pagem responde: "Ótimo! Gosto de céleres!"&lt;br /&gt;Alma riu muito, esse tipo de humor bateu-lhe na alma.... &lt;br /&gt;(Lucia Welt) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A Dama do Lobo (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;850&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Amo vagar assim pelo meu bosque,&lt;br /&gt;Mas, vede, por um lobo acompanhada&lt;br /&gt;Até a cercania de um quiosque&lt;br /&gt;Sobre o qual eu deveria estar calada&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois ali fui pelo lobo possuída&lt;br /&gt;Em noite de prazeres e mistérios&lt;br /&gt;Que me puseram, então, desfalecida&lt;br /&gt;Em lances e perigos muito sérios...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E agora sou a branca dama errante&lt;br /&gt;Nas noites derradeiras deste outubro&lt;br /&gt;Que os peões tacham de infamante&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cogitando atear fogo na floresta&lt;br /&gt;Quando a dama aquecida for ao rubro&lt;br /&gt;Em tão lupina, escura e antiga festa...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;31/10/1999 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Tara (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;849&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Quando diante estou do meu amor&lt;br /&gt;Tudo em mim desperta e se alteia:&lt;br /&gt;O bom, o belo e, sim, um tanto a dor,&lt;br /&gt;Nunca o mal, a face escura e feia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E quero somente dar-me e dar-me,&lt;br /&gt;Nada exigindo, e esse é ponto frágil&lt;br /&gt;Dessa fina sintonia leve e ágil &lt;br /&gt;Com seu riso, sua pele e o seu charme.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, ai! Certo de mim, ele não pára &lt;br /&gt;E pode então ser livre e ir pro mundo&lt;br /&gt;Bem longe do que dizem: nossa tara!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E eu sei em minha poesia rebelada:&lt;br /&gt;Voltará, não por remorso bem no fundo:&lt;br /&gt;Por clamor de nossa carne abandonada...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Auto retrato (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;848&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Amo deitar-me nua na coxilha,&lt;br /&gt;Ao luar, já que evito me dourar&lt;br /&gt;À luz do sol, embora dele filha,&lt;br /&gt;O que faz em meus cabelos se notar,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Loura arruivada e muito branca,&lt;br /&gt;Visada aqui no pampa, destoante,&lt;br /&gt;Desde guria com meu irmão infante,&lt;br /&gt;Até o expandir de minha anca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o povo do campo ou das aldeias&lt;br /&gt;Aponta aos seus filhos com o dedo &lt;br /&gt;As minhas pernas alvas como meias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E os imagino a dizer sem ironia:&lt;br /&gt;“Guris, bem sei que ela faz medo,&lt;br /&gt;Mas é só uma doida da Poesia...” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;09/04/1999 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Encontro com a jornalista (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;847&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A jovem jornalista veio à estância&lt;br /&gt;(confessou depois) pra comprovar&lt;br /&gt;Ou não a existência e circunstância&lt;br /&gt;De ter nascido aqui um avatar:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A poetisa Alma, inexistente &lt;br /&gt;Segundo os padrões do próprio mundo&lt;br /&gt;Certamente mais palpável mas carente&lt;br /&gt;De um pampa poético e profundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E me vendo na varanda a balançar,&lt;br /&gt;Começou a tremer e deu um grito&lt;br /&gt;Procurando com os dedos me tocar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E disse: “Eu jurava que eras Mito,&lt;br /&gt;E somente preparada pra encontrar&lt;br /&gt;Uma frase em negra lousa de granito...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O Tempo, o sonho e o vento (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;846&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Quando está ventando, e muito venta,&lt;br /&gt;Na planura sem resguardo da coxilha,&lt;br /&gt;Eu vejo minha vida em marcha lenta&lt;br /&gt;E ao som maravilhoso de uma trilha&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Musical e de pequena orquestra,&lt;br /&gt;Com momentos de festa de galpão&lt;br /&gt;Com rabecas e fole, o acordeão,&lt;br /&gt;Que aqui é só a gaita, e muito destra...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E eu, guria, dançando na torrente&lt;br /&gt;A segurar a minha saia só de um lado &lt;br /&gt;Rodopiando em torno, eternamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sonho de vento, dúbio e recorrente,&lt;br /&gt;Carregado de alegrias do passado&lt;br /&gt;A confundir o Tempo em minha mente...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O Crítico (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;845&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um dia um erudito literato&lt;br /&gt;Ao ver que eu tinha escrito mil sonetos&lt;br /&gt;Ficou por um instante estupefato&lt;br /&gt;E me disse afiando os seus espetos:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não pode haver assunto para tanto...&lt;br /&gt;Não serás por acaso falastrona?&lt;br /&gt;Disse ele disfarçando o seu espanto&lt;br /&gt;E se remexendo na poltrona.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas durante a leitura de viés&lt;br /&gt;Do olhar experiente e até esnobe&lt;br /&gt;De escritor de prefácio e rodapés,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vai ele se calando, a mão na testa&lt;br /&gt;E do seu peito um suspiro logo sobe&lt;br /&gt;De quem olhou a vida pela fresta...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A castelã (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;844&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Sou Alma desta estância, ex Farroupilha,&lt;br /&gt;Santa Gertrudes agora, em seu vinhedo&lt;br /&gt;Cercando o casarão que ainda faz medo&lt;br /&gt;Com estórias de guerras de guerrilha,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E de noites de gemidos e murmúrios &lt;br /&gt;Que se ouvem ainda atrás das portas&lt;br /&gt;Vindos de quartos, alcovas e tugúrios,&lt;br /&gt;Ao som das batidas de horas mortas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Da torre de um relógio de outra era&lt;br /&gt;Com seu dourado disco, mas de bronze,&lt;br /&gt;Pendulando o silêncio até as onze...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem não teme visões de cemitérios,&lt;br /&gt;Venha visitar-me, mas quem dera&lt;br /&gt;Não ser eu a castelã destes mistérios...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Ainda o amor (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;842&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;O amor é pessoal e intransferível.&lt;br /&gt;Cada um que o vive o inventou... &lt;br /&gt;Por isso é glorioso e imperecível,&lt;br /&gt;Renova-se em cada um que amou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não se pode ensiná-lo, na verdade,&lt;br /&gt;Mas podemos preparar as boas silhas&lt;br /&gt;Para que o outro, n’alma, sua herdade,&lt;br /&gt;Possa semeá-lo em suas trilhas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E se temos seu teor diminuído&lt;br /&gt;Já que vemos dele tanta fome,&lt;br /&gt;Talvez seja por ser mal distribuído.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cabe a mim e a ti vê-lo possível,&lt;br /&gt;Não adianta evocar o amor sem nome,&lt;br /&gt;Que ele é pessoal e intransferível...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A seus pés (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;841&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Quero gritar ao mundo o meu amor!&lt;br /&gt;Vê, é ele! No seu carro, vem chegando!&lt;br /&gt;Reconheço esse ronco do motor...&lt;br /&gt;Logo estará aqui! E me abraçando!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ai! Devo estar louca, ainda estou nua!&lt;br /&gt;Talvez deva assim mesmo esperá-lo,&lt;br /&gt;Ele assim me conheceu e perpetua&lt;br /&gt;Esta imagem de quem sou só por amá-lo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois de me abraçar nesta varanda, &lt;br /&gt;Me carregará para o meu quarto, &lt;br /&gt;Como um bebê de mim após o parto...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E eu saberei seu cheiro e sua lavanda, &lt;br /&gt;E alguns outros perfumes de viés,&lt;br /&gt;Ajoelhada, e ávida... a seus pés...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A ilha dos sem-muros (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;840 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Também eu canto de amor, impenitente,&lt;br /&gt;Já que amo e amada sou por meu irmão,&lt;br /&gt;Mas tão logo condenada pela gente&lt;br /&gt;Que segue a norma, a lei e o padrão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, vede, um grande amor se sobrepõe&lt;br /&gt;Às regras arbitrárias e as afronta&lt;br /&gt;Qual aquele que o grande bardo conta&lt;br /&gt;E no ápice do amor humano põe. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E tentei, bah, como! e ainda tento&lt;br /&gt;Vencer a maré dos descontentes &lt;br /&gt;Às custas do verbo e do talento&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Navegando numa nau de versos puros&lt;br /&gt;Em que vamos, ele e eu, pelos poentes,&lt;br /&gt;À Ilha dos que desconhecem muros...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O Bobo da Colina (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;“The Fool on the Hill” (Lennon–MacCartney)&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;839&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minh’alma a mim mesma me consome&lt;br /&gt;Em ânsias deslocadas deste tempo&lt;br /&gt;Que vomita e expele o que come&lt;br /&gt;Tão rapidamente... que faz vento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu lirismo, eu sei, é semi-louco,&lt;br /&gt;Mas que importa se delira, o coração? &lt;br /&gt;Declama e brada até tornar-se rouco&lt;br /&gt;Como o doido da colina da canção...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E me agarro em mim, que insensatez!&lt;br /&gt;Contar com um galho tão instável&lt;br /&gt;Na torrente que o vento sempre fez&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para levar os sonhos (talvez manha)&lt;br /&gt;Do que recusa um mundo miserável&lt;br /&gt;E faz de uma colina a sua montanha...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vaticínio (de Alma Welt)&lt;br /&gt;838&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Padecemos, Rodo e eu, de um desatino&lt;br /&gt;Do coração ou da alma, não sei bem,&lt;br /&gt;Que nos faz correr para o Destino&lt;br /&gt;Conscientes demais que a vida o tem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Somos trágicos, pois, é o que somos,&lt;br /&gt;Malgrado seja nosso fim universal.&lt;br /&gt;Ao homem foram dados muitos pomos&lt;br /&gt;Pra iludi-lo, a cada dia no final.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas Ele a nós poetas não engana,&lt;br /&gt;Embora nos prometa o louro e a lira&lt;br /&gt;Como aquele vaticínio da cigana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como mágico em festa de criança,&lt;br /&gt;Deus dá a moedinha que nos tira&lt;br /&gt;Como prêmio ilusório de esperança...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;24/09/2006 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O contrato (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;836&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Abrir minhas janelas despertando&lt;br /&gt;É como um contrato com o Tempo.&lt;br /&gt;E firmo meu propósito cantando&lt;br /&gt;Livre e leve como piuma al vento. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E em seguida sugando o chimarrão&lt;br /&gt;Saio alegre a vagar pela coxilha&lt;br /&gt;De que não rimarei que sou a filha &lt;br /&gt;Pra não começar com um chavão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E vou pela campina sem perigo,&lt;br /&gt;Veríssimo cenário e maravilha &lt;br /&gt;Dos tempos do Capitão Rodrigo, &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando o sangue dos duelos se somava&lt;br /&gt;A aquele mais antigo, numa trilha &lt;br /&gt;Onde o tempo com o vento se encontrava...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;09/05/2005&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Remorsos (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;835&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Fui rebelde demais, até me espanto,&lt;br /&gt;Guria irreverente e acintosa&lt;br /&gt;Que do colóquio raso ouvia o canto,&lt;br /&gt;E o poema não trocava pela prosa...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois de quase tudo ter negado,&lt;br /&gt;Aos tabus me mostrado resistente&lt;br /&gt;E o furor dos moralistas provocado,&lt;br /&gt;Ora me vejo assim, tão reverente...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E começando a ter medos tardios,&lt;br /&gt;Remorsos que renascem retardados&lt;br /&gt;Muito longe da fonte dos desvios,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Escalo em calafrios na calada&lt;br /&gt;Desta noite a fria torre dos pecados,&lt;br /&gt;E eis-me nua, santa, e ajoelhada...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Onde estás, Vati? (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;834&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Onde estás agora, em que mundo?&lt;br /&gt;Que tanto amavas, Vati, a cultura &lt;br /&gt;E a Arte deste nosso, tão fecundo,&lt;br /&gt;Malgrado crueldade e impostura... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez sentado à mesa de uma sala&lt;br /&gt;De requintes sóbrios e champanhe&lt;br /&gt;Comentando tempos do alla Scala,&lt;br /&gt;Da diva que agora te acompanhe &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nesse teu novo plano e nova vida&lt;br /&gt;Onde estejas a contento, ladeado&lt;br /&gt;De tua divina Callas, Norma, Aida...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sim, por certo existe “il paradiso”&lt;br /&gt;Talvez num nível bem mais elevado,&lt;br /&gt;De camarote, e não do rés do piso...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Cabeça de Alma (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;833&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Para viver a minha alma escrevo.&lt;br /&gt;Não poderia ser sem me atrever...&lt;br /&gt;E pergunto ao vento: “A que devo&lt;br /&gt;Tanta honra da visita merecer?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“A que devo, ó sol, e brancas nuvens,&lt;br /&gt;Suas dádivas, seu calor e suas chuvas?&lt;br /&gt;E voz outras, avezinhas e corujas&lt;br /&gt;Com essa maciez de suas penugens?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Matilde abana sua cabeça, enfastiada,&lt;br /&gt;E diz, voltando logo ao casarão:&lt;br /&gt;“Por ti, guria, já não posso fazer nada...”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Tens a cabeça fraca ou complicada&lt;br /&gt;E perguntas do enviado a intenção,&lt;br /&gt;Quando devias ajoelhar por seu Patrão...”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O violino do Mestre (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;832&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Que mais posso fazer por meu destino?&lt;br /&gt;Deixar-me assim passiva, sem ação&lt;br /&gt;Como uma rês que vai batendo um sino,&lt;br /&gt;Pra acompanhada ser pelo patrão&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De longe, na verdade indiferente&lt;br /&gt;Enquanto não a queira alguém roubar?&lt;br /&gt;Pois o objeto do desejo de outra gente&lt;br /&gt;Passa a ser do que o vivia a desprezar...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então cala-te, guria, não provoques&lt;br /&gt;O Grão-Mestre das Sinas, caprichoso,&lt;br /&gt;Que tem fama de fazer alguns retoques&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para afinar com perfeição o nosso fim&lt;br /&gt;Como a um Stradivarius virtuoso&lt;br /&gt;Não o sino da tal rês... e ai de mim!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;16/01/2007 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O Eterno Retorno (VI) (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;831&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Às vezes ser mais simples eu quisera,&lt;br /&gt;E viver sem questionar o tempo e o ser,&lt;br /&gt;A razão de se viver e essa quimera&lt;br /&gt;Que nos exige trabalhar para viver,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E buscar ser feliz a todo custo,&lt;br /&gt;Mesmo contra a nossa própria mente&lt;br /&gt;A recordar a dor, o medo e o susto&lt;br /&gt;De ver tudo perdido de repente... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas perdido o quê, além da vida,&lt;br /&gt;Que pelo que se espera lá no fim &lt;br /&gt;Infelizmente já é coisa resolvida?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez viver seja somente procurar &lt;br /&gt;Voltar ao par que fomos no jardim,&lt;br /&gt;Bem antes deste mundo começar...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A volta do guerreiro (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;830&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Estarei contigo, Rodo, até o fim,&lt;br /&gt;Quando afinal despojado da ilusão&lt;br /&gt;Voltares sem teu Aston Martin,&lt;br /&gt;Tendo perdido tua derradeira mão,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Traído pelas cartas que amavas&lt;br /&gt;Mais do que a irmã que te venera,&lt;br /&gt;Pois mantenho a porta sem as travas &lt;br /&gt;Não precisas chamar a que te espera.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E pousando tua cabeça de guerreiro&lt;br /&gt;No regaço da rainha renitente&lt;br /&gt;Não necessitarás de outro parceiro&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por um mês, se tanto, quem me dera!&lt;br /&gt;Quem sou para enfrentar tua quimera?&lt;br /&gt;Já começo a destecer daqui pra frente...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A escolha (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;829 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fiz minha opção pela Poesia...&lt;br /&gt;O amor me espera mesmo assim,&lt;br /&gt;Indulgente que é com a teimosia,&lt;br /&gt;Vou encontrá-lo à noite no jardim&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para termos a conversa radical&lt;br /&gt;Que pra sempre finde este dilema:&lt;br /&gt;Viver a vida no plano do real,&lt;br /&gt;Escolher entre a dor e o poema.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas o que é o real? Perguntarei,&lt;br /&gt;Que há muito perdi a referência&lt;br /&gt;Vivendo entre o príncipe e o rei&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Num nobre casarão pleno de estórias&lt;br /&gt;De sonhos de amor e resistência&lt;br /&gt;E farrapos bentos de memórias...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Il Carnevale (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;828&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A vida é sofrimento, a morte é mais.&lt;br /&gt;Prazer e dor, o resto é veleidade...&lt;br /&gt;Vivemos nossos sonhos mais reais&lt;br /&gt;Entre um e outro sonho de verdade,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que são os que vêem de outro plano&lt;br /&gt;Que de tão vasto e ignoto me consola&lt;br /&gt;Por saber que esta vida é um engano&lt;br /&gt;E o Sonho é maior, e não esmola&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pelos tormentos da vida neste vale&lt;br /&gt;De sombras que bailam delirantes&lt;br /&gt;Já que isto é mesmo “il Carnevale”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De uma louca Veneza atemporal&lt;br /&gt;De gestos estudados e arrogantes,&lt;br /&gt;Sob as neutras máscaras de cal... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Perdida de poesia (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;827&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Meus dias foram belos e dourados&lt;br /&gt;E pois me doem mais estes sombrios&lt;br /&gt;Em que agora vago pelos prados&lt;br /&gt;No fluxo interior de escuros rios&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que me levam assim meio demente&lt;br /&gt;A coroar-me de sonetos e jasmim&lt;br /&gt;Como Ofélia que ficou para semente&lt;br /&gt;E carrega suas flores sem ter fim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Puseram-me camisa de onze varas&lt;br /&gt;Ou aquela com um laço ali atrás&lt;br /&gt;Com que sempre mimam as mais raras...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E agora assim perdida de poesia&lt;br /&gt;Caminho ao poço inverso, mais e mais,&lt;br /&gt;Onde toda vaidade se esvazia...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;15/01/2007 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A Alma do poema (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;826&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Já tudo é só poesia para mim,&lt;br /&gt;E o poema não é algo destacado&lt;br /&gt;Do viver, do ser, ou algo assim,&lt;br /&gt;O justo sentido experimentado...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mal posso conceber que uns não vejam&lt;br /&gt;O mundo revelado como vejo,&lt;br /&gt;E as coisas veladas mesmo estejam&lt;br /&gt;Para alguns olhos eivados de desejo,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que deveria ser motivo suficiente&lt;br /&gt;Assim como o amor, para a poesia &lt;br /&gt;Apresentar-se assim a toda gente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas percebo afinal, e meio triste, &lt;br /&gt;Que a alma do poema renuncia&lt;br /&gt;A preencher um vazio que resiste... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O pó e a luz (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;825&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;O pó tem sua essência revelada&lt;br /&gt;Quando dança na luz filtrada em frestas.&lt;br /&gt;Para o grego era a alma figurada&lt;br /&gt;Que nos cobre o mundo e as arestas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É um consolo saber que tudo vive,&lt;br /&gt;O mistério preenche-lhe o vazio, &lt;br /&gt;E o nada, pavor que sempre tive,&lt;br /&gt;Seria a razão mesma do que crio... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois saber quão pouco conhecemos&lt;br /&gt;Nos dá esperança de sentido&lt;br /&gt;Nesta vida às cegas que vivemos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim, é bem possível vida eterna&lt;br /&gt;E até um paraíso prometido&lt;br /&gt;Na pequenina luz de uma lanterna... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;04/12/2005 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Impotência (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;824&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;O quê fazer? Senão olhar, e suspirar...&lt;br /&gt;Pergunto a mim mesma nestes dias.&lt;br /&gt;"Cuida, o caldo está para entornar!&lt;br /&gt;Pensava que mais sábia tu serias..."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A casa afunda, e com ela meu vinhedo.&lt;br /&gt;Ou é justo o contrário que acontece.&lt;br /&gt;Ele a fazer das cartas seu degredo,&lt;br /&gt;Ela já a destecer enquanto tece...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Está tudo perdido, é o que se diz.&lt;br /&gt;A vida é um naufrágio programado...&lt;br /&gt;Queres viver pra sempre e ser feliz?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bah! Jardim perdido, ó meu pomar&lt;br /&gt;Onde o mais puro amor foi estuprado!&lt;br /&gt;Ó amor, ó vida minha... ó azar!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O Território do Vento (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;823&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Os meus dias felizes que se foram,&lt;br /&gt;A memória os guarda, não acabam,&lt;br /&gt;O tempo os não alcança aonde moram, &lt;br /&gt;Do coração e mente não se apagam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As paredes já estalam de agonia&lt;br /&gt;As pranchas rangem no silêncio&lt;br /&gt;Da solidão que há muito me seguia &lt;br /&gt;E se instalou no casarão imenso...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas o poeta não pode ser detido&lt;br /&gt;Nada pode abater o incansável&lt;br /&gt;Que busca o território prometido,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O plano onde os sonhos são a norma&lt;br /&gt;E constroem nova vida no Inefável&lt;br /&gt;Onde o verbo e o vento tomam forma...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Sob a macieira (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;822&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Reincidindo vivi no meu exílio&lt;br /&gt;Mesmo que cumprindo o meu dever:&lt;br /&gt;A mim mesma a meta de escrever&lt;br /&gt;Ao menos um soneto entre afazeres&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ou conto, uma lorota, uma lenda&lt;br /&gt;Que já justificasse o meu degredo&lt;br /&gt;Num paraíso em forma de fazenda, &lt;br /&gt;Esta louca estância e seu vinhedo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas sob a macieira e sua ramada&lt;br /&gt;Entreguei-me de novo ao meu amor&lt;br /&gt;Muito além da quota estipulada...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E sem labores, partos, dores pra pagar, &lt;br /&gt;Que estava sem mais o que dispor,&lt;br /&gt;Ainda em versos eu podia suspirar...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A videira e o pó (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;821&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Onde estão os avós de meus avós?&lt;br /&gt;Sob lápides partidas, sob o solo&lt;br /&gt;De origem ou adotado, como nós&lt;br /&gt;Que de longe viemos a este pólo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para plantar o vinho prometido&lt;br /&gt;Ao lançar fundas raízes de videira&lt;br /&gt;Para poder olhar o mundo refletido&lt;br /&gt;Numa taça cristalina e alvissareira?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não sabemos, mas o solo é um só...&lt;br /&gt;A terra reclama o que brotou,&lt;br /&gt;Que nada vai além do próprio pó. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dele fomos feitos, em casa estamos,&lt;br /&gt;Não adianta procurar por quem plantou,&lt;br /&gt;Além da vide de quem somos só os ramos...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;18/07/2006 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A louca da varanda (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;820&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Eis a louca da varanda, que me sei,&lt;br /&gt;Que estou aqui há muito meditando&lt;br /&gt;Tentando descobrir onde eu errei&lt;br /&gt;Para estar assim tanto esperando...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Penélope de mim em tempo morno,&lt;br /&gt;Aguardo um sinal vindo do rei&lt;br /&gt;Que me prometeu o seu retorno, &lt;br /&gt;Que mesmo fria e morta esperarei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ai! Tempos de ventura, nossa infância,&lt;br /&gt;E depois primeira juventude&lt;br /&gt;Que tentei perpetuar enquanto pude!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Descobri meu destino pelas cartas &lt;br /&gt;No jogo do meu rei, na louca instância&lt;br /&gt;De sofrer-me que voltando logo partas...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Nota&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;A verdade é que Alma se tornou co-dependente do vício do Rodo no jogo. Meu irmão sempre se declarou um profissional do poker, se é que isso existe. A mim me parece que é um vício mesmo, pois moldou a sua vida numa andança e busca contínuas, que o afastava da Alma (e de nós) por longas temporadas, e a colocava nessa espera também viciosa... Há uma grande quantidade de sonetos da Alma que tratam disso... e a imagem de uma Penélope do poker é recorrente nessa vertente que chamei "Sonetos do Rodo- de Alma Welt", e para a qual abri um blog específico:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Meus dias (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;819&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Meus dias foram belos neste pampa&lt;br /&gt;E não tenho queixas ou rancores...&lt;br /&gt;Guria grácil, cresci em bela estampa&lt;br /&gt;E Amor me foi pródigo de amores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dei-me ao meu irmão como a primeira,&lt;br /&gt;Aquela irmã de Adão, sua costela,&lt;br /&gt;Que quis voltar à grade costumeira&lt;br /&gt;E deixou-se penetrar quase por ela&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sob a sacra macieira do seu sexo,&lt;br /&gt;Em abraços nus, estertorantes&lt;br /&gt;Para ver da Vida o próprio nexo,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que é dar-se, dar-se e então gerar,&lt;br /&gt;O que fiz, se não louros infantes,&lt;br /&gt;Os versos que ao mundo quero dar... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; (sem data)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A marca do poeta (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;818 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O direito da poesia, que sagrado,&lt;br /&gt;Concedido foi ali ao Leste&lt;br /&gt;Do Éden ao nosso antepassado,&lt;br /&gt;Embora sua culpa não conteste,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi consolo no exílio e até agora&lt;br /&gt;Àquele que caminha pela estrada&lt;br /&gt;De cidade em cidade como outrora&lt;br /&gt;Ao perder seu leito e sua morada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Poetas somos filhos de Caim&lt;br /&gt;E trazemos na fronte a sua marca&lt;br /&gt;E um brilho nos olhos mesmo assim...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois a fé não perdemos e o prazer,&lt;br /&gt;Pois Deus, com todo o peso com que arca,&lt;br /&gt;Nos ouve em seus momentos de lazer...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;08/03/2005 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Pano de fundo (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;817 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Andar na fronteira de dois mundos...&lt;br /&gt;Foi esse o meu caminho e privilégio,&lt;br /&gt;Realidade e sonho, o sortilégio&lt;br /&gt;De meus momentos mais fecundos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que jorram dos poemas e sonetos&lt;br /&gt;Do próprio coração desta coxilha&lt;br /&gt;Que acolheu esta guria como filha&lt;br /&gt;Que a honra em quadras e tercetos...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O pampa é o meu pano de fundo&lt;br /&gt;E não foi preciso descrevê-lo&lt;br /&gt;Pois é o meu ser e estar no mundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bucólica não fui, ou paisagista,&lt;br /&gt;Como outrora o foi com tal desvelo, &lt;br /&gt;Aquela Sand que amou o pianista...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;09/12/2006&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Notas&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;*Aquela Sand que amou o pianista&lt;/strong&gt;...- Alma se refere à escritora francesa do século XIX, Amandine-Aurore-Lucile Dupin 1804-1876, que usava o pseudônimo masculino George Sand (e andava vestida como homem) que amou o grande compositor e pianista &lt;strong&gt;Fréderic Chopin&lt;/strong&gt;, e que era uma notável bucolista que se detinha a descrever detalhadamente as belas paisagens do sul da França em livros como o seu &lt;strong&gt;La mare au Diable &lt;/strong&gt;(O Pântano do Diabo), belíssimo romance que descreve de maneira idealística e romântica a vida camponesa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;George Sand &lt;/strong&gt;foi uma grande figura. Ela era bisexual, coisa muito avançada para a época. Ela se casou aos 18 anos com o barão Casimir Dudevant, e se assinava Aurore Dudevant, mas logo se separou dele e foi sozinha para Paris ser escritora. Além do Chopin, ela foi amante de Stéphane de Grandsagne e dos poetas Alfred de Musset, e Prosper Malarmé. E parece que teve um caso amoroso com a sua amiga, a atriz Marie Dorval. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quanto à Alma , ela parece querer ressaltar que, se se tornou uma grande intérprete do Pampa, não foi por ser descritiva da paisagem, mas devido a um poder de sugestão inerente à sua alma pampiana, que produz magicamente esse pano de fundo ou cenário aos seus textos em geral e aos seus sonetos em particular... (Lucia Welt) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minha Pavana (de Alma Welt)&lt;br /&gt;816&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Posso bem imaginar minha pavana&lt;br /&gt;Aquela, triste, da defunta que serei,&lt;br /&gt;Envolta em pranto, dor e muita gana&lt;br /&gt;De vingança e juras do meu rei,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sim, Rodo, meu irmão e soberano&lt;br /&gt;E seu fiel Galdério, bom ministro, &lt;br /&gt;A ostentar agora um ar sinistro&lt;br /&gt;Ao chamar nosso aliado Minuano&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para a batalha final com a potência&lt;br /&gt;Que levou “esta defunta infanta amada” *&lt;br /&gt;Aos páramos além de sua demência&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Coroada de flores de bromélias,&lt;br /&gt;Na verdade uma pobre desastrada,&lt;br /&gt;A mais branca e tola das Ofélias...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;15/01/2007&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Notas&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;*“esta defunta infanta amada”- &lt;/strong&gt;citação de verso de Jorge de Lima do famoso soneto sem título : " Esta pavana é para uma defunta..."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Guilherme de Faria adicionou este comentário à postagem deste soneto na sua página no facebook:&lt;br /&gt;"Lucia Welt acabou de encontrar este soneto inédito na Arca da Alma. Trata-se de mais um dos muitos que revelam a fantasia romântica recorrente, da Alma, de sua morte romanesca, que embora às vezes auto-ironizada como no caso deste soneto, acabou mesmo por vitimá-la..."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O cristal do poema (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;815&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Sabemos que o poeta não tem fim&lt;br /&gt;E fica vicejando eternamente,&lt;br /&gt;Não porque não morra ou coisa assim,&lt;br /&gt;Mas porque o que lança é a semente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois o poema em si morre e se refaz&lt;br /&gt;No pensamento vivo que o defronta,&lt;br /&gt;Como uma alma que não tendo paz&lt;br /&gt;Volta porque ainda não está pronta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assombrados então pelo poema&lt;br /&gt;Convivemos com mundos perdidos &lt;br /&gt;De palavras e seu pródigo sistema&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De trazer-nos o espelho das idades&lt;br /&gt;Pra que possamos ver-nos refletidos&lt;br /&gt;No cristal terrível das verdades...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A Varanda (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;814&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meus melhores silêncios ainda lembro&lt;br /&gt;Nesta varanda agora decadente,&lt;br /&gt;Naquela minha barca de Setembro&lt;br /&gt;Que me transportava ao meu poente&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que eram luzes belas mas distantes&lt;br /&gt;Como um futuro de glórias terminando &lt;br /&gt;Depois de ver meus livros nas estantes,&lt;br /&gt;Meus poemas e canções disseminando...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sonhadora, báh! que fui e ainda sou!&lt;br /&gt;As coisas não são nada lineares&lt;br /&gt;E o trajeto uma roda se mostrou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os enganos e perdas de quem anda&lt;br /&gt;E esse grande mistério dos azares&lt;br /&gt;Me trouxeram de volta à minha varanda...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;12/01/2007 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A Linguagem de Deus (Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;813 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estar com o poema, em sintonia,&lt;br /&gt;Que existe palpitando sob tudo,&lt;br /&gt;Que tudo é matéria de Poesia,&lt;br /&gt;Que nada é opaco, inerte ou mudo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aos olhos do Poeta sob o céu&lt;br /&gt;As coisas falam ainda, e o coração,&lt;br /&gt;A linguagem primeva de Babel,&lt;br /&gt;Aquela mesma anterior à confusão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eis a nossa sedução de filhos pródigos&lt;br /&gt;Que buscam o pai malgrado os danos&lt;br /&gt;Causados às terras e aos códigos!..&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nos recompomos na língua verdadeira,&lt;br /&gt;(que Deus deixou um rabo da primeira)&lt;br /&gt;Pr’ Ele mesmo entender o que falamos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;10/01/2007 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Os vinhos da herdeira (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;812&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;O sonho dos avós em mim habita &lt;br /&gt;Transubstanciado na Poesia.&lt;br /&gt;O que neles foi safra bendita&lt;br /&gt;Maturou em mim e se anuncia...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Oriundos de um campo mais ao fundo,&lt;br /&gt;Dormindo no silencio de outras caves, &lt;br /&gt;Os vinhos-versos vêm para este mundo&lt;br /&gt;Com estes outros travos, outras chaves,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas ainda com as cores do rubi&lt;br /&gt;E talvez com delicado e igual buquê,&lt;br /&gt;Atributos que por certo não esqueci,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois das uvas de campos tão vizinhos&lt;br /&gt;E lagares que ninguém tampouco os vê,&lt;br /&gt;Piso e sangro os meus melhores vinhos...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A Poetisa (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;811&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Então vede como a Poetisa nasce! &lt;br /&gt;Seu estro do Nada não brotou,&lt;br /&gt;Mergulhada que tem a sua face&lt;br /&gt;Na Alma do Mundo que espelhou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela sou eu, tu és e somos nós. &lt;br /&gt;Sua alma está em nós disseminada&lt;br /&gt;Tanto mais que paga o preço atroz&lt;br /&gt;De ter a sua existência duvidada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas ao debruçar-se sobre o verso&lt;br /&gt;Nas horas de prazer ou de agonia&lt;br /&gt;Descobriu seu consolo no adverso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois se muito sofre quem amou,&lt;br /&gt;Mais beleza planta quem a cria&lt;br /&gt;E torna-se ela própria o que criou...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A Barca (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;810&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;A barca já vem vindo no poente...&lt;br /&gt;Estou ao pé do cais, o pala ao vento&lt;br /&gt;A face pálida a olhar serenamente &lt;br /&gt;As velas do meu próprio pensamento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Leva-me, ó barca, que estou pronta!&lt;br /&gt;Fechei o último soneto, pus um Fim&lt;br /&gt;As resmas quis contar, perdi a conta,&lt;br /&gt;E muito é o melhor, mesmo, de mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas dói! Ai! não é medo, é já saudade&lt;br /&gt;E minha vida já está a desfilar&lt;br /&gt;Ante estes meus olhos sem idade...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A vagar e a largar peça por peça,&lt;br /&gt;No pomar põe-se a guria a desnudar,&lt;br /&gt;A saga desta Alma então começa...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;19/01/2007 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O Jardim das Palavras (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;809&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;As palavras que plantei em meu jardim&lt;br /&gt;Floresceram, não posso me queixar,&lt;br /&gt;E voltam com perfumes para mim,&lt;br /&gt;Que é a forma da terra as consagrar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passo-as em revista, as reconheço,&lt;br /&gt;Não as colho que pra isso as não plantei,&lt;br /&gt;Estarão aí como um começo&lt;br /&gt;Do cenário colorido que herdarei:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O coração dos homens e mulheres&lt;br /&gt;Que se amalgamarem nas corolas&lt;br /&gt;Das certezas e dos dúbios mal-me-queres...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que eu, de mim mesma a Jardineira,&lt;br /&gt;Plantei neste solo mais que as solas, &lt;br /&gt;E encarnei a minha rosa verdadeira...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Testemunho (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;808&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Dar o testemunho meu de vida,&lt;br /&gt;A mim mesma parecia pretensão &lt;br /&gt;Conquanto já estivesse resolvida &lt;br /&gt;A registrar cada passo neste chão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E cada pensamento ou devaneio&lt;br /&gt;Deveria fixar como sagrado&lt;br /&gt;E nada me seria então alheio&lt;br /&gt;E eu seria tudo o que é pensado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois ser é infinito, sem limite&lt;br /&gt;Se podemos o todo em tudo ver&lt;br /&gt;E o inefável apresenta seu convite...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A beleza de tudo é coisa séria&lt;br /&gt;Quando libertamos nosso ser&lt;br /&gt;Do próprio desprezo da matéria... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Jardim anoitecido (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;807&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;O jardim anoitecido nos espera&lt;br /&gt;Nestas belas noites de luar&lt;br /&gt;Em que vamos sob a branca esfera,&lt;br /&gt;Abraçados, a rir, rodopiar, &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A cada canteiro, a cada passo,&lt;br /&gt;Felizes por nos termos tão somente,&lt;br /&gt;Sabendo quão forte é o nosso laço&lt;br /&gt;E como nosso amor é diferente...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ai! Rodo, só a ti não digo "bah!"&lt;br /&gt;Mas gemo de delícia e de desvelos&lt;br /&gt;Em ais em que a dor mesma não há,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que esta ficou longe, nem me lembro,&lt;br /&gt;Apenas que era à tarde e era Setembro&lt;br /&gt;E tivemos tão puxados os cabelos...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;28/09/2006&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Arremedo (Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;806&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Nossa vida se constrói à revelia&lt;br /&gt;Dos sonhos todavia os refletindo,&lt;br /&gt;Nosso ser sendo apenas quem seria&lt;br /&gt;Se sendo assim não estivesse rindo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De nós, enganados de nós mesmos&lt;br /&gt;Pelo arremedo de ser que nos habita&lt;br /&gt;Pois ao vestir o ser então nos vemos&lt;br /&gt;Na casca de Bernardo, o Eremita...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim a verdadeira história nossa &lt;br /&gt;É aquela dos sonhos e quereres &lt;br /&gt;Que ficaram na caixa dos haveres&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que destampada um dia qual pandora&lt;br /&gt;Nos cobrarão no meio de uma coça, &lt;br /&gt;Surra santa que já sinto desde agora...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Angústia (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;805&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Angústia entrecorta o fio da vida,&lt;br /&gt;Suspende a narrativa qual soluço&lt;br /&gt;Vindo das profundezas da descida&lt;br /&gt;Que a alma realiza no seu curso...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sim, porque não sobe, não ascende,&lt;br /&gt;Como nos ensina algum prelado&lt;br /&gt;Que consolo deve a quem atende&lt;br /&gt;Em troca de cobranças de pecado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Angústia nos ata e as asas corta&lt;br /&gt;Para fazer descer ao fundo plano&lt;br /&gt;Onde a verdade é puro desengano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No fim do corredor subterrâneo&lt;br /&gt;Angústia aponta a derradeira porta &lt;br /&gt;Que sela a nossa cripta do crânio...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Pequena memória doméstica (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;804&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Um dia, bem me lembro, era guria&lt;br /&gt;E andava no Jardim do Paraíso&lt;br /&gt;Que ainda me cercava e acolhia&lt;br /&gt;Como um pomar sagrado sem Juízo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então apareceu meu irmãozinho,&lt;br /&gt;E era belo como poucos o guri,&lt;br /&gt;Instando-me a erguer só um pouquinho&lt;br /&gt;A minha longa saia de organdi...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E logo, logo, estávamos nuzinhos&lt;br /&gt;Deitados debaixo da figueira, &lt;br /&gt;Ou era a macieira, se me engano,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E eis que a Mutti vem qual minuano&lt;br /&gt;Gritando que nós éramos daninhos,&lt;br /&gt;Que ali eu estragara a terra inteira...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Raízes e metáforas (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;803&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Estar em sintonia com a Vida&lt;br /&gt;Que pulsa ao meu redor na natureza&lt;br /&gt;É algo necessário, com certeza,&lt;br /&gt;Pra que poeta seja e logo lida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois se sonhos cultivasse longe disso&lt;br /&gt;Querer seria lançar ecos e raízes&lt;br /&gt;No passar do vento e o rebuliço &lt;br /&gt;De meus pequenos erros e deslizes...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas sentir meus pés no mesmo chão &lt;br /&gt;Que acolheu aquela Anita como filha,*&lt;br /&gt;Após subir a bordo de um lanchão,*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não cânfora de um Vate lá de fora,*&lt;br /&gt;Mas consagrando o mar desta coxilha,&lt;br /&gt;Antes pura metáfora na aurora...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;26/04/2006&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Notas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;* ...aquela Anita como filha&lt;/strong&gt;- Anita Garibaldi era catarinense, de Laguna, mas com a sua saga junto a Giuseppe Garibaldi na Guerra dos Farrapos, foi acolhida como heroína riograndense, tornando se gaúcha para o povo do Rio Grande.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;*Após subir a bordo de um lanchão&lt;/strong&gt;- Giuseppe Garibaldi conheceu Anita em Laguna, e fê-la subir a bordo do seu lanchão. Eles se apaixonaram, ela deixando então seu marido bêbado para seguir o aventureiro italiano, o que lhe custou desprezo e detrações durante muito tempo. Ele chegara a Laguna já com a fama de herói pela épica travessia de dois lanchões pela coxilha, sobre rodas, puxados por 100juntas de bois por 80km até a lagoa de Tramandaí.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;*...de um Vate lá de fora... metáfora na aurora.&lt;/strong&gt; - ~Paráfrase alusiva ao belíssimo verso de Fernando Pessoa, no poema O Opiário; " Minha vida, cânfora na aurora" (que significa a volatilidade da vida, efêmera quando sem sentido ou ideal). &lt;br /&gt;(Lucia Welt) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A Druidisa (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;802&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sacralizar a vida, redundância,&lt;br /&gt;Que sagrada é e por princípio, &lt;br /&gt;Reitero-o no âmbito da estância&lt;br /&gt;Desde cândida guria neste sítio,*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aos oito vinda daquele novo burgo * &lt;br /&gt;Que já fora belo e mais germânico,&lt;br /&gt;Quando o Vati, como bardo, demiurgo*&lt;br /&gt;Pra cá nos trasladou sem nenhum pânico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fui infanta, sou princesa e druidisa&lt;br /&gt;Só não colhendo o visgo dos carvalhos,&lt;br /&gt;Que aqui são do umbu os grandes galhos...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas a herança dos mortos permanece&lt;br /&gt;Na coxilha que a guerra não esquece &lt;br /&gt;Seus farrapos ondulando pela brisa...*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Notas&lt;/strong&gt;&lt;strong&gt;...neste sítio-&lt;/strong&gt; Com "sítio", aqui, Alma quer dizer simplesmente "lugar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;...novo burgo&lt;/strong&gt;- Alma se refere a Novo Hamburgo, a cujo caminho nasceu na estrada e onde viveu até os oito anos. A cidade às vezes é chamada de Hamburgo Velho em referência ao seu passado de colônia alemã.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* &lt;strong&gt;...o Vati como bardo, demiurgo...- &lt;/strong&gt;"bardo", esta rica palavra que quando escrita com maiúscula se refere aos poetas celtas antigos, como aqui está escrita com minúscula está se referindo a uma espécie de curral mutável, onde ficam de noite as ovelhas para estercar a terra. Alma que dizer que o Vati (papai, em alemão, pr. Fáti) como um demiurgo (um deus criador) nos trasladou para a estância como um pequeno curral mutável, de ovelhas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;...druidisa&lt;/strong&gt; - Os druidas e as druidisas, sacerdotes e sacerdotisas dos celtas , colhiam com a foice de ouro o visgo dos ramos dos carvalhos para fazer uma poção mágica que lhes dava força e longevidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;*Seus farrapos ondulando pela brisa...- &lt;/strong&gt;Alma se refere às lembranças da Guerra dos Farrapos.&lt;br /&gt;(Lucia Welt) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Restos do Baile (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;801&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Que faremos nós de nossa vida&lt;br /&gt;Com os restos do baile já no chão,&lt;br /&gt;O amor tendo feito a despedida,&lt;br /&gt;Despido o figurino de ilusão?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sentaremos todos na varanda&lt;br /&gt;A olhar o poente nosso eterno&lt;br /&gt;Mestre de toda vida que desanda&lt;br /&gt;Como verdes folhas ante o inverno...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas se algo nos resta de esperança&lt;br /&gt;Foi porque o amor deitou semente,&lt;br /&gt;Que Amor, como a vida, não se cansa&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E volta, e volta sempre, mais e mais,&lt;br /&gt;Para nos deixar claro e presente:&lt;br /&gt;Nem na morte esse contrato se desfaz...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Oração ao Negrinho (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;800&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Ó nume, meu negrinho diligente, &lt;br /&gt;Orando e trabalhando nas estrelas&lt;br /&gt;Por mim neste plano, e indulgente&lt;br /&gt;Co’as falhas, que me vês a cometê-las,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando não bizarrias ou loucuras &lt;br /&gt;Por pura ardência de paixão &lt;br /&gt;Pela vida e o amor, e as sinecuras&lt;br /&gt;De ser a filha amada do patrão...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não me deixe desgarrar teu pastoreio&lt;br /&gt;Por mais que solitária tenho sido&lt;br /&gt;De amar o meu amor tão proibido&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E cantá-lo para o mundo e este pampa&lt;br /&gt;Que já não ousa considerá-lo feio &lt;br /&gt;Ao ver tão bela Arca já sem tampa...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Meu leito de sonetos (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;799&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Meus sonhos e sonetos sou eu mesma,&lt;br /&gt;E assim estou inteira em cada um.&lt;br /&gt;Se Carnaval só fossem, não quaresma,&lt;br /&gt;Seriam face, não o todo, e já comum.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se neles vibro e canto, também choro,&lt;br /&gt;Me desintegro e íntegra prossigo;&lt;br /&gt;Sou cristalina água, mas, sem cloro&lt;br /&gt;Podeis, sim, beber dela sem perigo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se canto o meu Pampa, sei com isso&lt;br /&gt;Estar a cantar tudo, o mundo todo,&lt;br /&gt;Que louvação faz parte do serviço...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para voltar à Natura em boa paz&lt;br /&gt;Para que o solo não me seja puro lodo&lt;br /&gt;Mas leito dado pelo Grande Capataz...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Manhãs de minha estância (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;798&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Tão belas manhãs de minha estância!&lt;br /&gt;Estão dentro de mim, por isso belas,&lt;br /&gt;Porque nunca lhes falta substância,&lt;br /&gt;Que eu sempre sentiria falta delas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No exílio, em terras de além mar &lt;br /&gt;Ou mesmo somente um pouco ao norte &lt;br /&gt;Onde cessam as carícias ao olhar&lt;br /&gt;Que se torna avaro ou sofre um corte&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E não pode voar a extremos pagos&lt;br /&gt;Como o pingo em disparada na coxilha&lt;br /&gt;Ou os gestos do peão em grandes rasgos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De orgulho, entusiasmo e afeição&lt;br /&gt;Enquanto em trote bravateia pela trilha&lt;br /&gt;A me escoltar de volta ao casarão...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;06/04/2006 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Vida, nosso sonho (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;797&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Matilde me questiona desde a infância&lt;br /&gt;Por quê a “guria” escrever tanto requer,&lt;br /&gt;Se nada acontece aqui na estância&lt;br /&gt;Que mereça pena e tinta ou mal-me-quer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se aqui não há mais boi, não há boiada&lt;br /&gt;Que me preocupe ou faça-me esperar &lt;br /&gt;Por uma rês que seja, desgarrada,&lt;br /&gt;Ou mais peão que por mim queira duelar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Reflito que a isso não me oponho,&lt;br /&gt;Foi pensado, não precisa acontecer,&lt;br /&gt;O mundo é seu eterno vir a ser...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que Arte não é espera nem procura,&lt;br /&gt;É sermos nesta vida nosso sonho,&lt;br /&gt;O resto é só silêncio e desventura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Voto de Minerva (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;796&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Perdida de amor me vi tão cedo&lt;br /&gt;Mas não perdi o tempo nesta vida;&lt;br /&gt;Encantada vivo em meu enredo&lt;br /&gt;Penélope de mim entretecida,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;À minha própria teia devotada&lt;br /&gt;Tecendo minha saga bela e única &lt;br /&gt;Com uns pretendentes de pousada,&lt;br /&gt;Se ando por aí sem minha túnica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já que a fama de doida me preserva &lt;br /&gt;Me desdobrei poeta e musa, logo duas,&lt;br /&gt;Pra ganhar meu próprio voto de Minerva,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E afrontar a Afrodite Açoriana: &lt;br /&gt;“No teu túmulo, Mutti, ainda suas&lt;br /&gt;A ver-me dupla assim, nua e insana?” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A Coruja (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;795&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Longe canta a coruja num cupim&lt;br /&gt;E sou a única aqui a dar-lhe crédito&lt;br /&gt;Como se dissesse só pra mim:&lt;br /&gt;“Alma, não figuras neste édito,”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Mas se queres minhas asas lhe darei, &lt;br /&gt;Que são silenciosas por demais,&lt;br /&gt;Passarás despercebida do meu rei&lt;br /&gt;E quem sabe poderás voltar atrás.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“ Irás rever teu Vati e a Açoriana,&lt;br /&gt;E ouvirás de novo da avó Frida&lt;br /&gt;A casquinada pouco franciscana,”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“E agradecer ao teu avô Joachim,&lt;br /&gt;Que saudoso da neta tão querida&lt;br /&gt;Esta noite te recomendou a mim...” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;14/01/2007 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O Cordão (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;794&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Vejam na lombada da colina&lt;br /&gt;O cordão trágico e dançante&lt;br /&gt;Puxado pela silhueta fina&lt;br /&gt;Da Moira descarnada, triunfante!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dancem, ó dancem, infelizes!&lt;br /&gt;Talvez façam a alegria retornar&lt;br /&gt;No último instante nuns deslizes&lt;br /&gt;Da megera que está a lhes puxar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já a onça bebeu água no riacho,&lt;br /&gt;A porca o seu rabicó torceu,&lt;br /&gt;A hora já chegou, fatal, eu acho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então dancem, que aí logo estarei, &lt;br /&gt;Mas num solo (foi o que me prometeu)&lt;br /&gt;Nesse palco da coxilha do meu rei...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Vigília espectral (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;793&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No silêncio crepitante da candeia &lt;br /&gt;Recebo estancieiros de outra era, &lt;br /&gt;Que comigo vêm plantar à meia&lt;br /&gt;Sua seara de sonhos e de espera.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E eu os acolho em minha vigília,&lt;br /&gt;Cavalhada espectral e exangue &lt;br /&gt;A formar imensa teia na coxilha,&lt;br /&gt;Penélope de mágoas e de sangue.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem espera essa tropa de farrapos,&lt;br /&gt;Contrastando com os tais engalanados &lt;br /&gt;Neste plaino abandonado pelos sapos?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Don Sebastião não seja, mas o Bento,&lt;br /&gt;Canabarro e Netto, ambos montados,&lt;br /&gt;Anita e Pepe no turbilhão do vento...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;08/07/2004&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Notas&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;*Dom Sebastião não seja, mas o Bento&lt;/strong&gt;- esse verso alude ao rei de Portugal, Dom Sebastião, o Venturoso, chamado depois de seu desaparecimento na batalha de Alcácer-Quibir, "O Esperado", ocasionando desde então um movimento místico-político denominado Sebastianismo, que se estendeu até os sertões do Nordeste do Brasil e também ao Pampa, até o fim do século XIX.&lt;br /&gt;Há quem diga que há resquícios desse mito até hoje em certas regiões do Brasil e de Portugal, em que o povo espera a volta de Dom Sebastião para uma espécie de redenção geral e volta da monarquia. &lt;br /&gt;Este verso da Alma sugere que o povo gaúcho pampeano espera a volta do seu grande comandante farroupilha Bento Gonçalves.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;* Canabarro e Netto&lt;/strong&gt;- os dois outros mais importantes generais dos Farrapos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;* Anita e Peppe no turbilhão do vento&lt;/strong&gt; - Este verso extremamente rico, alude ao fato de que Giuseppe Garibaldi, aqui alcunhado Peppe, e Anita, não eram cavaleiros, mas marinheiros, portanto levados pelo vento. Mas, sobretudo evoca o turbilhão eterno que arrastava os também amantes clandestinos Paolo e Francesca da Rimini,abraçados, eternamente sem pouso, no segundo círculo do Inferno da Divina Comédia de Dante Alighieri.&lt;br /&gt;(Lucia Welt) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Divagação (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;792&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Por vezes me sinto envergonhada&lt;br /&gt;De divagar assim mais do que a média,&lt;br /&gt;E ter tantos privilégios, e por nada,&lt;br /&gt;Mormente ao ver tanta tragédia&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No mundo lá fora, ou mesmo aqui&lt;br /&gt;Neste pampa que não é uma redoma&lt;br /&gt;Mas cenário de guerras num bioma&lt;br /&gt;Onde viveu outrora o guarani&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que sofreu carregando tanta pedra &lt;br /&gt;Em nome de um Deus de muito longe,&lt;br /&gt;Um tanto parecido com um monge,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas que nos comovia o coração&lt;br /&gt;Pela extrema brandura do sermão&lt;br /&gt;Do grão que cai na terra, morre e medra...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Não foste ao pomar (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;791&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Não foste ao pomar, o combinado,&lt;br /&gt;Em vez disso aproveitaste pra fugir,&lt;br /&gt;No teu belo Aston Martin turbinado&lt;br /&gt;Que estava preparado pra partir...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em tua mala, sem a resma de papel,&lt;br /&gt;Levas os teus ternos e o baralho&lt;br /&gt;Com que treinas no quarto de um hotel,&lt;br /&gt;Pois sei que com meu grude te atrapalho...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Embora isso me cause ainda mais sede&lt;br /&gt;Resto a imaginar-te, mesmo assim,&lt;br /&gt;Como deitas com as Marias-panoverde,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em que copas dedilhas essas damas,&lt;br /&gt;Ai! Sinos de cassinos, em que camas,&lt;br /&gt;A baixar seus corações, em vez de mim...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Acalanto para mim (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;790&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;É duro viver tão consciente&lt;br /&gt;Quando se tem o sonho como meta,&lt;br /&gt;E não sonho de algo, mas presente,&lt;br /&gt;Sua alma a apostar nele, completa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Infanta, escolhi o mundo mágico&lt;br /&gt;Que há como uma face deste mundo&lt;br /&gt;Que, juro, não direi que é profundo,&lt;br /&gt;Rima fácil para tanto senso trágico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E é isso que me quer puxar pra baixo:&lt;br /&gt;Viver tanto sem deixar de perceber &lt;br /&gt;A Morte em tudo em que me encaixo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então, me debatendo rio e canto, &lt;br /&gt;Heróica em resistência por saber&lt;br /&gt;Ser eu meu próprio sonho e acalanto...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;08/01/2007 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Pequena fábula doméstica (Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;789&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Prodígio de rancor e desenganos&lt;br /&gt;Mantinha aquele homem num impasse:&lt;br /&gt;A mulher o oprimia há muitos anos&lt;br /&gt;Sem que jamais, covarde, revidasse...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Humilde, paciente e conformado&lt;br /&gt;Parecendo de fato não dar trela&lt;br /&gt;Pois tendo o cigarro já largado&lt;br /&gt;Não deixava de comprar o maço dela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma questão de tempo... ele esperava, &lt;br /&gt;Trazendo-lhe mais maços e pacotes&lt;br /&gt;Não ligando o quanto ela fumava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas de avanço foi-se ele, de passivo,&lt;br /&gt;Depois que lhes morreram os mascotes;&lt;br /&gt;Com asma o papagaio ainda está vivo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O Arco de Fogo (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;788&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Há quem acredite, minha amiga&lt;br /&gt;Que a vocação do frango é o assado,&lt;br /&gt;Assim como a do homem é o mercado,&lt;br /&gt;A vida uma intrincada e triste intriga.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não te iludas, e torna a repensar&lt;br /&gt;O presente da vida que te deram&lt;br /&gt;Sem que a ti pudessem consultar,&lt;br /&gt;Se há erro ao fazê-lo ou se esmeram&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Teus pais, os deuses ou destino&lt;br /&gt;Pois não sabemos nada e suspeitamos &lt;br /&gt;Que a vida seja mero desatino&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De um Deus do acaso ou do jogo,&lt;br /&gt;Um mago do circo que montamos, &lt;br /&gt;Cujo número é o fatal arco de fogo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Érato e Mercúrio (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;787&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Para escrever o meu soneto&lt;br /&gt;Não faço algum preparo ou ritual,&lt;br /&gt;Que esses só faço se prometo&lt;br /&gt;Aos deuses um estado mais geral.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De espírito elevado já me vejo&lt;br /&gt;Invocando a grande Musa antiga&lt;br /&gt;Que odeia o atacado e o varejo&lt;br /&gt;E só trata de soneto e de cantiga.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nunca pois do comércio aquele deus&lt;br /&gt;Que dos bandidos também é padroeiro,&lt;br /&gt;Mercúrio que foi “boy” do próprio Zeus&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E hoje chama o ouro no cascalho&lt;br /&gt;Envenena o rio e o ribeiro&lt;br /&gt;E agora é o deus do rebotalho...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A Outra (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;786&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Andando na campina nesta tarde&lt;br /&gt;Encontrei-me de repente com a Alma.&lt;br /&gt;Isso mesmo, a outra, a que mais arde&lt;br /&gt;E sai porque não agüenta tanta calma,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E mirando com olhar que faiscava,&lt;br /&gt;Gritou: “Porque me prendes, ó tirana,&lt;br /&gt;Mormente em teu marasmo de mascava?!&lt;br /&gt;Quero doce de outra vida e não da cana&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desse teu aconchego acomodado&lt;br /&gt;Que me faz envergonhada de teu medo&lt;br /&gt;De jogar-te, o que mesma fiz tão cedo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nos braços da volúpia e da paixão,&lt;br /&gt;Sim, debaixo do pomo abençoado&lt;br /&gt;Pelo abraço tão nu de nosso irmão...” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Epitáfio no espelho (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;785&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Contar minhas fraquezas sem que torça,&lt;br /&gt;Mesmo com alguns traços perversos,&lt;br /&gt;E assim transfigurar-me em minha força,&lt;br /&gt;Que fica então plasmada nos meus versos,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que é ser vulnerável enquanto humana, &lt;br /&gt;Tanto que sangrar é o meu mérito&lt;br /&gt;Já que o fiz não só por minha "xana" &lt;br /&gt;Mas diante deste mundo de pretérito...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E chorarão comigo o que não pude&lt;br /&gt;Aqueles que me virem muito após,&lt;br /&gt;Pois que não conheci decrepitude,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E se fui frágil, serei bela eternamente,&lt;br /&gt;Rosto puro que não quis cremes e pós&lt;br /&gt;Pra olhar-me no espelho que é a mente...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;14/01/2007 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Alma Nua (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;784&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Passear pela coxilha minha nudez&lt;br /&gt;É ponto de honra além de gozo,&lt;br /&gt;Pois assim honro a beleza que Deus fez&lt;br /&gt;Ao dar-me este corpo glorioso...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se não gostas do belo, não me tolha&lt;br /&gt;E deixa que eu passe sem barrar-me,&lt;br /&gt;Pois caminho entre o espírito e a carne&lt;br /&gt;E apraz-me que um belo olhar me colha...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vê, irei banhar-me como outrora&lt;br /&gt;No poço da cascata com meu mano&lt;br /&gt;Que nunca permitiu meu desengano,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ou disse: “Corre, Alma, que estão vindo,&lt;br /&gt;Veste-te logo e vamo-nos embora!”&lt;br /&gt;Que ele mesmo era nu e tão bemvindo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A Recriação de Lilith (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;783&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Consta que um mago da Judéia,&lt;br /&gt;Que era um alquimista disfarçado,&lt;br /&gt;Conseguiu recriar ante a platéia &lt;br /&gt;O Ser Primeiro, belo e rejeitado,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A primordial mulher do pobre Adão,&lt;br /&gt;Lilith, que por ter sopro divino&lt;br /&gt;Entrava com o macho em colisão,&lt;br /&gt;Mas já com a sedução do feminino.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E Adão que já era um bom covarde &lt;br /&gt;Queixou-se ao Senhor, de sua consorte,&lt;br /&gt;Que afinal o acudiu um pouco tarde&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois o homem ainda tenta recriá-la&lt;br /&gt;Pois seu fascínio Eva não iguala&lt;br /&gt;Mesmo que seja Vida, e ela... a Morte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Confusão (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;782&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;De muito longe no tempo vem minh’alma,&lt;br /&gt;Assim como as mais puras dentre vós&lt;br /&gt;Que recordamos a raiz do nosso trauma&lt;br /&gt;Co’a confusão lingüística da voz... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas Deus alternativa oferecia &lt;br /&gt;Além do aprendizado desses códigos:&lt;br /&gt;O dom maior da Música e Poesia&lt;br /&gt;E da boa acolhida aos filhos pródigos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desculpai-me a confusão, por minha vez,&lt;br /&gt;Que muitos acham só insensatez&lt;br /&gt;Eu assim misturar temas e conceitos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas creio estar tudo interligado,&lt;br /&gt;E o Retorno ao Paraíso, programado,&lt;br /&gt;A charrua abandonando e nossos eitos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;De rebanhos, solitários e espelhos (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;781&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Não há mais rebanhos nesta estância.&lt;br /&gt;Melhor, já que com eles não perfilo...&lt;br /&gt;E os solitários, que são o meu estilo,&lt;br /&gt;Têm o meu amor... mas à distância,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que não invado o campo do sozinho &lt;br /&gt;E respeito-lhe a sagrada solidão,&lt;br /&gt;Pois que escolhi este caminho,&lt;br /&gt;Já que, ao sonho, votados todos são...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas quão diverso é o sonho solitário&lt;br /&gt;Que paira acima da humana multidão &lt;br /&gt;E a olha como humano desvario! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E pra poder falar de um só homem &lt;br /&gt;Em meu espelho os vejo como são&lt;br /&gt;Antes que meu próprio espelho tomem...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;14/08/2005 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Memória imaginada (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;780&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Posso bem imaginar-me já sem vida,&lt;br /&gt;Chorada pelos meus e alguns peões,&lt;br /&gt;Rodo em sua dor já garantida,&lt;br /&gt;E Matilde, minha bá, aos borbotões,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela, que talvez arme um escândalo&lt;br /&gt;Com sua exuberância em prantear;&lt;br /&gt;Lucia com o incenso seu de sândalo&lt;br /&gt;E o Galdério, com o olho a marejar,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De novo prestes no colo a me pegar,&lt;br /&gt;Murmurando ao me colocar na mesa:&lt;br /&gt;“Hoje temos leitoinha pro jantar”,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao ver-me lá, assim, ainda mais branca,&lt;br /&gt;Qual o manjar da Mutti, a sobremesa,&lt;br /&gt;Dela o único que lembro, pra ser franca...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;09/01/2007&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O morto (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;779&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;O amado ente que privamos&lt;br /&gt;Deixa tanto de si dentro de nós,&lt;br /&gt;Que o levamos pelos dias, pelos anos&lt;br /&gt;Que nos couberem muito após&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ter deixado o corpo vulnerável&lt;br /&gt;Cheio de nobreza mas sem cores,&lt;br /&gt;Despojado já então do dispensável&lt;br /&gt;Triste fardo de misérias e de dores...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas se em matéria o recordemos,&lt;br /&gt;Perpetua-se o corpo venerando,&lt;br /&gt;Não cuspimos no prato que comemos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o revemos num álbum de memória,&lt;br /&gt;Os traços e a beleza conservando&lt;br /&gt;Como quando começou a nossa estória...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A morte do Maestro (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;778&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;O corpo mantinha a majestade&lt;br /&gt;Também na alva barba e no cabelo,&lt;br /&gt;E mais um traço forte de vontade&lt;br /&gt;Que ainda nos lábios pude vê-lo,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esse dom de comando generoso&lt;br /&gt;Que fazia-nos chamá-lo de Maestro,&lt;br /&gt;Ele, a quem saber é que era o gozo&lt;br /&gt;E na arte de viver era o mais destro...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas eu, guria que reconheci seu colo&lt;br /&gt;Que fora terno, aberto e acessível&lt;br /&gt;E que pra mim era prumo, meta e pólo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não poderei viver se assim deixá-lo,&lt;br /&gt;Que nem seria justo ou permissível,&lt;br /&gt;Enquanto na memória ainda o calo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Teseu perdido (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;777&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;As coisas se rebelam, tudo treme,&lt;br /&gt;Está perdido o fio do labirinto;&lt;br /&gt;Já não há quem o barco nosso reme,&lt;br /&gt;Nossa nave em névoa de absinto...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nosso fuso apresenta seu ananque&lt;br /&gt;E tudo é fútil e vã necessidade;&lt;br /&gt;Não há quem da inércia nos arranque&lt;br /&gt;E vagamos à deriva em vacuidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Barco bêbado, perdido de seu rumo&lt;br /&gt;Já sem fé vacila o coração&lt;br /&gt;Nosso mastro mestre perde o prumo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E adernamos com risco de emborcar&lt;br /&gt;Pois o naufrágio é nossa vocação&lt;br /&gt;E a vela negra esquecemos de trocar...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;09/01/2007 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Amor, sonhos e rimas (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;776 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entre a casa e a infinita pradaria&lt;br /&gt;Que vejo ao acordar espreguiçando,&lt;br /&gt;Há um trecho do jardim de fantasia&lt;br /&gt;Que me viu guria e... já amando,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fugindo de meu leito altas horas,&lt;br /&gt;A rodopiar assim, braços abertos &lt;br /&gt;A esperar o mano em suas demoras,&lt;br /&gt;Que sempre o esperei, ambos despertos, &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele já tão ligado em outro mundo&lt;br /&gt;Nas loucas aventuras de guri,&lt;br /&gt;E eu só a pensar no amor profundo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas buscando outras rimas mesmo aqui &lt;br /&gt;Por ser filha deste chão, solo fecundo &lt;br /&gt;Para o sonho que de mim mesma vivi...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;De volta ao Pomar (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;775&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Quando meu pingo galopa na coxilha,&lt;br /&gt;Em seu lombo a fugir também me vejo&lt;br /&gt;A afastar-me do futuro pela trilha &lt;br /&gt;Que me leva à raiz do meu desejo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De mais e mais viver, insaciável,&lt;br /&gt;Pois que perdida a chave da inocência,&lt;br /&gt;A vida foi pra mim reincidência&lt;br /&gt;Num doce pecado inexplicável...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por quê, por quê haveria maldição &lt;br /&gt;Vinda de quem tão bem me quer &lt;br /&gt;Que me fez bela poeta e tão mulher?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas meu destino breve, que bem sei,&lt;br /&gt;Me faz correr assim na contramão&lt;br /&gt;De volta ao pomar em que pequei...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Encontro com a Moira (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;774&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Estar em sintonia com a beleza&lt;br /&gt;E ao ritmo fluindo de um adágio&lt;br /&gt;Escolhido como som da Natureza,&lt;br /&gt;Longe de conflito e de presságio,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era só o que eu queria e esperava&lt;br /&gt;Antes de encontrar-me com a Moira,&lt;br /&gt;Surgida como dama fria e loira&lt;br /&gt;Quando eu nestes prados passeava,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que ao fitar-me quase me abismou&lt;br /&gt;Enquanto me dizia em voz soturna:&lt;br /&gt;“Alma cara, o seu tempo se esgotou...”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Se tanto te esperei, não desesperes&lt;br /&gt;Que não serei pra ti sombra noturna&lt;br /&gt;Mas abraço de irmã, se assim preferes...”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;17/01/2007 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Cartas na varanda (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;773&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Toda noite esperei nesta varanda&lt;br /&gt;Aquele que o meu coração oprime&lt;br /&gt;Co’a ausência, ah! onde ele anda,&lt;br /&gt;Aquele por quem já não sou sublime&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E choro e me comporto como tonta&lt;br /&gt;Ou como a triste dama da janela&lt;br /&gt;Aquela tal que só vê a vida bela&lt;br /&gt;Passar como égua que não monta?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vê, já não mais sou poeta lírica&lt;br /&gt;E longe vão imagens mais sublimes&lt;br /&gt;Sem esta agora veia mais satírica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E solitária boto cartas na varanda&lt;br /&gt;Pelo pôquer com que amando te redimes&lt;br /&gt;Enquanto a minha mão ou fé desanda...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do sol, velas e estrelas (de Alma Welt)&lt;br /&gt;772&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Meu pai, votado ao culto da beleza,&lt;br /&gt;Iniciou-me cedo nos Mistérios,&lt;br /&gt;Ao piano ou ali à sua mesa, &lt;br /&gt;E ao poente, momentos mais etéreos...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Diante daquelas rubras despedidas&lt;br /&gt;E depois, já saudando o arrebol,&lt;br /&gt;Um pacto então era em nossas vidas,&lt;br /&gt;Nosso sol, constante e único farol. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sim, porque se assim a luz cultuas&lt;br /&gt;Mesmo que mais distante, nas estrelas,&lt;br /&gt;Não poderás fazer o mal enquanto atuas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nesta vida que a ti cabe iluminar&lt;br /&gt;Com velas que o próprio sol, ao vê-las,&lt;br /&gt;Como filhas as reconhece e vem saudar...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Eu, versos e estrelas (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;771&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Ser eu mesma, elaborada construção&lt;br /&gt;Que empreendi após meus treze anos,&lt;br /&gt;Quando vi a Açoriana em seu caixão&lt;br /&gt;E olhei ao pé da cova meus arcanos:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu haveria de ser meu próprio tema,&lt;br /&gt;Não houvera eu sofrido à toa &lt;br /&gt;Por falta inexistente ou tão pequena&lt;br /&gt;Que ao abraço da Natura mal destoa...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E cresceria mesmo à força de cantar&lt;br /&gt;E amar, amar, amar e mais amar,&lt;br /&gt;Que é só o que cabe ao frágil ser&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que quer se alçar ao teto do universo&lt;br /&gt;Mas cuja alma é um pavio quase a tremer&lt;br /&gt;Entre estrelas semeadas como verso...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Radares (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;770&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Voltei a deitar na pedra chata,&lt;br /&gt;Nua como quando era guria&lt;br /&gt;Neste mesmo poço da cascata&lt;br /&gt;Que tanto me serviu de alegoria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas algo está mudado, eu o sinto,&lt;br /&gt;Como se do bosque venha olhares&lt;br /&gt;E uma vaga ameaça que pressinto&lt;br /&gt;Na pele e nos meus pelos, meus radares.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lembro que Matilde advertia...&lt;br /&gt;E a Mutti com a vara de marmelo&lt;br /&gt;Não podia mudar o que eu sentia:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esta forte atração primordial&lt;br /&gt;Do meu ser corporal que assim desvelo,&lt;br /&gt;Por beleza que me sei, talvez fatal...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;11/01/2007&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nota &lt;br /&gt;Acabo de descobrir este soneto, doloroso para mim por denotar o pressentimento do perigo que haveria de vitimar minha irmã dez dias depois... &lt;br /&gt;Para que os leitores recentes entendam, republico aqui um soneto mais antigo em que a Alma fala dessa "pedra chata" do seu "poço da cascata", que lhe serviu de "alegoria", como estas: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda o Poeta (de Alma Welt)&lt;br /&gt;769&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Observo as crianças nos seus jogos,&lt;br /&gt;Lindas, a correr pelo jardim,&lt;br /&gt;A brincar como o poeta com o Logos,&lt;br /&gt;Qual se fora correto e sábio fim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tudo é infantil, e o esquecemos...&lt;br /&gt;Levamo-nos a sério, a ferro e fogo,&lt;br /&gt;Nos esfalfamos tanto e queremos&lt;br /&gt;Com esforços ou só com prece e rogo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas ao poeta cabe ser só o vigia&lt;br /&gt;No farol, desarmado sentinela,&lt;br /&gt;Ou curioso que tão somente espia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E se tiver que tomar parte na loucura&lt;br /&gt;Que seja para pôr mel e canela&lt;br /&gt;Nesse confuso caldo de amargura...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Resumo (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;768&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Houveram dias de rosas e de vinhos&lt;br /&gt;Como os do amargo chimarrão&lt;br /&gt;Nesta estância amiga dos vizinhos&lt;br /&gt;Que nos retribuíam afeição... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De repente começou a cupidez&lt;br /&gt;Do olhar que já não mirava os meus&lt;br /&gt;E percorria meu corpo e minha tez&lt;br /&gt;Com lampejos e acentos mais ateus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não me queria frágil como presa...&lt;br /&gt;Então ao perceber-me uma beldade,&lt;br /&gt;A Poesia aliei à minha fraqueza.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E me dei conta do perdido Paraíso,&lt;br /&gt;Que há muito já perdera, na verdade,&lt;br /&gt;Sob a árvore de tão pouco juízo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A Morte da Açoriana (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;767&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Guria vi o Outro em sua morte&lt;br /&gt;Quando veio buscar a Açoriana,&lt;br /&gt;Que não era indiferente à minha sorte,&lt;br /&gt;Que tanto deplorou a minha chama...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tão bela que estava em seu caixão &lt;br /&gt;A produzir em mim terrível choque&lt;br /&gt;Percebendo a suspensa animação,&lt;br /&gt;Sua síntese a mudar o meu enfoque...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bela face, belo corpo, bah! tão linda,&lt;br /&gt;E no entanto já não estava ali! &lt;br /&gt;Aquilo era onde o ser se finda&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E não havia ser, não havia nada,&lt;br /&gt;Só boneca de cera e de organdi &lt;br /&gt;A transmutar a vida e minha mirada...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;12/01/2007 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Do amor vivido, ou A vida em uma hora (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;766&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Não perdi meu sono por amor,&lt;br /&gt;Que este me faz querer sonhar...&lt;br /&gt;Remorsos não me causam, nem pudor,&lt;br /&gt;A falta de que querem me acusar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sinto muito, meus senhores, nada sinto&lt;br /&gt;Quanto ao que causa tais furores;&lt;br /&gt;Amar foi minha escolha e o absinto&lt;br /&gt;Que me leva a mais e mais amores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se estou louca? Suspeito que... talvez.&lt;br /&gt;Mas meu delírio é feito de poesia&lt;br /&gt;Que é missão, labor e fantasia,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tudo ao mesmo tempo, que é agora,&lt;br /&gt;Como reza o mote que se fez&lt;br /&gt;Para quem, uma vida... é uma hora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Visões (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;765&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Sonhei minha vida e minha morte&lt;br /&gt;E sei detalhes que nem posso explicar,&lt;br /&gt;Que levantam questões de toda sorte&lt;br /&gt;Como aquela expulsão do meu pomar...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas meu corpo nu sobre uma mesa&lt;br /&gt;E a marca vermelha no pescoço...&lt;br /&gt;Posso mesmo ver isso com clareza&lt;br /&gt;Antes que comece um alvoroço:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ouço um denso silêncio meio tenso&lt;br /&gt;No velório que é meu e inusitado&lt;br /&gt;(mulheres de chapéu preso com lenço)*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que a Matilde furiosa romperia &lt;br /&gt;Atirando alva toalha de bordado:&lt;br /&gt;"Seus ímpios, cubram já a minha guria!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;14/01/2007 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nota&lt;br /&gt;Estarrecida, descobri agora a pouco este soneto inédito na Arca de minha irmã, e que atesta a sua espantosa vidência, o sexto sentido que a acompanhou a vida toda, e que, imagino, duplicava o seu sofrimento nesta vida... Como pôde ela ver o que exatamente se passaria no seu espantoso velório?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*...(mulheres com chapéu preso com lenço)- As trabalhadoras da vinha, camponesas que trabalham sob o sol com chapéus de palha presos com um lenço debaixo do queixo, por causa do vento da coxilha. Elas e suas filhas é que encheram a grande sala do nosso casarão no velório da Alma, colocada nua como seu corpo foi resgatado da águas por Rodo e carregada nos braços por Galdério por um longo trecho de campina até ser colocada sobre a mesa e começar a inusitada visitação sem que ninguém ousasse cobri-la, até a Matilde, furiosa, irromper jogando uma toalha de renda sobre o alvíssimo corpo deslumbrante, gritando aquilo que Alma ouviu na sua visão. (Lucia Welt)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A propósito, republico aqui um soneto (relacionado a esse episódio) que descobri e publiquei aqui em 22 de julho de 2008, que explica o porquê de Alma ter sido colocada (nua!) sobre a mesa da nossa sala de jantar:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A leitoinha (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Galdério, prepara a tua charrete&lt;br /&gt;Que hoje não quero cavalgar!&lt;br /&gt;Leva-me como quando eu tinha sete&lt;br /&gt;E dormia no teu colo ao regressar&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E me tomavas nos braços com candor&lt;br /&gt;Ao salão me transportando sem eu ver, &lt;br /&gt;Me punhas sobre a mesa por humor,&lt;br /&gt;Dizendo: “Hoje leitoinha vamos ter!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E eu já despertada mas fingindo&lt;br /&gt;Não resistia e gargalhava afinal&lt;br /&gt;Sem ousar abrir os olhos, sensual,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois sentia o teu olhar tão inocente&lt;br /&gt;Percorrer meu pequeno corpo lindo&lt;br /&gt;Que queria ser tomado docemente...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;09/07/2006&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;___________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fiquei estarrecida ao descobrir hoje este soneto na arca da Alma. Senti-me primeiramente perplexa, depois chorei muito.&lt;br /&gt;Ficou claro para mim, de repente, o gesto insólito, aparentemente incompreensível de Galdério ao pegar o corpo nu da Alma, quando de sua morte afogada no poço da cascata, e vir com ele nos braços como um sonâmbulo para depositá-la sobre a mesa do salão onde começou o seu espantoso velório nu, até ser interrompido pela irupção indignada de Matilde cobrindo-a com uma toalha de mesa, como um sudário.&lt;br /&gt;Vide o blog "&lt;strong&gt;Vida e Obra de Alma Welt&lt;/strong&gt;":(www.almawelt.blogspot.com) onde publiquei, já há tempos, a carta que escrevi na ocasião fatídica, narrando as circunstâncias da morte e do velório de minha amada irmã. (Lucia Welt) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Auto-críticas (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;764&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Algo me diz* que sou filha dos setenta &lt;br /&gt;Dos quais vivo a vã virada de valores,&lt;br /&gt;E que isso é que meu verso sustenta&lt;br /&gt;Já que trai pouca luta e muitas dores;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ou que sou meio louca ou bipolar&lt;br /&gt;E que isso traduz um certo pathos&lt;br /&gt;Que dá um interesse ao primo olhar&lt;br /&gt;De quem ama delírios e não fatos;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que nada me ocorreu em tenra idade&lt;br /&gt;E tudo se passou em minha mente&lt;br /&gt;(o que, confesso, talvez seja verdade)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, vejam: minha alma é o meu gozo,&lt;br /&gt;Rebelde como outrora minha gente&lt;br /&gt;Neste pampa de passado poderoso...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nota &lt;br /&gt;&lt;strong&gt;*Algo me diz &lt;/strong&gt;- Alma ensaia uma curiosa autocrítica já que ninguém jamais ousou fazê-lo em sua vida, ou até hoje, tal o poder e segurança de seu estro, e de seu olhar claro sobre tudo o que pousava ou lhe interessava, e que era o Mundo e sua alma. Ela tinha tanta consciência da força natural de seu Mistério, que se permitia oferecer chaves aos seus leitores... ( Lucia Welt)&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Entre o mate e o verso (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;763&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Sonetar pra mim tornou-se hábito,&lt;br /&gt;Conto sílabas e rimo a caminhar&lt;br /&gt;Pela coxilha ao largo de onde habito&lt;br /&gt;Ou sobre a relva escura do pomar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eis que diante da minha macieira&lt;br /&gt;O soneto tende a um velho rito&lt;br /&gt;E alguma falsa rima de estradeira&lt;br /&gt;Desvanece e dá lugar ao Mito...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas onde o verso meu mesmo transcende&lt;br /&gt;Longe do altar dos velhos deuses&lt;br /&gt;É junto ao fogo que o gaúcho acende&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na vigília bravateira do meu mate&lt;br /&gt;Co’as Marias, as Três e seus adeuses,&lt;br /&gt;Sob o olhar do grande, eterno Vate...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nota &lt;br /&gt;Acabo de descobrir este gracioso soneto, muito revelador da alma gaúcha sob o estro e cultura universal da grande Poetisa. Seu amor à nossa cultura e hábitos ficam evidentes em sonetos assim... (Lucia Welt) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Reflexão (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;762&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Quão dúbia é a nossa humanidade, &lt;br /&gt;Mormente no que tange à alegria&lt;br /&gt;Que tanto almeja a eternidade *&lt;br /&gt;Quanto dessa rota nos desvia!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Perdida nos meandros do nadir,&lt;br /&gt;Às voltas com um rol de ninharia,&lt;br /&gt;Em nome de hipotético porvir&lt;br /&gt;Como se fim e morte não havia...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O passado, rico em seu resíduo,&lt;br /&gt;E a memória, sua vocação eterna, &lt;br /&gt;São o lastro-ouro do indivíduo,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas só a Poesia ainda elucida&lt;br /&gt;O teatro de sombras da caverna *&lt;br /&gt;Cujo elenco tememos na saída...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Notas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;*...à Alegria que tanto almeja a eternidade&lt;/strong&gt; - Alusão à &lt;strong&gt;"Canção de Zaratustra&lt;/strong&gt;", de &lt;strong&gt;Nietszche&lt;/strong&gt;:&lt;br /&gt;"A dor diz: passa e acaba,&lt;br /&gt;Mas toda alegria quer eternidade,&lt;br /&gt;a profunda eternidade..."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;*O teatro de sombras na caverna&lt;/strong&gt; - Alma faz alusão ao famoso Mito da Caverna, de Platão.&lt;br /&gt;___________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O Anátema (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;761&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Por vezes me sinto esvaziada&lt;br /&gt;Como se todo acervo de memória, &lt;br /&gt;E mesmo a trajetória efetuada&lt;br /&gt;Abandonada fosse ao fim da estória.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma simples guria desnudada,&lt;br /&gt;Frágil, branca, nua em plena praça,&lt;br /&gt;Como se fora a poetisa venerada&lt;br /&gt;Uma centelha efêmera de graça...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez só um pudor imenso sobre &lt;br /&gt;Que ruborize minha face camponesa&lt;br /&gt;E traia minha origem pouco nobre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E então, num lapso de horror,&lt;br /&gt;Cubro a rosa da vagina na surpresa&lt;br /&gt;Daquele antigo anátema de dor... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;26/ 09/2006&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nota &lt;br /&gt;Acabo de descobrir na Arca da Alma esta maravilha inédita, em que Alma mais uma vez, de maneira pungente, ao falar de si, fala universalmente por toda a condição feminina. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;strong&gt;Daquele antigo anátema de dor&lt;/strong&gt;- Alma se refere às palavras de Deus (no Gênesis ) ao espulsar Adão e Eva do Jardim do Éden (o paraíso terrestre) : " Parirás em dor, ganharás o pão com o suor do teu rosto"...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(Lucia Welt) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Elogio do Desespero (de Alma Welt)&lt;br /&gt;760&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando um homem perde a sua fé&lt;br /&gt;Porque provavelmente nunca a teve,&lt;br /&gt;O que ocorre em casa ou num Café,&lt;br /&gt;Ou se ao cruzar a rua se deteve&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para ser atropelado com seguro,&lt;br /&gt;Ele trai sua esperança em rebeldia&lt;br /&gt;Almejando espiar de trás do muro&lt;br /&gt;Aquela a quem amou um certo dia...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que louca e extrema a sua bravata&lt;br /&gt;Erguendo a mão crispada para Deus,&lt;br /&gt;A outra a afrouxar a sua gravata!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ou, pelo contrário, o laço pondo&lt;br /&gt;De pé num banquinho, sem adeus,&lt;br /&gt;O gerente do Banco descompondo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nota&lt;br /&gt;Acabo de descobrir na Arca da Alma este insólito soneto. Creio que é um exercício de humor negro da grande Poetisa, que sempre revelou sua veia humorística, embora com uma ironia mais leve... Mas também acredito que ele revela muito da oculta fé que minha irmã tinha em Deus, apesar de ser uma Alma tão complexa e talvez atormentada... (Lucia Welt) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Pound (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;759&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Houve grande poeta equivocado&lt;br /&gt;Que apesar de investir contra a Usura&lt;br /&gt;(e por isso merece ser louvado), &lt;br /&gt;Ficou do lado errado da loucura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Escolheu um condottiere deslocado&lt;br /&gt;Que o mundo intrigava e dividia;&lt;br /&gt;Tardio, falso, dúbio e então amado,&lt;br /&gt;Um doido duce a cabeça lhe fazia...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas ao chegar ao fim da trapalhada, &lt;br /&gt;E ao fechar seus cantos eruditos,&lt;br /&gt;Diante dos campos mudou sua mirada*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E ouvindo ao longe o som de um realejo&lt;br /&gt;Murmurou após reler seus manuscritos:&lt;br /&gt;“Não era bem assim, agora vejo...”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nota &lt;br /&gt;*&lt;strong&gt;Diante dos campos mudou sua mirada &lt;/strong&gt;- o verso faz alusão aos irmãos Campos, os poetas Augusto e Haroldo que visitaram o poeta americano Ezra Pound, autor dos "Cantos", já muito velho, em Rapallo, retornado à Itália depois que foi libertado do hospício onde foi colocado como alternativa à sentença de morte por alta traição ao seu país por ter colaborado com Mussollini, por quem nutria grande admiração durante toda sua ascenção e mesmo durante a guerra, num programa literário que fazia numa rádio na Itália, onde vivia. Augusto de Campos contou num livro o episódio aqui posto em versos pela Alma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;*Usura-&lt;/strong&gt; -um dos poemas mais fortes e mais conhecidos dos Cantos de Ezra Pound, contra a usura. e portanto, o capitalismo. Provavelmente o poeta de boa fé acreditava no suposto e apregoado socialismo do "Fascio". &lt;br /&gt;(Lucia Welt) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Alma Frankenstein (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;758&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que posso eu, vã poeta deste Pampa&lt;br /&gt;Fazer em relação ao triste Mundo,&lt;br /&gt;Que é o lado sombrio que destampa &lt;br /&gt;A caixa de Pandora que é, no fundo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Olimpo éramos nós, ou Paraíso,&lt;br /&gt;Num tempo que perdemos por maldade;&lt;br /&gt;O abismo que cavamos, mal juízo&lt;br /&gt;Que fizemos de nossa deidade...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Querer mais... da humanidade a maldição,&lt;br /&gt;Fagulha a nós legada por aquele&lt;br /&gt;Prometeu, de quem somos a metade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Qual Frankenstein, somos filhos da Razão&lt;br /&gt;Que nos deu a solidão, a mesma dele,&lt;br /&gt;Desterrado de toda sociedade... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;16/12/2006&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Notas&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;*Prometeu, de quem somos a metade&lt;/strong&gt;- com este verso a poetisa alude ao fato de que Prometeu, que doou o fogo dos deuses aos homens, sendo um dos &lt;strong&gt;Titãs &lt;/strong&gt;rebelados contra &lt;strong&gt;Zeus&lt;/strong&gt; na batalha que se travou entre estes e os deuses do Olimpo &lt;strong&gt;(Titanomaquia&lt;/strong&gt;), os Titãs dilaceraram e devoraram Dioniso criança (a alma ) e tendo afinal sido vencidos, fulminados por Zeus suas cinzas foram lançadas à Terra. O homem teria pois uma dupla natureza: o corpo físico e a alma divino-dionisíaca, que é Dioniso encerrado no corpo titânico, que terá que cumprir dez ciclos (mil anos ) de reencarnações antes de recuperar as asas para escapar do "cárcere titânico" para voltar ao Empíreo, a morada dos deuses e das almas purificadas, segundo o &lt;strong&gt;Orfismo&lt;/strong&gt;, religião grega relacionada aos &lt;strong&gt;Mistérios de Elêusis&lt;/strong&gt;, surgida no século VII AC, e do qual &lt;strong&gt;Pitágoras &lt;/strong&gt;é o mais célebre adepto, e o grande &lt;strong&gt;Platão&lt;/strong&gt;, no sec IV AC, um reflexo tardio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;* Qual Frankenstein, somos filhos da Razão&lt;/strong&gt; - Interligando no soneto, Frankenstein a Prometeu, Alma alude ao subtítulo da grande obra de Mary Shelley, Frankenstein, ou o Moderno Prometeu, em que a esposa do poeta Percy Bische Shelley criou um genial mito moderno, o seu monstro do doutor Victor Frankenstein, trágica criatura, tomada pelo ressentimento da rejeição e pela solidão, e que a uma certa altura, perseguido em pleno Ártico exclama: "Há muito tempo abandonei toda humanidade!... ". Alma parece dizer com este soneto, que ela, como ele, carrega esta solidão de desterro de um monstro social: o Poeta. Não esqueçamos as profundas raízes no romantismo alemão que a Poetisa tinha, por sua herança genética e formação, que dotavam sua visão e poesia de uma subjacente tragicidade. Alma tinha uma demasiada presente consciência de solidão e de morte, que afinal a abismou...&lt;br /&gt;(Lucia Welt) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O cometa (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;757&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Meu olhar há muito afeito aos longes&lt;br /&gt;Me permitiu viver em outros planos,&lt;br /&gt;E também avessa como os monges&lt;br /&gt;Ao desalento, raiva e desenganos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Espero, sim, por muito tempo ainda,&lt;br /&gt;O amado, que se a vista não alcança,&lt;br /&gt;O vejo na lembrança que não finda&lt;br /&gt;Como não se acaba a sua andança&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pelo mundo, em busca de outro sonho&lt;br /&gt;De damas e de amores fictícios&lt;br /&gt;Dos quais, bem sei, sobrem resquícios&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando volte a mim como um cometa&lt;br /&gt;Porquanto permanência não prometa&lt;br /&gt;Aos meus abraços e olhar então risonho...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;04/06/2005 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A carta na meia (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;756&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;O amor veio a mim ainda guria...&lt;br /&gt;Não me refiro ao amor que todos têm,&lt;br /&gt;Mas à raiz primal de minha Poesia&lt;br /&gt;Embora fonte de escândalo e desdém.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por aquele que tanto me completa&lt;br /&gt;Eu teria de pagar um alto preço&lt;br /&gt;Como a Eva após nova dieta&lt;br /&gt;Que lhe custou mudança de endereço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estou a brincar com a minha dor...&lt;br /&gt;Agora pago eu minha ousadia:&lt;br /&gt;Adão se tornaria um jogador,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E por ele, de quem sou carta na meia,&lt;br /&gt;Desfio eu, qual Penélope tardia, &lt;br /&gt;Em minha alma mesma, a minha teia...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Amor entre os amores (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;755&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Viver em sintonia de beleza&lt;br /&gt;Foi para mim o naipe da Razão,&lt;br /&gt;Pra não tremer ao dar com a tristeza&lt;br /&gt;Se uma carta destoa em minha mão,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois Melancolia é minha amiga,&lt;br /&gt;E me dá cartas melhores e poemas, &lt;br /&gt;Me faz ver a minha alma tão antiga &lt;br /&gt;Neste pampa de peleia e fortes temas,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De outros tempos, de sagas e prodígios&lt;br /&gt;Que a rigor não caberiam na memória&lt;br /&gt;Da guria que sou com a pouca história &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De alegrias entre a espera e suas dores&lt;br /&gt;Recorrentes, monocórdicos rodízios,&lt;br /&gt;Para viver o Amor entre os amores...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nota&lt;br /&gt;* ...monocórdicos rodízios- Notem que com essa expressão Alma parece referir-se à sua obsessão por Rodo com um trocadilho: "rodízios", e a repetida espera por ele em suas temporadas de jogo (de pôquer ). Notem também que a palavra monocórdico quer dizer "uma só corda" (ou tom) mas também pode expressar "um só coração" (de cordis, lat. coração).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* Para viver Amor entre os amores- Alma se refere aos seus reencontros com o grande amor de sua vida, entre as temporadas do naipe de copas, os "amores" de Rodo.&lt;br /&gt;(Lucia Welt) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Final do Baile (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;754&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;De repente minha máscara caiu...&lt;br /&gt;Levantei-a, desloquei-a para a testa&lt;br /&gt;O baile desvelou-se e decaiu, &lt;br /&gt;Para mim é chegado o fim da festa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As doze badaladas já me soam,&lt;br /&gt;E minha máscara no topo da cabeça&lt;br /&gt;Mantém sorriso enquanto as horas voam,&lt;br /&gt;Para que a Moira ainda não desça...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bah! Como fui bela, quão dancei!&lt;br /&gt;Meu riso cristalino agora mudo&lt;br /&gt;Era um guiso que permeava tudo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E os que me mantêm são meros ecos&lt;br /&gt;Dentro de um teatrinho de bonecos&lt;br /&gt;Num Baile de Ilusões que comandei...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;16/01/2007&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nota&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Infelizmente a máscara no topo da cabeça e os ecos dos risos não lograram enganar mais tempo a terrível Moira. Dentro de quatro dias Alma estaria morta... (Lucia Welt)&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Confidência ao coração (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;753&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Há tempos não me sinto mais feliz,&lt;br /&gt;Os truques se acabaram de minh’alma,&lt;br /&gt;Sou mais uma perdida, dou a palma,&lt;br /&gt;E quase fui ao paraíso por um triz... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lancei mão da Arte e da Poesia, &lt;br /&gt;Amei como uma louca ao meu redor,&lt;br /&gt;Corri atrás do meu belo irmão menor,&lt;br /&gt;E nunca foi por mera estripulia...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não cultivei o ódio... tive mágoas, &lt;br /&gt;Mas só por não ser bem compreendida,&lt;br /&gt;Que não para rimar passadas águas...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas agora ao coração vou confessar: &lt;br /&gt;Que nunca eu soube bem o meu lugar, &lt;br /&gt;E tudo, tudo em mim foi despedida...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;10/01/2007 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Sombras (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;752&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Já estive aqui em outras Eras&lt;br /&gt;Neste Pampa de bravatas e de glória;&lt;br /&gt;Voltei como voltam primaveras&lt;br /&gt;Malgrado algumas sombras da memória,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De noite a pôr-me o sono perturbado&lt;br /&gt;Com os suspiros e o ranger do casarão,&lt;br /&gt;Bem mais que os concertos do meu prado&lt;br /&gt;Saudados pelos uivos do meu cão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todavia quem amou e foi amada&lt;br /&gt;Por um belo corsário de outros mares,&lt;br /&gt;Não teme mais as sombras e os azares...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só uma delas me confunde e desnorteia:&lt;br /&gt;Grande pedra por um laço arrematada &lt;br /&gt;De um fio que destoa em minha teia...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nota &lt;br /&gt;Acabo de descobrir este soneto inédito na Arca da Alma, e que é mais um, estarrecedor, das premonições da Alma sobre as circunstâncias de sua morte (vide a carta que escrevi e coloquei na época na página da poetisa naquele malfadado Recanto das Letras (por encontrar a senha salva) e que agora está há anos postada no blog Vida e Obra de Alma Welt:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;www.almawelt.blogspot.com &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(Lucia Welt) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Nichos e fronteiras (De Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;751&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Escrever para um leitor imaginário,&lt;br /&gt;Reverente, disponível, apaixonado,&lt;br /&gt;É a ilusão do poeta em seu contrário:&lt;br /&gt;O ser nele socialmente motivado...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois o campo do poeta é a solidão,&lt;br /&gt;Espaço de angústias indizíveis,&lt;br /&gt;De um vago vagar na vastidão&lt;br /&gt;Eivada de sombras e desníveis,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Espectros a se esgueirar furtivos &lt;br /&gt;Que fazem sinais pra que os sigamos&lt;br /&gt;Aos nichos profundos do que amamos,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E a uma outra fronteira perigosa &lt;br /&gt;Onde cessa sua poesia e sua prosa, &lt;br /&gt;Limite da razão e dos motivos...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;De corações e espadas (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;750&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Somente de ilusões amor prospera &lt;br /&gt;E se torna imenso, engalanado&lt;br /&gt;Como um rito de ânsias e de espera&lt;br /&gt;No porto sobre o rio, embandeirado&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para o retorno triunfal do amado&lt;br /&gt;Que entrará na foz de meus delírios&lt;br /&gt;Depois de tantos mares, tantos rios, &lt;br /&gt;Tantos reinos outros do seu fado...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bah! Mas é apenas minha varanda!&lt;br /&gt;Tenho por certo sonhos de grandeza&lt;br /&gt;Enquanto o coração louco desanda&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E voraz envia apelos e torpedos&lt;br /&gt;Para um guri na nave de brinquedos,&lt;br /&gt;De corações e espadas sobre a mesa...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nota&lt;br /&gt;Sempre a bela Alma a esperar por seu amado irmão Rodo, que anda longe, pelo mundo, nas mesas de pôquer (copas e espadas sobre a mesa). (Lucia Welt) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A visita da velha senhora (de Alma Welt&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;749&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;A vida é um renovado enigma&lt;br /&gt;Que muda a cada novo olhar,&lt;br /&gt;Embora conserve o seu estigma:&lt;br /&gt;A estrangeira, intrusa, a nos rondar,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Essa que tudo torna irrelevante&lt;br /&gt;A menos que tenhamos o desplante&lt;br /&gt;De afrontá-la com humor e ousadia&lt;br /&gt;E mirá-la com olhar que não desvia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas receber a tal Madame Bones&lt;br /&gt;Costuma resultar em dor e assombro&lt;br /&gt;Para todos, quer dormentes ou insones&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois a sua compleição tão descarnada&lt;br /&gt;E o objeto apoiado no seu ombro&lt;br /&gt;Faz da gringa uma visita indesejada... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Armadilha ( de Alma Welt)&lt;br /&gt;748&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Não sobreviverei à minha poesia&lt;br /&gt;Que veio duplicar minha existência,&lt;br /&gt;Ao renová-la assim, dia por dia&lt;br /&gt;Com a mesma magia e reverência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Privilégio? Sim. Ou não talvez.&lt;br /&gt;Começo a suspeitar de uma armadilha&lt;br /&gt;Armada pelos deuses da coxilha,&lt;br /&gt;Ingênua que fui, por minha vez, &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que esperando um lugar no panteon,&lt;br /&gt;Me votei ao verso e à solidão,&lt;br /&gt;E nunca aos vãos letreiros de neon.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E agora: angústia, ar rarefeito,&lt;br /&gt;Himalaia de alturas no meu peito,&lt;br /&gt;Nas imensas escaladas de ilusão...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;14/01/2007 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;De puro coração (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;747&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Como eu rodava em baile de galpão!&lt;br /&gt;Eu e Rodo, jovens, tão felizes,&lt;br /&gt;Às vezes cometendo alguns deslizes&lt;br /&gt;Que não devo na frente de peão:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um beijo daqueles, de querência&lt;br /&gt;Ou um ardente olhar testemunhado&lt;br /&gt;Por bombachas rivais, ali ao lado,&lt;br /&gt;Que nos estranhavam tanta ardência!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E no final uma peleia deslocada,&lt;br /&gt;Pretexto para compensar o espanto&lt;br /&gt;E o desejo pela prenda inalcançada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E eu, leve, muito solta e... leviana, &lt;br /&gt;A pensar que a vida era um encanto,&lt;br /&gt;Que puro coração jamais se engana...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;08/09/2005 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Revelando tudo (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;746&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Revelando tudo aos meus leitores&lt;br /&gt;Construo o meu mistério humano,&lt;br /&gt;Pois aquilo que se esconde não tem cores&lt;br /&gt;Pelo menos nesta vida ou neste plano&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como os gatos na noite, todos pardos,&lt;br /&gt;Que são furtivas sombras de delírios&lt;br /&gt;De mente mais afeita aos duros cardos,&lt;br /&gt;E à alvura avessa, como aos lírios...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não que eu rejeite névoas, meios-tons,&lt;br /&gt;E a sutil mensagem de entrelinhas&lt;br /&gt;Que é prerrogativa de alguns bons...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas se foste firme, com inteireza,&lt;br /&gt;Quem ousará cobrar mais do que tinhas&lt;br /&gt;Se desnuda ofereces tua beleza ?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;15/07/2006 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Fim de verão (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;745&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Como nos amávamos nas noites,&lt;br /&gt;Quando do jogo voltava o meu irmão! &lt;br /&gt;Mas dizia a Matilde: “Não te afoites,&lt;br /&gt;Que não dura nem todo o verão...”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Logo o verás fazer a mala,&lt;br /&gt;E roncar o motor em sua ânsia&lt;br /&gt;De queimar pneu por essa ala&lt;br /&gt;Que leva à porteira desta estância.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“E sei que chorarás, tendo abraçado&lt;br /&gt;Suas pernas, qual guria-carrapato,&lt;br /&gt;E, louca, arrancando-lhe o sapato."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Tanto agarramento até que parta,&lt;br /&gt;Que pra mim já parece desculpado&lt;br /&gt;De querer mais fichas e outra carta...”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Quando a névoa baixa (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;744&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Quando a névoa baixa na coxilha&lt;br /&gt;Como um mar brumoso de memória&lt;br /&gt;E ao longe emerge como ilha&lt;br /&gt;Uma fronde de umbu em sua glória,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meus passos perseguem uma trilha,&lt;br /&gt;Que sinto palpitar sob meus pés,&lt;br /&gt;De uma outra adotada como filha&lt;br /&gt;Deste Pampa de batalhas e revés,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aquela catarina de Laguna, &lt;br /&gt;Que vem ser marinheira de italiano &lt;br /&gt;Nestas ondas macias como duna,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Verde ventre de dois seres oriundos:&lt;br /&gt;Eu, exilada de um seio açoriano, &lt;br /&gt;Ela, heroína de dois mundos...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Notas &lt;br /&gt;&lt;strong&gt;*Verde Ventre&lt;/strong&gt;- o pampa ondulado ou uma engenhosa alusão à "barriga verde", como os gaúchos apelidam depreciativamente os irmãos "catarinas " (catarinenses).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;*seio açoriano&lt;/strong&gt; - Alma era filha de uma catarinense &lt;br /&gt;descendente de açorianos, e nasceu na estrada a caminho de Novo Hamburgo onde passou a primeira infância antes de ser transplantada (aos 8 anos) para o Pampa, na estância dos avós alemães que vindos também de Santa Catarina (vale do Itajaí) , plantaram um vinhedo pioneiro em pleno Pampa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;* heroína de dois mundos&lt;/strong&gt;- Giuseppe Garibaldi, tendo lutado na Itália, no Brasil e depois novamente na Itália, foi chamado "o herói de dois mundos". Anita Garibaldi, catarinense, depois gaúcha adotiva, depois da Guerra dos Farrapos foi com Giuseppe quando este voltou para a Itália e lá lutou ao seu lado pela liberdade, lá morrendo . Então Alma a chama também de "heroína de dois mundos". (Lucia Welt) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A batalha final (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;743&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Andei pelo mundo e apreendi&lt;br /&gt;A ver tudo e o todo na porção,&lt;br /&gt;Saber que já vi o que não vi&lt;br /&gt;E que tinha em mim minha lição.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cada homem traz a história inteira &lt;br /&gt;De sua casa embora sem saber&lt;br /&gt;Pois certamente não na cumeeira&lt;br /&gt;Mas nos alicerces do seu ser.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu pampa de alegria e de desdita! &lt;br /&gt;Aqui eu fui farrapo e vivandeira, &lt;br /&gt;Fui Giuseppe tanto quanto Anita&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E segui as secas naus pela coxilha&lt;br /&gt;Projetando a batalha verdadeira&lt;br /&gt;Que me espera ainda ao fim da trilha...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;28/09/2006 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Confissões de Náufraga (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;742&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;As tais confissões reveladoras&lt;br /&gt;Ocorrem-me ao calçar o meu sapato&lt;br /&gt;Ou mesmo atravessando meu regato&lt;br /&gt;Em busca de fontes mais canoras&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do ser, afastada da razão&lt;br /&gt;Que insiste em me comprometer&lt;br /&gt;Com o lado espúrio da questão,&lt;br /&gt;Que é um jeito só de me vender&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como poeta ou artista tarde ou cedo,&lt;br /&gt;E que é da esperança a cantilena&lt;br /&gt;De poder viver sem meu vinhedo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que afinal se tornou engano ledo&lt;br /&gt;Pois que esta mão afeita à pena&lt;br /&gt;O lançou, e ao lagar, contr’um rochedo.*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;15/01/2007&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nota&lt;br /&gt;* Neste terceto, Alma alude ao fato de que nossa estância com o vinhedo está em processo de falência e ela se culpa, pois sendo uma escritora ("... mão afeita à pena)fez naufragar a herança de nossos avós. Certamente ela exagera, pois caberia, creio, ao Rodo cuidar dos negócios, que ele como jogador de poquer negligenciou. Mas talvez nenhum de nós seja culpado... nada pudemos fazer, a decadência já vinha dos tempos do Vati (papai), ele também um artista, mais do que verdadeiro estancieiro... (Lucia Welt) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Sonho pampiano (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;741&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Sonhei tornar-me a Musa do meu Pampa&lt;br /&gt;Desbordando os limites desta estância&lt;br /&gt;E poder dizer sem jactância&lt;br /&gt;Que afinal me tornei a sua estampa&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nas paredes dos peões em suas querências,&lt;br /&gt;Ruiva a contrastar com o meu Negrinho&lt;br /&gt;Do Pastoreio em suas trilhas do caminho&lt;br /&gt;Ou ser uma entre as suas referências:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A estrela que os peões olham na noite,&lt;br /&gt;Entre tantas outras, mas brilhante,&lt;br /&gt;Buscando-me no sonho do pernoite&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na coxilha, mateando ao pé do fogo&lt;br /&gt;Ou nas brasas derradeiras do Levante,&lt;br /&gt;Para então ouvir da sela o novo rogo... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nota&lt;br /&gt;*Neste esplêndido terceto, há uma ambigüidade entre as brasas da fogueira que ferveu a água da chaleira do mate dos peões acampados na coxilha, e os vermelhos da alvorada, em que as selas dos cavalos pedem ("...rogo") para serem montadas novamente. (Lucia Welt)&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O ninho do pássaro de fogo (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;740&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;O vento acompanhou meu crescimento&lt;br /&gt;Desde que aqui fui transplantada &lt;br /&gt;Por sorte num perfeito e bom momento&lt;br /&gt;Para neste Pampa ser moldada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bá! Como uma potra agradecida&lt;br /&gt;A correr de imediato na coxilha, &lt;br /&gt;A abrir assim os braços para a vida, &lt;br /&gt;E a dar-me ao Minuano como filha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não posso, então, queixar-me, nunca pude,&lt;br /&gt;Apesar daquele mítico percalço&lt;br /&gt;A que refiro, comovida e amiúde,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois aqui fui arrancada como um ninho*&lt;br /&gt;Do pássaro de fogo que ainda alço&lt;br /&gt;E que persigo como um éden de carinho...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nota &lt;br /&gt;* Neste terceto a Poetisa usa uma deliciosa metáfora para se referir ao seu sexo, como "um ninho" que foi arrancado ao ardente pênis ("pássaro de fogo") que a ainda a deseja (se alça), de seu irmãozinho Rodo, quando do traumático flagrante produzido por nossa mãe (que arrancou-os com violência um ao outro) ao descobri-los nuzinhos debaixo da macieira do pomar, em sua inocente infância, episódio recorrente na poesia da Alma, e que tem um carácter alegórico universal evidente... (Lucia Welt)&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Paradoxo (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;739&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Que mais posso escrever? perguntaria,&lt;br /&gt;Se preciso fosse achar assunto...&lt;br /&gt;Mas aquilo que nascer precisaria&lt;br /&gt;Virá à luz sem aquilo que pergunto&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois tão imperioso é o poema&lt;br /&gt;Que tantas vezes temo o que virá,&lt;br /&gt;E o suspense que antecede o tema&lt;br /&gt;É prazer, sofrimento e... Deus dará.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aquilo que surgiu é verdadeiro&lt;br /&gt;Pelo fato de estar no mundo agora&lt;br /&gt;Como filho de alguém que foi embora,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E que é melhor nem saber o paradeiro.&lt;br /&gt;Mas qual a fonte mesma deste verso&lt;br /&gt;Que falhou em refletir meu universo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Eu estarei aqui depois de tudo &lt;br /&gt;(de Alma Welt&lt;/strong&gt;)&lt;br /&gt;738&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu estarei aqui depois de tudo&lt;br /&gt;Quando voltarem as flores no meu prado,&lt;br /&gt;A macieira a florir no pomar mudo&lt;br /&gt;E o casarão estiver todo arruinado,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Suas paredes recobertas pela hera&lt;br /&gt;E no salão a grande mesa abandonada&lt;br /&gt;Onde um dia quando bem guria eu era&lt;br /&gt;Fui belamente adormecida colocada &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pelo fiel Galdério, também ido&lt;br /&gt;Que com Matilde e seu dever cumprido&lt;br /&gt;Foram prestar contas à patroa&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nossa bela, triste e branca Ana&lt;br /&gt;Que afinal como rainha se coroa&lt;br /&gt;E que já não chamo mais... Açoriana!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;12/01/2007&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O espectro (de Alma Welt)&lt;/strong&gt; &lt;br /&gt;737&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em noites frias aqui no casarão&lt;br /&gt;Acontece do meu leito levantar&lt;br /&gt;E enrolada num pala ir ao salão&lt;br /&gt;Para sentir o silêncio crepitar&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na lareira, pois ali sou visitada&lt;br /&gt;Por um mundo de imagens agradáveis&lt;br /&gt;Que me trazem poemas inefáveis&lt;br /&gt;Ou alguma coisa inusitada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi ali que num lance inesquecível&lt;br /&gt;O espectro da Mutti afinal veio,&lt;br /&gt;Que fora tanto tempo inacessível,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E que porfim estendia-me os braços&lt;br /&gt;Dizendo:"Filha, faltaram-nos abraços,&lt;br /&gt;Quisera agora sentir-te no meu seio."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;16/01/2007&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nota da editora:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nossa mãe, Ana Morgado, que chamávamos Mutti, faleceu quando éramos adolescentes(Alma tinha 16 anos) tinha dificuldade de compreender o temperamento artístico da Alma, e havia muita dificuldade de relacionamento entre as duas, uma vez que Alma, apesar de aparentemente meiga era rebelde e tinha o respaldo do nosso pai, o Vati que tomara a sua educação em suas mãos e a criara como uma pequena pagã, em contato com a Arte e com os deuses do Olimpo e do Walhalla. Dir-se-ia que ele fazia uma espécie de experiência com sua filha predileta. Ele disse uma vez que faria da Alma não só uma artista, mas uma obra de arte. Alma teve muitos momentos penosos de conflito, incomprensão e intolerância por parte da Mutti, chegando mesmo a ser algumas vezes açoitada com vara de marmelo. Tudo isso transparece na série dos "Sonetos Pampianos da Alma".&lt;br /&gt;Alma se referia à nossa Mãe com uma espécie distanciamento mítico como "a Açoriana", devido às origens de nossos avós maternos e à rigidez católica da Mutti, que impedia uma maior compreensão entre a duas.&lt;br /&gt;Este soneto me comoveu, pois revelou uma reconciliação, de algum modo, entre elas. (Lucia Welt) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A cantadora (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;736&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Quantas vezes, depois de andar a esmo,&lt;br /&gt;Voltando ao casarão eu me comovo&lt;br /&gt;Ao me sentir assim, poeta mesmo,&lt;br /&gt;E ainda estar no seio do meu povo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E mesmo que isolada neste pago&lt;br /&gt;Saber-me em sintonia com o mundo&lt;br /&gt;Pela fonte de versos que propago&lt;br /&gt;Pela rede virtual, solo fecundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E se transcrita com carinho e devoção&lt;br /&gt;Vejo minha poesia qual mensagem,&lt;br /&gt;Angústia me dá trégua ao coração,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois sinto que visito um outro ninho&lt;br /&gt;Como estrela peregrina, de passagem,&lt;br /&gt;Qual se fora um cantador pelo caminho...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;07/08/2006&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nota&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*"rede virtual, solo fecundo"- Alma se refere à Internet, que ela descobriu em 2001 , graças ao Guilherme de Faria, em São Paulo, e de que ela lançou mão para divulgar sua poesia para o mundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*...E se transcrita com carinho e devoção- Alma quer dizer que lhe agrada muito descobrir seus poemas transcritos nos blogs alheios, o que alivia a angústia de seu isolamento real, por estar visitando o espaço ou "o ninho" de outros, tal como os cantadores andarilhos vão de aldeia em aldeia, de casa em casa, pelos caminhos do mundo.(Lucia Welt) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Alef (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt; 735&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E me vi num espaço de alforria&lt;br /&gt;Onde antes corria aquele vento&lt;br /&gt;Ou rio do meu próprio pensamento,&lt;br /&gt;Que há tempos a Morte perseguia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E eis que o Tempo cessa por encanto&lt;br /&gt;E me sinto de repente em plenitude&lt;br /&gt;No cenário da minha juventude,&lt;br /&gt;E dessa memória guardo o espanto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quão belo é o hiato que me acalma&lt;br /&gt;E faz ver o equilíbrio delicado &lt;br /&gt;A que o homem precisa dar a palma!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Essa zona de silêncio em meio ao prado&lt;br /&gt;É um Alef sublime, e tudo é uno:&lt;br /&gt;A alma e seu amor, o fogo e o fumo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*Alef- a primeira letra do alfabeto hebraico, equivalente ao Alfa grego, na sua acepção esotérica se refere a um lugar metafísico, onde tudo, todas as coisas do universo estão concentradas simultaneamente num lapso atemporal da mente. (Vide o célebre conto " O Alef", de Jorge Luis Borges) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A Moira (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;734&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Ser prudente, modesta, equilibrada,&lt;br /&gt;São coisas que nunca consegui;&lt;br /&gt;Aceitar a pequenez como jornada&lt;br /&gt;No mundo real em que me vi,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jamais pude acatar e me rebelo&lt;br /&gt;Somente por ser Alma e ignorar&lt;br /&gt;Tudo o que mesmo não for belo&lt;br /&gt;Ou que em beleza não possa transformar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu consolo é que pouco desta vida&lt;br /&gt;Não se pode em arte e graça revelar&lt;br /&gt;Em sua bela imagem refletida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só a Moira* me é ainda estranha&lt;br /&gt;Como uma estrangeira em nosso lar&lt;br /&gt;Que há muito se hospedou e não se banha...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* Moira - o arquétipo feminino da Morte, uma das personas de Ananque, a deusa da Necessidade ou do Destino, no Orfismo, doutrina reencarnacionista e religião de mistérios da antiga Grécia, nascida por volta do século VII AC e da qual Pitágoras é um expoente e Platão seu mais ilustre eco tardio. (Lucia Welt) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O Fardo (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;733&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Viver como se fosse eternamente,&lt;br /&gt;Quando se tem a consciência vigilante,&lt;br /&gt;E a morte a rondar, sempre presente,&lt;br /&gt;Eis o fardo que carrego tão constante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De tal contradição brotou a Alma&lt;br /&gt;Em permanente urgência de sentir,&lt;br /&gt;Enquanto os que me cercam vêm pedir&lt;br /&gt;Menos ardor, paixão... e muita calma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas o que pode uma moça como eu&lt;br /&gt;Nascida sob o signo da Arte &lt;br /&gt;A que meu próprio pai me prometeu?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Báh! Quisera descansar, mas só de mim, &lt;br /&gt;E não mais ter assim, em toda parte,&lt;br /&gt;O olhar que aceita tudo, exceto o fim... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Exausta (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;732&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Às vezes, de mim mesma fico exausta &lt;br /&gt;E sem forças nem mesmo pra deixar-me.&lt;br /&gt;Entretanto, garanto, não é charme &lt;br /&gt;De quem está acostumada à vida fausta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como se fosse o derradeiro cada dia,&lt;br /&gt;Sorvo avidamente o meu entorno&lt;br /&gt;E isso tem trazido algum transtorno&lt;br /&gt;Para quem me cerca e me avalia,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como a minha fidelíssima Matilde,&lt;br /&gt;Que da simplicidade é o protótipo,&lt;br /&gt;Tão sensata embora pouco humilde&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois bem que me queria ver mudada,&lt;br /&gt;Tranqüila e bem feliz no estereótipo&lt;br /&gt;De uma prenda deste Sul, apaziguada...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Da Poesia (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;731&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Interessar-me, sim, por quase tudo,&lt;br /&gt;Foi esse o meu segredo de Poesia,&lt;br /&gt;Mas também certo teor de fantasia&lt;br /&gt;E algo do que está oculto e mudo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A chave do soneto é a amarra&lt;br /&gt;Daquele impossível que se diga;&lt;br /&gt;Tanto o canto inútil da cigarra&lt;br /&gt;Quanto o trabalho da formiga.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não vem do sagrado nem do laico&lt;br /&gt;A verdadeira linguagem do real&lt;br /&gt;Mas daquilo que se forma no mosaico&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De coisas tão distantes do ideal: &lt;br /&gt;Não o gesto pleno, mas tremor...&lt;br /&gt;E do vento, o sul, o medo e a cor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Auto-retrato (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;730&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;As minhas andanças na coxilha,&lt;br /&gt;De meu pensamento são passeios &lt;br /&gt;E semeiam minha alma como silha &lt;br /&gt;Para frutificar por outros meios,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Poemas, sonetos e memórias&lt;br /&gt;Que eu nem sequer sabia ter retido&lt;br /&gt;De outras gerações e suas estórias,&lt;br /&gt;Num fluxo permanente e incontido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O corpo? Sim, também floresce...&lt;br /&gt;E estes prados viram meu amor&lt;br /&gt;E minha beleza enquanto cresce.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas a prenda tão cedo rebelada,&lt;br /&gt;E, diz Matilde, perdida em despudor,&lt;br /&gt;Não servirá pro homem e pra mais nada...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;17/08/2006 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O arco das paixões ( de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;729&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Tem dias que mal posso me conter&lt;br /&gt;E corro rasgando as minhas roupas&lt;br /&gt;Como aquelas histéricas ou loucas&lt;br /&gt;Que o doutor Freud julgava compreender.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O “arco histérico” também realizei,&lt;br /&gt;Um pouco talvez pela cultura&lt;br /&gt;Pois não sei onde acaba minha loucura &lt;br /&gt;E começa o que de mim me imaginei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas ver a prenda, bela filha do patrão,&lt;br /&gt;No campo, nua, a fazer acrobacias&lt;br /&gt;Foi de mais para o pobre de um peão&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que perdido também, ficou, de amores, &lt;br /&gt;Pois seu pequeno mundo sem malícias&lt;br /&gt;Corroeu-se em confusão, desejo e dores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Final do Verão (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;728&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Não verei por certo um novo Outono&lt;br /&gt;Ou então ele me foi antecipado,&lt;br /&gt;Pois que sinto chegar o abandono&lt;br /&gt;Algo triste como o ocaso do meu Fado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isto parece soar melodramático,&lt;br /&gt;Mas não posso deixar de constatá-lo.&lt;br /&gt;E então abandonando o tom enfático:&lt;br /&gt;Vejo a vida me escorrendo pelo ralo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E nem sequer doente mesma estou!&lt;br /&gt;Será justo? Existe uma razão &lt;br /&gt;Que a cigana depressa me ocultou?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rafisa, que em meus braços te deixaste,&lt;br /&gt;Perdeste assim o dom da previsão,&lt;br /&gt;Ou minhas cartas leste, e me enganaste...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;15/01/2007 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Chave (de Alma Welt)&lt;br /&gt;727&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Prenda igual às outras nunca fui,&lt;br /&gt;Pois a Arte foi minha prioridade&lt;br /&gt;Desde que, ao piano, em tenra idade,&lt;br /&gt;Ouvi meu pai num tema que evolui&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em seqüência ou num moto perpétuo,&lt;br /&gt;E vendo que aquilo era um inseto&lt;br /&gt;Besouro ou abelha, tal e qual&lt;br /&gt;Eu ouvia na coxilha ou no quintal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E pareceu-me a chave do viver&lt;br /&gt;Verter em melodia os sons da vida,&lt;br /&gt;Que a palavra também podia ter.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desde então eu persigo a tradução&lt;br /&gt;De tudo ao meu redor com a intenção&lt;br /&gt;De ver no mundo minha face refletida. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Os Hóspedes da Noite (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;726&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Meu casarão respira a gerações&lt;br /&gt;Que remontam a célebres guerreiros &lt;br /&gt;Que de noite ainda vêm, assombrações&lt;br /&gt;De generais e seus mil negros lanceiros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bento e Netto, os hóspedes de fama &lt;br /&gt;Sempre vinham planejar e matear,&lt;br /&gt;Enquanto as mulheres... na azáfama,&lt;br /&gt;Falsa rima pro servir e sussurrar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pé ante pé, de noite, se esgueiravam&lt;br /&gt;Por corredores, e nas cerradas portas&lt;br /&gt;Colavam seus ouvidos e auscultavam,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Corações em farrapos que sangravam&lt;br /&gt;Pelos dias de agonia e horas mortas&lt;br /&gt;Por aqueles que a guerra tanto amavam...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Confirmação (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;725&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Serei eu a imagem nesse espéculo&lt;br /&gt;De minha criação inusitada?&lt;br /&gt;Aquela que nos versos foi formada&lt;br /&gt;Durará de mim por mais um século?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A imagem no poema assim gerada&lt;br /&gt;É minha, ou de minha alma o Golem?&lt;br /&gt;Imagem disforme ou alterada &lt;br /&gt;Pra melhor, como flores para o pólen, &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Feitas pra atrair os inocentes&lt;br /&gt;Que perseguem mitos nas nascentes&lt;br /&gt;Com seu acentuado tom ambíguo? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então, me releio e me apaziguo:&lt;br /&gt;Sou eu, sou eu, não me falseio!&lt;br /&gt;Como sangue a jorrar-me de meu seio... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;14/01/2007 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A Escriba (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;724&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Escriba de minha própria história&lt;br /&gt;Em processo, construída dia a dia&lt;br /&gt;Junto com lampejos de memória&lt;br /&gt;Que compõem minha saga na Poesia,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É privilégio, é dom e é missão,&lt;br /&gt;Apesar de uma ou outra derrisão,&lt;br /&gt;Alguns risos e abanos de cabeça&lt;br /&gt;Daqueles que preferem que não cresça&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E ainda muito menos que renasça&lt;br /&gt;Aquela que morreu na flor da idade&lt;br /&gt;Tendo sonetos produzido à saciedade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E se quando for aberta a minha Arca&lt;br /&gt;Houver ainda quem algum esforço faça, &lt;br /&gt;Que fique um verso só... com minha marca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A Confraria da Ilusão (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;723&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Ceder a uma lógica da Vida, &lt;br /&gt;Ao senso comum e à Razão,&lt;br /&gt;Não parecia ser a única opção&lt;br /&gt;À argúcia em mim, enaltecida&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pelo entusiasmo de meu pai,&lt;br /&gt;Ele próprio paradoxo escolhido,&lt;br /&gt;Músico e médico escondido,*&lt;br /&gt;Duplo, sem conflitos, sem um ai.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seria então mulher amante e musa,&lt;br /&gt;E a poeta cujo olhar desvendaria&lt;br /&gt;O inaudito e o comum na forma lusa&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do soneto, a Confraria da Ilusão,*&lt;br /&gt;Dos solitários dos cafés de padaria &lt;br /&gt;Que sonham mundos, sentados no balcão...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(se data)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Notas &lt;br /&gt;*Músico e médico escondido - Notem que este curioso verso parece inverter o sentido do lado escondido (Hide) do médico Dr. Jekil, da alegórica obra-prima de Robert Louis Stevenson. No verso da Alma, o médico é que é o lado oculto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*Confraria da Ilusão - Referir-se aos praticantes do soneto como uma "confraria" já ocorrera na obra da Alma de forma satírica no conto "A Confraria dos Poetas do Soneto Triste", do livro publicado em 2004, Contos da Alma, de Alma Welt&lt;br /&gt;(Lucia Welt)&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Um Royal Straight Flush da Alma (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;722&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que seguro estás, ó meu irmão,&lt;br /&gt;Do jogo de amor que te dedico!&lt;br /&gt;Teu pôquer é teu mundo de ilusão,&lt;br /&gt;Que nela, desde sempre, eu mesma fico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Parceiros de um jogo diferente&lt;br /&gt;Tu corres o mundo em disparada&lt;br /&gt;Eu, parada, o corro em minha mente &lt;br /&gt;A sonhar contigo outra cartada&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em que nus, despojados, sem cacife,&lt;br /&gt;Não haja blefe mas o coração em fogo&lt;br /&gt;Como aquela vez em Tenerife&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em que dormiste sobre mim como guri &lt;br /&gt;Enquanto no hotel corria o jogo&lt;br /&gt;E um Royal Straight Flush só eu vi... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;14/07/2006 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Perto do coração da Vida (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;721&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;No soneto de estro inesgotável&lt;br /&gt;Persigo o próprio coração da vida.&lt;br /&gt;E ele me há de revelar a impalpável &lt;br /&gt;E real face do ser, quase perdida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O significado da existência, &lt;br /&gt;Estou persuadida: está oculto,&lt;br /&gt;Desafiando o homem e sua ciência,&lt;br /&gt;E alheio a toda fé e todo culto,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A um palmo, um dedo, um quase nada,&lt;br /&gt;Misturado nos afetos e no laço&lt;br /&gt;Que une um ser ao outro na jornada,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No garimpo do poema, na bateia,&lt;br /&gt;Numa pedra, talvez de brilho baço, &lt;br /&gt;A Verdade... sem aplauso e sem platéia. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Perfil da Alma (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;720&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Oriunda de dois mundos, peregrina&lt;br /&gt;A buscar a Beleza em toda parte &lt;br /&gt;Aqui, onde o vento dobra a esquina&lt;br /&gt;E a vida se confunde com a Arte&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E não há mais fronteiras entre as duas,&lt;br /&gt;Que mal as temos com pagos de Castela&lt;br /&gt;Onde Adão foi procurar sua costela&lt;br /&gt;E meteu-se com a saga dos charruas;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este é o meu reino louco, da Poesia,&lt;br /&gt;Semeada nas silhas da coxilha&lt;br /&gt;Pelos nossos ancestrais em rebeldia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E misturo num enorme caldeirão &lt;br /&gt;Meus tempos e a Idade Farroupilha&lt;br /&gt;E o proibido amor de meu irmão...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;18/08/2006 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Auto definição (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;719&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Não sendo afinal tão transparente,&lt;br /&gt;Por puro gosto do mistério e do oculto,&lt;br /&gt;Nichos secretos guardei na minha mente&lt;br /&gt;E sempre acompanhada por um vulto,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não que seja o Mal ou coisa assim,&lt;br /&gt;Nem mesmo eu diria ser a “sombra”&lt;br /&gt;Porquanto sua presença não me assombra&lt;br /&gt;Embora não também um serafim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas a musa Erato, mais que ninfa,&lt;br /&gt;Ou a bela Psiqué... então princesa,&lt;br /&gt;Que é do meu pomar a própria linfa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma forma-pensamento da Beleza,&lt;br /&gt;O verso conclusivo e mais profundo,&lt;br /&gt;Minha Anima, Welt, que é o Mundo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A Teiniaguá (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;718&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Quando à noite meus cães fazem a ronda&lt;br /&gt;E contra a lua principiam a uivar&lt;br /&gt;Como o lobo que vem como uma onda&lt;br /&gt;Dentro deles, que não mais podem calar,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu saio como um solitário espectro&lt;br /&gt;Vindo do fundo de forças obscuras&lt;br /&gt;Ou como uma rainha com seu cetro&lt;br /&gt;Na mascarada do reino das loucuras. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E dirá mais de um peão ao me avistar&lt;br /&gt;Que a Teiniaguá desceu do Cerro&lt;br /&gt;Enquanto estavam na coxilha a matear,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nua, branca, alheia, em despudor&lt;br /&gt;"Corriendo en la pradera como un perro"&lt;br /&gt;A evocar perdidos pactos de amor…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(Sem data)&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A macieira não floriu (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;717&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;“A macieira não floriu na primavera,&lt;br /&gt;Como a dizer pra encerrar meu canto...”&lt;br /&gt;“Como pode ser tão frágil um ser sagaz?”&lt;br /&gt;Diz meu irmão Rodo com espanto;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Aqui mesmo entrarás em novas eras&lt;br /&gt;E esta árvore te verá como uma bisa,&lt;br /&gt;Ou então como a velha poetisa&lt;br /&gt;Consagrada e ilustre, como esperas.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas olhando-me nos olhos se calou &lt;br /&gt;Pois viu algo que não queria ver, &lt;br /&gt;O que a mim mesma me alarmou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E corri para o espelho a perscrutar&lt;br /&gt;A sombra que ele não queria achar,&lt;br /&gt;Ele que blefa suas cartas sem tremer...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;12/01/2007 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Meu Cavalo, Eu e o Lobo (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;716&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Um cavalo tenho, que é um amigo&lt;br /&gt;E sabe como vai meu coração,&lt;br /&gt;Encosta o seu focinho em meu umbigo,&lt;br /&gt;No seio a testa pra sentir a pulsação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E ele me comove, como agora...&lt;br /&gt;Mais do que eu mesma posso ver&lt;br /&gt;Ele parece sentir que vou embora,&lt;br /&gt;Como os animais podem prever&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tempestade, morte ou uma fera, &lt;br /&gt;Ou tal como a Mutti anunciava,&lt;br /&gt;O lobo que existe e que me espera.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E então eu o consolo, cabe a mim,&lt;br /&gt;Pois que com o lobo eu já contava&lt;br /&gt;Desde que guria eu era, bem assim...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;08/01/2007 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O Mirante (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;715 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desde logo soube que era a Pampa&lt;br /&gt;A mãe-terra, e que eu era a sua filha,&lt;br /&gt;E escolhi o local da minha campa&lt;br /&gt;Num alteado ponto da coxilha&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De onde avisto o meu destino&lt;br /&gt;Que é aquela linha do horizonte&lt;br /&gt;Para onde em sonhos peregrino&lt;br /&gt;Para ver aonde o sol se esconde.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Bá! És a maior das delirantes”&lt;br /&gt;Dirão os homens da Razão,&lt;br /&gt;Aqueles que projetam os mirantes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas eu vivo aqui e noutro mundo&lt;br /&gt;Onde Anita e o italiano já estão&lt;br /&gt;E de onde o próprio sonho é oriundo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O Eterno Retorno (V) (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;714&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Eu sei que voltarei como poeta,&lt;br /&gt;E se abandonada na coxilha&lt;br /&gt;Vagarei novamente, mas com meta, &lt;br /&gt;Rumo à minha casa, porto e ilha&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No mar ondulado verde e terno &lt;br /&gt;Que me acolheu mais de uma vez&lt;br /&gt;No mesmo casarão vetusto, eterno,&lt;br /&gt;Com Anita a me contar que voto fez &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para seguir o italiano que a perdeu&lt;br /&gt;De amores e de juras de futuro&lt;br /&gt;E a coragem assim soprada lhe valeu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E de novo, viverei com as memórias&lt;br /&gt;Deles a cercar-me como um muro,&lt;br /&gt;De sonhos, de farrapos e de glórias...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A Noite e Eu (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;713&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Minha fonte tem dois mananciais&lt;br /&gt;Que são os dois lados do meu estro,&lt;br /&gt;Pois sou herdeira de meus pais,&lt;br /&gt;Começando pelo ouvido do maestro,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu Vati, pianista e homem culto;&lt;br /&gt;De minha mãe, rouxinol açoriano,&lt;br /&gt;Vem meu registro de mezzo-soprano,&lt;br /&gt;A pele muito branca, o porte e o vulto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas se algo reparto com meu mano&lt;br /&gt;É o gosto do jogo: em mim, do amor,&lt;br /&gt;Ele, de um pôquer sobre-humano,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois joga sua vida em mil cartadas&lt;br /&gt;Enquanto o aguardamos, já sem dor, &lt;br /&gt;A alta noite e eu... ambas caladas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;07/08/2005 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;O segredo dos meus versos (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;712&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Quando lanço um soneto no papel&lt;br /&gt;Nunca sei o que virá, eis o segredo&lt;br /&gt;E também a razão de tanto enredo&lt;br /&gt;E tanto o que dizer, como um tropel,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma manada sem fim de pensamentos,&lt;br /&gt;A brotar de um só manancial,&lt;br /&gt;Como da coxilha os nobres ventos&lt;br /&gt;Sob o comando do frio vento austral:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Minuano, rio grande, rei patrono,&lt;br /&gt;Que me permite ser poeta e ter amores &lt;br /&gt;Desde que me curve ante seu trono. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E a razão de tanto tema, velho ou novo, &lt;br /&gt;Perdoem-me ou não os meus leitores,&lt;br /&gt;É que almejo ser um rio pro meu povo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;O olhar do Poeta ( de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;711&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Tudo merece verso, nada escapa&lt;br /&gt;Ao abraço amplo da Poesia&lt;br /&gt;Que é tão somente a antiga capa&lt;br /&gt;Que as coisas e os seres envolvia &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No tempo das brumas e mistérios,&lt;br /&gt;Quando envolto em névoas de magia&lt;br /&gt;Vagava o ser por entre eremitérios &lt;br /&gt;Buscando o que o Graal esconderia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Cálice, agora já o sabemos,&lt;br /&gt;Está entre nós em quase tudo&lt;br /&gt;Que o olhar desvela quando vemos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas ver ainda é segredo do Poeta,&lt;br /&gt;Pois que o vulgo tem o olhar mudo,&lt;br /&gt;Sem o Todo e o Sacro como meta...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;12/08/2005&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O mausoléu (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;710&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Vai, constrói teu mausoléu de versos,&lt;br /&gt;Diz Rodo, meu irmão, quase em sarcasmo.&lt;br /&gt;Mas não irá diminuir meu entusiasmo&lt;br /&gt;Saber que virão tempos adversos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em que descerão das prateleiras &lt;br /&gt;E baixarão ao limbo dos poetas&lt;br /&gt;Pra ressurgir mais tarde nas fileiras&lt;br /&gt;Dos que tardos alcançaram suas metas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois que aberta a alma e o coração &lt;br /&gt;Sem discriminar, e sem eleitos,&lt;br /&gt;A todos o que quiseram uma porção,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esta Alma que da vida fez um hino, &lt;br /&gt;Malgrado alguns versos imperfeitos&lt;br /&gt;Nada tem a deplorar do seu destino.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;14/07/2006 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;O que é a Alma (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;709&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Ter um olhar claro sobre o mundo&lt;br /&gt;Foi sempre o meu maior escopo.&lt;br /&gt;Verde nos meus olhos, claro e fundo...&lt;br /&gt;Quanto a julgamento: nem um pouco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Buscando restaurar os tons primevos,&lt;br /&gt;Em meio à uma bruma retornada&lt;br /&gt;De tempos difíceis, medievos,&lt;br /&gt;Entre trevas e a aurora anunciada...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não mais me diz respeito a ninharia,&lt;br /&gt;As falhas do meu tempo, a ignorância.&lt;br /&gt;Viver como se o mundo a compreendia&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eis mesmo o que de si foi esperado&lt;br /&gt;Por aquela que não conheceu ganância&lt;br /&gt;E aguarda da Beleza o seu primado...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Druida (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;708&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Herdeira dos Bardos de outra era,&lt;br /&gt;Não vim a este pampa visitar,&lt;br /&gt;Mas reviver meu sonho e a quimera &lt;br /&gt;De construir no verso o meu lugar&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No mundo, na tessitura e forma&lt;br /&gt;De um plano mais poético e real, &lt;br /&gt;Pois meu coração só se conforma&lt;br /&gt;Com a beleza, o trágico e o fatal. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não vi pra conversar e perder tempo&lt;br /&gt;Em ninharias que as mulheres amam,&lt;br /&gt;Nem só pra lançar meu nome ao vento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas replantar a árvore de outrora&lt;br /&gt;Rica em frutos e ramos que secretam&lt;br /&gt;O visgo que o Amor ainda elabora...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Aos pósteros (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;707&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;O que amei, além de mim perdura &lt;br /&gt;E vibra em freqüência inaudível,&lt;br /&gt;Mas passível de nova captura&lt;br /&gt;Aos pósteros, no âmbito sensível:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Aqui viveu a poetisa meio louca &lt;br /&gt;Aquela que a si mesma cantou,&lt;br /&gt;E assombrada a casa mais ficou&lt;br /&gt;Qual se a antiga saga fosse pouca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora os farrapos se confundem &lt;br /&gt;Com as brancas vestes da poeta,&lt;br /&gt;Que com os lírios mais se fundem...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eis a sua Arca: e está vazia.&lt;br /&gt;Dizem os anais que era repleta&lt;br /&gt;De bela obra, romântica, tardia...”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;08/01/2007&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Outros heróis (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;706&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Desde bem guria tenho o hábito&lt;br /&gt;De observar e avaliar a rebelião&lt;br /&gt;Ou, por outro lado, o acordo tácito&lt;br /&gt;Que o homem mantém com a solidão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vê: mais pungente é a que divises&lt;br /&gt;Na aura dos mendigos das estradas,&lt;br /&gt;Debaixo das pontes e marquises&lt;br /&gt;Ou jogados nas ruas, nas calçadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois tal isolamento inenarrável&lt;br /&gt;É o assumido e imponderável&lt;br /&gt;Da humana condição após o parto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E suspeito que os mendigos são heróis&lt;br /&gt;Da solidão, que poeta, mal reparto,&lt;br /&gt;Enquanto ardem e a exibem nos faróis...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Que o homem não separe (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;705&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Deitemos meu irmão, aqui na relva, &lt;br /&gt;Que foi o leito original de Adão e Eva &lt;br /&gt;E de onde partiram para a selva&lt;br /&gt;Que o Horto se tornou, lenda primeva.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas finquemos pé, não mais saiamos&lt;br /&gt;Pelo mundo atrás da imagem, aquela,&lt;br /&gt;Que conosco mesmo carregamos,&lt;br /&gt;Pois Adão não perdeu a sua costela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E repare: a punição foi bem sutil&lt;br /&gt;Já que o par continua interligado&lt;br /&gt;E Deus não separou o que uniu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Poderia, sim, ter sido bem pior, &lt;br /&gt;Pois de dentro de mim foste arrancado&lt;br /&gt;Por quem usurpou poder maior...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Caso (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;704&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Todo esforço é inútil sem amar.&lt;br /&gt;Amor move tudo e torna claro &lt;br /&gt;O ter, fazer, o ser e o desejar,&lt;br /&gt;E o êxito sem ele é nulo ou raro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dito isso passo a lhes contar&lt;br /&gt;O caso de um vizinho estancieiro&lt;br /&gt;Que ocultava o ouro no celeiro&lt;br /&gt;De uma vida inteira de poupar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E a mulher que com ele conviveu&lt;br /&gt;Não soube o que o marido amealhou &lt;br /&gt;Nem mesmo depois que ele morreu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então, seu empregado de coxia&lt;br /&gt;Num leilão a propriedade arrematou,&lt;br /&gt;Pois na palha fornicava e se escondia...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;Au Café, Rimbaud et moi (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;703&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Quando em Paris, eu sentava num Café&lt;br /&gt;A escrever os meus sonetos todo dia,&lt;br /&gt;Até que o chef, como ele se dizia,&lt;br /&gt;Veio a mim, pra meu espanto até,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E com raro sorriso à la crème:&lt;br /&gt;“Mademoiselle, on aperçoit que tu est poète,&lt;br /&gt;Et tu as s'asseiée a la table même &lt;br /&gt;Où Rimbaud, plume a la main, courbait la tète.” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E eu, grata, devagar a mão passei &lt;br /&gt;Sobre a madeira escura e imaginei:&lt;br /&gt;Aqui l’enfant prodige fez um ninho...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois o andarilho e mau caminho,&lt;br /&gt;Sem mesmo ter perdido um pé sequer,&lt;br /&gt;Estava ali, “un pied près de mon coeur...”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Notas&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;* l’enfant prodige&lt;/strong&gt;- "criança prodígio", Rimbaud escrevia magistralmente desde os 14 anos, e fugiu de casa, a pé, aos 17, para encontrar Verlaine em Paris. A expressão parece também evocar "l'enfant prodigue" o filho pródigo que ele era, pois só voltou para casa para morrer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;andarilho e mau caminho&lt;/strong&gt;- Rimbaud era um andarilho contumaz e cruzou parte da Europa várias vezes à pé. O "mau caminho" que Alma lhe atribui deve ser equivalente a "pedaço de mau caminho", alusão ao fato de que Rimbaud era um rapaz lindo, e também considerado um transviado de sua época.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;*sem mesmo ter perdido um pé sequer&lt;/strong&gt;- Alma quis dizer que o espirito de Rimbaud estava intacto ali naquela mesa, sem apresentar a mutilação de uma perna com que morreu em Marseille num hospital, vindo da África com terrível gangrena.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;“un pied près de mon coeur...”&lt;/strong&gt;Verso final do célebre soneto "Ma Bohème" de Rimbaud, que sugere o curvar-se, o peito contra o joelho, para reamarrar o cadarço ("tirer les élastiques") da botina de andarilho. Mas o interessante é que a citação do verso no contexto do soneto da Alma parece dizer que aquela perna ferida ou ausente, está encostada no coração dela, Alma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(Lucia Welt) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A protagonista (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;702&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Se me sinto num palco na coxilha,&lt;br /&gt;É que minha alma aqui se integra&lt;br /&gt;Ao cenário de que sou atriz e filha,&lt;br /&gt;Em que vou de diva a contra-regra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E me sinto fazer parte de um drama&lt;br /&gt;Que nasceu bem antes de eu pivete,&lt;br /&gt;De um autor que me tem na sua trama&lt;br /&gt;De cordéis, quero dizer... marionete.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sim, é Ele, o Divino Dramaturgo,&lt;br /&gt;E manipula a mim ao seu compasso,&lt;br /&gt;E a todos deste pampa e de seu burgo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A cujos figurantes cabe a ação&lt;br /&gt;De apontar-me na rua se ali passo,&lt;br /&gt;Como a outra, à fogueira, em Ruão...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Convite às vésperas da Páscoa (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;701&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Vamos juntos à campa do Maestro, &lt;br /&gt;Rodo, meu irmão, hoje não escapas.&lt;br /&gt;Sei que houve diferenças e até tapas&lt;br /&gt;No afeto de vocês, duro e canhestro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas ele te amava como a mim,&lt;br /&gt;E no fundo se orgulhava da magia&lt;br /&gt;Com que levas esse teu jogo sem fim&lt;br /&gt;Que provaste ter sua própria melodia...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vê, aqui podes trair-te pelo olhar,&lt;br /&gt;Que o blefe não vigora neste sítio&lt;br /&gt;Onde as aves e os ventos vem pousar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E se ao me abaixar para pôr flores&lt;br /&gt;Disfarçares na face um brilho vítreo,&lt;br /&gt;Blefarás ante o maior dos jogadores...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O Ser e a Morte (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;700&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Morte sempre envia seus sinais,&lt;br /&gt;Mas o faz em código sutil,&lt;br /&gt;Nem sempre com os signos fatais&lt;br /&gt;Mas como um vocábulo entre mil&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mensagens que o dia nos transmite&lt;br /&gt;E nos tiram da possível sintonia &lt;br /&gt;Com aquele pavio de dinamite&lt;br /&gt;Que, visto, faz da vida uma agonia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não podemos pensar, este é o jogo&lt;br /&gt;Proposto ao Homem racional,&lt;br /&gt;Propenso a questionar o seu malogro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois se a pedra dura, e o diamante,&lt;br /&gt;Por quê é o Ser, assim, alvo do Mal,&lt;br /&gt;Que torna todo esforço irrelevante?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;09/07/02006 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Meu Negrinho (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;699&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Quando guria no bosque me perdi,&lt;br /&gt;Estava a colher flores e amoras, &lt;br /&gt;E ouvir ao longe a voz da Mutti&lt;br /&gt;Chamando pra o almoço foram horas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De angústia pelo medo do carão,&lt;br /&gt;Pois esse era talvez o nosso vínculo,&lt;br /&gt;O da mágoa, receio e incompreensão,&lt;br /&gt;Que mais me fazia andar em círculo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas então chamei o meu Negrinho&lt;br /&gt;Que pastoreava sempre ao léu&lt;br /&gt;E assim nem precisava estar no céu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E juro, meu leitor que então sorriste&lt;br /&gt;Deste soneto pueril ou comezinho:&lt;br /&gt;Ele veio... e era belo, negro e triste. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O último fandango (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;698&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Não me verás jamais dizer assim&lt;br /&gt;Que tudo vai ficar bem ou melhor,&lt;br /&gt;Pois todos caminhamos pro pior&lt;br /&gt;Que é a queda, a morte e o fim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas vivamos e dancemos loucamente&lt;br /&gt;Enquanto não bata a meia-noite&lt;br /&gt;E a aldrava repouse no batente&lt;br /&gt;E o fluir do rio não se afoite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Amemos e brindemos, companheiro!&lt;br /&gt;Coroemo-nos com folhas do mate&lt;br /&gt;Como os antigos na festas de celeiro...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E se há um deus do Pampa a nos olhar,&lt;br /&gt;Seja a vida uma chula ou bom combate&lt;br /&gt;Ao longo de uma lança, sem relar... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;31/12/2006 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Quando a primavera retornar (de Alma Welt)&lt;br /&gt; ou Proezas do Rodo&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;697&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando a primavera retornar, &lt;br /&gt;Quero colher flores nas coxilhas,&lt;br /&gt;Como outrora, Rodo, a conversar&lt;br /&gt;Ou só a admirar as maravilhas,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que é mais aprazível e eficaz,&lt;br /&gt;Pois que me causou grande aflição&lt;br /&gt;Tua obscura proeza como ás&lt;br /&gt;Do pôquer, na última estação,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando entre banqueiros te sentaste&lt;br /&gt;Jogando “tua” estância alardeada&lt;br /&gt;E ganhaste um milhão numa cartada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não sei se te bato ou se te abraço,&lt;br /&gt;Ao me dares, não de flores, este maço,&lt;br /&gt;Se minha vida em tuas mãos tomaste...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Recordações (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;696&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Me lembro que durante minha infância,&lt;br /&gt;Quando a chuva caía torrencial&lt;br /&gt;Com aqueles raios sobre a estância,&lt;br /&gt;Eu via aquilo como algo pessoal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os estalos então eram açoites,&lt;br /&gt;E a trovoada uma grande gritaria&lt;br /&gt;Para me punir dentro das noites,&lt;br /&gt;Que nelas me ocultar não poderia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, báh! debaixo do lençol&lt;br /&gt;Ou da minha manta pampiana,&lt;br /&gt;Eu estava segura como ao sol,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E mais, porque o Rodo aproveitava&lt;br /&gt;Para entrar também nessa cabana&lt;br /&gt;E era o sol que comigo se deitava...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;28/04/2005&lt;br /&gt; &lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O espectro (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;695&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Diante da casa detive meu cavalo&lt;br /&gt;E notei que continha não memórias,&lt;br /&gt;Mas ninharias que não foram pelo ralo&lt;br /&gt;Do tempo a escorrer as suas horas...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dei rédeas ao meu pingo e retornei&lt;br /&gt;Pois prefiro os espectros com que privo&lt;br /&gt;Ainda que um pareça um morto vivo,&lt;br /&gt;O Valentim, cuja saga já contei...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois bem: no seu pescoço ainda deixa&lt;br /&gt;Um resto da corda que o sustenta &lt;br /&gt;Para a toda a eternidade dos perdidos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas posso conviver com sua queixa&lt;br /&gt;Enquanto o coração ainda agüenta&lt;br /&gt;Os lamentos, o pranto e os gemidos...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;17/04/2005 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O Ogro (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;694&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;A cada dia descubro nova face&lt;br /&gt;Do meu próprio enigma na vida,&lt;br /&gt;Mas se a alma gosta de disfarce&lt;br /&gt;A inteireza está comprometida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não sou uma, sou muitas, isso dói,&lt;br /&gt;Embora faça viver intensamente.&lt;br /&gt;Viver somente a vida como soe&lt;br /&gt;Já não pode acalmar a minha mente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então amo, escrevo e vivo em dobro&lt;br /&gt;Nos cenários desta e de outras vidas,&lt;br /&gt;Sempre a fugir do Grande Ogro,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um cavaleiro negro e embuçado&lt;br /&gt;Que perpetra no escuro as investidas,&lt;br /&gt;Pois nunca mostra a face o nosso Fado...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Minha riqueza (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;693&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Contar a riqueza da minha vida&lt;br /&gt;É que a faz pra mim assim tão rica, &lt;br /&gt;Mas não como o avaro classifica, &lt;br /&gt;E conta e reconta, única lida,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As notas... que se ambos deixam rastro, &lt;br /&gt;As minhas em si mesmas perpetuam&lt;br /&gt;Os lances de uma vida e fazem lastro,&lt;br /&gt;E não como aquelas que flutuam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se o personagem, apontado ser, queria:&lt;br /&gt;“Lá vai Ivolguin, o usurário!” * &lt;br /&gt;Eu quero que me apontem ao contrário: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Aquela prenda, “tu viu” como ela ia?&lt;br /&gt;Parece ter feito algo importante,&lt;br /&gt;Não o sei, mas o vi em seu semblante.” *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;12/08/2006&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nota&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;*“Lá vai Ivolguin, o usurário!” &lt;/strong&gt;- Episódio do romance O idiota, de Dostoiévsky, em que o personagem Gânia (Ivolguin), revela ao príncipe Michkin (o "Idiota") o que pretende fazer com o dinheiro que ia ganhar (de maneira desonrosa, para grande escândalo e desgosto de sua família), isto é: nunca gastá-lo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;*... Parece ter feito algo importante...&lt;/strong&gt; - Paráfrase de uma frase atribuida a um italiano desconhecido, ao se defrontar com o filósofo Schopenhauer sem saber quem ele era: "Signore, lei deve avere fatto qualche grande opera: non so cosa sia, ma lo vedo al suo viso."&lt;br /&gt;(Lucia Welt) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A Verdade ( soneto humorístico de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;692&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;A nós não nos é dado conhecer&lt;br /&gt;A face verdadeira da Verdade,&lt;br /&gt;Como também é difícil perceber&lt;br /&gt;O contraste entre ela e a Falsidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas o que é a Verdade? perguntou&lt;br /&gt;Ao Cristo aprisionado o tal Pilatos,&lt;br /&gt;Que depois em sangue as mãos lavou&lt;br /&gt;Pois nada estava claro, nem os fatos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Havia algum sentido de vingança?&lt;br /&gt;O pobre contra o rico e seu camelo&lt;br /&gt;Que passou no buraco, sem rompê-lo,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Da agulha, para então entrar no Céu&lt;br /&gt;Sem o seu dono e sua enorme pança?&lt;br /&gt;Bá! Estou confusa mesmo... pra dedéu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O plano da Vida (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;691&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Qualquer coisa vista em minha vida,&lt;br /&gt;Incluindo a que existe só na mente,&lt;br /&gt;Será no meu poema revivida&lt;br /&gt;Para eu ser em mim mais claramente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que presunção! És louca, hás de convir...&lt;br /&gt;Dirão aqueles que lançados na corrente&lt;br /&gt;Crêem que basta estar para existir,&lt;br /&gt;E que a vida a si mesma se contente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, vê: todos lançam sua semente&lt;br /&gt;Porque uma vida é pouco e nos desmente,&lt;br /&gt;Sejamos animal ou simples planta,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se após tanto penar e tanta lida&lt;br /&gt;Seja o plano de Deus, pra nossa Vida,&lt;br /&gt;Morrer, dormir, sonhar... depois da janta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Édipo (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;690&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Saber nosso lugar aqui na Terra&lt;br /&gt;Não é tão óbvio, simples e direto.&lt;br /&gt;Alguns nascem no seu pé-de-serra&lt;br /&gt;A maioria vem apenas sob um teto,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Inesquecível, sim, como cenário&lt;br /&gt;Das visões primeiras, encantadas&lt;br /&gt;Como aquela mancha no armário,&lt;br /&gt;Um duende sorrindo para as fadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas depois começa o nosso exílio&lt;br /&gt;E toda uma vida de procura&lt;br /&gt;Para encontrar de novo o domicílio&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Onde ocorreu em nós a ruptura.&lt;br /&gt;E frente ao velho casarão estacionar,&lt;br /&gt;Dizendo: Foi aqui. Cheguei, posso parar...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;28/09/2006 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O Cisne (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;689&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;No escuro palco meu poema danço&lt;br /&gt;A minha vida assim coreografada&lt;br /&gt;Em belos passos de que não me canso,&lt;br /&gt;Tenha tido ou não casa lotada...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E cada vez mais bela e exaltada,&lt;br /&gt;Como uma Pavlova em branco cisne&lt;br /&gt;Sei que a morte chegará sem que me tisne&lt;br /&gt;As brancas penas na última noitada...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem me ouvirá o cisne que delira&lt;br /&gt;Em derradeiro, estertorante canto,&lt;br /&gt;Tardio apelo do Poeta em sua lira?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A casa do meu sonho está vazia&lt;br /&gt;Desde a platéia espectral até a coxia,&lt;br /&gt;E cai a negra cortina como um manto...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;17/01/2007&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Nefertiti (de Alma Welt) &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;688&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rodo trouxe um cientista pra jantar,&lt;br /&gt;Dr. Piotr Ivanovitch, jovem russo, &lt;br /&gt;“Arqueólogo”, disse ao se apresentar,&lt;br /&gt;Eufórico me deslocando o pulso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Nefertiti em visão de Alma-Tadema!&lt;br /&gt;Estou diante da beldade faraônica,&lt;br /&gt;Mas ruiva de deixar Vênus afônica,&lt;br /&gt;Destruiste de pronto o meu sistema!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Deixa-me medir tuas feições, &lt;br /&gt;Que acabo de mudar minha teoria&lt;br /&gt;E preciso de dados, proporções...”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E eu, louca pelo insólito que sou,&lt;br /&gt;Deixando logo cair o que vestia,&lt;br /&gt;Ofereci-me à ciência de Moscou... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;21/05/2005&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Boas Novas (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt; (a visão do otimista)&lt;br /&gt;687&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eis afinal a nossa aurora e ascensão:&lt;br /&gt;Já sabemos que a Terra é um ser vivo.&lt;br /&gt;Estamos mesmo nas costas do Dragão&lt;br /&gt;Como bem já o sabia o primitivo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Merlin já o dizia ao moço Arthur&lt;br /&gt;E pensávamos nisso como fábula,&lt;br /&gt;Como a da bela espada Excalibur&lt;br /&gt;E o reino de Avalon e sua távola.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas tudo é parte da cadeia milenar,&lt;br /&gt;O rio morre mas renasce, já o vemos,&lt;br /&gt;E o homem agora sabe e vai mudar...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já nasceu o ser que vai, benevolente,&lt;br /&gt;Sem cajado, mas mochila, até a nascente&lt;br /&gt;Do grande rio eterno que herdaremos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(se data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Má notícia (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt; (a visão do pessimista)&lt;br /&gt;686&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estar em sintonia com a alma&lt;br /&gt;Não é, como se pensa, corriqueiro.&lt;br /&gt;O homem de hoje não se acalma&lt;br /&gt;Para estar, assim, uno e inteiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um ser pasmado, abúlico, dormente,&lt;br /&gt;Ou então excitado como louco;&lt;br /&gt;Perdido, confuso e adolescente, &lt;br /&gt;Boca muito aberta, ouvido mouco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ligado na corrente cento e vinte,&lt;br /&gt;Mas sem foco, a não ser o do consumo,&lt;br /&gt;Para quem dez palavras é um acinte,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esse homem estéril é o futuro,&lt;br /&gt;Embora sem passado e sem um rumo&lt;br /&gt;Senão o da manada ou do monturo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Metasoneto (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;685&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Hoje não escrevi o meu soneto&lt;br /&gt;E passei o dia todo meio vaga, &lt;br /&gt;Como se me faltasse o ser eleito&lt;br /&gt;Ou tivesse perdido o dom de maga.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nada de flores na senda da coxilha,&lt;br /&gt;Sonhando com a volta do irmão&lt;br /&gt;Ou me sentindo ainda aquela ilha&lt;br /&gt;No meio do Oceano da Ilusão...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não tive nenhuma boa idéia&lt;br /&gt;Nem “onde foi que errei” quis perguntar,&lt;br /&gt;Para assim me sentir uma plebéia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esperem! Dei-me conta ao divagar:&lt;br /&gt;“Pero acabo de hacerlo, sin embargo!”&lt;br /&gt;Eis o soneto, embora um tanto amargo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Mercados (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;684&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;"Fora do mercado nada existe"&lt;br /&gt;Disse alguém sem o senso de poesia.&lt;br /&gt;Então percebi que eu não existia,&lt;br /&gt;E com estranho orgulho que persiste.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois o sentido de mercado para mim&lt;br /&gt;É ainda o Les Halles em Paris,&lt;br /&gt;Ou bazares de Marrocos ou Tunis,&lt;br /&gt;Com lâmpadas, aquelas, de Aladim. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas jamais apregôo na Medina&lt;br /&gt;Sonetos como jóias deslumbrantes&lt;br /&gt;Ofertadas por mim a cada esquina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nada tenho a barganhar e a vender,&lt;br /&gt;E meus versos, só alguns usam turbantes&lt;br /&gt;Quando atravessam os desertos do meu ser...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;14/08//2006&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O analista em férias (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;683&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;“Método percebo em tua loucura”&lt;br /&gt;Dizia o analista de sistemas,&lt;br /&gt;Trazido pelo Rodo em sinecura&lt;br /&gt;Entremeada de vãos telefonemas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por uma semana aqui arranchou&lt;br /&gt;E quis “analisar” minha mania&lt;br /&gt;De escrever sonetos como um show&lt;br /&gt;Sem fim, sem platéia e à porfia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Por mais que bela seja quem os cria”,&lt;br /&gt;Era eu uma catadupa inesgotável&lt;br /&gt;Que, segundo ele, ninguém lia. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então pedi ao mano que o levasse&lt;br /&gt;Depressa do meu mundo incomputável,&lt;br /&gt;Antes que mais meu sonho conspurcasse...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Noites... ( de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;682&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Noites de fandango em nossa estância,&lt;br /&gt;Em que tudo concorria para amar:&lt;br /&gt;Os sons, os cheiros, nossa infância,&lt;br /&gt;Nosso jardim adormecido a flutuar&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naquela dança de coruscantes lumes&lt;br /&gt;Que sabíamos que eram nossas fadas&lt;br /&gt;E velavam como pequeninos numes&lt;br /&gt;O sono leve das flores e ramadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Galdério, sua gaita em meu ouvido,&lt;br /&gt;Esse nosso uruguaio tão dileto&lt;br /&gt;Que já era esteio em nosso teto,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Doando-nos, de fundo, som e verso, &lt;br /&gt;A um cenário da alma, comovido:&lt;br /&gt;Meus pais, peões, a casa, o universo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;23/04/2005 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A nave louca (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;681&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Devemos navegar e deixar ser,&lt;br /&gt;Dizia meu pai prudente e sábio:&lt;br /&gt;Os abrolhos ao outro dar a ver&lt;br /&gt;E nos lábios dividir o astrolábio&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Da tal navegação em boas águas&lt;br /&gt;Para evitar arquipélagos fatais,&lt;br /&gt;As Ilhas do Rancor e a das Mágoas&lt;br /&gt;E aquelas de emergentes canibais&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Frágil, por mais que destemida,&lt;br /&gt;A nossa nave louca é uma só,&lt;br /&gt;Com o lastro dos lances de uma vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E se formos a pique na empreitada,&lt;br /&gt;Ligar pr’um seu compadre, o velho Jó,&lt;br /&gt;A quem já foi tirado tudo e nada...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;22/08/2006 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Culpas (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;680&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Os ingleses e franceses não perdôo&lt;br /&gt;Por terem queimado a Joana D’Arc&lt;br /&gt;Embora o povo não mais arque &lt;br /&gt;Com essa culpa, que outras apregôo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os franceses com a vergonha de Vichi&lt;br /&gt;E das colônias da Guiana, as penais;&lt;br /&gt;Também a pobre Argélia foi demais,&lt;br /&gt;Como na Índia, o Churchill contra o Gandhi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas em vez de amargar minha revolta,&lt;br /&gt;É melhor olhar meu rabo de alemã&lt;br /&gt;E ficar quieta, se não a coisa volta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ou meu lado açoriano ou luso,&lt;br /&gt;E mesmo o brasileiro, tão louçã&lt;br /&gt;Em cima da senzala a meio-uso...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Pelo dia das mulheres (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;679&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;São Tomé não foi por Cristo rebaixado&lt;br /&gt;Mas virou santo junto com seus pares,&lt;br /&gt;Doze que eles eram, só um punhado,&lt;br /&gt;Ainda deixaram Madalena aos azares.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não me conformo com a hipocrisia&lt;br /&gt;Em torno da mulher, a “pecadora”,&lt;br /&gt;Que por mais que se esfalfe numa pia,&lt;br /&gt;Nunca Pia, detratada e amadora. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Reivindico por isso uma carteira&lt;br /&gt;Pras mulheres da rua e de madame &lt;br /&gt;Nem que eu venha ser a derradeira &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Invertendo a subida da ladeira, &lt;br /&gt;Assim mesmo, desabrida, sem vexame:&lt;br /&gt;Poetisa, santa mártir e rameira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Os amigos... (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;678&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Os amigos fiéis da juventude,&lt;br /&gt;Onde estão, eu pergunto, onde estão?&lt;br /&gt;Como eu era livre enquanto pude,&lt;br /&gt;E os amava pra sempre desde então!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Onde estão os amores, sonhos, planos&lt;br /&gt;Que tivemos e os que persistem mesmo,&lt;br /&gt;Projetados muito embora não a esmo&lt;br /&gt;Pois que não realizados nos cobramos?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aldo, Catarina, os dois Bernardos,&lt;br /&gt;Um outro de que me esqueci o nome&lt;br /&gt;E que, lembro, era um dos mais chegados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Báh! Um era Leonardo, confundi,&lt;br /&gt;O gêmeo era um outro e tinha fome&lt;br /&gt;De amor e uma carência em que me vi...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;28/12/2006 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Crônicas “gáltchas” (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;677&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Ali jaz um que apartou-se da boiada, &lt;br /&gt;E que se foi de modo deplorável,&lt;br /&gt;Pois ainda não havia feito nada&lt;br /&gt;E seu plano era simples e amável:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ser o gaucho que se espera e nada mais,&lt;br /&gt;Casar-se com a prenda e ter um filho,&lt;br /&gt;Ter a sua querência e plantar milho,&lt;br /&gt;E não ter que dizer sim ao capataz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas ao campo deu aquela campa,&lt;br /&gt;Nenhum rastro mais de sua raça.&lt;br /&gt;A terra? Bebe sangue e acha graça...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que por um segundo só, de rebeldia,&lt;br /&gt;Coisa pouca, mormente nesta Pampa,&lt;br /&gt;Foi de peleia o seu derradeiro dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;07/04/1990 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Posteridade (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;676&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Seremos vistos, Rodo, pelo mundo,&lt;br /&gt;Embora isso, pouco, sei, te importe.&lt;br /&gt;O Tempo sempre teve olhar profundo&lt;br /&gt;E, verás, nos levará além da morte,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lá onde vivem os filhos da paixão,&lt;br /&gt;Num Parnaso povoado de Poetas,&lt;br /&gt;Que não quero o paraíso dos ascetas&lt;br /&gt;Nem dos anjos em coro e cantochão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ou seremos para sempre no meu verso,&lt;br /&gt;Verdadeiro cenário dos amores &lt;br /&gt;Que rimando erigi em universo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E se o Rei aparecer para nos ver,&lt;br /&gt;Talvez tente por orgulho lhe esconder &lt;br /&gt;O vulto de mulher das minhas dores...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;15/09/2006&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Extra Amor... (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;675&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;"Extra ecclesia nulla salus", era o mote&lt;br /&gt;Dos prelados de Cristo e seu orgulho.&lt;br /&gt;E o repito, sim, pra quem se importe,&lt;br /&gt;Mas só quanto ao amor e seu mergulho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não te salvas sem amar e ser amado,&lt;br /&gt;Que é pura conseqüência, isso é fato,&lt;br /&gt;Pois a vida não existe noutro estado&lt;br /&gt;Senão do amor a ela e seu contrato.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Repara à tua volta, tudo clama&lt;br /&gt;E evoca o amor a cada passo,&lt;br /&gt;E o vemos na água e na chama,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na terra e no ar, em som e fúria,&lt;br /&gt;Que tudo é amor e seu compasso&lt;br /&gt;Difícil de seguir em sua luxúria...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Alma Capuletto (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;674&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Não te direi meu nome, ó meu leitor,&lt;br /&gt;Conheces bem a minha alma de guria:&lt;br /&gt;Uma rosa co’outro nome ainda seria&lt;br /&gt;A mesma rosa a que Julieta deu amor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Abri meu coração sem guardar nada&lt;br /&gt;Ao longo desta minha vida breve,&lt;br /&gt;Tão intensa como a noite densa e leve&lt;br /&gt;Do encontro após a festa, na sacada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não troquei juras do amor que mesma sou,&lt;br /&gt;E em versos não preciso protestá-lo&lt;br /&gt;Se meu peito foi aberto num estalo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na noite em que num primeiro vôo&lt;br /&gt;Lancei ledo soneto que falava&lt;br /&gt;Do que sob a sacada me aguardava... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Estória do umbu-rei (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;673&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por amor a esta paisagem grandiosa&lt;br /&gt;Mais de uma vez empunhei a carabina,&lt;br /&gt;Mas foi um erro o que me fez ficar famosa&lt;br /&gt;E salvar o umbu desta campina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi quando um vizinho me peitou&lt;br /&gt;Dizendo que estava em sua terra&lt;br /&gt;O umbu onde Martinho se enforcou,&lt;br /&gt;Que a árvore era sinistra e que aberra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então, melodramática, me amarrei&lt;br /&gt;Ao tronco, disposta a ali morrer,&lt;br /&gt;Com o risco de outra coisa acontecer&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois fez com que o "gáltcho" gargalhasse&lt;br /&gt;E rasgando meu vestido me mirasse&lt;br /&gt;Dizendo: "Esse umbu agora é rei..."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;29/12/2006&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Maus vizinhos&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;672&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ontem esteve aqui o estancieiro&lt;br /&gt;Que há muito cobiça o meu vinhedo,&lt;br /&gt;Desde que o avô meu, o vinhateiro,&lt;br /&gt;O despachara apontando com o dedo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, à parte os tais ressentimentos,&lt;br /&gt;Botou-me olho grande, o velho touro,&lt;br /&gt;Para si mesmo, talvez, por uns momentos,&lt;br /&gt;Mas logo para o filho, seu tesouro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E disse: “Prenda loura, serás nossa,&lt;br /&gt;Como o teu ruivo vinho, eu te prometo.&lt;br /&gt;Prepara o teu vestido e o teu soneto&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De bodas, que será o teu derradeiro,&lt;br /&gt;Nem que eu tenha que queimar a tua roça,&lt;br /&gt;E transformar tua Vinha num braseiro...”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;12/07/1995&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nota &lt;br /&gt;Acabo de descobrir estre soneto, antigo, da Alma, e me lembro bem deste episódio. Minha irmã viveu momentos de angústia e preocupação por nossa propriedade e sua própria integridade física. E com razão, pois descobri um soneto relacionado que conta um episódio acontecido depois da ameaça desse velho tirano, e que diz respeito justamente ao seu filho, num confronto com a Alma que defendia um velho umbu que ele quis cortar, e que ficava na divisa com as nossas terras.(Lucia Welt)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Tantas vezes violada (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;671&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Às vezes questiono o privilégio&lt;br /&gt;Dos dons de beleza que herdei,&lt;br /&gt;Embora pareça um sacrilégio&lt;br /&gt;Ou cuspir no prato que provei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas revelo que fui muito violada,&lt;br /&gt;E minh’alma ainda resta machucada,&lt;br /&gt;Pela cobiça de homens desregrados&lt;br /&gt;Apesar da resistência e meus brados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em desespero cinco vezes eu lutei&lt;br /&gt;Com valentia, às vezes, e com garra, &lt;br /&gt;Para evitar em vão a vil penetração.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas o bicho homem que me agarra&lt;br /&gt;Parece querer algo que não dei &lt;br /&gt;Ao dar-me à revelia... à sua visão. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O verão de minha desgraça (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;670&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O filho do Contardo, estancieiro,&lt;br /&gt;Como seu velho, mau e cobiçoso,&lt;br /&gt;Aproveitou-se de meu gesto espantoso &lt;br /&gt;De amarrar-me ao tronco do umbuzeiro&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pra defender a árvore grande e bela&lt;br /&gt;Que ele quis derrubar com moto-serra,&lt;br /&gt;Pois Martinho, um tal filho da terra&lt;br /&gt;Se enforcara ali, em sua sela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E eu, que a mim tinha amarrado,&lt;br /&gt;Depois de meu vestido estraçalhado,&lt;br /&gt;Nua me vi diante dele e seu peão&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que alternadamente me estupraram, &lt;br /&gt;Por bem mais de uma hora, no verão&lt;br /&gt;Da desgraça a que me abandonaram... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O crítico (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;669&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao ver minha pintura no atelier&lt;br /&gt;Um crítico, para ser aprovativo,&lt;br /&gt;Sugeriu-me, um tanto impositivo,&lt;br /&gt;Que deixasse a mania de escrever,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que a poesia era veneno pra pintora&lt;br /&gt;E que Chagall, o que tinha de pior &lt;br /&gt;Era aquela vã noivinha voadora &lt;br /&gt;Que "ele teimava em quase tudo pôr".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma repulsa imediata então me veio&lt;br /&gt;Por perceber-me diante do demolidor&lt;br /&gt;Que não mais via o homem... só o meio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E dei por encerrada a entrevista &lt;br /&gt;Pretextando, não que estava a sentir dor, &lt;br /&gt;Ma que era eu a noiva tão mal vista...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Conselhos de meu pai (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;668&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Meu pai que era culto e muito sábio,&lt;br /&gt;Ao notar algumas minhas tentativas&lt;br /&gt;De tornar mais acessível o alfarrábio&lt;br /&gt;Dos meus textos com notas redutivas,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Me disse, um dia: “Filha, que soberba,&lt;br /&gt;Pensares que o mundo não compreende&lt;br /&gt;O que tens para dizer ou se surpreende&lt;br /&gt;Co'essa fala ora doce ora acerba...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não subestimes tanto a inteligência&lt;br /&gt;Do próximo, seja ele rico ou pobre&lt;br /&gt;(nos extremos, sei, mora a carência)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na forma mesma com que do coração vem,&lt;br /&gt;Se dás, dês tudo tudo o que te sobre,&lt;br /&gt;Mesmo que seja bem mais do que te pedem.” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Difícil resposta (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;667&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Perguntas-me o que pelo outro faço,&lt;br /&gt;Pra a pobreza minorar ou sofrimento &lt;br /&gt;Dos que já não tem o menor traço&lt;br /&gt;De esperança, ou do coração o alento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que faço pela fome dos famintos,&lt;br /&gt;Pela miséria imensa que há ao lado&lt;br /&gt;E passamos como pelo lixo os pintos&lt;br /&gt;Ou como pela xepa do mercado...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E eu que renunciando a toda posse,&lt;br /&gt;Minha parte nesta estância já doei,&lt;br /&gt;Na garganta me sinto vir a tosse,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aquela da vergonha e embaraço.&lt;br /&gt;Talvez fútil, só a alma mesma dei&lt;br /&gt;Aos que me notaram enquanto passo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;22/04/2006 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Um Eterno Retorno (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;666&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Os vikings, germanos e outros mais,&lt;br /&gt;Morrer só desejavam com bravura, &lt;br /&gt;Assim como os antigos samurais,&lt;br /&gt;Pra voltar à mesma senda e vida dura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim também est’Alma louca aqui,&lt;br /&gt;Cedo tomada pela arte da Poesia,&lt;br /&gt;Bem cedo irei morrer em nostalgia &lt;br /&gt;Desta vida que, escrevendo, revivi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Embora alguns bem cheios de revolta,&lt;br /&gt;Acredito que os poetas são divinos...&lt;br /&gt;Mas Deus com suficiente à sua volta&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Relança sobre a terra os mais sofridos&lt;br /&gt;Pela saudade dos ventos e dos sinos.&lt;br /&gt;E bá!Tome mais cantos e alaridos!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Walhalla (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;665&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Meus pensamentos todos em sonetos!&lt;br /&gt;Assim quero restar eternamente:&lt;br /&gt;Cantar a vida em quadras, e somente,&lt;br /&gt;Ludibriar a Morte nos tercetos...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Perturbar velhos amores em seu sono,&lt;br /&gt;Despertá-los, revivê-los, cutucá-los,&lt;br /&gt;Fazê-los ver que ainda o dono&lt;br /&gt;É o velho coração cheio de calos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ou mais: cicatrizes de batalhas,&lt;br /&gt;Mesmo em alguns mais renitentes&lt;br /&gt;Por temerem recair nas suas malhas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E reuni-los então, todos no salão,&lt;br /&gt;Onde, alegres veteranos combatentes,&lt;br /&gt;Ao Walhalla dos meus sonhos brindarão...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;18/09/2006 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Sheraazade (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;664&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Mais uma estória ainda pra contar!&lt;br /&gt;Meu coração é uma Sherazaade... &lt;br /&gt;Meu rei ou meu sultão, quem há-de?&lt;br /&gt;E a vida um desfile sob o olhar:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mil crônicas em versos de sonetos&lt;br /&gt;Perpetuam minhas noites e meus dias.&lt;br /&gt;Mas ao amanhecer, novos motetos &lt;br /&gt;E novo carrossel de alegorias...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Escrava num palácio de riqueza,&lt;br /&gt;Além da última e milésima memória,&lt;br /&gt;Mais uma... num serralho de tristeza&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em que velo meus amores do passado&lt;br /&gt;Numa vigília que é só a moratória&lt;br /&gt;Diante do sultão que é o nosso fado... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;13/01/2007&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Um outro Negrinho ( de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;663&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Havia aqui na estância um negrinho&lt;br /&gt;Que eu cismei de colocar no pastoreio&lt;br /&gt;Pelo capricho de rasgar o pergaminho&lt;br /&gt;E recontar a saga em outro meio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas Rodo, meu irmão, por ironia,&lt;br /&gt;Roubou-nos de noite uma só rês,&lt;br /&gt;Só pra observar o que eu faria&lt;br /&gt;Para dar um novo fecho desta vez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, ai de mim em minha jactância!&lt;br /&gt;Esta foi a variante não prevista:&lt;br /&gt;O Negrinho sumiu aqui da estância&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deixando meus remorsos neste Pampa,&lt;br /&gt;E ruivos, repintados, como pista&lt;br /&gt;Os cabelos da Virgem numa estampa... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Balanço Final (II) (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;662&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Amei, sonhei, andei o mundo,&lt;br /&gt;Bem menos talvez do que podia,&lt;br /&gt;Mas no que fruí eu fui bem fundo,&lt;br /&gt;Descontados devaneio e fantasia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Também me perdi por vãos momentos,&lt;br /&gt;Não tão fúteis, mas de pura nostalgia&lt;br /&gt;De tempos que deixaram monumentos&lt;br /&gt;Que me dão a sensação que ali vivia...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pouco vi, mas tudo sei, que sou poeta&lt;br /&gt;E incorporo em mim todas as sagas&lt;br /&gt;Enquanto a minha própria se completa&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois posso me findar, que tudo tive,&lt;br /&gt;Se minha bela história nestas plagas&lt;br /&gt;No coração de um outro me revive...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;16/01/2007&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Votos (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;661&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Que não seja o amor uma armadilha&lt;br /&gt;E suas juras sejam veras, não falácias;&lt;br /&gt;Que não nos seja o sexo uma cilha&lt;br /&gt;Mas rubras nossas rosas e hemácias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que não tenhamos penas e nem plumas,&lt;br /&gt;E que não confundamos nossa sina&lt;br /&gt;Com o vale de lágrimas e as dunas&lt;br /&gt;De um retorno cruel à Palestina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que a vida seja clara como a água&lt;br /&gt;Do riacho derradeiro e intocado&lt;br /&gt;Que o Homem esqueceu em sua mágoa,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas tendo aparado suas arestas,&lt;br /&gt;Seja o pródigo filho retornado&lt;br /&gt;E que o Pai nos receba em meio a festas...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;08/01/2007&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Postfácio (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;660&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Saberei parar um dia e emudecer,&lt;br /&gt;E conformar meu passo ao coração?&lt;br /&gt;Olhar as profundezas do meu ser&lt;br /&gt;E estar bem, ali, c’os pés no chão?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A dor se tornou arte, isso foi bom...&lt;br /&gt;O poeta irá tornar-se o cisne negro&lt;br /&gt;Num longamente acalentado som,&lt;br /&gt;Seu solo patético e mais íntegro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cantei por não saber calar a vida&lt;br /&gt;Neste coração que se entusiasma&lt;br /&gt;Pelo belo, o puro, e mesmo a lida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quanto à dor, também a vejo assim:&lt;br /&gt;Como um último e íntimo fantasma &lt;br /&gt;A dizer: “Viva, viva, viva” até o fim...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;15/01/2007 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Planos pro Verão (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;659&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Vem encontrar-me no jardim, ó meu irmão!&lt;br /&gt;A ti meu plano então revelarei,&lt;br /&gt;Bem... irei contigo, já adiantei,&lt;br /&gt;Estou fazendo as malas pro verão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em Punta de Leste, pro teu pôquer,&lt;br /&gt;Ostentarei os meus melhores panos,&lt;br /&gt;Serei a sedutora girl de gangster&lt;br /&gt;Para que confundam seus arcanos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E se, furiosos, vierem-nos atrás,&lt;br /&gt;Fugindo contigo no Aston Martin&lt;br /&gt;Pelas estradas, de mim te orgulharás. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bem sei que desde já o Diabo ri,&lt;br /&gt;Menos de ti, ó blefador, do que de mim.&lt;br /&gt;"Ele" há muito é o Curinga por aqui...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Planos para el verano (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;(versión al castellano de Lucia Welt)&lt;br /&gt;658&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Viene a mi, en el jardín, O! mi hermano! &lt;br /&gt;Sin embargo, mis planos revelaré:&lt;br /&gt;Iré contigo, y yo me adelanté,&lt;br /&gt;Malas haciendo ya para el verano&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;En Punta de Leste, en el póquer ,&lt;br /&gt;Con mis vestidos, que vienen de tus manos, &lt;br /&gt;Yo seré la seductora girl de gangster&lt;br /&gt;Para que ellos confundan sus arcanos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Y se furiosos vienen en nuestro rastro,&lt;br /&gt;Huyendo contigo en el Aston Martin&lt;br /&gt;Por las carreteras, te veo como un astro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bien sé que el Diablo está se riendo&lt;br /&gt;De mí, engañadora que estoy siendo,&lt;br /&gt;Él, a tiempos, por acá, el Comodín. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O Mesmerista (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;657&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu irmão convidou um jogador,&lt;br /&gt;Seu colega aventureiro e “mesmerista”,&lt;br /&gt;Que dizia anular qualquer pudor &lt;br /&gt;Até de antiga freira ou normalista.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E que usara esse poder para vencer&lt;br /&gt;No pôquer, o que quase lhe custara&lt;br /&gt;A vida e mais um olho de sua cara&lt;br /&gt;Retirado a canivete, sem tremer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas a pedido dele em reservado,&lt;br /&gt;Deixei caolho-rei dos fascinantes&lt;br /&gt;Exercer o seu dom em pleno prado...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E voltei com o olhar esgazeado &lt;br /&gt;Com passos abertos, claudicantes,&lt;br /&gt;E o ar pleno e perdido das amantes... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O Cenário (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;656&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Passamos a vida a construir&lt;br /&gt;Um cenário coerente, quero crer,&lt;br /&gt;Para podermos simplesmente ser,&lt;br /&gt;Despojados da idéia do porvir,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que é a maldição da consciência,&lt;br /&gt;O rubro fruto amargo da Razão,&lt;br /&gt;Que nos trouxe angústia e aflição,&lt;br /&gt;Por nos ser da Morte a vã vivência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, pensando bem, nosso animal&lt;br /&gt;Resta-nos no âmbito do instinto&lt;br /&gt;E dele vem o tal terror fatal...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E sofro, hesito e me debato&lt;br /&gt;Ante o Nada que será o entreato,&lt;br /&gt;Ou a tela em branco que não pinto...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O Retorno II (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;655&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;A Aurora do Homem está por vir&lt;br /&gt;Quando sem o medo que o atrasa,&lt;br /&gt;Andará, sem choro ou mesmo rir,&lt;br /&gt;Sobre a Terra que será a sua casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já o vemos: é uma luz na multidão&lt;br /&gt;Que se espalha e abre uma cortina&lt;br /&gt;No antigo e endurecido coração&lt;br /&gt;Que treme pois ainda a raiva o mina&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Contra a dura maldição do Criador &lt;br /&gt;Que nos lançou também contra a mãe Gea&lt;br /&gt;Numa fúria de revanche e de rancor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E voltaremos às terras e às águas, &lt;br /&gt;Como bem antes daquela má idéia&lt;br /&gt;Que nos deu menos prazeres do que mágoas...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;23/07/2006 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A Loba (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;654&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Como poeta eu canto minha terra,&lt;br /&gt;E a música, eu a tenho na palavra.&lt;br /&gt;Há quem diga que meu poema aberra&lt;br /&gt;Já que os versos são de minha lavra,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não os colho no pomar do meu vizinho,&lt;br /&gt;Aliás... estancieiro de cobiças,&lt;br /&gt;Não de meu vinhedo e de meu vinho&lt;br /&gt;Mas destas pernas longas e roliças.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E consciente vou da aberração&lt;br /&gt;De ser esta gringa teuta e ruiva,&lt;br /&gt;Para alguns branca demais, assombração,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas para o olhar mais puro do peão,&lt;br /&gt;Albina loba que para a lua uiva&lt;br /&gt;Nas noites que me sonham, de verão...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;06/04/2005 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Recordações do Éden (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;653&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Pela coxilha eu guria andava&lt;br /&gt;E corria atrás das borboletas,&lt;br /&gt;Sentindo como quem também voava,&lt;br /&gt;Tinha a alma livre e sem muletas...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois então escrever nem precisava,&lt;br /&gt;Que ainda o coração não confrontava &lt;br /&gt;O dito “mal do mundo”, que eu não via,&lt;br /&gt;Que não fora chegado aquele dia&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em que arrancado de mim o meu amor,&lt;br /&gt;Pelos cabelos, risível cena triste&lt;br /&gt;(só um piá com seu pintinho em riste),&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fomos ambos arrastados pelos pulsos&lt;br /&gt;Levados para a casa como expulsos,&lt;br /&gt;E a suar como quem vai parir em dor. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Notas&lt;br /&gt;Acabo de descobrir na Arca, mais este soneto de tema recorrente na obra da Alma: o trauma do flagrante de nossa Mutti, "a Açoriana" sobre o pequeno casal de irmãos encontrados nuzinhos "brincando' debaixo da macieira preferida deles no nosso pomar. Como podem ver, Alma sempre trata essa ocorrência fundamental de sua vida como uma metáfora da expulsão de Adão e Eva do Paraíso terrestre, que é o exato significado que esse trauma teve para a sua sensibilidade, mais do que para a do nosso irmão, jovem forte, de temperamento cínico e mais leve.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*E a suar como quem vai parir em dor.- Este sugestivo verso alude ao anátema de Deus sobre o Homem (no Gênesis): "Parirás em dor e ganharás o pão com o suor de teu rosto."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(Lucia Welt) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A Solidão do Poeta (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;652&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Não espero ser bem compreendida&lt;br /&gt;Pelos anos em que vivo ou logo após,&lt;br /&gt;Mas se a Arte é solidão atroz,&lt;br /&gt;É abraço também na despedida...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É consolo, pranto em ombro quente,&lt;br /&gt;Pois que tudo é matéria de poesia,&lt;br /&gt;É um olhar incólume entre a gente,&lt;br /&gt;Mas que tudo colhe e se apropria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E se à vezes me sinto assim tão só, &lt;br /&gt;A ponto de gritar contra as paredes&lt;br /&gt;Ou sair rolando nua pelo pó,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu me envergonho logo da fraqueza, &lt;br /&gt;Ante vós, outros poetas que me ledes,&lt;br /&gt;E volto a assumir minha riqueza...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;21/07/2006 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O Poeta e o levante (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;651&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Através dos milênios à porfia,&lt;br /&gt;Carrega o poeta a sua tocha,&lt;br /&gt;E o tão sagrado fogo da Poesia&lt;br /&gt;Pesado vai ficando, como rocha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A solidão aumenta a cada século,&lt;br /&gt;Que, nós, milênios dentro carregamos,&lt;br /&gt;Que ser poeta é ser como um espéculo&lt;br /&gt;Da espécie que o saber e dor herdamos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que importa se o tempo nos compreende!&lt;br /&gt;A missão é passar o fogo adiante,&lt;br /&gt;Um poeta com outro só se entende&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desde o nadir do ser, de trás pra diante,&lt;br /&gt;Como esgarçada malha que se estende, &lt;br /&gt;A esperar de nós nosso levante... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O Hades da folha em branco (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;650&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Com a folha em branco ao defrontar-me&lt;br /&gt;Com receio, assim, mergulhadora,&lt;br /&gt;Não sei se vou voltar ou abismar-me&lt;br /&gt;Na louca e vã descida de Pandora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Abro a caixa, de mim mesma à mercê,&lt;br /&gt;Sou presa de memórias, retrospectos,&lt;br /&gt;Que desfilam ante o olhar que os revê,&lt;br /&gt;Como Odisseu do Hades vê espectros&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Invocados pela Circe, a dura maga, &lt;br /&gt;Para que temendo o que o espera&lt;br /&gt;O herói permaneça em sua esfera.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim também hesito e os questiono:&lt;br /&gt;Sois felizes aí mesmo nessa plaga?&lt;br /&gt;Tu, meu Vati, ainda tens teu trono?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;18/04/2006&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nota&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Tu, meu Vati, ainda tens teu trono?- &lt;/strong&gt;Alusão ao episódio da Odisséia de Homero, quando, na Ilha de Circe, Odisseu se vê diante do espectro de Aquiles, que apareceu ao Circe invocar a sombras do Hades para amendrontá-lo com seu destino mortal e fazê-lo aceitar a imortalidade que ela lhe oferecia. Odisseu ao rever Aquiles, disse a este: "Aquiles, eras o maior de nós... certamente deves ser rei aí no Hades". E Aquiles respondeu: "Eu preferia ser um escravo no mundo dos homens a ser rei aqui no mundo das sombras..."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;*Vati&lt;/strong&gt;- "Papai", em alemão, pronuncia-se "Fáti" ( de Vater, pai, pr. Fáter ). É como chamávamos nosso pai, Werner Friedrich Welt, também dito "o Maestro". Nosso pai era formado em Medicina, mas quase não exerceu a profissão, a não ser em ocasiões de emergência . Era um magnífico pianista clássico, virtuoso, especializado nos grandes românticos, embora também tocasse Bach muito bem. Tinha grande cultura literária e era mesmo um erudito. Tinha a postura de um rei, era respeitado por todos, na estância e aonde fosse. Alma lhe tinha veneração e uma adoração comoventes. Ela era a sua preferida...&lt;br /&gt;(Lucia Welt) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O real e a Poesia (De Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;649&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Pra penetrarmos o real e sua essência,&lt;br /&gt;Ao soneto coube-nos fazer emendas *&lt;br /&gt;Conquanto o perigo da demência &lt;br /&gt;Nos ronde desde o tempo das calendas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os gregos, que vão sempre além do muro,*&lt;br /&gt;Vadearam uma vez o mesmo rio,*&lt;br /&gt;Mas agarrados aos deuses, por seguro,&lt;br /&gt;Aos quais nem eu mesma renuncio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E jogados na caverna escura e oca, *&lt;br /&gt;De sombras, sem a luz no céu da boca,* &lt;br /&gt;De Diógenes não temos nem o lume *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que nos faria enxergar à luz do dia,&lt;br /&gt;Pra não sermos o mero galo implume,*&lt;br /&gt;Mas os filhos de Orfeu e da Poesia...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Notas&lt;br /&gt;*Ao soneto coube-nos fazer emendas - alusão ào ditado "Pior a emenda que o soneto". Parece-me que Alma quis dizer que, na intenção de aprofundarmos as intuições dos gregos sobre a Natureza e sua Física, complicamos e nos afastamos mais do sentido do real que eles, povo de gênio, tinham...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*Os gregos, que vão sempre além do muro- alusão velada aos muros penetrados de Tróia, como metáfora da curiosidade científica e filosófica dos gregos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*Vadearam uma vez o mesmo rio- alusão ao famoso fragmento de Heráclito de Éfeso: "Não podemos atravessar duas vezes o mesmo rio. Nós mesmos somos e não somos..."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*E jogados na caverna escura e oca - alusão ao famoso "Mito da Caverna", de Platão, mito esse tão caro aos psicanalistas do século XX.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*De sombras, sem a luz no céu da boca- alusão a detalhes do Mito, em que os seres colocados na caverna vêm somente sombras distorcidas, projetadas de fora, pela luz que vem da boca da caverna, e cuja (falsa) realidade eles temem...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*De Diógenes não temos nem o lume- alusão à famosa anedota sobre o filósofo Diógenes, de Atenas, que uma vez saiu com uma lanterna acesa, pelas ruas, em pleno dia, e quando interpelado respondeu: "Estou procurando um Homem... " &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*Pra não sermos o mero galo implume- alusão à outra famosa anedota de Diógenes, que tendo ouvido Sócrates dar a definição do homem (por derrisão) como "um bípede implume", depenou um galo e saiu com ele erguido na mão, pelas ruas de Atenas, gritando: "Eis o Homem de Sócrates!"&lt;br /&gt;(Lucia Welt)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O Tesouro (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;648&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Há na estância o mito do tesouro&lt;br /&gt;Muito anterior à luta farroupilha,&lt;br /&gt;Que pra tapar da guerra o sorvedouro&lt;br /&gt;Bento havia procurado em sua trilha,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas não tivera o tempo necessário &lt;br /&gt;Para escavar ou dar uma peneira,&lt;br /&gt;E largara essa tarefa de corsário,&lt;br /&gt;Que não estava ali pra brincadeira... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas eu que vim ao mundo com fartura&lt;br /&gt;De tempo para as ilusões e mitos, &lt;br /&gt;Que, se não a meta, é minha procura,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto eu na lenda me envolvia,&lt;br /&gt;Como Vestal celebrei secretos ritos,&lt;br /&gt;E meu Tesouro encantou-se-me em Poesia...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A vela no poente (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;647&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alguém me disse que esta minha ânsia&lt;br /&gt;De contar tudo tudo que me ocorre,&lt;br /&gt;Não é senão da juventude o porre,&lt;br /&gt;E por certo passará com a distância,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como quando na velhice recuamos&lt;br /&gt;E olhamos nossa vida da janela,&lt;br /&gt;Onde, sábios, afinal nos instalamos&lt;br /&gt;Para olhar distante e branca vela,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que, ao vento, se apequena lentamente,&lt;br /&gt;Quando então, nossa vida, em privilégio,&lt;br /&gt;Se aproxima da glória do poente... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas sentindo meu olhar meio absorto,&lt;br /&gt;Sacudi-me, reagindo ao sortilégio: &lt;br /&gt;“- Sou eu a branca vela e não o porto!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;05/04/2005 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O Mesmerista (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;648&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Meu irmão convidou um jogador,&lt;br /&gt;Seu colega aventureiro e “mesmerista”,&lt;br /&gt;Que dizia anular qualquer pudor &lt;br /&gt;Até de antiga freira ou normalista.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E que usara esse poder para vencer&lt;br /&gt;No pôquer, o que quase lhe custara&lt;br /&gt;A vida e mais um olho de sua cara&lt;br /&gt;Retirado a canivete, sem tremer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas a pedido dele em reservado,&lt;br /&gt;Deixei caolho-rei dos fascinantes&lt;br /&gt;Exercer o seu dom em pleno prado...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E voltei com o olhar esgazeado &lt;br /&gt;Com passos abertos, claudicantes,&lt;br /&gt;E o ar pleno e perdido das amantes... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nota &lt;br /&gt;Acabo de descobrir na Arca da Alma este curioso soneto, nitidamente humorístico, em que Alma conta um episódio real, que em parte testemunhei. Rodo trouxe, para passar uns dias aqui na estância, um "colega" jogador de pôquer profissional, que realmente tinha um olho de vidro e que contou que tinha usado seu dom de hipnotizar em pleno jogo privado com um milionário, e descoberto, passou por maus bocados, quase foi morto e acabou perdendo um olho como lição, retirado a canivete por um capanga do dito ricaço. Insinuante, deu um jeito de ser desafiado no seu dom mesmérico pela Alma, extremamente curiosa que ela era. Mas eu não soube na época desse resultado perturbador, que se deduz deste soneto... Teria a Alma, hipnotizada, sido estuprada em plena coxilha por esse pilantra? (Lucia Welt)&lt;br /&gt; &lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Não ao anátema (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;647&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Me disseram que amar o meu irmão&lt;br /&gt;É uma doença que tenho que tratar.&lt;br /&gt;Mas jamais concordarei com tal visão,&lt;br /&gt;Que um amor não serei eu a extirpar,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sob pena de lesar-me a existência,&lt;br /&gt;E ficar só e vazia, de repente,&lt;br /&gt;Que sem amor a vida é quase ausência&lt;br /&gt;E o Nada entra, fica, e nos desmente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois lembro que expulsos do Jardim&lt;br /&gt;E arrastados debaixo de um berreiro,&lt;br /&gt;Rejeitei a dor do anátema... em mim: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não reneguei o amor de meu irmão,&lt;br /&gt;Que, audaz, afrontei o mundo inteiro,&lt;br /&gt;E o canto em prosa e verso desde então.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A vida e seu duplo (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;646&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Viver só por hoje, agora, aqui...&lt;br /&gt;Sim, mas sem deixar de lado&lt;br /&gt;A carga do saber acumulado,&lt;br /&gt;Com os erros também, que cometi. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A dádiva divina da memória&lt;br /&gt;Terra, casa, lar, solo, querência,&lt;br /&gt;Dá ao ser firmeza e consistência,&lt;br /&gt;Somos súmula viva de uma história &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que é nossa pelos nossos ancestrais,&lt;br /&gt;Que de lutas e amor deixaram fruto,&lt;br /&gt;E a mim, a própria vida que desfruto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bá! Com tal sentido e coerência,&lt;br /&gt;Olvidava o duplo da existência:&lt;br /&gt;Nosso mistério e enigma fatais...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;12/11/2006 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Ode à Alegria (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;645&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;A dor do mundo vem do coração,&lt;br /&gt;De nossa angústia, peso e compunção;&lt;br /&gt;Mas a alegria, ah! essa é profunda,&lt;br /&gt;Que de água meus olhos quase inunda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É a tal celebração na despedida,&lt;br /&gt;E o abraço ardente na chegada;&lt;br /&gt;É quando mais a gente fica unida&lt;br /&gt;E mais se sente amar e ser amada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas se só amamos quem amamos,&lt;br /&gt;Perdemos o valor de sermos homens&lt;br /&gt;Em meio a tantas lutas e desordens.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alegria congrega e unifica,&lt;br /&gt;Traz de volta a inocência e reivindica &lt;br /&gt;O Éden que era em nós, e o deixamos...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O Grande Parque Místico (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;644&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;A vida não é senão algodão doce:&lt;br /&gt;Metidos numa roda muito quente,&lt;br /&gt;Ficamos enredados qual se fosse&lt;br /&gt;Nuvem nauseante em fios de gente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ou é um realejo à manivela,&lt;br /&gt;Na mão do Criador que é um cigano&lt;br /&gt;Cujo verde periquito nos revela&lt;br /&gt;Bom destino, por certo ledo engano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há quem diga que, vãos balões de gás,&lt;br /&gt;Queremos só subir a quaisquer custos,&lt;br /&gt;E em mãozinhas lá nos vamos, num zás-trás.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, creia, o trem fantasma e seus sustos, &lt;br /&gt;Como a casa dos espelhos distorcidos,&lt;br /&gt;Somos nós, medo e riso refletidos...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;26/08/2006&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Alma, casada (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;643&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Minha Matilde me quer fazer rezar&lt;br /&gt;Pro seu Santo Antonio das gurias.&lt;br /&gt;Ela acha que preciso me casar &lt;br /&gt;Pra parar de fazer estrepulias&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E correr louca atrás de meu irmão,&lt;br /&gt;Escândalo antigo que agonia&lt;br /&gt;A minha boa bá que isso já via &lt;br /&gt;Desde que éramos piás no casarão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas lhe digo enquanto se persigna:&lt;br /&gt;"Sabe, querida, com Rodo sou casada,&lt;br /&gt;Secreto rito celebrou a minha fada,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No bosque foi o enlace consumado.&lt;br /&gt;A culpa não é da fada, mas do Fado,&lt;br /&gt;Se aos teus olhos ainda sou indigna"...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;De sonhos e de sagas (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;642&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Quando vem a consciência de existir,&lt;br /&gt;Eis quando me sinto mais desperta.&lt;br /&gt;Não somente em solidão, mas no devir&lt;br /&gt;De minha projeção como poeta. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não trocaria a vida de meus sonhos,&lt;br /&gt;Meu dom de criar ou recriar,&lt;br /&gt;Pela vida aventureira dos bisonhos,&lt;br /&gt;Que mal sentem, por não saber contar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Shelley e Byron um pirata agregaram &lt;br /&gt;Ao seu seleto grupo junto ao lago&lt;br /&gt;Onde com Mary um Prometeu sonharam,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas logo descartaram aquela praga&lt;br /&gt;Ao constatar o quanto ele era vago,&lt;br /&gt;E inconsciente de sua própria saga... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;27/04/2005&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Notas&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;*devir&lt;/strong&gt; - Termo de filosofia que significa o "vir-a-ser", tornar-se, enquanto projeção idealística do ser.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;*Onde com Mary um Prometeu sonharam &lt;/strong&gt;- Lord Byron, junto com o casal Shelley, Mary e Percy, este, grande poeta como ele, passaram alguns verões numa mansão alugada, Villa Diodati, à beira do lago de Geneva, na Suiça. Ali Mary Shelley surpreendeu ao escrever (por causa de um "concurso " entre os amigos) sua obra imortal, "&lt;strong&gt;Frankenstein ou o Moderno Prometeu". &lt;/strong&gt;André Maurois, no seu romance biográfico "Don Juan ou A Vida de Lord Byron", conta que, eles, tendo conhecido e agregado ao grupo um verdadeiro pirata (que se revelou um parasita, claro), desses que abordaram e pilharam navios nos oceanos, se decepcionaram logo, ao perceber que esse homem, no convívio pessoal era desinteressante e nada sabia contar do que vivera. ( Lucia Welt) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A Última Mascarada (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;641&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Rodo, ainda sermos belos é o sinal&lt;br /&gt;De que não estamos em pecado.&lt;br /&gt;Perdida, a alma traz cenho fechado,&lt;br /&gt;Ricto de agonia em signo do mal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vê, somos leves, rimos tanto,&lt;br /&gt;A primavera não nos abandonou;&lt;br /&gt;A relva que pisamos como um manto&lt;br /&gt;Jogado sobre o lodo, nos honrou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Somos nobres, ergamos a cabeça,&lt;br /&gt;Mal uma voz ou outra se elevou.&lt;br /&gt;Pisemos e subamos na caleça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um baile de alegrias nos espera,&lt;br /&gt;Se não no mundo, na corte que restou&lt;br /&gt;Na derradeira Mascarada desta era...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Para o Guilherme * (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;640&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Ainda posso ouvir aquele canto &lt;br /&gt;Da juventude bela e tão naïve.&lt;br /&gt;Em segundos ia eu do riso ao pranto&lt;br /&gt;Apesar do cultivado dom que tive&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desde cedo para o verso aprimorado&lt;br /&gt;Em que eu, ingênua e talvez tola&lt;br /&gt;Falava com saudade do passado,&lt;br /&gt;Eu, que não passava de uma rola&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A arrulhar pensando ser ouvida&lt;br /&gt;Embora fosse cobiçada presa&lt;br /&gt;Só por ser e existir em minha pureza.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quanto eu teria ainda de sofrer&lt;br /&gt;Para ter o privilégio de ser lida&lt;br /&gt;Por grande artista que veio só me ver...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;29/07/2001&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nota&lt;br /&gt;* Guilherme- trata-se de Guilherme de Faria, mestre pintor e cordelista paulistano, que em Julho de 2001, a Alma estando já há dois anos em São Paulo como pintora, ouviu falar dela pela grande gravadora Renina Katz, e, curioso resolveu procurar minha irmã em seu ateliê, que afinal era na mesma rua em que ele tem o seu próprio há mais 50 anos. Após a morte da Alma, em 2007, Guilherme me confessou, que tinha ouvido falar da extraordinária beleza física da Alma e que foi isso que o fez procurá-la, ocorrendo então descobrir uma extraordinária escritora e Poeta. Não é preciso dizer que o velho artista apaixonou-se pela totalidade dos dons da Alma, mas ele mesmo atribiu seu amor, principalmente à doçura (de "rola") e candura imprevistas na personalidade de tão grande artista. (Lucia Welt) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O ser e o nada (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;639&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Não podemos entender o que é Morte&lt;br /&gt;Tampouco sabemos o que é Vida&lt;br /&gt;A cultura quer trazer algum aporte,&lt;br /&gt;A coisa é o que lhe é atribuída.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas se nossos hábitos deixamos&lt;br /&gt;E esquecemos um pouco das lições,&lt;br /&gt;Nada refaz o senso que emprestamos,&lt;br /&gt;Cai o mistério sobre as mínimas ações.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vede como é fútil o dia a dia, &lt;br /&gt;A passagem das horas é atroz,&lt;br /&gt;Nos debatemos a falar algaravia,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um código de sons balbuciados,&lt;br /&gt;Mero jogo de crianças nos gramados&lt;br /&gt;Enquanto avança a sombra sobre nós...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Funhouse (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;638&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Quantos mundos existirão no mundo?&lt;br /&gt;Infinitos, responderei com espanto.&lt;br /&gt;E entre tantos, só já não confundo&lt;br /&gt;O que demônio é... e o que é santo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vejo reflexos, ouço ressonâncias,&lt;br /&gt;Fragmentos que formam um mosaico,&lt;br /&gt;Fazendo do real e suas instâncias&lt;br /&gt;Um jogo de montar um tanto arcaico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim, nada é mesmo o que parece,&lt;br /&gt;E é preciso cada fato interpretar&lt;br /&gt;Para entender a teia que se tece.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas não pode apostar em seu juízo&lt;br /&gt;Quem, por viver, como eu crê habitar&lt;br /&gt;Uma casa de espelhos e de riso...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;14/05/2005&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nota&lt;br /&gt;Ontem assisti, fascinada, na TV a cabo o magnífico show "Funhouse", da talentosíssima e graciosa cantora Pink, cujo cenário, figurinos e coreografia eram baseados na "casa do riso" (e dos espelhos) dos grandes parques de diversão (tinha inclusive belíssimos números de trapézio com a própria cantora como trapezista). Fiquei entusiasmada e comovida. Então, descobri este soneto na Arca da Alma, sem título, e em homenagem à linda Pink, entitulei-o Funhouse. Imagino que Alma aprovaria. (Lucia Welt)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;http://www.youtube.com/watch?v=ZE2XCbkXWxo&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Carnaval no pampa (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;637&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Quisera último e antigo Carnaval&lt;br /&gt;Em que pudesse despir-me da persona&lt;br /&gt;E embarcar na minha própria nau&lt;br /&gt;Mesmo que me fosse dar à zona.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sou eu mesma minha máscara, descubro,&lt;br /&gt;E com ela enfrento meus receios&lt;br /&gt;Ao aquecer meu coração ao rubro&lt;br /&gt;Armando meus ardis por outros meios&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E mesmo ser a Colombina desvairada&lt;br /&gt;Que na verdade sou, pois tendo aberto&lt;br /&gt;Um palco para toda a peonada,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ou desnuda deixar que me alcançasse&lt;br /&gt;A nave de desejos que desperto&lt;br /&gt;Nem que ao pé do cais eu naufragasse...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Colombina (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;636&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É Carnaval e então a carne vale&lt;br /&gt;E pelo oposto até tento me vestir&lt;br /&gt;De Colombina, e que eu me rale&lt;br /&gt;Para um Pierrot aqui me descobrir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na Pampa a fantasia está no lucro&lt;br /&gt;Mas só de “gáltcho” macho e de chinoca;&lt;br /&gt;Coringa foi tirado até do truco,&lt;br /&gt;E Arlequim também não sai da toca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, delirante, correndo neste prado&lt;br /&gt;Quero despir meu corpete e o saiote,&lt;br /&gt;Deslocados que estão para o meu fado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E logo nua, colocando a fantasia&lt;br /&gt;No topo de um mourão, mero pacote,&lt;br /&gt;Ateio fogo, como outrora se fazia...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;20/02/2004 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Os marcados (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;635&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Ponderemos, Rodo, meu irmão:&lt;br /&gt;Só temos um ao outro, pois malditos&lt;br /&gt;Nossa fama correu, não o sertão,&lt;br /&gt;Mas o Pampa mesmo, dos conflitos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ontem mesmo puxaste a tua arma&lt;br /&gt;A defender o teu amor, a tua irmã,&lt;br /&gt;Em mais uma vã lide temporã,&lt;br /&gt;Tardio duelista, que é teu carma...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aos marcados só resta o desafio&lt;br /&gt;E se ao passar nas ruas das aldeias&lt;br /&gt;Temermos o apupo e assovio&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que nos faça corar, indignados, &lt;br /&gt;Só se por me amares já me odeias,&lt;br /&gt;Estaremos perdidos, derrotados...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A longa espera (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;634&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Estarei sentada aqui nesta varanda&lt;br /&gt;Ou junto à nossa cerca de jasmim,&lt;br /&gt;Esperando por quem tão longe anda,&lt;br /&gt;Já que, Alma, nem eu mesma sei de mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bá! A quanto tempo espero assim!&lt;br /&gt;A quanto... ouço roncos à distância&lt;br /&gt;Do teu veloz e novo Aston Martin,&lt;br /&gt;Que disseste supriria a tua ânsia&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De mais vertigem, ventos que haveriam&lt;br /&gt;Nas estradas do mundo e que viriam&lt;br /&gt;Todas convergir aos nossos muros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vem! Tu prometeste, não me deixes,&lt;br /&gt;Ou logo estarei muda como os peixes,&lt;br /&gt;Que já nem posso fazer versos mais puros... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A filha natural (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;633&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Vivendo no final do fim da Terra,&lt;br /&gt;E crescendo com o mais belo guri&lt;br /&gt;Que havia no Mundo, que era aqui,&lt;br /&gt;Só me podia dar amor e guerra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deu amor... que o Fado se encantou,&lt;br /&gt;Pela ardência desse par em sua pureza&lt;br /&gt;E conivente ou cúmplice, deixou&lt;br /&gt;Que cedessem os irmãos à natureza.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sob a árvore de colorados pomos &lt;br /&gt;Afinal fomos vistos pelo mundo&lt;br /&gt;Através de olhar severo, mas fecundo,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois punidos, compensados também fomos:&lt;br /&gt;Arte, filha natural da rebeldia&lt;br /&gt;Foi o rebento que nasceu, e era Poesia...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nota&lt;br /&gt;Encontrei agora na Arca, este soneto inédito, um dos muitos em que a Alma aborda o episódio de seu amor incestuoso por nosso irmão, que motivou um humilhante flagrante por nossa mãe, uma surra e uma dolorosa separação dos irmãos, que durou anos. Alma sempre se refere a esses fatos, que marcariam sua vida e arte para sempre, como sua vivência pessoal da expulsão do paraíso terrestre, o Éden, cujo centro era a macieira do nosso pomar, debaixo da qual tudo começou...&lt;br /&gt;(Lucia Welt) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A Nau, ou O Mistério de Viver (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;632&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É tão fina a sintonia do real&lt;br /&gt;Que podemos perdê-la por descuido. &lt;br /&gt;O menor toque errado no dial&lt;br /&gt;E teremos só estática, ruído,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Além dos tais fantasmas do passado,&lt;br /&gt;Aqueles que geramos todo dia &lt;br /&gt;Formando, paralelo, um outro fado,&lt;br /&gt;Que da rota verdadeira nos desvia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, o mistério de ser e estar na vida&lt;br /&gt;É que sendo tão frágil o equilíbrio &lt;br /&gt;Como nau na procela enraivecida&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que quer ver capitão vencido e morto, &lt;br /&gt;Singramos e empenhamos nosso brio &lt;br /&gt;Qual se nos aguardasse um belo porto...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;28/09/2006 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O eterno retorno (III)(de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;631&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As crianças adoro ver brincando,&lt;br /&gt;O quanto é belo, riem e fazem rir,&lt;br /&gt;Pois vejo que conseguem transferir&lt;br /&gt;Os gestos dos adultos se esfalfando,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para um plano mais leve, sem o drama,&lt;br /&gt;Como na hora de dormir, o homem sério&lt;br /&gt;Escova o dentes, bochecha e põe pijama&lt;br /&gt;E talvez mesmo reze a um ser etéreo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como a Virgem, um santo ou o Jesus,&lt;br /&gt;Para de manhã, depois do banho,&lt;br /&gt;Café, jornal, depois fila do rebanho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E me ocorre que o homem nunca cresce,&lt;br /&gt;Tudo são jogos infantis e nos conduz&lt;br /&gt;De volta àquele riso, aquela prece...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;08/06/2005 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O Segredo da Alma (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alma Welt- No olho mágico- óleo s/ tela (tondo) de Guilherme de Faria, 60cm de diâmetro, coleção Rafael Cortez( CQC), São Paulo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Encontrei, finalmente, um soneto em que a Alma revela o pacto que ela fez com o artista Guilherme de Faria, um grande mestre paulistano, quando se conheceram no "auto-exílio" de cinco anos que Alma se impôs, naquela cidade, após a morte de nosso Vati.&lt;br /&gt;Os leitores da Internet que duvidam da "existência real" da grande poetisa, o fazem justamente pela ausência de fotos dela e de sua família, na estância, etc, no âmbito da Internet. Já me referi algumas vezes a esse pacto feito entre a Alma e o artista, único pintor brasileiro a quem a Alma confiou sua imagem, a partir desse "pacto" que aconteceu entre eles no quinto dia após o primeiro encontro, em 15/07/2001, nos Jardins, em São Paulo. Eles muito se amaram, e praticamente se viam diariamente no ateliê da Alma, onde ela posava para ele em toda a glória de sua nudez deslumbrante. Nota-se que o pintor representa os cabelos da Alma ora louros, ora totalmente ruivos. Era mesmo dificil dintinguir a predominância dos tons que pareciam se alternar conforme o dia, a luz, etc, e (pasmem!) o estado de espírito da nossa Musa (acreditem ou não) Eis o soneto:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O Segredo da Alma (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;630&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não guardar segredos para o mundo&lt;br /&gt;Foi o meu propósito e mistério.&lt;br /&gt;Ninguém como eu mesma foi mais fundo&lt;br /&gt;Sem confessionário ou batistério;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma volúpia de revelar também,&lt;br /&gt;Nos impulsos de um ingênuo coração,&lt;br /&gt;As ânsias sem alívio de oração,&lt;br /&gt;Desta alma que o corpo mal contém.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Doravante um segredo não revelo: &lt;br /&gt;Meu rosto, que dizem ser tão belo,&lt;br /&gt;E eu mesma o sei perante o espelho,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Será mostrado pelo olho de um artista *&lt;br /&gt;Cuja paixão será última conquista,&lt;br /&gt;Em minha alvura dois pontos de vermelho.*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;25/07/2001&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Notas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*sem confessionário ou batistério - Alma não se considerava católica, nem sequer cristã. Nosso pai, livre pensador e agnóstico, a retirara dos braços da Mutti, nossa mãe, a "Açoriana" (como Alma a chamava ), católica, que tentava furtivamente levar o bebê para a cidade mais próxima para batizá-la, o que não ocorreu, pois nosso pai, tendo percebido, perseguiu a cavalo a charrete conduzida por Galdério e a interceptou, tomando a Alma dos braços de sua esposa e dizendo categoricamente: "Essa é minha!"&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*será mostrado pelo olho de um artista- Única referência descoberta até agora, num texto da Alma, ao referido "pacto" com o pintor, talvez o maior reponsável por esse "Mistério Alma Welt". Mas,devo reconhecer que a Alma, com toda sua doçura, malgrado grande inteligência, e com sua tendência a confessar-se quase ingenuamente, era mesmo uma personalidade misteriosa em suas contradições, pela estranha beleza com que revestia tudo o que fazia e tocava em sua vida. Poucos seres neste mundo viveram, como ela, em permanente dimensão poética.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* Em minha alvura dois pontos de vermelho- Alma, que era de uma brancura extrema, como uma estátua de alabastro, tinha cabelos belíssimos que produziam um lindo contraste porque eram arruivados. Mas pode-se notar em alguns sonetos que, às vezes, ela se referia também, eroticamente, aos seus pelos púbicos, que eram ruivos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Expedição ao Cerro (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;629&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Bem cedinho partimos pro Jarau&lt;br /&gt;Com nossas mochilas e cajados. &lt;br /&gt;Chegamos, não mais jovens e corados,&lt;br /&gt;Tendo atravessado o rio a vau.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Perdi nessa jornada um meu amigo,&lt;br /&gt;Outros tiveram medo e desistiram&lt;br /&gt;Os amores que, valentes, persistiram,&lt;br /&gt;Surpreendentemente estão comigo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os que restamos com fé e sem cobiça,&lt;br /&gt;Mantendo a esperança como antes,&lt;br /&gt;Chegaremos à sala dos diamantes &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Onde a Salamandra se espreguiça &lt;br /&gt;Do sono milenar enquanto espera,&lt;br /&gt;Vencermos em nós mesmos nossa fera...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A prece de minha mãe (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;628&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Pobre minha mãe, que me queria,&lt;br /&gt;Sim, puxar pra baixo, receosa,&lt;br /&gt;Pois temia pela mente da guria&lt;br /&gt;Que ela via crescer em verso e prosa,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas sobretudo em beleza e impudor,&lt;br /&gt;Com aquela tendência a desnudar-me&lt;br /&gt;A pretexto de uma ânsia ou de calor,&lt;br /&gt;Com volúpia mesma, de mais dar-me...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quantas varadas finas de marmelo!&lt;br /&gt;E um dia até queimou a minha resma,&lt;br /&gt;Pois que calar queria o que mais zelo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas tudo se atenua e se evanesce&lt;br /&gt;Ao me lembrar de ouvi-la numa prece:&lt;br /&gt;“Ó Virgem, protegei-a de si mesma”... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;22/05/2006&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A morte de Allan Poe (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;627&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Nossas faltas perdoadas almejamos,&lt;br /&gt;Conseguirmos será graça alcançada,&lt;br /&gt;Pois a carga final que carregamos&lt;br /&gt;Mantém no corpo a alma lastreada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quanto agonizou o Poe poeta!...&lt;br /&gt;Muitas horas no leito, agoniado,&lt;br /&gt;Pois bêbado, caíra na sarjeta&lt;br /&gt;Onde fora parar, pauperizado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E gritava como quem se desespera,&lt;br /&gt;Não como quem avista um porto:&lt;br /&gt;Reynolds! que ninguém soube quem era.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas no último momento se aquietou;&lt;br /&gt;"Deus, se apiede de minh’alma", murmurou,&lt;br /&gt;Deu um suspiro longo e estava morto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;12/01/2007&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nota&lt;br /&gt;Encontrei agora há pouco, na Arca da Alma, este estranho e dramático soneto, que conta de maneira prodigiosamente sintética, com muita fidelidade, a morte do grande e triste poeta e escritor Edgar Allan Poe, um dos preferidos da Alma. A obra de Poe é genial e profunda, e é impressionante que ele tenha tido uma veia humorística e que os contos dessa vertente sejam muito mais numerosos que os contos de terror que o consagraram. Apenas se pode deplorar que ele fosse alcoólatra, muito pobre e infeliz. Uma alma verdadeiramente atormentada. Pesquisando, encontrei essa referência sobre este nome que Poe chamava gritando, repetidamente, em grande desespero: Reynolds! que até hoje ninguém descobriu quem foi. Eis aí um mistério literário, ou pelo menos biográfico... Alma não poderia deixar de citá-lo. (Lucia Welt)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A Lição de Rilke (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;626&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Sim, os versos vida própria têm,&lt;br /&gt;E um puxa o outro, de enfiada,&lt;br /&gt;E o que dizem, por certo não convém&lt;br /&gt;Rejeitar como se vindos fossem nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os versos são filhos da experiência... &lt;br /&gt;A certo jovem poeta reverente,&lt;br /&gt;Mestre Rilke o dizia com veemência,&lt;br /&gt;Que não podia haver escolha diferente,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E à questão feita de se poder viver&lt;br /&gt;Acaso fosse proibido de escrever,&lt;br /&gt;A si mesmo ele respondesse “posso”,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já não teria o direito de fazê-lo,&lt;br /&gt;Pois se Poesia já não nos é pão-nosso,&lt;br /&gt;Ainda é sangue, olhar, gesto e apelo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Mãe solteira (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;625&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Entre as muitas crias de minh’alma&lt;br /&gt;A dos sonetos, creio, é a primeira.&lt;br /&gt;Na verdade, com orgulho, dou a palma,&lt;br /&gt;Que filhos eles são de mãe solteira,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Amados duplamente e protegidos&lt;br /&gt;Com lambida tanta em suas peles,&lt;br /&gt;Preciosos, uns aos outros acrescidos,&lt;br /&gt;E me nutrindo bem mais que eu a eles.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Me reconstruo a cada bom soneto,&lt;br /&gt;Raríssima opção de crescimento,&lt;br /&gt;Ou “anacrônico recurso obsoleto”,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dirão alguns, sem meu conhecimento,&lt;br /&gt;Pois sei que a mim não ousarão dizê-lo,&lt;br /&gt;Vendo a árvore crescer, de tanto zelo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;19/07/2004 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O Eterno Retorno (II) (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;624&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Regressaremos ao ponto de partida &lt;br /&gt;Que foi há muito tempo, nas calendas,&lt;br /&gt;Num tempo mais sagrado para a vida&lt;br /&gt;Em que éramos nós mesmos nossas lendas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nos primórdios de uma aurora enevoada&lt;br /&gt;Em que nós nos fundíamos aos deuses &lt;br /&gt;E subíamos ao Olimpo em revoada&lt;br /&gt;Depois dos ritos de nossa sacra Eleusis,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os rituais de morte que eram vida,&lt;br /&gt;Em que descíamos ao vale noturno&lt;br /&gt;Para provas necessárias à subida. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E então saberemos nossa origem,&lt;br /&gt;Não no berço, mas no seio de Saturno&lt;br /&gt;Que é dos próprios deuses a vertigem...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Notas&lt;br /&gt;Acabo de descobrir este soneto na Arca da Alma, mais um de vários de tema análogo. E me lembrei de que, uma vez, conversando com ela à luz das estrelas, percebi que minha divina irmã acreditava mesmo nos deuses do Olimpo grego(ela uma vez afirmou ser uma "órfica"), assim como nos do Walhalla de nossos ancestrais germânicos . Olhei-a fundo nos olhos e fiquei pasma de ver neles a expressão e o brilho de uma absoluta ingenuidade e sinceridade. Sendo tão culta, às raias da erudição, como pôde ela conservar essa pureza é que o mistério e sacralidade que todos nós atribuíamos à nossa grande Poetisa. Sim, nós mesmos, sua família, a venerávamos desde guria como uma pequena deusa... (Lucia Welt)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* Eleusis- Região e templo onde ainda antes do século VII, se realisavam os rituais dos "Mistérios de Eleusis", da doutrina "órfica", o Orfismo, religião iniciática que tinha um teor reencarnacionista. Seus adeptos realizavam um ritual secreto em que realizavam a Catábase, isto é , causavam a própria morte (não se sabe como) e desciam ao reino de Hades (no soneto da Alma, "vale noturno"), o Vale do rio Letes (rio do esquecimento, de cujas águas não bebiam, (vide o Mito de Er, na República de Platão) e depois de um rito subterrâneo de escolha de uma nova vida subiam novamente para vida, como iniciados, um plano muito superior aos homens comuns.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* Saturno- Como era chamado pelos romanos o deus Cronos, o Tempo, dos gregos (deus primordial, o primeiro de todos os deuses, e que devorava os próprio filhos, isto é, todos nós). Alma aqui usou o nome romano por uma questão de rima. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Amor e Arte (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;623&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Francamente eu preferia a Morte &lt;br /&gt;Se na vida não mais houvesse Arte.&lt;br /&gt;Sei que é radical e muito forte&lt;br /&gt;Proclamá-lo aqui e em qualquer parte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas Amor é básico e irradiante&lt;br /&gt;E faz rodar a Terra no seu eixo;&lt;br /&gt;O sol e outras estrelas, disse Dante,*&lt;br /&gt;E de citar il Bardo não me queixo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se é a Arte que a vida nos sublima&lt;br /&gt;Com as cores mais belas da paleta,&lt;br /&gt;O Amor é quem pinta e ilumina,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Faz obra-prima de simples garatuja, &lt;br /&gt;Cria um Iris em pincelada preta,&lt;br /&gt;E torna lindo o filho da coruja...*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;16/08/2005&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A Confraria do Retrós (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;622&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não mais contem comigo, ó ociosos,&lt;br /&gt;Que aos mistérios preferem ninharias,&lt;br /&gt;E acreditam seus flertes mais gozosos&lt;br /&gt;Pois agradam o comum dessas gurias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não tenho tempo, que é curto e veloz,&lt;br /&gt;Embora tenha o tempo deste mundo&lt;br /&gt;E talvez de um outro, bem no fundo&lt;br /&gt;Do tear que é cobrado a todas nós.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas se a mim foi dada outra arte&lt;br /&gt;Não posso e não quero fazer parte&lt;br /&gt;Dessa grande Confraria do Retrós&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ou do tricô, crochê e outras rendas&lt;br /&gt;Que ocupam até hoje vossas prendas,&lt;br /&gt;Penélopes tardias, mas... sem voz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;07/06/2006&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Ensejos e reveses (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;621&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Terei vindo com o dom de escrever,&lt;br /&gt;Mas só recentemente descobri&lt;br /&gt;Que a minha missão é a de ser,&lt;br /&gt;Que pra isso vim e... escrevi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A inspiração que me atribuem&lt;br /&gt;Não é a minha, simplesmente,&lt;br /&gt;Mas a que causo em certa gente,&lt;br /&gt;Alento que em si mesmos alguns fruem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seria isso sugestão ou só viés,&lt;br /&gt;Mas quero acreditar pois sinto e vejo,&lt;br /&gt;O que me fez persistir após revés: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O mal que um desejoso me causara&lt;br /&gt;E que a mim me atribuíram dar ensejo&lt;br /&gt;Somente por ser bela, nua, e... rara.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nota&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este soneto que, comovida, acabo de descobrir na Arca da Alma, aborda uma questão delicada de nossas vidas. Mas como a Alma se propôs desde sempre a contar tudo, absolutamente tudo, de sua vida, e esse fato ao contrário de lhe tirar o mistério parece tê-lo aumentado (a julgar pela opiniões e debates de seus fãs e leitores na Internet) resolvi agora também revelar ou confirmar algo que a poetisa contou no seu romance A Herança: Sim, meu ex-marido Geraldo (falecido), foi esse "desejoso" a que Alma alude no seu soneto. Esse homem, apesar de ser o pai dos meu filhos, se revelou um bandido, durante o episódio da luta familiar entre a Alma, ele próprio e nossa irmã Solange de quem ele se tornaria amante e cúmplice no roubo do espólio de nosso pai. Esse conturbado episódio foi agravado pelo estupro de minha irmã por esse bandido e adúltero, que aliás, talvez por justiça divina acabou assassinado por um membro de sua quadrilha depois de ele próprio ter atirado em Solange, que acabou morrendo nos braços da Alma, num perdão mútuo que foi uma trégua na desgraça que reinava sobre esta casa. Sei que isso parece um imbrólio dos diabos, ou excessivamente romanesco, mas reamente aconteceu, e pensei que o desenlace redentor atenuaria os traumas e seqüelas deixadas por tão trágicos acontecimentos em nossa famila. Mas, a verdade é que esse estupro deixou marcas profundas na alma da doce e genial poetisa, minha irmã, declanchando uma depressão bipolar que talvez a tenha levado, anos depois, à sua morte trágica. (Lucia Welt)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Lied (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;620&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Esta dor que sinto mal se explica,&lt;br /&gt;Pois vem d’alma e não do coração,&lt;br /&gt;Que este me é alegre e justifica&lt;br /&gt;O brilho que nos olhos me verão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Poucos deram pelo pranto da guria&lt;br /&gt;Que na coxilha, sim, na vastidão,&lt;br /&gt;Cantar ouvem numa tal algaravia&lt;br /&gt;Que é somente um lied, em alemão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas nesta ambigüidade que não vêem&lt;br /&gt;Refugio-me pra ter meu próprio mundo&lt;br /&gt;Embora eu seja dele uma refém...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E apesar de alguns lances indigestos, &lt;br /&gt;A beleza que emana dos meus gestos&lt;br /&gt;Vem de fonte cristalina, bem do fundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Palmo e meio (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;619 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Poderei desatar um dia o veio,&lt;br /&gt;Libertar o coração, a alma, e tudo &lt;br /&gt;Que luta pelas asas, sem contudo&lt;br /&gt;Erguer-me mais além de palmo e meio?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todavia, o que já faz alguns pasmarem: &lt;br /&gt;Ver meus pés se despregando mal e mal &lt;br /&gt;Do solo, asas abrindo sem me alçarem&lt;br /&gt;Pois que vieram faltando o manual...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que esforço pr'unir-me sem que apele&lt;br /&gt;Com quem me fez tão bela e tão covarde!&lt;br /&gt;Tanto medo que me eriça ainda a pele!...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas persisto soneto após soneto&lt;br /&gt;E um pouco deixo ver do que prometo&lt;br /&gt;Pairando enquanto o fogo ainda arde...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;27/12/2006 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Som e fúria (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;618&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;A vida é a estória, só, de um louco,&lt;br /&gt;Cheia de som e fúria, e sem sentido,&lt;br /&gt;Como disse o Bardo esclarecido&lt;br /&gt;Para o nosso ouvido ainda mouco?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bem provável, pois não encontro par&lt;br /&gt;No meu próprio sonho, e, ao contrário, &lt;br /&gt;Tenho muito, por meu reino, que lutar &lt;br /&gt;Neste pampa que me coube por cenário.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois a Poesia é vista com reserva,&lt;br /&gt;Se não for para cantar a gauchada&lt;br /&gt;Depois do chimarrão de amarga erva.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, sombra a avançar pela coxilha,&lt;br /&gt;Seria eu apenas prenda amalucada,&lt;br /&gt;Se não fosse do patrão a bela filha...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Meu credo (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;617&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;O que me faz crer que Deus existe&lt;br /&gt;Não é uma doutrina exorbitante,&lt;br /&gt;Mas a própria Natureza que persiste&lt;br /&gt;Mesmo agredida a todo instante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desde o primeiro riso do menino&lt;br /&gt;Ao livre crescimento de uma planta;&lt;br /&gt;Ao ar que respiramos, antes fino,&lt;br /&gt;Agora grosso e pesado como manta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas pra que a descrença não me morda&lt;br /&gt;Ouço a grande soprano não mais gorda&lt;br /&gt;E um portento a tocar um violino&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Maravilhosamente e desde antes,&lt;br /&gt;Quando o arpejou e era franzino,&lt;br /&gt;Brincava e sonhava com elefantes...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Outros tempos (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;616&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Bá! Como corríamos no prado!&lt;br /&gt;Havia flores de todos os matizes,&lt;br /&gt;Risos e canções por todo lado,&lt;br /&gt;Os tempos eram outros e felizes...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhar estrelas e cantar à lua cheia,&lt;br /&gt;Algo que no ouvido ainda soa,&lt;br /&gt;Quando se apagava uma candeia&lt;br /&gt;Para na varanda estar à toa&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E ouvir os rumores circundantes&lt;br /&gt;Como os cantos vagos e dispersos&lt;br /&gt;Dos sapos e o latir de cães distantes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Também, meu pai Maestro, todo ouvidos,&lt;br /&gt;Instando-me a declamar uns versos&lt;br /&gt;Que nos pusesse a todos comovidos...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;08/11/2006 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Cada homem é uma Ilha, ou Os sonhos da Razão (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;615&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Poderemos conhecer um ser humano?&lt;br /&gt;Nossas mentes poderão sintonizar&lt;br /&gt;E as palavras e os sentidos conformar&lt;br /&gt;Sem incorrer no velho ledo engano?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cada um de nós é só uma ilha&lt;br /&gt;Perdida na imensidão do pélago,&lt;br /&gt;Ou então com espaços de uma milha&lt;br /&gt;Formamos infinito arquipélago.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os continentes?... são inflados egos,&lt;br /&gt;Contrariando a proposta do poeta&lt;br /&gt;Que estava a escrever para uma neta&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ou para alunos jovens bem bisonhos&lt;br /&gt;E tratava de mantê-los todos cegos,&lt;br /&gt;Que da Razão os sonhos são medonhos...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Fim de Análise (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;614&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;“Pense na expulsão do paraíso&lt;br /&gt;Como o teu ponto de partida,&lt;br /&gt;E a Vida não mais como o Juízo”, &lt;br /&gt;Disse a Doutora em despedida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E uma espécie de rumor convulso,&lt;br /&gt;De súbito explodiu naquela sala.&lt;br /&gt;Demorei pra perceber o meu soluço&lt;br /&gt;Vindo de onde mesmo a alma cala.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então o escuro acervo de Pandora,&lt;br /&gt;Guardado na tal caixa do Medo,&lt;br /&gt;Perdia o seu sentido desde agora. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E aninhando-me à doutora Jensen,&lt;br /&gt;(não importa o que os doutores pensem) &lt;br /&gt;Descobri que era amor o seu segredo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Final de Análisis (de Alma Welt)&lt;br /&gt;(versión al castellano de Lucia Welt)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Piense en la expulsión del paraíso&lt;br /&gt;Como tu punto mismo de partida,&lt;br /&gt;Y la vida no más como el Juicio”,&lt;br /&gt;Ha dicho la doctora en despedida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Y una especie de rumor convulso&lt;br /&gt;De pronto explotó en esa sala.&lt;br /&gt;Demoré a retomar aliento y pulso&lt;br /&gt;Porque en tal momento el alma cala. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sin embargo el acervo de Pandora&lt;br /&gt;Guardado en su caja de Miedo&lt;br /&gt;Perdía su sentido desde ahora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Y abrasándome a la doctora Jensen&lt;br /&gt;(no importa lo que los doctores piensen)&lt;br /&gt;Descubrí que amor no es engaño ledo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Resumo do Exílio (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;613&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Após sete anos de auto-exílio&lt;br /&gt;Nos jardins da grande Paulicéia,&lt;br /&gt;Perdidos meu Vati e até um filho,&lt;br /&gt;Numa rápida e dramática odisséia&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que narrei na novela de um tríptico&lt;br /&gt;Que foi intitulada assim: “Narciso”,&lt;br /&gt;E que tinha um romanesco típico&lt;br /&gt;Das gurias sem o tal dente de siso;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voltei ao meu Pampa abandonado,&lt;br /&gt;Não sem antes um artista ter amado,*&lt;br /&gt;Embora fosse ele quase idoso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas o saldo positivo da jornada: &lt;br /&gt;Com ele recobrei o antigo gozo&lt;br /&gt;De amar, poetar, viver por nada...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;12/02/2006&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Lances do Amor (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;612&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Eu cantaria aqui o meu amor&lt;br /&gt;Como outrora os bardos o faziam,&lt;br /&gt;Não apenas com palavras de louvor&lt;br /&gt;Ou aquelas que como fogo ardiam&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E subiam ao céu, qual de uma pira&lt;br /&gt;O fumo sagrado de ervas mágicas,&lt;br /&gt;Ao som plangente de uma lira&lt;br /&gt;Entre guerras e despedidas trágicas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todavia, a mim cabe relembrá-lo&lt;br /&gt;Quando no seu Porsche ele se afasta&lt;br /&gt;Jogando os meus sonhos pelo ralo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E enquanto ele carteia num cassino,&lt;br /&gt;Meu raro coração já em subasta,&lt;br /&gt;Espera o arremate do Destino...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nota &lt;br /&gt;Acabo de descobrir na Arca da poetisa, este soneto dramático, na verdade de tom levemente patético, em que Alma mais uma vez se refere com ligeira amargura e auto-ironia ao seu amor, já conhecido por todos, Rodo, nosso irmão, inveterado jogador de pôquer, aventureiro elegante, aficionado de carros esporte e que depois de moço não pára mais muito tempo aqui na estância, percorrendo os cassinos do mundo no seu Porsche. (Lucia Welt)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Lances de amor (de Alma Welt)&lt;br /&gt;(versión al castellano de Lucia Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Yo cantaría aquí mismo mi amor&lt;br /&gt;Como ayer los Bardos lo hicieran,&lt;br /&gt;No sólo con palabras de honor&lt;br /&gt;O aquellas que con fuego ardieran&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Arribando al cielo por la pira&lt;br /&gt;De humo sagrado de hierbas mágicas,&lt;br /&gt;Al sonido lloroso de una lira &lt;br /&gt;Entre guerras y despedidas trágicas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todavía cabe a mi rememorarlo, &lt;br /&gt;Si en su Porsche él se aleja sin razón &lt;br /&gt;Retirando mis sueños de su halo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Y en cuanto él juega en el casino &lt;br /&gt;Es como en la subasta, el corazón&lt;br /&gt;Anhelarse el remate del Destino… &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;03/02/2010 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Revisitando o Nada (De Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;611&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Não nasci no Pampa, vocês sabem,&lt;br /&gt;Mas na beira de uma rodovia &lt;br /&gt;De Hamburgo Novo, na pastagem&lt;br /&gt;Cortada pela estrada que havia,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E que ainda havendo, um certo dia,&lt;br /&gt;Quilômetro fui ver, o trinta e cinco,&lt;br /&gt;Cuja precisa indicação, eu já sabia,&lt;br /&gt;Dispensava uma procura com afinco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E lá estava eu olhando o nada,&lt;br /&gt;Ou as ervas do meu primeiro berço&lt;br /&gt;Num trecho comum daquela estrada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas ali havia flores e um cruzeiro&lt;br /&gt;Onde ao pé jazia aquele terço,&lt;br /&gt;Um rosário do meu Sul alvissareiro...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;No poente (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;610&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Hoje vamos mais longe, meu Galdério.&lt;br /&gt;Atrele a Zóia, nossa égua paciente.&lt;br /&gt;Quero ir ao horizonte, isto é sério, &lt;br /&gt;Sonhei que chegaremos, no poente,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A uma estranha casita de madeira&lt;br /&gt;Onde está o Amor que não conheço,&lt;br /&gt;Que me enviou recado e endereço&lt;br /&gt;Como a última casa da fronteira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu sei que isso parece delirante,&lt;br /&gt;Mas tu me conheces, tenho tino,&lt;br /&gt;Que não perco tempo e sigo adiante&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Religando os meus pontos em destaque,&lt;br /&gt;Como aquele seu jogo de almanaque,&lt;br /&gt;A fechar-me um circuito de Destino...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;15/11/2006 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A Virgem dos Rochedos (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;609&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sou devota da Virgem dos Rochedos,&lt;br /&gt;A do quadro do Leonardo, vocês sabem. &lt;br /&gt;Eu, às vezes, pra rimar, penso “penedos”,&lt;br /&gt;Que só eles já rezar quase me fazem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tanta graça sutil... e as crianças!&lt;br /&gt;Joãozinho se ajoelhando ante o primo&lt;br /&gt;Com tocantes e precoces esperanças,&lt;br /&gt;Mas o anjo certamente é que é divino.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quanto à Virgem mesma, é sugestivo&lt;br /&gt;O gesto que impõe ao seu infante&lt;br /&gt;Ou que parece protegê-lo, mas distante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas será que o priminho ele abençoa?&lt;br /&gt;Pois seria só um gesto instintivo&lt;br /&gt;Se não fosse a auréola que o coroa...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;17/05/2006 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O coração da vida (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;608&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Não te vás, ó Rodo, eu te suplico!&lt;br /&gt;Devolvo a chave, sei, fui atrevida.&lt;br /&gt;Falo demais, talvez, complico,&lt;br /&gt;Mas estamos no coração da Vida,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O mundo está aqui como lá fora.&lt;br /&gt;Ou o vejo daqui, por isso fico.&lt;br /&gt;Por quê tens, irmão, que ir embora&lt;br /&gt;Só porque só sei jogar o mico?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Coração sempre tiveste destemido,&lt;br /&gt;Sou tola e pegajosa, que sei eu?&lt;br /&gt;Anseias o teu pôquer de bandido...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não tens mais paciência com a guria.&lt;br /&gt;Onde, pois, a aventureira se meteu? &lt;br /&gt;Que escreve, chora e se angustia...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;25//11/2006&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nota&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acabo de encontrar esta jóia na Arca da Alma, que muito me comoveu. É bem da Alma, em sua paixão de toda uma vida por nosso irmão mais novo, este, sim, aventureiro, homem de ação, apaixonado por carros esporte, velocidade, e pôquer internacional, perigoso. Depois de moço, não parava em casa e corria o mundo, em longas temporadas, percorrendo cassinos e até casas clandestinas de jogo. Muitas vezes esteve em perigo de morte. Alma, companheira sua de infância, de todas as horas, sentia sua falta como de um amor perdido. (Lucia Welt)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;__________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;El corazón de la vida (Alma Welt)&lt;br /&gt;(versão al castellano de Lucia Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No te vayas, O Rodo, te lo ruego!&lt;br /&gt;Tomé la clave, lo sé, gesto atrevido.&lt;br /&gt;Hablo por demás, con tanto fuego;&lt;br /&gt;De la vida el corazón no está perdido,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;El mundo está aquí y en otras partes. &lt;br /&gt;Pero lo vedo desde acá, por eso resto.&lt;br /&gt;Sin embargo, hermano, no te apartes, &lt;br /&gt;Si como jugadora no me presto. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;El coraje tienes, desmedido…&lt;br /&gt;Soy tonta y pegajosa, qué sé yo?&lt;br /&gt;Anhelas por tu póquer de bandido…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Paciencia ya non hay con “la guria”,&lt;br /&gt;Cuyo don de aventura se perdió,&lt;br /&gt;Y solo escribe, llora y se angustia…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;31/01/2010 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Tempo dos horrores (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;607&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Vão meus bosques, vão, ó meus amores!&lt;br /&gt;Eu diria, recordando antigos Vates&lt;br /&gt;De outrora, antes do tempo dos horrores,&lt;br /&gt;Este tempo de cobiça e de "desmates".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Exageras, me dirão vagos doutores,&lt;br /&gt;Houve bomba sem a cuia nem o mate,&lt;br /&gt;Inaugurada no deserto, com louvores,&lt;br /&gt;E jogada em Hiroshima, de arremate.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esqueceste que tudo já houvera&lt;br /&gt;E Noé pra ter a Arca desmatou&lt;br /&gt;E ainda o rank dos ecólogos lidera.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas a vida ainda assim não melhorou...&lt;br /&gt;E que fizeste, além de queixas, ó guria, &lt;br /&gt;A colher flores e a vagar na pradaria?!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Asas (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;606&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;O verso tem as tais "asas ligeiras",&lt;br /&gt;Bem posso imaginar aonde vai,&lt;br /&gt;Muito além da coxilha de fronteiras &lt;br /&gt;Com o argente Pampa e Uruguai.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E mais, além do Prata, além dos mares,&lt;br /&gt;Às terras firmes da língua de Camões,&lt;br /&gt;Não terras áridas, areias e bazares, &lt;br /&gt;Onde caiu dom Sebastião com seus barões.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nada pode segurar meus pensamentos:&lt;br /&gt;O mundo é meu! Esperem a guria!&lt;br /&gt;Que asas abro a tantos outros ventos...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E se algo pode deter-me e encerrar-me, &lt;br /&gt;Não mais será da Morte a ironia,&lt;br /&gt;Beijos que a Moira insiste em dar-me...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;26/11/2006 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Diário da Guria (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;605&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Ao acordar, o meu soneto matinal&lt;br /&gt;É o primeiro alento do meu dia;&lt;br /&gt;É a página primeira de um jornal,&lt;br /&gt;Um pressuposto “Diário da Guria”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aí constam pensamentos das andanças&lt;br /&gt;Pelo prado, aqui chamado de coxilha,&lt;br /&gt;A colher flores entre criaturas mansas, &lt;br /&gt;Minha platéia de um teatro-maravilha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas não pensem que tudo ali são flores:&lt;br /&gt;Há muito sangue a escorrer ainda&lt;br /&gt;Nas páginas seguintes, dos amores&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E proezas da guria louca e linda, &lt;br /&gt;Estrela em ascensão, ba! tão modesta,&lt;br /&gt;Enquanto o Tempo escorre pela fresta...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A chorona (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;604&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Embora tendo tantos privilégios&lt;br /&gt;E vir da natureza o meu quinhão &lt;br /&gt;Somado a alguns presentes régios,&lt;br /&gt;Reconheço a humana condição&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em mim mesma, patética e sofrida&lt;br /&gt;Pois tenho uma angústia recorrente,&lt;br /&gt;Na mentira vital interrompida,*&lt;br /&gt;Da tal dura consciência tão presente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Somos para morte e disfarçamos&lt;br /&gt;Pela vã dignidade que portamos&lt;br /&gt;Pois, dirão alguns, isto é com todos!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E tu, poeta, não és senão chorona&lt;br /&gt;E pensas que essa dor só vem à tona&lt;br /&gt;Nos versos como ressumantes lodos...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(28/11/2006)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nota&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*Na mentira vital interrompida- Esta expressão remete à uma teoria psicanalítica de Otto Rank, da Escola de Viena, segundo a qual, mais ou menos aos três anos de idade, ao notar suas próprias fezes como algo decomposto que vem de si, viria à tona na criança, uma consciência súbita da Morte, que seria fatal não fosse uma espécie de "comporta" que o ser humano ergue na mente a partir desse momento crucial, separando o inconsciente do consciente, bloqueando essa consciência fatídica, para tornar a vida possível. A isto, Rank denominou " A Mentira Vital", que nos permite viver. Esta é a razão de vermos a morte quase como se fosse algo que se passa somente com o outro. Vivemos como se não fôssemos morrer. Os artistas parecem ter uma falha ou rachadura nessa comporta, por onde intermitentemente "ressumam" os eflúvios dessa consciência mortal, na forma de uma angústia criadora. O artista cria para "ludibriar" a Morte... &lt;br /&gt;(Lucia Welt) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Acalantos e sementes (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;603&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;A Poesia não foi uma opção,&lt;br /&gt;Mas sim destino certo anunciado&lt;br /&gt;Ainda em meu berço, no sobrado,&lt;br /&gt;Ao ouvir da Matilde uma canção&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que era um acalanto castelhano*&lt;br /&gt;Repleto de uma doce nostalgia, &lt;br /&gt;Alternado com o canto açoriano&lt;br /&gt;Daquela que a sorte não previa&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De sua filha, de quem só esperava&lt;br /&gt;Fosse um dia a prenda bem normal &lt;br /&gt;Sem ver que lhe a Poesia semeava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma voz destoante, mas em termos,&lt;br /&gt;Razão tanto do bem quanto do mal,&lt;br /&gt;Que Orfeu há muito paira nestes ermos...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Da Poesia (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;602&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;A Poesia é um estado de visão&lt;br /&gt;Ou uma compleição nova da mente,&lt;br /&gt;Um tanto mais bizarra na feição&lt;br /&gt;Do que o normal de toda gente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O burguês não a quer, que é só consenso,&lt;br /&gt;Pois elegeu o comum e o banal&lt;br /&gt;A que queima dia-a-dia o seu incenso&lt;br /&gt;Para que a vida mude e fique igual.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas o Poeta prefere velhos deuses&lt;br /&gt;Secretos, no silêncio dos seus livros&lt;br /&gt;Ou no sótão sem fim de seus adeuses&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao duo da Beleza e da Verdade.&lt;br /&gt;Ah!... e encontros renovados e furtivos&lt;br /&gt;Com o Amor, o Sonho e a Saudade...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;27/08/2006 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Gauchadas (de Alma Welt)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;601&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;O tenente vinha vindo, sobranceiro,&lt;br /&gt;Montado no seu pingo, muito sério,&lt;br /&gt;E eu que certamente o vi primeiro&lt;br /&gt;Puxei logo a manga do Galdério,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que já a mão levou a uma pistola&lt;br /&gt;Antiga, de dois canos, sob a faixa,&lt;br /&gt;Enquanto um pensamento, na cachola&lt;br /&gt;Diz: “Bá! Esta coisa não se encaixa&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nos dias de hoje, neste século!”&lt;br /&gt;E que por certo estávamos de volta&lt;br /&gt;E o tempo era outro, ou só espéculo &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De nossa passagem no oitocentos,&lt;br /&gt;Quando os farrapos armaram a revolta&lt;br /&gt;Que o Tempo levou com outros ventos...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;12/07/2006&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma Ilha da Mente (de Alma Welt)&lt;br /&gt;600&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um poeta descreveu a sua ilha&lt;br /&gt;Como o cenário, em sua mente,&lt;br /&gt;Da paixão, cegueira e maravilha, &lt;br /&gt;Pela sua mulher bela e demente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Faz tempo e o poema subsiste,&lt;br /&gt;Conquanto não me lembre nem do título;&lt;br /&gt;Eis, creio, no que o Poeta insiste:&lt;br /&gt;Em si mesmo escrever cada capítulo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Da legenda de amor em seu destino,&lt;br /&gt;Que é um e sempre o mesmo, malgrado&lt;br /&gt;As diferenças de cenário e de tablado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se perguntam se um verso ainda sei, &lt;br /&gt;Só citarei o som de um violino&lt;br /&gt;Que havia no poema e... que lembrei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pelo vento (de Alma Welt)&lt;br /&gt;599&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aonde foram os amigos tão fiéis&lt;br /&gt;Que alegravam a casa em burburinho&lt;br /&gt;E risos de abundantes decibéis,&lt;br /&gt;E que fariam falta no caminho?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O ressonar já se sente, da Natura,&lt;br /&gt;E não se ouve mais a tal zoada &lt;br /&gt;Dos guris a fazer caricatura&lt;br /&gt;Dos gáutchos de sela e de invernada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas no silêncio que reina, secular,&lt;br /&gt;Posso de novo minh’alma auscultar &lt;br /&gt;E saudar os que agora espectros são:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Anita, Giuseppe, Netto e Bento,&lt;br /&gt;Voltam saudosos pra rever o casarão, &lt;br /&gt;Como farrapos trazidos pelo vento...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;17/07/2006 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Metafísica, ou O vôo do mosquito (de Alma Welt)&lt;br /&gt;598&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Às três ou quatro conhecidas dimensões&lt;br /&gt;Que podemos constatar ou só inferir,&lt;br /&gt;Se juntará a mais sutil das ilações,&lt;br /&gt;Que é a nossa dimensão de Existir. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entretanto dela não sabemos nada,&lt;br /&gt;Nem o sentido, quanto mais definição.&lt;br /&gt;Todavia persistimos na jornada&lt;br /&gt;Como se isso fosse mesmo conclusão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas o simples mistério da Existência&lt;br /&gt;Descortina para nós o Infinito&lt;br /&gt;Que por certo disso tudo é a essência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas o que é a Essência não sabemos,&lt;br /&gt;Pois ainda nem sabemos do que vemos&lt;br /&gt;Além do simples vôo de um mosquito. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quase (de Alma Welt)&lt;br /&gt;597&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alguns de nós ficamos quase ricos,&lt;br /&gt;Alguns, quase felizes, mas nem tanto;&lt;br /&gt;Outros restamos quase invictos,&lt;br /&gt;E houve um que quase virou santo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De nós, de nosso grupo quase unido,&lt;br /&gt;Houve os que quase foram pro Tibet,&lt;br /&gt;E um de nós, que foi mais atrevido,&lt;br /&gt;Quase foi pra Sibéria andando a pé.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas todos, quase todos, nos perdemos&lt;br /&gt;De nossos sonhos perfeitos, de guri,&lt;br /&gt;Que quase alguns de nós ainda temos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Somente eu, que quase me cumpri,&lt;br /&gt;Estou firme, quase, nesta estância,&lt;br /&gt;Fiel ao quase-quase meu, da Infância...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;09/01/2007&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Quota de Poesia (de Alma Welt)&lt;br /&gt;596&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A todos é servida a sua quota&lt;br /&gt;De poesia e de beleza nesta vida,&lt;br /&gt;Por menos que isto seja algo de nota&lt;br /&gt;Por ser muito guardada e escondida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os ingênuos a possuem em alto grau&lt;br /&gt;E os burgueses não têm nem o verniz&lt;br /&gt;Daqueles que procuram o Graal,&lt;br /&gt;E do feliz que ser poeta sempre quis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A outros ela mirra sem adubo,&lt;br /&gt;E no fim ficam perdidos, em desgraça,&lt;br /&gt;A esmurrar as paredes de um cubo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois a Poesia é dada a nós de graça&lt;br /&gt;Mas somente os eleitos a merecem&lt;br /&gt;E plantam suas sementes, que florescem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De rosas e margaridas (de Alma Welt)&lt;br /&gt;595&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As rosas do jardim de minha mãe,&lt;br /&gt;Apesar de sua beleza inconteste,&lt;br /&gt;Ainda me intimidam, não estranhem:&lt;br /&gt;Seus espinhos não afastam só a peste.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Báh! Dura imponência a dessas rosas!&lt;br /&gt;São rainhas, sim, puras e frias. &lt;br /&gt;Seus espinhos não as tornam mais formosas,&lt;br /&gt;Que mil reservas nada valem às gurias &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que afastam quem lhes pode querer bem,&lt;br /&gt;Só açulando o mal intencionado,&lt;br /&gt;Que, esse... o mundo sempre tem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E lá vou eu colher a margarida&lt;br /&gt;Cujo simplório pudor é demonstrado&lt;br /&gt;Num bem-me-quer eterno... pela vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;08/09/2005&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Pequeno Tufo de Ervas (de Alma Welt)&lt;br /&gt;594&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Existe um simples trecho em meu jardim&lt;br /&gt;Em que um tufo de ervas me fascina;&lt;br /&gt;É quase um mistério dentro em mim,&lt;br /&gt;Mas aconchego que sinto, de menina,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao olhar o tal montículo arbitrário,&lt;br /&gt;Com três ou quatro espécies de capim,&lt;br /&gt;E um ou outro botão meio ordinário&lt;br /&gt;De uma florzinha pangaré, cor de carmim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E percebo que é o dom que recebi&lt;br /&gt;De enxergar sempre o todo na porção&lt;br /&gt;E o universo contido aqui e ali&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nas pequeninas coisas que me sondam&lt;br /&gt;E que fizeram de mim minha canção,&lt;br /&gt;A afastar as sombras que me rondam...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;16/07/2005 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Paraísos (de Alma Welt)&lt;br /&gt;593&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não escolhemos bem a que viemos,&lt;br /&gt;Mesmo assim nós podemos transformá-lo;&lt;br /&gt;O espaço de manobra que nos demos&lt;br /&gt;Abrirá uma coxilha ou um valo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há quem do paraíso faz o inferno&lt;br /&gt;E d’um palácio a gruta dos horrores;&lt;br /&gt;Há quem de uns farrapos faça um terno&lt;br /&gt;E há quem os prazeres torne em dores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas eu que fui expulsa do meu Éden,&lt;br /&gt;Que era a pura inocência do brincar&lt;br /&gt;De crianças que se tocam e se medem,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tive, sim, que o paraíso restaurar&lt;br /&gt;Dentro de mim, pois agora já sabia&lt;br /&gt;A pureza que no corpo se escondia...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Caleidoscópio (de Alma Welt)&lt;br /&gt;592&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Veja o mundo: é um caleidoscópio&lt;br /&gt;Que somente faz sentido nos detalhes;&lt;br /&gt;As peças não combinam, há muitos males&lt;br /&gt;E o sonho é o nosso alívio e ópio...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há tanto horror e dores, que nem sei...&lt;br /&gt;É difícil acreditar no bem divino&lt;br /&gt;Quando ontem morreu um bom menino&lt;br /&gt;Aqui perto, e apenas por ser gay.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu mesma, ainda viva, estou no lucro&lt;br /&gt;Por ser estranha e um tentador apelo&lt;br /&gt;A tanta macheza e a tanto xucro,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com esta brancura e ruivo pelo,&lt;br /&gt;Com estes olhos verdes de coxilha,&lt;br /&gt;E sendo do patrão a doida filha...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;12/01/2007 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A girar (de Alma Welt)&lt;br /&gt;591&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Me colocar no meio da coxilha &lt;br /&gt;Com os braços abertos a girar&lt;br /&gt;E a receber no corpo a maravilha&lt;br /&gt;Da brisa deste Pampa e então voar!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É como sentiria este momento,&lt;br /&gt;No auge da beleza e juventude,&lt;br /&gt;Se não fosse o alçar do pensamento&lt;br /&gt;Que enquanto sufocado ainda me ilude,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas teimando em voltar à consciência&lt;br /&gt;Me faz sentir o mundo como um logro&lt;br /&gt;(e agora isso ocorre com freqüência)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A esta que apostou tanto na vida&lt;br /&gt;A ponto de vivê-la mesmo em dobro&lt;br /&gt;Ao dar-lhe tão poética acolhida...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;06/01/2007 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vigilância (de Alma Welt)&lt;br /&gt;590&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pra construir uma vida em beleza,&lt;br /&gt;Foi necessária certa vigilância;&lt;br /&gt;Não devo transigir com a estreiteza&lt;br /&gt;Que ronda estes pagos e esta estância.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Falecido meu Vati, que era o Rei,&lt;br /&gt;Tive muito que lutar para manter&lt;br /&gt;Cada umbu (e o bosque preservei),&lt;br /&gt;E continuo a Natureza a defender...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas me refiro também à altitude &lt;br /&gt;Da mente e da alma em sua pureza&lt;br /&gt;Que mantive todavia como pude&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apesar de um início em dor e trauma,&lt;br /&gt;E de algumas mulheres a presteza&lt;br /&gt;Em julgar o coração da pobre Alma...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nota &lt;br /&gt;Acabo de encontrar este soneto na Arca da Alma, em que mais uma vez minha irmã se refere ao trauma de sua infância, quando foi flagrada junto com o Rodo pela nossa Mutti, "a Açoriana" , os dois nuzinhos debaixo da "macieira sagrada" do nosso pomar. Mas com "mulheres", no plural, parece se referir também à nossa irmã mais velha Solange, que perseguiu a Alma desde crianças, por ciúmes e inveja. Mas é bom que os leitores saibam que elas se perdoaram mutuamente, na morte de Solange nos braços da Alma, cena tocante que está descrita no final do romance A Herança . &lt;br /&gt;(Lucia Welt) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depoimento da Alma (de Alma Welt)&lt;br /&gt;589&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A consciência da Vida e da Morte&lt;br /&gt;Me impediu de pensar em ninharias&lt;br /&gt;E de ser simples prenda e com sorte&lt;br /&gt;Levar a vida simples das gurias; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Poeta, sou antena de mistérios&lt;br /&gt;Tanto quanto do sentido do real.&lt;br /&gt;Amo tanto o peão de sonhos ideal&lt;br /&gt;Quanto os nossos pícaros gaudérios. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E neste trecho do Pampa que me coube &lt;br /&gt;Vagar, amar, colher flores, cavalgar&lt;br /&gt;Desde muito jovem sempre soube&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do meu destino breve, mas fecundo,&lt;br /&gt;Já que posso um quadro nítido deixar&lt;br /&gt;Do meu percurso d’Alma e de meu mundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Duplo etéreo (de Alma Welt)&lt;br /&gt;588&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ter a minha vida acompanhada,&lt;br /&gt;A cada passo e a cada pensamento,&lt;br /&gt;Por sonetos, qual diário da jornada,&lt;br /&gt;Foi, bem cedo, a saída e o alento&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para viver em dobro, alternativa&lt;br /&gt;Para quem tem, como eu, contados dias,&lt;br /&gt;Pois que me vendo de novo nas poesias&lt;br /&gt;Reitero meu viver, e estou mais viva.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esse diário teve um custo quando nova,&lt;br /&gt;Pois fez de minha Mutti minha crítica&lt;br /&gt;E tenho marcas no traseiro como prova;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas tendo em duas vidas duplo etéreo,&lt;br /&gt;Percebo agora que atingi a feição mítica&lt;br /&gt;Que faz de mim mesma o meu Mistério.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De poetas e poesia (de Alma Welt)&lt;br /&gt;587&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Poetas somos poucos, não adianta &lt;br /&gt;Dizerem que é qual serviço público&lt;br /&gt;Ou que poeta almoça mas não janta,&lt;br /&gt;Que hoje o leitor é tão abúlico...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A poesia não morreu, está presente &lt;br /&gt;Nas letras das canções que o povo canta&lt;br /&gt;E deixa n’alma a tão grata semente&lt;br /&gt;Que morrendo, sim, germina em planta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Poesia está em tudo, é parceira&lt;br /&gt;Do tal homem do povo, dia-a-dia,&lt;br /&gt;Que sem ela ninguém suportaria&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vir ao Hotel Mundo em dura estada&lt;br /&gt;Ou nascer de cruel parto sem parteira,&lt;br /&gt;Se não temos mais Queen Mab* nossa fada...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nota&lt;br /&gt;*Queen Mab - Rainha Mab, a "parteira das fadas", isto é, das ilusões, que aparece no sono dos apaixonados, descrita minuciosamente (em sua carruagem de casca de nóz, puxada por minúscula parelha) no delirante monólogo de Mercutio, na Cena IV do Primeiro Ato da peça Romeu e Julieta, de Shakespeare.&lt;br /&gt;(Lucia Welt) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Presságio (de Alma Welt)&lt;br /&gt;586&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um corvo crocitando sobre um tronco...&lt;br /&gt;Mas não há corvo aqui no Pampa!&lt;br /&gt;Alma, eu sei que não passo de um bronco,&lt;br /&gt;Mas é coisa que a mente, só, destampa, &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Veres sinais em tudo... é meio vago.&lt;br /&gt;É somente um bacurau, é bem verdade&lt;br /&gt;Que esse bicho tem fama de aziago&lt;br /&gt;E há quem não o queira pela herdade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas sou teu Galdério, e te protejo, &lt;br /&gt;Vem logo, minha guria, e descontraia&lt;br /&gt;Esse rosto que é a luz que sempre vejo;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na coxilha a tocar nossa boiada,&lt;br /&gt;Que a peonada o veja quando saia,&lt;br /&gt;Mas nunca como última invernada...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De Beethoven entre colegas (de Alma Welt)&lt;br /&gt;585&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu pai, dito “o Maestro” ou nosso “Vati”&lt;br /&gt;Era um músico talentoso e de primeira;&lt;br /&gt;Tinha Beethoven como entrada e saideira&lt;br /&gt;Assim como Goethe era o seu Vate.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No salão de nossa casa um certo dia&lt;br /&gt;Recebendo um colega que não via&lt;br /&gt;Desde os tempos de ginásio na Alemanha&lt;br /&gt;Teve dele a má surpresa desta manha:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não gosto de Beethoven, me perdoem&lt;br /&gt;Pois é muito marcial e prepotente,&lt;br /&gt;Prefiro o Chopin que é mais dolente.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E eu, guria, do Maestro logo ouvi :&lt;br /&gt;“Meu amigo, não gostares de Beethoven&lt;br /&gt;Não fica mal pra ele... só pra ti!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(27/07/2006)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nota&lt;br /&gt;Acabo de encontar este soneto inédito na Arca da Alma, que me pareceu delicioso, e que retrata bem o espírito de nosso "Vati" ("papai" em alemão), que era um médico que não exerceu a profissão porque a grande música clássica o tomou completamente, e era um pianista virtuose. (Lucia Welt) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O gaúcho triste (de Alma Welt)&lt;br /&gt;584&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um gaúcho triste aqui da estância&lt;br /&gt;Contou-me que perdeu a genitora&lt;br /&gt;Muito cedo, ainda em sua infância&lt;br /&gt;E que isso era a razão de usar espora&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E também a chibata em seu cavalo,&lt;br /&gt;E que então não saberia mais montar&lt;br /&gt;Se eu lhe tirasse esse direito ralo&lt;br /&gt;(continuou algum tempo a rezingar).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então eu perguntei-lhe o que queria&lt;br /&gt;Para deixar de lado esses tormentos&lt;br /&gt;Ao pobre do animal, filho dos ventos...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E à réplica do olhar sem mais rodeios,&lt;br /&gt;A condição implícita que havia,&lt;br /&gt;Rasguei o meu vestido bem nos seios.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nota&lt;br /&gt;Encantada, acabo de encontrar na Arca da Alma, este soneto inédito, que é uma amostra perfeita de como a minha doce irmã era, e como podia reagir de maneira imprevista e surpreendente, por impulsos de seu generoso coração, quando se tratava de suas mais nobres convicções. (Lucia Welt) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Trato (de Alma Welt)&lt;br /&gt;583&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Façamos trato, ó dias que me cabem!&lt;br /&gt;Não quero ser solene ou prepotente&lt;br /&gt;Mas retardem só as horas que me sabem&lt;br /&gt;E guardem meu minuto impaciente,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aquele mesmo do último respiro&lt;br /&gt;Que a tradição romântica reclama,&lt;br /&gt;Eufemística, chamando de suspiro,&lt;br /&gt;E que presumo terei em minha cama.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De amor desprendido e de doçura&lt;br /&gt;Eu em troca prometo um pensamento&lt;br /&gt;Que sei das altas mentes a procura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E não me cortem antes a palavra,&lt;br /&gt;Não me neguem o verso como o vento&lt;br /&gt;Que a coxilha percorre e tanto lavra!...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;14/01/2007&lt;br /&gt;Nota&lt;br /&gt;Emocionada, acabo de encontrar na Arca da Alma, nesta madrugada, este pungente "trato" da Poetisa com as horas que lhe restavam, e das quais que ela tinha plena e dolorosa consciência. Também, mais tragicamente ainda, ela não morreria em sua cama...&lt;br /&gt;(Lucia Welt) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A pedra e a rosa (de Alma Welt)&lt;br /&gt;582&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O ser humano tem a ânsia da fusão,&lt;br /&gt;Do misturar-se ao outro docemente&lt;br /&gt;Pra estar além da inata solidão&lt;br /&gt;Em que o corpo é cárcere da mente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas quantos vãos rodeios sedutores&lt;br /&gt;A alma pra se unir deve fazer, &lt;br /&gt;Tão próxima do outro, seus pendores,&lt;br /&gt;E tendência a tão só permanecer&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E de restar no meio do caminho &lt;br /&gt;Por medo do silêncio que ali medra&lt;br /&gt;Depois de todo o imenso burburinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois a procura é antiga e duvidosa&lt;br /&gt;Como a filosofal e rara pedra&lt;br /&gt;Que cria ouro, em vez de pura rosa...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;19/01/2005&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nota&lt;br /&gt;Acabo de descobrir, nesta manhã, este notável soneto inédito na Arca da Alma, que trata do amor como a procura elaborada de uma dúbia transmutação alquímica, uma amálgama que deveria criar a rosa, em vez do cobiçado ouro.&lt;br /&gt;Todavia imagino que as pessoas preferem (como eu) a Alma em sua faceta dominante, que é a confessional, isto é, quando ela fala na primeira pessoa, e de si mesma, o que é o seu encanto, pois podemos nos identificar com ela em sua alma feminina universal.&lt;br /&gt;(Lucia Welt)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De moinhos e monjolos (de Alma Welt)&lt;br /&gt;581&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Creio que tudo é baseado na visão&lt;br /&gt;Que temos do real em nossa mente,&lt;br /&gt;E o mundo pode ser uma canção &lt;br /&gt;Ou inferno de um mal inconsciente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acusada de viver em fantasia &lt;br /&gt;Desde tenra guria nesta estância, &lt;br /&gt;Cedo descobri em minha infância&lt;br /&gt;Que fora do sonho pouco havia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E erguendo um mundo verso a verso&lt;br /&gt;Como um pedreiro assenta seus tijolos&lt;br /&gt;Nos muros de um castelo controverso,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Investi contra gigantes dentro e fora&lt;br /&gt;Que não eram moinhos, mas monjolos&lt;br /&gt;Que a vaidade renitente corrobora...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Nova Invernada (de Alma Welt)&lt;br /&gt;580&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando a noite é clara, de luar,&lt;br /&gt;Eu me ergo do leito sem demora&lt;br /&gt;E no jardim de antes e de agora&lt;br /&gt;A lua mira esta Alma caminhar,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Muito branca, eu sei, o que assusta&lt;br /&gt;Algum peão desperto aqui da estância&lt;br /&gt;Que logo seu bivaque e o mate susta&lt;br /&gt;E se põe a tremer como na infância.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E se estou antecipando o que farei &lt;br /&gt;Por anos a porfia, eu os previno,&lt;br /&gt;Que pelo amor a esta terra voltarei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se lograr com berreiros ou cantada&lt;br /&gt;Dobrar o Capataz nosso, divino,&lt;br /&gt;A coxilha me dará nova invernada...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;12/01/2007&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nota&lt;br /&gt;Realmente, Alma cumpriu sua promessa e deve ter "dobrado" o nosso Grande Capataz, pois até hoje a avistamos aqui na estância, vagando no jardim ou na coxilha em noites claras de luar, o que no início nos assustava, agora não mais... (Lucia Welt) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Balanço da Vida (de Alma Welt)&lt;br /&gt;579&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Poeta, não deploro em minha vida&lt;br /&gt;Absolutamente nada nada...&lt;br /&gt;E “a Açoriana”, Mutti, mãe perdida &lt;br /&gt;Que tão cedo me deixou, foi perdoada!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tive alguns percalços, mesmo traumas &lt;br /&gt;Que a qualquer outra teriam destruído;&lt;br /&gt;Até vivo assombrada pelas almas&lt;br /&gt;Daqueles de destino interrompido,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se é que isso existe, pois o povo&lt;br /&gt;Diz que só peru morre na véspera, &lt;br /&gt;E eu sei que esse dito não é novo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas a dor que carrego é a de viver &lt;br /&gt;E amando tanto a vida, já saber &lt;br /&gt;O dia e quase a hora que me espera.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"O espectro da rosa" (de Alma Welt)&lt;br /&gt;578&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mulheres, há uma dor em nosso peito&lt;br /&gt;Fininha, insidiosa, permanente,&lt;br /&gt;Que até por ser crônica e latente&lt;br /&gt;Despercebida passa em nosso leito&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na hora de dormir por entre os sonhos,&lt;br /&gt;Que na verdade são os nossos bálsamos,&lt;br /&gt;Quando espectros rosáceos e bisonhos&lt;br /&gt;Convidam à dança e então valsamos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com um Nijinsky leve e vaporoso&lt;br /&gt;Ou outro fauno qualquer insuspeitado&lt;br /&gt;E que venha socorrer o nosso fado&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De eternas princesas ou donzelas&lt;br /&gt;Do borralho e do baile duvidoso &lt;br /&gt;De abóboras de pobres Cinderelas...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;11/09/2006 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A parte que nos coube (de Alma Welt)&lt;br /&gt;577&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A memória é a dádiva do Tempo,&lt;br /&gt;Uma concessão ao nosso apelo&lt;br /&gt;De poder andar a contrapelo,&lt;br /&gt;Apagando ali um contratempo,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Corrigindo aqui com um retoque,&lt;br /&gt;Correndo mais depressa a bobina&lt;br /&gt;Já que arrastamos a reboque&lt;br /&gt;O peso antigo da carga feminina&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que atrasa nossas metas e anseios&lt;br /&gt;Se sonhamos demais e pouco agimos&lt;br /&gt;A esperar chegar lá por outros meios&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que não trabalho e suor de nosso pão&lt;br /&gt;Que aos homens caberiam e a nós não,&lt;br /&gt;Que esperando tanto... em dor parimos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nota&lt;br /&gt;Neste soneto que acabo de descobrir na Arca da Alma, a Poetisa, que era profundamente feminista, deixa transparecer uma ironia ou crítica à tendência feminina de separar os papéis da condição humana, entre homem e mulher, o que atrazou o nosso desenvolvimento ao longo da História, já que tomamos ao pé da letra as palavras de Deus no Gênese. Entretanto devo dizer que isso vem mudando rapidamente nas quatros últimas décadas, pois as mulheres já contam com o trabalho fora de casa e a idéia da auto-suficiência, apesar de carregarem a carga da maternidade. (Lucia Welt)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alma Welt psicografada por Lucia&lt;br /&gt;576&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Depois de fazer valer meu canto,&lt;br /&gt;Chocou-me me ver tão odiada&lt;br /&gt;Pelos meus colegas do Recanto,&lt;br /&gt;Eu... que só queria ser amada...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só porque morri em "circunstância&lt;br /&gt;Suspeita", e de maneira romanesca.&lt;br /&gt;Por me velarem nua aqui na estância&lt;br /&gt;Até Matilde lhes pareceu farsesca&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao lançar toalha tão rendada&lt;br /&gt;Sobre minha alvura de alabastro&lt;br /&gt;Finalmente coberta, amortalhada,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E gritando: “Cubram a minha guria!”&lt;br /&gt;Afastem-se seus ímpios! E eu castro&lt;br /&gt;Aquele que falar do que não via!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alma Welt&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;07/01/2010 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nota&lt;br /&gt;Esta madrugada, compelida subitamente a escrever, emocionada recebi a surpreendente mensagem psicografada de minha saudosa irmã, a grande poetisa Alma Welt, que depois de muito hesitar resolvi publicar aqui. Doeu-me saber que, além de tudo, ela sofreu também com sua expulsão póstuma do Recanto das Letras, cinco dias depois que publiquei no dia 21/01/2007, na sua página (por encontrá-la aberta, com a senha salva) a notícia de sua morte ocorrida no dia anterior. O escândalo que ali se seguiu à notícia da morte da Alma, foi no mínimo apoteótico e resultou também na expulsão do pintor e cordelista Guilherme de Faria (que foi quem descobriu e lançou a Alma em São Paulo) pois o Editor e os moderadores daquele portal encasquetaram que a Alma era um heterônimo dele (o que faria de mim, também um heterônimo (risos). (Lucia Welt)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_____________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que eu temia... aconteceu: fui compelida a pegar de novo a caneta e compulsivamente escrever este soneto que me foi enviado rapidamente, quase de um jato, pela Alma. Estou devastada pela revelação, que no fundo eu intuía. Não sei o que é pior, esta verdade ou a que tão precipitadamente todos nós, sua família, acreditamos. Aquele horrível delegado Benotti afinal tinha razão... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Revelação (novo contato psicográfico da Alma)&lt;br /&gt;575&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“A todos que na vida me amaram&lt;br /&gt;E continuam a me amar ainda agora,&lt;br /&gt;Que tanto minha morte amargaram&lt;br /&gt;Acreditando que eu quis ir embora,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Devo agora revelar, e eu sinto tanto,&lt;br /&gt;Que tenham que passar por isto ainda:&lt;br /&gt;As marcas que lhes causaram espanto&lt;br /&gt;E cuja dor espero esteja finda,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não foram causadas pela pedra,&lt;br /&gt;Que jamais teria atado ao meu pescoço,&lt;br /&gt;Mas pela luta na praia do meu poço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Também saibam que embora dominada,&lt;br /&gt;Por dois bandidos cem vezes violada,&lt;br /&gt;Rancor neste ventre ainda não medra...”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alma Welt&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;07/01/2010 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Tempo suspenso (de Alma Welt)&lt;br /&gt;574&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não me fales, amor, de um novo ano, &lt;br /&gt;Não o vejo, vês, estou sonhando?&lt;br /&gt;A coxilha corrobora o meu engano,&lt;br /&gt;O próprio Tempo aqui sonha pairando,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Imóvel, suspenso, entorpecido,&lt;br /&gt;A confundir os tempos e as idades,&lt;br /&gt;Por isso este meu Pampa é dolorido&lt;br /&gt;E pleno de guerras e saudades.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Anita veio esta manhã à revelia&lt;br /&gt;Do sapateiro embriagado contumaz&lt;br /&gt;E amor confidenciou-me, de guria,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por aquele italiano belo e audaz&lt;br /&gt;Que hasteou farrapos, como o Bento, &lt;br /&gt;E no cais espera só soprar o vento...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;09/07/2004&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Femme-enfant(de Alma Welt)&lt;br /&gt;573&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O grande moto da mulher é o amor&lt;br /&gt;Que faz dela esse ser meio encantado&lt;br /&gt;E até a pobre Amélia do cantor,&lt;br /&gt;Passava fome, sim, mas a melado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dêem-nos, pois, abraços e carinhos,&lt;br /&gt;Beijinhos sem ter fim também é bom...&lt;br /&gt;O importante é manter o nosso tom&lt;br /&gt;E não nos deixar a ver barquinhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Conquanto já não digam “femme-enfant”,&lt;br /&gt;Somos débeis, infantis, eu reconheço,&lt;br /&gt;E eis porque ainda temos tanto fã.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas se nos querem comprar com vil metal&lt;br /&gt;Ou nos pedirem trégua e recomeço&lt;br /&gt;Com um beijo tens recibo e nosso aval...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O juramento (de Alma Welt)&lt;br /&gt;572&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando guria eu fiz um juramento&lt;br /&gt;De jamais ceder ao comezinho,&lt;br /&gt;De não perder meu tempo e meu talento&lt;br /&gt;Com a tolice, o falso e o mesquinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não me veriam a sorte lamentar&lt;br /&gt;E muito menos jogar conversa fora;&lt;br /&gt;Jamais um prêmio ou objeto cobiçar&lt;br /&gt;E viver somente o aqui e agora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quase uma vida passou e me cumpri,&lt;br /&gt;E posso afinal congratular-me:&lt;br /&gt;Meu tempo em ninharia não perdi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E olhando para trás me vejo inteira,&lt;br /&gt;Límpida e capaz de amar e dar-me&lt;br /&gt;A quem bem me sabendo ainda me queira...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;25/09/2006 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Enigma (de Alma Welt)&lt;br /&gt;571&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nunca hei de perder a esperança&lt;br /&gt;De encontrar no código do verso&lt;br /&gt;A resposta oculta ou a balança,&lt;br /&gt;Em que pese o mundo controverso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que pesa mais: amor ou sorte?&lt;br /&gt;Virtude ou a força do querer,&lt;br /&gt;Malícia ou o senso de dever, &lt;br /&gt;Coragem ou o medo só, da Morte?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enfim, qual o sentido que buscamos&lt;br /&gt;Todos, simplesmente de viver,&lt;br /&gt;Mistério com o qual nos defrontamos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao som do próprio grito agoniado, &lt;br /&gt;No primeiro despertar já a sofrer, &lt;br /&gt;Um Ser perplexo no Enigma lançado...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;06/11/2006&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cavaleiro Andante (de Alma Welt)&lt;br /&gt;570&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não peçam ao Poeta contenção,&lt;br /&gt;Modéstia, pudores ou receios.&lt;br /&gt;A poesia é a missão por outros meios&lt;br /&gt;De alargar a mente e o coração.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E vou por este pampa metafísico&lt;br /&gt;Que fiz das cercanias desta estância&lt;br /&gt;Qualquer, em seu real limite físico,&lt;br /&gt;Universo de amor e de constância.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eis a minha lealdade de viver&lt;br /&gt;E de pensar a vida em alegria&lt;br /&gt;Sem descartar a carga de sofrer,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como um louco gaudério vai avante,&lt;br /&gt;Do pampeiro a singrar a ventania&lt;br /&gt;No seu pingo qual fidalgo e Rocinante...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A missão do Poeta (de Alma Welt)&lt;br /&gt;569&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tantos pedem ao poeta caridade&lt;br /&gt;No sentido social ou do dever;&lt;br /&gt;Acham pouco acreditar na validade&lt;br /&gt;Da beleza, da verdade e do Ser.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Julgam que Poesia é sentimento,&lt;br /&gt;Ou militância filantrópica e urgente,&lt;br /&gt;E cheios da culpa do momento&lt;br /&gt;A consideram alienada ou demente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas viver em sintonia magistral&lt;br /&gt;Com o Ser em sua sina de pensar&lt;br /&gt;E se tornar pro outro esse fanal&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que desperta em nós a divindade,&lt;br /&gt;Faz o homem a si mesmo voltar&lt;br /&gt;E ao seio da esquecida humanidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;06/05/2006 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Muro (de Alma Welt)&lt;br /&gt;568&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No fundo do jardim existe um muro&lt;br /&gt;O qual desde guria eu suspeito&lt;br /&gt;Que separa o meu presente do futuro&lt;br /&gt;O lado claro e o escuro do meu peito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Suponho que os dois pólos profundos&lt;br /&gt;Separam para todos estes mundos,&lt;br /&gt;Não somente em mim com o meu sisma,&lt;br /&gt;Sonhos, medos, devaneios e carisma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas se a Poesia nasce do absurdo&lt;br /&gt;Como a invisível presença de uma ilha &lt;br /&gt;No maternal e imenso seio da coxilha,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que me dá esse ar vago e passo etéreo&lt;br /&gt;É que ouço uma trilha, num tom surdo,&lt;br /&gt;Na cercania desse muro de mistério...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Literalmente nua (de Alma Welt)&lt;br /&gt;567&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para escrever um poema me desnudo&lt;br /&gt;Eis porquê por aqui mais de um peão&lt;br /&gt;Flagrando minha brancura ficou mudo&lt;br /&gt;E a Mutti quis mandar-me pra Cantão,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quer dizer, do outro lado deste mundo&lt;br /&gt;Que não pode aceitar os devaneios&lt;br /&gt;Da guria do Pampa e seu “desmundo”,&lt;br /&gt;Seu pronto desnudar-se sem receios.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Razão pura que pudor ou medo mata&lt;br /&gt;E o coração desnudo em sua pureza&lt;br /&gt;Me exigem reincidir, não por bravata&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas por bela lealdade de meu ser&lt;br /&gt;À essa dádiva de amor e de beleza&lt;br /&gt;Que desnuda faço assim por merecer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;17/08/2006 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O pensar do coração (de Alma Welt)&lt;br /&gt;566&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pensando bem, não creio noutro mundo,&lt;br /&gt;Mas crer não tem a ver com o pensar, &lt;br /&gt;Meu coração quer sempre ir mais fundo&lt;br /&gt;E tinha que a barreira ultrapassar&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do ser-aqui, do estar-aí, do vir-a-ser &lt;br /&gt;E de toda essa embrulhada da razão &lt;br /&gt;Que atormenta a mente por não crer&lt;br /&gt;Deixando a fé ao relutante coração.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas... que posso eu, pobre guria,&lt;br /&gt;Saber além da beleza e da poesia,&lt;br /&gt;Que isso já são dádivas demais,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E certamente vêm de além do muro &lt;br /&gt;Que existe em meu jardim, aqui atrás, &lt;br /&gt;Limite entre meu ser e... seu escuro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A chave da Poesia (de Alma Welt)&lt;br /&gt;565&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A memória é tudo o que somos,&lt;br /&gt;Já que a menor célula a retém&lt;br /&gt;E a transmite além de cromossomos&lt;br /&gt;Como sonho que o coração mantém,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Herdeiro de um primeiro devaneio&lt;br /&gt;Que cresceu e se tornou obsessão&lt;br /&gt;De toda uma estirpe de permeio&lt;br /&gt;Até nós em nosso próprio coração.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu que persigo a poesia que há em tudo,&lt;br /&gt;Na raiz de cada evento, em cada ser&lt;br /&gt;E que é chave que não requer estudo,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Procurei em vão nos livros o poder&lt;br /&gt;Que um violeiro analfabeto pode ter,&lt;br /&gt;Em que, pasma de mim, eu me transmudo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;25/07/2007 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Amores perdidos (de Alma Welt)&lt;br /&gt;564&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Amores perdidos não houveram,&lt;br /&gt;Que amor não se deixa para trás...&lt;br /&gt;Aquilo que fruímos, que nos deram,&lt;br /&gt;De nós mesmos para sempre parte faz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por isso não há queixas ou lamentos&lt;br /&gt;Que tenham validade ao coração&lt;br /&gt;Que não os considera vãos momentos,&lt;br /&gt;Os que se não renovam e que se vão&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como folhas de outono em ventania,&lt;br /&gt;Leves, secas, mas douradas na feição&lt;br /&gt;A fazer do próprio vento a alegria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E se a árvore desgalhada permanece,&lt;br /&gt;Com os membros retorcidos de aflição,&lt;br /&gt;Faz-se inverno (talvez morra) e refloresce. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(19/10/2006)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Leste do Éden (de Alma Welt)&lt;br /&gt;563&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na vida, minhas etapas alteradas&lt;br /&gt;A ordem tive, raiz dos dissabores&lt;br /&gt;Profundos da alma, em trapalhadas,&lt;br /&gt;A confundir ainda amor e amores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dei-me cedo, e guria fui mulher&lt;br /&gt;Punida pelo amor tal qual foi Eva.&lt;br /&gt;Desfolhada não joguei o mal-me-quer,&lt;br /&gt;Que ser amada é só o que me leva.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E quanto paguei por minha virtude,&lt;br /&gt;Como se crime fora ou só defeito&lt;br /&gt;O que de melhor dei enquanto pude!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois, do Éden no Levante foi preciso&lt;br /&gt;Chorar de dor o belo corpo rarefeito&lt;br /&gt;De quem nos expulsou do paraíso...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;03/04/2005&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A canção do bem-te-vi (de Alma Welt)&lt;br /&gt;562&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A canção do bem-te-vi está nos genes&lt;br /&gt;E a maneira de um vestir o paletó&lt;br /&gt;Assim como outras coisas mais perenes&lt;br /&gt;É sempre algo que retornará do pó.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nisto consiste da memória o tal milagre&lt;br /&gt;Que morando nas pequeninas células&lt;br /&gt;Faz que um gesto ou canto se consagre,&lt;br /&gt;Mal-me-quer a renovar as suas pétalas...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim, o amor também já vem de longe&lt;br /&gt;E tudo é reencontro ou só memória,&lt;br /&gt;Ninguém foge da sina, nem o monge.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E se o barquinho persiste na procela&lt;br /&gt;Eis nosso afinal consolo e glória:&lt;br /&gt;Temos mesmo do divino uma parcela!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;14//08/2007&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nota &lt;br /&gt;Acabo de descobrir na Arca da Alma, neste primeiro do ano, com grande alegria, este soneto que considerei imediatamente uma obra-prima, e que me apazigua, pois afinal ele revela que Alma, à sua maneira peculiar, tinha, sim, fé em Deus... (Lucia Welt) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Retrato da artista enquanto jovem (de Alma Welt)&lt;br /&gt;561&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tendo o grande Rimbaud como patrono&lt;br /&gt;E a rebeldia como minha musa amarga,&lt;br /&gt;Quando guria eu poetava até no trono&lt;br /&gt;Disfarçando ao som logo da descarga&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto a Açoriana se esfalfava &lt;br /&gt;De bater na porta preocupada&lt;br /&gt;Ou furiosa de saber que se ocupava&lt;br /&gt;De "só poesia" esta guria “alienada”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não tinha os pés na terra, ela pensava,&lt;br /&gt;A cabeça nas nuvens... é o perigo,&lt;br /&gt;Pois na certa o manicômio me esperava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ba! Bem que ela quis me pôr (à) venda&lt;br /&gt;Ou mordaça pra calar seu inimigo:&lt;br /&gt;Meu sonho de ser mais do que uma prenda...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O pomar da Poesia (de Alma Welt)&lt;br /&gt;560&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ser bela e disso ter conhecimento&lt;br /&gt;Entre as flores da coxilha e do jardim,&lt;br /&gt;É meu privilégio e meu tormento&lt;br /&gt;Que tanto me conforta ainda assim&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois sou grata aos dons que a Natureza&lt;br /&gt;Quis por bem dotar-me de sobejo&lt;br /&gt;Embora me olhem com a estranheza&lt;br /&gt;Do medo... ou talvez, só do desejo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas tão cedo doar-me ao meu irmão,&lt;br /&gt;Que guria fora eu pequena Eva&lt;br /&gt;No pomar de nossa doce perdição,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com isso não contava, era destino,&lt;br /&gt;E como o meu penhor do feminino&lt;br /&gt;Eis o que à Poesia ainda me leva...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quero viver, explodir (de Alma Welt)&lt;br /&gt;559&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quero viver, explodir, quero cantar!&lt;br /&gt;Venha o tempo, tempestades, vendavais;&lt;br /&gt;Venha o pampeiro e arranque meus varais,&lt;br /&gt;Caia a chuva sobre mim e o que eu amar!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que é tudo, esta amplidão, este vinhedo,&lt;br /&gt;O casarão plantado fundo na coxilha,&lt;br /&gt;O jardim onde fui neta e ainda sou filha&lt;br /&gt;E o Pampa a circundar o meu segredo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desçam nuvens e envolva-me a neblina,&lt;br /&gt;Quero fundir-me à alma deste Sul,&lt;br /&gt;Tornar-me a própria luz que me ilumina!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E se após tanto, veja, eu retornar&lt;br /&gt;Qual lua ébria a vagar sobre um paúl: &lt;br /&gt;Desci para o meu sonho reencontrar...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;12/01/2007&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os viajantes do Nada (de Alma Welt)&lt;br /&gt;558&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que poucos viajantes nos contaram&lt;br /&gt;Da Morte não merece neles crer,&lt;br /&gt;E foram muito raros os que voltaram:&lt;br /&gt;Orfeu, Hércules, Dante, e o armênio Er.*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E talvez uns poucos mais discretos&lt;br /&gt;Que preferiram na volta se calar &lt;br /&gt;Pois os lances e ritos mais secretos&lt;br /&gt;Não quiseram certamente alardear.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cristo foi um deles: por seguro&lt;br /&gt;Não deixou que o tocasse a Madalena* &lt;br /&gt;Alegando ainda não estar puro... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só sei que o mal tocado em forma plena&lt;br /&gt;Só nos aumenta o medo desse escuro&lt;br /&gt;E ao Nada novamente nos condena. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando cessam as palavras (de Alma Welt)&lt;br /&gt;557&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tendo vivido pela força da palavra&lt;br /&gt;Só temo o tal momento de afazia&lt;br /&gt;Final, quando a mente a língua trava&lt;br /&gt;Pois nada mais restou para a Poesia,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando não mais se tem o que dizer&lt;br /&gt;E tudo se resume num suspiro&lt;br /&gt;Ou numa dor tão grande de morrer &lt;br /&gt;E deixar o mundo em seu respiro,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que afinal era tão belo como era&lt;br /&gt;Com as mágoas e a feiúra sem sentido&lt;br /&gt;Pois nele havia infância... ou houvera.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E numa espécie muda de “aqui vamos”,&lt;br /&gt;Talvez como um sonho indefinido&lt;br /&gt;Alcançamos a paz que não sonhamos.*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A “divina comédia” (de Alma Welt)&lt;br /&gt;556&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu pai costumava me dizer&lt;br /&gt;Que não há injustiça neste mundo&lt;br /&gt;E que tudo o que de mal acontecer&lt;br /&gt;Vem sempre de um desígnio profundo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ou se deve a um simples erro crasso,&lt;br /&gt;No caso, resultando num desastre&lt;br /&gt;Ou simplesmente num fracasso&lt;br /&gt;Que ao sucesso de outro faz contraste.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas não fico convencida totalmente&lt;br /&gt;Quando o mal acontece a uma criança&lt;br /&gt;Ou outra boa criatura, e inocente,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que resulta em dor e em tragédia.&lt;br /&gt;Isso então me faz perder a esperança &lt;br /&gt;De perceber divina esta comédia...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Peregrinação à Árvore Sagrada (de Alma Welt)&lt;br /&gt;555&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu que venho do plano da coxilha&lt;br /&gt;À colina junto ao mar peregrinei&lt;br /&gt;E emocionada então me prosternei &lt;br /&gt;Como pródiga e reverente filha&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Diante da sacra Árvore da Vida&lt;br /&gt;Que ali frente ao azul Mediterrâneo&lt;br /&gt;Permanece desde o tempo do Druida&lt;br /&gt;E invisível ao olhar contemporâneo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então em minha pira os votos ardo&lt;br /&gt;Com o mate que pra fumigar abafo&lt;br /&gt;Grata à minha Musa e ao meu Bardo*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois receber um soneto cada dia&lt;br /&gt;Não é pouco privilégio a cortesia&lt;br /&gt;De Ossian e da divina abelha Safo.*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Notas&lt;br /&gt;* Ossian - o bardo celta dos "Cantos de Ossian", livro de sagas e poemas do tempo dos druidas, em lingua gaélica, uma obra-prima descoberta no final do século XVIII, na Escócia, e que traduzida para o inglês se tornou a obra poética preferida de Goethe e de Napoleão I. Posteriormente descobriu-se ser apócrifa e atribuida ao jornalista escocês James Macpherson.&lt;br /&gt;*Safo (de Lesbos)- a maior poetisa da antigüidade, e de quem a Alma era devota, foi elevada pelos gregos à condição de sétima Musa, e tinha o epíteto de " a Abelha da Piéria". (Lucia Welt) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Dama do Lago (II) (de Alma Welt) &lt;br /&gt;554&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;À vezes me sinto quase exausta&lt;br /&gt;De ser este vulcão, esta torrente&lt;br /&gt;De poemas, visões e vida fausta,&lt;br /&gt;Derramada, liberta, transparente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tudo revelei, não por bravata,&lt;br /&gt;E me doei generosa a este mundo&lt;br /&gt;E ao Pampa, como água vem do fundo&lt;br /&gt;Da fonte do meu poço da cascata&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aonde sinto deitarei como na cama&lt;br /&gt;Pois aqui avistei-me como a Dama&lt;br /&gt;Do Lago, que recolhe a bela espada&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que eu, como Arthur, me atirarei,&lt;br /&gt;Cumprida a minha missão inusitada,&lt;br /&gt;De volta ao mar de brumas como o rei...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;20/12/2006 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acusado! (de Alma Welt)&lt;br /&gt;553&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os amigos vão-se e nós restamos.&lt;br /&gt;Permanecemos a brincar, mas temerosos&lt;br /&gt;Esperando nossa vez nos disfarçamos&lt;br /&gt;Como crianças, como se ainda novos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Escondidos à espera do: “Acusado!&lt;br /&gt;Te vi aí atrás daquela moita!”&lt;br /&gt;Daquele que nos vendo não se afoita&lt;br /&gt;Pois basta o dedo a nós ter apontado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E saímos um a um do esconderijo&lt;br /&gt;Escolhido por nós na brincadeira,&lt;br /&gt;Alguns sem conter o medo e o mijo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É duro brincar com esse vizinho,&lt;br /&gt;Tanto mais que brincamos na ladeira, &lt;br /&gt;E alto ou baixo, no final... brincas sozinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As horas voam (de Alma Welt)&lt;br /&gt;552&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As horas voam, é o que elas fazem,&lt;br /&gt;Ou então cavalgam os cometas,&lt;br /&gt;Não param, e no tempo se desfazem&lt;br /&gt;Não antes de pedir que não te metas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;São senhoras sérias e apressadas&lt;br /&gt;Talvez por serem filhas de um atleta,&lt;br /&gt;O Tempo de larguíssimas passadas&lt;br /&gt;Só tem tempo para a sua predileta,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A temporã, que te vê e se emociona,&lt;br /&gt;A única que ainda se debruça&lt;br /&gt;E ouve teus lamentos de chorona. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E então vês que a vida é fictícia&lt;br /&gt;E já não tens teu ursinho de pelúcia,&lt;br /&gt;Não tens mais as horas de delícia...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;09/12/2006 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A charrete na ventania (de Alma Welt)&lt;br /&gt;551&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depressa, Galdério, com a charrete!&lt;br /&gt;Faça a égua correr, mas sem chicote.&lt;br /&gt;Sei que podes conseguir, a ti compete,&lt;br /&gt;Use de persuasão... e que ela trote! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bá! Velho Mino, tu me assustas!&lt;br /&gt;E temo que invadindo teu espaço&lt;br /&gt;Nos percamos assim nas tuas volutas&lt;br /&gt;Ou nos enrolemos no teu laço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Contigo não disputo, tu me gelas!&lt;br /&gt;Vai, Miranda, bota sebo nas canelas&lt;br /&gt;Ou esta noite não verei meu casarão&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com a lareira a crepitar em nossa sala,&lt;br /&gt;Uma ceia à doce luz do lampião &lt;br /&gt;E vinho vindo da adega na senzala...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Notas &lt;br /&gt;Velho Mino- era como a Alma chamava o vento minuano, que ela temia e venerava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*...vindo da adega na senzala- No seu romance A Herança, Alma conta como descobriu uma safra inteira de 1.000 garrafas de um vinho magnífico, a verdadeira herança de nossos avós, escondida numa adega por nós desconhecida, debaixo do casarão e que fora uma antiga senzala. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O rio (de Alma Welt)&lt;br /&gt;550&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Atirados na corrente sempre fomos&lt;br /&gt;Em que nos debatemos e bradamos;&lt;br /&gt;O rio em que nascendo mergulhamos&lt;br /&gt;Ainda é o mesmo desde Cronos,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E não como o Heráclito dizia&lt;br /&gt;Que nunca é o mesmo para nós;&lt;br /&gt;O Tempo para o homem não sorria&lt;br /&gt;Na aurora e tampouco logo após,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E ínclito, impávido, inclemente&lt;br /&gt;Como rio real, e não da mente,&lt;br /&gt;Passa sem levar-nos em questão,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois o que é uma folha que navega&lt;br /&gt;Ou um pequeno galho que se entrega&lt;br /&gt;Se levados vamos todos de roldão?... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;08/07/2006&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;nota&lt;br /&gt;Acabo de encontrar este soneto inédito na Arca da Alma, e encantada, vou imediatamente postá-lo lá no blog dos Metafísicos da Alma. &lt;br /&gt;(Lucia Welt) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Segredo da Alma (de Alma Welt)&lt;br /&gt;549&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Diante de mim mesma me persigno,&lt;br /&gt;Eu que reverencio tantos deuses…&lt;br /&gt;A musa que elegi, do mesmo signo,&lt;br /&gt;É fiel e me acompanha desde Elêusis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Musa a que há muito me votei,&lt;br /&gt;O fiz, modesta, em honra do que sou,&lt;br /&gt;Pois já Zeus a fizera, o que amei,&lt;br /&gt;Com meus traços, e vai aonde vou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Anima sou e me chamavam Psiqué,&lt;br /&gt;Mas neste Pampa um tanto esdrúxulo&lt;br /&gt;Volto a saber quem sou, quem ela é:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alma Welt, prenda ruiva e poetisa&lt;br /&gt;Devo cantar a terra madre do gaúcho,&lt;br /&gt;Sagrada, e que a nós dois imortaliza… &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dias tristes II (de Alma Welt)&lt;br /&gt;(ou O outro canto da cigarra)&lt;br /&gt;548&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dia cinza e chuvoso, novamente,&lt;br /&gt;E eu que sou tão susceptível&lt;br /&gt;Amanheci também triste e carente&lt;br /&gt;A crer que esta vida é impossível&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois há muito findaram aqueles dias&lt;br /&gt;De vinhos e de rosas no poente,&lt;br /&gt;Quando junto a mim permanecias&lt;br /&gt;E em torno ainda havia tanta gente,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E tudo era fartura e esbanjamento,&lt;br /&gt;De tanto vão carinho dissipado&lt;br /&gt;Com o breve vinho do momento&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sem guardar o desta temporada,&lt;br /&gt;Somente de memórias do passado&lt;br /&gt;Pois o aqui e agora é quase nada... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O bobo na colina (de Alma Welt)&lt;br /&gt;547&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Longe dança o bobo, de contente,&lt;br /&gt;E o vejo e aos outros na colina&lt;br /&gt;Em silhueta no cenário do poente&lt;br /&gt;A que meu ser no âmago declina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu coração rejeita esse cordão&lt;br /&gt;De desgraçados e teme o que ilude&lt;br /&gt;Nessa dança macabra de roldão&lt;br /&gt;De que fugi até agora como pude.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sei bem quem é o tal bobo sinistro&lt;br /&gt;Disfarçado de coringa esfuziante&lt;br /&gt;E que na falsa dança segue adiante&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Envolvente como um sutil jogral, &lt;br /&gt;Mas que é o ardiloso e vil ministro&lt;br /&gt;Do rei que nos quer o bem e o mal... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;08/01/2007 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;La vida es sueño (de Alma Welt)&lt;br /&gt;546&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Penso logo existo, diz Descartes,&lt;br /&gt;E eu de mim começo a duvidar.&lt;br /&gt;Serei eu uma alma a me pensar&lt;br /&gt;Ou o fruto final de minha arte? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se olho para trás minha bagagem&lt;br /&gt;Constato que ela é bem mais real,&lt;br /&gt;Em peso, densidade e coragem,&lt;br /&gt;Do que esta pele branca de areal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Somos sonho de um deus desconhecido,&lt;br /&gt;Não sabemos o seu nome para orar&lt;br /&gt;E tememos mais ainda o acordar...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois no despertar tudo é perdido,&lt;br /&gt;E dói, ah! como dói ver desfiar&lt;br /&gt;Um sonho noutro sonho entretecido...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tempestade (de Alma Welt)&lt;br /&gt;545&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vê: o céu se adensa e escurece,&lt;br /&gt;Procelárias se agitam sobre a face&lt;br /&gt;Que se ergue na mais sinistra prece&lt;br /&gt;Prevendo o iminente desenlace. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O mar se turva e mais se encrespa &lt;br /&gt;E as ondas lançam brados de loucura &lt;br /&gt;Enquanto um ribombo força a fresta&lt;br /&gt;De um teto de chumbo sem pintura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então o caos se instala e ai de nós&lt;br /&gt;Neste pequenino barco rubro&lt;br /&gt;Que não passa de vã casca de noz&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;À deriva, a medo, e sem poesia,&lt;br /&gt;Se o vórtice indigesto de um tubo&lt;br /&gt;Nos devora em ânsias de agonia... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;14/09/2006 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Canção sinistra (de Alma Welt)&lt;br /&gt;544&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chegamos ao fim, não tem mais jeito,&lt;br /&gt;O mundo se acabou e já o vemos,&lt;br /&gt;O Mal é burgomestre ou o prefeito,&lt;br /&gt;O caos se instalou e é o que temos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Corram, corram, amigos desta aldeia&lt;br /&gt;Aí vêm do tirano os quatro esbirros,&lt;br /&gt;Foices já não brilham, e a cara feia,&lt;br /&gt;Respingadas pelo sangue aos espirros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um corvo ali crocita no patíbulo&lt;br /&gt;Mas a madrugada ainda teremos,&lt;br /&gt;Vamos todos juntos ao prostíbulo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dancemos, cantemos e bebamos&lt;br /&gt;A manhã por certo não veremos.&lt;br /&gt;Ah! A vida foi tão breve e já nos vamos...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;17/01/2007&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Pergunta (de Alma Welt)&lt;br /&gt;543&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Saberei morrer, chegada a hora?&lt;br /&gt;Eis a pergunta que nunca quer calar.&lt;br /&gt;Somos para morte aqui e agora,&lt;br /&gt;Nunca prontos e sempre a adiar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não estou muito certa de que a vida&lt;br /&gt;Seja mesmo um projeto que deu certo&lt;br /&gt;Uma vez que é menos bela que sofrida&lt;br /&gt;E o final se passa sempre no deserto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ou então, triste, solitária e dolorida&lt;br /&gt;É a nossa chegada àquele porto&lt;br /&gt;Onde não há festa e sim um morto,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que somos nós, esticados, macilentos,&lt;br /&gt;Expostos como nunca nesta vida&lt;br /&gt;Num falso carnaval de gestos lentos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Mistério Alma Welt (um acróstico apócrifo)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Descobri, através da pesquisa Google, o blog do escritor Milton Ribeiro com uma página sobre a polêmica que se estabeleceu na Internet sobre a existência real ou não da Poetisa Alma Welt. Esse blog ressalta a existência de um "mistério Alma Welt". Seria divertido para mim, não fosse o fato de que a lembranças de minha irmã sobrepostas às imagens de sua morte trágica me emocionam ainda, demais, e trazem-me lágrimas aos olhos e um aperto no coração. Entretanto encontrei numa outra página do mesmo blog este comentário da pessoa que se diz chamar Jungmar Jensen e que tem um blog dedicado a investigar o "mistério Alma Welt". Fiquei pasma e (como ele diz que fez) também escrevi para o Guilherme de Faria que reiterou a sua negação, indignado de que estejam usando seu nome no acróstico de um soneto falsamente a ele atribuido.&lt;br /&gt;Imediatamente escrevi ao sr Jungmar e consegui permissão para transcrever aqui o que ele postou no blog do Milton Ribeiro: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jungmar Jensen&lt;br /&gt;on Dec 7th, 2009 at 1:41 am &lt;br /&gt;Já confessei aqui o meu fracasso em elucidar o Mistério Alma Welt, mesmo tendo aberto há meses um blog com essa finalidade. Ainda não cheguei a uma conclusão, tanto mais que acabo de receber através de um e.mail nitidamente falso este notável soneto em acróstico que fui imediatamente conferir com o mestre poeta e pintor Guilherme de Faria, que veemente e indignadamente negou a autoria. É curioso perceber como o veterano artista se emociona ao falar de sua grande musa, a cuja imagem e memória está dedicado em magníficas telas desde que a conheceu e amou. Entretanto, como contribuição ao debate, e por sua curiosidade e engenho transcrevo aqui o citado soneto, mesmo que apócrifo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem sou&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gostariam de saber quem mesmo sou,&lt;br /&gt;Um bardo ou poetisa delicada&lt;br /&gt;Interiorizando um grande show&lt;br /&gt;Literalmente ao longo da jornada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Herdei, confesso, o estro e o resto,&lt;br /&gt;E devo tudo à Alma peregrina&lt;br /&gt;Resoluta, rebelde e feminina&lt;br /&gt;Mesmo que acabe num protesto&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E revolte alguns dúbios sentimentos&lt;br /&gt;Fazendo com que me dêem as costas&lt;br /&gt;Aqueles que choravam meus tormentos,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rindo também se alegre estava,&lt;br /&gt;Indicando minhas vitórias nas apostas&lt;br /&gt;A que dei tanto valor quando jogava… &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se deixo assim passar (de Alma Welt)&lt;br /&gt;542&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se deixo assim passar um dia só&lt;br /&gt;Sem ter escrito ao menos um soneto&lt;br /&gt;Ou conto, uma crônica, um quarteto,&lt;br /&gt;Um verso que seja... me faz dó.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Tempo por certo não é meu sócio&lt;br /&gt;Ou tenho dele uma quota tão restrita!&lt;br /&gt;Não posso dar-me o luxo de tal ócio&lt;br /&gt;E o verso que perdi ainda me irrita.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não consigo entender que uma pessoa&lt;br /&gt;Se deixe estar a viver sem criar algo&lt;br /&gt;Que palpado possa ser e que ressoa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É como ver as horas irem pelo ralo&lt;br /&gt;Nessa nossa temporada de fidalgo&lt;br /&gt;A perseguir pobres raposas a cavalo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vida do poeta (de Alma Welt)&lt;br /&gt;541&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se penso minha vida nesta estância&lt;br /&gt;Eu vejo que afinal não me perdi&lt;br /&gt;Conquanto meus desejos e esta ânsia&lt;br /&gt;Produzam uma tocha em que me vi,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De repente, ardendo em minhas noites&lt;br /&gt;No meio destes prados esquecidos&lt;br /&gt;Neste fim de mundo e seus amoites&lt;br /&gt;De valentes exilados ou fugidos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Logo busco encontrar o meu prazer&lt;br /&gt;Que está na base mesma da procura&lt;br /&gt;E que a culpa me quer comprometer.*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E então uma coerência se faz ver*&lt;br /&gt;Mesmo dentro do quadro de loucura&lt;br /&gt;Que é a vida do poeta enquanto ser...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Notas &lt;br /&gt;Acabo de encontrar este soneto inédito na Arca da Alma, e mais uma vez constato essa coerência que ela menciona.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*...e a culpa me quer comprometer- Alma certamente se refere ao seu relacionamento incestuoso com nosso irmão Rodo, que nasceu inocentemente na infância de ambos, e a que nossa mãe cobriu de escândalo, procurando incutir um sentimento de culpa que não era natural à indole da Alma, criada por nosso pai, sem batismo e "como uma pequena pagã". &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* ...uma coerência se faz ver- Existe uma expressão inglesa se referindo a certos loucos que dizem de repente coisas muito lógicas: "há um método nessa loucura..." Alma brincava com isso, pois somente nossa mãe achava que a Alma era atacada de uma espécie de loucura poética, que ela, a "Açoriana", gostaria de coibir. (Lucia Welt)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A anti-condoreira (de Alma Welt)&lt;br /&gt;540&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;São poucos os chamados à Poesia&lt;br /&gt;Entre os milhões que fazem versos.&lt;br /&gt;E os verdadeiros, os dotados de magia,&lt;br /&gt;Quase sempre no silêncio estão imersos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quero dizer, sem voz que nos alcance,&lt;br /&gt;Tateando ao frio sol de seus degredos&lt;br /&gt;Esperando finalmente a grande chance&lt;br /&gt;De revelarem seus delírios e segredos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois Poesia não é cartilha de decência &lt;br /&gt;Ou de conduta um perfeito manual, &lt;br /&gt;E muito menos declarações de amor&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se não mesmo ao poema e sua essência&lt;br /&gt;Gratuita, aérea, livre e, se animal,&lt;br /&gt;Capaz de mergulhar, não um condor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A cal e a pedra (de Alma Welt)&lt;br /&gt;539&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhando meu passado e o presente,&lt;br /&gt;Não vivo de pequenas alegrias,&lt;br /&gt;Devo confessar humildemente,&lt;br /&gt;Mas de grandes arroubos e euforias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pruridos ou mania de grandeza!&lt;br /&gt;Dirão alguns, como eu ouvia&lt;br /&gt;Já de minha mãe, não com rudeza,&lt;br /&gt;Mas dura, cortante e um tanto fria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas vede, é com pouco que construo&lt;br /&gt;E transformo em epopéias a jornada&lt;br /&gt;Destes meus dias que tão ávida fruo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fazer do vão momento e até do tédio&lt;br /&gt;A cal e a pedra do nosso grande prédio, &lt;br /&gt;Ser poeta é justamente a empreitada...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;17/06/2005 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O segredo (de Alma Welt)&lt;br /&gt;538&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Crescer e ser chamada a escrever,&lt;br /&gt;Dar meu testemunho da paixão&lt;br /&gt;De ser... e a lealdade de viver &lt;br /&gt;Em sintonia de alma e coração,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eis a chave de uma vida em poesia&lt;br /&gt;Que por certo me fez pagar um preço&lt;br /&gt;Muito alto e excludente de honraria,&lt;br /&gt;Pois ser poeta é ter na Arte o endereço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem no dinheiro estiver sintonizado,&lt;br /&gt;No dinheiro está... e não em Arte.&lt;br /&gt;Impossível dos dois mundos fazer parte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E se me perguntas: “É um brinquedo?”&lt;br /&gt;Eu murmuro te puxando para um lado:&lt;br /&gt;“Não posso revelar-te um tal segredo...” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;14/05/2005 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estrela peregrina (de Alma Welt)&lt;br /&gt;537&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estrela peregrina do meu pampa,&lt;br /&gt;De quem viria a ser dileta filha!&lt;br /&gt;És a cigana que por aqui acampa&lt;br /&gt;E eu te evoquei em minha vigília,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rafisa, musa destas pradarias,&lt;br /&gt;Que me deste a honra da amizade,&lt;br /&gt;E que ainda bem mais dividirias:&lt;br /&gt;Teu leito e um dom de divindade,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O poder de divinar o meu futuro&lt;br /&gt;Que me fez enxergar além do muro&lt;br /&gt;Com sensível clareza e acuidade. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E este louco sentimento de urgência&lt;br /&gt;Contra o fundo cenário de saudade &lt;br /&gt;Que dá a esta poesia permanência...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Soneto antigo (de Alma Welt)&lt;br /&gt;536&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Queria ir com a branca caravela&lt;br /&gt;Que vejo no poente deslumbrante&lt;br /&gt;Aqui deste grato meu mirante, &lt;br /&gt;A varanda da casa grande e bela &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que não obstante me confina&lt;br /&gt;Num canto limitado deste mundo,&lt;br /&gt;Esta Alma cuja propensão sulina&lt;br /&gt;É ir mais para o sul, ou mais ao fundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Leva-me, ó barco dos meus sonhos!&lt;br /&gt;Como diriam as ledas poetisas,&lt;br /&gt;Flores belas de tempos mais bisonhos...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Também tenho em mim barcos alados,&lt;br /&gt;Mas vogo entre os perigos de banquisas&lt;br /&gt;De um mar que subsiste nestes prados...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A suspeita (de Alma Welt)&lt;br /&gt;535&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vivo desperta o sonho desta vida&lt;br /&gt;Só possível ao grato coração &lt;br /&gt;Conquanto a inquietação contida&lt;br /&gt;Tenha o timbre da dor e da paixão&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E um pesadelo oculto me acompanhe&lt;br /&gt;Cada copo de vinho esvaziado&lt;br /&gt;E mesmo a bela taça de champanhe&lt;br /&gt;A saudar um novo cume conquistado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois a contraparte percebida&lt;br /&gt;É a terrível ameaça que perdura&lt;br /&gt;Na suspeita do nadir da criatura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois se a psique é alma e nos constrói,&lt;br /&gt;Que será de nós se ela é perdida&lt;br /&gt;Na poeira e no verme que nos rói?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O retorno (de Alma Welt)&lt;br /&gt;534&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sem algum conflito estar no mundo&lt;br /&gt;É uma leda utopia ou devaneio&lt;br /&gt;Pois temos um vão rancor profundo&lt;br /&gt;Disto tudo não ser o nosso meio&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Amniótico, silencioso e tão seguro&lt;br /&gt;Do qual fomos tirados brutalmente&lt;br /&gt;Pelas boas intenções de um ente puro&lt;br /&gt;Se considerado essencialmente:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mãe que nos expulsa de si mesma&lt;br /&gt;E nos lança afinal no labirinto&lt;br /&gt;Ligados ao seu fio qual abantesma&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E buscando escapar do Minotauro.&lt;br /&gt;Eis como nesta vida mal me sinto:&lt;br /&gt;Numa saga de retorno e de restauro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O último verso (de Alma Welt)&lt;br /&gt;533&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando acordo e me ponho escrever,&lt;br /&gt;E eu o faço o tempo todo, compulsiva,&lt;br /&gt;Eu sinto que, assim só, posso viver&lt;br /&gt;Ou que assim me sinto bem mais viva.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entre o espírito e a carne o vão conflito &lt;br /&gt;Expresso em outros termos, vida e arte,&lt;br /&gt;Não existe mais pra mim, pois acredito,&lt;br /&gt;Só se reflete o que do espelho fizer parte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Solitária a vagar, devaneando &lt;br /&gt;E parando pra anotar um simples verso,&lt;br /&gt;Encontro o meu nicho no universo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas cercada de poemas e de dores,&lt;br /&gt;Se no leito estiver agonizando,&lt;br /&gt;Roubai-me o derradeiro aos estertores...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Evocando Rimbaud (de Alma Welt)&lt;br /&gt;532&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se tendo a enternecer demasiado&lt;br /&gt;Perdendo a dureza necessária&lt;br /&gt;Como o bravo Che tinha alertado*, &lt;br /&gt;Relembro outra verve visionária &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que pôs ponto final mas perdurou,&lt;br /&gt;E o fez correr o mundo escuro&lt;br /&gt;Além dos dezessete, o que o mudou&lt;br /&gt;Na procura da beleza além do muro. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E na carta do Arthur Rimbaud vidente* &lt;br /&gt;Reencontro o segredo que já havia &lt;br /&gt;Em tão precoce e mágica poesia&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que deixou como lastro permanente,&lt;br /&gt;No oceano sem farol, tão conturbado, &lt;br /&gt;De nosso próprio barco embriagado*.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;19/08/2006&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Notas&lt;br /&gt;Ao enviar este soneto (que acabo de encontrar na Arca da Alma) para o meu colaborador o mestre Guilherme de Faria, este, encantado, lembrou-se de ainda possuir em sua coleção este Retrato Imaginário de Rimbaud, meio maldito, trágico, pois representado no período final do poeta, com uma estranha e ambígua perna negra, gangrenada ou de pau, já amputada. (Lucia Welt)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;...Como o bravo Che tinha alertado - Alusão à famosa frase de Che Guevara: "Hay que endurecer, pero sin perder la ternura jamás".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*...carta de Rimbaud vidente- Alusão à célebre Lettre du Voyant(carta do Vidente) de Rimbaud.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*...dos dezessete, o que o mudou - Rimbaud aos dezessete anos pôs ponto final na sua obra poética e tornou-se aventureiro na África negra (... "mundo escuro"), indo traficar armas para o Ras (imperador) Menelik, da Etiópia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*...barco embriagado - menção ao Le Bateau Ivre (O Barco Bêbado), célebre poema de Rimbaud. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nau pirata (de Alma Welt)&lt;br /&gt;531&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para poder escrever e ser legítima&lt;br /&gt;Sigo a esteira desta vã nave ignota&lt;br /&gt;Em prados de ondulação marítima,&lt;br /&gt;Mas de pó e pampa a minha rota.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aqui desta varanda eu comando&lt;br /&gt;Minhas horas matinais e do poente&lt;br /&gt;Como sinistra capitã do meu desmando&lt;br /&gt;Ou pirata do meu riso de contente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E cedo tive meu motim denunciado&lt;br /&gt;No Almirantado da dura Açoriana*&lt;br /&gt;Que quis ver o meu sonho sufocado, &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois viver a minha vida sem bandeira&lt;br /&gt;E com estandarte de poesia pampiana, &lt;br /&gt;Era guerrilha, não batalha verdadeira...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nota&lt;br /&gt;Acabo de encontrar este soneto inédito, manuscrito, na arca da Alma, e logo o digitei por considerá-lo especialmente significativo da maneira como a Poetisa considerava seu métier, e como a oposição de nossa mãe, a *Açoriana (neta de portugueses açorianos) era um constante desafio (ou mágoa) para ela. (Lucia Welt) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Efeméridas (de Alma Welt)&lt;br /&gt;ou A Roda de Samsara &lt;br /&gt;530&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu costumava olhar as mariposas&lt;br /&gt;E as efeméridas* fugazes no seu cio,&lt;br /&gt;Dançando a doce dança das esposas&lt;br /&gt;Enquanto eu meditava no que crio,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se vale mesmo a pena de criar&lt;br /&gt;Tanto verso e tanto sonho em vão, &lt;br /&gt;Já que a vida é um breve iluminar&lt;br /&gt;No meio da infinita escuridão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ou, se poeta, estou fora do mundo&lt;br /&gt;Pois os seres vêm só para amar&lt;br /&gt;E dar à luz um outro mais fecundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E se na festa dessa roda de Samsara,&lt;br /&gt;O artista é só o flash que dispara,&lt;br /&gt;Capturando sem jamais participar...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;16/08/2005&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nota&lt;br /&gt;Efeméridas- uma espécie de insetos voadores cujo ciclo completo de vida: nascimento, crescimento, vôo nupcial, procriação e morte, dura apenas um dia. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ariadne em Náxos (de Alma Welt)&lt;br /&gt;529&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não temos planta baixa desta vida,&lt;br /&gt;Suas câmaras, alcovas, confusão.&lt;br /&gt;Uma aposta errada ou indevida &lt;br /&gt;Põe tudo a perder e sem perdão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alguma lógica a nós perceptível&lt;br /&gt;É a do encadear de circunstâncias&lt;br /&gt;Que vemos perscrutando o fio sensível&lt;br /&gt;Que atravessa nosso dédalo de ânsias,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como aquele da Ariane sem dedal, &lt;br /&gt;Alinhavados como ela ao ser amado,&lt;br /&gt;Pasmo herói confuso e... enrolado,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois encontrar a completude original&lt;br /&gt;Numa Náxos aberta e sem volutas,&lt;br /&gt;Eis o nexo, afinal, das nossas lutas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;06/04/2005&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Patética e inacabada* (de Alma Welt)&lt;br /&gt;528&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O soneto é a partitura do meu dia&lt;br /&gt;E contém as notas, timbre e tom&lt;br /&gt;De um andante meu na pradaria,&lt;br /&gt;Dispondo se o concerto será bom.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas ao primeiro acorde inusitado&lt;br /&gt;Regerei meu dia entre visões&lt;br /&gt;E propensa a consultar o Fado,&lt;br /&gt;Maestro verdadeiro... de ilusões.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vê, o primo verso em tom saudoso&lt;br /&gt;Já me arrasta em vã melancolia&lt;br /&gt;Por um longo adágio de agonia...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas de minha sinfonia inacabada &lt;br /&gt;O patético “finale maestoso”&lt;br /&gt;Há de compor-se ao termo da jornada. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nota&lt;br /&gt;* Patética e inacabada - uma fusão, na alusão poética a duas famosas sinfonias: a "Patética" de Tchaikovsky e a "Inacabada" de Schubert. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De feiticeiras, sopranos e contraltos (de Alma Welt)&lt;br /&gt;528&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Amar, grande mistério, é Deus em nós,&lt;br /&gt;Assim como odiar é o Diabo.&lt;br /&gt;E este dito perdura muito após&lt;br /&gt;O tempo em que o cujo era invocado&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não só a torto e a direito nas igrejas&lt;br /&gt;Mas na cozinha das velhas feiticeiras&lt;br /&gt;Que com a feiúra e nariz de brotoejas&lt;br /&gt;Aqueciam mais que nossas mamadeiras,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas asas de morcego e alguns sapos&lt;br /&gt;Com o fio de cabelo de um incauto&lt;br /&gt;Que ousara cuspir nos nossos trapos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bah! Miséria... do soprano até o contralto, &lt;br /&gt;Destino da mulher por tantos séculos,&lt;br /&gt;Pernas abertas a sementes e espéculos!...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Notas&lt;br /&gt;Acabo de encontrar na Arca da Alma, este forte e chocante soneto, a meu ver, profundamente feminista.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*...do soprano até o contralto- Alma quer dizer: das mulheres frágeis até as mais fortes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*...sementes e espéculos- significa a procriação e a tortura (espéculo, hoje em dia um instrumento médico ginecológico, era um instrumento de ferro para torturar mulheres nas masmorras da Inquisição. Sugestivamente, a palavra deriva do latim, speculum = espelho. (Lucia Welt) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Magia do Verbo (de Alma Welt)&lt;br /&gt;527 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mestre Freud dizia que as palavras&lt;br /&gt;São uma espécie de magia atenuada.&lt;br /&gt;Então, análise vem a ser abracadabras&lt;br /&gt;Que a linguagem põe desencantada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nesses termos o poeta é o contrário,&lt;br /&gt;Recompondo o encanto primitivo&lt;br /&gt;Do verbo em seu impulso instintivo&lt;br /&gt;Que marca a relação com o imaginário&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas também com o mundo do real,&lt;br /&gt;Mandrake, ilusionista e assombroso,&lt;br /&gt;E a vida, um truque herdado mal e mal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E estamos ainda agora como dantes,&lt;br /&gt;Em plena festa da Natura como infantes&lt;br /&gt;Diante do mágico, do acrobata e do Bozo*.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nota&lt;br /&gt;*Bozo- alcunha de um palhaço muito estereotipado da televisão brasileira nos anos oitenta, aqui usado como imagem do lado ridículo da nossa natureza... (Lucia Welt) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Arte em mim (de Alma Welt)&lt;br /&gt;526&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dei-me cedo a mim mesma permissões&lt;br /&gt;Que a Vida não daria de bom grado&lt;br /&gt;A um astro, soberano ou potentado,&lt;br /&gt;Mas no mundo interno: o das visões.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aqui fui princesa e sou rainha,&lt;br /&gt;Estrela maga, infanta, feiticeira.&lt;br /&gt;Aqui a bela Terra é toda minha&lt;br /&gt;E a minha visão é a verdadeira&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois não há como de mim desencantar&lt;br /&gt;O mundo que criei, de tão sutil&lt;br /&gt;A diferença entre o ser e o avatar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E se o Mistério há em toda parte,&lt;br /&gt;Em mim cristalizou-se como arte&lt;br /&gt;Com as palavras gravadas a buril....&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meus heróis (de Alma Welt)&lt;br /&gt;525&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Perdida de mim na pradaria...&lt;br /&gt;Uma vez me vi quase perdida&lt;br /&gt;No labirinto que me confundiria,&lt;br /&gt;E Ariane fui de minha saída.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E no núcleo rochoso do meu Eu&lt;br /&gt;Em torno ao qual orbitam tais delírios&lt;br /&gt;Estava o acorrentado Prometeu&lt;br /&gt;Que tanto acende lumes como círios.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas libertei de mim o herói titã &lt;br /&gt;Apoiada no meu próprio cabedal&lt;br /&gt;Da ave do poder mesmo, xamã,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que era o Abutre da minha mente &lt;br /&gt;Empenhado no embate figadal,&lt;br /&gt;Renovado sempre... eternamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nota &lt;br /&gt;Acabo de encontrar na Arca da Alma este notável soneto metafísico, em que a Poetisa reconhece, de acordo com a teoria da Mitanálise Junguiana, seus próprios arquétipos libertadores, no caso Ariadne, a do fio no labirinto (aqui grafada Ariane por questão de cadência), Prometeu, o libertador derrotado, mas que deu o fogo (a razão) ao homem, e a quem a Poetisa atribui também um elemento de morte, ao acender nossas velas fúnebres (círios); e afinal, surpreendentemente, o próprio Abutre, que devora eternamente o fígado, sede da alma = psique (figué, fígado, entre os gregos) como o seu animal de poder no Xamanismo, doutrina animista de que a Alma às vezes lançava mão pela sua beleza primitiva. (Lucia Welt) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Retrato de Jomara (penúltima musa do pintor)- óleo s/ tela de Guilherme de Faria, 1976,30x40cm, coleção Flavio Pacheco, São Paulo, Brasil&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Retrato de Jomara &lt;br /&gt;ou Meu plano (de Alma Welt)&lt;br /&gt;524&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Contemplando um retrato de Jomara&lt;br /&gt;Que musa fora do pintor Guilherme&lt;br /&gt;E no qual o artista a morte captara&lt;br /&gt;Em vida, e a que só faltava o verme&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que a esperava em breve sob a terra&lt;br /&gt;Oculto e insidioso predador...&lt;br /&gt;Eu, modelo vivo e diva do pintor&lt;br /&gt;Resolvi poupar-me o que me aterra,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que por meu plano justo e infalível&lt;br /&gt;Hão de encontrar-me nua e bela&lt;br /&gt;Sob um lago, espelho mais sensível.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E pelas instruções que dei de mim, &lt;br /&gt;As chamas levarão como uma vela&lt;br /&gt;Minha beleza preservada até o fim...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;05/01/2007 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nota&lt;br /&gt;Acabo de encontrar, assombrada e comovida, este aterrador soneto na Arca da Alma, em que ela revela o seu plano de morte incorruptível, e que dissipou para sempre as dúvidas que em nós foram plantadas sobre as circunstâncias da morte da Poetisa, por aquele nefasto delegado Bennotti. (Lucia Welt)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* O pintor imediatamente após receber este soneto republicou seu quadro no seu blog com este comentário: "Espantou-me saber que o retrato que pintei (nos anos 70) de minha segunda musa, Jomara, realmente premonitório do aspecto terrível que ela adquiriria pela doença que haveria de matar aquela que fora uma beldade na nossa louca juventude, serviria de inspiração às avessas para o plano de morte de outra beldade, a minha última musa, a poetisa Alma Welt. (Guilherme de Faria) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Vale e a Aurora (de Alma Welt)&lt;br /&gt;523&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minha mãe, a dura Açoriana,&lt;br /&gt;Queria dobrar-me à tal doutrina&lt;br /&gt;Do Vale de Lágrimas... e lama,&lt;br /&gt;Pois meu riso iria contra a Sina&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do homem votado ao sofrimento&lt;br /&gt;E que demandava austeridade &lt;br /&gt;Para do dever o cumprimento,&lt;br /&gt;Não entregue ao riso ou à saudade&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como era o meu caso, simplesmente.&lt;br /&gt;Saudade, bem... a ânsia que eu sentia&lt;br /&gt;Era a que o artista sempre sente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quanto ao riso... o oposto dos adeuses,&lt;br /&gt;E ao ver o sol também que Arte nascia&lt;br /&gt;Como aurora dos homens e dos deuses...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;19/07/2005 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deus, deuses (Alma Welt)&lt;br /&gt;522&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Atribuir a Deus coisas de nós&lt;br /&gt;Como amor, ira, onipotência&lt;br /&gt;Tédio, ou pior, onisciência,&lt;br /&gt;Bem, isso fazemos muito após&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A era dos deuses encarnados...&lt;br /&gt;Não me refiro àquele do madeiro&lt;br /&gt;Mas aos dos tempos mais dourados&lt;br /&gt;Em que se era cru e verdadeiro&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E se punha ao largo contra Ílio, &lt;br /&gt;Por Helena ou pra pilhar sem culpa,&lt;br /&gt;Por puro vitalismo, ódio ou idílio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E confesso preferia ter nascido&lt;br /&gt;No tempo em que se era recebido&lt;br /&gt;Sem a água-benta de desculpa...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Anita, eu e as visitas (de Alma Welt)&lt;br /&gt;521&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meus verões de guria na fazenda&lt;br /&gt;Inesquecíveis, mágicos, brilhantes, &lt;br /&gt;Me fazem chorar por encomenda&lt;br /&gt;Se me pedem pra contar os visitantes&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que parecem vindos de outro tempo&lt;br /&gt;Com olhares intrusos de outro mundo,&lt;br /&gt;Se tomam como fora um monumento&lt;br /&gt;Tudo aquilo que é meu viver profundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E me pego a narrar então a saga&lt;br /&gt;De Giuseppe Garibaldi e sua Anita,&lt;br /&gt;Que sou eu, relembrando até afligir,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu amor, as batalhas e a desdita,&lt;br /&gt;Com a minha decantada verve maga&lt;br /&gt;Com que logro, a nós todos, confundir...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;05/08/2001&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Sonho do casarão (de Alma Welt)&lt;br /&gt;520&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;À meia-noite o sonho começava&lt;br /&gt;Após a badalada derradeira,&lt;br /&gt;Como doze golpes numa aldrava&lt;br /&gt;De outra grande porta de madeira&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que não a do próprio casarão&lt;br /&gt;Mas do castelo em festa, revelado,&lt;br /&gt;Que há aqui mesmo no sobrado&lt;br /&gt;E que emerge das sombras do porão&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lá onde as garrafas dormem cheias &lt;br /&gt;E esperam, cada vez mais preciosas&lt;br /&gt;Novos dias de vinhos e de rosas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que só ocorrerão no mesmo sonho&lt;br /&gt;Pois o Tempo suspenso tece teias&lt;br /&gt;Que enredam o real reino tristonho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A vida (de Alma Welt)&lt;br /&gt;519&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A vida, meu amigo, é tão estranha&lt;br /&gt;Que não fosse o risco de uma rima&lt;br /&gt;Eu diria que é a teia de uma aranha&lt;br /&gt;E no centro está aquela que dizima.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ou então que a vida é uma aventura&lt;br /&gt;Num trem fantasma de verdade&lt;br /&gt;Em que os companheiros de tortura&lt;br /&gt;Vão sumindo a cada feia novidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ou ainda que a vida é uma trapaça&lt;br /&gt;E que somos nós o trapaceiro&lt;br /&gt;Vendedor de elixires de cachaça&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para nós e até para os amados&lt;br /&gt;A quem amor juramos, verdadeiro,&lt;br /&gt;Quando mal suportamos nossos Fados. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Babilônia (de Alma Welt)&lt;br /&gt;518&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No mundo não há refúgio ou paz&lt;br /&gt;A não ser na sua própria mente&lt;br /&gt;Quem a tiver em paz, naturalmente,&lt;br /&gt;Ou quem de altos vôos for capaz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não vêem os ingênuos ou incultos&lt;br /&gt;Que o mundo foi sempre a Babilônia,&lt;br /&gt;E não houve um só entre mil cultos &lt;br /&gt;Que evitasse a falsa rima para esbórnia?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O segredo do mundo é a senda oculta&lt;br /&gt;Que percorre o inferno nesta terra&lt;br /&gt;Em meio a confusão da turbamulta&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Da qual fazemos parte até o dia&lt;br /&gt;Da recusa de uma tal de “mais valia”&lt;br /&gt;E a solidão primordial que nos desterra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;09/10/2006 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Coro (de Alma Welt)&lt;br /&gt;517&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O canto da planície eu apreendi,&lt;br /&gt;Seu coro visual ou seu entôo&lt;br /&gt;Inaudível, mas que nítido senti&lt;br /&gt;Observando os pássaros no vôo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O vento em meus cabelos é a lira,&lt;br /&gt;Em que pese o sabor parnasiano,&lt;br /&gt;Pois deuses ainda há quem os prefira&lt;br /&gt;Por mais simples, belo, ledo engano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Envolta em natureza e sendo ela&lt;br /&gt;Posso me encantar e ganhar tempo&lt;br /&gt;Ou roubar do Tempo uma parcela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E espero em meu último suspiro&lt;br /&gt;(que não haja surdo contratempo)&lt;br /&gt;Ouvir os sons do coro que admiro...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;15/01/2007 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O sentido da Vida (de Alma Welt)&lt;br /&gt;516&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Viver é já por si um bom mistério&lt;br /&gt;Sem resposta no plano da razão,&lt;br /&gt;E somente um suposto plano etéreo&lt;br /&gt;Vem ainda alimentar nossa ilusão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois se pensarmos muito no sentido&lt;br /&gt;De estar aqui a comer e ver televisão,&lt;br /&gt;Mesmo sendo um filme divertido,&lt;br /&gt;Ou pior: americano e... de ação,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É pouco, muito pouco e fim de linha &lt;br /&gt;Para uma caminhada tão sofrida &lt;br /&gt;Já que a humanidade assim caminha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas ser poeta é encontrar o tempo todo&lt;br /&gt;A Beleza até na Morte, para a Vida:&lt;br /&gt;A tal da flor a brotar em meio ao lodo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;28/07/2005&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Amor, amores (de Alma Welt)&lt;br /&gt;515&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Coleciono amores com carinho&lt;br /&gt;E nunca em pensamento os deserdei&lt;br /&gt;Pois que ao respeitar o que amei&lt;br /&gt;Não me perdi no meio do caminho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nenhum só jamais eu reneguei&lt;br /&gt;Incluindo os que me foram infiéis,&lt;br /&gt;Que do balanço d’alma só guardei&lt;br /&gt;Um único amor em mil papéis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que importam faltas e fraqueza,&lt;br /&gt;Os erros de pessoa e o sofrimento&lt;br /&gt;Produzido por um doce sentimento?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O amor pouco deve ao ser amado,&lt;br /&gt;Se ingênuo por mistério e natureza&lt;br /&gt;Existe por que assim o quis o Fado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O gaucho* (de Alma Welt)&lt;br /&gt;514&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Pampa não tem franjas nem limite&lt;br /&gt;E se estende bem além do horizonte&lt;br /&gt;Onde vive o gaucho e, sem desmonte,&lt;br /&gt;O Martín Fierro em si ele admite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na ondulada planura destes pagos&lt;br /&gt;Como manta de um charque visceral&lt;br /&gt;Os peões são profetas e são magos&lt;br /&gt;De uma oculta confraria de bagual&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cuja honra ou altivez é a grandeza&lt;br /&gt;Do ser, embora às vezes confundida&lt;br /&gt;Com a simples bazófia da macheza.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas se acaso recusares um convite&lt;br /&gt;Para mais uma rodada de bebida,&lt;br /&gt;Saca logo teu punhal... e não hesite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;06/05/2004&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A música dos versos (de Alma Welt)&lt;br /&gt;513&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cedo eu encontrei o diapasão&lt;br /&gt;Entre o meu vagar na pradaria&lt;br /&gt;E o viver e poetar em comunhão&lt;br /&gt;Com a própria cadência da poesia&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que reúno, rimada por requinte&lt;br /&gt;Em versos ritmados e redondos&lt;br /&gt;Cuidando não haver para o ouvinte&lt;br /&gt;Tropeços e ainda menos tombos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com o uso da palavra algo cantante&lt;br /&gt;A música entreouvida assim cativa&lt;br /&gt;Faz nascer uma poesia celebrante&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como a antiga, dos aedos dos Aqueus &lt;br /&gt;Cuja lira acompanhava a narrativa&lt;br /&gt;Como estórias contadas por um deus...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Última Primavera (de Alma Welt)&lt;br /&gt;512&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que me guardará a primavera&lt;br /&gt;Que é com certeza a derradeira&lt;br /&gt;Já que a carta revelada, tão sincera&lt;br /&gt;Me diz que não está pra brincadeira?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O meu jardim florido está deserto&lt;br /&gt;Com as lindas crianças já crescidas,&lt;br /&gt;Que já não as tenho tão por perto,&lt;br /&gt;Que revoam, batem asas estendidas...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E se o meu perfil ainda comove&lt;br /&gt;Por certo é a mim mesma que o faz &lt;br /&gt;Se no espelhado lago ele se move.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas persisto em colher flores, tão Ofélia,&lt;br /&gt;A me dizer que o espelho sempre traz &lt;br /&gt;Sobre a face liquefeita uma camélia...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;20/10/2006 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Contratempo (de Alma Welt)&lt;br /&gt;511&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu pedi ao Tempo o beneplácito&lt;br /&gt;De uma prorrogação além do tempo,&lt;br /&gt;Que me foi dado por acordo tácito,&lt;br /&gt;Já que tive na vida um contratempo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O de ter amado o mesmo sangue&lt;br /&gt;E de ter sido por isso renegada&lt;br /&gt;Por aquela que eu queria fosse a fada&lt;br /&gt;Desse amor e não pântano ou mangue&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em que eu chafurdaria suplicante&lt;br /&gt;Por quase duas décadas de exílio&lt;br /&gt;No próprio seio da Vida circundante,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que quis acalentar-me, não lamento,&lt;br /&gt;E manteve-me num vago e incerto trilho,&lt;br /&gt;Que em poesia me trouxe a este momento...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;12/19/2006&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A cepa da videira (de Alma Welt)&lt;br /&gt;510&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu fui a este mundo transplantada &lt;br /&gt;Entre os muitos mundos deste mundo,&lt;br /&gt;Eu, tendo nascido numa estrada&lt;br /&gt;Num parto perigoso mas fecundo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois fui colocada sobre a relva&lt;br /&gt;E meu ser o palpitar sentiu da terra&lt;br /&gt;E raízes deitou, como na selva&lt;br /&gt;A semente que cai não se desterra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E estava pronta, não pr’uma cidade,&lt;br /&gt;Embora tenha sido a encubadeira&lt;br /&gt;Preparando-me o enxerto sem saudade,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao vinhedo que eu iria incorporar&lt;br /&gt;Como cepa de uma exótica videira&lt;br /&gt;Com meu estro e sangue em seu lagar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O início (de Alma Welt)&lt;br /&gt;509&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nunca esquecerei meu próprio olhar&lt;br /&gt;Primeiro, ao chegar aqui na estância.&lt;br /&gt;Eu estava ainda em minha infância&lt;br /&gt;E tinha tudo tudo a desvendar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O casarão sombrio era vetusto&lt;br /&gt;E as salas me deixaram pasma;&lt;br /&gt;A avó Frida sorrindo era um susto&lt;br /&gt;E o avô, então, era um fantasma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas o jardim deitava o seu encanto&lt;br /&gt;E a varanda mirava sobre as flores&lt;br /&gt;Ao longe a pradaria como um manto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então, corri, sorri, chorei deveras,&lt;br /&gt;E apossei-me da alma e das dores &lt;br /&gt;Que a casa abrigava de outras eras...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;08/05/2004 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Finitude (de Alma Welt)&lt;br /&gt;508&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estar-se consciente é a tragédia,&lt;br /&gt;Do ser-e-estar-aí diante da morte&lt;br /&gt;Se pra essa lucidez além da média,&lt;br /&gt;Não temos sequer um bom suporte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A finitude de tudo é tolerável&lt;br /&gt;Quando vista por nós na natureza&lt;br /&gt;Pois a transformação é inefável&lt;br /&gt;E produz as estações e sua grandeza.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim como água sobe e pura cai,&lt;br /&gt;Nada se cria, também se perde nada, &lt;br /&gt;Ao pó voltamos com ou sem um “ai”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas suspeito que o ego e seu mistério,&lt;br /&gt;Completa imagem na vida conquistada,&lt;br /&gt;Antes se perde no que jaz no necrotério...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A nascente (de Alma Welt)&lt;br /&gt;507&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu despertar diário em Poesia&lt;br /&gt;É um riacho claro que pressinto,&lt;br /&gt;E como tal, em vislumbre todavia,&lt;br /&gt;Ao localizá-lo o não desminto &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se o soneto matinal nasce melhor&lt;br /&gt;À mesa do café ou chimarrão&lt;br /&gt;Com as lindas crianças ao redor&lt;br /&gt;E o toque furtivo em minha mão&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De Rodo, meu irmão, que escolheria&lt;br /&gt;O pôquer, pra minar nosso passado, &lt;br /&gt;Eis aí outro mistério ou ironia...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois constato que a nascente tão sutil&lt;br /&gt;E de equilíbrio ambiental tão delicado &lt;br /&gt;Começa por um cristalino fio...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ritual (de Alma Welt)&lt;br /&gt;506&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para a minha Musa eu merecer&lt;br /&gt;E os poemas que me entrega,&lt;br /&gt;Devo estar e não somente parecer&lt;br /&gt;Clara, fresca, não saída de refrega.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O olhar límpido, a pele descansada,&lt;br /&gt;Os cabelos soltos e sem laços&lt;br /&gt;Vestes brancas, também, de iniciada&lt;br /&gt;E meus brancos pés em lentos passos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim escrevo meu soneto matinal &lt;br /&gt;Que abre o meu dia sem deveres,&lt;br /&gt;Todavia em constante ritual.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois muito cedo votei-me à Poesia&lt;br /&gt;E descartei os fúteis padeceres,&lt;br /&gt;Percebendo que a Morte também lia...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Labirinto de Dioniso (de Alma Welt)&lt;br /&gt;505&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É possível um ser o outro conhecer?&lt;br /&gt;Poderemos penetrar num coração?&lt;br /&gt;A pobre alma trancada num porão&lt;br /&gt;Realmente quer fugir ou transcender?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estaria o grego antigo enganado:&lt;br /&gt;Como Ícaro de mal coladas penas,&lt;br /&gt;No corpo de um Titã, encarcerado,&lt;br /&gt;Dioniso mal tem asas de falenas...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E medroso, submisso, acovardado&lt;br /&gt;Quisera ali ficar eternamente&lt;br /&gt;Pois teme o que haverá do outro lado,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já que o teto azul, solar, do labirinto&lt;br /&gt;(não se trata de um porão, eu bem o sinto)&lt;br /&gt;É consolo e ledo engano suficiente...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(21/08/2005)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Pacto (de Alma Welt)&lt;br /&gt;504&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A vida, meu amigo, não perdoa&lt;br /&gt;O menor engano, erro ou deslize&lt;br /&gt;E cobrará de modo que te doa&lt;br /&gt;Seja aqui, em Paris ou em Belize.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não poderás fugir pra Patagônia&lt;br /&gt;Se na hora mesma da conquista &lt;br /&gt;Trocares uma rosa por begônia,&lt;br /&gt;E essa não for a flor bem quista.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E se pela atração de suas peles&lt;br /&gt;Casares com um ser incompatível,&lt;br /&gt;Acordo que nem sabes quando seles&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E que o Tempo cobrará, embora lento,&lt;br /&gt;Verás que os orgasmos de um momento&lt;br /&gt;Se tornaram essa tua vida horrível...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nota&lt;br /&gt;Acabo de encontrar este enigmático e belo soneto na Arca da Alma, e me pergunto a quem ela se dirigia... Trata-se de uma alusão à coisas acontecidas com um amigo? Ou, mais genericamente, uma alegoria da própria implacabilidade do destino humano, feita de cobrança e ironia.... (Lucia Welt)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Dama do Lago (de Alma Welt)&lt;br /&gt;503&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dediquei-me à tarefa de sonhar&lt;br /&gt;Tornando o meu sonho testemunho&lt;br /&gt;Da vera vida em mim, subliminar&lt;br /&gt;Que é o cerne, o centro, o punho&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fechado da existência e que se abre&lt;br /&gt;Emergindo à tona do meu verso &lt;br /&gt;Desde o fundo negro do universo&lt;br /&gt;Com a pena e não com aquele sabre&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que a Dama submersa recolhia&lt;br /&gt;Num lago distante deste prado&lt;br /&gt;E que no sonho meu é aqui ao lado,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No poço da cascata, a mim sagrado,&lt;br /&gt;Onde nua mergulhava e onde escrevia&lt;br /&gt;A minha própria saga e o meu fado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;08/01/2007 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Angústia (de Alma Welt)&lt;br /&gt;502&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É difícil desfrutar da juventude &lt;br /&gt;Quando se tem aguda a consciência,&lt;br /&gt;Não de deveres, que isso até eu pude,&lt;br /&gt;Mas da finitude da existência,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que é a razão de toda angústia &lt;br /&gt;Que persegue o homem racional&lt;br /&gt;E o fez criar consumos e indústria,&lt;br /&gt;Como faz uivar em nós o animal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eis o mistério, como eu sinto,&lt;br /&gt;Em que nos debatemos por saber&lt;br /&gt;Ou nos esquivamos por instinto,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Embora eretos, ao lado do caixão&lt;br /&gt;Do que antes de nós deixou de ser, &lt;br /&gt;Solenes, mão na alça, sem paixão...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Ser e a Poesia (de Alma Welt)&lt;br /&gt;501&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pensar o Ser, tarefa inconclusiva&lt;br /&gt;É do filósofo a grande obsessão,&lt;br /&gt;Embora o Ser em si, matéria viva,&lt;br /&gt;Dispense o pensar, tal como a ação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Estar-aí-no-mundo", eis a senha,&lt;br /&gt;Possível entre o Poeta e a Poesia&lt;br /&gt;A quem, real, repugna a resenha&lt;br /&gt;Do que claro e pronto já nascia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim, não confundamos os estribos&lt;br /&gt;Das selas de um e outro cavaleiro&lt;br /&gt;Que por certo vêm de duas tribos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quanto a mim, seduzida, já o sinto,&lt;br /&gt;Na Noite do pensar, sem candeeiro,&lt;br /&gt;Perdida devo estar, no labirinto... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;29/12/2005 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meta-física (de Alma Welt)&lt;br /&gt;500&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Concentro meu olhar numa cadeira,&lt;br /&gt;Para sentir a essência da Natura.&lt;br /&gt;Ou muito além, naquela vã fronteira,&lt;br /&gt;Para inferir da Terra a curvatura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Poeira, relva, inseto ou ave,&lt;br /&gt;Tudo contém o todo e o universo.&lt;br /&gt;Na verdade, o mundo e seu reverso,&lt;br /&gt;Pois no hiato mesmo está a chave.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No átomo o vazio é bem maior,&lt;br /&gt;Dizem os cientistas (um espanto!),&lt;br /&gt;Do que a matéria ao seu redor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E entre saudade, dor, e a solidão,&lt;br /&gt;Que sempre me acompanharam tanto,&lt;br /&gt;Está o espaço da humana condição...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Reminiscências farroupilhas (de Alma Welt)&lt;br /&gt;499&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tantas vezes, vagando pelo prado&lt;br /&gt;Eu sinto aquela estranha nostalgia&lt;br /&gt;Desta mesma pradaria em outro fado,&lt;br /&gt;Que esqueci, e que outrora percorria&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Num tempo remoto, entre guerreiros&lt;br /&gt;De bombachas e espadas, e lanceiros.&lt;br /&gt;Então penso que na saga farroupilha&lt;br /&gt;Estive mais pra vivandeira do que filha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ah! Como eu amava o italiano, &lt;br /&gt;E como admirava a brava Anita!&lt;br /&gt;Por eles fui lá atrás por mais de ano...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todavia em flashes de memória &lt;br /&gt;Me avisto junto a ele e a favorita, &lt;br /&gt;A contar ao par mais de uma estória...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Eterno Retorno (II) (de Alma Welt)&lt;br /&gt;498&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não digo adeus às coisas tão amadas&lt;br /&gt;Que me acompanharam nesta vida,&lt;br /&gt;Como o canto das aves nas ramadas&lt;br /&gt;Ou as cores que me põem embevecida&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dos poentes que me fazem ver o além&lt;br /&gt;E descortinam a glória que teremos,&lt;br /&gt;Quando não diremos mais “amém”,&lt;br /&gt;Mas seremos já o que nós vemos,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Integrados no Mundo e no Devir,&lt;br /&gt;Sóis, espaço-tempo, eternidade,&lt;br /&gt;Ou só um cometa em sua saudade&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na viagem solitária, extrema em si,&lt;br /&gt;Durante a longa jornada a se esvair, &lt;br /&gt;Para voltar ao lar, que é mesmo aqui... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;08/01/2007&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Stradivarius (de Alma Welt)&lt;br /&gt;497&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Conquanto nascida pra escrever,&lt;br /&gt;Sei que não serei bem compreendida&lt;br /&gt;Pois sonetos somente pra entreter&lt;br /&gt;Não terá sido meu propósito de vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas subir bem alto em pensamento&lt;br /&gt;E entregar-me à ardência da paixão&lt;br /&gt;Por tudo o que é vivo em andamento,&lt;br /&gt;Sabendo que voltamos para o chão&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como semente de um sonho usufruído&lt;br /&gt;Lançando fundas raízes na memória&lt;br /&gt;E lutando contra as trevas e o olvido,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eis a meta, meu escopo, meu destino,&lt;br /&gt;Mais do que um soprano, um violino,&lt;br /&gt;Stradivarius de mim, e minha glória...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;14/01/2007&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"O Tempo e o Vento" (de Alma Welt)&lt;br /&gt;(para Érico Veríssimo, in memoriam)&lt;br /&gt;496&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para expressar o pampa, a minha terra,&lt;br /&gt;Raízes fundas lancei de umbu-pampeiro,&lt;br /&gt;Aquele grande da colina, sobranceiro,&lt;br /&gt;(que nada mais me ceifa ou me desterra)...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu e a terra temos laços, somos um&lt;br /&gt;E a planura se reflete em minha mirada&lt;br /&gt;A buscar no horizonte como um zoom&lt;br /&gt;A razão de ser poeta e... desvairada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas tudo que me cerca está lançado&lt;br /&gt;Num livro de registros imanente&lt;br /&gt;De sonetos como flores do meu prado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E se chegar um tempo sem memória,&lt;br /&gt;Estarei plana e vasta em minha mente,&lt;br /&gt;E o minuano há de contar a minha estória...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Usurpadora (de Alma Welt)&lt;br /&gt;495&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Após a queda, retorno ao casarão,&lt;br /&gt;Que andara pelo mundo, peregrina &lt;br /&gt;Em busca de algo numa esquina&lt;br /&gt;Que mesmo aqui estava, neste chão. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De meu feudo a Morte me expulsara,&lt;br /&gt;Não me queria aqui sem o meu Vati.&lt;br /&gt;Da Infanta destronada se livrara,&lt;br /&gt;Que me tornara amarga como o mate...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Usurpadora lágrimas não quer,&lt;br /&gt;Um pé lá, outro na vida, qual anfíbia,&lt;br /&gt;Mas na macabra orgia é só mulher,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Devassa, sinistra e falsa amável,&lt;br /&gt;A vi tocar um violino numa tíbia&lt;br /&gt;Na sala do defunto inigualável...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;10/06/2005&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A queda livre (de Alma Welt)&lt;br /&gt;494&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A montanha subi nada hesitante,&lt;br /&gt;Eu, que venho da terra da planura&lt;br /&gt;E ali tenho a vertigem do rasante&lt;br /&gt;E corro numa espécie de loucura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nos prados quero alçar-me e voar &lt;br /&gt;Com o pampeiro e seus abismos&lt;br /&gt;De horizonte e seus ocultos sismos&lt;br /&gt;Que são despenhadeiros do olhar...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E me vi subindo alto, muito alto,&lt;br /&gt;Rumo ao pensamento sempre virgem,&lt;br /&gt;À era em que começou meu salto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois sinto-me viver em despedida,&lt;br /&gt;Espírito que almeja sua origem&lt;br /&gt;Na grande queda livre que é a vida...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;25/08/2004 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Sangue do Poeta (de Alma Welt)&lt;br /&gt;493&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando guria um tonel eu vi jorrar&lt;br /&gt;De vinho pela relva em catadupas&lt;br /&gt;Quando um peão com outras culpas,&lt;br /&gt;Com o machado rachou-o a gritar:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eis de volta o sangue desta terra!&lt;br /&gt;E logo, igualmente, o meu, verão.&lt;br /&gt;Mas antes verterei de um que aberra&lt;br /&gt;E não merece o amargo que lhe dão!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E naquela tarde houve o embate&lt;br /&gt;Na sinistra Colina do Enforcado &lt;br /&gt;Mais regada de sangue que de mate.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E eu, que tudo em volta absorvia,&lt;br /&gt;Jurei jorrar por conta do meu fado,&lt;br /&gt;Meu sangue pela vida e a Poesia... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem data)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Penélope do Pampa (de Alma Welt)&lt;br /&gt;492&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nos meus olhos lágrimas faltando,&lt;br /&gt;Lanço mão da fonte da memória&lt;br /&gt;Que me põe as imagens desfilando &lt;br /&gt;De tempos mais felizes e de glória&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Neste mesmo jardim onde eu colhia&lt;br /&gt;Flores para os risos de outra era&lt;br /&gt;Quando a vagar alegre eu antevia&lt;br /&gt;Abraços ao final da minha espera.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E era o mesmo amor, mas tão puro&lt;br /&gt;Que julgava pertencer ao paraíso, &lt;br /&gt;Alheia às nuvens densas do juízo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que logrei adiar até que ouvisses&lt;br /&gt;Falsos cantos atrás do verde muro&lt;br /&gt;Que haveria de levar o meu Ulisses...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nota&lt;br /&gt;Acabei de encontrar na Arca este sugestivo soneto, que a meu ver poderia também se entitular Penélope do Pôquer, uma vez que nitidamente se refere à infância do amor de Alma e Rodo, quando a espera entre eles era curta e somente de expectativas breves de seguidos reencontros. Mais tarde viriam os "falsos cantos" (das sereias da fortuna) atrás do "muro verde" (as mesas de jogo) da Tróia do pôquer, que haveria de afastar por longas temporadas nosso irmão de sua amada Alma em esperas mais longas e agoniadas. (Lucia Welt)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estaremos (de Alma Welt)&lt;br /&gt;491&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estaremos por aqui na derrocada,&lt;br /&gt;Percorrendo o arrui
